OS CICLOS CAPIXABAS DE PODER

Aqueles que observam a história, para compreender os processos políticos e elucidar o futuro, sabem que, tanto na economia quanto na sociedade, é possível compreender os processos históricos, com suas ascensões e declínios, por meio de ciclos. 

Um ciclo é uma sequência de etapas que se sucedem e se complementam. E em uma sociedade democrática, não é exagero dizer que esse início se traduz em uma necessidade e, consequentemente, naquela que é uma das mais poderosas ideias-força da democracia: o sentimento de mudança. 

Foi a vontade de mudar que fez a Europa derrubar as monarquias.

Foi o sentimento de transformação que moveu as primeiras lutas operárias que atravessaram toda a modernidade.

Não haveria abertura no Brasil se, nos anos 1980, não houvesse consolidado um desejo de romper com o que estava instituído, para avançar para um novo momento. Uma outra vida. 

No Espírito Santo não é diferente. Mais do que isso, o caso capixaba pode ser um exemplo didático de como os ciclos políticos tem início, meio e fim. 

Para ficarmos no exemplo dos capixabas, em 1947, logo após o fim da ditadura varguista, o Estado elegeu como governador um jovem filho de suas oligarquias, Carlos Lindenberg. Depois, seu grupo político elegeu Jones dos Santos Neves. A oposição elegeu Francisco Lacerda de Aguiar, mas, na sequência, voltou o Dr. Carlos e depois seu sucessor, Francisco Lacerda, o Chiquinho

Nesses cinco mandatos, três deles – os dois de Carlos e o de Jones – tiveram uma grande ideia-força: a industrialização do Espírito Santo, então um Estado agrícola e dependentes quase que exclusivamente do café.  

Encerrado pelo golpe de 1964, esse ciclo – capitaneado pelo projeto jonista, com foco na industrialização – foi implantado pelos governos que lhe sucederam. Christiano Dias Lopes e sua enorme perseverança, Arthrur Gehardt e sua inflexão para os grandes projetos industriais da época, que deram origem às atuais Vale, ArcelorMittal, Samarco e a Suzano. 

Esse ciclo se encerrou com quatro governos ao todo. Além de Christiano e Arthur, tivemos ainda os de Elcio Alvares e Eurico Rezende. A menor duração se deu graças a causas nacionais, não por motivações locais. Os militares voltaram com a prática das eleições estaduais.

Pensando no ciclo que se iniciou em 1982, o primeiro depois da ditadura militar, coube ao jovem Gerson Camata o papel do líder que aproximou o mundo urbano do rural e que abriu o jogo da participação da sociedade nos governos. Com o slogan “Vamos governar juntos”, Camata abriu caminho para sucessores naturais, como seu secretários José Morais, Max Mauro e Albuíno Azeredo (este, secretário de Max). E mesmo que sucedido por dois atores políticos que não estão diretamente ligados ao seu trabalho (Vitor Buaiz e José Ignácio Ferreira), é possível compreender estes dois últimos como fenômenos do mesmo processo democrático: o de um Espírito Santo que aos poucos transitava da organização social em torno do poder dos coronéis, das oligarquias e da terra, para um Estado industrializado conectado ao um novo tempo. O tempo da democracia.

Acontece que essa mesma fase também deixou marcas profundamente negativas para os capixabas. Entre elas, a perda do controle das contas públicas e o aviltamento das instituições. 

Assim chegamos à virada do Século XXI. Com a árdua tarefa de resgatar a credibilidade dos poderes do Estado, Paulo Hartung foi eleito em 2002, há exatamente 20 anos. Depois de dois períodos de governo, foi substituído por Renato Casagrande. Os dois se revezaram mais uma vez cada um, até hoje. São ao todo cinco mandatos e 20 anos de poder. 

A esse exercício de observar que, durante os últimos 80 anos da vida política do Espírito Santo, vivenciamos ciclos de, em média, 20 anos, acrescentamos que, como é comum nos processos históricos, cada um dos ciclos tem tarefas que nascem nos momentos anteriores, de boa e de má qualidade. E em todos os casos, as lideranças que participaram do ciclo subsequente, de alguma forma, estavam incluídas no processo anterior. Ou seja, mesmo que o processo de sucessão se construa traduzindo novas necessidades e mudanças, a história nos ensina que o protagonismo político é consequência do amadurecimento de seus atores. Nem sempre de rupturas profundas. 

E por que lembramos de tudo isso? Porque temos neste ano eleições. O Espírito Santo, após cinco mandatos e com seu padronizado ciclo de 20 anos, com dois governadores que surgem de um mesmo grupo, vai compreender, nos próximos meses, o quanto entende que tem que se transformar. 

Essa fase pode se estender por mais um período, e terminar em 2026 caso Renato Casagrande se reeleja. Mas, a partir da observação da história, temos um ciclo que vai se aproximando do fim. 

Cabe às lideranças que participaram desse ciclo, não como seus protagonistas – tanto na política quanto na sociedade –, construir um novo projeto com suas tarefas e ações para um mundo em rápidas transformações. 

Portanto, à medida que as eleições se aproximam, saberemos qual é o desejo mais profundo da sociedade capixaba hoje: um novo projeto, que dê passagem a um novo jeito de fazer política e compreender o novo mundo que estamos criando. Ou, adiar essa mudança até outro momento em que, de fato, se consolidará a ideia de que, na política, estamos sempre presenciando ciclos de começo, meio e recomeço. 

João Gualberto
blogjoaogualberto.com.br

Em tempo: complemento a leitura com os vídeos da série Gota de História, no canal do Youtube Saber Capixaba, em que falo sobre alguns dos principais personagens da história recente e dos ciclos de poder do Espírito Santo. Basta clicar nos nomes para assistir.

3 comentários sobre “OS CICLOS CAPIXABAS DE PODER

  1. Meu caro João Gualberto, você como sempre muito lúcido em suas análises politicas. No caso, retratou com fidelidade a vida daqueles que governaram o espirito Santo nas ultimas décadas. Em especial a vida e carreira politica do politico Gerson Camata. Parabéns.!

  2. Suas primorosas reflexões sobre a política e seus ciclos – a do Espírito Santo se amolda a eles – me lembrou Thomas Khun e sua teoria da superação dos paradigmas científicos. Quando o modelo não mais oferece respostas (mais ou menos) eficientes para as demandas cognitivas e emocionais, o Zeitgeist exige transformações. Sua análise identifica o esgotamento de um modelo mental e a necessária ascensão de novos modos de pensar e implmentar políticas públicas! Parabéns!!

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