A CONSTRUÇÃO AFRO-CAPIXABA

Este texto, escrito com prefácio da obra Negros no Espírito Santo, faz parte de três ensaios que buscam colaborar com o debate e a pesquisa em torno dos elementos que ajudam na formação da identidade capixaba: negros (A construção afro-capixaba), europeus e indígenas. 

 

João Gualberto

Entre as etnias que construíram o povo capixaba, tanto do ponto de vista físico como cultural, uma das  menos estudadas é a negra.  Tudo aquilo que diz respeito à sua presença entre nós costuma ser relegado a um incrível segundo plano. Pelo menos é muito menor o reconhecimento social do que a contribuição efetivamente dada pelos africanos ao processo social-histórico capixaba e também brasileiro em todos os termos, inclusive o cultural.

A parcela de responsabilidade dada ao capixabismo – para usar um termos hoje abandonado – dos que para aqui chegaram durante o período colonial escravizados pelas elites luso-brasileiras, e submetidos a condições sub-humanas de vida, também é obviamente menor que toda a contribuição real na construção do nosso imaginário social.

Foram eles tratados como párias em uma sociedade que se construía sob a marca da desigualdade e do preconceito social. Parte importante desta carga de preconceito foi dirigida justamente aos que foram cruelmente trazidos da África para o trabalho obrigatório. Daí sua quase invisibilidade mesmo no campo das contribuições intelectuais e nas explicações sobre a nossa vida social. Dai a pequena quantidade de obras dedicadas ao seu estudo. Aliás, o mesmo quadro se repete com relação aos nossos indígenas, também pouco conhecidos e pouco estudados.

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Em maior número tem sido os trabalhos dedicados a presença real e simbólica daqueles que aqui chegaram como imigrantes vindos de terras europeias, sobretudo os italianos e os germânicos. Não é sem razão esta diferenciação de esforços intelectuais.

A condição de escravos os tornou indivíduos sem cidadania. Deles tudo foi roubado: valores, família, prazer. A condição de escravos lhes retirou toda a possibilidade de construir autonomias e subjetividades independentes. Tudo era feito para os tornarem inferiores aos brancos para que pudessem ser usados quase que como animais voltados exclusivamente às suas tarefas produtivas e à reprodução desta odiosa força de trabalho. O olhar que as elites tinham sobre eles era a de seres desprovidos de essência. De humanidade mesmo. Os castigos impostos, a comercialização dos seus corpos, seu trabalho e sua alma acabaram por transformá-los em um povo muito discriminado entre nós. A crueldade real no tratamento cotidiano dado aos escravizados no mundo que o lusitano criou no Brasil ainda permanece viva entre nós. Transformou-se historicamente em uma quase invisibilidade da forte herança negra. Se não totalmente invisível esta herança cultural, ao menos massificado de forma nem sempre positiva.

O reconhecimento histórico da força moral dos negros passa despercebida na sociedade brasileira atual. O heroísmo com que o povo africano enfrentou os trabalhos forçados, a tortura, a desconstrução da vida familiar, a negação de sua história e de sua cultura não está devidamente marcada no imaginário social brasileiro. Faz parecer banal a submissão de centenas de milhares de africanos e de negras e negros já nascidos no Brasil. É um dos sintomas mais graves da doença social que nos assola, que faz do Brasil uma sociedade não apenas desigual, mas profundamente despreocupada com a construção da igualdade.

Essa mesma discriminação que acompanha os negros no Brasil certamente acompanhou o seu legado cultural. Quando pensamos mais especificamente em terras capixabas, vemos claramente a distância entre as suas heranças culturais e a importância social que a sociedade como um todo dá a elas. Nem todos os que aqui nasceram e que aqui vivem conseguem perceber a força da cultura negra, a força de suas heranças no nosso universo cultural nos dias de hoje. E não apenas em celebrações – estas sim mais conhecidas – mas na força de um caráter que os fez sobreviver e sobreviver suas culturas em um meio muito inóspito. Que fez chegar até nós inúmeras manifestações culturais, sobretudo através de festas e celebrações.

É justamente neste distanciamento entre a contribuição real e seu reconhecimento social, que vai trabalhar, na minha visão,  a obra do Professor Cleber Maciel – cuja segunda edição foi organizada por Osvaldo Martins de Oliveira – editada pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Fez Cleber Maciel um levantamento minucioso do tema desde as origens dos negros capixabas até sua herança cultural, passando por lutas e discriminação.

Este trabalho de folego é agora complementado por uma coletânea de textos organizada por Osvaldo Martins de Oliveira e com contribuição de outros importantes intelectuais capixabas. Não se trata portanto de uma simples reedição. Trata-se antes de um olhar sobre a obra inicial 20 anos depois, incorporando outras questões tão relevantes quanto aquelas iniciais.

Como registra a apresentação feita por Leonor Araújo e por Osvaldo Oliveira, teve Cleber Maciel uma maneira específica do fazer intelectual, que é aquela empreendida de dentro e que propõe fazer uma história dos africanos e seus descendentes  no Espírito Santo. Nela o próprio autor militante e intelectual negro estava implicado. Estava de fato em busca de referências simbólicas de sua própria identidade, segundo estes mesmos pesquisadores.

Nos novos textos agora trazidos aos leitores, temos reflexões densas sobre as várias contribuições dadas ao patrimônio cultural brasileiro e capixaba pelos africanos que aqui chegaram e pelos seus descendentes. São pesquisadores que se consideram seguidores de Cleber Maciel e que levam adiante as pesquisas sobre os agrupamentos negros e suas práticas no Espírito Santo. Foram eles produziram um pósfácio – 20 anos depois da primeira edição –  atualizando e explorando em profundidade temas citados ou apenas mencionados pelo Professor Cleber.  

E não são poucos os temas explorados por este grupo de excelentes pesquisadores afetiva e intelectualmente vinculados aos temas tratados na primeira edição . São exemplos dos temas trazidos agora o Jongo, o Ticumbi, Os Congos e o Candomblé. Apenas alguns deles. Outros pontos importantes como quilombos ou mesmo política de cotas também são agora trazidos ao leitor. Ou seja, temos um panorama muito bem construído das questões que dizem respeito à presença simbólica africana em terras capixabas.

A partir destes elementos os leitores poderão fazer também suas reflexões importantes, afinal quando um autor ou um grupo deles  lança ao mundo seus estudos, o que ele deseja de fato é permitir que um público mais amplo discuta as ideias  e possa a partir disto construir um novo olhar sobre determinado objeto com mais profundidade. Um autor pode mudar uma percepção e fazer avançar a compreensão de mundo que temos dele. Temos certeza de que este livro permite isto. Por esta razão sua aparição neste momento muito enriquece as percepções sobre a construção do que poderíamos chamar de identidade capixaba.

 

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O livro do professor Cleber Maciel, reflexões importantes sobre as contribuições dadas ao patrimônio cultural brasileiro e capixaba pelos africanos que aqui chegaram.

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