Por João Gualberto
No último dia 02 de março, um dos grandes personagens da vida política capixaba dos últimos 40 anos nos deixou para sempre. Morreu com a simplicidade com que sempre viveu um dos homens mais cultos e exuberantes que já conheci, Luiz Ferraz Moulin. Duas vezes prefeito da sua querida Guaçuí, o primeiro secretário de meio ambiente de nosso estado, secretário de justiça do primeiro governo Paulo Hartung, com grandes tarefas para aquela época.
Luiz sempre foi um disruptivo. Minha família passava férias em Nova Almeida já distante verão de 1969. Eu era amigo de primos dele. Foi quando o conheci. O ano de 1968 havia terminado com o terrível AI5. Ele era liderança estudantil de esquerda em Vitória, onde cursava o direito da UFES. Naquele verão ele resolveu sumir de lugares óbvios, temeroso da polícia política do regime.
Foi um grande encontro na minha vida. Meu pai era juiz de direito em Colatina, onde vivíamos. Foi transferido da comarca de Guaçuí anos antes. Foi um grande encontro. Ele conhecia os personagens que só habitam os jornais do Rio e de Vitória que meu pai assinava. Passávamos horas na praia, onde ele só ia mesmo para conversar. Jamais aprendeu a nadar, andar de bicicleta ou dirigir. Era um habitante do estranho universo das ideias, da cultura e dos ideais de progresso e transformação social. Muito aprendi com ele nesse verão de Nova Almeida.
Na sequência mudamos para Vitória, onde também fui estudar na UFES. Nossos cursos eram noturnos. Costumávamos ir e voltar juntos. Mais conversas de política. Mais aprendizado, até que ele foi cursar sociologia como mestrado em Paris, nos anos 1970. O reencontrei candidato a deputado estadual pelo PMDB em 1978. Era o nosso candidato, o candidato da centro esquerda intelectualizada. Seus discursos potentes não foram suficientes para elegê-lo, mas o prepararam para outra missão. Na onda da redemocratização e da eleição de Gerson Camata, foi eleito prefeito de Guaçuí.
Fez o governo municipal mais moderno e democrático de sua geração, seja em termos regionais, seja em termos nacionais. O orçamento participativo mudou a lógica de distribuição de recursos municipais. A polícia interativa foi modelo importante para a geração de uma elite militar mais comprometida com os ideais da Nova República. Foi um governo disruptivo em todos os sentidos. Desalojou velhos interesses do poder para dar passagem para o novo. Representantes de camadas até então silenciadas tiveram voz. Se nada mais tivesse feito nesse mundo, somente essa sua gestão seria o bastante para colocá-lo do panteão dos grandes políticos de sua geração.
Foi depois nosso primeiro secretário de meio ambiente e mais tarde, no primeiro governo de Paulo Hartung, secretário de justiça. Missões que cumpriu muito bem. Fora da política nos últimos anos, adquiriu um caráter mais conservador, mais tradicional.
Como nunca admitiu corrupção, ingressou no discurso mais forte do lava-jatismo. Sempre foi monarquista, tanto que foi o coordenador estadual da campanha monarquista de 1993. Esse seu lado mais tradicional monarquista, seu profundo catolicismo tradicional – devoto de São Miguel Arcanjo – o conduziram a uma simpatia grande com as Novas Direitas. Estava sempre antenado com as novidades nesse campo.
Esse foi o meu grande amigo Luiz Moulin. Disruptivo, exuberante, em muitos momentos exagerado, mas um personagem vital nas conquistas recentes da política capixaba. Uma enciclopédia.
Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 03 de março de 2023.

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