MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

A memória de qualquer sociedade não é construída de forma linear. Ela é constituída de vazios deliberados e de potencialização, também deliberada, de determinados fatos e personagens. Como muito bem disse Lilia Schwarcz, a história é uma disciplina com grande capacidade de lembrar. Poucos se lembram, porém, do quanto ela é capaz de “esquecer”.

Vamos tomar um exemplo concreto na história do Espírito Santo. Um dentre vários outros que podem ser levados em conta. Na região Sul, brotaram os clubes republicanos que animaram de forma extraordinária a sua vida política no final do século XIX. Foram atores privilegiados do nosso processo de modernização política.

Muitos já ouviram falar de, por exemplo, Jerônimo Monteiro e seus feitos extraordinários, ou de Florentino Avidos e sua gestão moderna e modernizante. Foram Presidentes do Estado na Primeira República. Eram cunhados, e ambos surgiram da força política da família Monteiro e da Fazenda Monte Líbano. Esses republicanos eram quase em sua totalidade positivistas. Trouxeram dessa doutrina um olhar mais racional sobre a vida social. Eram também abolicionistas.  Promoveram além disso, uma verdadeira revolução na lógica urbana da cidade de Vitória. A razão dessa visibilidade é a produção farta de escritos e fotos sobre seus feitos.

É bem verdade que construíram uma nova visão da cidade de Vitória, rompendo com a tradição colonial e monárquica. Vitória ficou alinhada com os modismos parisienses, bem como com as modernidades das principais cidades brasileiras, entre as quais se destaca a Reforma Pereira Passos no Rio de Janeiro e a construção de Belo Horizonte. Mas, também era uma cidade para os ricos. Tanto que, nas normas urbanas por eles criadas, havia a proibição do acesso ao Parque Moscoso aos membros das chamadas “classes perigosas”, ou seja, os pobres.

São apenas alguns exemplos. Eles existem às centenas. Vamos pensar então naquilo que podemos chamar de raiz do esquecimento, sua origem.  Nos ensina o brilhante historiador Jorge Caldeira, em “A Nação Mercantilista”, que o Conselho Ultramarino, ao proibir “A Obra e a Opulência do Brasil”, de Antonil, em 1711, construiu o argumento que se deveria recolher o livro e não permitir que fosse vendido. O Conselho passou a exigir que fosse ouvido acerca da impressão de obras que tratassem do assunto das Conquistas portuguesas no Novo Mundo.

caldeira

O motivo da proibição era a velha política de sigilo dos portugueses. Era difícil para a pequena nação europeia conviver com livros que falassem das minas, que mostrassem ao mundo as riquezas do Império. Podiam despertar a cobiça em outros povos. Quando se tratava de cultivar a ignorância no Brasil, e sobre o Brasil, o governo português não titubeava. Nunca foi devidamente socializado, por exemplo, que os moradores de São Paulo utilizavam o braço índio conquistado à força em suas entradas pelo sertão, provavelmente para não provocar discussões naqueles que eram contra, como os próprios jesuítas.

Na verdade, era proibida a imprensa no Brasil. Nenhum livro, nenhum jornal, nada. Tirando os esforços jesuíticos e de outras ordens religiosas, a educação não estava na pauta dos colonizadores. Aliás, o estado português só recolhia os tributos e nada mais.

Assim, a produção de informações que possibilitem hoje a reconstrução de trechos da nossa história ficou muito prejudicada. Dos republicanos podemos falar muito bem, mas da aventura colonial e do período da monarquia que lhes precedeu, muito pouco. Pouco sabemos do heroísmo da resistência indígena, das grandes lideranças dos negros escravizados, enfim, de todos os capixabas, e não apenas de uma fração. O esquecimento faz parte do fazer histórico, tanto quanto as lembranças.

Esquecer é, assim, uma forma de retirar importância, de não dotar de significado certas ações. A cultura cívica que se pretende retornar à escola agora, espera-se que se faça, fortalecendo aqueles que com seus corpos, suas mentes e com seu trabalho também construíram o Brasil e o Espirito Santo.

 

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