O PREÇO DA AVENTURA

O presidente Bolsonaro está em campanha pela reeleição desde que chegou ao poder. Na verdade, comporta-se como candidato na maior parte do tempo. É tudo cálculo político. Ele sabe que precisa manter coesa sua base eleitoral, o chamado bolsonarismo raiz, que conta com um em cada quatro brasileiros. Esse contingente não segue uma liderança política nos moldes habituais, segue de fato um líder messiânico, um mito, como eles mesmo dizem. 

A diferença é brutal. Quem se deixava guia por Antonio Conselheiro foi com ele até a morte. Muitos bolsonaristas irão com seu líder juntos nos mais extremos atos da política. Por isso ele vai esticando a corda cada vez mais. Não vai recuar, não vai mudar de atitude e nem vai cumprir acordos, a maioria feitos apenas para ganhar tempo. É mais importante manter o fanatismo aceso até as eleições do ano que vem. 

O tempo de Bolsonaro é o da desconstrução da confiança nos processos eleitorais. Por isso, o apoio a Roberto Jeferson, um estelionatário sem escrúpulos. Por isso receber o cantor sertanejo Sérgio Reis no palácio do governo, antes de anunciar uma greve que não haverá. Tudo para promover tumulto e agitar permanentemente sua base popular.

Esse é o elemento central para entender o que se passa. Ele sabe que serão difíceis as eleições para ele. Tenta uma saída para continuar no poder mesmo sendo derrotado. A mesma estratégia de Trump.  Pode se servir do medo dos militares para com a candidatura Lula para obter outro apoio importante para a manobra golpista.

Mas, ao mesmo tempo, está alimentado, através do chamado centrão, o fisiologismo da velha política brasileira, com emendas parlamentares e outros expedientes. Esse grupo se formou desde a constituinte no governo Sarney. Operou como base de Collor e garantiu a reeleição para Fernando Henrique. No mensalão do PT lá estavam eles. Agora, voltam com a força que sempre tem nos governos fracos. Como não temos partidos fortes, as bases no parlamento não são construídas como nas democracias maduras, por acordos temáticos. Os acordos passam pela distribuição de cargos, de verbas para as bases aliadas e de emendas parlamentares.

Tudo isso é muito velho. Mas o novo e a articulação da velha política dos coronéis com o populismo de direita é uma invenção bolsonarista. Junta o que já era ruim, ao que é ainda pior. Mas, o Brasil não é só isso. Há uma outra vibração, a dos que estão apostando na continuidade democrática e na continuidade da sociedade. Os que estão em busca da via democrática são a maioria, segundo as pesquisas de opinião.  Falta a esse grupo uma liderança forte e uma ideia força. Mas existem representações na política e na sociedade civil. 

Finalmente, registro que existe hoje um grande embate em marcha na sociedade brasileira entre esses dois projetos políticos. Parte do embate está registrado na imprensa mais democrática e parte dele ainda está nos jogos de bastidores. Não sabemos quem sairá vencedor. Sabemos apenas que teremos eleições muito difíceis. Talvez as mais difíceis da história política brasileira. Mas se vencerem as forças do populismo atrasado, a sociedade toda vai pagar muito caro por essa aventura fora de hora e fora de moda. 

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