Por João Gualberto
A esquerda chegou ao Brasil no final do século XIX. Nesse primeiro momento, chama a atenção dos estudiosos a forte presença dos anarquistas, sobretudo entre os operários urbanos de origem espanhola e italianos, dentre outras nacionalidades. Essa presença foi definitiva na primeira grande greve brasileira, ocorrida em São Paulo, em 1917. Os grevistas pararam a cidade durante vários dias.
Em 1922, com a criação do partido comunista, vai ganhando mais espaço entre o movimento operário, e mesmo entre intelectuais, essa corrente de pensamento. A partir dos anos 1930 e 1940, transforma-se no epicentro das grandes greves, como as ferroviárias – como a que aconteceu em Cachoeiro – e também dos trabalhadores ligados aos sistemas portuários. Eram as classes organizadas naquele momento. De fato, a esquerda brasileira que chega aos nossos dias nasce nesse momento e desses movimentos.
Somente nos anos 1970 e 1980, surgirá um novo sindicalismo, que rompe com a hegemonia dos velhos sindicatos, nascidos nos primeiros períodos. Os sindicatos tradicionais haviam sido cooptados pelo poder, e eram pouco mais que organismos assistencialistas e de controle de pequenos clãs imutáveis. As greves no ABC paulista de 1978-1980, ocorridas no contexto da abertura política e no fim do período dos militares, marcam o ressurgimento do movimento trabalhista brasileiro. Surge, aqui, uma nova elite operária, cujo principal nome seria o de Lula. Muito importante nessa reconstrução foi a esquerda da igreja católica, assim como muitos intelectuais, artistas e formadores de opinião.
O Brasil clamava por uma abertura ampla, que atingia a todos desses públicos. Nesse momento, os conservadores que sustentavam o regime autoritário eram minoritários, tanto que, muitos setores empresariais estavam, também, participando desses movimentos. O modelo de desenvolvimento baseado em estatais e no controle de poucos grupos apresentava sinais de desgaste. O tempo cria, institui novas demandas e exige mudanças.
O que estou argumentando aqui é que cada ciclo econômico, político e social tem as suas demandas e cria suas necessidades políticas. As necessidades que fizeram surgir o novo sindicalismo nos anos 1970, apoiado por setores da igreja católica e formadores de opinião estão em grande transformação. Os sindicatos, a grande imprensa e mesmo a igreja católica perderam potência. De outro lado, há novos atores no processo social que pedem passagem.
As periferias vieram para o centro do processo. A velocidade dramática do crescimento urbano criou um novo mundo para milhões de brasileiros. Mundo de excluídos dos grandes investimentos nas cidades, sem equipamentos urbanos e com uma ação policial lamentável pela truculência que todos conhecem. Com as novas periferias, emergem, com força, as questões de combate ao racismo, as questões de gênero, de tolerância, para falar dos mais emblemáticos. Elas dizem respeito ao cotidiano nessas novas regiões urbanas. Por trás de tudo isso, a necessidade de construir novos patamares democráticos, de repensar os vínculos sociais.
Experiências exitosas como o orçamento participativo, os inúmeros conselhos ligados às gestões municipais já não dão conta dessas novas construções sociais. Portanto, a reinvenção das esquerdas está colocada no mundo das coisas reais, das novas representações sociais do imaginário político brasileiro. É uma necessidade social que tem que ser compreendida e politizada. A direita já entendeu isso, e tem atuado com sucesso em muitos países, inclusive no Brasil.
Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 12 de agosto de 2023.

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