Macron e a jabuticaba brasileira

 

Ainda existem muitas incertezas quanto às eleições que se aproximam. A extrema fragmentação partidária, o desprestigio da política e dos políticos, a crise dos governos do PT, a fragilidade de imagem do governo de Temer: tudo isso forma um ambiente tóxico, onde a maioria dos eleitores não sabe exatamente o que fazer.

Nesse contexto, surgiram algumas candidaturas de outsiders como as de Luciano Huck Joaquim Barbosa, que já anunciaram que não vão de fato enfrentar a disputa. Atores descolados de histórias partidárias e relacionamentos no campo da política.Na minha opinião, um risco para todos nós. A inépcia de Dilma Roussef tanto quanto a de Fernando Collor em lidar com o parlamento custou seus mandatos. Não podemos ter mais um presidente sem experiência política. O Brasil não suporta isso. Temos que avançar.

 

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O presidente francês ao lado de Donald Trump, em recente jantar no EUA. Reuters

Alguns defensores dessas candidaturas gostam de citar o exemplo das eleições presidenciais francesas de 2017, onde um ator descolado dos grandes partidos tradicionais construiu uma vitória inesperada: Emmanuel Macron. Aliás, os analistas brasileiros têm dado peso excessivo ao papel do marketing político naquelas eleições. Neste momento, somos visitados pelos marqueteiros da França com promessa de construir fenômeno parecido entre nós. Nessa vertente, seria fundamental reproduzir algumas estratégias exitosas com Macron. O exemplo do atual presidente francês aplicado ao Brasil é frágil e leva mais a equívocos do que a acertos.

 

Em primeiro lugar, é preciso levar em conta que o papel da mídia e sobretudo da propaganda eleitoral dita gratuita na televisão no Brasil é único na sociedade ocidental. Nenhum outro país articula uma televisão de excelente nível tecnológico e uma população com baixa escolaridade e nenhuma participação política de forma tão forte. A televisão foi a base da construção de nossos mitos políticos recentes. É claro que ela vem perdendo espaço para novas mídias, e a juventude sobretudo tende a se informar politicamente pelas redes sociais. É no celular que vai se travando cada vez mais os embates eleitorais. Mas o modelo mental está construído a partir da nossa trajetória.

A última eleição que levou Dilma Roussef ao poder mostra bem isso. Um extenso conjunto de mentiras em uma campanha bilionária foi capaz de eleger uma candidata vazia. Esse é um modelo nosso. É a nossa jabuticaba. Não é o que costuma se passar nas eleições europeias de uma forma geral, e não foi o que se passou seguramente nas últimas eleições francesas.

 

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Propaganda eleitoral de Dilma na TV em 2014: ataques e compromissos descolados da realidade são a tônica das eleições no Brasil.

Para começar, Macron responde ao desejo da sociedade francesa em muitos pontos. É o retrato daquilo que a população procurava naquele momento. Jovem, havia sido diretor de um banco importante, ministro de estado e com boa experiência política. Apesar de ter somente 39 anos, por sua inteligência privilegiada e pelos cargos que ocupou era um homem tarimbado, capaz de dirigir um país, de ter uma visão de futuro da sua sociedade e do mundo. Jovem, mas experiente em gestão, em governo e em política.

 

Mas, quero chamar a atenção em especial para um outro ponto: sua sólida cultura intelectual, reconhecida mesmo pelos seus adversários. Entre os grandes pensadores que marcaram a formação do presidente está o filosofo Paul Ricoeur, do qual Macron foi mesmo assistente editorial em 1999, tendo contribuído para a construção de uma de suas maiores obras la Mémoire, l’histoire, l’oubli. Na verdade, ele seguiu os cursos de história da filosofia de Ricoeur na Universidade de Nanterre, sendo considerado um leitor voraz e disciplinado.

 

Não é pouco ter sido assistente do grande filosofo, afinal ele é considerado um dos grandes pensadores franceses da segunda metade do século XX. Além de ter sido discípulo de Paul Ricoeur, ele escreveu um trabalho na sua formação intelectual analisando a obra de Maquiavel, uma tese, um mémoire como chama a academia francesa. Este trabalho nunca foi tornado público, assim não se tem uma ideia clara de seu valor acadêmico, mas uma formação desse tipo certamente o ajudou na construção de sua carreira política. Aliás, ajudou a que os franceses vissem nele um intelectual, sendo este um elemento fundamental na sua trajetória vitoriosa, legitimando seu projeto ambicioso de mudanças na sociedade francesa.

Além dessa bagagem de muito valor simbólico na França de hoje, na ação política de Macron é muito fácil perceber uma filosofia econômica que tem suporte na dimensão da inovação e nos investimentos. Sua base nesse caso foi Schumpeter, o extraordinário pensador austríaco ao qual ele está intelectualmente vinculado. No livro escrito pelo futuro presidente francês em 2016 Révolution foi fortemente apoiado no pensamento schumpeteriano. Ou seja, sólida formação política e sólida formação econômica. Um autor de livros, um estudioso da história e da filosofia.

No Brasil pode ser que tal formação não seja tão importante quanto é na França. A dimensão intelectual de Macron é o fundamento principal de sua respeitabilidade. Não que suas estratégias eleitorais tenham pouco valor, não que a forma como venceu a eleição seja banal. Isso a imprensa tem dito muito. O que quero é chamar a atenção para uma outra dimensão: a intelectual, sem a qual o atual presidente francês não fica em pé. Por isso a comparação com aventureiros no Brasil não faz qualquer sentido. Macron usou o marketing político para projetar suas qualidades. Não o comparemos ao vazio brasileiro.

 

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