A REINVENÇÃO DA POLÍTICA EM FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso acaba de publicar um novo trabalho. Como em tudo que vem publicando nos últimos anos, ele trata de questão da atualidade com muita pertinência. Do alto de seus 86 anos, continua lúcido e atual. Tem sempre reflexões importante e observações profundas.

No livro Crise e Reinvenção da Política no Brasil, ele trata da crise brasileira dos dias de hoje – ou melhor das crises brasileiras – e do contexto no qual se darão as eleições de 2018.

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Não é e nem pretende ser um tratado sociológico profundo. Antes pelo contrário. O livro é acima de tudo o olhar atento e profundo de um hábil político que chegou a presidência e que tem bagagem para fazer uma leitura densa do que se passa no Brasil de hoje.

Pela primeira vez, o autor trata de questões relativas aos também ex-presidentes Lula e Dilma Roussef, dando-lhes responsabilidades nos processos políticos que sufocam o Brasil. Para se ter ideia do que isso significa, ele diz textualmente na página 237:

Infelizmente, Lula despiu o macacão e se deixou engolfar pelo que havia de mais tradicional em nossa política: o clientelismo e o corporativismo, tendo a corrupção como cimento. Não é desse tipo de liderança que precisamos para construir um grande país.

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Lula, Dilma, o então ministro Edson Lobão e o macacão, alusão do autor a história do petista e sua passagem pelo planalto como período histórico.

Mas, se Fernando Henrique não se exime de atribuir a Lula os deslizes que ele crê que foram cometidos pelo PT sob sua liderança, também não é ele o objeto principal de suas análises. Na verdade, ele trata sobretudo o caráter do Brasil contemporâneo em oposição ao Brasil moderno, no campo da política. As mudanças que se operaram sobretudo a partir dos anos 1990 e como eles levaram o velho e o novo a coabitar de forma diferente em nossos principais traços culturais. E de como elas vem obrigando os líderes a mudar sua forma de se comunicar com a população portando novas mensagens. Mas a oposição entre o moderno e o arcaico não é mais a oposição singela entre a grande indústria e a favela. A favela não é mais apenas o lugar da exclusão como no passado. Está inserida na sociedade com expressão cultural própria, a despeito da desigualdade brutais que porta.

Para ele não há Terra Prometida a nos esperar no final do túnel da crise atual. Nem será um Moisés providencial a nos guiar na travessia. Esta terá de ser feita pela política, e a política é um empreendimento coletivo das pessoas, grupos e forças sociais que se juntam em torno de uma visão comum de um futuro desejável. Para ele necessitamos de um patriotismo democrático, aberto ao mundo, mas movido por um sentimento profundo de pertencimento ao Brasil e de compromisso com o seu povo.

Fernando Henrique acredita que o desafio das lideranças renovadoras consiste em criar mais do que uma narrativa, propostas que desenhem rumos para a nação. Porque ou bem seremos capazes de reinventar o rumo da política, ou cedo ou tarde a indignação popular explodirá nas ruas, não podendo se prever contra ou a favor do que. E o desafio das mesmas lideranças é o de rearticular o sistema político com a sociedade e isso passa pelo reconhecimento do papel desempenhado por novos atores e novas dinâmicas sociais e culturais, e não apenas por organizações e instituições como no passado.

Mas, para o autor a globalização está na raiz da crise de legitimidade que afeta a democracia representativa por duas razões distintas, mas convergentes: o livre fluxo dos bens econômicos e financeiros, mas também a livre circulação de informações, ideais e valores. Economia, comércio, comunicação e cultura se tornaram globais, enquanto a democracia representativa permaneceu essencialmente nacional.

O fenômeno reduziu, na perspectiva do livro, o poder dos Estados nacionais ao mesmo tempo que fortaleceu o indivíduo como cidadão.  Assim, por trás de protestos que sacudiram nos últimos anos países tão diversos como Brasil, Chile, Tunísia, Turquia, Egito, Irã, África do Sul e Israel, está o cidadão comum informado e conectado pelas redes sociais e por modernas tecnologias de informação. Essa é uma das marcas das sociedades contemporâneas, o cidadão comum e pouco politizado quer participar, demanda por interlocução, não se representa mais nas instituições e lideranças tradicionais. Não se importa com os partidos políticos.

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Os movimentos de junho de 2013, no Brasil, uma da série de acontecimentos entre os observados por Fernando Henrique no livro.

Mas, as reflexões do ex-presidente ganham densidade quando trata da postura dos governos. Para ele o dinamismo de uma sociedade aberta e conectada como a do Brasil contemporâneo reclama uma postura mais eficiente e menos arrogante do Estado. A ordem não se impõe de cima para baixo, vinda de um centro de comando e controle. O que importa não é uma fluida vontade de todos, e sim a participação de todos os interessados na deliberação. Ou seja, no mundo de hoje liderança política não se ganha de uma vez por todas, precisa ser constantemente cultivada e renovada. Um líder sozinho não agrega. Na verdade, o que mobiliza para valer são as causas, os movimentos identitários, as reinvindicações de liberdade lançadas por grupos e movimentos da sociedade.

Estamos fadados como sociedade a entrar nas eleições de 2018 à deriva. A crise instalada nos campos da economia, da política e dos valores éticos fulminou os restos de legitimidade do velho sistema político. E o novo não nasceu ainda. Faremos um voo no escuro, tentando encontrar a saída no processo. Difícil, mas é a tarefa que nos cabe como sociedade.

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O livro do ex-presidente: leitura importante do que se passa no Brasil de hoje.

 

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