• Murundu

    Murundu é um romance que se passa no interior do Espírito Santo nos fins do século XIX e início do XX.

    Oscar Rezende é um jovem escritor de 72 anos. Digo jovem porque sua passagem para a escrita de livros é nova, data de poucos anos. Murundu é o seu primeiro romance. Outros dois livros, publicados antes, são de contos, e há também um livro de memórias. Doutor e professor de matemática, em seus romances – universo diferente dos números e dos cálculos a que está habituado -, tem sido capaz de entender a alma dos brasileiros, em especial a dos capixabas.

    Murundu é um romance que se passa no interior do Espírito Santo nos fins do século XIX e início do XX, mais especificamente na região onde o autor nasceu e passou boa parte de sua vida. E, pela força do texto, ainda tem lá seu coração enterrado, simbolicamente, às margens do rio Itabapoana. O município onde tudo se passa é São José do Calçado, chamado apenas de São José na história. Calçado é terra de bons escritores, como Pedro J. Nunes, Geir Campos, Fernando Tatagiba, Cícero Moraes e José Carlos da Fonseca.

    A trama é construída de forma a mostrar toda a força das relações sociais no mundo rural capixaba no Sul do Espírito Santo, onde dominavam os velhos coronéis, com seu mandonismo, seu machismo e sua relação profunda com a manipulação do eleitorado, ingênuo e dependente dos favores dos grandes proprietários de terra. Mas a trama é construída de forma engenhosa, já que os dois principais personagens, Luiz e Tenório, este um preto, nasceram pobres, se tornam amigos e envelhecem juntos.

    Eles se encontraram no Rio de Janeiro dos tempos da escravidão. Luiz é um menino pobre que fugiu da miserável casa paterna no interior de Minas Gerais; Tenório é provável filho de escravizados, abandonado na porta de uma rinha de galos no Rio de Janeiro, criado por um português sovina e cruel que o trata de maneira abominável. Os dois se juntam na miséria e nas privações. Para delas tentar fugir apresentam-se como voluntários na Guerra do Paraguai.

    O prêmio para cada um valeria os riscos e privações daquela guerra suja e maldita para eles. Luiz obteria uma gleba de terra e o jovem preto a sua alforria. Assim foi feito. Os dois vieram parar no Vale do Itabapoana em 1885 e aí começaram, com todo o sacrifício, a fazer seus roçados. Luiz e Tenório, irmanados pelas necessidades e dificuldades da vida, eram inseparáveis. O jovem fazendeiro queria progredir, afastar de vez de sua vida a miséria que o cercara até então, e estava disposto a jogar o jogo das elites agrárias. O X da questão é que ele fez um acordo com um grupo de quilombolas que viviam em suas terras e os trata de forma humana. Tenório, seu homem de confiança, é o gerente que lida com o grupo, portanto, sabe muito bem os códigos dessa relação e não força nenhuma baixaria ou forma de aproveitar-se deles.

    Isso os coronéis da região não suportam. Esse é o eixo condutor da trama coronelística tão fortemente descrita em Murundu, muito embora existam outros eixos encantadores também presentes. Destaco, porém, aquele que chama em especial a minha atenção quando tento entender a construção do imaginário capixaba através da literatura de alto nível que se faz no Espírito Santo.

    Da tensão central em torno de um jovem coronel no período final da escravidão e início da república, com seu universo de proprietários de terra, nascem conflitos políticos importantes. Por interesse, casa-se com a filha de um coronel importante, que, como ele, é um homem de ideias arejadas, contra as maldades infernais da escravidão, como demonstra o fato de ser republicano e abolicionista desde que esses movimentos se iniciaram. Os velhos coronéis não aceitavam a libertação dos cativos e muitos falavam em continuar com seu trabalho forçado e desumano, descumprindo a legislação aprovada no fim do império pela Princesa Izabel.

    Desses conflitos políticos nasce a candidatura do jovem coronel ao cargo de prefeito municipal de São José, para fazer valer as suas ideias e levar o progresso e a modernização a sua cidade: um ramal ferroviário, luz elétrica, saneamento e calçamento das ruas. Era o tipo de atitude que fazia dos coronéis empreendedores locais e grandes responsáveis pelo progresso do Brasil na jovem república. Os coronéis eram violência e progresso. Esses dois elementos estão presentes no mandato do prefeito. Ocorre que sua gestão foi um fracasso, tanto pelo boicote dos adversários como pela violência que o cercou, pelas tentativas de homicídio que sofreu e pelas balas que mataram os seus amigos, talvez por sua inépcia em lidar com aquele mundo brutal.

    Para dar um toque mais do que brasileiro ao seu romance, Oscar traz para a trama a força do misticismo de origem africana. O murundu do livro é uma enorme casa de cupins, as quais de fato são assim chamadas, e que se movimentam de forma especial antes de grandes tragédias, anunciando-as. Uma das mulheres quilombolas sabe interpretar o que vem de dentro do murundu, que também dá nome à propriedade que o coronel Luizrecebeu do governo por sua participação na Guerra do Paraguai. Essa visão mágica também é central em toda a trama.

    Por tudo isso e muito mais, Oscar Rezende dá uma grande contribuição para compreensão do que se passou no interior da política e da vida social capixaba no passado. Vale a leitura.

  • Cupim de Aço

    Quando analisamos a história política da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, vemos que ela sempre foi campo de lutas.

    Escrevemos, o jovem e brilhante historiador Vinicius Borges e eu, um artigo sobre a oposição, na Assembleia, ao governo Christiano Dias Lopes (1967-1971) durante os primeiros anos do regime militar. Ele será publicado no livro organizado pelas professoras Adriana Campos e Kátia Motta, dentro pesquisas feitas na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, para o levantamento de material histórico relativo aos 190 anos de suas atividades.

    O governo Christiano Dias Lopes tinha como principal tarefa superar a crise provocada pela erradicação dos cafezais. A busca por alternativas industriais mobilizou empresários, técnicos e parlamentares em torno de um projeto de modernização liderado pelo Executivo. Contudo, tensões internas da própria base governista, expressas na formação do grupo conhecido como Cupim de Aço, revelaram as contradições e disputas que marcaram esse processo, evidenciando que, mesmo sob o autoritarismo, o espaço legislativo permaneceu como arena de resistência, negociação e conflito político.

    Um dos objetivos centrais ao estudar o Cupim de Aço foi demonstrar que, mesmo sob um sistema rigidamente controlado, a oposição política não desapareceu, como poderíamos hoje imaginar. O bipartidarismo, criado logo antes das eleições de 1966, limitou as possibilidades de ação, mas não eliminou os conflitos internos e nem o exercício da crítica.

    No auge do regime militar, a cassação dos deputados estaduais José Ignácio Ferreira e Daylson Laranja, do MDB, em 1969, mostrou que, para garantir a tentativa de controle absoluto sobre o Legislativo capixaba, o regime precisou recorrer à repressão direta, já que o controle político tradicional não estava dando conta. Mas a oposição resistia.

    O governo e a Assembleia Legislativa que iniciaram seus mandatos em 1967 enfrentaram o desafio de reorganizar um estado mergulhado em profunda crise administrativa e econômica. Mesmo diante desse quadro não foi fácil para o governo Christiano mobilizar suas bases, que estavam dentro de um partido chamado ARENA. Um dos maiores equívocos políticos do regime foi justamente forçar a convivência de correntes ideológicas divergentes e de grupos com interesses eleitorais conflitantes sob o mesmo teto partidário.

    Embora a ARENA contasse com expressiva maioria, o combativo deputado Vicente Silveira, representante de Iúna, oriundo da antiga UDN e figura de prestígio no cenário político capixaba tornou-se o principal foco de dissidência interna. Inicialmente aliado do governo, Vicente rompeu com Christiano Dias Lopes Filho em julho de 1968, após o governador excluir de uma reunião no Palácio Anchieta a maior parte dos deputados que haviam se unido ao MDB e votado em José Moraes para presidente da Assembleia, na eleição de fevereiro daquele ano.

    Essa atitude foi interpretada por Silveira como um gesto de rompimento político e uma tentativa de marginalizar os parlamentares dissidentes dentro da base governista. A partir de então, 13 deputados do MDB e 11 dissidentes da ARENA passaram a agir como bloco e negociaram cada ato do governo. A luta em torno da sucessão na Assembleia havia sido longa, e o governador tinha um candidato que não uniu suas bases.

    A análise da legislatura capixaba no início do regime militar permite compreender as fragilidades estruturais do sistema político instaurado após 1964. O bipartidarismo, longe de consolidar a estabilidade desejada pelos militares, revelou-se um arranjo precário – um verdadeiro “balaio de gatos”, no qual conviviam interesses, tradições e ambições políticas profundamente distintas, como definiu posteriormente o próprio governador Christiano Dias Lopes Filho.

    Era um enorme desafio governar com essa base. Era preciso fazer política, o que mostra que o quadro do autoritarismo brasileiro tem muitas particularidades, e muitas delas se refletiram na nossa Assembleia.

    Quando analisamos a história política da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, vemos que ela sempre foi campo de lutas e de embates políticos, e que, mesmo em tempos difíceis, refletiu as tensões presentes no campo político. Por isso não podemos e não devemos simplificar demais nossas análises políticas sobre o que costumamos chamar da ditadura brasileira, já que, mesmo durante sua vigência, houve luta política e partidária.

    Vicente Silveira, o Cupim de Aço e o combativo MDB – que tinha Hugo Borges, Américo Bernardes, os dois deputados cassados e muitos outros – mostraram como o governo teve que negociar projetos e adaptá-los às novas circunstâncias para conseguir aprovar medidas de que muito necessitava nossa sociedade naqueles difíceis anos 1960. Mais do que isso, o bloco parlamentar transformou-se em oposição dentro da ARENA, disputou com sucesso eleições internas e participou ativamente da vida partidária.

    Élcio Álvares, em 1970 um jovem advogado criminalista, organizou sua candidatura à câmara federal a partir do Cupim de Aço e elegeu-se com grande votação, construiu sua articulação dentro do partido ao governo estadual, cuja eleição era indireta, mas que demanda mais do só a própria vontade. A política capixaba mostrou que nem na ditadura fomos um bloco monolítico.

  • Identidade capixaba

    Reflexão propõe uma releitura da história capixaba e destaca o orgulho de pertencer a esse território.

    A ideia central, quando se trata de investigar a identidade regional de um fragmento territorial e cultural da sociedade brasileira, é traçar a trajetória histórica de sua construção imaginária, e construí-la, na maioria das vezes, segundo um olhar determinado.

    Isso parte do processo de pensar como se articularam ao longo do tempo os elementos históricos. Inclui também, e sobretudo, analisar como eles formam um conjunto e ainda o modo como suas várias faces reunidas em um todo se conectam e se fazem representar uma na outra.

    Um elemento importante que dá densidade a esse conjunto é a ideia de construção do futuro. Afirmo isso porque, como a identidade está sempre em construção, ou é algo que queremos ser, ela faz parte do que já somos.

    Quando pensamos a questão da identidade em termos individuais, podemos perceber essa ideia com mais facilidade. Uma pessoa não é apenas um resto do seu passado, um pedaço daquilo que se construiu no tempo. É também o que quer fazer desse passado, como o interpreta e o ressignifica, como se reinventa a partir dele. Quase tudo pode ser considerado aprendizado ou mágoa, depende de como interpretamos os fatos.

    Assim, o que desejamos como sociedade também é parte da nossa identidade e dá o tom de como sentimos a presença do passado, que é reinterpretado à luz desse desejo. Dizem até que a coisa que mais muda no mundo é o passado – uma brincadeira que não deixa de esconder certa verdade.

    Para me ater a um exemplo de releitura recente, existem obras no mercado que pintam um Napoleão de direita, forte e autoritário, e outras que o apresentam como de esquerda, produto da revolução que acabou por conduzi-lo ao poder. Quero com isso dizer que identidade também é escolha. É o processo de retirar de todos os elementos que nos compõem aqueles que melhor expressam nosso desejo em certo momento histórico.

    Identidade tem a ver, então, com nossas escolhas mediante o que nos aconteceu e o que pretendemos fazer com isso. Tais observações me ocorreram quando comecei a pensar naquilo que poderíamos chamar de identidade capixaba ou mesmo de construção do nosso imaginário.

    Nele existe o mito da muralha verde que nos separou das Minas Gerais durante o período colonial. Primeiramente, é fato que o ouro das Minas despertava a cobiça de piratas e invasores estrangeiros, portanto não se facilitaria o acesso a elas. Mas também é verdade que o período do auge do ouro durou cerca de um século. Criar dificuldade de acesso, portanto, não poderia simplesmente explicar o que aconteceu em terras capixabas durante dessa longa fase.

    Por outro lado, é comum lermos nos nossos livros de história, bem como em outras narrativas sobre nosso passado, que sofremos um marasmo colonial, que não prosperamos em relação às outras regiões brasileiras. Esse discurso foi muito usado no início da república para explicar uma certa aversão ao período monárquico e, assim, valorizar os ideais de progresso da jovem república.

    Mas, de fato, nada houve de especial no Espírito Santo em relação ao que acontecia no restante do país. Chamar de marasmo a chegada do café, que mudaria a face do nosso estado; o ingresso massivo de colonos europeus; o fim do regime escravocrata é mesmo muita má vontade com o império. Só isso.

    Enfim, parece que escolhemos fragmentos bem negativos de nossa história para construir um lugar no Brasil e no mundo. A grande questão, portanto, não é a história em si, mas sim a maneira como nos apropriamos dela.

    Posso afirmar que somos um estado empreendedor, que no final do século XIX já era um dos grandes produtores nacionais de café; que nossas elites republicanas tinham formação idêntica às de São Paulo, Minas ou Rio de Janeiro – para ficar apenas na região Sudeste; que os imigrantes europeus do século XIX, no Espírito Santo, progrediram tanto quanto os que aportaram em outros estados.

    Enfim, sob a lente do empreendedorismo, podemos enxergar um estado que esquece e supera as narrativas reducionistas da barreira verde e do marasmo colonial. É uma questão de escolha, de criar uma narrativa que organize e articule os fragmentos que a história nos apresenta.

    O que precisamos, no Espírito Santo, é focar nos fatos que nos aproximem de um sentimento verdadeiro e forte sobre a nossa história, que nos façam acentuar o pertencimento a este território, ter orgulho dos que nos antecederam e deixaram essas marcas fortes, das quais devemos ter muito orgulho. Acho que já está na hora.

  • Cidade presépio

    Transformações urbanas mudaram a identidade de Vitória, entre memória cultural, modernização acelerada e desigualdades crescentes.

    Dois sentimentos me fizeram voltar a pensar em um antigo objeto de minhas reflexões. O primeiro foi o lançamento do livro Carmélia Maria de Souza: desesperada e lírica, com textos daquela grande cronista capixaba reunidos e selecionados por Renata Bomfim, uma estudiosa muito criteriosa do nosso universo literário. O segundo foi uma longa conversa com a jovem e brilhante intelectual Tamara Lopes, doutora em Arquitetura, que vem de defender uma tese na qual a nossa sempre presente Carmélia também é estudada – além de muito mais. Voltarei a falar de Tamara oportunamente.

    O antigo objeto de minhas reflexões, a que me referi acima, é o momento em que Vitória deixa de vestir sua velha roupagem de cidade presépio e passa para um momento mais ousado e menos provinciano de sua vida como o principal centro urbano do Espírito Santo. Isso ocorre em 1967, quando Setembrino Pelissari é o prefeito e Christiano Dias Lopes o governador. O Espírito Santo, então, acompanhando a modernização conservadora pela qual passava o Brasil, também se moderniza. Materializávamos entre os anos 1960 e 1970 o velho sonho da industrialização capixaba, do asfaltamento das principais rodovias, da expansão da energia elétrica e das novas comunicações.

    Ultrapassada a predominância da cultura do café e sua aristocracia, que floresceu no império e na primeira república, mudaram as elites dirigentes e a capital do Espírito Santo deixou seus ares provincianos, abandonando a planta de cidade presépio. O desenho de novas avenidas, como a Nossa Senhora dos Navegantes, criou espaços urbanos tomando parte de áreas antes ocupadas pelo mar. Novos prédios cresceram verticalmente a cidade e houve a migração progressiva do centro em direção à região norte. O Shopping Vitória, inaugurado nos anos 1990, consolidou essa mudança, trazendo o comércio dos setores de classe média para a Enseada do Suá.

    Escrevi sobre essas mudanças, sobretudo nos estilos de vida antes tão provincianos, em um livro que organizei com a participação de dois importantes intelectuais: Carol Abreu e Janes De Biase Martins, um valoroso historiador que infelizmente nos deixou logo após a publicação do trabalho. A obra foi a primeira financiada através da então recém-criada Lei Rubem Braga, da Prefeitura de Vitória. Foi publicada pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, com honrosa apresentação de Renato Pacheco, presidente do órgão na época.

    Penso em Carmélia quando me lembro da nova geração de jornalistas e animadores culturais que passaram a povoar Vitória. Nomes da importância da própria jornalista que tanto cito, ou de outros grandes como Claudio Bueno Rocha, Milson Henriques, Aprigio Lyrio, Amilton de Almeida. A renovação nas artes e nos costumes da cidade causada por um novo contingente de novos personagens foi muito grande.

    Aos poucos a cidade perdia seus ares de presépio para ganhar uma nova dimensão, que em muitos momentos caminhava em direção contrária à proposta da cidade mais tradicional que saiu da república do café. Seus grandes prédios eram inacessíveis aos pobres e sua ausência de preocupação com políticas sociais e culturais mais densas era evidente. Os setores artísticos e intelectuais de classe média, com as suas novas expressões, ganharam a cena.

    Junto a essa nova configuração vieram as dificuldades de mobilidade no trânsito e o grande pesadelo da violência. Vitória foi tomada por levas de camponeses empobrecidos pela erradicação dos cafezais – um pesadelo econômico, social e político – vindos do interior do estado, e mesmo alguns de estados vizinhos. Houve um empobrecimento da paisagem urbana. Para os novos entrantes só havia as palafitas dos manguezais ou a elevação dos morros, além de pior educação, pior saúde pública, poluição do ar, do mar, de tudo. Foi o fim completo do bucolismo que encobria a pobreza da cidade presépio, como também da modernidade aristocrática da primeira república.

    A própria identidade da ilha foi alterada. Começaram a ser usados termos como Grande Vitória e depois Região Metropolitana da Grande Vitória, que passou a envolver municípios vizinhos, sobretudo Vila Velha, Serra e Cariacica. Os problemas se expandiram junto com a expansão territorial. Essas foram, como o nome do livro indica, as trajetórias de nossa cidade, desde a fase colonial até uma construção totalmente focada no econômico e na lógica de massas.

    O nosso centro histórico é bem o exemplo das consequências dessa trajetória. Abandonado e relegado a segundo plano, mostra como o país dos novos ricos trata os traços de seu passado, as marcas de seu crescimento, a identidade e a memória coletiva. Parece que ficamos cada vez mais longe de nossa essência, ao passo que nos aproximamos de um ideal de cidade que nos remete a um arremedo de Miami ou Dubai. Até mesmo os traços rebeldes da geração dos anos 1960 e 1970 perderem-se, em grande parte, no tempo.

  • Urupema

    Boa parte da ação de Urupema se passa na fazenda que pertence aos avós da menina que narra a história.

    Urupema é o nome de um extraordinário romance de Andréia Delmaschio, publicado recentemente, vencedor do prêmio Carolina Maria de Jesus, do Ministério da Cultura, para literatura produzida por mulheres de 2023. É mais um trabalho que atesta o argumento que venho sustentando em vários artigos publicados neste espaço, de que no Espírito Santo se produz uma literatura de alta qualidade. Basta ler Urupema para termos certeza disso.

    Entretanto, não me sinto confortável para realizar uma análise do conteúdo literário da obra, por isso me atenho às dimensões sociológicas do trabalho. Tenho tentado – os que seguem meus artigos são testemunhas disso – levantar, através da boa literatura que se faz no Espírito Santo, os fragmentos da construção do nosso imaginário social, no qual as dimensões do político são sempre muito importantes.

    Boa parte da ação de Urupema se passa na fazenda que pertence aos avós da menina que narra a história. A personagem, logo no início da trama, é apresentada assim: “Férias na fazenda já eram aventura de sobra para a criança cerceada que eu era, o ano inteiro gasto entre a pequena casa de tábuas, ao pé do mangue, e a escola periférica, no alto do morro mais pobre no bairro pobre.” Não se trata, portanto, de uma história que se passa no interior das classes capixabas mais ricas. É, antes, pelo contrário, um mergulho no mundo daqueles que abandonaram a vida no campo para viver o dia a dia das periferias da nossa região metropolitana.

    Em outros romances já apresentados aqui podemos ver o mundo rural capixaba, que tão bem conheço da minha infância nos anos 1950 e 1960, como em O Menino; ou então a dura vida da periferia da Grande Vitória, como nos contos reunidos em A última Noite ou no romance Aninhanha, todos do grande escritor Pedro J. Nunes. Em Urupema, o recurso narrativo utilizado por Andréia Delmaschio é muito original. Nele a periferia, suas feiuras a agruras estão muito próximas do mundo rural, visitado pela narradora em sua infância, mais exatamente no Patrimônio do Ouro e na Vila do Quinze, na região Norte do Espírito Santo.

    Assim, lá pelo auge da ditadura militar, vemos a coexistência desses dois mundos, embora o começo da história se passe justamente nos anos 1950 e 1960. Essa fusão e transição de dois mundos nos dão pistas importantes para entender como uma espécie de longa duração, na tradição historiográfica francesa, se deu entre o universo da roça e da cidade, na modernização industrial conservadora que tivemos na época. A total ausência de políticas públicas por parte das autoridades capixabas para acolher esses deserdados do campo explica muito das mazelas trazidas pela violência, pelo autoritarismo e pela continuidade das desigualdades vindas do campo.

    O livro não fantasia e nem romantiza o mundo rural, lá onde está fincada a colonização europeia do século XIX dos italianos, personagens da história, como os avós paternos da menina. Ali também se fundem a maldade, o preconceito e a discriminação, muitas vezes típicos desses personagens históricos. É muito bem construída a forma como a perversidade machista desse avô paterno se mostra a todo momento. Mau marido, mau pai, mau vizinho, nazifascista. O personagem não deixa que pensemos que tudo o que vem da roça é ingênuo e puro, como muitas vezes se constrói na fantasia urbana.

    A grande diferença entre os dois mundos vividos pela menina no romance é a coesão social: “É provável que a minha pequena família, já nessa época migrada para a cidade há uma década, fosse bem mais despossuída que aquelas outras, dos meus parentes, mesmo os mais pobres, porque eles viviam todos integrados a uma comunidade coesa, na qual grande parte dos serviços e bens era compartilhada e realizada conjuntamente. Antes de tudo, eles tinham uns aos outros.”

    Quanto à vida na cidade maior, é tudo muito mais duro: “Os festejos religiosos, único tópico em que nossos pais aparentavam plena concordância, formaram um capítulo especial no grosso livro dos constrangimentos públicos que nos eram impostos pela mais singela ignorância e farta insensibilidade do casal. A nossa assídua participação neles expunha com imodéstia uma espécie de triunfo dos desejos estéticos e de socialização daqueles dois caipiras suburbanizados.”

    Na família, que vive na periferia da Grande Vitória, onde parece que a paz e a felicidade estavam sempre ausentes, tem destaque a história de um menino particularmente perverso, ligado a toda uma simbologia de violências. Nada vou adiantar de sua participação na trama de Andréia Delmaschio, para não tirar do leitor o desejo de ler essa obra, que engrandece a nossa literatura e é mostra do vigor intelectual das mulheres que escrevem em nosso estado.

  • O Eduardismo

    Parece-nos que, com a atual inelegibilidade do pai, Eduardo pretende tomar a frente de uma certa direita digital bolsonarista.

    O professor Idelber Avelar é autor de um livro importante para entendermos o fenômeno bolsonarista no Brasil: Ele em Nós, que analisa todo o crescimento da onda que levou Jair Bolsonaro ao poder em 2018. O trabalho nos lembra que, antes do advento das grandes manifestações de 2013 e da subsequente onda de rejeição ao petismo, o ex-presidente era um deputado federal do chamado baixo clero, eleito pelo estado do Rio de Janeiro.

    Nada de importante encontramos em sua atuação parlamentar, durante a qual fazia atendimentos clientelistas às famílias dos militares em questões ligadas, sobretudo, ao relacionamento com a burocracia do exército. Tinha, até então, uma prática tipicamente clientelista e nunca ocupou qualquer função que o destacasse na câmara dos deputados, em Brasília. Para a sua reeleição em 2014, porém, criou um novo personagem: inflamado, radical, portador do discurso de uma direita mais próxima ao modelo americano em voga no mundo. Acima de tudo isso, alcançou rápida popularidade o seu perfil de usuário extremado das redes sociais. O personagem deu certo: sua reeleição para o sétimo mandato pelo Rio de Janeiro se deu de forma triunfal, atingindo 500.000 mil votos, cinco vezes mais do que na eleição anterior, em 2010.

    Ele passou a atuar nas redes sociais no novo formato da direita radical e sua presença foi se ampliando politicamente. Saiu de suas bases de voto militar no Rio de Janeiro para conquistar outras praças. Barretos, no interior de São Paulo, onde se faz uma grande festa do mundo do agronegócio, fez dele uma estrela. Foi o primeiro lugar onde brilhou fora do Rio de Janeiro. Com um machismo fake e tóxico – o do imbrochável, o do comedor voraz – sempre com base em declarações exageradas – conquistou esse eleitorado, que se ampliou para Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e grande parte da região Norte, onde o mito da sua presença representava uma nova base eleitoral. Estava criado, assim, o agronegócio bolsonarista.

    Outro contingente importantíssimo na construção da enorme liderança que levou Bolsonaro ao poder foram os evangélicos. Com eles a aproximação se deu pelas bases conservadoras de comportamento moral, associado ao mesmo machismo e à narrativa contra a corrupção, que naquele momento era um ponto fraco dos governos petistas. A adesão dos grandes pastores midiáticos como Silas Malafaia, Edir Macedo e RR Soares deu densidade eleitoral a essa aproximação e, desse modo, mais uma camada de eleitores aderiu ao fenômeno da eleição de 2018.

    Para não ir mais longe, basta lembrar a bancada da economia, inicialmente apenas com a presença de Paulo Guedes, mas que deu muita legitimidade ao discurso liberal de Jair Bolsonaro. Discurso que – acredito eu –, em grande parte nem ele próprio entendia. Sua trajetória foi de servidor público militar a político, portanto, visceralmente vinculado ao estado, longe das teses liberais mais comuns entre empresários.

    A manutenção desse leque amplo de alianças durante o mandato não foi tarefa simples. As grosserias ditas em nome do machismo ou da liberação das armas, por exemplo, certamente desagradaram as mulheres, de modo geral, e especialmente as mulheres evangélicas mais pobres, que sempre pagaram caro por esse tipo de atitude em suas vidas privadas. Mesmo assim Jair Messias se deu bem, até certo ponto, embora não de forma a garantir sua reeleição. Depois do 8 de janeiro de 2023 e de tudo o que se seguiu, a coalizão em torno de sua figura começou a implodir.

    Os sintomas mais fortes da implosão estão claros nas ações do deputado Eduardo Bolsonaro, seu filho eleito pelo PL de São Paulo. Na coalizão bolsonarista Eduardo sempre articulou com o pai a porção mais virulenta, mais articulada com a extrema direita global. Com discurso mais agressivo que o do seu pai, e com temperamento tão difícil como o dele, transformou-se no discípulo mais fiel das ideias extremistas e ultrapassadas de Olavo de Carvalho.

    Parece-nos que, com a atual inelegibilidade do pai, Eduardo pretende tomar a frente de uma certa direita digital bolsonarista, rede poderosa e imensa, sem a qual toda e qualquer liderança nesse espectro fracassa. Foi para os Estados Unidos para exercer e ampliar sem limites essa liderança. Anda fulminando os que pretendem levar a construção política do pai para o cento do espectro político, ganhando os moderados, como também busca obter, paralelamente, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

    Existem evidências de que Eduardo prefere o cenário de uma nova eleição de Lula, para poder continuar com a corda esticada e assim manter a polarização a que tem dado causa. Desse modo, criaria uma espécie de Eduardismo, ou seja, a continuação da disputa com a esquerda, usando a radicalização como arma, ao mesmo tempo dispensando a enorme coalização que o pai fez. Risca de jogar os mais moderados no colo de seus adversários à esquerda e impedir a ascensão de uma centro-direita mais moderada. Só o futuro nos mostrará a dimensão do Eduardismo no Brasil, pois, como disse o poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu poema Resíduos: “Fica sempre um pouco de tudo. Às vezes um botão. Às vezes um rato.

  • Marapé

    Com a liberdade da ficção e os conhecimentos da história, grandes autores formam o tecido dessa teia que nos mostra as significações imaginárias sociais que nos enredam.

    Tenho tentado reunir, na boa literatura que se faz no Espírito Santo, elementos que nos mostrem como foi construído o nosso imaginário social e venho escrevendo sobre isso. Com a liberdade da ficção e os conhecimentos da história, grandes autores formam o tecido dessa teia que nos mostra as significações imaginárias sociais que nos enredam.

    Dentro dessa perspectiva, li recentemente um romance bastante interessante, do qual gostei muito. Trata-se de Marapé, de Levy Rocha, editado em 1978 por meio do então Ministério da Educação e Cultura. A leitura foi feita por indicação de meu amigo Francisco Aurélio Ribeiro, cujos conhecimentos em termos de literatura são excepcionais, um dos maiores conhecedores do que se produz nessa área em nosso estado, sendo ele próprio um autor muito respeitado.

    Levy Rocha, capixaba nascido em 1916 na região cenário do romance, São João do Muqui, foi casado com a importante educadora Anna Bernardes da Silveira. Ele passou a infância no arraial de São Felipe, sendo o relato produto de suas recordações e vivências. Eu gosto muito de analisar esse tipo de literatura, na qual o que se passa mistura ficção e realidade, permitindo ao leitor vislumbrar com clareza a alma e o imaginário do nosso povo.

    São dele também as obras Viagem de Dom Pedro II ao Espírito Santo, Viajantes Estrangeiros no Espírito Santo, Crônicas de Cachoeiro, De Vasco Fernandes Coutinho aos Contemporâneos, além de outras contribuições à vida intelectual capixaba e brasileira com a publicação de artigos em jornais e revistas. Produziu, portanto, uma obra importante em termos da historiografia capixaba. O romance articula o bom texto, a vivência pessoal e os conhecimentos de história.

    A cidade que dá nome ao livro, Marapé, chama-se atualmente Atilio Vivacqua e fica ao Sul do Espírito Santo, não muito longe de Cachoeiro de Itapemirim. No romance, entretanto, chamava-se ainda São Felipe, pois a ação se passa nos tempos da primeira república, no mundo dos coronéis e do coronelismo. Essa é, aliás, a sua graça, a exploração bem estruturada daquele mundo antigo e cheio de hierarquias, violências e desigualdade. Nada de romantizar o passado.

    A pobreza em que estavam mergulhados os personagens chama a nossa atenção. Narrando o dia a dia de um camponês que trabalha na roça de seu patrão, diz o autor: “Andava sempre sem dinheiro. Só havia fartura de miséria e de serviço. A lavoura era trabalho para quatro homens. Tocava com a única ajuda da mulher.”

    Havia também os ambientes frequentados pelos coronéis, os proprietários de terra, suas famílias e agregados. Esses lugares eram descritos com os requintes da época em termos de mobiliário, decoração e outros detalhes. Já os ambientes da imensa maioria dos moradores do lugarejo eram despidos de tudo, onde havia somente trecos improvisados e desconfortáveis.

    Comiam muita abóbora, batata-doce, inhaminho, mandioca, taioba; era tudo comida de engordar porco, mais satisfazia os muitos filhos que cada casal pobre possuía. Havia ainda os peixes: acarás, piabas, lambaris, bagres e traíras. Era o mundo dos pobres trabalhadores do campo do interior do Espírito Santo, que a maioria dos leitores muito bem conhece.

    Em Levy Rocha, tanto quanto em outros autores aos quais tenho me referido, neste espaço, para ilustrar a construção do imaginário capixaba (Renato Pacheco, Getúlio Neves, Adilson Vilaça, Pedro Nunes e outros), também temos a presença sempre marcante da violência, encarnada pela presença policial. Nesses tempos que antecederam a chamada Revolução de 1930, era nas pequenas delegacias que o pau quebrava no lombo dos pobres.

    Coronel Odorico representava e exercia essa violência do poder contra o povo desfavorecido, organizava as eleições fraudadas e controlava os postos públicos, sobretudo os da polícia. Em São Felipe, mandava em todo mundo. Foi vencido pelos que implantaram um novo governo, que, como todos sabemos, não mudou tanto assim esse quadro de penúria e violência contra os mais pobres.

    No final do romance, como em um desabafo, diz o narrador: “Bastava de tantas mortes. Morriam os bons, assassinados; os covardes, suicidados; os maus, tocaiados, morriam crianças pobres, de fome.

    Afinal de contas, morrer por que, se viver era tão bom? Morar na lavoura, numa casa de estuque e chão batido, com uma companheira sacudida, trabalhadeira, de mãos grossas de calos do cacumbu, com mãos de macho, rodeados da filharada.”

    Era assim o Espírito Santo das primeiras décadas da república, no início do século XX, para os que não foram premiados com a sorte de pertencer às famílias poderosas; um estado muito bem retratado pela escrita saborosa de Levy Rocha.

  • O futuro da centro-direita

    Analistas vinham trabalhando com a ideia do surgimento de uma centro-direita com um discurso mais comedido.

    Quando, em 2018, a força avassaladora da candidatura presidencial de Jair Bolsonaro tomou conta do processo eleitoral, o carisma do candidato tornou-se uma forte marca. É comum que fenômenos de uma grande força política, de uma liderança potente, dominem determinado processo eleitoral e se transformem numa espécie de febre que toma grande parte dos os eleitores, conduzindo todos os desdobramentos da situação.

    No Espírito Santo isso ocorreu em 1982, quando Gerson Camata venceu o pleito e alavancou um grande número de prefeitos, vereadores e deputados. Foi a estrela Camatista que presidiu aquele momento tão rico em nosso estado. Toda uma geração política de líderes como Paulo Hartung, Luiz Moulin, Rose de Freitas e Renato Casagrande nasceu ali. A lógica dos governos militares que findavam sua jornada política foi francamente derrotada e o Espírito Santo começou uma nova jornada.

    Entretanto, voltando aos fatos nacionais contemporâneos posteriores à vitória disruptiva da nova direita, por diversas e complexas razões que os leitores muito bem conhecem, a gestão de Jair Bolsonaro frente ao governo nacional não ampliou e nem manteve acesa toda essa força, tanto que ele não se reelegeu em 2022. Mesmo assim, o bolsonarismo permaneceu suficientemente forte para seguir importante na cena política brasileira, e de forma decisiva em muitas situações. Mas uma coisa também é certa: a liderança de Jair Bolsonaro continua, mas é uma força em evidente declínio.

    Um exemplo muito claro disso é o esvaziamento das manifestações de rua organizadas pela direita e por seus grandes líderes evangélicos, como o Pastor Silas Malafaia. O eleitor que foi às manifestações apinhadas de gente nas versões anteriores, mas que não compareceu a essas últimas, nem por isso deixou de ser conservador. Talvez esteja mais contido nos discursos ou mesmo cansado da chamada guerra cultural, mas continua conservador. É preciso acompanhar com atenção o que vem se passando nessa bolha de insatisfeitos devido à radicalização, à verbalização excessiva. Existem sinais de cansaço, afinal são quase oito anos de discussões, palavrões, bate-bocas, quando não agressões físicas.

    Todas as evidências indicam que há uma massa expressiva de eleitores que deseja certa pacificação, buscando um líder com propostas nacionais fora da disputa que atualmente está colocada. Assim, em um país que continua conservador, porém cansado do extremismo, pareceria natural que as lideranças de direita fizessem uma inflexão para o centro. Os analistas vinham trabalhando com a ideia do surgimento de uma centro-direita com um discurso mais comedido, capaz de absorver esse contingente de moderados.

    Tudo vinha apontando na direção de uma candidatura de centro-direita mais viável eleitoralmente. Tanto é assim que o nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, havia despontado como liderança capaz de ocupar esse espaço de maior moderação. Ministro do governo de Jair Bolsonaro, oriundo de um quadro mais técnico e de pouca experiência política, venceu a eleição graças à força do ex-presidente no interior de São Paulo, mas vem conduzindo o governo sem os extremismos do líder a quem serviu.

    Desta forma, saiu das entranhas do bolsonarismo um quadro que parecia capaz de fazer a transição para uma centro-direita mais técnica, menos explosiva e mais focada em políticas públicas. No entanto, desde a eleição e posse do presidente Donald Trump, as coisas começaram a mudar, a desandar. Do alto de sua inexperiência, Tarcísio se precipitou em tudo: na adesão ao novo presidente estadunidense, na defesa de sua lógica imperialista e, sobretudo, no apoio ao tarifaço. O resultado de tantos desacertos tem sido a inevitável desidratação de sua candidatura.

    Para piorar a situação da direita, eis que o deputado federal do PL de São Paulo, Eduardo Bolsonaro, começou uma campanha de radicalização nacional contra o STF, na tentativa de salvar seu pai da condenação pelos atos golpistas do final de seu governo. Eduardo não está gostando das posições de liderança mais moderada no processo de Tarcísio. Começou a atirar também nele, enfraquecendo ainda mais sua possível candidatura presidencial.

    Convenhamos que é muita confusão para uma candidatura só. A direita, assim, vai perdendo o lugar de destaque que vinha ocupando no quadro nacional. Como ainda estamos a um ano das eleições, muita coisa vai mudar, mas a direita recuou duas casinhas no jogo nacional de poder, cedendo espaço ao experiente Lula.

  • Coisa de rico

    Analisar o mundo dos ricos, famosos e poderosos é uma forma consistente de encontrar um eixo de sustentação da coesão em uma sociedade tão hierarquizada e desigual.

    Li recentemente o livro cujo nome dá título ao artigo desta semana, e cujo subtítulo é a vida dos endinheirados brasileiros, escrito pelo antropólogo Michel Alcoforado. Esse livro tem dado a ele muito espaço na mídia. Seus podcasts É Tudo Culpa da Cultura encontram-se entre os mais ouvidos nos últimos tempos. É realmente um autor que tem muito conteúdo e que encontrou na ostentação típica da sociedade brasileira um bom vetor de análise.

    Analisar o mundo dos ricos, famosos e poderosos é uma forma consistente de encontrar um eixo de sustentação da coesão em uma sociedade tão hierarquizada e desigual como a nossa. Justamente por essas mesmas razões é que me ponho, há muito tempo, a estudar o mundo dos coronéis e do coronelismo como a origem do nosso sistema político, extremamente autoritário desde suas raízes até suas manifestações no tempo presente. O mundo dos ricos nos ajuda a desvendar o imaginário social de toda uma sociedade, é uma janela analítica.

    A antropologia brasileira tem ajudado muito a entender O que Faz do Brasil, Brasil – como já escreveu outro brilhante antropólogo, o professor Roberto DaMatta, autor do antológico Carnavais, Malandros e Heróis, que nos anos 1970 nos ensinou sobre o malandro e sua ética, o jeitinho brasileiro e as inversões do carnaval, que fazem a vida ficar suportável neste vale de lágrimas brasileiro. DaMatta é um gigante do pensamento social brasileiro, um intelectual maior que nos brinda até hoje com inteligentes artigos no jornal O Estado de São Paulo.

    Outro brilhante intelectual nessa mesma seara é Juliano Spyer, autor de O Povo de Deus: Quem são os Evangélicos e por que eles importam, livro publicado em 2020, que esclarece as razões pelas quais esse fenômeno de sociedade é tão importante. Com um olhar livre de preconceitos, Spyer nos ensina a profundidade do que se passa nesse universo. Com ele aprendi que, enquanto o conjunto da sociedade brasileira não entender por que os pobres da periferia – que professam o chamado neo pentecostalismo com tanta convicção – aderiram ao discurso da prosperidade e a uma leitura conservadora da bíblia, não sairemos dos enormes impasses que nos cercam e nos impedem se ser uma nação mais justa com todos. Há nesse contexto muitas outras razões além do que articulam os que os acham apenas vítimas de pastores charlatões.

    Finalmente, chego ao livro que acabo de ler: Coisa de Rico. Ele é a versão – certamente adaptada para um público maior – da tese de doutorado em Antropologia Social de Michel Alcoforado, que há anos se dedica a pesquisar o impacto do consumo na vida dos brasileiros. Para ele há um traço comum a boa parte dos endinheirados brasileiros: eles não se consideram ricos. Por mais variados que sejam os costumes, a origem e a quantidade de dinheiro, o fato é que não existe um critério absoluto para a riqueza no Brasil. Aqui ela é relacional, e é justamente nesse aspecto relacional que a antropologia exerce sua enorme capacidade explicativa do universo cultural dos brasileiros. O texto do livro lembra que sempre haverá alguém com mais dinheiro, mais pompa, mais patrimônio, mais próximo do topo da pirâmide.

    Como a questão é relacional, o que determina o mundo dos ricos, para si mesmos, são sinais visíveis somente para quem compartilha dos mesmos valores. Ele nos mostra que dois grandes grupos existem dentro do mundo dos ricos: os bem-nascidos e os novos-ricos. Os que pertencem ao grupo dos novos-ricos precisam mostrar seus sinais visíveis de riqueza a todos. Afinal, mesmo que tenham conseguido emergir da massa de dificuldades dos empreendedores que construíram fortuna com seus esforços, ainda terão parentes e amigos no mundo do qual tentam a todo momento se afastar. Por isso os rolex de ouro, os procedimentos estéticos, o corpo magro e malhado, as leituras performáticas, enfim, todo o comportamento caricato que busca demonstrar o quanto a pessoa se aproxima dos ideais dos endinheirados.

    Por outro lado, os bem-nascidos não fazem compras em Miami e nem ostentam ouro por todo o corpo. Ao contrário, são discretos. Os sinais de sua riqueza só são entendidos pelos que sabem ler os códigos. Roupas caríssimas feitas de forma exclusiva, mas sem marcas ostensivas, que só quem sabe que custa muito caro entende. Sinais para um mundo de dentro, que exclui com força, perversidade e elegância.

    Eu diria que estamos no Brasil dos jogadores de futebol ricos, das influenciadoras de fortuna recente, dos grandes pastores midiáticos, dos chapelões do agronegócio, do breganejo. Estamos todos sujeitos, o tempo todo, a uma cafonice estética massificada a partir desses sinais visíveis de riqueza. O que nos faz, na verdade, mais pobres, distantes das nossas raízes e próximos a universos que nos afastam de nós mesmos.

  • O aprendiz

    O Aprendiz filme revela as origens do estilo controverso de Donald Trump.

    Assisti há alguns dias, na Netflix, um filme muito interessante chamado O Aprendiz, que trata da ascensão empresarial do jovem e ambicioso Donald Trump na Nova Iorque dos anos 1970. Trump acaba por ser acolhido em suas pretensões por um advogado de poucos escrúpulos, Roy Cohn, com seus planos, nada triviais, de enriquecimento no setor imobiliário na cidade, então falida. O roteiro do filme tem uma história que já mostra os passos iniciais de um negociador cheio de artimanhas distantes da ética.

    O Aprendiz mostra a ganância do jovem empresário disposto a tudo para vencer e sua aproximação com o advogado Roy Cohn, sem critério éticos, que foi também o principal conselheiro do senador Joseph McCarthy em 1954. Naquela ocasião Cohn o auxiliou em investigações para incriminar os acusados de serem comunistas. Nas décadas de 1970 e 1980 o mesmo advogado tornou-se importante agente político na cidade de Nova Iorque. Foi como advogado trapaceiro e operador de acordos comerciais obtidos sob coação que ele representou e foi o principal mentor de Donald Trump em sua trajetória vertiginosa no mundo dos negócios imobiliários.

    Em 1986 Cohn foi destituído pela Divisão de Apelações do Supremo Tribunal do Estado de Nova Iorque por conduta antiética, após tentar fraudar um cliente moribundo, forçando-o a assinar uma alteração no testamento que deixaria toda sua fortuna ao advogado corrupto. Roy Con morreu por complicações decorrentes da Aids, negando até o fim ser soropositivo. Foi nessa forja moral que se moldou a personalidade de Donald Trump. Ele seguiu muito de perto os passos de seu mestre, por isso o filme se chama O Aprendiz, remetendo também ao nome de um programa de televisão que o agora presidente americano estrelou por longos anos.

    Nesse mundo onde Trump prosperou havia uma adoração pelos Estados Unidos, proclamados como o paraíso da liberdade e como potência mundial. Um patriotismo exclusivista que não levava em conta negros, pobres ou todos aqueles que eram considerados perdedores. Esse tipo de patriotismo somente cabia em personalidades como a dele, vinculadas à lógica da supremacia racial, de um machismo antiquado, de um mau gosto a toda prova no mundo da estética. Tudo isso que hoje vemos no modelo político de gestão do presidente Trump nasceu do aprendizado que pode ser visto no filme, lançado em 2024.

    Quando comparamos o que vimos na tela com os fatos políticos que se passam hoje no império americano, fica fácil entender por que a lógica política das gestões de Donald Trump são tão desprovidas de compaixão, de solidariedade ou mesmo de espírito público, em sentido mais amplo. Ela aprendeu a sobreviver como um grande magnata pisando no pescoço de quem precisasse pisar, inclusive da própria família, com vemos na tela. É assim que ele vê o mundo.

    O estilo de negociar contratos e vantagens bem descrito no livro A Arte da Negociação, um best seller mundial assinado por Trump, mostra sem pudores instrumentos até hoje usados por ele: o pensamento grande, o instinto, a ousadia e as táticas agressivas para o mundo dos negócios. Tudo o que podemos acompanhar pela mídia nos mostra que esse modelo usado no mundo privado, que o fez enriquecer, é o mesmo que utiliza na esfera pública, agora na condução da economia mais importante do mundo.

    Ao impor seu tarifaço ao mundo, ou ao apoiar as atrocidades cometidas pelo governo sanguinário de Israel, o que se vê são os vestígios dessa formação de caráter para ser um valentão, um sujeito de usa de quaisquer armas para tirar vantagem em sua posição privilegiada. O governo que esse personagem conduz mostra muito bem um certo ideal estadunidense de supremacia no mundo. Para ele é preciso inflar cada vez mais esse nacionalismo opressor, racista e desigual. Se foram feitos para serem os donos do mundo, os outros povos que se submetam – assim pensam os adeptos de suas ideias.

    Nesse ponto da submissão de outros povos está o que mais me intriga, quando vejo milhões de brasileiros portando ou promovendo a bandeira americana em suas manifestações, ou mesmo desejando um ato de força de Donald Trump contra o Brasil, para forçar o STF a tomar uma medida favorável ao ex-presidente Bolsonaro. Como seria possível um dirigente totalmente vinculado aos interesses de um imperialismo desalmado fazer concessões a um país latino-americano, olhado com desprezo pelas forças que sustentam o atual governo estadunidense?

    Tudo nesse mundo trumpista – mesmo a sua defesa entre os radicais de direita brasileiros – me parece pouco consistente, a não o desejo desenfreado e contínuo de ganhar dinheiro e de acumular poder, muito poder. Todo o resto são detalhes no universo cafona que essa gente criou.