IMIGRAÇÃO GERMÂNICA E IDENTIDADE CAPIXABA

Este texto, escrito com prefácio da obra de Helmar Rölke, faz parte de três ensaios que buscam colaborar com o debate e a pesquisa em torno dos elementos que ajudam na formação da identidade: germânicos (Imigração Germânica e Identidade Capixaba), negros e indígenas. 

João Gualberto

Existem livros que são travessias. Quando se termina a sua leitura, a nossa compreensão dos fenômenos da vida social ali tratados mudou. Eles fazem uma ruptura entre o antes e o depois. São os textos definitivos. Eles tem a capacidade de mudar o nosso entendimento do assunto e também de nos incitar a continuar as leituras para complementar nossas informações.

Foi o que aconteceu comigo depois da leitura da extraordinária obra: Raízes da imigração alemã (História e Cultura Alemã no Estado do Espírito Santo). O autor traça uma magnífica trajetória da imigração alemã em nosso estado. Um trabalho intelectual de grande fôlego e de enorme estatura em seu campo de conhecimento. Segundo nos disse pessoalmente o autor, foram gastos 40 anos de pesquisas. O leitor não duvida deste dispêndio de tempo, tão pormenorizadas são as informações e tão criteriosas são as análises

Na  primeira parte do livro, denominada de A situação política e Social na Alemanha, por exemplo, foi traçada uma descrição tão profunda do que se passou no século XIX naquela região que temos a clara noção de fazer uma leitura definitiva sobre o assunto. Para entender o século no qual aprofunda sua leitura, ele vai às raízes da construção da Prússia, da sua passagem para o novo império alemão, à sua transformação em república. Chega mesmo a tratar da ditadura nazista no século XX.  O trabalho se aprofunda em cada uma das etapas históricas da Alemanha, de tal forma que ao longo da leitura vai se compreendendo com clareza a montagem de uma arquitetura nacional complexa, como de resto são as de todas as nações europeias modernas que se bateram por séculos em disputas de fronteiras, de línguas e de culturas.

Chama a atenção na primeira parte do livro, o momento em que o poder da Prússia teve a hegemonia militar e econômica na Alemanha, submetendo todas as províncias. De uma delas  partiu o maior grupo de imigrantes alemães vindos para o Espírito Santo: a Pomerânia.  Ou seja, um fato político na organização das nações europeias no fim do império napoleônico impactou a vinda de imigrantes para a América. Destes fatos esclarecedores o livro está cheio.

prussia_pomerânia
O mapa da Alemanha, que passou por importantes transformações, no período de 1870 até 1914: em azul o reinado “Prússia”; em vermelho, a Pomerânia.

Neste universo prussiano o autor constrói uma espécie de narrativa do cotidiano daquele povo. Ai o texto ganha um grande momento, talvez um de seus melhores. É extraordinária a forma com que este cotidiano, em um exercício  antropológico da maior qualidade, ganha força explicativa para os fenômenos objetos de estudos na obra. Para se ter uma ideia do que era esse dia a dia , ele conta que na Pomerânia, os feudos eram constituídos de uma vasta extensão rural, geralmente dividida em duas partes. Uma do senhor, do suserano, cultivada para ele pelos servos, os vassalos. A outra parte dividida em estreitas faixas para os servos poderem cultivar algo para si. Só podiam trabalhar dois dias da semana em suas faixas de terra. Nos outros trabalham para o senhor feudal. Desta lógica econômica resultam populações miseráveis, já que a produtividade era muito baixa.  É essa massa que buscaria posteriormente se afastar de suas pátrias de origem em busca de outras terras. Sua produção agrícola não permitia sequer o sustento correto de suas famílias. Isto tudo agravado por invernos inclementes. Superar a miséria moveu essas massas campesinas.

Continuando sua precisão narrativa, nos diz o autor que os servos recebiam cedo sua primeira refeição à base de farinha de trigo, acompanhada de pão integral. Por volta das 10 horas recebiam um pedaço de pão, untado com banha de porco, o Schumutlbrot, e um trago de aguardente. O pão também podia vir acompanhado de uma bebida quente feita a partir de uma mistura de centeio e chicória torrados. Por volta das 13 horas, era-lhes servida uma refeição como almoço. Nesta havia geralmente ervilha, nabo amarelo, repolho e batata, cozida em água e sal. As vezes havia soro de leite. Carne vez ou outra, mas havia muito toucinho. A noite batata de novo. Nem sempre se usavam pratos ou talheres, a batata era espalhada sobre a mesa. Uma porção de arenque às vezes era espalhada da mesma forma. Cada um descascava sua batata e cortava seu peixe com canivetes.

Para completar esse quadro de extremas dificuldades para uma sobrevivência digna que tinham os servos pomeranos do império prussiano, nos acrescenta o autor que para supervisionar o trabalho no latifúndio, eram contratados inspetores e capatazes. O inspetor fazia o elo entre o capataz e o latifúndio. O capataz era o executor das ordens que vinham de cima, a ele era permitido espancar empregados. Até o século XIX, existia o direito do açoitamento, e todos o utilizavam. Os nobres açoitavam seus servos, o marido podia bater na esposa e filhos, o artesão batia no aprendiz, o professor nos alunos. Só não apanhavam aqueles que estavam na escala mais alta da sociedade.

Ou seja, o minucioso trabalho de Helmar Rölke – que cito apenas uma fracção diminuta, mas os que o lerem poderão se informar de todo o conjunto – nos faz entender a razão pela qual quando as condições europeias permitiram grande número de germânicos, entre eles os habitantes da distante província da Pomerânia, partiram de suas terras. Os primeiros movimentos foram dentro da própria Europa – assim como aconteceu com os que viviam no norte da Itália que também vieram para o Brasil depois – só mais tarde é que optaram por viagens mais longes, pela travessia temerária do Atlântico.

Capa_Raízes-1
Detalhe da capa do livro  de Helmar Reinhard Rölke. Leitura fundamental para a compreensão de elementos que integram a formação da identidade dos capixabas de origem alemã e do Espírito Santo.

As condições da vivência europeia eram terríveis. Estes pobres camponeses nada tinham a esperar dos recantos onde viviam. Pelo relato parece que lhes faltava sobretudo esperança. A presença tecnológica das locomotivas movidas a vapor – o avanço tecnológico está na raiz das condições que permitiram a imigração em massa – produziu os deslocamentos dentro do próprio continente. A mudança alimentava a expectativa de melhores dias. Depois a mesma onda tecnológica também produziu embarcações mais potentes para atravessar os mares. Assim a busca de melhores dias de vida permitiu a vinda de centenas de milhares de europeus para as terras do novo mundo.

O Espírito Santo, por suas condições específicas pode receber parte significativa destes imigrantes. Éramos na metade do século XIX um grande vazio populacional e de atividades econômicas, como muito bem está descrito em nossa historiografia e no próprio trabalho que analiso. A solução das colônias foi o que deu materialidade à vinda deste imenso contingente de deserdados Os camponeses europeus vieram para o Espírito Santo para construírem aqui seu paraíso campesino. Foi a imigração camponesa que construiu a sociedade capixaba de hoje.

Temos aqui a primeira grande contribuição do livro na compreensão de nossa identidade: seu caráter absolutamente camponês. Por outras razões que não nos cabe analisar aqui, continuamos camponeses de forma tardia até pelo menos a metade do século XX. Mas, isto é uma outra história.

Voltemos às raízes da imigração alemã. Lembra o autor que se calcula que tenham entrado no Brasil a partir de 1859 cerca de 30.000 pomeranos. Deste número cerca de 15% estabeleceram-se no Espírito Santo.

pomeranos03
Foto: Ervin Kerckhoff

Os alemães, camponeses pobres, optaram por vir para o Brasil em busca de novos horizontes. No caso específico, do Espírito Santo. Em busca de um pedaço de terra para cultivar, já que o império brasileiro tinha uma política oficial de colônias de terras que eram entregues aos imigrantes para o cultivo. Trata-se portanto de uma imigração de pessoas do campo para continuar sua saga no campo. Tudo o que buscavam era um pedaço de terra e liberdade para cultivá-la. Fugiam do regime bárbaro a que estavam submetidos e imaginavam poder melhorar suas vidas cultivando sua terra. Estavam dispostos a continuar no regime de super trabalho a que estavam submetidos. Mas tinham  a esperança do progresso. Por isso enfrentavam viagens horrorosas onde muitas perdiam mesmo a vida, enfrentavam um clima totalmente diverso, mas buscavam seu pedaço de chão na distante América e no caso em estudo neste pedacinho da América chamado Espírito Santo.  As dificuldades iniciais não foram simples, a ganância dos agentes de imigração, a desonestidade dos burocratas brasileiros e a precariedade da estrutura na chegada eram exemplos. O governo não cumpria o prometido. As colônias demoravam a ser demarcadas.

Nos primeiros tempos a improvisação era total. Mas havia a terra, mas havia a liberdade de sonhar.

LIVRODIVULGACAObaixa_ Kerckhoff_01
Fazenda pomerana: forte ligação com a ascensão do café. Foto: Ervin Kerckhoff

Aqui o autor chama a atenção para um elemento definitivo no processo: a promessa do café. De tudo o que podiam cultivar somente um produto podia chegar ao mercado e produzir renda monetária, proporcionar acumulação e o progresso das famílias que tanto buscavam. É inegável que a expansão do café foi a grande responsável pela ocupação do território capixaba, tirando a província da letargia em que se encontrava. Para a expansão do café tornava-se fundamental trabalhadores dispostos a enfrentar o desbravamento do interior da província. Ninguém melhor do que os europeus para fazê-lo. Eles estavam dispostos a todo tipo de sacrifício para serem donos de um pedaço de terra e conheciam as condições severas de produzir em terreno montanhoso e inóspito. Fugiam de um mundo que além das grandes dificuldades não portava o futuro e tinha uma desigualdade de corte ainda feudal que era brutal.

Deste encontro nasce uma vertente importante de compreensão de nossa formação capixaba. Da presença germânica, da importância pomerana neste contexto e da cultura do café. Cultura compreendida na extensão de seu termo. O café como produto e a imigração como portadora da mão de obra estão na base da cultura do café no Espírito Santo. Evidentemente que o café foi produzido com o trabalho escravo em grandes propriedades no sul do estado. Este fato tem enorme relevância e é um dos elementos que também formam nossa identidade regional. Mas o olhar sobre a presença campesina voltada para o café fazem uma enorme diferença em nosso estado em relação às demais unidades federativas brasileiras. Marca nossa identidade.

Todos os traços culturais invadem essa cena. A religiosidade predominantemente luterana com a forte presença dos pastores vinculados à vida comunitária. A dificuldade ao lidar com a nova língua, a distância do mundo e dos valores lusitanos ou que os tornou isolados, tudo isto é marca identitária. Ou seja, lendo o livro do pastor luterano e pesquisador minucioso que é Helmar Rolke, entendemos um pouco melhor o que nos faz capixabas. O que nos faz diferentes. O que torna a diversidade em nosso estado algo enigmático e encantador.

Voltando à ideia de que o livro é uma travessia que conduziu nosso breve texto e concluindo, rendemos nossa homenagem à força e ao vigor das análises aqui empreendidas. Dignas mesmo de um grande livro. Consagração de um grande autor.

LIVRODIVULGACAObaixa_ Schultz_02
Raízes da Imigração Alemã: trabalho definitivo na elucidação da vida de milhares de imigrantes e seus descedentes  no Espírito Santo.

Um comentário sobre “IMIGRAÇÃO GERMÂNICA E IDENTIDADE CAPIXABA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s