• Doutrina do engrossamento

    Publicado originalmente em 1901, a edição que me chegou às mãos – cedida gentilmente pelo escritor Pedro J. Nunes – é de 2016.

    O título do artigo é o mesmo de um livro muito importante na crítica política brasileira. Publicado originalmente em 1901, a edição que me chegou às mãos – cedida gentilmente pelo escritor Pedro J. Nunes – é de 2016, da Editora do Ifes, organizada por Raoni Huapaya. O autor da obra é Graciano Neves, importante político capixaba do período do início da republica, tendo sido presidente do Espírito Santo eleito em 1896, em sucessão à Muniz Freire.

    Graciano Neves era médico e jornalista, um intelectual de olhar crítico, com raízes no positivismo e leitor atento do marxismo, dizem os seus estudiosos. Foi redator-chefe de O Norte do Espírito Santo, jornal editado, em São Mateus. Pertencia aos quadros do Partido Construtor, que era comandado por Muniz Freire, um grande líder capixaba na primeira república, e foi nosso grande oligarca no seu período inicial.

    Como editor do Norte do Espírito Santo, foi crítico voraz do despotismo estabelecido pelo Marechal Deodoro da Fonseca – a quem chamava “tirano vulgar” – e o atacou duramente quando dissolveu o Congresso. Na presidência de Floriano Peixoto, contando ainda 23 anos, obteve rápida ascensão política quando foi indicado como parte da Junta Governativa do Estado, do fim de 1891 a 1892. Mais tarde, foi eleito presidente do Estado, tendo sido empossado em 23 de maio de 1896. Assumindo em meio a grave crise econômica e política, realizou vários cortes orçamentários e interrompeu investimentos iniciados por Muniz Freire, seu antecessor e correligionário, criando sérios problemas no seu grupo político. A instabilidade gerada, levou-o à renúncia em setembro de 1897. Em 1906, foi eleito deputado federal.

    Foi, portanto, um ator político de primeira linha na política brasileira, conheceu, certamente os bastidores daqueles primeiros tempos. O elitismo da república dos coronéis não permitia forte controle social da governança pública. As grandes ações eram combinadas com antecedência entre os poderosos e os ritos democráticos tinham grande dose teatral. Foi esse o ambiente que ele criticou de forma brilhante em Doutrina do Engrossamento, expressão que ele usa como sinônimo de puxa-saquismo, de uma bajulação subserviente que toma conta do poder no Brasil. Até hoje.

    São palavras dele no texto: O que há de curioso e digno de sérios estudos nessa transição da rebeldia para a obediência, da guerra para a paz, é o processo infinitamente judicioso dos políticos profissionais para consolidar a Ordem sem prejuízos dos interesses particulares: – partilhar as comodidades oficiais, extorquindo-as com ternuras sábias, já que não é possível alcançá-las por meio da violência, nem tampouco pelos pronunciamentos eleitorais. A essa descoberta feliz e admiravelmente oportuna a voz pública afixou o nome de Engrossamento.

    Continuo a transcrever: Engrossamento quer dizer na significacão moderna uma delicada e inteligente espécie de adulação, uma fina combinação de servilismo, hipocrisia e egoísmo, alguma coisa enfim de eminentemente salutar para os interesses do indivíduo e da sociedade. Na acepção antiga Engrossamento é aumentação de volume, alargamento de dimensões, o que se pode traduzir em robustecimento … Assim, que os indivíduos perturbadores, os políticos profissionais, compenetraram-se da ineficácia da oposição para ganhar o poder – passaram logo a aderir ao governo, dando-se aliás perfeitamente com essa simpática palinódia, o que decidiu a maioria dos ambiciosos a adotá-la como processo mais fácil de sucessão governamental.

    O tratado bem-humorado de Graciano Neves não para aí, traça um perfil de como deve-se comportar um jovem que deseja vencer entre a elites brasileiras, tem muita ironia misturada com verdades. A genialidade do texto do nosso ex-presidente Graciano Neves está na sua visão de um estilo de ação que se transformou em elemento da nossa cultura política, que se reproduz até hoje. Quando os militares chegaram ao poder em 1964, vimos esse engrossamento. Também o vemos vastamente quando um novo governador chega ao poder, mesmo aqui no Espírito Santo, seus partidos engordam muito. Para darmos um último exemplo da doutrina do engrossamento, vamos nos lembrar como brotaram no nada direitistas fanáticos quando Jair Bolsonaro chegou ao poder, ou seja, mesmo em processos ditos disruptivos lá está a nossa cultura da acomodação, conciliação e puxa-saquismo.

    A adesão oportunista ao poder faz parte dos traços políticos da nossa sociedade, o mesmo traço que impede que os partidos ganhem densidade programático, porque quando um deles chega ao poder, esvazia outros discursos e faz da bajulação e das imensas tentativas de agradar os poderosos, elementos marcantes do nosso dia a dia. Acredito que só a maturidade política da nossa sociedade vai nos livrar desses elementos.

  • A Capitoa

    Romance de Bernadette Lyra revisita a colonização do Espírito Santo pelo olhar das mulheres.

    A Capitoa é um romance escrito por Bernadette Lyra, autora de prestígio nacional, dona de uma vasta obra. Nascida em Conceição da Barra, ela dedica um outro livro, chamado Água Salobra, às memórias de sua infância e juventude naquela pequena cidade, vividas antes que as rodovias a ligassem ao resto do Espírito Santo e do Brasil. Chegava-se ali no lombo dos burros e cavalos ou através das embarcações que levavam gente e mercadorias, ansiosamente esperadas pela cidade toda.

    São de uma enorme delicadeza as memórias narradas em Água Salobra. Elas contam sua relação com o seu meio social e com a prodigiosa natureza que a cercava: o mar, os pássaros, o rio Cricaré. Mostram também como se organizava sua família, aliás, a maioria das famílias daqueles tempos, que eram mais lentos, mais restritos em termos de possibilidades sociais, portanto mais simples, em todos os sentidos. No texto de Bernadette tudo se revela menos estressante. Quando criança, os adultos que a cercavam viviam em um universo mais mágico, perfumado a sal e povoado de beijus, de peixes, de sargaços, de estrelas celestes e de algas marinhas, como ela registra na crônica As Damas, que faz parte do livro.

    Entretanto, o livro que dá título a esta coluna, A Capitoa, nada tem a ver com esse universo infantil mais romantizado; ele expressa um outro olhar da autora. Trata das histórias de vida de três mulheres que deixam seu país, no continente europeu, para virem morar na Capitania do Espírito Santo, no alvorecer da conquista da terra e dos povos pelos lusitanos. São elas Ana, Luíza e Antônia, que cruzam o oceano para participarem dessa enorme aventura junto a fidalgos, degredados, piratas, frades, noviços, bastardos, desorelhados, prostitutas e órfãs enviadas pelo reino. A três são respectivamente a mãe, a mulher e a amante do Capitão-Mor Vasco Coutinho, filho do nosso primeiro donatário.

    Com a morte do segundo donatário, sua esposa, Luíza Grinalda, a Capitoa, passou a governar a capitania, em 1589, por ser sua viúva e o casal não ter gerado filhos. Ela governou durante quatro anos, apesar da legislação não permitir uma mulher no poder naquela época.
    Aliás, essa é a força da ficção de Bernadette. A verdadeira viagem que o livro permite ao seu leitor, pelo menos na minha visão, é justamente a da vida das mulheres naquela época. As teorias vigentes davam a ideia de que mulheres eram seres de segunda categoria. Todo um imaginário ainda imerso no mundo medieval português permitia essa visão, de modo incrivelmente perverso para o universo feminino.

    A começar pelo desprezo que se tinha pela Capitoa, pelo fato de ela nunca haver engravidado. Não havia a noção de amor, de romance ou mesmo de respeito como motor principal do casamento. Ele era movido sobretudo pela geração de filhos. Consequentemente, a mulher que não podia conceber, a “mulher seca” – como é dito no texto – não cumpria seu papel no mundo. A incapacidade de ser mãe era vista como obra satânica, como a possessão por um espírito maldito. Assim, a cada mês, a chegada da menstruação era o tormento de Luíza, que acabou se livrando das obrigações do casamento quando Vasco Coutinho encontrou Antônia, que se tornou sua amante, e teve com ela três filhos. Foi um alívio a alma atormentada de Luíza.

    Tudo em torno do mundo feminino na colônia compunha-se de solidão, desrespeito, violência e obrigações. Isso era muito acentuado pelo fato de as elites lusitanas enviarem para a colônia prostitutas, prisioneiras e outras pessoas tidas como pervertidas pela moral tacanha da época. Ser mulher significava ter o desprezo do mundo masculino, que era cercado de teorias propagadas pelo catolicismo popular português, as quais alimentavam essa ideia da inferioridade feminina, tão presente na obra. Luíza, vitimada por esse preconceito, foi afastada da gestão da capitania. Mesmo enquanto governou, foi secundada por um fidalgo que dividia com ela o poder e legitimava sua governança.

    As indígenas eram tratadas ainda com mais desprezo e falta de respeito, condições que eram agudizadas por suas origens e seu sangue. Tidas como selvagens, eram usadas como objetos sexuais pelos invasores, que, além de brutos e violentos, julgavam-se duplamente superiores. Não era fácil para elas a vida aqui naqueles tempos, situação que só fez piorar com a chegada da Inquisição do Santo Ofício na colônia. Aí as penas tornaram-se mais duras e o preconceito só fez enraizar-se cada vez mais.

    A ficção a partir da história, que nos faz a grande escritora capixaba, é de muita utilidade para entendermos o presente, afinal essa chaga histórica precisa ser superada.

    Temos todos uma dívida social com as mulheres que vivem e viveram no Brasil desde os tempos coloniais. A Capitoa é uma obra genial que trata desse aspecto fundamental da origem do imaginário social capixaba, além de estabelecer um diálogo interessante com Vilão Farto, de Renato Pacheco, e Capitão do Fim, de Luiz Guilherme Santos Neves. Ambos também tratam da vida do nosso primeiro donatário, de suas aventuras e desventuras em solo capixaba. Trata-se, portanto, de história e literatura andando de mãos dadas para nos ensinarem um pouco mais sobre nossas raízes imaginárias.

  • O tráfico de drogas no Brasil

    Discurso policial domina debate sobre drogas e ignora desigualdade, mercado internacional e o papel social do tráfico na sobrevivência das periferias.

    Acredito que a sociedade brasileira esteja banalizando muito a discussão sobre a questão das drogas, sobretudo o combate ao seu comércio, obviamente ilegal. Há alguns anos chegou a ser discutida a possibilidade da legalização das chamadas drogas leves, mas com o crescimento da extrema direita o que temos visto é a perda de densidade desse tipo de pauta, com o surgimento de uma perspectiva quase que exclusivamente policial ao seu combate. Aliás, temos assistindo a um recuo perigoso das nossas pautas de inclusão social, de uma forma geral, nos últimos anos. A luta agora é para não deixar essas questões regredirem demais no tempo, já que a pauta reacionária voltou com toda força.

    A matança realizada recentemente pela polícia militar do Rio de Janeiro e o apoio manifestado por grande parte da opinião pública brasileira mostra esse olhar policialesco do qual estou falando. Parece mesmo que ações desse calibre são esperadas pela maioria, diante da gravidade do que vem acontecendo, sobretudo entre os jovens mais pobres.

    Lembro-me sempre das reflexões fortes e bem construídas do sociólogo Michel Misse, capixaba de Cachoeiro recentemente falecido, acerca da territorialidade do combate ao comércio das drogas. Nessa guerra só morrem jovens pobres, em grande parte pretos, de bairros periféricos, como se os consumidores não estivessem na classe média alta, onde a polícia não está presente de forma ostensiva. A hipocrisia brasileira determina que esse mercado só tem vendedores – todos imersos na pobreza – mas não tem compradores, até porque não se organiza a busca de drogas onde muitos sabem que estão sendo consumidas. No Brasil só os pobres pagam a conta, e mais cedo ou mais tarde ela vem em forma de tiros, dos rivais ou da própria polícia.

    Muita coisa não chega claramente para essa discussão, hoje restrita ao tráfico, que alimenta fortemente a economia da miséria no Brasil, de forma perversa e preconceituosa. Os príncipes das famílias ricas, consumidores de todo tipo de drogas, parece que nada têm a ver com tudo isso. São parte da bolha inatingível da sociedade.

    Para trazer um novo elemento à nossa análise, o conceituado jornalista Elio Gaspari, em sua coluna nos jornais O Globo e Folha de São Paulo do último dia 7 de dezembro, informa que o mercado americano lucra vendendo armas ao crime e ajudando muito na lavagem de dinheiro, e que, apesar de toda a ação espetacular de seu governo, Trump não quer se meter nisso. Só por esse relato dá para notar que não é matando pessoas na periferia que se vai acabar com o tráfico. Ele tem enraizamentos muito mais densos no nosso tecido social, envolve mesmo dimensões do mercado internacional de armas.

    Estimulado por meu amigo, o jornalista José Caldas, li uma pesquisa do instituto Data Favela, chamada Raio X da Vida Real, em que foram entrevistados 4.000 traficantes em favelas e comunidades de 23 estados brasileiros. O estudo apontou que 6 a cada 10 deles dizem que sairiam do crime se tivessem uma oportunidade, sendo que abrir o próprio negócio foi a opção mais citada de alternativa ao crime. Metade afirma ser a questão financeira o principal impedimento para deixar a atividade criminal. Entretanto, o que mais chamou a minha atenção foi o fato de que 42% têm outra atividade profissional, sobretudo os chamados bicos.

    Isso me leva afirma que é excessivo o tratamento como bandidos simplesmente a esses trabalhadores do tráfico, como o discurso conservador gosta de afirmar. Não quero com isso afirmar dizer que não devemos ter repressão policial, o que não podemos é imaginar que esse é o caminho, no fundo, ele é muito mais complexo. Como eles exercem outras profissões, nos cruzamos com eles em nosso cotidiano, convivemos cordialmente com boa parte deles, portanto, não são pessoas perigosas a ponto de não poder circular, elas estão envolvidas no ilícito.

    Outro elemento importante é que o tráfico é fonte importante de renda nas favelas e periferias brasileiras. É um meio para enfrentar a fome e a miséria, que poderiam ser bem maiores sem ele. Portanto, não se trata de uma questão simples de ser combatida. O tráfico de drogas é uma fonte de fatos horrorosos, mas temos de reconhecer que ao mesmo tempo é uma alternativa de sobrevivência que faz parte do cotidiano deste país desigual chamado Brasil.

    A importância social do consumo de drogas – no alto e na base da pirâmide – é muito grande. Combater tudo isso exige muito mais do que ações teatrais de quem quer fazer populismo policial às custas dos que menos podem fazer para se defender. Exige que discutamos a abrangência desse fenômeno de sociedade, sem uma lenda de culpa e penalização.

  • Florentino Avidos

    Florentino Avidos deu continuidade ao antigo plano de centralização comercial em Vitória, estruturado em ferrovias, portos e economia.

    Leandro Quintão é um produtivo historiador capixaba. Mestre e doutor em história por nossa Universidade Federal, tem se dedicado de forma consiste a estudar a primeira república no Espírito Santo. Sua análise sobre a importância política de Muniz Freire, que foi presidente do estado por duas vezes (1892-1896 e 1900-1904) é primorosa e está presente em vários artigos de sua produção científica. Reunir dados e informações, construir análises e interpretações, já o fariam, só por essa razão, um dos nossos maiores estudiosos no campo da política.

    Ele tem nos brindado, em seus estudos mais recentes, com novas compreensões do passado recente, com um importante olhar sobre as ideias de construção do progresso em nossas terras, desde do “alevantamento provincial”, discutido na Assembleia no final do império, até o fim da primeira república. Não foi pouco o que fez Muniz Freire, o nosso primeiro grande líder republicano, e também não foi pequena a sua importância como chefe político de uma importante oligarquia regional, reunida no Partido Republicano Construtor. Esse partido só perdeu seu protagonismo na cena política capixaba com a ascensão do Partido Republicano Espírito-santense, criado pela oligarquia Monteiro, que viria a substituir a força de Muniz. Tudo isso fica mais fácil de entender lendo a obra de Leandro Quintão.

    Ele acaba de contribuir com a profundidade de sempre em uma publicação chamada O Espírito Santo no Novecentos (1889-1930), junto a outros importantes intelectuais ligados à área de história na Ufes, com o artigo intitulado Um estranho no ninho? Oligarquia e economia no governo: Florentino Avidos (1924-1928). Nele explora a discussão sobre os três principais governantes, aqueles que tiveram maior notoriedade no período, respectivamente Muniz Freire, Jerônimo Monteiro e Florentino Avidos.

    A notoriedade a eles atribuída por nossos estudiosos leva em conta as realizações que conduziram à frente do Governo Estadual, tais como estrada de ferro, indústrias, planejamento urbano – sobretudo da capital – e modernização portuária. Para além de meros ícones daquele período, essa tríade de personagens foi interpretada como pertencente a um grupo de governantes responsáveis por alavancar o progresso do Espírito Santo no século XX; Florentino, inclusive.

    As principais realizações da administração do Presidente Avidos, especialmente no campo econômico, segundo o autor, foram: melhoramentos urbanos, tendo como marco a construção da Avenida Central, hoje chamada de Jerônimo Monteiro, procurando seguir os padrões da avenida com o mesmo nome no Rio de Janeiro, inaugurada décadas antes; continuação das obras de aparelhamento do Porto de Vitória, interrompidas em 1914 e retomadas no governo anterior; planejamento e construção de estradas e pontes, facilitando a comunicação; planejamento de novas vias férreas; apoio à diversificação agrícola; estímulo ao povoamento e colonização de novas terras; e a proteção à produção cafeeira, via criação de um serviço de defesa do café estadual, de suma importância naquele momento.

    As realizações do Governo Avidos foram responsáveis, em grande parte, pela popularidade alcançada por Florentino ao término de seu mandato, em 1928, reforçando de forma clara o modelo de desenvolvimento capixaba, inteiramente baseado na produção do café. A sua gestão estava comprometida em reforçar a centralização das exportações pelo Porto de Vitória. O aparelhamento do porto era uma de suas maiores aspirações, pois tinha como objetivo garantir que tal centralização fosse assegurada. Para receber o café que chegaria em maior quantidade pela ferrovia, era preciso um porto moderno, com grandes armazéns e guindastes e com capacidade de receber navios de maior calado.

    Não é difícil supor que o protagonismo das estradas de ferro, no antigo plano de “alevantamento provincial”, era bem compreendido por Florentino Avidos. Dessa forma, a centralidade portuária da capital deveria ser combinada com a centralidade ferroviária, o que, em termos, já era realidade. Os principais troncos ferroviários que atravessavam o estado – a Estrada de Ferro Vitória a Minas e a Leopoldina Railway – iniciavam seu percurso ao lado da capital, mas, a seu ver, esse projeto precisava ser reforçado, o que foi objeto de seus planos.

    Em suma, Florentino Avidos deu continuidade ao antigo plano de centralização comercial em Vitória, estruturado em ferrovias, portos, economia cafeeira e estreitamento das comunicações com o Sul capixaba e com o Leste de Minas Gerais, fortalecendo o modelo econômico do café.

    Florentino, portanto, está entre os três grandes personagens da nossa história durante a primeira república, que era a dos coronéis, apoiada no cultivo do café. Mais do que isso, o Espírito Santo teve notáveis governantes que se ombreavam aos grandes políticos brasileiros no século XX. Há um outro presidente muito importante nesse mesmo período, espero a publicação de obra em fase de conclusão do notável biografo Romulo Felipe para voltar ao assunto.

  • A hora dos predadores

    Objetivo é o de mostrar que existe uma nova elite dirigente mundial dividida em dois segmentos importantes.

    Em seu novo livro publicado em 2025, título do presente artigo, Giuliano Da Empoli dá continuidade à análise iniciada em outra obra sua de enorme sucesso mundial, Os Engenheiros do Caos. Neste trabalho mais recente, ele expande a sua reflexão sobre o novo cenário político global e explora a convergência inquietante entre tecnologia, guerra e poder.

    Como bem registra o livro em sua contracapa, as democracias ocidentais foram seduzidas pelo que ele chama de oligarquias tecnológicas e autocratas carismáticos, que, de fato, as conduzem através do imenso poder das redes sociais. Ele vê tudo isso como uma enorme ameaça ao ambiente democrático e plural, com a construção de uma nova camada de oligarcas mundiais que detêm o controle da comunicação digital e que hoje tendem a governar o mundo. Um grupo extremamente reduzido para governar um universo de produção de riquezas e poder cada vez mais amplo.

    Em uma narrativa clara e bem construída – o livro é muito bem escrito, aproxima-se de um ensaio de corte histórico e filosófico – Da Empoli expõe como o uso da inteligência artificial, associada a ciberataques, manipulação de dados e guerra de narrativas está redesenhando os campos de batalha do século XXI. A força volta a prevalecer sobre o diálogo e a diplomacia. Para ele, o atual momento, a hora dos predadores, é, no fundo, um retorno à normalidade. Anomalia teria sido o breve período em que se acreditou no ocidente, em ser possível domar a busca sangrenta pelo poder por meio de um sistema de regras.

    Para o autor, todo o campo diplomático construído no século XXI, em especial depois da segunda grande guerra mundial, está perdendo espaço para personagens autoritários como Donald Trump, Nayib Bukele ou mesmo Jair Bolsonaro. Mais do que isso, esses personagens, em suas trajetórias tirânicas, estão usando sem qualquer princípio ético ou compromisso com a verdade as redes socais, agora potencializadas pela nova versão da Inteligência Artificial. O que dá densidade a tudo isso é o fato de o novo presidente dos EUA ter assumido um cortejo heterogêneo de autocratas sem escrúpulos, conquistadores de tecnologia, reacionários e conspiradores sempre ávidos por confrontos.

    O objetivo que me parece mais importante em A Hora dos Predadores é o de mostrar que existe uma nova elite dirigente mundial dividida em dois segmentos importantes: os tiranos políticos e os gestores das grandes corporações mundiais como a Meta, dona do Whatsapp, do Intagram e do Facebook. Os dados que o autor apresenta nos convencem facilmente de que isso é verdade.

    O que Da Empoli nos mostra é que, enquanto as competições políticas ocorriam no mundo real, nas praças públicas e nos meios de comunicação tradicionais, os costumes e as regras de cada país determinavam seus limites. Quando o debate público se transferiu para o ambiente digital, transformou-se numa espécie vale-tudo onde as únicas regras são as das plataformas utilizadas. Para ele, o destino das democracias ocidentais será cada vez mais decidido em uma espécie de Somália digital, uma escala planetária submetida às leis dos senhores das guerras digitais e de suas grandes milícias.

    Trazendo essas reflexões para o que assistimos no Brasil a partir das eleições de 2018, percebemos que, de fato, a política migrou para as redes sociais. Nesse ambiente é que se formaram as opiniões e ideologias, o apoio às diferentes propostas de poder, sempre em clima de enfrentamento e guerra cultural. Mesmo que essa guerra venha a nos cansar definitivamente, os donos das máquinas lutarão até o fim pela manutenção do poder.

    O enfrentamento recente do governo Trump com o STF brasileiro contém os elementos dessa disputa. Os novos oligarcas digitais não querem ter disciplinas nacionais, querem antes estar acima das leis de cada país, querem ditar as novas regras do jogo e querem, sobretudo, lucrar muito. Não por acaso estavam todos presentes na posse desse novo senhor do mundo e apoiam-se mutuamente de forma clara e transparente. Elon Musk chegou mesmo a ocupar um lugar claro de poder na estrutura estadunidense de governo. Dentro ou fora do governo o seu poder é imenso, e representa apenas uma amostra do que está acontecendo no mundo atualmente.

  • Tamara Lopes e Carmélia

    Tese analisa a modernização de Vitória e revisita a cidade por meio das crônicas de Carmélia Maria de Souza.

    Tamara Lopes Teixeira é autora de uma tese de doutorado em ciências sociais defendida na Universidade Federal do Espírito Santo há poucos meses. Arquiteta de formação, migrou para as ciências sociais ao realizar um belíssimo estudo sobre Vitória, sua trajetória histórica e, sobretudo, seu processo de construção como uma cidade de largas avenidas e arquitetura predominantemente eclética, no início do século XX. O trabalho da pesquisadora nos explica como fomos copiar de Viena o modelo fundamental que deu origem a nossa cidade presépio, toda organizada tendo como referência as cidades europeias que se destacam como as metrópoles do século XIX.

    O que Tamara descreve não é inédito; antes, pelo contrário, faz parte de uma tradição de produção no campo da história e da arquitetura: contar como nossas cidades nascidas no período colonial e, na maioria dos casos, ainda mais desenvolvidas durante a monarquia, com o enriquecimento que o café trouxe para a nossa região, fizeram a transição para um novo padrão urbano.

    O que é inédito no trabalho de Tamara é o lirismo, a forma delicada como trata seu tema. Quebrando a monótona lógica da produção de textos acadêmicos, ela mistura elementos como experiências vividas na construção do trabalho. Nele insere ainda uma espécie de diálogo teatralizado entre a própria pesquisadora e a grande cronista Carmélia Maria de Souza, num colóquio imaginário sobre a experiência de viver em Vitória naqueles sufocantes anos 1960 e 1970. As falas de uma de nossas maiores cronistas certamente foram tiradas de seus muitos escritos.

    Nos primeiros anos da república, cidades como o Rio de Janeiro e Campos dos Goytacazes – mais perto de nós – investiram em modernizações enraizadas em nossas elites, no esforço de melhorar as condições de higiene, criando e ampliando serviços de coleta, tratamento e distribuição de água encanada, esgotos, luz elétrica, bondes e outros melhoramentos, que tiveram grande impacto na vida de todos. As velhas ruas da cidade colonial foram, em muitos casos, destruídas e deram lugar a largas avenidas, praças e logradouros públicos erguidos a partir de modelos das grandes cidades europeias.

    Na tese Essa Ilha é Uma Delícia: entre o inconsciente urbano da modernidade na cidade de Vitória e as literatices de Carmélia Maria de Souza há um conjunto extenso de questões que conduziram os estudos e pesquisas a tensionar processos históricos, urbanísticos e sociológicos da modernidade capixaba, em diálogo com a psicanálise. O trabalho recorre, portanto, a várias áreas das chamadas ciências humanas para tentar compreender o que se passou aqui e como isso se refletiu nas pessoas.

    Diz autora, no resumo que introduz o trabalho: Nesse cruzamento entre teoria social e escuta psicanalítica de fenômenos sociais, observa-se que, em Vitória, a ideia de progresso, preconizada pela modernidade, não se concretizou como horizonte aberto de possibilidades: a sobreposição de experiências sobre expectativa dificultou a emergência de futuros desvinculados das tradições, dos mitos fundadores e do controle das elites regionais, ancorado no autoritarismo afetivo. É nesse contexto que a rua Duque de Caxias aparece, nas crônicas de Carmélia, como expressão do inconsciente urbano a céu aberto e uma metáfora da modernidade capixaba.

    Eu já andei refletindo sobre essa geração que Carmélia tão bem expressa. Eram os inconformados com os rumos que o Brasil seguia nos anos 1960 e 1970, que acabava por dar uma sobrevida ao provincianismo de comportamento moral de nossas elites, as quais só pensaram em modernidade em termos de novos aterros e avenidas ainda mais largas.

    Milson Henriques, Rubinho Gomes, Aprigio Lyrio, Amilton de Almeida, Serginho Egito fizeram o seu contraponto e deram ao burgo tradicional uma vida que antes deles não havia. Creio que, ao escolher os textos da grande cronista, Tamara fez bem, pois Carmélia é um espelho do seu tempo.

    Foi uma época dura, essa de Carmélia. Ao compará-la ao grande cronista João do Rio, Tamara Lopes faz uma menção que acerta em cheio na importância da cronista do povo, como foi chamada. Lembra-nos a todos da forma lírica, poética e desesperada como viveu intensamente sua curta vida, na inflexão entre o provincianismo e a metropolização. Ela nos mostra uma cidade que cresceu desumanizando e sem cuidar da essência de sua alma, à qual somente o tempo dará um novo contorno. Afinal, tempo é criação e nós estamos nos reinventando, assim como Carmélia fez no seu tempo, com grandeza e talento.

  • Redes sociais e bastidores da política

    Um grande partido nacional tem que conviver com muitas diferenças regionais e a acomodação das variadas correntes internas

    Em artigo publicado recentemente no Estadão focando na crise do PL em Santa Catarina, Sérgio Denicolli, notável analista das nossas redes sociais, usa os dados da AP Exata, empresa da qual é sócio, para mostrar com toda clareza o impacto da ausência de Jair Bolsonaro no comando da direita brasileira. A crise catarinense começou quando foi anunciada a pré-candidatura ao senado do vereador pelo Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro. A nova candidatura desloca toda uma série de alianças, evidenciando rivalidades e o vácuo de comando, agudizada pela crise recente de Michele Bolsonaro com os filhos do ex-presidente.

    A mídia já havia registrado o desejo da cúpula nacional do PL em transformar Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente, em candidato ao Senado por um dentre os estados onde o sobrenome Bolsonaro conta muito, entre eles o Espírito Santo. Até onde pude entender, a cúpula capixaba do partido não aceitou a imposição, até porque, aqui, o Senador Magno Malta exerce a presidência e o comando do partido com mão de ferro, e quer fazer de uma de suas filhas a candidata do PL ao posto. Por alguma razão que desconheço, a direita catarinense, reunida no partido dos Bolsonaro, não pôde resistir ao ataque da direção nacional. Estava criada a desordem.

    Existe franca vantagem para a eleição de dois senadores de direita, segundo nos informa o artigo de Denicolli, mas o que poderia ter sido trunfo eleitoral transformou-se em palco de luta. Assim, a máquina da direita usada habitualmente para destruir carreiras e reputações e construir votos voltou-se para dentro. A metralhadora giratória não mirou o PT, as universidades, as vacinas – seus alvos tradicionais. Agora são os próprios aliados que tomam tiros à vontade e se desconstroem publicamente.

    Talvez a força da direita até agora tenha sido essa incapacidade de fazer política conciliatória, de construir acordos, de fazer concessões aos aliados. Isso os tornou diferentes da nossa política tradicional. Entretanto, essa força de mostrar-se de forma nova tem um teto eleitoral, que é justamente a dificuldade de construir bastidores, de fazer alianças, de tentar mostrar-se puro o tempo todo.

    Aqueles que operam no sistema político sabem que existe um atributo que torna um personagem longevo: a sua paciência para construir soluções de consenso e conviver com a diferença; ou para, como dizem os velhos caciques, engolir sapos.

    Essa dificuldade é histórica, tanto assim que os Bolsonaro foram incapazes de construir seu próprio partido. Até tentaram, mas não conseguiram o número suficiente de filiações. Jair Bolsonaro pula de partido em partido há décadas, elegeu-se presidente pelo PSL e depois foi para o até então minúsculo PL. Sob a batuta de Valdemar Costa Neto, hábil político tradicional, o partido cresceu e é hoje uma máquina eleitoral respeitável.

    Entretanto, um grande partido nacional tem que conviver com muitas diferenças regionais e a acomodação das variadas correntes internas movidas pela cobiça comum ao campo eleitoral. Os bastidores são tão importantes quanto a capacidade de produzir votos. Políticos vitoriosos, como Renato Casagrande e Paulo Hartung, vencem eleições nos bastidores pré-eleitorais, na sua engenharia própria, conforme se pode ver, neste momento, com a gigantesca operação montada para eleger Ricardo Ferraço. Somente os tolos queimam a largada e desconstroem o bom ambiente interno com disputas intrapartidárias desnecessárias.

    Creio que estamos em um ponto de inflexão nas direitas brasileiras, que se mostram incapazes de repetir o sucesso eleitoral de Bolsonaro, eleito presidente em momento no qual ser totalmente outsider fazia sentido. Sobreviver agora significa fazer tudo ao contrário do que está sendo feito em Santa Catarina, e que pode, ou não, se agravar. O mesmo raciocínio se aplica a crise criada por Michele Bolsonaro no Ceará, como estamos acompanhando pelos jornais.

    A prisão recente de Jair Bolsonaro só agudiza esse quadro de quem já está sangrando em praça pública desidratando presenças regionais, inclusive no Espírito Santo. A direita precisa ter um pouco mais do que estratégias de lacração, e é nessa hora que o aprendizado histórico da política faz falta, esse aprendizado que a esquerda tem até de sobra.

  • Murundu

    Murundu é um romance que se passa no interior do Espírito Santo nos fins do século XIX e início do XX.

    Oscar Rezende é um jovem escritor de 72 anos. Digo jovem porque sua passagem para a escrita de livros é nova, data de poucos anos. Murundu é o seu primeiro romance. Outros dois livros, publicados antes, são de contos, e há também um livro de memórias. Doutor e professor de matemática, em seus romances – universo diferente dos números e dos cálculos a que está habituado -, tem sido capaz de entender a alma dos brasileiros, em especial a dos capixabas.

    Murundu é um romance que se passa no interior do Espírito Santo nos fins do século XIX e início do XX, mais especificamente na região onde o autor nasceu e passou boa parte de sua vida. E, pela força do texto, ainda tem lá seu coração enterrado, simbolicamente, às margens do rio Itabapoana. O município onde tudo se passa é São José do Calçado, chamado apenas de São José na história. Calçado é terra de bons escritores, como Pedro J. Nunes, Geir Campos, Fernando Tatagiba, Cícero Moraes e José Carlos da Fonseca.

    A trama é construída de forma a mostrar toda a força das relações sociais no mundo rural capixaba no Sul do Espírito Santo, onde dominavam os velhos coronéis, com seu mandonismo, seu machismo e sua relação profunda com a manipulação do eleitorado, ingênuo e dependente dos favores dos grandes proprietários de terra. Mas a trama é construída de forma engenhosa, já que os dois principais personagens, Luiz e Tenório, este um preto, nasceram pobres, se tornam amigos e envelhecem juntos.

    Eles se encontraram no Rio de Janeiro dos tempos da escravidão. Luiz é um menino pobre que fugiu da miserável casa paterna no interior de Minas Gerais; Tenório é provável filho de escravizados, abandonado na porta de uma rinha de galos no Rio de Janeiro, criado por um português sovina e cruel que o trata de maneira abominável. Os dois se juntam na miséria e nas privações. Para delas tentar fugir apresentam-se como voluntários na Guerra do Paraguai.

    O prêmio para cada um valeria os riscos e privações daquela guerra suja e maldita para eles. Luiz obteria uma gleba de terra e o jovem preto a sua alforria. Assim foi feito. Os dois vieram parar no Vale do Itabapoana em 1885 e aí começaram, com todo o sacrifício, a fazer seus roçados. Luiz e Tenório, irmanados pelas necessidades e dificuldades da vida, eram inseparáveis. O jovem fazendeiro queria progredir, afastar de vez de sua vida a miséria que o cercara até então, e estava disposto a jogar o jogo das elites agrárias. O X da questão é que ele fez um acordo com um grupo de quilombolas que viviam em suas terras e os trata de forma humana. Tenório, seu homem de confiança, é o gerente que lida com o grupo, portanto, sabe muito bem os códigos dessa relação e não força nenhuma baixaria ou forma de aproveitar-se deles.

    Isso os coronéis da região não suportam. Esse é o eixo condutor da trama coronelística tão fortemente descrita em Murundu, muito embora existam outros eixos encantadores também presentes. Destaco, porém, aquele que chama em especial a minha atenção quando tento entender a construção do imaginário capixaba através da literatura de alto nível que se faz no Espírito Santo.

    Da tensão central em torno de um jovem coronel no período final da escravidão e início da república, com seu universo de proprietários de terra, nascem conflitos políticos importantes. Por interesse, casa-se com a filha de um coronel importante, que, como ele, é um homem de ideias arejadas, contra as maldades infernais da escravidão, como demonstra o fato de ser republicano e abolicionista desde que esses movimentos se iniciaram. Os velhos coronéis não aceitavam a libertação dos cativos e muitos falavam em continuar com seu trabalho forçado e desumano, descumprindo a legislação aprovada no fim do império pela Princesa Izabel.

    Desses conflitos políticos nasce a candidatura do jovem coronel ao cargo de prefeito municipal de São José, para fazer valer as suas ideias e levar o progresso e a modernização a sua cidade: um ramal ferroviário, luz elétrica, saneamento e calçamento das ruas. Era o tipo de atitude que fazia dos coronéis empreendedores locais e grandes responsáveis pelo progresso do Brasil na jovem república. Os coronéis eram violência e progresso. Esses dois elementos estão presentes no mandato do prefeito. Ocorre que sua gestão foi um fracasso, tanto pelo boicote dos adversários como pela violência que o cercou, pelas tentativas de homicídio que sofreu e pelas balas que mataram os seus amigos, talvez por sua inépcia em lidar com aquele mundo brutal.

    Para dar um toque mais do que brasileiro ao seu romance, Oscar traz para a trama a força do misticismo de origem africana. O murundu do livro é uma enorme casa de cupins, as quais de fato são assim chamadas, e que se movimentam de forma especial antes de grandes tragédias, anunciando-as. Uma das mulheres quilombolas sabe interpretar o que vem de dentro do murundu, que também dá nome à propriedade que o coronel Luizrecebeu do governo por sua participação na Guerra do Paraguai. Essa visão mágica também é central em toda a trama.

    Por tudo isso e muito mais, Oscar Rezende dá uma grande contribuição para compreensão do que se passou no interior da política e da vida social capixaba no passado. Vale a leitura.

  • Cupim de Aço

    Quando analisamos a história política da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, vemos que ela sempre foi campo de lutas.

    Escrevemos, o jovem e brilhante historiador Vinicius Borges e eu, um artigo sobre a oposição, na Assembleia, ao governo Christiano Dias Lopes (1967-1971) durante os primeiros anos do regime militar. Ele será publicado no livro organizado pelas professoras Adriana Campos e Kátia Motta, dentro pesquisas feitas na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, para o levantamento de material histórico relativo aos 190 anos de suas atividades.

    O governo Christiano Dias Lopes tinha como principal tarefa superar a crise provocada pela erradicação dos cafezais. A busca por alternativas industriais mobilizou empresários, técnicos e parlamentares em torno de um projeto de modernização liderado pelo Executivo. Contudo, tensões internas da própria base governista, expressas na formação do grupo conhecido como Cupim de Aço, revelaram as contradições e disputas que marcaram esse processo, evidenciando que, mesmo sob o autoritarismo, o espaço legislativo permaneceu como arena de resistência, negociação e conflito político.

    Um dos objetivos centrais ao estudar o Cupim de Aço foi demonstrar que, mesmo sob um sistema rigidamente controlado, a oposição política não desapareceu, como poderíamos hoje imaginar. O bipartidarismo, criado logo antes das eleições de 1966, limitou as possibilidades de ação, mas não eliminou os conflitos internos e nem o exercício da crítica.

    No auge do regime militar, a cassação dos deputados estaduais José Ignácio Ferreira e Daylson Laranja, do MDB, em 1969, mostrou que, para garantir a tentativa de controle absoluto sobre o Legislativo capixaba, o regime precisou recorrer à repressão direta, já que o controle político tradicional não estava dando conta. Mas a oposição resistia.

    O governo e a Assembleia Legislativa que iniciaram seus mandatos em 1967 enfrentaram o desafio de reorganizar um estado mergulhado em profunda crise administrativa e econômica. Mesmo diante desse quadro não foi fácil para o governo Christiano mobilizar suas bases, que estavam dentro de um partido chamado ARENA. Um dos maiores equívocos políticos do regime foi justamente forçar a convivência de correntes ideológicas divergentes e de grupos com interesses eleitorais conflitantes sob o mesmo teto partidário.

    Embora a ARENA contasse com expressiva maioria, o combativo deputado Vicente Silveira, representante de Iúna, oriundo da antiga UDN e figura de prestígio no cenário político capixaba tornou-se o principal foco de dissidência interna. Inicialmente aliado do governo, Vicente rompeu com Christiano Dias Lopes Filho em julho de 1968, após o governador excluir de uma reunião no Palácio Anchieta a maior parte dos deputados que haviam se unido ao MDB e votado em José Moraes para presidente da Assembleia, na eleição de fevereiro daquele ano.

    Essa atitude foi interpretada por Silveira como um gesto de rompimento político e uma tentativa de marginalizar os parlamentares dissidentes dentro da base governista. A partir de então, 13 deputados do MDB e 11 dissidentes da ARENA passaram a agir como bloco e negociaram cada ato do governo. A luta em torno da sucessão na Assembleia havia sido longa, e o governador tinha um candidato que não uniu suas bases.

    A análise da legislatura capixaba no início do regime militar permite compreender as fragilidades estruturais do sistema político instaurado após 1964. O bipartidarismo, longe de consolidar a estabilidade desejada pelos militares, revelou-se um arranjo precário – um verdadeiro “balaio de gatos”, no qual conviviam interesses, tradições e ambições políticas profundamente distintas, como definiu posteriormente o próprio governador Christiano Dias Lopes Filho.

    Era um enorme desafio governar com essa base. Era preciso fazer política, o que mostra que o quadro do autoritarismo brasileiro tem muitas particularidades, e muitas delas se refletiram na nossa Assembleia.

    Quando analisamos a história política da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, vemos que ela sempre foi campo de lutas e de embates políticos, e que, mesmo em tempos difíceis, refletiu as tensões presentes no campo político. Por isso não podemos e não devemos simplificar demais nossas análises políticas sobre o que costumamos chamar da ditadura brasileira, já que, mesmo durante sua vigência, houve luta política e partidária.

    Vicente Silveira, o Cupim de Aço e o combativo MDB – que tinha Hugo Borges, Américo Bernardes, os dois deputados cassados e muitos outros – mostraram como o governo teve que negociar projetos e adaptá-los às novas circunstâncias para conseguir aprovar medidas de que muito necessitava nossa sociedade naqueles difíceis anos 1960. Mais do que isso, o bloco parlamentar transformou-se em oposição dentro da ARENA, disputou com sucesso eleições internas e participou ativamente da vida partidária.

    Élcio Álvares, em 1970 um jovem advogado criminalista, organizou sua candidatura à câmara federal a partir do Cupim de Aço e elegeu-se com grande votação, construiu sua articulação dentro do partido ao governo estadual, cuja eleição era indireta, mas que demanda mais do só a própria vontade. A política capixaba mostrou que nem na ditadura fomos um bloco monolítico.

  • Identidade capixaba

    Reflexão propõe uma releitura da história capixaba e destaca o orgulho de pertencer a esse território.

    A ideia central, quando se trata de investigar a identidade regional de um fragmento territorial e cultural da sociedade brasileira, é traçar a trajetória histórica de sua construção imaginária, e construí-la, na maioria das vezes, segundo um olhar determinado.

    Isso parte do processo de pensar como se articularam ao longo do tempo os elementos históricos. Inclui também, e sobretudo, analisar como eles formam um conjunto e ainda o modo como suas várias faces reunidas em um todo se conectam e se fazem representar uma na outra.

    Um elemento importante que dá densidade a esse conjunto é a ideia de construção do futuro. Afirmo isso porque, como a identidade está sempre em construção, ou é algo que queremos ser, ela faz parte do que já somos.

    Quando pensamos a questão da identidade em termos individuais, podemos perceber essa ideia com mais facilidade. Uma pessoa não é apenas um resto do seu passado, um pedaço daquilo que se construiu no tempo. É também o que quer fazer desse passado, como o interpreta e o ressignifica, como se reinventa a partir dele. Quase tudo pode ser considerado aprendizado ou mágoa, depende de como interpretamos os fatos.

    Assim, o que desejamos como sociedade também é parte da nossa identidade e dá o tom de como sentimos a presença do passado, que é reinterpretado à luz desse desejo. Dizem até que a coisa que mais muda no mundo é o passado – uma brincadeira que não deixa de esconder certa verdade.

    Para me ater a um exemplo de releitura recente, existem obras no mercado que pintam um Napoleão de direita, forte e autoritário, e outras que o apresentam como de esquerda, produto da revolução que acabou por conduzi-lo ao poder. Quero com isso dizer que identidade também é escolha. É o processo de retirar de todos os elementos que nos compõem aqueles que melhor expressam nosso desejo em certo momento histórico.

    Identidade tem a ver, então, com nossas escolhas mediante o que nos aconteceu e o que pretendemos fazer com isso. Tais observações me ocorreram quando comecei a pensar naquilo que poderíamos chamar de identidade capixaba ou mesmo de construção do nosso imaginário.

    Nele existe o mito da muralha verde que nos separou das Minas Gerais durante o período colonial. Primeiramente, é fato que o ouro das Minas despertava a cobiça de piratas e invasores estrangeiros, portanto não se facilitaria o acesso a elas. Mas também é verdade que o período do auge do ouro durou cerca de um século. Criar dificuldade de acesso, portanto, não poderia simplesmente explicar o que aconteceu em terras capixabas durante dessa longa fase.

    Por outro lado, é comum lermos nos nossos livros de história, bem como em outras narrativas sobre nosso passado, que sofremos um marasmo colonial, que não prosperamos em relação às outras regiões brasileiras. Esse discurso foi muito usado no início da república para explicar uma certa aversão ao período monárquico e, assim, valorizar os ideais de progresso da jovem república.

    Mas, de fato, nada houve de especial no Espírito Santo em relação ao que acontecia no restante do país. Chamar de marasmo a chegada do café, que mudaria a face do nosso estado; o ingresso massivo de colonos europeus; o fim do regime escravocrata é mesmo muita má vontade com o império. Só isso.

    Enfim, parece que escolhemos fragmentos bem negativos de nossa história para construir um lugar no Brasil e no mundo. A grande questão, portanto, não é a história em si, mas sim a maneira como nos apropriamos dela.

    Posso afirmar que somos um estado empreendedor, que no final do século XIX já era um dos grandes produtores nacionais de café; que nossas elites republicanas tinham formação idêntica às de São Paulo, Minas ou Rio de Janeiro – para ficar apenas na região Sudeste; que os imigrantes europeus do século XIX, no Espírito Santo, progrediram tanto quanto os que aportaram em outros estados.

    Enfim, sob a lente do empreendedorismo, podemos enxergar um estado que esquece e supera as narrativas reducionistas da barreira verde e do marasmo colonial. É uma questão de escolha, de criar uma narrativa que organize e articule os fragmentos que a história nos apresenta.

    O que precisamos, no Espírito Santo, é focar nos fatos que nos aproximem de um sentimento verdadeiro e forte sobre a nossa história, que nos façam acentuar o pertencimento a este território, ter orgulho dos que nos antecederam e deixaram essas marcas fortes, das quais devemos ter muito orgulho. Acho que já está na hora.