O NOVO NA POLÍTICA BRASILEIRA

O sistema político brasileiro foi construído, desde de sempre, de costas para a opinião pública, ou, como dizia Pedro II, da opinião nacional. A independência e a nossa primeira constituição, o sistema parlamentarista de pé quebrado instituído por ela, o centralismo do Império, tudo foi feito longe da escuta popular.

Quando o Império esgotou seu papel, quando a insatisfação se instalou, abriu espaço para um tipo de republicanismo onde as eleições eram meros detalhes, fraudadas escancaradamente. Para dar um exemplo, na eleição de Jerônimo Monteiro em 1908, ele teve cerca de 18.000 votos, e o seu adversário, o Barão de Monjardim teve 13 e o Dr. José Belo de Amorim, 10. Eram vitórias na mão grande, para usar uma expressão atual. 

Também a Proclamação da República foi um Golpe Militar, sem o envolvimento da militância republicana. O povo a tudo assistiu bestializado registrou o jornalista Aristides Lobo no dia 15 de novembro, no Rio de Janeiro.

A charge de Miguel Paiva: Constraste com a épica imagem “Independência ou Morte” de Pedro Américo, pintado em 1886 (Portanto, 64 anos após a separação do Brasil de Portugal)

No século XX, duas ditaduras atropelaram nosso sistema político: a de Vargas iniciada nos anos 1930 e a dos militares iniciada em 1964.  A retomada da democracia se deu através das elites tradicionais. Maior prova disso é que José Sarney foi o nosso primeiro presidente depois da ditadura, em 1985. Mas, sempre ouve uma tensão entre o novo e velho em nosso sistema político. Desde sempre. O velho vem se impondo, às vezes imbricado com o novo. Em vários momentos a sociedade optou pelo novo. O arcaico não se impôs como um bloco monolítico.

Há uma grande confusão no eleitor brasileiro, que julga que o novo é uma questão geracional. Votar em um jovem não significa votar no novo na política, votar em uma pessoa vinculada a religião não significa dar um voto ético. Mas embalado por uma certa ingenuidade política, os brasileiros têm agido assim.

Fiz uma recapitulação histórica muito breve. Vamos, entretanto, nos fixar nos momentos mais recentes. Em especial nas eleições disruptivas de 2018. No Espírito Santo os experientes senadores Magno Malta e Ricardo Ferraço foram substituídos por dois novatos, sem passado político. Por todas as evidências foi o alinhamento simbólico com a campanha de Jair Bolsonaro que os levou a Vitória.

A espetacularização do combate a corrupção feita pela operação Lava Jato talvez tenha sido o estopim dessa disruptura. O cansaço com a velha política, a existência de elites partidárias totalmente corrompidas deu o motivo para o voto no novo, no desconhecido, de certa maneira na aventura. Governadores de dois estados vizinhos nossos foram eleitos assim: Rio de Janeiro e Minas Gerais. Um desejo de mudar, que não é novo, foi potencializado pelas evidências de corrupção exibidas na televisão e no restante da mídia. O PT foi reduzido politicamente de forma drástica. 

Disso todos sabemos. A nossa questão é quanto desse desejo de disruptura ainda está presente em nosso imaginário político. Como ele se apresentara agora? Tivesse sido o governo Jair Bolsonaro um sucesso até agora, nós teríamos a resposta fácil. Mas, não é o caso. Sobretudo diante da pandemia do novo corona vírus, ele teve uma condução negacionista. Fosse o governo um fracasso também seria fácil falar. Mas, o governo tem sua popularidade, o presidente tem sua bolha fiel. Estamos no meio. Isso significa que poderemos ter diferentes apropriações do fenômeno do novo.  

As primeiras pesquisas de opinião realizadas nas maiores cidades, como é o caso de Vitória, mostram o surgimento de políticos com experiência. Então temos um elemento ainda não definida o para o próximo pleito. A experiência terá que papel? A busca do novo terá que peso?

Evidentemente que a velha política terá mais uma vez um papel negativo. O que parece é que aqueles que tiverem uma mancha com a corrupção serão punidos. Mas não acredito que tenhamos uma repetição da disruptura que levou o capitão ao poder. Não naquela intensidade. O fenômeno tende a se repetir de forma mais matizada, menos abrupta.

Cabe ao campo democrático discutir esse novo. Seu conteúdo, sua característica. Senão vamos repetir as frustações de votar em um candidato que é jovem, mas que não porta nenhuma novidade seja na formulação, seja na ação política.

Um comentário sobre “O NOVO NA POLÍTICA BRASILEIRA

  1. Num regime que se pretende democrático pelo voto direto a disciplina ‘Política ‘ deveria deveria ser ensinada desde o ensino básico, mesmo que se chamasse ‘Educação, Moral e Política “,com qualidade, seriedade e laicismo. Os resultados seriam muito concretos.

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