AUTORITARISMOS

Uma nova onda varre o mundo ocidental em termos políticos. Ela se organiza a partir de discursos autoritários em muitos países muito importantes como Estados Unidos, Rússia, Itália, Hungria, Polônia, Venezuela. Esse último é tido como de esquerda pelo apoio que tem do PT, mas tem a mesma raiz autoritária dos demais.

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Muitas obras têm sido publicadas para tentar entender o novo fenômeno, qual seja, o ressurgimento em massa de uma direita mais virulenta e menos liberal. “Como as Democracias Morrem” de Steven Levitsky e Daniel Ziblat professores de ciência política em Harvard e “O Povo contra a Democracia” de Yascha Mounk da Universidade Johns Hopkins são dois ótimos exemplos. Existem outros, cito apenas os que tem tido maior repercussão na mídia.

 

Esses trabalhos apontam para as bases comuns do novo autoritarismo, que são: o ódio à globalização, chamada de marxista cultural; a nostalgia de um passado melhor e com ordem; o incentivo à polarização que divide a população entre eles e nós; a criação de um movimento anti-intelectual que é tanto contra o chamado jornalismo de base quanto às universidades públicas; o retorno a conceitos de hierarquia e ordem típicos de sociedades mais tradicionais;

Há ainda outros elementos: o uso da polícia para punir desafetos políticos; um ataque a homossexuais, mulheres, travestis e outros grupos sociais que seriam responsáveis pela degeneração moral da nação; a propaganda política estruturada em fake News e a tentativa de um retorno nostálgico aos valores da terra, da família e das tradições.

E uma mudança natural entre os pesos próprios que cada país e cultura dão a cada um desses elementos. Mas, o que torna a experiência um fenômeno sociológico mais global são as bases comuns dos discursos que tanto alimentam a redução do papel do liberalismo clássico, quanto seduzem parcelas importantes da população para um engessamento da democracia, em uma aceitação de práticas autoritárias.

Talvez a nação que tenha conseguido implantar com mais perfeição o modelo seja a Hungria de Viktor Orbán. Ele, igual ao que foi feito na Turquia, na Venezuela ou Polônia, foi encantonando as instituições que dão os chamados contrapesos das democracias. O parlamento ou os órgãos superiores da justiça, o STF brasileiro, apoiando-se em consultas diretas à população. A utilização massiva das redes sociais permite isso facilmente: Twitter, Facebook, Whatsapp. Transformou-se Órban, de forma quase perfeita, no modelo do novo tirano: autoritário, mas de um autoritarismo com forte apelo popular. As massas acreditam mesmo que continuam vivendo numa democracia porque existem as consultas populares e a comunicação direta, sobretudo pelo twitter. Viktor Órban lançou então o modelo do que ele chama de Democracia Iliberal. Parece ser esse o destino de outras nações hoje.

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Mas, já existem esforços para trazer essas reflexões para o que está acontecendo no Brasil. E não falo apenas do papel do presidente Bolsonaro, visivelmente apenas um sócio desse modelo. Um exemplo: a historiadora brasileira Lilia Moritz Schwarcz acaba de lançar um bom trabalho, chamado “Sobre o Autoritarismo Brasileiro”. Sua intenção é a de dialogar com esses trabalhos internacionais. Para tanto, ela estuda os elementos históricos que transformam, desde sempre, o Brasil numa sociedade autoritária e que conviveu bem tanto com Vargas quanto com os militares de 1964. A autora trabalha então três conceitos que me parecem fundamentais para estudar o caso brasileiro: A escravidão e o racismo que ela alavancou, o mandonismo e o patrimonialismo. Assim, o brasileiro pilotando essas heranças do nosso processo histórico – daquilo que chamo da construção do nosso imaginário social – tem dado passagem a essa onda mundial e a ela aderiu claramente na eleição de 2018.

A questão que nos cabe responder agora é se o exercício do poder, pelos que recentemente chegaram a ele, vai realmente construir entre nós uma Democracia Iliberal, ou se as nossas instituições e, sobretudo, nossa cultura democrática resistirá aos novos modelos de fazer política.

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Jair Bolsonaro: autoritarismo com os elementos característicos da sociedade brasileira.

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