COTAXÉ

Autores capixabas tem produzido ótimos romances, e de grande densidade. Eles nos ajudam a melhor entender a alma capixaba. Mas, poucos tem a força de Cotaxé: romance do efêmero Estado de União de Jeovah. Nele, Adilson Vilaça mostra todo o horror implantado pelas forças da ordem na área do que era chamado de Contestado. O texto de Adilson é de uma força terrível e descreve com um estilo próprio e insuperável todos os acontecimentos. É obra de arte.

Adilson capta com força, estilo e perfeição a trajetória de Udelino Alves de Matos, um modesto professor em uma grande propriedade da região que, depois de um grande fracasso amoroso, soltou-se no mundo para criar o Estado União de Jeovah. Muito religioso, leitor fervoroso da Bíblia, exercia forte liderança nesse plano entre os humildes moradores da região.

No ano de 1952 inicia Udelino sua cruzada. A região, devido a insegurança de não saber a qual estado de fato pertencia, era alvo de muitos aventureiros, de muitas pessoas perseguidas, mas, também era muito atrativo para os miseráveis lavradores da região. Diante da mataria sem uso agrícola, eles instalavam-se. Esse misto de posseiros e aventureiros era a base e a força de Udelino. Escolhe Cotaxé – hoje distrito de Ecoporanga – na época epicentro econômico da região, como a sede de seu governo. Nomeia o primeiro escalão em julho daquele ano. Escolhe bandeira e hino. Começa a organizar a partilha das terras.

Prometia Udelino sua regularização e distribuição, mesmo para os proprietários que tinham títulos. Ele daria aos solteiros quatro alqueires e aos casados dez alqueires. Mas, aos fazendeiros já instalados o novo governo permitiria setenta alqueires. Sendo que quem tivesse naquele momento mais, poderia registrar nome da família, dos filhos, dos genros. Na condição de delegado de terras do chefe da nação, ele tudo registraria num livro. Quem não aderisse a partilha, teria os bens confiscados. Para quem aderisse bastava assinar o livro e pagar os impostos ao Estado de União de Jeovah. Havia muita terra a distribuir e regularizar. Mais de 10.000 quilômetros quadrados.

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No mês de julho de 1952, o governador Udelino partiu para o Rio de Janeiro, então a capital da república. Faria um encontro com o presidente Getúlio Vargas, levando uma petição assinada por 866 posseiros, que dava legitimidade ao pleito por terras. O encontro de fato não ocorreu, mas ele foi recebido pelo Ministro da Agricultura e voltou dizendo-se portador de um documento que o nomeou delegado de terras do chefe da nação.

Mas, pouco durou a paz no Estado de União de Jeovah. No início do ano seguinte, 1953, as forças capixabas deslocaram-se para o Contestado, dispostos e exterminar com aquela experiência. Conseguiram, mas, depois de meses de lutas cruentas. Já no ano de 1954, tudo estava destruído. Nesse intervalo de tempo, as escaramuças foram cruéis. Maldades de ambos os lados.

 

Os soldados matavam, espancavam, estupravam, humilhavam. O lugar tenente de Udelino, que comandava a tropa que chegou a ter 600 homens armados, João Come-Vivo, no romance, matou de forma impiedosa e violenta todos os que considerava traidores. Arrancava-lhes a língua quando estavam ainda vivos, quebrou joelhos com marreta, furou olhos com seu punhal.

Saindo do plano literário para a análise sociológica, o que vemos é que naquele espaço sem lei, a violência tudo regulava. Era o mandonismo total. A leitura de Cotaxé, além das delicias de um grande livro, nos ensina muito do Espírito Santo, sobretudo das raízes da violência urbana que nos atormenta até hoje. Somos, desde sempre, marcados por ela. E, certamente, não apenas em Ecoporanga.

 

 

João Gualberto

[1] O autor é Doutor em Sociologia Política pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, Paris, e Professor Emérito da UFES. Ex-secretário de estado da cultura e Diretor da Saber Capixaba.

 

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