• A eleição em Vitória

    Por João Gualberto

    Todos os que acompanham os bastidores das eleições municipais que serão realizadas no ano que vem, sabem que já existe forte movimentação dos pré-candidatos, seus partidos e grupos políticos. Normalmente os que estão em postos de poder falam que ainda é cedo para falar de eleições, que estão focados em seus mandatos. Na maioria das vezes é simples teatro. Pensam nelas o tempo todo, e se movimentam sempre levando em conta seus elementos. Os demais candidatos buscam visibilidade através de lançamento de pré-candidaturas, ações partidárias e presença nas mídias. Ações práticas para as suas existências. 

    No caso da nossa capital não é diferente. É forte a movimentação. Levantamento quantitativo feito pela Paraná Pesquisas e divulgado recentemente – que estão muito próximos de outra pesquisa, feita pelo instituto capixaba Perfil –  mostra um quadro com a presença do atual prefeito Pazolini, candatíssimo a reeleição, além do petista João Carlos Coser, que aparece em segundo, e as presenças marcantes do Capitão Assunção, Camila Valadão e o ex-prefeito Luiz Paulo Velozo. Tyago Hoffman ainda aparece discretamente. Todos estão em movimento e em busca de seus espaços políticos e eleitorais.

    Chama a atenção o reposicionamento do atual prefeito. Como vivo na capital, tenho acompanhado a ampliação dos investimentos que têm sido feitos. São muitas obras e todas com grande visibilidade. Todas têm cálculo eleitoral. Além disso, algumas medidas que atingiram os servidores municipais estão também certamente nesses cálculos. Um minucioso trabalho de acompanhamento dos prefeitos capixabas no instagram feito pela Persona – empresa que ajudo a dirigir – também mostra um reposicionamento de Pazolini. Resultado prático: cresceu nas intenções de voto das pesquisas.

    Outro elemento que a pesquisa revela é o impacto do ingresso da deputada estadual Camila Valadão na cena política da eleição. Suas intenções de voto sangram o ex-prefeito petista João Coser. A primeira impressão que esse movimento causa no mercado político é que as duas candidaturas juntas serão fortes. Uma aliança entre PT e PSOL poder surgir daí. Ou não. A jovem e combativa deputada pode querer testar seu nome e acumular capital político. Esse movimento terá grande impacto no quadro que estou analisando.

    Luiz Paulo, agora mais seguro no PSDB, onde dirige o diretório municipal de Vitória, é um grande player. Em 2020 não pode disputar a eleição municipal por desavenças partidárias no próprio PSDB. Aparecia nas pesquisas, entretanto, do mesmo tamanho de Coser. Em 2020 Coser disputou o segundo turno como o candidato do governador Renato Casagrande e tenho bom desempenho. Caso Luiz Paulo estivesse na disputa não sabemos como teria sido, nem como o governo do estado teria se posicionado. O fato concreto que agora mais ancorado partidariamente, ele é um forte ator no processo.

    O Capitão Assunção, presença forte nos setores militares da extrema direita, precisa dizer aos seus eleitores como será sua campanha para prefeito. Ela ancorou sua ascensão política na afirmação da pauta de costumes muito conservadora, uma das bases mais sólidas no bolsonarismo. Ele é o representante desses setores nas eleições de 2024 em Vitória. Veremos como será o seu comportamento. Certamente será relevante, vocaliza muitos sentimentos.

    Tyago Hoffman ensaia uma candidatura pelo PSB. Está ainda muito no começo. A maioria dos observadores da cena política, acredita que ele faz um balão de ensaio para ampliar sua importância no processo e ter peso na mesa das decisões. Essa é uma certeza que não devemos ter em políticas. A candidatura de Tyago poder ser para valer. Caso tenha o apoio declarado o governador Renato Casagrande e da cúpula do PSB, da qual ele é membro importante, vai fazer parte do time da série A das eleições. 

    Em resumo, vivemos uma espécie de ensaio geral. Muita coisa ainda vai acontecer. Os movimentos do governador Casagrande serão vitais. Quem viver verá. 

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 26 de setembro de 2023.

  • A trajetória social dos evangélicos no Brasil

    Por João Gualberto

    Desde o início do período colonial até a proclamação da república, no fim século XIX, os portugueses impuseram o catolicismo como religião de Estado no Brasil. Não era permitido professar nenhuma outra fé. Mesmo depois da independência, a situação continuou a mesma.

    No período monárquico, fomos igualmente sujeitos a mesma limitação no exercício religioso. Assim, nossos antepassados ficaram compulsoriamente vinculados a uma única religião, por vários séculos. A Santa inquisição aplicou sentença de suplícios horríveis a muitos que ousaram manifestar outras crenças, mantendo-se, assim, o controle sobre todos. Medo e fé na mesma medida.

    Para conseguir construir uma nação católica nas Américas, o esforço para catequizar os indígenas foi imenso. A despeito da estrutura cultural que havia nos habitantes do território colonizado, tornar-se cristão, nessa lógica perversa era uma imposição a todos.  A mesma fé compulsória era destinada aos povos vindos da África. Os escravizados – tanto indígenas quanto negros – eram batizados em uma igreja totalmente fora de seu universo cultural.

    O resultado desse processo social foi, entre muitos outros, um enorme sincretismo religioso. Os rituais e crenças dos não europeus sobreviveram, através de vários mecanismos, entre os quais, estão as religiões de matriz africana, sobretudo a Umbanda, tão forte entre nós, assim também os elementos do chamado folclore, de origem indígena. Muitos deles ainda estão presentes, sobretudo nas populações não urbanas.

    Somente no fim da monarquia houve certa aceitação de outras religiões cristãs. Afinal, o império fomentava a imigração europeia, e começaram a chegar os povos de cultura germânica, que eram em grande parte protestantes luteranos, como eram conhecidos na época. As práticas desses povos eram toleradas, embora seus templos não fossem bem aceitos. Nessa mesma época começaram a chegar também os missionários americanos.  Foram, inicialmente, presbiterianos, metodistas, congregacionais, anglicanos, batistas a aqui chegar em maior número.

    Como não podiam, logo no início, edificar templos, era comum que alugassem as salas mais amplas e de menor valor de mercado. Grandes salas no Rio de Janeiro tinham cadeiras onde todos podiam sentar-se em seus bancos confortáveis, ao contrário dos templos católicos. Além disso, os primeiros espaços dos cultos eram mais democráticos. Os mais ricos não tinham prioridade nos assentos. Tão mais popular eram os fiéis, que os seus críticos aristocráticos os chamavam de alfaiates letrados.

    Estou atraindo a atenção dos leitores para esses pontos, porque as várias denominações evangélicas, no caso brasileiro, foram mais populares desde a sua chegada ao Brasil. Quando a Assembleia de Deus chegou, nos primeiros anos do século XX, aprofundou-se essa tendência. As chamadas igrejas tradicionais acabaram captando setores ascendentes da classe média, e os amplos setores populares foram encontrar abrigo nas chamadas denominações pentecostais.

    Isso mostra, de forma breve, o movimento social dos evangélicos. Não por acaso, na urbanização acelerada dos anos 1960 e 1970, foram esses setores religiosos que mais cresceram. Tinham já suas raízes bem fincadas na realidade brasileira. No campo sociológico, nada acontece por acaso, assim como, as trajetórias têm suas bases em longos períodos de tempo.

    Ao avaliarem as posturas políticas dos evangélicos, muitos analistas críticos, às vezes se esquecem desses fenômenos de sociedade, e os atribuem à falta de informação dos setores populares ou a manipulação dos pastores. Elementos que estão em outro plano de compreensão. Certamente não é a ignorância das massas que explica a dimensão social e política dos evangélicos no Brasil.

    Artigo publicado originalmente no portal ES360 no dia 10 de setembro de 2023;

  • A força da periferia

    Por João Gualberto

    O processo histórico de construção da sociedade brasileira, transmitiu a todos nós legados importantes. Um dos mais fortes é a nossa cultura popular. Por razões óbvias, ela tem uma inspiração profundamente africana, embora o hibridismo com a cultura lusitana tenha sido extenso. A fusão das crenças originárias de povos africanos com o catolicismo é a maior prova. Daí, o sincretismo religioso.

    Várias tem sido as formas de negação dessas marcas tão importantes de nossa trajetória como sociedade. Há algumas décadas, tudo o que dizia respeito aos cultos de matriz africana era interditado ou fortemente discriminado. No auge da ditadura Vargas, nos anos 1930/40, muito terreiros foram fechados Brasil afora; mães e pais de santo ou mesmo os que acreditavam nesses rituais religiosos foram violentamente agredidos.

    O preconceito continua. A extrema direita brasileira, nos dias de hoje, por exemplo, ainda trata com forte discriminação todas as manifestações religiosas de matriz africana e nega todas as políticas compensatórias possíveis. Mais do que isso, exercita um negacionismo, sem fundamentação na realidade histórica.

    São contra todas as formas de tolerância. Insistem em construir novas “europas” entre nós, com uma tentativa de eliminar a densidade dos negros em nossa história. É evidente que os traços de africanidade estão presentes na cultura brasileira, de forma abrangente, seja na culinária, na língua, nos gestos, nas artes ou em qualquer instância social desejada. Todos esses traços são muito marcantes em nossa cultura artística.

    As periferias das grandes cidades brasileiras tiveram seu crescimento recente, sobretudo a partir dos anos 1960 e 1970, balizado por forte migração interna. Pessoas que até então viviam no campo deslocaram-se para alimentar o crescimento industrial e urbano de nossa sociedade. Contudo, não foram implementadas políticas sociais e urbanas para acolher esses milhões de brasileiros. O auge desse movimento deu-se durante os anos de chumbo dos governos militares. Época em que a lógica tecnocrática comandava a política.

    Os que viviam na zona rural vieram para as cidades, que cresciam em condições sub humanas. As periferias das grandes cidades passaram a ser o locus de uma nova forma de viver, quase sempre muito dura. Violenta, mas cheia de manifestações culturais. São produtos de nossas heranças profundas. Uma nova configuração de viver essa trajetória histórica de muitas dores, deu origem a uma nova forma de viver as artes. A cultura da periferia invadiu todos os palcos do Brasil, como já vinha fazendo em outros países do mundo.

    Esse novo fazer artístico, fortemente ancorado na nossa africanidade e nas nossas tradições populares, não consegue se proclamar politicamente com a mesma força que tem no tablado artístico. As esquerdas tradicionais no Brasil, ainda não entenderam a força política desses novos contornos de manifestação da alma de nosso povo, e continuam presas a velhas formas de expressão coletiva.

    Essa energia artística e política de nossa juventude que vive nas favelas e nas periferias de nossas cidades não me parece ter, hoje, produzido lideranças que estejam no grande jogo da política. É uma ausência que precisa ser resolvida. A presença dessa força organiza, a meu ver, os processos contemporâneos de produção de lutas e de pertencimento. São, como nominou o sociólogo Jailson de Souza e Silva, as bruxas e bruxos das cidades. São e serão atores muito relevantes no processo político brasileiro.

    Ainda hoje, estão sub representados em qualquer instância decisória de nossa sociedade. O combate ao racismo, o reconhecimento de nossas diversidades, as novas construções familiares, tudo pode ser melhor construído com a representação desses protagonistas. É uma forma mais democrática e contemporânea de produzirmos a transformação social que tanto sonhamos.

    Artigo publicado originalmente no portal ES360 no dia 27 de agosto de 2023.

  • O processo histórico de construção da sociedade brasileira, transmitiu a todos nós legados importantes. Um dos mais fortes é a nossa cultura popular. Por razões óbvias, ela tem uma inspiração profundamente africana, embora o hibridismo com a cultura lusitana tenha sido extenso. A fusão das crenças originárias de povos africanos com o catolicismo é a maior prova. Daí, o sincretismo religioso.

    Várias tem sido as formas de negação dessas marcas tão importantes de nossa trajetória como sociedade. Há algumas décadas, tudo o que dizia respeito aos cultos de matriz africana era interditado ou fortemente discriminado. No auge da ditadura Vargas, nos anos 1930/40, muito terreiros foram fechados Brasil afora; mães e pais de santo ou mesmo os que acreditavam nesses rituais religiosos foram violentamente agredidos.

    O preconceito continua. A extrema direita brasileira, nos dias de hoje, por exemplo, ainda trata com forte discriminação todas as manifestações religiosas de matriz africana e nega todas as políticas compensatórias possíveis. Mais do que isso, exercita um negacionismo, sem fundamentação na realidade histórica.

    São contra todas as formas de tolerância. Insistem em construir novas “europas” entre nós, com uma tentativa de eliminar a densidade dos negros em nossa história. É evidente que os traços de africanidade estão presentes na cultura brasileira, de forma abrangente, seja na culinária, na língua, nos gestos, nas artes ou em qualquer instância social desejada. Todos esses traços são muito marcantes em nossa cultura artística.

    As periferias das grandes cidades brasileiras tiveram seu crescimento recente, sobretudo a partir dos anos 1960 e 1970, balizado por forte migração interna. Pessoas que até então viviam no campo deslocaram-se para alimentar o crescimento industrial e urbano de nossa sociedade. Contudo, não foram implementadas políticas sociais e urbanas para acolher esses milhões de brasileiros. O auge desse movimento deu-se durante os anos de chumbo dos governos militares. Época em que a lógica tecnocrática comandava a política.

    Os que viviam na zona rural vieram para as cidades, que cresciam em condições sub humanas. As periferias das grandes cidades passaram a ser o locus de uma nova forma de viver, quase sempre muito dura. Violenta, mas cheia de manifestações culturais. São produtos de nossas heranças profundas. Uma nova configuração de viver essa trajetória histórica de muitas dores, deu origem a uma nova forma de viver as artes. A cultura da periferia invadiu todos os palcos do Brasil, como já vinha fazendo em outros países do mundo.

    Esse novo fazer artístico, fortemente ancorado na nossa africanidade e nas nossas tradições populares, não consegue se proclamar politicamente com a mesma força que tem no tablado artístico. As esquerdas tradicionais no Brasil, ainda não entenderam a força política desses novos contornos de manifestação da alma de nosso povo, e continuam presas a velhas formas de expressão coletiva.

    Essa energia artística e política de nossa juventude que vive nas favelas e nas periferias de nossas cidades não me parece ter, hoje, produzido lideranças que estejam no grande jogo da política. É uma ausência que precisa ser resolvida. A presença dessa força organiza, a meu ver, os processos contemporâneos de produção de lutas e de pertencimento. São, como nominou o sociólogo Jailson de Souza e Silva, as bruxas e bruxos das cidades. São e serão atores muito relevantes no processo político brasileiro.

    Ainda hoje, estão sub representados em qualquer instância decisória de nossa sociedade. O combate ao racismo, o reconhecimento de nossas diversidades, as novas construções familiares, tudo pode ser melhor construído com a representação desses protagonistas. É uma forma mais democrática e contemporânea de produzirmos a transformação social que tanto sonhamos.

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 27 de agosto de 2023.

  • A invenção da esquerda no Brasil

    Por João Gualberto

    A esquerda chegou ao Brasil no final do século XIX. Nesse primeiro momento, chama a atenção dos estudiosos a forte presença dos anarquistas, sobretudo entre os operários urbanos de origem espanhola e italianos, dentre outras nacionalidades. Essa presença foi definitiva na primeira grande greve brasileira, ocorrida em São Paulo, em 1917. Os grevistas pararam a cidade durante vários dias.

    Em 1922, com a criação do partido comunista, vai ganhando mais espaço entre o movimento operário, e mesmo entre intelectuais, essa corrente de pensamento. A partir dos anos 1930 e 1940, transforma-se no epicentro das grandes greves, como as ferroviárias – como a que aconteceu em Cachoeiro – e também dos trabalhadores ligados aos sistemas portuários. Eram as classes organizadas naquele momento. De fato, a esquerda brasileira que chega aos nossos dias nasce nesse momento e desses movimentos.

    Somente nos anos 1970 e 1980, surgirá um novo sindicalismo, que rompe com a hegemonia dos velhos sindicatos, nascidos nos primeiros períodos. Os sindicatos tradicionais haviam sido cooptados pelo poder, e eram pouco mais que organismos assistencialistas e de controle de pequenos clãs imutáveis. As greves no ABC paulista de 1978-1980, ocorridas no contexto da abertura política e no fim do período dos militares, marcam o ressurgimento do movimento trabalhista brasileiro. Surge, aqui, uma nova elite operária, cujo principal nome seria o de Lula. Muito importante nessa reconstrução foi a esquerda da igreja católica, assim como muitos intelectuais, artistas e formadores de opinião. 

    O Brasil clamava por uma abertura ampla, que atingia a todos desses públicos. Nesse momento, os conservadores que sustentavam o regime autoritário eram minoritários, tanto que, muitos setores empresariais estavam, também, participando desses movimentos. O modelo de desenvolvimento baseado em estatais e no controle de poucos grupos apresentava sinais de desgaste. O tempo cria, institui novas demandas e exige mudanças.

    O que estou argumentando aqui é que cada ciclo econômico, político e social tem as suas demandas e cria suas necessidades políticas. As necessidades que fizeram surgir o novo sindicalismo nos anos 1970, apoiado por setores da igreja católica e formadores de opinião estão em grande transformação. Os sindicatos, a grande imprensa e mesmo a igreja católica perderam potência. De outro lado, há novos atores no processo social que pedem passagem.

    As periferias vieram para o centro do processo. A velocidade dramática do crescimento urbano criou um novo mundo para milhões de brasileiros. Mundo de excluídos dos grandes investimentos nas cidades, sem equipamentos urbanos e com uma ação policial lamentável pela truculência que todos conhecem. Com as novas periferias, emergem, com força, as questões de combate ao racismo, as questões de gênero, de tolerância, para falar dos mais emblemáticos. Elas dizem respeito ao cotidiano nessas novas regiões urbanas. Por trás de tudo isso, a necessidade de construir novos patamares democráticos, de repensar os vínculos sociais.

    Experiências exitosas como o orçamento participativo, os inúmeros conselhos ligados às gestões municipais já não dão conta dessas novas construções sociais. Portanto, a reinvenção das esquerdas está colocada no mundo das coisas reais, das novas representações sociais do imaginário político brasileiro. É uma necessidade social que tem que ser compreendida e politizada.  A direita já entendeu isso, e tem atuado com sucesso em muitos países, inclusive no Brasil. 

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 12 de agosto de 2023.

  • A centro-esquerda capixaba tem de se reinventar

    Por João Gualberto

    Tenho escrito de forma recorrente sobre o crescimento da direita no Brasil e no Espírito Santo. Ao analisar as últimas eleições, dei ênfase ao crescimento da chamada pauta de costumes dos evangélicos e dos militares na política. Os candidatos majoritários Carlos Manato e Magno Malta, foram sustentadores desses valores no mundo eleitoral capixaba, por exemplo.

    Mais recentemente escrevi sobre a inflexão para a centro-direita. Em termos regionais, na cola de um movimento nacional, foi se estruturando um bloco de poder sob a condução de partidos como o PP, Republicanos e setores do Podemos, dentre outros. Atores relevantes na bancada federal, na assembleia legislativa, nas prefeituras e câmaras municipais têm atuado nessa inflexão. As discussões da centro-direita, têm sido mais econômicas, nos afastando da pauta mais radical de costumes. 

    Entretanto, este é o meu olhar. Não é o único. Segundo informações, o deputado federal Evair de Melo, vice-presidente nacional do Progressistas acredita que a polarização não está vencida. Confia que mesmo no pleito de 2026 ela estará presente. Parte do princípio de que o Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso e interior de São Paulo são particularmente conservadores e, por isso, embora, neste momento manifestem-se discretamente, a polarização continua presente. Para ele, em 2026, ela deve aflorar.

    Nesse ambiente político, temos que pensar na posição da nossa centro-esquerda, nas disputas regionais e como ela vai enfrentar esse cenário, pois tem ao seu lado o governo nacional, sua máquina e suas políticas públicas. Lula foi o candidato do governador Renato Casagrande, mas com muita cautela. No segundo turno, Casagrande, com habilidade dividiu sua base entre lulistas e bolsonaristas. Na direita tiveram peso especial dos prefeitos Arnaldinho Borgo, Euclério Sampaio e Enivaldo dos Anjos. Funcionou eleitoralmente, mas a centro-esquerda, da qual o governador faz parte, saiu com problemas de identidade a serem resolvidos.

    Na polarização, o embate das candidaturas do PL e do PT, produziu o deputado federal mais votado, Helder Salomão. Igualmente tivemos a expressiva votação de deputados estaduais, como João Carlos Coser e Camila Valadão, do Psol. Também levou, no polo oposto, a votação espantosa para Gilvan da Federal e alguns estaduais da bancada dos lacradores, muito atrelados a lógica das redes sociais e as pautas de costumes. Reforçou o poder eleitoral de Bolsonaro, e também de Lula e dos antigos petistas capixabas. Na maioria, ex-prefeitos de longa tradição na política local.

    Como parto da ideia que a polarização deve ficar menor, boa parte da centro-esquerda capixaba, certamente terá que se reinventar. Precisa buscar novas raízes na sociedade e nos movimentos socais mais contemporâneos. Caso não se reposicione, vai envelhecendo com seus atores tradicionais e com a pequena capacidade de gerar novas lideranças. Muita coisa nova está acontecendo e novos atores estão entrando em cena. Mas, isso é assunto para outra coluna. 

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 29 de julho de 2023.

  • A nova direita brasileira (e capixaba) está se formando

    Por João Gualberto

    O capital político do ex-presidente Jair Bolsonaro entrou em combustão desde que tornou-se inelegível, por decisão do TSE. Seus movimentos, tentando impedir a aprovação da Reforma Tributária e a desavença com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ampliaram a velocidade do desgaste. Isso acabou isolando, nesse momento, o líder inconteste da direita brasileira, sobretudo de sua fração mais extrema.

    Temos agora uma fragmentação da coalizão que permitiu a eleição de Bolsonaro em 2018 e a sustentação do seu governo. O estilhaçamento dessa imensa massa de partidos, políticos e instituições certamente vai reconfigurar o processo de poder, tanto a nível nacional como local. Nacionalmente, a construção política realizada por Arthur Lira, Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad, na reforma tributária é uma demonstração do novo eixo de soluções políticas que se desenha. Aparentemente, estamos começando a superar a polarização que invadiu espaços públicos e privados nos últimos anos. Por inúmeros motivos e, por enquanto, é apenas uma tendência.

    Em nosso estado, outros elementos que influenciam a realidade estão sendo gestados. O fato do governador Renato Casagrande não poder ser candidato a reeleição, e o ex-governador Paulo Hartung ter se afastado da cena política pública capixaba, abre caminho a muitas possibilidades de arranjo. 

    Com a redução do extremismo, capitaneado por Bolsonaro, a chamada pauta de costumes perde força, diminuem as narrativas nascidas no Brasil Paralelo com Olavo de Carvalho e ganham espaço as questões mais objetivas e mais econômicas, como mostram as pautas surgidas com a reforma tributária. E com isso, a centro direita deve crescer.

    A centro esquerda tende a ficar sócia nos avanços que o governo Lula conseguir fazer. Assim, as placas teutônicas vão se movendo e novos arranjos tendem a surgir, inclusive regionalmente. São bastante evidentes os movimentos que estão fazendo a cúpula regional do PP – partido de Arthur Lira e Ciro Nogueira – sobretudo os deputados federais Da Vitória e Evair Melo. Também fazem parte dessa nova cena política, o presidente da assembleia legislativa Marcelo Santos e o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo, ambos do Podemos. Isso para ficar em alguns exemplos. Afinal, não existe vazio no poder. 

    Caso Casagrande seja, de fato, candidato ao Senado como se especula, o vice-governador Ricardo Ferraço, assumirá o governo. É candidato quase natural a reeleição, até para dar sustentação a candidatura do grupo político ao senado. Ferraço não é homem de esquerda. Assim, o espaço que será aberto nacionalmente por uma centro direita comandada por partidos como PP, PSD, Republicanos, Podemos, União Brasil, PSDB e outros aqui no Espírito Santo será disputado de forma intensa por políticos muito experientes. A narrativa que cada grupo encontrar para os nossos desafios, e a aliança que fizerem com a sociedade civil, será central nos próximos movimentos. 

    O projeto político capixaba, inaugurado no limiar do século XXI, pode ter sua primeira inflexão em 2026, ganhando uma densidade de centro direita mais clara, inclusive dentro do grupo político que hoje ocupa o Palácio Anchieta. A redução de importância da extrema direita, e a recuperação da importância da centro esquerda, situada em sentido antagônico ao da direita, é que dirão os destinos dos fragmentos do legado do ex-presidente, agora inelegível. Toda essa acomodação é que temos que acompanhar, para poder decifrar os destinos políticos do Espírito Santo.  

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 15 de julho de 2023.

  • Radicalizar a democracia: como resolver a desigualdade nos investimentos públicos?

    Por João Gualberto

    Não é tarefa simples julgar como a democracia funciona nas sociedades. Avaliar quais são os ganhos efetivos que a coletividade tem com a sua prática. Dizendo de outra forma, compreender como o dia a dia reflete padrões de solidariedade, cooperação e convivência com a diferença.  Como a diversidade é vivida e respeitada por todos. Entender também como são construídas as soluções e como são articuladas as diferenças e os processos de mudança, ou tentativa deles. 

    Sabemos que os comportamentos do coletivo social anônimo constroem o imaginário de um povo. Constroem também, a capacidade de sustentar uma democracia verdadeira. O processo mais convencional para avaliá-las são as eleições e o funcionamento dos partidos. Entretanto, é uma medida muito simples, quase superficial. As eleições devem ser o ponto de partida e não o ponto de chegada de um processo social. Caso um país não as realize, e as estruturas de poder sejam ocupadas pela tradição – como em muitos países do mundo árabe, por exemplo Afeganistão ou Arábia Saudita – são ditaduras. São locais onde as contradições são resolvidas de forma autoritária, excluindo muitos setores sociais. Não tem como pensar em democracia.  

    Nos países cujas estruturas de poder são renovadas periodicamente temos a possibilidade de pelo menos renovar as oligarquias e permitir que o desejo de mudança tenha algum papel.  O funcionamento denso da democracia passa por outras questões. Para ficar em um exemplo, o sociólogo Jailson Souza e Silva, um estudioso das periferias brasileiras e fundador de movimentos importantes no estudo desses espaços como o Observatório das Favelas, chama a atenção para a lógica das cidades brasileiras.

    Ele nos ensina que os investimentos públicos nas cidades são fatores de ampliação das desigualdades. As áreas onde moram as pessoas com maior renda e escolaridade – as nossas elites – têm obras e serviços com muito mais qualidade. O baixo investimento público no mundo dos mais pobres gera muitas dificuldades.  Poucas escolas, mau atendimento na área de saúde, urbanização precária, pouca segurança, são exemplos. A ação da polícia nesses espaços em busca do combate ao varejo do tráfico de drogas gera muita insegurança, muita violência, e tem tido poucos resultados. Uma democracia verdadeira e profunda precisa resolver a desigualdade nos investimentos públicos nas diversas áreas das cidades, o controle da violência do próprio estado. Não é possível que continuemos nessa lógica perversa. 

    Outro elemento é o papel das mulheres e dos negros, sobretudo os mais pobres. A sociedade brasileira tem como traços fundamentais o machismo e racismo.  O lugar dos pretos e das mulheres tem que ser buscado em um esforço permanente de superação das desigualdades de oportunidades. Basta ver de onde vem a cúpula do todos os três poderes em nível nacional ou regional para nos certificarmos disso. São os brancos mais ricos, sobretudo homens que se apropriam das oportunidades.

    Ou seja, praticar a democracia é lembrar dos grandes princípios das revoluções do Século XVIII, como a francesa e a haitiana, é muito mais do que realizar eleições, embora elas sejam também fundamentais como ponto de partida. Radicalizar a democracia é transformá-la em parte do nosso cotidiano.

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 01 de julho de 2023.

  • A cultura da compreensão

    Por João Gualberto e Helio Gualberto Neto

    A sociedade brasileira foi construída a partir da ausência de alteridade social e de desejo de justiça. As elites autoritárias, que fundaram nossas intuições imaginárias, foram tomadas pelo machismo, pelo ethos escravocrata e pela ausência de amor por seu povo. Afinal, éramos apenas uma colônia destinada a produzir lucros para os colonizadores. Muitas mudanças ocorreram no nosso país desde então, mas muitas marcas profundas de nossa trajetória ainda estão presentes no cotidiano. O imaginário social ficou marcado pela dimensão social-histórica. Cada um de nós está sujeito a essas questões mais coletivas do mundo em que vivemos.

    Mesmo no universo das instituições que operam a vida econômica, política e social, essa ausência de preocupação com o outro ainda está muito presente. A dimensão de relações com as pessoas é pouco comum. É hábito trabalhar com o universo macro através dos grandes projetos. Como os desafios ficam muito localizados nas instâncias, digamos, econômicas, os panoramas estratégicos costumam ser muito amplos e poucos conectados às demandas das pessoas, dos clientes, dos usuários, dos eleitores. Em qualquer contexto, entendê-las é sempre um exercício fundamental. Nossa sociedade quase nunca faz isso e as instituições de uma forma geral também não.

    A questão que nos parece fundamental em nossos ambientes organizacionais é criar, a partir de um grande entendimento estratégico, uma cultura permanente da compreensão e do  diálogo. Falta esse fundamento. Em outras palavras, não basta um olhar genérico, é preciso criar uma cultura de compreensão do ecossistema, como um todo, onde a instituição, liderança ou empresa opera. Falta a prática constante de diálogos estratégicos que auxiliam nas decisões mais importantes. Esse é o maior diferencial das intuições para transformar o comportamento das pessoas e, assim, transformar os seus próprios resultados e gerar os impactos desejados.

    Parece grande como tarefa para as intuições, lideranças e empresas. Mas o que precisamos são revoluções permanentes nas nossas vidas e em nossas ações concretas. O desafio é operar o cotidiano com um olhar estratégico, ter aprendizados internalizados por todos a partir das escutas feitas e agir de forma diferente, criando, assim, lideranças com capacidade de interagir. Isso não é pouco.

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 28 de junho de 2023.