A COALIZÃO BOLSONARISTA

Idelber Avelar escreveu um excelente livro chamado Eles em Nós: retórica e antagonismo político no Brasil no século XXI.  Nele, o autor descreve, entre outros assuntos, a gestão dos antagonismos no processo político brasileiro. Traça uma genealogia do Brasil Grande como hipérbole desenvolvimentista de Geisel a Roussef. Sua base metodológica é a análise do discurso. Lida de forma brilhante com essa dimensão e consegue nos ajudar a elucidar uma pergunta que se faze milhões de brasileiros e milhares de pesquisadores: como teve lugar isso que nos aconteceu em 2018?

Para responder a essa questão ele traça uma longa trajetória histórica que já se inicia na Era Vargas, se aprofunda no governo dos militares, chega ao Lulismo e termina com a ascensão inesperada para quase todos, inclusive os partidários desse extenso leque ideológico, do Presidente Bolsonaro. Para ele trata-se de uma coalizão, um bloco, um mosaico, que se constitui a partir de elementos heterogêneos e que veio expressar algo que se gestava como demanda para uma parcela da população brasileira. 

O bolsonarismo surge como expressão (distorcida e ideologizada, mas expressão) da incapacidade de o sistema político brasileiro representar satisfatoriamente o antagonismo.  Incontáveis antagonismos pediram representação no sistema político brasileiro ao longo das últimas décadas, sem sucesso. A coalizão que expressa esses antagonismos que o sistema político fracassou ao representar chama-se bolsonarismo …

… O fascismo bolsonaristas, por uma conjunção contingente de fatores, passou a expressar uma rebelião de todos os normalmente chamados de “eles”, legitimando-se como rebelião plebeia do eles. (p.238)

Para Avelar a saída para evitar o puro catálogo de tipos que poderia explicar o surgimento desse polo de poder inesperado, é observar os grandes blocos político-discursivos que tornaram essa coalizão possível. O autor divide em blocos: do boi, a bala e da bíblia que são os mais tradicionais. Eles os chama de partidos, até para mostrar a obsolescência a que eles expuseram os partidos tradicionais.

O Partido do Boi e o Partido Teocrata

Para Avelar na coalizão bolsonarista houve, em primeiro lugar, o Partido do Boi. Foram os mais fundacionais cronologicamente. Ainda pelos idos de 2012-13, Jair já era um deputado de trânsito no agronegócio, mesmo que não tivesse grande desempenho parlamentar e nem fosse importante formador de opinião no Congresso Nacional.

Paulista-carioca de masculinidade caipira fake, homofóbica, anti-indigena e antiambiental, Bolsonoro sempre cultivou uma estética Barretos, de rodeio, que o tornou de fácil adoção por sojicultores do Mato Grosso e de Tocantins, pecuaristas de Mato Grosso do Sul, cafeicultores de Minas Gerais, vinicultores do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Foram os primeiros a apostar, inclusive porque o armamento é uma questão decisiva e mobilizadora para o setor … Especialmente pelo Brasil Central (MS, MT, TO, GO, Triângulo de MG, Oeste de SP). O tsunami antipetista foi avassalador. (p.240)

Assim, um setor importante do agronegócio se aliou a Bolsonaro por interesses econômicos, já que percebeu todo o cedo o plano de rédeas soltas. Outro setor foi parte da insurgência que Avelar chama de cultural, plebeia e sertaneja do Brasil Profundo, que sentou raízes do Paraná ao interior de São Paulo, a Minas Gerais, ao Centro-Oeste. 

O Partido do Boi mantém, uma relação umbilical com a bancada da bala, que o autor chama atenção que na coalizão bolsonarista encontrou sua morada privilegiada no que ele chama de Partido da Polimilicia. Existe, também, o Partido Teocrata, como ele prefere chamar a bancada evangélica. Isso porque nem todos os evangélicos compõem o bloco teocrata e também porque há católicos no seu interior, apesar de serem em menor número do que as correntes pentecostais e neopentecostais. 

É preciso somar a tudo isso o avanço da teologia da prosperidade e do empreendedorismo popular evangélico, como já vimos na obra de Juliano Spyer, durante a bonança do boom das commodities do lulismo e temos todo um universo da sociabilidade de milhões de brasileiros do qual a esquerda dificilmente teve notícia durante anos.

Carece de fundamentação antropológica a premissa (silenciosamente manejada em boa parte do ensaísmo de esquerda sobre o país) de que o universo dos sujeitos evangélicos seria caracterizado por maior propensão a ser “manipulado”, “iludido” ou “enganado” por suas lideranças do que é o caso em qualquer instituição da sociedade civil, do sindicato ao clube de futebol.

Em uma dinâmica em que todas as pontes possíveis com o universo evangélico haviam ficado a cargo das negociatas, a sociabilidade que se gestou ali terminou sendo moinho para o projeto teocrata, que abraçou decisivamente a coalização bolsonarista.

Partido da Ordem e o Partido do Mercado

Para Avelar tão decisivo para a coalizão bolsonarista como o Partido do Boi e o Partido Teocrata, foi o partido da ordem. Juízes, procuradores, delegados, policiais, ex-policiais, miliciano e militares de baixa patente foram elementos centrais na conformação da coalização que chegou ao poder em 2018. Seu slogan foi “matar bandidos” e a tônica deles no processo era a repressão ao crime. Havia dentro dessa coalização papel destacado para o que o autor chama do Partido da Lava Jato, que sabem usar os talheres e citam autores estrangeiros. Na verdade, esse é o berço do bolsonarismo, sobretudo as milícias cariocas que lançaram Jair Bolsonaro em sua aventura. Geograficamente, o Rio de Janeiro é o berço do bolsonarismo. 

Dessas duas metades do Partido da Ordem, a Polimilícia e a Lava Jato, a primeira foi uma espécie de núcleo fundante do bolsonarismo, antes mesmo que ele existisse como polo de poder. 

O partido do Boi foi o primeiro grande bloco a apostar no bolsonarismo e Partido Teocrata deu-lhe penetração massiva e popular, a ala polimiliciana do Partido d Ordem forneceu-lhe uma espécie de núcleo leninista fundacional e a ala lavajatista do mesmo partido trouxe as credenciais antipetistas que passaram a ser necessárias no Brasil pós-estelionato eleitoral de 2014-15. (p.253)

O Partido do Mercado se expressou em um único individuo, Paulo Guedes. Foi ele que viabilizou a alternativa eleitoral de Bolsonaro. Sem ele o bolsonarismo não se constituiria. É o ultraliberal que casou por conveniência com Jair Bolsonaro. Ele era uma espécie de cola que juntou os quatro partidos que compõem a coalização que chegou ao poder.

O Partido dos Trolls

Há um outro universo a ser considerado, o Partido dos Trolls. O bolsonarismo seria incompreensível sem atenção a uma modulação particular, própria da internet, que Avelar chama da linguagem da trollabem. Na verdade, são as centenas de mensagens que todos recebemos todo dia, sobretudo pelos grupos de whatshap e que fogem do campo da verdade. Elas ajudam a explicar a ascensão de Bolsonaro.

Essas publicações nas redes sociais desconsideram a diferença entre verdade, hipótese não fundamentada e a pura invenção. Há sempre uma ambiguidade acerca da seriedade ou não do enunciado. Esse conjunto garante a denegação automática, caso o enunciado seja questionado ou desmentido. O humor necessário a manter a atenção do leitor ou espectador do mundo volátil das redes sociais.  A operação troll ocorre nesse registro no qual a verdade e a mentira estão sempre mescladas e confundidas. 

Na medida em que a coalizão se formava, iam se congregando em torno do bolsonarismo os atores da internet pelos quais ele depois ficaria conhecido: as contas de Twitter e Facebok alinhadas com os perfis dos filhos de Bolsonaro e os alunos de Olavo de Carvalho, marcados por uma combinação peculiar de fundamentalismo cristão, anticomunismo e concepção conspiratória de política, os terraplanistas, os monarquistas iam formando os quadros do movimento que levou Bolsonaro ao poder. Todos contra o que costumam chamar de hegemonia cultural da esquerda e a chamada por eles de hegemonia marxista.

Quando os cursos de Olavo de Carvalho chamaram a atenção de Carlos Bolsonaro, já era nítido que se cozinhava ali uma grande escola de ressentimento. Mais do que Lula, o olavismo crescia ressentindo-se de Fernando Henrique Cardoso. O dandy poliglota e refinado representava mais dos ressentimentos entre os que cresceram sem saber usar os talheres.

Para finalizar essa apresentação aos meus leitores do olhar arguto de Idelber Avelar, sei que nem todos concordarão com toda a construção conceitual do autor. Entretanto suas análises são muito pertinentes e merecem ser lidas por todos os que se interessam pelo assunto. 

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