A direita no 2º turno capixaba

Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

Renato Casagrande e Carlos Manato.

O segundo turno no Espírito Santo sempre esteve no nosso radar. Tanto é assim que no dia 31 de agosto último, publicamos aqui na coluna do ESHOJE um artigo intitulado de “O Segundo Turno Capixaba”. Nele, argumentamos que o surgimento de uma identidade coletiva de direita no Brasil tendia a aumentar em muito as definições de voto nesse segmento ideológico. E mais, que essa inflexão conservadora seria a grande marca do atual processo eleitoral. Agregamos ainda o fato de que parte considerável dessa direita conservadora está sendo formada pelo segmento evangélico, que vota segundo princípios bem rigorosos. Em artigos posteriores desenvolvemos mais a questão do voto evangélico e da sociologia de sua constituição. Esse eleitor engrossou as fileiras conservadoras.

Lembramos que os brasileiros decidem seus votos cada vez mais tarde, e que esse voto tardio tenderia a aumentar o peso da direita entre os eleitos, já que ela vem sendo a força política mais organizada e coesa. É evidente que a direita se articula em torno do presidente Bolsonaro, e que ele seria o personagem central das eleições também entre os capixabas. 

Porém, o fenômeno é muito mais denso do que a liderança de Jair Bolsonaro, e deve-se em grande parte graças à força das redes sociais. Aliás, o lugar da política, para esse público conservador, são as redes sociais, assim o mundo político é acessado através do seu celular. Esse eleitor organizado de forma conservadora, com muito acesso a informações e de decisão tardia seria o fator mais importante na reta final das eleições. Havia, portanto, muitos elementos que possibilitaram uma análise dos fatos.

Crucial para mostrarmos a tendência do segundo turno capixaba é que as pesquisas a que tivemos acesso mostravam claramente um forte nível de indecisão para o voto ao governo do estado. O governador Renato Casagrande apesar de ter sido o líder das pesquisas por todo o tempo, nunca foi um campeão de votos incontestes. Ele é um personagem afável e simpático, faz um governo sem marcas de corrupção, com bom controle das finanças, mas não vinha encantando o seu público. Os brasileiros estão gostando dos discursos musculosos. Na pesquisa realizada pelo instituto Perfil e publicada aqui no ESHOJE no fim de agosto mostrou o governador com 33% das intenções estimuladas de votos, enquanto os seus concorrentes tinham somado 40% dos votos. Todos os sinais que podíamos captar mostravam que o segundo turno era uma possibilidade real.

O fato novo e mais importante dos últimos dias da campanha é que não foi a soma dos concorrentes fragmentados de Casagrande que produziu o segundo turno. Foi o crescimento expressivo de Carlos Manato, na reta final, que determinou, de fato, o resultado. Essa força que catapultou Manato foi o bolsonarismo. Ele se transformou no candidato dos que votaram fechados no grupo conservador. Bolsonaro, Magno Malta, Manato e os parlamentares agregados a esse grupo. Foi essa a razão do crescimento de Gilvan da Federal e do Tenente Assis para a Câmara dos Deputados e do Capitão Assumção para a Assembleia Legislativa. Todos com expressiva votação. Como reação, a identidade da esquerda também se fortaleceu. Helder Salomão do PT foi o campeão de votos para deputado federal e João Coser e Camila Valadão também tiveram votações recordes.

Agora começa a campanha do segundo turno. O começo beneficia muito o candidato Manato, pelo elemento surpresa de sua grande votação. Sai como vencedor da primeira rodada, embora o governador tenha tido mais votos. Não acreditamos que o segundo turno seja outra eleição, como gostam de dizer os brasileiros. Os elementos mais importantes já estão colocados na trajetória dos candidatos. Porém, o enfrentamento direto o tempo todo, com igual tempo de televisão é o diferencial. Desse embate nasce o vencedor. Renato Casagrande é muito experiente e racional, Manato mais impetuoso. Vamos esperar o início da campanha, a primeira semana de propaganda na televisão, no rádio, nas ruas e nas redes sociais para avaliar os movimentos dos candidatos nos próximos artigos. 

Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 05 de outubro de 2022.

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2 respostas a “A direita no 2º turno capixaba”

  1. Avatar de Michel
    Michel

    Impressionante esse recrudescimento da direita brasileiro. Sem dúvidas, um fenômeno digno de pesquisas históricas.

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