COLONIZAÇÃO CAPIXABA

Em maio de 1535 os portugueses chegaram ao Espírito Santo.  Na nossa história oficial comemoramos no dia 23 de maio, com o pomposo – e algo fora de moda – nome de Colonização do Solo Espírito-Santense. Na verdade, o início de nosso processo de construção de uma nova sociedade. Bem perversa.

Vamos relembrar essa história. Os portugueses dominavam a arte da navegação. Havia toda uma tecnologia que lhes permitia a aventura de atravessar o Mar Tenebroso, como chamavam o Oceano Atlântico. O comércio de Florença e de outras cidades italianas com o mundo árabe estava prejudicado desde a metade do século XV pela tomada de Constantinopla pelos Turcos. Muitos capitais italianos ligados ao comércio no mediterrâneo buscaram novas alternativas. Havia interesses comerciais e havia interesses religiosos. 

A vinda dos portugueses para o Brasil não deixou de ser uma espécie de continuidade das cruzadas. Continha o combate aos infiéis, que no nosso caso eram os indígenas. Os nativos da terra podiam ser cristianizados, aí seriam salvos, ou podiam ser escravizados, o que ocorreu a um grande número. Mas, a maioria foi mesmo exterminada.

Como registrou Adilson Vilaça, não há colonização sem dor. “Morte e sangue vertido, morte e sangue perdido, morte e sangue pervertido – morte sob o ataque do aço, morte por enforcamento, morte após tortura e estupro. Porque não há colonização sem dor. Sem muita dor”.

O que os capitais italianos queriam eram lucros polpudos. O que os navegadores portugueses queriam era expandir os seus limites. O que queria a nobreza portuguesa era ouro, prata, pedras preciosas. A aventura ultramarina era estruturada a partir da fé e dos interesses comerciais. Pau Brasil, cana de açúcar eram, por assim dizer, riquezas intermediárias. O objetivo do enriquecimento rápido, da ética da aventura, para ficar numa expressão do grande historiador Sérgio Buarque Holanda em Raízes do Brasil, era ouro.

Voltemos ao Espírito Santo. O primeiro de nossos donatários, aquele que ganhou o direito de expressão de tudo o que houvesse com as regras que ele mesmo criasse, foi Vasco Fernandes Coutinho e ganhou por seus triunfos nas guerras lusas na África e na Ásia. Era um homem com proezas de guerra. Com eles vieram os tais degredados, 58 bandidos comuns, desorelhados. Era hábito que esses condenados fossem desorelhados, orelhas extraídas como parte da pena. A justiça portuguesa andava com mão pesada para condenar muitos pobres ao degredo, por crimes como bigamia ou moeda falsa, e assim favorecer a colonização. 

Mas, entre os tais degredados, havia dois nobres particularmente perversos: Dom Jorge de Menezes e Dom Simão de Castelo Branco. Dom Jorge de Menezes havia sido governador de uma ilha nas Índias, e tantas foram as suas loucuras e maldades que foi mandado a ferros para Portugal, de onde saiu para vir para o nosso Espírito Santo, para ajudar Vasco Fernandes Coutinho a comandar a tal colonização. 

Dom Simão Castelo Branco também havia chegado a ferros a Portugal, vindo de Marrocos, de onde fora destituído de suas funções de governo, por corrupção. Também foi mandado para o Espírito Santo juntos com o primeiro donatário.  Foram tão maus que acabaram sendo assassinados pelos índios, em escaramuças sanguinárias. Dom Jorge de Menezes começou um cruel processo de escravização dos índios. Mas eles eram os valentes Goitacazes, talvez os mais temidos guerreiros de todo o litoral, e responderam de forma dura com uma guerra que acabou com a morte dos dois. Foi, digamos assim, um encontro de selvagerias. 

É preciso rever certas festas cívicas, entre ela a data da Colonização do Solo Espírito-Santense. O evento merece ser lembrado como marco de dor e maldade, como a imposição de uma cultura toda voltada para a ambição desmedida. Como bem lembrou Adilson. Não há colonização sem dor. Sem muita dor.

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