Collor e Bolsonaro: a aventura dos “outsiders” em Brasília

Acabo de fazer uma leitura muito interessante e que nos enriquece com elementos do passado recente, ao mesmo tempo que nos ajuda a entender a crise que estamos atravessando. Trata-se do livro O Estado a que Chegamos: falência de um modelo de organização que impede o desenvolvimento nacional, recentemente lançado. O autor é João Santana, um destacado membro da equipe de Fernando Collor na presidência da república.

Ele foi inicialmente Secretário de Administração Federal – onde cuidou na reforma do estado levada a efeito por aquele governo – e depois foi o poderoso Ministro da Infraestrutura, que se ocupava das centenas de estatais – muitas das quais mero empreguismo e abrigo de corrupção – herança do período militar. Antes, havia trabalhado no governo Franco Montoro em São Paulo e na equipe do Ministro Funaro, no governo Sarney. Tinha 32 anos quando chegou ao governo Collor.

Santana analisa de forma lúcida a grande transformação que Collor pretendeu fazer na gestão pública brasileira, que começou reduzindo o número de ministérios de 23 para 12. O autor participou de vários projetos que tentavam reduzir o empreguismo, os gastos supérfluos do governo nacional e iniciou nosso processo de venda das estatais, pela Usiminas. Atacou de frente a reserva de mercado que faziam, por exemplo, a indústria automobilística que vendia carros caros e defasados. Na área de informática essa reserva nos deixava longe da era digital que se iniciava, erámos obrigados a comprar um computador totalmente defasado fabricado por uma estatal.

O projeto poderia ter feito o Brasil avançar muito em várias áreas. Poderia ter entregue um governo mais limpo, mais ágil, menos gastador e capaz de prestar melhores serviços aos cidadãos. Mas, o presidente renunciou antes do fim de seu terceiro ano de governo, pilotando uma crise política e ética. Santana nos ajuda a entender porque o governo fracassou. Na verdade Collor não tinha base congressual, não tinha um partido forte e nem fez as alianças necessárias a enfrentar o grande número de interesses que havia. Além disso, deixou-se enredar pelos elementos da política provinciana de Alagoas e do seu operador de interesses financeiros, o PC Farias. 

Resultado, foi sendo encantonado pelo sistema político, em especial segundo Santana, pelo antigo PFL comandado a época por Jorge Bornhausen. Trouxe para dentro do governo e da base congressual o que havia, segundo ele, de mais atrasado na política brasileira. Demitiu os que acreditavam no projeto inicial e passou a ter suporte em pessoas que agiam só por cálculos políticos. Pessoas que dominavam o jogo do congresso e eram muito mais fortes do que o presidente.

Congresso Nacional, em Brasília: tanto Collor quanto Bolsonaro ficaram reféns do Centrão. Crédito: Waldemir Barreto/Agência Senado

Agindo assim, abraçou o passado e o trouxe para dentro de casa. A despeito de ter tido incialmente um projeto aprovado nas urnas, de ter montado uma equipe com capacidade de conduzir aquele projeto, perdeu. E perdeu porque não soube fazer política, não soube operar com o capital eleitoral que tinha e se deixou levar pelo atraso, que o traiu.

Collor tinha um projeto econômico e de estado muito mais denso do que o de Bolsonaro. Iniciou um trabalho com muito mais profundidade do que o capitão, que tem um olhar de superficial e conseguiu articular o ódio que ainda temos ao sistema político tradicional.  Entretanto, pilota um governo sem entregas, com excessiva ênfase ideológica e sem um projeto de nação.

Mas, por mais diferentes que tenham sido os processos de construção e desconstrução dos dois governos, eles têm um ponto em comum: o fato de serem tocados por outsiders da política, por políticos de pequeno porte antes de chegar à presidência. Acabaram por se transformar em presa fácil do atraso. O mesmo “centrão”  que liquidou um, na visão de Santana, liquidará o outro. Por asfixia.  

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