• Novas lideranças políticas e a construção de uma terceira via verdadeira

    Por João Gualberto

    Todos os que como eu acompanham a política brasileira, viram o enorme esforço que foi feito por grandes personagens nacionais, para viabilizar a chamada terceira via na eleição presidencial do ano passado. Havia uma grande expectativa de que o eleitorado estava cansado da polarização Bolsonaro X Lula. Sobretudo o gestual tóxico do então presidente acendia a expectativa de que aquela dupla poderia ser superada. Tivemos muitos movimentos nesse sentido.

    Vamos lembrar de dois deles, ambos muito importantes. O primeiro os movimentos do governador Eduardo Leite do Rio Grande do Sul para ser o candidato do PSDB. Não conseguiu. Em luta típica da velha política, o então governador de São Paulo venceu as eleições internas no partido. Acabou não se viabilizando, e o PSDB fez triste passagem eleitoral. O partido diminuiu no processo, e nós perdemos a chance de ter uma candidatura mais atual.

    Outro movimento fez o apresentador de televisão e homem de fácil comunicação, Luciano Huck. Tentou de várias maneiras e com muitos apoios importantes construir um caminho alternativo a polarização. Desistiu precocemente, sequer se filiou a um partido político. Sua compreensão de que aquele não era o seu melhor momento, infelizmente estava correta. Isso sem falar no Ciro Gomes e na Simone Tebet, que não conseguiram grandes palanques. 

    Hoje a polarização continua, embora enfraquecida pelos evidentes problemas do ex-presidente Bolsonaro para explicar muitos fatos no seu governo. Fatos esses que envolvem todo o clã familiar. De outro lado, Lula mostra-se aquém das necessidades brasileiras contemporâneas. Mostra-se um líder envelhecido e com o farol voltado para trás. Suas falas não o ajudem em nada. Nem a ele e nem ao seu governo.

    Ou seja, precisamos mesmo construir uma via pelo meio, moderna, democrática, inclusiva e que permita a expressão de nossa diversidade. Essa via parece que não será construída pelo alto, pela ação das velhas elites. Claro que o centrão e os personagens de sempre, vão vestir novas roupagens. Vão tentar modernizar narrativas para conquistas o eleitorado cheio de vontade de construir um outro Brasil. Seguramente não são nosso caminho.

    Nosso caminho é ter uma multidão de pequenos lideres nas muitas frentes que constituem a nossa sociedade, como os cristãos evangélicos e católicos, as lideranças comunitárias, a gente da agricultura renovada, os empreendedores dos novos negócios e também dos negócios tradicionais. Enfim todos aqueles, independentes da faixa etária, que estejam a frente de processos importantes. Precisamos trabalhar lideranças comprometidas com o diálogo estratégico, com a democracia, com os novos valores que empoderam as pessoas e facilitam a prosperidade. 

     Muitas entidades, inclusive empresarias, tem prestado um bom serviço ao Brasil nesse sentido. Precisamos preservar as conquistas, mas também precisamos sair da bolha das lideranças dos setores mais privilegiados. Temos que conversar com as pessoas mais comuns, as lideranças do dia a dia que levam esse país para frente. Formá-los melhor. Manter um sistema permanente de atualização. Reforçar o ethos democrático.

    Sem lideranças democráticas na base da pirâmide social, não avançaremos na construção da nossa verdadeira terceira via.

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 20 de maio de 2023.

  • O papel do Centrão e o que vem após Lula e Bolsonaro

    Por João Gualberto

    Escrevi há mais de 10 anos artigo em A Gazeta, que está no meu blog pessoal, chamado O Pemedebismo na Cultura Política Brasileira. Nele comentei um livro que acabava de ser lançado, o Imobilismo em Movimento, de Marcos Nobre. O autor fez no trabalho importante resgate dos acontecimentos políticos brasileiros no pós ditadura, o período estudado foi o de 1985-2014. O seu foco especial foi a construção da nossa cultura política contemporânea, em especial do que ele chama do pemedebismo, que considera estruturante em nosso caso.

    A chave interpretativa que ele usa é o pemedebismo como uma espécie de blindagem do sistema político, represando as forças de transformação. Sempre foi o nosso balcão de negócios no dia a dia da política e na busca de resultados sem preocupações morais. Ele usou o termo pela força do PMDB naquela época, mas na verdade a análise vai muito além dele, chega ao nosso modo de fazer política. Heranças do nosso velho coronelismo, essa vertente se aprofundou na constituinte, se fortaleceu no impeachment de Collor. Fernando Henrique e Lula a usaram todas as vezes que precisaram, como na aprovação do instituto da reeleição na gestão FHC, no controle das bases no mensalão no primeiro governo Lula.

    Lembrei desse texto, tentando fazer uma breve reflexão sobre a trajetória histórica do chamado pemedebismo, movimento que acabou por fundar o centrão, que está imerso no que há de mais longevo no nosso imaginário político. Ele é produto e produtor de nossos impasses. Manda muito. Foi tão fundamental na gestão de direita de Bolsonaro quanto na de esquerda de Lula. Qualquer resultado eleitoral em 2022, o colocaria no epicentro do poder. As tramas legislativas brasileiras têm certa autonomia em relação a ideologia que está no poder entra no executivo. 

    Um dado desse momento que estamos vivendo, ajuda a explicar o novo papel desse setor pragmático.  A eleição da bancada da lacração, um grupo de extremistas que opera a política através das redes sociais, que acaba por empoderar o agora centrão no verdadeiro jogo de poder atual.  A experiência política e parlamentar dos líderes desse agrupamento político é fator determinante desse movimento.

    Não é só isso, há uma inflexão em jogo. Duas manifestações públicas mostram a construção de uma identidade mais contemporânea do Centrão: a entrevista do presidente da câmara dos deputados Arthur Lira no Globo de 30 de abril e do presidente nacional do PP, o ex-ministro Ciro Nogueira no programa Roda Viva do dia 24 do mesmo mês de abril. Em ambas fica nítida a busca de um papel mais programático, um perfil de centro direita. Parece que vai ficando claro que sem uma proposta de sociedade o toma dá cá não se sustenta. Ele continuará existindo é obvio, mas está entendido que para esses atores políticos a sociedade tem que mudar a percepção sobre eles. Já foram a praga para os bolsonaristas de 2018. Não querem continuar sendo.

    Esse movimento explicito de aceitar o nome Centrão e passar a operar um descolamento para a centro direita tem tudo a ver com o futuro político do Brasil. Começando pelas eleições municipais, e depois as regionais e nacionais em 2026. Vai incorporar mais claramente uma narrativa mais moderna, uma imagem mais compatível com o Brasil atual.

    Tudo isso está em plena construção. Tudo isso pode ter inflexões de várias ordens, mas uma coisa é certa, estão percebendo que os extremismos estão chegando ao fim, e querem construir uma nova alternativa eleitoral. É, de certa forma, o pós Lula e Bolsonaro, com pautas mais claras e identidade defendidas publicamente.

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 06 de maio de 2023.

  • Mais de cem dias depois, como está a oposição de direita no Brasil?

    A imprensa deu grande destaque à comemoração dos primeiros 100 dias do terceiro mandato do Presidente Lula. Muito já foi dito e escrito sobre o fato. Não vou mais comentá-lo. Aliás, para mim, como já registrei inúmeras vezes, o fenômeno político que mais diferenciou a eleição de 2022 foi a emergência, pela primeira vez no Brasil, de uma espécie de nova direita. Ela é fortemente marcada pelo pensamento de Olavo de Carvalho, pelo tradicionalismo político evangélico, pela presença militar nos partidos, entre outros elementos.  

    Uma nova direita que polarizou com as esquerdas, sobretudo petista, a reta final das eleições de 2022. Eletrizada pelo tom forte do ex-presidente Bolsonaro, por sua inequívoca presença e liderança, no ano passado, foi eleita uma bancada federal conservadora muito expressiva. Para ficarmos em dois exemplos no Espírito Santo, basta lembrar a surpreendente votação do deputado federal Gilvan da Federal e da eleição do senador Magno Malta batendo a veterana Rose de Freitas. Magno e Gilvan são do mesmo partido de Bolsonaro, o PL.

    O fato é que foi constituída no Brasil uma direita amalgamada por valores ideológicos extremamente conservadores e uma pauta moral muito rigorosa. Pauta surpreendente para um pais moralmente tão plástico como o Brasil. Valores inclusive mais presentes nas narrativas do que no cotidiano dessa nova direita. Mas, não importa, o fato concreto é que embalados por esse discurso musculoso, as direitas pretendem mudar a política e mudar o Brasil. Muitas vezes com propostas bastante autoritárias. Perdida a eleição presidencial, a realidade política levaria esses grupos políticos para a oposição. Seria agora a sua trincheira de lutas.

    A força do legislativo eleito nessa nova onda estaria nas propostas que os seus políticos são capazes de fazer. As entregas do legislativo são leis, suas normas, são regras. Propostas para fazer valer na sociedade um comportamento mais conservador, como foi prometido. Não é exatamente o que temos visto. Ao invés disso, a vasta legião de influenciadores digitais que chegou ao congresso nacional dá ao seu dia a dia, um ar meio teatral. 100 dias depois o que temos visto?

    O que mais conta na ação legislativa desses novos quadros hoje é capacidade do político lacrar, de falar uma frase desmoralizante, de deixar todos desconcertados. Usar uma peruca loura para chamar a atenção virou coisa normal. Nos velhos parlamentos brasileiros dos anos 1940 ou 1950, seria motivo suficiente para cassação. 

    Fico, de longe, com a impressão de que a maior preocupação dos atuais membros do congresso é produzir imagens que vão chegar aos seus eleitores. Esses por sua vez tratam de compartilhar as postagens, para o prazer de alguns e o ódio de muitos. A chamada política espetáculo tomou conta de tudo. Não podemos negar que esse é um elemento do mundo em que estamos vivendo. A dimensão áudio visual tomou chamou muita importância. A lógica temporal do tik tok dá o ritmo do tempo que estamos dispostos a gastar para nos informar. Quando essa dimensão ganha a produção parlamentar, o risco é não dermos densidade para propor as verdadeiras mudanças.

    O que estou argumentando aqui, é que a extrema banalização das atividades parlamentares no Brasil, e isso nos 3 níveis do governo, fazem com que a oposição que a nova direita pretendia fazer ao governo Lula tenha pouca capacidade de produzir fatos políticos. O velho centrão tende a tomar conta do espaço da articulação com suas conhecidas manobras e os parlamentares eleitos por suas performances nas novas mídias sejam de vida política passageira e pouco deixem de conteúdo.  Os 100 primeiros dias de oposição da nova direita, só me levam a refletir sobre a falta de consistência da bancada de influenciadores digitais e o crescimento inevitável da política tradicional.

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 22 de abril de 2023.

  • De onde nascem as soluções?

    Por João Gualberto e Helio Gualberto Neto

    A maioria dos manuais de administração nos quais se estudam nas universidades brasileiras tratam a história da gestão a partir da experiência americana. Ensina-se que o primeiro estudioso foi Taylor, criador do taylorismo no início do Século XX, na chamada Escola Clássica, depois seguida pela Escola das Relações Humanas. O percurso é completo por outras tendências que se afirmaram no processo. 

    O mesmo tipo de raciocínio é aplicado às demais disciplinas do curso, como marketing ou recursos humanos. Ou seja, nessas matérias, é comum se desconsiderar as práticas gerenciais brasileiras. O que se passou nos engenhos de cana de açúcar, de fato nossas primeiras fábricas,  para ficar em um exemplo, fica longe do horizonte de aprendizado profissional.

    Esse é o princípio que rege a produção das instituições sociais no Brasil, com o esquecimento quase que total do que se passou aqui. Uma busca de modelos idealizados nas realidades dos países capitalistas de ponta. Um bom exemplo é o nosso modelo de estado republicano. Copiado que se passava ao norte começamos nos chamando Estados Unidos do Brasil, e montando um regime republicano federativo como se fossemos os estados federados norte-americanos. 

    O que se viu na prática, naturalmente, ficou distante da intenção. O Brasil inspirado no modelo norte-americano, tornou-se um feudo dos velhos coronéis em que a inspiração democrática ganhou contornos de uma cultura aristocrática, moldada sob a violência e as perversas relações de poder da escravidão. 

    Essa nação, cujo modelo de construção institucional é cópia de experiências de outros países, produziu um jeitinho de conviver com  máscaras institucionais que se adaptam mal a face cabocla de cada um de nós.

    Não por acaso, um dos poucos autores clássicos na área de gestão que verdadeiramente estudou o Brasil, Guerreiro Ramos, sociólogo baiano, trabalha como conceito a Redução Sociológica: a ideia que cada instituição estrangeira ao ser implantada no Brasil tinha que ser adaptada para as nossas circunstâncias.  Assim, não adianta implantar – por exemplo – o código de trânsito que na Suécia dá bons resultados, se não temos no Brasil suecos para honrá-lo.

    É a partir deste pensamento que a sociologia das organizações precisa voltar a ser praticada entre nós. Como caminho para encontrar soluções que, de fato, façam sentido para as pessoas e comunidades que aqui vivem. Seja por meio da administração ou de olhares mais contemporâneos, como o do design estratégico, abordagem que coloca as pessoas no centro dos processos de decisão para construir soluções, melhores processos e ações. 

    O que acreditamos é que neste momento em que a cultura globalizada se coloca nos negócios, no comportamento e na comunicação, tão ou mais importante quanto dialogar com o conhecimento global  é buscar soluções e respostas adequadas a partir das condições únicas de um lugar específico, de uma sociedade determinada e de sua cultura. Uma prática que por mais que pareça óbvia, ainda é distante para um pais tão jovem e onde se olha mais para fora do que para os nossos exemplos. 

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 11 de abril de 2023.

  • A polarização nas eleições municipais em 2024

    O histórico recente da polarização política e eleitoral no Brasil, começa em 2013, nas manifestações gigantes que sacudiram o país. Ali também começou a construção da nossa nova direita. Essa trajetória cria, ao mesmo tempo, o fortalecimento de uma direita como nunca tivemos e um polo que se antepõe e polariza com ela. 

    Esse quadro ficou ainda mais acirrado com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, sobretudo nas grandes manifestações populares que produziu. A essa altura a questão alcançou também as massas, pela intensa utilização das redes sociais e do mundo digital. 

    Tivemos, na sequência política, as eleições de 2018 –de 2014 e 2016 sofreram menor impacto, o processo estava amadurecendo –  um marco de disruptura e também de enorme polarização eleitoral. Jair Bolsonaro pilotou um processo de desconstrução do campo da política tradicional, conseguindo em torno de sua candidatura uma coalizão de forças que foi desde o cristianismo conservador até o discurso armamentista, desde o monarquismo até o agronegócio. Isso para não ampliarmos muito essa discussão. 

    Para quem acompanhou surpreso as eleições de 2018, mais surpreso ainda ficou com o que ocorreu em 2022. Tivemos no ano passado uma potencialização do que havia ocorrido em 2018. A coalizão bolsonarista disputando contra o arco de alianças construído pelo PT, eletrizou as eleições. O mundo eleitoral ficou dividido de tal forma que o número do partido do ex-presidente Bolsonaro, o 22, arrastou uma lista de políticos pouco expressivos em todo o Brasil. O mesmo fato ocorreu com o 13 do PT. Ou seja, uma eleição onde o comportamento moral de muito valeu, e onde as gestões dos candidatos contaram menos do que suas narrativas.

    Estamos agora diante de um novo momento eleitoral, as eleições municipais de 2024. Quem acompanha o quadro da construção do cenário das disputas pode ver muito bem os movimentos atuais. Os grandes personagens da nossa cena política já estão em ação. Partidos, candidatos, gestões municipais, regionais e mesmo a nacional fazem suas apostas e criam suas lógicas de ação. Nesse momento cabe a pergunta: serão às eleições de 2024 tão polarizadas quanto as eleições nacionais?

    Quando olhamos o que ocorreu em 2020, vemos que temos traços, ainda que menos intensos, desse quadro polarizado em muitos municípios, sobretudo os maiores. Não com a intensidade generalizada do que se passou nacionalmente, e mesmo regionalmente. Faço aqui uma ilação, uma suposição. Parece que a questão da avaliação das atuais gestões municipais terá mais peso do que teria no quadro da vitória de Bolsonaro em 2022.

    Quero explicar. O número de candidatos que seria alavancado pela direita no caso de sua vitória, sobretudo pelas redes sociais, seria muito maior do que aqueles que a esquerda com seus velhos métodos é capaz de alavancar. Assim, o debate ideológico e moral fica menor. De outro lado, as posições adotadas pelo ex-presidente Bolsonaro reduziram – ao menos nesse momento – seu capital político. Não sabemos onde chegarão os imbróglios jurídicos em que anda metido, mas sabemos com clareza que ele não tem o tamanho que teria caso tivesse sido eleito.

    Os atores locais de extrema direita estão mais silenciosos do que no ano passado. Os partidos conservadores estão em busca de seus caminhos, contando em menor grau com o papel de Bolsonaro. Ainda não tem um líder nacional, que acabará surgindo. Enfim, com tudo isso acontecendo as disputas tendem a ser mais locais, a se centrarem mais nas avaliações das atuais gestões e dos atributos dos demais candidatos. Mais gestão e menos ideologia, parece ser um elemento do futuro processo eleitoral. 

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 08 de abril de 2023.

  • Prefeituras e Câmaras municipais: como reinventar o poder local?

    Por João Gualberto

    Quando as prefeituras capixabas onde se exploram petróleo, sobretudo no mar, começaram a receber royalties pagos pela utilização de seus recursos não renováveis, creio que nas décadas finais do século passado, eu imaginei que a operação não melhoria o futuro daquelas regiões, que era o objetivo do legislador. Minha impressão sempre foi que isso dificilmente ocorreria, ou melhor, que o poder local nessas cidades fosse capaz de construir e implementar uma visão de futuro, para quando o petróleo terminasse.

    Meu raciocínio é simples. A sociedade local e o poder regional precisavam estar envolvidos nas discussões de alocação de recursos. Os empreendedores, como agentes de desenvolvimento, deveriam ser ouvidos sobre a destinação dos recursos, de forma a permitir que a sociedade pudesse projetar suas necessidades nas questões de desenvolvimento político, econômico e social. Não só os empreendedores privados, os empresários, mas também os empreendedores sociais, os atores sociais relevantes e a sociedade como um todo.

    Entregar essa massa de recursos à gestão das prefeituras e câmaras municipais – que são as instituições formais que constituem o poder local no Brasil – era simplesmente ampliar o caráter assistencialista da maioria dessas instituições. Promover uma espécie de assistencialismo turbinado, onde as máquinas partidárias e eleitorais ampliariam os seus meios de produzir favores. Essa máquina de fazer favores morre com o fim de seu financiamento pela exploração do petróleo. Qual foi então o benefício mais estrutural, mais profundo, mais duradouro?

    Na verdade, a sociedade brasileira precisa discutir melhor a lógica política de seu poder local. Quando os portugueses aqui chegaram no século XVI, já implantaram para gerir os territórios incorporados ao império lusitano, as Câmaras de Vereadores. A Câmara de Vitória existe desde o século XVI –há quase cinco séculos, portanto – e é a instância de decisões políticas mais antiga do Espírito Santo. Promoveu nesses muitos anos de existência eleições periódicas e foi o epicentro de decisões fundamentais para a ilha. O mesmo raciocínio pode ser ampliado para todos os municípios brasileiros à medida em que foram sendo constituídos.

    Entretanto, a gestão moderna dos territórios está a exigir uma modernização na estrutura do poder local e está a demandar uma ampliação dos interesses representados no processo. O exemplo dos royalties é providencial. Sua gestão restrita a uma elite tradicional e descolada das demandas da sociedade moderna nos faz mal. Muito mal. A comunidade comum europeia resolveu essa questão há muito tempo. As pequenas cidades têm conselhos de gestão, ou conselhos comunitários. São espaços com dezenas de lideranças dos vários segmentos que compõem os territórios. Eleitos, são uma demonstração da importância das personalidades para o poder local. Não são remunerados, não têm dezenas de assessores, têm participação mínima no orçamento.

    Precisamos pensar em um modelo que faça sentido para a nossa sociedade. Precisamos começar a qualificar o poder local, a discutir melhor as políticas de desenvolvimento. Enfim, substituir essas discussões ideológicas que tomaram conta do nosso sistema político por algo que faça mais sentido e que produza mais benefícios para toda a sociedade. 

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 25 de março de 2023.

  • A estética do sucesso

    Por João Gualberto e Helio Gualberto Neto

    Nesses novos tempos que estamos vivendo, fortemente marcados pelas redes sociais, pela comunicação instantânea, pela realidade tomada pelo chamado tempo real, quase tudo que existe ganha novos contornos para se adaptar ao espaço digital. Produtos, serviços e lugares não são mais os mesmos quando ganham um novo sentido reproduzidos na rede. E as nossas vidas deixaram de ser vividas na solidão de nossas casas, no reduto de nossas famílias. Ficaram públicas. Aliás, ganharam um novo valor porque ficaram públicas. Se não está nas redes, não está no mundo.

    Fonte: Forbes.

    Neste espaço em que a comunicação parece permanente, reproduzimos mais do que nossas imagens. Mas nossos valores e nossas culturas. E o sucesso, como significação imaginária social, é um deles. Em determinadas sociedades ele podia ser medido pela força física, pela habilidade guerreira. Em outras pela produção de obras de arte notáveis ou pelo acumulo de muitos bens. O sucesso não tem significação fora do campo do imaginário social de um tempo. De uma criação histórica datada.

    Daí vem o encontro que queremos observar mais de perto. Se por quase todo o globo a noção de sucesso da atualidade está ligada ao dinheiro. Em uma sociedade que trata o business as usual como modo de fazer e o consumo como grande valor a ser perseguido,  nos chama atenção a construção de uma estética em particular. É a estética do sucesso.

    Incisivos, afirmativos, disciplinados, com capacidade de transformar suas próprias vidas e muitas vezes mostrar a milhares de pessoas o caminho do sucesso. Os detentores do sucesso passam a ser gurus da vida moderna com uma estética inspirada nos valores de uma sociedade que colocou o dinheiro como métrica de realização dos seres humanos.

    Esse formato e estilo passou a ser a linguagem de profissionais de todos os campos. Dos caricatos coachings a líderes religiosos. De presidentes de países às nossas vidas cotidianas, onde buscamos momentos compartilháveis nas redes sociais.

    Sem a pretensão de condenar ou aprovar uma ideia que vem dos tempos e das pessoas, nossa intenção é criar consciência de que a ideia de construção de imagem e busca do belo da estética dizem respeito a retratos. Que podem ser produzidos ou são a captura de um momento único. Enquanto a vida é movimento constante e necessidade de se abraçar a incerteza.

    Por isso é tão importante fazer essa distinção para não colocarmos como única regra algo que não se sustenta no tempo.

    Até porque, o tempo não está do nosso lado. A estética do sucesso diz respeito a formas de ver o mundo que desconectaram a noção de sociedade e da natureza. E o planeta não para de mostrar que nosso tempo como espécie que não convive em busca do equilíbrio, mas em disputa, está por acabar.

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 24 de março de 2023.

  • A história como inovação social

    Por João Gualberto

    O Espírito Santo, suas forças sociais, precisam rediscutir a nossa história. É bem verdade que já existe na Universidade Federal, um certo esforço intelectual para restabelecer certas verdades históricas, se é que existe essa categoria. Em todo caso, é necessário, mas é pouco. Países como França, Espanha ou Portugal socializam de tal forma os componentes de sua trajetória temporal, seus heroísmos e a força da sociedade em seu fazer cotidiano que passam uma sensação de pertencimento coletivo.

    Essa sensação de pertencimento alimenta o turismo em larga escala. Milhares vão ao norte da Itália – para citar apenas um exemplo – para conhecer vinhos e gastronomia, visitar edificações centenárias, igrejas antigas e museus que contextualizam o desenvolvimento daquele território cultural.  

    Por isso a história é um ativo coletivo. Produz riqueza. Tanto é assim que o presidente do Instituto Jones dos Santos Neves, Pablo Lira, afirmou recentemente que as áreas da economia criativa, sobretudo os serviços prestados pelas famílias como restaurantes, por exemplo, puxaram o crescimento do nosso PIB. Nós capixabas desperdiçamos muitos desses ativos turísticos. Para não ir longe demais basta lembrar o patrimônio arquitetônico representado pelas edificações jesuíticas do período colonial, como o Santuário de São José de Anchieta, todo restaurado e com acervo qualificado, e a Igreja de Reis Magos na Serra, também restaurada. 

    Os capixabas valorizam pouco sua história. Esse é o ponto. Nossas elites econômicas parecem presas a um modelo industrial que já nos alavancou no passado, tem um papel importante no presente, mas tem sua capacidade de promover uma verdadeira transformação social totalmente esgotada. É preciso investir na chamada economia criativa. O sentimento de pertencimento, a valorização da cultura popular e, sobretudo, o reconhecimento do que nos faz diferentes.

    O título do artigo pode parecer paradoxal, mas não é. Conhecer a história é conhecer a trajetória das razões do nosso sucesso como estado empreendedor. Já o termo inovação social é usado aqui como o conjunto de novas ideias que atendem a necessidades sociais e, ao mesmo tempo, criam novas relações ou colaborações entre as pessoas e os grupos. Essas inovações recombinam recursos e capacidades já existentes para criar novas funções e novos sentidos. Usar a história como inovação social implica em vê-la com um olhar no futuro. Trazer aprendizados do passado.

    Voltando ao tema histórico, já falei da arquitetura jesuítica, poderia ter citado também as lindas fazendas de café da região de Mimoso do Sul, da beleza da cidade de Muqui ou do esplendor da Fazenda do Centro, em Castelo. Todo esse ativo corre riscos, com as fazendas do final do século XIX e início do século XX que estão em ruínas no sítio histórico de São Pedro de Itabapoana. 

    Mesmo a imigração europeia do século XIX, feita na maior parte por italianos e germânicos como os pomeranos, tem uma exploração econômica muito baixa. Você, leitora ou leitor, conhece algum prato da gastronomia pomerana? Nunca tivemos em Vitória restaurante que explorasse tantas comidas de qualidade eles produzem historicamente. Então, mais uma vez temos um ativo turístico desperdiçado.

    Mas por que agregar, então, Inovação Social? Simplesmente porque explorar nossas trajetórias de forma inovadora pode aumentar pertencimento, destruir o falso mito da ausência de identidade que nos assalta, e nos fazer maiores diante da federação brasileira e do universo globalizado em que estamos. Estudar e reinventar o passado é absolutamente inovador. Uma plataforma de oportunidades. A socialização dessas informações tem que ser compatível com o mundo digital, longe dos grandes compêndios de história que só interessa aos intelectuais. Mas, isso já é motivo para um outro artigo.

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta, no dia 11 de março de 2023, com o título “ES precisa aproveitar sua história como inovação social”.

  • Luiz Moulin

    Por João Gualberto

    No último dia 02 de março, um dos grandes personagens da vida política capixaba dos últimos 40 anos nos deixou para sempre. Morreu com a simplicidade com que sempre viveu um dos homens mais cultos e exuberantes que já conheci, Luiz Ferraz Moulin. Duas vezes prefeito da sua querida Guaçuí, o primeiro secretário de meio ambiente de nosso estado, secretário de justiça do primeiro governo Paulo Hartung, com grandes tarefas para aquela época.

    Luiz sempre foi um disruptivo. Minha família passava férias em Nova Almeida já distante verão de 1969. Eu era amigo de primos dele. Foi quando o conheci. O ano de 1968 havia terminado com o terrível AI5. Ele era liderança estudantil de esquerda em Vitória, onde cursava o direito da UFES. Naquele verão ele resolveu sumir de lugares óbvios, temeroso da polícia política do regime.

    Foi um grande encontro na minha vida. Meu pai era juiz de direito em Colatina, onde vivíamos. Foi transferido da comarca de Guaçuí anos antes. Foi um grande encontro. Ele conhecia os personagens que só habitam os jornais do Rio e de Vitória que meu pai assinava. Passávamos horas na praia, onde ele só ia mesmo para conversar. Jamais aprendeu a nadar, andar de bicicleta ou dirigir. Era um habitante do estranho universo das ideias, da cultura e dos ideais de progresso e transformação social. Muito aprendi com ele nesse verão de Nova Almeida.

    Na sequência mudamos para Vitória, onde também fui estudar na UFES. Nossos cursos eram noturnos. Costumávamos ir e voltar juntos. Mais conversas de política. Mais aprendizado, até que ele foi cursar sociologia como mestrado em Paris, nos anos 1970. O reencontrei candidato a deputado estadual pelo PMDB em 1978. Era o nosso candidato, o candidato da centro esquerda intelectualizada. Seus discursos potentes não foram suficientes para elegê-lo, mas o prepararam para outra missão. Na onda da redemocratização e da eleição de Gerson Camata, foi eleito prefeito de Guaçuí.

    Fez o governo municipal mais moderno e democrático de sua geração, seja em termos regionais, seja em termos nacionais. O orçamento participativo mudou a lógica de distribuição de recursos municipais. A polícia interativa foi modelo importante para a geração de uma elite militar mais comprometida com os ideais da Nova República. Foi um governo disruptivo em todos os sentidos. Desalojou velhos interesses do poder para dar passagem para o novo. Representantes de camadas até então silenciadas tiveram voz. Se nada mais tivesse feito nesse mundo, somente essa sua gestão seria o bastante para colocá-lo do panteão dos grandes políticos de sua geração.

    Foi depois nosso primeiro secretário de meio ambiente e mais tarde, no primeiro governo de Paulo Hartung, secretário de justiça. Missões que cumpriu muito bem. Fora da política nos últimos anos, adquiriu um caráter mais conservador, mais tradicional.

    Como nunca admitiu corrupção, ingressou no discurso mais forte do lava-jatismo. Sempre foi monarquista, tanto que foi o coordenador estadual da campanha monarquista de 1993. Esse seu lado mais tradicional monarquista, seu profundo catolicismo tradicional – devoto de São Miguel Arcanjo – o conduziram a uma simpatia grande com as Novas Direitas. Estava sempre antenado com as novidades nesse campo.

    Esse foi o meu grande amigo Luiz Moulin. Disruptivo, exuberante, em muitos momentos exagerado, mas um personagem vital nas conquistas recentes da política capixaba. Uma enciclopédia.

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 03 de março de 2023.

  • Meneguelli e o terno na Assembleia: a República dos Palácios

    Por João Gualberto

    O deputado estadual recém-eleito Sérgio Meneguelli – verdadeiro fenômeno eleitoral de 2022, o mais votado do estado e proporcionalmente o mais votado do Brasil – não pretende comparecer às sessões da assembleia legislativa de terno, como prevê o regimento interno da casa. Quer continuar usando suas camisas com o slogan “I love Colatina”, numa versão local da marca que consagrou Nova Iorque. 

    Sérgio Meneguelli obteve 138.523 votos nas eleições de 2022, se tornando o deputado estadual mais votado da história do Espírito Santo. Fonte: Folha Vitória.

    Como uma solução para o dia da posse, usou um blazer jeans. Uma solução bem na linha do jeitinho brasileiro. Pelo que a imprensa informa, ele pretende continuar com a sua informalidade que rendeu uma multidão de votos. Tem lá suas razões. Mesmo porque há um deputado da extrema direita que comparece de uniforme policial, mesmo sendo reformado, portanto não está de terno. Por que não o “I love Colatina”? Cada um com o seu marketing.

    Embora não me pareça que o deputado queira politizar sua postura pessoal, ela comporta uma análise. Por que razão a casa do povo, que representa os interesses de uma população majoritariamente pobre, desassistida e às voltas com problemas que vão da fome à falta de médicos, remédios e hospitais, exige dos deputados paletó e gravata? Esteticamente, a nossa casa de leis está perdida nos anos 1950, quando era exigido de todas as autoridades uma sobriedade que somente o terno podia expressar. 

    Nos tempos das redes sociais, no mundo da informalidade dos influenciadores digitais, em uma sociedade que veste bermudas, esse tipo de exigência me parece anacrônica, elitista e excessivamente formal. O razoável seria acabar com esse tipo de formalidade, dando aquela casa a cara que o nosso país quente, informal e pobre tem. Certo está o deputado Meneguelli quando quer manter o seu estilo consagrado de campeão de votos.

    Aliás, o anacronismo estético do poder no Brasil também se expressa em outros espaços. Quando a República foi implantada no Brasil, em 1889, o foi através de um golpe militar, uma quartelada conduzida pelas elites até então monarquistas e insatisfeitas sobretudo com o fim do trabalho escravo. Não foram razões exatamente democráticas. A República consagrou um poder no qual o mandatário maior era uma espécie de imperador por quatro anos. Centralizador, autoritário e pilotando um regime excludente e machista.

    Restos dessa postura ainda estão aí. Tanto é que nossos governantes habitam palácios, na velha nomenclatura imperial. Existem palácios para tudo, para o executivo, para o legislativo e para o judiciário. Todo prédio imponente vira um palácio. Restos de um passado que insiste em ser presente. O mundo simbólico também se transforma em real como todos sabemos. O real simbólico brasileiro habita palácios vestido de terno. Mais distante do povo impossível.

    A sociedade brasileira tem importantes problemas a resolver para se tornar moderna, igualitária. Certamente enfrentar todos esses problemas exige coragem e abandono de velhas posturas. Existe muita coisa a ser desconstruída nessa longa trajetória. Existem prioridades certamente, mas o elitismo e a distância da população que se expressa uma forma de se vestir da velha república que morreu em 1930, há quase um século, certamente é uma delas.

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 25 de fevereiro de 2023.