Moqueca, Convento e identidade

Por João Gualberto e Helio Gualberto Neto

A moqueca, o convento da Penha, belezas naturais como o Moxuara, o Mestre Álvaro, o Penedo e o Morro do Moreno. As praias, os acordes de Mauricio de Oliveira e até o cantor Silva. Muitos foram os ícones culturais – cultura aqui entendida em seu sentido mais amplo – citados pelos moradores da Grande Vitória no estudo que a Persona realizou para o ES HOJE. 

A pergunta sobre quais são os ícones culturais de cada uma das cidades evidenciou o quanto nossa conexão com os territórios é complexa, pois é resultado de uma grande teia de relações imaginárias sociais e de suas profundas significações em nossas vidas.

Também evidenciou que tangibilizar sentimentos, ideias e valores que dizem respeito a algo que é subjetivo e particular não é uma tarefa simples. Mas, o que as respostas obtidas mostram sobre a relação das pessoas com seu ambiente de vivência social? 

Os elementos citados no início do texto, diversos, imprecisos, variados e até peculiares mostram isso. Entre as quatro cidades, apenas Vila Velha tem um ícone cultural consolidado: o Convento da Penha, com mais de 54% de citações entre os moradores da cidade. Em Cariacica e Serra, a maioria das pessoas responderam que não sabiam qual era o maior ícone da cidade. E os moradores de Vitória, além de elegerem a moqueca, um ícone cultural de todo o Estado, também falam com frequência do Convento.

Moqueca capixaba, prato típico do Espírito Santo. Fonte: Secretaria de Turismo do Espírito Santo (SETUR).

O conhecimento dos moradores sobre a história de suas cidades também é muito pequeno: todos os municípios, com exceção de Vila Velha, ficaram com índice negativo na metodologia utilizada para o estudo, ou seja, de -15.37%  no NPS (Net Promoter Score) da Grande Vitória . 

A partir do estudo, não é exagero dizer que os moradores da Grande Vitória conhecem pouco seus ícones culturais, como parece ser o caso dos capixabas de uma forma geral. Parece nos faltar esses grandes ícones. Ou, ainda, reconhecer melhor nossa história e símbolos culturais. Celebrar o Congo ou o Ticumbi, por exemplo, dar valor a uma das trajetórias mais antigas do Brasil com a presença de indígenas, jesuítas e europeus, desde os portugueses chegados no século XVI até italianos, poloneses e germânicos vindos mais recentemente. Valorizando sim as belezas naturais, como parece bem razoável. Mas também a culinária, a música e o potencial turístico. Em síntese, levar nossa identidade regional em conta. 

Ticumbi de Itaúnas. Fonte: Folha Vitória.

Podemos dizer, ainda, que dialogar com a população da Grande Vitória mostra que podemos e devemos investir muito mais na ideia de dotar nossas principais cidades de sentido e significado simbólico, dando a elas, por meio da dimensão do “placemaking” (que poderia ser traduzido do inglês como construção do lugar), um lugar imaginário na cultura. E, consequentemente, enaltecendo elementos que atraem e encantam moradores e visitantes. 

Em suma, dialogar com a cidade nos ajuda a perceber a necessidade de reconhecer e construir novos olhares para nossa cultura. Pois mesmo que não existam respostas fáceis, revisitar e ressignificar nossas próprias identidades é possível e desejável. 

Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje, no dia 02 de fevereiro de 2023.

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6 respostas a “Moqueca, Convento e identidade”

  1. Avatar de Rose Tristão
    Rose Tristão

    Bom dia João!!!

    Por mais textos como este!! Excelente!!
    A falta de identidade, de raiz cultural, nos enfraquece como povo! Falta a sensação, o orgulho de “pertencer”.”Retrato da sociedade brasileira”, e mais acentuadamente na grande Vitoria, e pq não dizer no ES. Nos Brasileiros somos um “povo” que desconhece sua próprio historia e destrói todos os seus “mitos”! Um povo sem heróis! Ao mesmo tempo temos pesquisadores e produções acadêmicas maravilhosas, dignas de citações e reconhecimentos internacionais. Muitas ajudariam na construção de nossa identidade!

    Mas, pelo jeito, o conhecimento fica restrito aos muros das academias e o povo condenado aos programas de TV aberta como, Silvio Santos e Big Brothers! Triste e atrasado Brasil! Triste Espirito Santo, tão velho e ainda sem identidade!

    Abraço!!
    Rose Tristão

  2. Avatar de Pedro Antônio de Souza
    Pedro Antônio de Souza

    Parabéns pelo texto obsolutamente oportuno e verdadeiro.
    Seria inoportuno e indelicado pedir caminhos e responsabilidades para mudança neste quadro de fragilidade identitária?

  3. Avatar de Osmar L R Oliveira
    Osmar L R Oliveira

    Bom o estudo pelo que nos ajuda a entender melhor o nosso Estado. Pena que o Pico da Bandeira não tenha merecido nenhuma citação – afinal, é um Marco geográfico que deu causa ao Parque e no por muito tempo foi tido como o ponto culminante do Brasil, além de se situar numa região de rara beleza montanhosa.

  4. Avatar de ITALO CAMPOS
    ITALO CAMPOS

    Poderíamos falar de uma “identidade capixaba ?” É uma questão que ouço desde os anos 70. Intelectuais, jornalistas, artistas e até políticos ensaiaram uma resposta, uma explicação e até tentativas de construção ou reconhecimento dos elementos simbólicos-imaginários que caracterizariam tal perfil. O ex-secretário Lino Gomes, o ex-prefeito Hermes Laranja, o jornalista Rogério Medeiros muito contribuíram para o debate. Esta pesquisa apresentada pelos João e Hélio Gualberto nos mostra o quanto estamos longe de estabelecer esta identidade pois nós faltam ícones, referência, símbolos unificadores, fortes, coletivo e arraigados na comunidade geral.

  5. Avatar de Genildo Coelho Hautequestt Filho
    Genildo Coelho Hautequestt Filho

    O dia que nossos gestores públicos compreenderem a importância da cultura, quem sabe este cenário desolador de um povo “sem referências identitárias” possa ser mudado? Cultura não é um acessório que ornamenta o edifício da identidade, ela é a estrutura, sobre a qual ele é erguido.

  6. Avatar de Ângelo Moreira
    Ângelo Moreira

    Muito bom ler um artigo dessa magnitude, grandeza!

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