LIÇÕES DO EMPREENDEDORISMO CAPIXABA 

João Gualberto e Hélio Gualberto

As sociedades que vivemos cristalizam seus valores por meio de símbolos. Mais do que isso, quando não fazem essa passagem, elas correm o risco de terem interpretações erradas das suas próprias histórias e perderem elementos importantes da sua identidade. 

O empreendedorismo capixaba é assim. Muito antes de se tornar um assunto atrativo para os mais jovens, o Espírito Santo mostrou extraordinária capacidade empreendedora, sobretudo de sua trajetória histórica, muitas vezes não reconhecida pela maioria de nós. 

Para expor esse ponto de vista aos leitores, vamos dividir essa capacidade empreendedora em 3 momentos: 

O primeiro momento empreendedor:  a chegada dos jesuítas 

Todos sabemos que o processo de colonização é um ato de forte agressão às populações nativas, aos povos originários. Com os portugueses não foi diferente. Nunca levaram os indígenas em conta no seu projeto. Seriam cristianizados e trabalhariam em regime de servidão. Na verdade, foram massivamente escravizados desde os primeiros tempos da colonização. Mas não existiria o Império Lusitano sem a presença da Companhia de Jesus, dos jesuítas. Foi o braço religioso do projeto, uma tendência da Igreja Católica de vencer a vida monástica medieval, uma ordem mais ativa no mundo, sobretudo na missão de conquista das novas terras e da conversão dos ímpios. 

Os jesuítas chegaram ao Espírito Santo na metade do século XVI e construíram aqui seu colégio, como faziam em todas as suas províncias. A edificação onde se situa hoje o Palácio Anchieta foi a sede do seminário dos jesuítas. Quando então foram expulsos em 1759, passou a ser a sede do poder na então Colônia, o Palácio Governamental. Função que nunca mais deixou de exercer. Foi durante muitos séculos a maior e mais importante edificação civil do nosso estado. 

Para manter os alunos que estudavam no colégio, os jesuítas mantiveram aqui várias fazendas importantes. A Muribeca onde é hoje o município de Presidente Kennedy, a Araçatiba em Viana e a Itapoca em Carapina na Serra, são sempre citadas. As duas primeiras eram enormes e muito produtivas. Foram consideradas pelos historiadores as maiores fazendas do litoral brasileiro no século XVI. Dedicavam-se à pesca, à criação de gado, ao plantio da cana de açúcar. Produziram tanto excedente econômico que deixaram um extenso patrimônio arquitetônico, igrejas importantes. 

A mais importante das igrejas, hoje, é o Santuário Nacional de São José de Anchieta, recentemente restaurado e transformado em importante museu. Ele evidencia a potência de nosso passado colonial, a força dos jesuítas. A Igreja dos Reis Magos em Nova Almeida, na Serra, e a igreja de Nossa Senhora da Ajuda em Araçatiba passam pelo mesmo processo. 

Igreja dos Reis Magos em Nova Almeida, Serra / Foto: Elisa Machado Taveira

Com a produtividade que havia naquele período de nossa colonização pelos europeus, só mesmo grandes propriedades, muito bem exploradas economicamente, tinham o poder de gerar tantas riquezas. Eram milhares de cabeças de gado, enorme quantidade de pés de cana e ainda uma multidão de trabalhadores, boa parte escravizados. Essa é a maior marca do empreendedorismo histórico capixaba no período colonial. 

Segundo momento: O Café e o Brasil Império 

Durante as primeiras décadas do século XIX, nosso primeiro momento como uma nação independente. A grande força empreendedora capixaba é o café. 

Tocadas pela presença dos imigrantes europeus, sobretudo os italianos, e por esse motivo, sem uma intensa passagem pelo abjeto sistema da escravidão. A produção de café no Espírito Santo dominou nossa agricultura. Espalhou-se por todo o Vale do Rio Itapemirim e do Itabapoana e deram origem a um período de construção do sul do estado como está hoje. 

Panorâmica da comunidade de Prosperidade, Vargem Alta (ES) por volta da década de 1940. Foto: Arquivo Público do Estado do ES

O fato é que entramos no período republicano com um estado comparável aos grandes estados brasileiros como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. O café era nossa grande riqueza, Cachoeiro do Itapemirim a cidade polo de toda essa região. Ferrovias, luz elétrica, cinemas, hábitos sofisticados das elites e dos coronéis, fizeram do Espírito Santo um estado importante, apesar de sua diminuta dimensão geográfica. Isso sem contar com a força das colônias de imigrantes da região central, também grandes produtores de café. A pequena propriedade de italianos e alemães faz parte desse grande passado empreendedor do qual muito deveríamos nos orgulhar. 

Estávamos naquele tempo, à altura do desenvolvimento brasileiro à época, inclusive do ponto de vista da produção das elites, como atestam os governos republicanos de Jerônimo Monteiro e Florentino Avidos, por exemplo. O fim do ciclo do café, na segunda metade do século XX, foi muito tenso. Houve a erradicação dos cafezais, nossa única riqueza. Entramos então no período dos militares. 

Terceiro momento: A industrialização e a passagem para a modernidade 

Os governos do Christiano Dias Lopes e Arthur Gerhardt Santos iniciaram nosso processo de industrialização. O primeiro com uma proposta agroindustrial, de agregar valor as cadeias produtivas agrícolas. Daí surgiram projetos como a Realcafé Solúvel e tantos outros. Também foi criado o Civit, que atraiu inúmeras empresas a partir de uma política de incentivos fiscais bem construída. Tivemos bons governos e criamos uma boa ambiência de negócios para a época. 

Francisco Lacerda de Aguiar (Chiquinho) Retrato Oficial como Governador do ES

Depois vieram os chamados grandes projetos que eram a CST, a Samarco, a Aracruz Celulose e as operações da Vale pelo Porto de Tubarão. Eles criaram importante cadeia produtiva metal mecânica, que é hoje o coração de nossa economia. 

Estamos aqui falando de história. Da força de nosso passado empreendedor. Mas, não temos apenas glórias do passado a festejar. Continuamos sendo um centro empreendedor. 

Vivemos um tempo em que empreender está em alta. Frente a um século XXI de grandes transformações como o uso da tecnologia, a consciência verde, o fim das fronteiras e quando ser dono de um negócio tornou-se viável mesmo sem contar com uma estrutura física ou funcionários. 

Aqueles que foram jovens entre os anos 1950 e 1980, escutaram pelo menos uma vez em suas vidas aquele conselho dos parentes ou amigos preocupados que diziam para “arrumar um emprego no Banco do Brasil”. As gerações que cresceram entre os anos 1990 e 2000 viram a fase dos concursos públicos explodirem. Hoje, já não se pensa mais assim. 

Por isso, passa a ser fundamental tornar nossos argumentos mais acessíveis à compreensão de todos, mesmo aqueles que não tiveram a oportunidade de estudar a nossa história, aliás a grande maioria. Afinal, acreditamos que esses momentos marcantes são provas inequívocas de nosso argumento. E mais do que isso, de que o empreendedorismo é um dos pilares da identidade regional do capixaba. 

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