• A fazenda Morro das Palmas

    Livro resgata a história da Fazenda Morro das Palmas, da imigração italiana ao poder econômico que moldou o Espírito Santo.

    O escritor capixaba Geremias Pignaton é autor de um livro muito interessante sobre a história do desenvolvimento de sua região de origem, lá onde estão hoje municípios como Ibiraçu, Fundão, João Neiva, Aracruz. Ela narra a história a partir da existência da Fazenda Morro das Palmas. Para ele, como registra no texto, a fazenda foi sede da primeira tentativa de se iniciar uma colônia de imigrantes italianos no Brasil. Lá, em 1874, Pietro Tabacchi, seu proprietário, tentou instalar a colônia Nova Trento nos confins de suas imensas terras, nas proximidades de onde hoje é a cidade de Fundão, empreitada que foi destinada ao fracasso.

    Com fim da escravidão, era preciso renovar a força de trabalho pensavam os fazendeiros. Os italianos vieram para serem proprietários de pequenas glebas de terra ou trabalhar em fazendas. Também houve um processo de dividir as fazendas e vender porções de terra para serem pagas a longo prazo para imigrantes. Isso transformava os antigos proprietários de grandes fazendas em compradores do café, produzido por uma multidão de pequenos produtores. Passavam assim a comandar uma extensa rede de interesses comerciais na cadeia produtiva do café, que era o carro chefe da economia do Espírito Santo nessa época.

    O mesmo acabou acontecendo, por exemplo, na Fazenda do Centro, no hoje município de Castelo, mas também em grandes porções de terra em Iconha. Cada um desses municípios gerou grandes coronéis como o Coronel Duarte, em Iconha. Aliás, esse é um dos elementos mais centrais no coronelismo capixaba: a existência de pequenos produtores imigrantes organizados em redes comerciais por fazendeiros já instalados e próximos ao poder.

    É bom lembrar que não apenas a propriedade da terra determina a produção social de um coronel, o que conta de verdade é o controle de uma extensa rede de favores. O controle da compra da produção de pequenos proprietários permitiu a existência dessas extensas redes de favorecimentos e ajuda no dia a dia. O homem pobre não tinha acesso a quase nada nesse período: saúde, educação, finciamentos.

    No caso específico da Fazenda Morro das Palmas, o empreendimento de Pietro Tabacchi não prosperou, e isso tem a ver com as condições próprias de negócio que ele criou. Segundo as informações organizadas por Geremias Pignaton, as promessas feitas aos italianos não foram cumpridas, as condições de sobrevivência eram precárias e os recém-chegados revoltaram-se.

    Nesse contexto acabaram partindo em busca de novos horizontes, indo em sua maioria para um outro empreendimento da colonização italiana em nossas terras, a colônia Santa Leopoldina. Essa experiência pioneira fracassada acabou por produzir, nesse deslocamento de pessoas insatisfeita, o surgimento da cidade de Santa Tereza, um fato importante e que merece um texto só para tratar desse feito.

    No entanto, não foi só esse grande empreendimento que foi desenvolvido na Fazenda Morro das Palmas. Anos mais tarde, já na década de 1890, o seu novo proprietário o influente militar, político e homem de negócios, Aristides Guaraná, instalou nela uma grande usina de produção de açúcar, uma das maiores do Brasil na época: O Engenho Guaraná. Em uma história pouco conhecida da maioria dos capixabas, tivemos o protagonismo de um militar que atuou na Guerra do Paraguai, onde, inclusive, perdeu um dos braços. Tinha por isso, muito prestígio junto a família imperial, especialmente com o Conde d’Eu. Prestigio que se estendeu ao início da república, em função de sua relação de amizade com o presidente Deodoro, seu amigo desde os campos da Guerra do Paraguai.

    O Dr. Guaraná, ele era também engenheiro, é descrito na obra como um escravocrata radical e perverso, sendo responsável por vários atos de selvageria contra os que trabalhavam de forma forçada em suas terras, e chegou a ser deputado provincial com a bandeira da continuidade da escravidão. Em função de relações e influência conseguiu levantar um grande empréstimo para implantar a dois quilômetros de distância da Fazenda Morro das Palmas um enorme engenho de açúcar, que batizou de Engenho Central Guaraná, que começou a ser implantado em 1890. A inauguração oficial se deu em 1900. Esse empreendimento industrial que seria um dos mais importantes na época no Brasil, fracassou totalmente.

    De tudo isso restaram ruínas e o nome de um distrito do município de Aracruz, situado às margens da BR101. O resgate dessa história exigiu pesquisa, esforço e dedicação de Geremias Pignaton, que são suficientes para saudarmos com alegria a escrita histórica desse importante trabalho. Recomendo sua leitura e o conhecimento de fatos tão relevantes da nossa trajetória histórica.

  • Uma história do amor

    Do cotidiano à literatura, o olhar sobre hábitos, afetos e relações revela como se formaram costumes e amores no Brasil ao longo do tempo.

    Há tradição na historiografia francesa de estudar aquilo que podemos aqui chamar – sem muitas preocupações em discutir de forma mais rigorosa classificações – de história do cotidiano. Nela, ao contrário de grandes narrativas épicas, cheias de heroísmo e valentia, estuda-se o dia a dia das sociedades, suas manifestações mais corriqueiras e, através delas, como se forjaram hábitos e costumes na construção de seu imaginário social.

    Também podemos chamar essa corrente de micro-história, embora eu não goste muito do termo, seguindo a mesma lógica de estudar eventos, indivíduos ou comunidades em pequena escala para entender fenômenos sociais mais amplos, focando em detalhes, subjetividades e práticas cotidianas, em contraste com as narrativas grandiosas da história tradicional, que a maioria de nós certamente estudou nas escolas. A Escola dos Annales, uma corrente presente na academia na França, prestou grandes contribuições a esses estudos, assim como o historiador italiano Carlo Ginzburg com o seu clássico O Queijo e os Vermes.

    Para citar um outro exemplo dessa produção historiográfica que me parece importante, lembro o excelente O Limpo e o Sujo: uma história da higiene corporal, de Georges Vigarello, publicado originalmente em francês com o título de Le Prope et le Sale, em 1985. Nele, é bem explorada a história dos banhos no mundo ocidental, e particularmente na França, sobre a higiene e os hábitos em torno desse fenômeno desde o tempo em que se tomava apenas um banho por ano, na idade média. Muito pode ser desvendado de uma sociedade ao se debruçar sobre temas simples como a cama onde se dorme, as vestimentas ou a alimentação, embora a maioria de nós dê pouca atenção a tudo isso.

    Lembrei-me desses temas quando reli recentemente um clássico da literatura brasileira: O Cortiço, de Aluísio Azevedo, uma grande expressão do chamado naturalismo brasileiro, publicado originalmente em 1890, portanto no alvorecer da nossa república. Segundo a própria apresentação da edição que li da obra, trata-se de um romance que denuncia as mazelas sociais enfrentadas pelos moradores de um cortiço e pelas pessoas ligadas a ele no Rio de Janeiro durante o século XIX. João Romão, Bertoleza, Pombinha, Rita Baiana, Piedade e Jerônimo são os principais personagens, cujos cotidianos são descritos, cujas vidas são mostradas de forma dura, cruel. Nada escapou à percepção crítica do autor.

    Esses cortiços eram habitações populares onde se amontoavam as famílias de pequeno poder aquisitivo, em condições higiênicas precárias, sem privacidade alguma e vivendo em constantes conflitos derivados dessas mesmas condições. O objetivo desse gênero literário, na esteira do sucesso europeu, sobretudo de Émile Zola, era justamente denunciar a nossa dura realidade, contribuindo para criar a consciência da necessidade de superá-la. Entretanto, a leitura nos permite outras interpretações da vida cotidiana brasileira há mais de um século.

    Chama a atenção como em um espaço de habitação popular os casais são apresentados, mostrando uma espécie de história das relações entre casais no Brasil. Há duas moradias de membros das elites: a do dono do cortiço e a de seu vizinho, dono de uma casa tipicamente burguesa. Nessa habitam a mulher do proprietário, que o trai constantemente, e também sua filha, Zulmira. Apesar das traições existem interesses no casamento no plano financeiro, pois ela é que vem de uma família afortunada. Se o casamento se rompesse, ele tudo perderia. Quanto à filha, ela acaba sendo cobiçada pelo dono do cortiço, como forma de ascensão social, de melhorar a sua imagem na sociedade.

    A fortuna, assim, compromete os laços afetivos, que ficam sujeitos a interesses, enquanto o verdadeiro jogo de sedução está entre os moradores do cortiço. Lá impera uma sexualidade mais livre, menos sujeita a outros interesses. A mulher pobre e proletária, entretanto, é muito prisioneira de um modelo de amor mais submisso, onde o seu homem pode mais do que ela, onde as traições femininas são tratadas com brutalidade e também submissão.

    Comparando o cotidiano dos relacionamentos urbanos entre o Brasil contemporâneo e aquele do final do século XIX, vemos como a noção de amor cresceu na direção da autonomia, da mais ampla liberdade de escolha a cada um de nós. É interessante pensar como há uma trajetória histórica do amor no Brasil, fortemente impactada pelo movimento de construção das mulheres em busca de liberdade e felicidade, mesmo que não inteiramente compreendido por todos os homens. A luta cotidiana das mulheres por liberdade, afinal, é uma das grandes conquistas do século XX.

  • Doutrina do engrossamento

    Publicado originalmente em 1901, a edição que me chegou às mãos – cedida gentilmente pelo escritor Pedro J. Nunes – é de 2016.

    O título do artigo é o mesmo de um livro muito importante na crítica política brasileira. Publicado originalmente em 1901, a edição que me chegou às mãos – cedida gentilmente pelo escritor Pedro J. Nunes – é de 2016, da Editora do Ifes, organizada por Raoni Huapaya. O autor da obra é Graciano Neves, importante político capixaba do período do início da republica, tendo sido presidente do Espírito Santo eleito em 1896, em sucessão à Muniz Freire.

    Graciano Neves era médico e jornalista, um intelectual de olhar crítico, com raízes no positivismo e leitor atento do marxismo, dizem os seus estudiosos. Foi redator-chefe de O Norte do Espírito Santo, jornal editado, em São Mateus. Pertencia aos quadros do Partido Construtor, que era comandado por Muniz Freire, um grande líder capixaba na primeira república, e foi nosso grande oligarca no seu período inicial.

    Como editor do Norte do Espírito Santo, foi crítico voraz do despotismo estabelecido pelo Marechal Deodoro da Fonseca – a quem chamava “tirano vulgar” – e o atacou duramente quando dissolveu o Congresso. Na presidência de Floriano Peixoto, contando ainda 23 anos, obteve rápida ascensão política quando foi indicado como parte da Junta Governativa do Estado, do fim de 1891 a 1892. Mais tarde, foi eleito presidente do Estado, tendo sido empossado em 23 de maio de 1896. Assumindo em meio a grave crise econômica e política, realizou vários cortes orçamentários e interrompeu investimentos iniciados por Muniz Freire, seu antecessor e correligionário, criando sérios problemas no seu grupo político. A instabilidade gerada, levou-o à renúncia em setembro de 1897. Em 1906, foi eleito deputado federal.

    Foi, portanto, um ator político de primeira linha na política brasileira, conheceu, certamente os bastidores daqueles primeiros tempos. O elitismo da república dos coronéis não permitia forte controle social da governança pública. As grandes ações eram combinadas com antecedência entre os poderosos e os ritos democráticos tinham grande dose teatral. Foi esse o ambiente que ele criticou de forma brilhante em Doutrina do Engrossamento, expressão que ele usa como sinônimo de puxa-saquismo, de uma bajulação subserviente que toma conta do poder no Brasil. Até hoje.

    São palavras dele no texto: O que há de curioso e digno de sérios estudos nessa transição da rebeldia para a obediência, da guerra para a paz, é o processo infinitamente judicioso dos políticos profissionais para consolidar a Ordem sem prejuízos dos interesses particulares: – partilhar as comodidades oficiais, extorquindo-as com ternuras sábias, já que não é possível alcançá-las por meio da violência, nem tampouco pelos pronunciamentos eleitorais. A essa descoberta feliz e admiravelmente oportuna a voz pública afixou o nome de Engrossamento.

    Continuo a transcrever: Engrossamento quer dizer na significacão moderna uma delicada e inteligente espécie de adulação, uma fina combinação de servilismo, hipocrisia e egoísmo, alguma coisa enfim de eminentemente salutar para os interesses do indivíduo e da sociedade. Na acepção antiga Engrossamento é aumentação de volume, alargamento de dimensões, o que se pode traduzir em robustecimento … Assim, que os indivíduos perturbadores, os políticos profissionais, compenetraram-se da ineficácia da oposição para ganhar o poder – passaram logo a aderir ao governo, dando-se aliás perfeitamente com essa simpática palinódia, o que decidiu a maioria dos ambiciosos a adotá-la como processo mais fácil de sucessão governamental.

    O tratado bem-humorado de Graciano Neves não para aí, traça um perfil de como deve-se comportar um jovem que deseja vencer entre a elites brasileiras, tem muita ironia misturada com verdades. A genialidade do texto do nosso ex-presidente Graciano Neves está na sua visão de um estilo de ação que se transformou em elemento da nossa cultura política, que se reproduz até hoje. Quando os militares chegaram ao poder em 1964, vimos esse engrossamento. Também o vemos vastamente quando um novo governador chega ao poder, mesmo aqui no Espírito Santo, seus partidos engordam muito. Para darmos um último exemplo da doutrina do engrossamento, vamos nos lembrar como brotaram no nada direitistas fanáticos quando Jair Bolsonaro chegou ao poder, ou seja, mesmo em processos ditos disruptivos lá está a nossa cultura da acomodação, conciliação e puxa-saquismo.

    A adesão oportunista ao poder faz parte dos traços políticos da nossa sociedade, o mesmo traço que impede que os partidos ganhem densidade programático, porque quando um deles chega ao poder, esvazia outros discursos e faz da bajulação e das imensas tentativas de agradar os poderosos, elementos marcantes do nosso dia a dia. Acredito que só a maturidade política da nossa sociedade vai nos livrar desses elementos.

  • A Capitoa

    Romance de Bernadette Lyra revisita a colonização do Espírito Santo pelo olhar das mulheres.

    A Capitoa é um romance escrito por Bernadette Lyra, autora de prestígio nacional, dona de uma vasta obra. Nascida em Conceição da Barra, ela dedica um outro livro, chamado Água Salobra, às memórias de sua infância e juventude naquela pequena cidade, vividas antes que as rodovias a ligassem ao resto do Espírito Santo e do Brasil. Chegava-se ali no lombo dos burros e cavalos ou através das embarcações que levavam gente e mercadorias, ansiosamente esperadas pela cidade toda.

    São de uma enorme delicadeza as memórias narradas em Água Salobra. Elas contam sua relação com o seu meio social e com a prodigiosa natureza que a cercava: o mar, os pássaros, o rio Cricaré. Mostram também como se organizava sua família, aliás, a maioria das famílias daqueles tempos, que eram mais lentos, mais restritos em termos de possibilidades sociais, portanto mais simples, em todos os sentidos. No texto de Bernadette tudo se revela menos estressante. Quando criança, os adultos que a cercavam viviam em um universo mais mágico, perfumado a sal e povoado de beijus, de peixes, de sargaços, de estrelas celestes e de algas marinhas, como ela registra na crônica As Damas, que faz parte do livro.

    Entretanto, o livro que dá título a esta coluna, A Capitoa, nada tem a ver com esse universo infantil mais romantizado; ele expressa um outro olhar da autora. Trata das histórias de vida de três mulheres que deixam seu país, no continente europeu, para virem morar na Capitania do Espírito Santo, no alvorecer da conquista da terra e dos povos pelos lusitanos. São elas Ana, Luíza e Antônia, que cruzam o oceano para participarem dessa enorme aventura junto a fidalgos, degredados, piratas, frades, noviços, bastardos, desorelhados, prostitutas e órfãs enviadas pelo reino. A três são respectivamente a mãe, a mulher e a amante do Capitão-Mor Vasco Coutinho, filho do nosso primeiro donatário.

    Com a morte do segundo donatário, sua esposa, Luíza Grinalda, a Capitoa, passou a governar a capitania, em 1589, por ser sua viúva e o casal não ter gerado filhos. Ela governou durante quatro anos, apesar da legislação não permitir uma mulher no poder naquela época.
    Aliás, essa é a força da ficção de Bernadette. A verdadeira viagem que o livro permite ao seu leitor, pelo menos na minha visão, é justamente a da vida das mulheres naquela época. As teorias vigentes davam a ideia de que mulheres eram seres de segunda categoria. Todo um imaginário ainda imerso no mundo medieval português permitia essa visão, de modo incrivelmente perverso para o universo feminino.

    A começar pelo desprezo que se tinha pela Capitoa, pelo fato de ela nunca haver engravidado. Não havia a noção de amor, de romance ou mesmo de respeito como motor principal do casamento. Ele era movido sobretudo pela geração de filhos. Consequentemente, a mulher que não podia conceber, a “mulher seca” – como é dito no texto – não cumpria seu papel no mundo. A incapacidade de ser mãe era vista como obra satânica, como a possessão por um espírito maldito. Assim, a cada mês, a chegada da menstruação era o tormento de Luíza, que acabou se livrando das obrigações do casamento quando Vasco Coutinho encontrou Antônia, que se tornou sua amante, e teve com ela três filhos. Foi um alívio a alma atormentada de Luíza.

    Tudo em torno do mundo feminino na colônia compunha-se de solidão, desrespeito, violência e obrigações. Isso era muito acentuado pelo fato de as elites lusitanas enviarem para a colônia prostitutas, prisioneiras e outras pessoas tidas como pervertidas pela moral tacanha da época. Ser mulher significava ter o desprezo do mundo masculino, que era cercado de teorias propagadas pelo catolicismo popular português, as quais alimentavam essa ideia da inferioridade feminina, tão presente na obra. Luíza, vitimada por esse preconceito, foi afastada da gestão da capitania. Mesmo enquanto governou, foi secundada por um fidalgo que dividia com ela o poder e legitimava sua governança.

    As indígenas eram tratadas ainda com mais desprezo e falta de respeito, condições que eram agudizadas por suas origens e seu sangue. Tidas como selvagens, eram usadas como objetos sexuais pelos invasores, que, além de brutos e violentos, julgavam-se duplamente superiores. Não era fácil para elas a vida aqui naqueles tempos, situação que só fez piorar com a chegada da Inquisição do Santo Ofício na colônia. Aí as penas tornaram-se mais duras e o preconceito só fez enraizar-se cada vez mais.

    A ficção a partir da história, que nos faz a grande escritora capixaba, é de muita utilidade para entendermos o presente, afinal essa chaga histórica precisa ser superada.

    Temos todos uma dívida social com as mulheres que vivem e viveram no Brasil desde os tempos coloniais. A Capitoa é uma obra genial que trata desse aspecto fundamental da origem do imaginário social capixaba, além de estabelecer um diálogo interessante com Vilão Farto, de Renato Pacheco, e Capitão do Fim, de Luiz Guilherme Santos Neves. Ambos também tratam da vida do nosso primeiro donatário, de suas aventuras e desventuras em solo capixaba. Trata-se, portanto, de história e literatura andando de mãos dadas para nos ensinarem um pouco mais sobre nossas raízes imaginárias.

  • O tráfico de drogas no Brasil

    Discurso policial domina debate sobre drogas e ignora desigualdade, mercado internacional e o papel social do tráfico na sobrevivência das periferias.

    Acredito que a sociedade brasileira esteja banalizando muito a discussão sobre a questão das drogas, sobretudo o combate ao seu comércio, obviamente ilegal. Há alguns anos chegou a ser discutida a possibilidade da legalização das chamadas drogas leves, mas com o crescimento da extrema direita o que temos visto é a perda de densidade desse tipo de pauta, com o surgimento de uma perspectiva quase que exclusivamente policial ao seu combate. Aliás, temos assistindo a um recuo perigoso das nossas pautas de inclusão social, de uma forma geral, nos últimos anos. A luta agora é para não deixar essas questões regredirem demais no tempo, já que a pauta reacionária voltou com toda força.

    A matança realizada recentemente pela polícia militar do Rio de Janeiro e o apoio manifestado por grande parte da opinião pública brasileira mostra esse olhar policialesco do qual estou falando. Parece mesmo que ações desse calibre são esperadas pela maioria, diante da gravidade do que vem acontecendo, sobretudo entre os jovens mais pobres.

    Lembro-me sempre das reflexões fortes e bem construídas do sociólogo Michel Misse, capixaba de Cachoeiro recentemente falecido, acerca da territorialidade do combate ao comércio das drogas. Nessa guerra só morrem jovens pobres, em grande parte pretos, de bairros periféricos, como se os consumidores não estivessem na classe média alta, onde a polícia não está presente de forma ostensiva. A hipocrisia brasileira determina que esse mercado só tem vendedores – todos imersos na pobreza – mas não tem compradores, até porque não se organiza a busca de drogas onde muitos sabem que estão sendo consumidas. No Brasil só os pobres pagam a conta, e mais cedo ou mais tarde ela vem em forma de tiros, dos rivais ou da própria polícia.

    Muita coisa não chega claramente para essa discussão, hoje restrita ao tráfico, que alimenta fortemente a economia da miséria no Brasil, de forma perversa e preconceituosa. Os príncipes das famílias ricas, consumidores de todo tipo de drogas, parece que nada têm a ver com tudo isso. São parte da bolha inatingível da sociedade.

    Para trazer um novo elemento à nossa análise, o conceituado jornalista Elio Gaspari, em sua coluna nos jornais O Globo e Folha de São Paulo do último dia 7 de dezembro, informa que o mercado americano lucra vendendo armas ao crime e ajudando muito na lavagem de dinheiro, e que, apesar de toda a ação espetacular de seu governo, Trump não quer se meter nisso. Só por esse relato dá para notar que não é matando pessoas na periferia que se vai acabar com o tráfico. Ele tem enraizamentos muito mais densos no nosso tecido social, envolve mesmo dimensões do mercado internacional de armas.

    Estimulado por meu amigo, o jornalista José Caldas, li uma pesquisa do instituto Data Favela, chamada Raio X da Vida Real, em que foram entrevistados 4.000 traficantes em favelas e comunidades de 23 estados brasileiros. O estudo apontou que 6 a cada 10 deles dizem que sairiam do crime se tivessem uma oportunidade, sendo que abrir o próprio negócio foi a opção mais citada de alternativa ao crime. Metade afirma ser a questão financeira o principal impedimento para deixar a atividade criminal. Entretanto, o que mais chamou a minha atenção foi o fato de que 42% têm outra atividade profissional, sobretudo os chamados bicos.

    Isso me leva afirma que é excessivo o tratamento como bandidos simplesmente a esses trabalhadores do tráfico, como o discurso conservador gosta de afirmar. Não quero com isso afirmar dizer que não devemos ter repressão policial, o que não podemos é imaginar que esse é o caminho, no fundo, ele é muito mais complexo. Como eles exercem outras profissões, nos cruzamos com eles em nosso cotidiano, convivemos cordialmente com boa parte deles, portanto, não são pessoas perigosas a ponto de não poder circular, elas estão envolvidas no ilícito.

    Outro elemento importante é que o tráfico é fonte importante de renda nas favelas e periferias brasileiras. É um meio para enfrentar a fome e a miséria, que poderiam ser bem maiores sem ele. Portanto, não se trata de uma questão simples de ser combatida. O tráfico de drogas é uma fonte de fatos horrorosos, mas temos de reconhecer que ao mesmo tempo é uma alternativa de sobrevivência que faz parte do cotidiano deste país desigual chamado Brasil.

    A importância social do consumo de drogas – no alto e na base da pirâmide – é muito grande. Combater tudo isso exige muito mais do que ações teatrais de quem quer fazer populismo policial às custas dos que menos podem fazer para se defender. Exige que discutamos a abrangência desse fenômeno de sociedade, sem uma lenda de culpa e penalização.

  • Florentino Avidos

    Florentino Avidos deu continuidade ao antigo plano de centralização comercial em Vitória, estruturado em ferrovias, portos e economia.

    Leandro Quintão é um produtivo historiador capixaba. Mestre e doutor em história por nossa Universidade Federal, tem se dedicado de forma consiste a estudar a primeira república no Espírito Santo. Sua análise sobre a importância política de Muniz Freire, que foi presidente do estado por duas vezes (1892-1896 e 1900-1904) é primorosa e está presente em vários artigos de sua produção científica. Reunir dados e informações, construir análises e interpretações, já o fariam, só por essa razão, um dos nossos maiores estudiosos no campo da política.

    Ele tem nos brindado, em seus estudos mais recentes, com novas compreensões do passado recente, com um importante olhar sobre as ideias de construção do progresso em nossas terras, desde do “alevantamento provincial”, discutido na Assembleia no final do império, até o fim da primeira república. Não foi pouco o que fez Muniz Freire, o nosso primeiro grande líder republicano, e também não foi pequena a sua importância como chefe político de uma importante oligarquia regional, reunida no Partido Republicano Construtor. Esse partido só perdeu seu protagonismo na cena política capixaba com a ascensão do Partido Republicano Espírito-santense, criado pela oligarquia Monteiro, que viria a substituir a força de Muniz. Tudo isso fica mais fácil de entender lendo a obra de Leandro Quintão.

    Ele acaba de contribuir com a profundidade de sempre em uma publicação chamada O Espírito Santo no Novecentos (1889-1930), junto a outros importantes intelectuais ligados à área de história na Ufes, com o artigo intitulado Um estranho no ninho? Oligarquia e economia no governo: Florentino Avidos (1924-1928). Nele explora a discussão sobre os três principais governantes, aqueles que tiveram maior notoriedade no período, respectivamente Muniz Freire, Jerônimo Monteiro e Florentino Avidos.

    A notoriedade a eles atribuída por nossos estudiosos leva em conta as realizações que conduziram à frente do Governo Estadual, tais como estrada de ferro, indústrias, planejamento urbano – sobretudo da capital – e modernização portuária. Para além de meros ícones daquele período, essa tríade de personagens foi interpretada como pertencente a um grupo de governantes responsáveis por alavancar o progresso do Espírito Santo no século XX; Florentino, inclusive.

    As principais realizações da administração do Presidente Avidos, especialmente no campo econômico, segundo o autor, foram: melhoramentos urbanos, tendo como marco a construção da Avenida Central, hoje chamada de Jerônimo Monteiro, procurando seguir os padrões da avenida com o mesmo nome no Rio de Janeiro, inaugurada décadas antes; continuação das obras de aparelhamento do Porto de Vitória, interrompidas em 1914 e retomadas no governo anterior; planejamento e construção de estradas e pontes, facilitando a comunicação; planejamento de novas vias férreas; apoio à diversificação agrícola; estímulo ao povoamento e colonização de novas terras; e a proteção à produção cafeeira, via criação de um serviço de defesa do café estadual, de suma importância naquele momento.

    As realizações do Governo Avidos foram responsáveis, em grande parte, pela popularidade alcançada por Florentino ao término de seu mandato, em 1928, reforçando de forma clara o modelo de desenvolvimento capixaba, inteiramente baseado na produção do café. A sua gestão estava comprometida em reforçar a centralização das exportações pelo Porto de Vitória. O aparelhamento do porto era uma de suas maiores aspirações, pois tinha como objetivo garantir que tal centralização fosse assegurada. Para receber o café que chegaria em maior quantidade pela ferrovia, era preciso um porto moderno, com grandes armazéns e guindastes e com capacidade de receber navios de maior calado.

    Não é difícil supor que o protagonismo das estradas de ferro, no antigo plano de “alevantamento provincial”, era bem compreendido por Florentino Avidos. Dessa forma, a centralidade portuária da capital deveria ser combinada com a centralidade ferroviária, o que, em termos, já era realidade. Os principais troncos ferroviários que atravessavam o estado – a Estrada de Ferro Vitória a Minas e a Leopoldina Railway – iniciavam seu percurso ao lado da capital, mas, a seu ver, esse projeto precisava ser reforçado, o que foi objeto de seus planos.

    Em suma, Florentino Avidos deu continuidade ao antigo plano de centralização comercial em Vitória, estruturado em ferrovias, portos, economia cafeeira e estreitamento das comunicações com o Sul capixaba e com o Leste de Minas Gerais, fortalecendo o modelo econômico do café.

    Florentino, portanto, está entre os três grandes personagens da nossa história durante a primeira república, que era a dos coronéis, apoiada no cultivo do café. Mais do que isso, o Espírito Santo teve notáveis governantes que se ombreavam aos grandes políticos brasileiros no século XX. Há um outro presidente muito importante nesse mesmo período, espero a publicação de obra em fase de conclusão do notável biografo Romulo Felipe para voltar ao assunto.

  • A hora dos predadores

    Objetivo é o de mostrar que existe uma nova elite dirigente mundial dividida em dois segmentos importantes.

    Em seu novo livro publicado em 2025, título do presente artigo, Giuliano Da Empoli dá continuidade à análise iniciada em outra obra sua de enorme sucesso mundial, Os Engenheiros do Caos. Neste trabalho mais recente, ele expande a sua reflexão sobre o novo cenário político global e explora a convergência inquietante entre tecnologia, guerra e poder.

    Como bem registra o livro em sua contracapa, as democracias ocidentais foram seduzidas pelo que ele chama de oligarquias tecnológicas e autocratas carismáticos, que, de fato, as conduzem através do imenso poder das redes sociais. Ele vê tudo isso como uma enorme ameaça ao ambiente democrático e plural, com a construção de uma nova camada de oligarcas mundiais que detêm o controle da comunicação digital e que hoje tendem a governar o mundo. Um grupo extremamente reduzido para governar um universo de produção de riquezas e poder cada vez mais amplo.

    Em uma narrativa clara e bem construída – o livro é muito bem escrito, aproxima-se de um ensaio de corte histórico e filosófico – Da Empoli expõe como o uso da inteligência artificial, associada a ciberataques, manipulação de dados e guerra de narrativas está redesenhando os campos de batalha do século XXI. A força volta a prevalecer sobre o diálogo e a diplomacia. Para ele, o atual momento, a hora dos predadores, é, no fundo, um retorno à normalidade. Anomalia teria sido o breve período em que se acreditou no ocidente, em ser possível domar a busca sangrenta pelo poder por meio de um sistema de regras.

    Para o autor, todo o campo diplomático construído no século XXI, em especial depois da segunda grande guerra mundial, está perdendo espaço para personagens autoritários como Donald Trump, Nayib Bukele ou mesmo Jair Bolsonaro. Mais do que isso, esses personagens, em suas trajetórias tirânicas, estão usando sem qualquer princípio ético ou compromisso com a verdade as redes socais, agora potencializadas pela nova versão da Inteligência Artificial. O que dá densidade a tudo isso é o fato de o novo presidente dos EUA ter assumido um cortejo heterogêneo de autocratas sem escrúpulos, conquistadores de tecnologia, reacionários e conspiradores sempre ávidos por confrontos.

    O objetivo que me parece mais importante em A Hora dos Predadores é o de mostrar que existe uma nova elite dirigente mundial dividida em dois segmentos importantes: os tiranos políticos e os gestores das grandes corporações mundiais como a Meta, dona do Whatsapp, do Intagram e do Facebook. Os dados que o autor apresenta nos convencem facilmente de que isso é verdade.

    O que Da Empoli nos mostra é que, enquanto as competições políticas ocorriam no mundo real, nas praças públicas e nos meios de comunicação tradicionais, os costumes e as regras de cada país determinavam seus limites. Quando o debate público se transferiu para o ambiente digital, transformou-se numa espécie vale-tudo onde as únicas regras são as das plataformas utilizadas. Para ele, o destino das democracias ocidentais será cada vez mais decidido em uma espécie de Somália digital, uma escala planetária submetida às leis dos senhores das guerras digitais e de suas grandes milícias.

    Trazendo essas reflexões para o que assistimos no Brasil a partir das eleições de 2018, percebemos que, de fato, a política migrou para as redes sociais. Nesse ambiente é que se formaram as opiniões e ideologias, o apoio às diferentes propostas de poder, sempre em clima de enfrentamento e guerra cultural. Mesmo que essa guerra venha a nos cansar definitivamente, os donos das máquinas lutarão até o fim pela manutenção do poder.

    O enfrentamento recente do governo Trump com o STF brasileiro contém os elementos dessa disputa. Os novos oligarcas digitais não querem ter disciplinas nacionais, querem antes estar acima das leis de cada país, querem ditar as novas regras do jogo e querem, sobretudo, lucrar muito. Não por acaso estavam todos presentes na posse desse novo senhor do mundo e apoiam-se mutuamente de forma clara e transparente. Elon Musk chegou mesmo a ocupar um lugar claro de poder na estrutura estadunidense de governo. Dentro ou fora do governo o seu poder é imenso, e representa apenas uma amostra do que está acontecendo no mundo atualmente.

  • Tamara Lopes e Carmélia

    Tese analisa a modernização de Vitória e revisita a cidade por meio das crônicas de Carmélia Maria de Souza.

    Tamara Lopes Teixeira é autora de uma tese de doutorado em ciências sociais defendida na Universidade Federal do Espírito Santo há poucos meses. Arquiteta de formação, migrou para as ciências sociais ao realizar um belíssimo estudo sobre Vitória, sua trajetória histórica e, sobretudo, seu processo de construção como uma cidade de largas avenidas e arquitetura predominantemente eclética, no início do século XX. O trabalho da pesquisadora nos explica como fomos copiar de Viena o modelo fundamental que deu origem a nossa cidade presépio, toda organizada tendo como referência as cidades europeias que se destacam como as metrópoles do século XIX.

    O que Tamara descreve não é inédito; antes, pelo contrário, faz parte de uma tradição de produção no campo da história e da arquitetura: contar como nossas cidades nascidas no período colonial e, na maioria dos casos, ainda mais desenvolvidas durante a monarquia, com o enriquecimento que o café trouxe para a nossa região, fizeram a transição para um novo padrão urbano.

    O que é inédito no trabalho de Tamara é o lirismo, a forma delicada como trata seu tema. Quebrando a monótona lógica da produção de textos acadêmicos, ela mistura elementos como experiências vividas na construção do trabalho. Nele insere ainda uma espécie de diálogo teatralizado entre a própria pesquisadora e a grande cronista Carmélia Maria de Souza, num colóquio imaginário sobre a experiência de viver em Vitória naqueles sufocantes anos 1960 e 1970. As falas de uma de nossas maiores cronistas certamente foram tiradas de seus muitos escritos.

    Nos primeiros anos da república, cidades como o Rio de Janeiro e Campos dos Goytacazes – mais perto de nós – investiram em modernizações enraizadas em nossas elites, no esforço de melhorar as condições de higiene, criando e ampliando serviços de coleta, tratamento e distribuição de água encanada, esgotos, luz elétrica, bondes e outros melhoramentos, que tiveram grande impacto na vida de todos. As velhas ruas da cidade colonial foram, em muitos casos, destruídas e deram lugar a largas avenidas, praças e logradouros públicos erguidos a partir de modelos das grandes cidades europeias.

    Na tese Essa Ilha é Uma Delícia: entre o inconsciente urbano da modernidade na cidade de Vitória e as literatices de Carmélia Maria de Souza há um conjunto extenso de questões que conduziram os estudos e pesquisas a tensionar processos históricos, urbanísticos e sociológicos da modernidade capixaba, em diálogo com a psicanálise. O trabalho recorre, portanto, a várias áreas das chamadas ciências humanas para tentar compreender o que se passou aqui e como isso se refletiu nas pessoas.

    Diz autora, no resumo que introduz o trabalho: Nesse cruzamento entre teoria social e escuta psicanalítica de fenômenos sociais, observa-se que, em Vitória, a ideia de progresso, preconizada pela modernidade, não se concretizou como horizonte aberto de possibilidades: a sobreposição de experiências sobre expectativa dificultou a emergência de futuros desvinculados das tradições, dos mitos fundadores e do controle das elites regionais, ancorado no autoritarismo afetivo. É nesse contexto que a rua Duque de Caxias aparece, nas crônicas de Carmélia, como expressão do inconsciente urbano a céu aberto e uma metáfora da modernidade capixaba.

    Eu já andei refletindo sobre essa geração que Carmélia tão bem expressa. Eram os inconformados com os rumos que o Brasil seguia nos anos 1960 e 1970, que acabava por dar uma sobrevida ao provincianismo de comportamento moral de nossas elites, as quais só pensaram em modernidade em termos de novos aterros e avenidas ainda mais largas.

    Milson Henriques, Rubinho Gomes, Aprigio Lyrio, Amilton de Almeida, Serginho Egito fizeram o seu contraponto e deram ao burgo tradicional uma vida que antes deles não havia. Creio que, ao escolher os textos da grande cronista, Tamara fez bem, pois Carmélia é um espelho do seu tempo.

    Foi uma época dura, essa de Carmélia. Ao compará-la ao grande cronista João do Rio, Tamara Lopes faz uma menção que acerta em cheio na importância da cronista do povo, como foi chamada. Lembra-nos a todos da forma lírica, poética e desesperada como viveu intensamente sua curta vida, na inflexão entre o provincianismo e a metropolização. Ela nos mostra uma cidade que cresceu desumanizando e sem cuidar da essência de sua alma, à qual somente o tempo dará um novo contorno. Afinal, tempo é criação e nós estamos nos reinventando, assim como Carmélia fez no seu tempo, com grandeza e talento.

  • Redes sociais e bastidores da política

    Um grande partido nacional tem que conviver com muitas diferenças regionais e a acomodação das variadas correntes internas

    Em artigo publicado recentemente no Estadão focando na crise do PL em Santa Catarina, Sérgio Denicolli, notável analista das nossas redes sociais, usa os dados da AP Exata, empresa da qual é sócio, para mostrar com toda clareza o impacto da ausência de Jair Bolsonaro no comando da direita brasileira. A crise catarinense começou quando foi anunciada a pré-candidatura ao senado do vereador pelo Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro. A nova candidatura desloca toda uma série de alianças, evidenciando rivalidades e o vácuo de comando, agudizada pela crise recente de Michele Bolsonaro com os filhos do ex-presidente.

    A mídia já havia registrado o desejo da cúpula nacional do PL em transformar Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente, em candidato ao Senado por um dentre os estados onde o sobrenome Bolsonaro conta muito, entre eles o Espírito Santo. Até onde pude entender, a cúpula capixaba do partido não aceitou a imposição, até porque, aqui, o Senador Magno Malta exerce a presidência e o comando do partido com mão de ferro, e quer fazer de uma de suas filhas a candidata do PL ao posto. Por alguma razão que desconheço, a direita catarinense, reunida no partido dos Bolsonaro, não pôde resistir ao ataque da direção nacional. Estava criada a desordem.

    Existe franca vantagem para a eleição de dois senadores de direita, segundo nos informa o artigo de Denicolli, mas o que poderia ter sido trunfo eleitoral transformou-se em palco de luta. Assim, a máquina da direita usada habitualmente para destruir carreiras e reputações e construir votos voltou-se para dentro. A metralhadora giratória não mirou o PT, as universidades, as vacinas – seus alvos tradicionais. Agora são os próprios aliados que tomam tiros à vontade e se desconstroem publicamente.

    Talvez a força da direita até agora tenha sido essa incapacidade de fazer política conciliatória, de construir acordos, de fazer concessões aos aliados. Isso os tornou diferentes da nossa política tradicional. Entretanto, essa força de mostrar-se de forma nova tem um teto eleitoral, que é justamente a dificuldade de construir bastidores, de fazer alianças, de tentar mostrar-se puro o tempo todo.

    Aqueles que operam no sistema político sabem que existe um atributo que torna um personagem longevo: a sua paciência para construir soluções de consenso e conviver com a diferença; ou para, como dizem os velhos caciques, engolir sapos.

    Essa dificuldade é histórica, tanto assim que os Bolsonaro foram incapazes de construir seu próprio partido. Até tentaram, mas não conseguiram o número suficiente de filiações. Jair Bolsonaro pula de partido em partido há décadas, elegeu-se presidente pelo PSL e depois foi para o até então minúsculo PL. Sob a batuta de Valdemar Costa Neto, hábil político tradicional, o partido cresceu e é hoje uma máquina eleitoral respeitável.

    Entretanto, um grande partido nacional tem que conviver com muitas diferenças regionais e a acomodação das variadas correntes internas movidas pela cobiça comum ao campo eleitoral. Os bastidores são tão importantes quanto a capacidade de produzir votos. Políticos vitoriosos, como Renato Casagrande e Paulo Hartung, vencem eleições nos bastidores pré-eleitorais, na sua engenharia própria, conforme se pode ver, neste momento, com a gigantesca operação montada para eleger Ricardo Ferraço. Somente os tolos queimam a largada e desconstroem o bom ambiente interno com disputas intrapartidárias desnecessárias.

    Creio que estamos em um ponto de inflexão nas direitas brasileiras, que se mostram incapazes de repetir o sucesso eleitoral de Bolsonaro, eleito presidente em momento no qual ser totalmente outsider fazia sentido. Sobreviver agora significa fazer tudo ao contrário do que está sendo feito em Santa Catarina, e que pode, ou não, se agravar. O mesmo raciocínio se aplica a crise criada por Michele Bolsonaro no Ceará, como estamos acompanhando pelos jornais.

    A prisão recente de Jair Bolsonaro só agudiza esse quadro de quem já está sangrando em praça pública desidratando presenças regionais, inclusive no Espírito Santo. A direita precisa ter um pouco mais do que estratégias de lacração, e é nessa hora que o aprendizado histórico da política faz falta, esse aprendizado que a esquerda tem até de sobra.

  • Murundu

    Murundu é um romance que se passa no interior do Espírito Santo nos fins do século XIX e início do XX.

    Oscar Rezende é um jovem escritor de 72 anos. Digo jovem porque sua passagem para a escrita de livros é nova, data de poucos anos. Murundu é o seu primeiro romance. Outros dois livros, publicados antes, são de contos, e há também um livro de memórias. Doutor e professor de matemática, em seus romances – universo diferente dos números e dos cálculos a que está habituado -, tem sido capaz de entender a alma dos brasileiros, em especial a dos capixabas.

    Murundu é um romance que se passa no interior do Espírito Santo nos fins do século XIX e início do XX, mais especificamente na região onde o autor nasceu e passou boa parte de sua vida. E, pela força do texto, ainda tem lá seu coração enterrado, simbolicamente, às margens do rio Itabapoana. O município onde tudo se passa é São José do Calçado, chamado apenas de São José na história. Calçado é terra de bons escritores, como Pedro J. Nunes, Geir Campos, Fernando Tatagiba, Cícero Moraes e José Carlos da Fonseca.

    A trama é construída de forma a mostrar toda a força das relações sociais no mundo rural capixaba no Sul do Espírito Santo, onde dominavam os velhos coronéis, com seu mandonismo, seu machismo e sua relação profunda com a manipulação do eleitorado, ingênuo e dependente dos favores dos grandes proprietários de terra. Mas a trama é construída de forma engenhosa, já que os dois principais personagens, Luiz e Tenório, este um preto, nasceram pobres, se tornam amigos e envelhecem juntos.

    Eles se encontraram no Rio de Janeiro dos tempos da escravidão. Luiz é um menino pobre que fugiu da miserável casa paterna no interior de Minas Gerais; Tenório é provável filho de escravizados, abandonado na porta de uma rinha de galos no Rio de Janeiro, criado por um português sovina e cruel que o trata de maneira abominável. Os dois se juntam na miséria e nas privações. Para delas tentar fugir apresentam-se como voluntários na Guerra do Paraguai.

    O prêmio para cada um valeria os riscos e privações daquela guerra suja e maldita para eles. Luiz obteria uma gleba de terra e o jovem preto a sua alforria. Assim foi feito. Os dois vieram parar no Vale do Itabapoana em 1885 e aí começaram, com todo o sacrifício, a fazer seus roçados. Luiz e Tenório, irmanados pelas necessidades e dificuldades da vida, eram inseparáveis. O jovem fazendeiro queria progredir, afastar de vez de sua vida a miséria que o cercara até então, e estava disposto a jogar o jogo das elites agrárias. O X da questão é que ele fez um acordo com um grupo de quilombolas que viviam em suas terras e os trata de forma humana. Tenório, seu homem de confiança, é o gerente que lida com o grupo, portanto, sabe muito bem os códigos dessa relação e não força nenhuma baixaria ou forma de aproveitar-se deles.

    Isso os coronéis da região não suportam. Esse é o eixo condutor da trama coronelística tão fortemente descrita em Murundu, muito embora existam outros eixos encantadores também presentes. Destaco, porém, aquele que chama em especial a minha atenção quando tento entender a construção do imaginário capixaba através da literatura de alto nível que se faz no Espírito Santo.

    Da tensão central em torno de um jovem coronel no período final da escravidão e início da república, com seu universo de proprietários de terra, nascem conflitos políticos importantes. Por interesse, casa-se com a filha de um coronel importante, que, como ele, é um homem de ideias arejadas, contra as maldades infernais da escravidão, como demonstra o fato de ser republicano e abolicionista desde que esses movimentos se iniciaram. Os velhos coronéis não aceitavam a libertação dos cativos e muitos falavam em continuar com seu trabalho forçado e desumano, descumprindo a legislação aprovada no fim do império pela Princesa Izabel.

    Desses conflitos políticos nasce a candidatura do jovem coronel ao cargo de prefeito municipal de São José, para fazer valer as suas ideias e levar o progresso e a modernização a sua cidade: um ramal ferroviário, luz elétrica, saneamento e calçamento das ruas. Era o tipo de atitude que fazia dos coronéis empreendedores locais e grandes responsáveis pelo progresso do Brasil na jovem república. Os coronéis eram violência e progresso. Esses dois elementos estão presentes no mandato do prefeito. Ocorre que sua gestão foi um fracasso, tanto pelo boicote dos adversários como pela violência que o cercou, pelas tentativas de homicídio que sofreu e pelas balas que mataram os seus amigos, talvez por sua inépcia em lidar com aquele mundo brutal.

    Para dar um toque mais do que brasileiro ao seu romance, Oscar traz para a trama a força do misticismo de origem africana. O murundu do livro é uma enorme casa de cupins, as quais de fato são assim chamadas, e que se movimentam de forma especial antes de grandes tragédias, anunciando-as. Uma das mulheres quilombolas sabe interpretar o que vem de dentro do murundu, que também dá nome à propriedade que o coronel Luizrecebeu do governo por sua participação na Guerra do Paraguai. Essa visão mágica também é central em toda a trama.

    Por tudo isso e muito mais, Oscar Rezende dá uma grande contribuição para compreensão do que se passou no interior da política e da vida social capixaba no passado. Vale a leitura.