• PANDEMIAS E CIDADANIA

    Nossa história política é a história de elites de costas para a maioria da população. É a história de um país escravocrata, onde parcelas importantes da população não tinham direito algum. Nos transformamos em república sem construirmos uma relação política densa com a população, que continuou alijada dos processos de escolha.

    Mas, os tempos foram mudando e a população já não assistia a tudo calada. Bom exemplo dessas mudanças, foi a Revolta da Vacina. As condições sanitárias das nossas cidades, inclusive da capital, o Rio de Janeiro, eram muito ruins. A cidade sofria com problemas de saúde pública.

    O presidente Rodrigues Alves (1902-1906) tentou enfrentar a questão na capital, nos modos autoritários da Primeira República. Nomeou o engenheiro Pereira Passos prefeito do Distrito Federal e o médico Oswaldo Cruz assumiu a Diretoria Geral de Saúde Pública. Iniciaram sem discutir com a cidade, uma campanha de saneamento da cidade que tinha como objetivo erradicar a febre amarela, a peste bubônica e varíola.

    OC3
    A charge da revista O Malho, de 29 de outubro de 1904, parecia prever a revolta que se instalaria na cidade poucos dias depois: nem com um exército, o %u201CNapoleão da Seringa e Lanceta%u201D, como muitos se referiam a Oswaldo Cruz na época, conseguia conter a fúria da população contra a vacinação compulsória.(foto: Leonidas/Acervo Fiocruz)

    Foram intensos os debates em torno da proposta do governo, e a população em sua maioria era contra. Mas a lei foi aprovada assim mesmo em outubro de 1904. Por ela quem não tivesse o comprovante da vacinação não poderia obter empregos públicos, matricular-se as escolas do governo, viajar, casar, se hospedar em hotéis. Mas em meio a grande tumulto popular no dia 16 de novembro – a revolta havia começado no dia 10 daquele mês – foi decretado estado de sítio e suspensa a vacinação obrigatória. O saldo foi: 945 pessoas presas, 110 feridos, 30 mortos e 461 deportados para o estado do Acre. De fato, a população não entendeu, não foi informada e reagiu. Mostra de que o déficit de democracia já tinha impactos populares naquela época.

    Fomos vencendo isso aos poucos. Nas décadas seguintes obtivemos muito sucesso em campanhas sucessivas de vacinação, quando os brasileiros foram convencidos de que a doenças existiam e de que era possível vencê-las com o engajamento de parcelas importantes da população. Houve uma socialização das informações. Ninguém mais fez revoltas contra a vacinação.

    Mas, nesse momento o governo nacional parece esquecer da nossa história, das nossas lutas e dos nossos sucessos, entregando-se a um negacionismo que nos remete aos tempos da Revolta da Vacina, a uma ausência de discussão típicas dos governos autoritários do passado. Estamos regredindo. Parece que não temos uma política pública clara com relação a pandemia que hora nos assola. Vamos pagar todos o preço dessa recaída autoritária.

     

     

  • SÓ O POVO SALVA O POVO

    A maior tragédia climática que presenciei no Espírito Santo, foram as enchentes que ocorreram em 1979, nessa mesma época do ano. Baixo Guandu, Linhares e Colatina, no Vale do Rio Doce, foram as cidades mais atingidas. Mas as enchentes também chegaram a bacia do Rio Itapemirim, atingiu cidades como Cachoeiro e Castelo.

    Carie Lindenberg dedicou um de seus livros, Pingos e Respingos de 2005, à descrição da tragédia. Mas, ele trouxe à luz também a enorme rede de solidariedade que se construiu em torno do episódio. É dessa época a frase memorável do nosso então Arcebispo, Dom João Batista: só o povo salva o povo. Em 2013, quando fortes chuvas também se abateram sobre nós, mais uma vez lá estava a população capixaba disposta ajudar, sendo solidária com os atingidos.

    Nesse momento, vivenciamos mais uma vez o mesmo processo. Aí estão as fortes chuvas, o despreparo das cidades para lidar com elas, os alagamentos, os desabrigados, a dor. Mas também aí estão os voluntários, os abnegados de sempre com suas redes de ajuda. Nesses momentos trágicos surge sempre essa solidariedade forte, que também é marca desses eventos trágicos.

    Untitled-1

    Nós brasileiros não temos muito desenvolvido o amor próprio. Não nos elogiamos como povo. Antes pelo contrário, gostamos de nos menosprezar e de nos sentir menos potentes do que somos. Isso me parece injusto. Acho que nossa solidariedade nasce do mundo dos pobres, daqueles que não tem ao seu lado um Estado potente e preparado para ajudar a vencer as dificuldades do dia a dia. Existem redes inteiras de ajudas coletivas. As igrejas trabalham muito esse elemento.

    Acredito que, sem o sentimento de solidariedade e de compartilhamento, a vida dos desfavorecidos pela fortuna no Brasil seria muito mais dura. Nossas redes de solidariedade nascem desse sentimento profundo, se alimentam nesse imaginário das dificuldades compartilhadas. Por isso a vida se faz possível um em universo de carências. Assim temos nosso sentido de coletividade alimentado. Assim somos brasileiros. Assim somos capixabas. Solidários.

     

     

    João Gualberto

    [1] O autor é Doutor em Sociologia Política, Professor Emérito as Universidade Federal do Espírito Santo e Diretor da Saber Capixaba.

  • COTAXÉ

    Autores capixabas tem produzido ótimos romances, e de grande densidade. Eles nos ajudam a melhor entender a alma capixaba. Mas, poucos tem a força de Cotaxé: romance do efêmero Estado de União de Jeovah. Nele, Adilson Vilaça mostra todo o horror implantado pelas forças da ordem na área do que era chamado de Contestado. O texto de Adilson é de uma força terrível e descreve com um estilo próprio e insuperável todos os acontecimentos. É obra de arte.

    Adilson capta com força, estilo e perfeição a trajetória de Udelino Alves de Matos, um modesto professor em uma grande propriedade da região que, depois de um grande fracasso amoroso, soltou-se no mundo para criar o Estado União de Jeovah. Muito religioso, leitor fervoroso da Bíblia, exercia forte liderança nesse plano entre os humildes moradores da região.

    No ano de 1952 inicia Udelino sua cruzada. A região, devido a insegurança de não saber a qual estado de fato pertencia, era alvo de muitos aventureiros, de muitas pessoas perseguidas, mas, também era muito atrativo para os miseráveis lavradores da região. Diante da mataria sem uso agrícola, eles instalavam-se. Esse misto de posseiros e aventureiros era a base e a força de Udelino. Escolhe Cotaxé – hoje distrito de Ecoporanga – na época epicentro econômico da região, como a sede de seu governo. Nomeia o primeiro escalão em julho daquele ano. Escolhe bandeira e hino. Começa a organizar a partilha das terras.

    Prometia Udelino sua regularização e distribuição, mesmo para os proprietários que tinham títulos. Ele daria aos solteiros quatro alqueires e aos casados dez alqueires. Mas, aos fazendeiros já instalados o novo governo permitiria setenta alqueires. Sendo que quem tivesse naquele momento mais, poderia registrar nome da família, dos filhos, dos genros. Na condição de delegado de terras do chefe da nação, ele tudo registraria num livro. Quem não aderisse a partilha, teria os bens confiscados. Para quem aderisse bastava assinar o livro e pagar os impostos ao Estado de União de Jeovah. Havia muita terra a distribuir e regularizar. Mais de 10.000 quilômetros quadrados.

    406c30d6-8811-4535-aea9-195e7a28836e

     

    No mês de julho de 1952, o governador Udelino partiu para o Rio de Janeiro, então a capital da república. Faria um encontro com o presidente Getúlio Vargas, levando uma petição assinada por 866 posseiros, que dava legitimidade ao pleito por terras. O encontro de fato não ocorreu, mas ele foi recebido pelo Ministro da Agricultura e voltou dizendo-se portador de um documento que o nomeou delegado de terras do chefe da nação.

    Mas, pouco durou a paz no Estado de União de Jeovah. No início do ano seguinte, 1953, as forças capixabas deslocaram-se para o Contestado, dispostos e exterminar com aquela experiência. Conseguiram, mas, depois de meses de lutas cruentas. Já no ano de 1954, tudo estava destruído. Nesse intervalo de tempo, as escaramuças foram cruéis. Maldades de ambos os lados.

     

    Os soldados matavam, espancavam, estupravam, humilhavam. O lugar tenente de Udelino, que comandava a tropa que chegou a ter 600 homens armados, João Come-Vivo, no romance, matou de forma impiedosa e violenta todos os que considerava traidores. Arrancava-lhes a língua quando estavam ainda vivos, quebrou joelhos com marreta, furou olhos com seu punhal.

    Saindo do plano literário para a análise sociológica, o que vemos é que naquele espaço sem lei, a violência tudo regulava. Era o mandonismo total. A leitura de Cotaxé, além das delicias de um grande livro, nos ensina muito do Espírito Santo, sobretudo das raízes da violência urbana que nos atormenta até hoje. Somos, desde sempre, marcados por ela. E, certamente, não apenas em Ecoporanga.

     

     

    João Gualberto

    [1] O autor é Doutor em Sociologia Política pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, Paris, e Professor Emérito da UFES. Ex-secretário de estado da cultura e Diretor da Saber Capixaba.

     

  • Raízes do autoritarismo brasileiro

     

    Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo

    Os grandes personagens que têm animado nossa vida política estão profundamente mergulhados em um imaginário social excludente, masculino e alicerçado na legitimação da desigualdade. O mais paradigmático desses personagens talvez seja o coronel.

    Não seria exagero dizer que, mesmo nos dias atuais, o sistema político brasileiro foi capaz de aprofundar algumas das estruturas mais perversas do coronelismo, a partir do personalismo e de padrões autoritários de comportamento gerados nesse longo processo histórico.

    Afinal, a cultura brasileira ainda é rica nas características gestadas em todo o nosso processo social e histórico, tendo o coronel como figura chave do mandonismo brasileiro e um ator central na estrutura do poder. Tão grande foi o seu papel na construção de nosso imaginário social que ele se transformou numa espécie de “mestre da significação”.

    Como a instituição imaginária que gerou nosso processo político muito antes do advento da República, o coronel foi instituinte do processo político brasileiro —ou seja, seus padrões de comportamento no poder moldaram nossas instituições, abortando em muitos aspectos nosso processo democrático.

    Fomos, antes, marcados pelo nepotismo, compadrio, personalismo e outras características ligadas a um mundo social que se instituiu pela força do poder e não pelas construções coletivas. Instituições como a escravidão e o latifúndio têm forte papel nesse contexto.

    O coronel é o personagem fundamental da chamada Primeira República, mas cujos restos sobrevivem até hoje. Inclusive no mundo empresarial, onde ainda existem traços desse coronelismo de viés autoritário.

    Esse é um motivo para que, em grande parte a gênese de nossa gerência dê as costas para padrões modernos de gestão de pessoas. Assim, o coronel é uma figura central, o mestre da significação no mundo que fomos capazes de construir e que nos habita até hoje.

    Não é por acaso que ele está no epicentro de nosso dilema. De um lado, as instituições que o coronelismo gerou não são mais capazes de dar conta de uma sociedade moderna como a que temos. De outro, ainda estamos presos aos personalismos e as saídas autoritárias.

    bolsonaro

    No grande altar que construímos na política da ambiguidade que o coronel porta, colocamos o capitão Jair Bolsonaro no poder.  Moderno quando usa os meios de comunicação de massa digitais, mas arcaico quando o faz de forma personalista e autoritária —e ainda mais focado na sua própria família, símbolo maior da sociedade tradicional que queremos e precisamos vencer.

    Decorre daí considerável parte da inadequação de seu funcionamento nos dias atuais. Sua inexorável crise.

    Nosso sistema centralizado de poder foi construído garantindo o controle das elites nas instituições, inclusive as partidárias.

    Tudo passa pela compreensão mais generosa e atenta de importantes características da sociedade brasileira. Entre elas, a invenção do coronel e a manutenção das instituições criadas a partir dele.

    bannersArtboard 6-100

    João Gualberto Vasconcellos

    Doutor em sociologia política pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris) e autor do livro ‘A Invenção do Coronel: ensaio sobre as raízes do imaginário político brasileiro’ (ed. Edufes)

     

  • AUTORITARISMOS

    Uma nova onda varre o mundo ocidental em termos políticos. Ela se organiza a partir de discursos autoritários em muitos países muito importantes como Estados Unidos, Rússia, Itália, Hungria, Polônia, Venezuela. Esse último é tido como de esquerda pelo apoio que tem do PT, mas tem a mesma raiz autoritária dos demais.

    download

    Muitas obras têm sido publicadas para tentar entender o novo fenômeno, qual seja, o ressurgimento em massa de uma direita mais virulenta e menos liberal. “Como as Democracias Morrem” de Steven Levitsky e Daniel Ziblat professores de ciência política em Harvard e “O Povo contra a Democracia” de Yascha Mounk da Universidade Johns Hopkins são dois ótimos exemplos. Existem outros, cito apenas os que tem tido maior repercussão na mídia.

     

    Esses trabalhos apontam para as bases comuns do novo autoritarismo, que são: o ódio à globalização, chamada de marxista cultural; a nostalgia de um passado melhor e com ordem; o incentivo à polarização que divide a população entre eles e nós; a criação de um movimento anti-intelectual que é tanto contra o chamado jornalismo de base quanto às universidades públicas; o retorno a conceitos de hierarquia e ordem típicos de sociedades mais tradicionais;

    Há ainda outros elementos: o uso da polícia para punir desafetos políticos; um ataque a homossexuais, mulheres, travestis e outros grupos sociais que seriam responsáveis pela degeneração moral da nação; a propaganda política estruturada em fake News e a tentativa de um retorno nostálgico aos valores da terra, da família e das tradições.

    E uma mudança natural entre os pesos próprios que cada país e cultura dão a cada um desses elementos. Mas, o que torna a experiência um fenômeno sociológico mais global são as bases comuns dos discursos que tanto alimentam a redução do papel do liberalismo clássico, quanto seduzem parcelas importantes da população para um engessamento da democracia, em uma aceitação de práticas autoritárias.

    Talvez a nação que tenha conseguido implantar com mais perfeição o modelo seja a Hungria de Viktor Orbán. Ele, igual ao que foi feito na Turquia, na Venezuela ou Polônia, foi encantonando as instituições que dão os chamados contrapesos das democracias. O parlamento ou os órgãos superiores da justiça, o STF brasileiro, apoiando-se em consultas diretas à população. A utilização massiva das redes sociais permite isso facilmente: Twitter, Facebook, Whatsapp. Transformou-se Órban, de forma quase perfeita, no modelo do novo tirano: autoritário, mas de um autoritarismo com forte apelo popular. As massas acreditam mesmo que continuam vivendo numa democracia porque existem as consultas populares e a comunicação direta, sobretudo pelo twitter. Viktor Órban lançou então o modelo do que ele chama de Democracia Iliberal. Parece ser esse o destino de outras nações hoje.

    226344

    Mas, já existem esforços para trazer essas reflexões para o que está acontecendo no Brasil. E não falo apenas do papel do presidente Bolsonaro, visivelmente apenas um sócio desse modelo. Um exemplo: a historiadora brasileira Lilia Moritz Schwarcz acaba de lançar um bom trabalho, chamado “Sobre o Autoritarismo Brasileiro”. Sua intenção é a de dialogar com esses trabalhos internacionais. Para tanto, ela estuda os elementos históricos que transformam, desde sempre, o Brasil numa sociedade autoritária e que conviveu bem tanto com Vargas quanto com os militares de 1964. A autora trabalha então três conceitos que me parecem fundamentais para estudar o caso brasileiro: A escravidão e o racismo que ela alavancou, o mandonismo e o patrimonialismo. Assim, o brasileiro pilotando essas heranças do nosso processo histórico – daquilo que chamo da construção do nosso imaginário social – tem dado passagem a essa onda mundial e a ela aderiu claramente na eleição de 2018.

    A questão que nos cabe responder agora é se o exercício do poder, pelos que recentemente chegaram a ele, vai realmente construir entre nós uma Democracia Iliberal, ou se as nossas instituições e, sobretudo, nossa cultura democrática resistirá aos novos modelos de fazer política.

    bolsonaro
    Jair Bolsonaro: autoritarismo com os elementos característicos da sociedade brasileira.
  • MEMÓRIA  E  ESQUECIMENTO

    A memória de qualquer sociedade não é construída de forma linear. Ela é constituída de vazios deliberados e de potencialização, também deliberada, de determinados fatos e personagens. Como muito bem disse Lilia Schwarcz, a história é uma disciplina com grande capacidade de lembrar. Poucos se lembram, porém, do quanto ela é capaz de “esquecer”.

    Vamos tomar um exemplo concreto na história do Espírito Santo. Um dentre vários outros que podem ser levados em conta. Na região Sul, brotaram os clubes republicanos que animaram de forma extraordinária a sua vida política no final do século XIX. Foram atores privilegiados do nosso processo de modernização política.

    Muitos já ouviram falar de, por exemplo, Jerônimo Monteiro e seus feitos extraordinários, ou de Florentino Avidos e sua gestão moderna e modernizante. Foram Presidentes do Estado na Primeira República. Eram cunhados, e ambos surgiram da força política da família Monteiro e da Fazenda Monte Líbano. Esses republicanos eram quase em sua totalidade positivistas. Trouxeram dessa doutrina um olhar mais racional sobre a vida social. Eram também abolicionistas.  Promoveram além disso, uma verdadeira revolução na lógica urbana da cidade de Vitória. A razão dessa visibilidade é a produção farta de escritos e fotos sobre seus feitos.

    É bem verdade que construíram uma nova visão da cidade de Vitória, rompendo com a tradição colonial e monárquica. Vitória ficou alinhada com os modismos parisienses, bem como com as modernidades das principais cidades brasileiras, entre as quais se destaca a Reforma Pereira Passos no Rio de Janeiro e a construção de Belo Horizonte. Mas, também era uma cidade para os ricos. Tanto que, nas normas urbanas por eles criadas, havia a proibição do acesso ao Parque Moscoso aos membros das chamadas “classes perigosas”, ou seja, os pobres.

    São apenas alguns exemplos. Eles existem às centenas. Vamos pensar então naquilo que podemos chamar de raiz do esquecimento, sua origem.  Nos ensina o brilhante historiador Jorge Caldeira, em “A Nação Mercantilista”, que o Conselho Ultramarino, ao proibir “A Obra e a Opulência do Brasil”, de Antonil, em 1711, construiu o argumento que se deveria recolher o livro e não permitir que fosse vendido. O Conselho passou a exigir que fosse ouvido acerca da impressão de obras que tratassem do assunto das Conquistas portuguesas no Novo Mundo.

    caldeira

    O motivo da proibição era a velha política de sigilo dos portugueses. Era difícil para a pequena nação europeia conviver com livros que falassem das minas, que mostrassem ao mundo as riquezas do Império. Podiam despertar a cobiça em outros povos. Quando se tratava de cultivar a ignorância no Brasil, e sobre o Brasil, o governo português não titubeava. Nunca foi devidamente socializado, por exemplo, que os moradores de São Paulo utilizavam o braço índio conquistado à força em suas entradas pelo sertão, provavelmente para não provocar discussões naqueles que eram contra, como os próprios jesuítas.

    Na verdade, era proibida a imprensa no Brasil. Nenhum livro, nenhum jornal, nada. Tirando os esforços jesuíticos e de outras ordens religiosas, a educação não estava na pauta dos colonizadores. Aliás, o estado português só recolhia os tributos e nada mais.

    Assim, a produção de informações que possibilitem hoje a reconstrução de trechos da nossa história ficou muito prejudicada. Dos republicanos podemos falar muito bem, mas da aventura colonial e do período da monarquia que lhes precedeu, muito pouco. Pouco sabemos do heroísmo da resistência indígena, das grandes lideranças dos negros escravizados, enfim, de todos os capixabas, e não apenas de uma fração. O esquecimento faz parte do fazer histórico, tanto quanto as lembranças.

    Esquecer é, assim, uma forma de retirar importância, de não dotar de significado certas ações. A cultura cívica que se pretende retornar à escola agora, espera-se que se faça, fortalecendo aqueles que com seus corpos, suas mentes e com seu trabalho também construíram o Brasil e o Espirito Santo.

     

  • O POPULAR E O ERUDITO

    A sociedade brasileira, como sabemos todos muito bem, é muito elitista e excludente. Do ponto de vista histórico, vários elementos nos ajudam a compreender o processo que produziu a cena social na qual nos movimentamos hoje, repleta desse elitismo que atravessou os séculos. Um desses elementos me parece particularmente relevante: a instituição da escravidão. Nossos antepassados europeus não apenas atravessaram o oceano para trazer aprisionados, no porão de sujas embarcações, os africanos escravizados, mas também submeteram ao trabalho forçado milhões de indígenas. Eram os escravos da terra.

    No mundo dividido entre as pessoas livres e as escravizadas havia um imenso abismo social. Abismo esse que acabou por instituir um imaginário social onde tudo que emergisse dos setores sociais ligados ao trabalho forçado era obrigatoriamente de segunda classe. Foi assim com a religião, com os papéis sociais, com os conceitos de beleza, com a forma de se vestir, com tudo enfim. 

    Não causa, portanto, nenhuma estranheza quando observamos o descaso histórico sempre dado a cultura popular entre nós. Ela expressa – nesse olhar elitista – uma arte menor, uma forma dos grupos sociais marginalizados econômica e socialmente manifestarem seu olhar sobre o mundo. Algumas dessas manifestações foram reprimidas com vigor pela polícia. Eu mesmo vi quando criança no interior do Espírito Santo, atitudes violentas das autoridades contra os terreiros de macumba, como eram chamados, contra a religiosidade de matriz africana e que sempre contiveram elementos do outro grupo de escravizados, os indígenas.

    Somente nos nossos dias, os governos começaram a construir de forma mais sólida políticas públicas que levam em conta a força da contribuição dos setores populares. 

    Apenas agora a parte da sociedade brasileira que tem a chave que abre os cofres públicos e que abre as portas do que conta e do que não conta começa a perceber a força dessas tantas manifestações sobretudo na música, na dança, na pintura, na arte em geral. Na literatura contam-se nos dedos das mãos as Conceição Alvarenga ou Carolina de Jesus que romperam a barreira social e produziram obras com grande repercussão, inclusive no mercado literário. 

    Mas, o ponto que seja talvez o mais importante hoje é como as instituições que cuidam do dia a dia da cultura devem lidar com essa duplicidade. Acredito que construindo as pontes que reduzam esse abismo. Um bom exemplo talvez seja o da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo, que sob a liderança artística e humana do Maestro Helder Tretzger, realizou um conjunto de concertos envolvendo ora bandas lindas de congo, ora o maravilhoso Ticumbi de São Benedito de Mestre Terto de Conceição da Barra (Veja vídeo aqui – Seculo Diário). Tenho orgulho de ter contribuído com esse processo enquanto ocupei o cargo de secretário de estado a cultura em nosso estado. 

    Todas as instituições da sociedade civil que operam na área da cultura e que vieram de uma visão mais tradicional, sobretudo devido a um olhar positivista do campo, devem se aproximar cada vez mais desse novo patamar de integração e abandonar de uma vez por todas a ideia de que o erudito se opõe ao popular. Na verdade, as duas dimensões se integram e se completam.

  • A REINVENÇÃO DA POLÍTICA EM FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

    O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso acaba de publicar um novo trabalho. Como em tudo que vem publicando nos últimos anos, ele trata de questão da atualidade com muita pertinência. Do alto de seus 86 anos, continua lúcido e atual. Tem sempre reflexões importante e observações profundas.

    No livro Crise e Reinvenção da Política no Brasil, ele trata da crise brasileira dos dias de hoje – ou melhor das crises brasileiras – e do contexto no qual se darão as eleições de 2018.

    14407_gg

    Não é e nem pretende ser um tratado sociológico profundo. Antes pelo contrário. O livro é acima de tudo o olhar atento e profundo de um hábil político que chegou a presidência e que tem bagagem para fazer uma leitura densa do que se passa no Brasil de hoje.

    Pela primeira vez, o autor trata de questões relativas aos também ex-presidentes Lula e Dilma Roussef, dando-lhes responsabilidades nos processos políticos que sufocam o Brasil. Para se ter ideia do que isso significa, ele diz textualmente na página 237:

    Infelizmente, Lula despiu o macacão e se deixou engolfar pelo que havia de mais tradicional em nossa política: o clientelismo e o corporativismo, tendo a corrupção como cimento. Não é desse tipo de liderança que precisamos para construir um grande país.

    lula-mc3a3os-sujas-4
    Lula, Dilma, o então ministro Edson Lobão e o macacão, alusão do autor a história do petista e sua passagem pelo planalto como período histórico.

    Mas, se Fernando Henrique não se exime de atribuir a Lula os deslizes que ele crê que foram cometidos pelo PT sob sua liderança, também não é ele o objeto principal de suas análises. Na verdade, ele trata sobretudo o caráter do Brasil contemporâneo em oposição ao Brasil moderno, no campo da política. As mudanças que se operaram sobretudo a partir dos anos 1990 e como eles levaram o velho e o novo a coabitar de forma diferente em nossos principais traços culturais. E de como elas vem obrigando os líderes a mudar sua forma de se comunicar com a população portando novas mensagens. Mas a oposição entre o moderno e o arcaico não é mais a oposição singela entre a grande indústria e a favela. A favela não é mais apenas o lugar da exclusão como no passado. Está inserida na sociedade com expressão cultural própria, a despeito da desigualdade brutais que porta.

    Para ele não há Terra Prometida a nos esperar no final do túnel da crise atual. Nem será um Moisés providencial a nos guiar na travessia. Esta terá de ser feita pela política, e a política é um empreendimento coletivo das pessoas, grupos e forças sociais que se juntam em torno de uma visão comum de um futuro desejável. Para ele necessitamos de um patriotismo democrático, aberto ao mundo, mas movido por um sentimento profundo de pertencimento ao Brasil e de compromisso com o seu povo.

    Fernando Henrique acredita que o desafio das lideranças renovadoras consiste em criar mais do que uma narrativa, propostas que desenhem rumos para a nação. Porque ou bem seremos capazes de reinventar o rumo da política, ou cedo ou tarde a indignação popular explodirá nas ruas, não podendo se prever contra ou a favor do que. E o desafio das mesmas lideranças é o de rearticular o sistema político com a sociedade e isso passa pelo reconhecimento do papel desempenhado por novos atores e novas dinâmicas sociais e culturais, e não apenas por organizações e instituições como no passado.

    Mas, para o autor a globalização está na raiz da crise de legitimidade que afeta a democracia representativa por duas razões distintas, mas convergentes: o livre fluxo dos bens econômicos e financeiros, mas também a livre circulação de informações, ideais e valores. Economia, comércio, comunicação e cultura se tornaram globais, enquanto a democracia representativa permaneceu essencialmente nacional.

    O fenômeno reduziu, na perspectiva do livro, o poder dos Estados nacionais ao mesmo tempo que fortaleceu o indivíduo como cidadão.  Assim, por trás de protestos que sacudiram nos últimos anos países tão diversos como Brasil, Chile, Tunísia, Turquia, Egito, Irã, África do Sul e Israel, está o cidadão comum informado e conectado pelas redes sociais e por modernas tecnologias de informação. Essa é uma das marcas das sociedades contemporâneas, o cidadão comum e pouco politizado quer participar, demanda por interlocução, não se representa mais nas instituições e lideranças tradicionais. Não se importa com os partidos políticos.

    FAbio Rodrigues Pozzebom :ABr
    Os movimentos de junho de 2013, no Brasil, uma da série de acontecimentos entre os observados por Fernando Henrique no livro.

    Mas, as reflexões do ex-presidente ganham densidade quando trata da postura dos governos. Para ele o dinamismo de uma sociedade aberta e conectada como a do Brasil contemporâneo reclama uma postura mais eficiente e menos arrogante do Estado. A ordem não se impõe de cima para baixo, vinda de um centro de comando e controle. O que importa não é uma fluida vontade de todos, e sim a participação de todos os interessados na deliberação. Ou seja, no mundo de hoje liderança política não se ganha de uma vez por todas, precisa ser constantemente cultivada e renovada. Um líder sozinho não agrega. Na verdade, o que mobiliza para valer são as causas, os movimentos identitários, as reinvindicações de liberdade lançadas por grupos e movimentos da sociedade.

    Estamos fadados como sociedade a entrar nas eleições de 2018 à deriva. A crise instalada nos campos da economia, da política e dos valores éticos fulminou os restos de legitimidade do velho sistema político. E o novo não nasceu ainda. Faremos um voo no escuro, tentando encontrar a saída no processo. Difícil, mas é a tarefa que nos cabe como sociedade.

    size_810_16_9_fernando-henrique1
    O livro do ex-presidente: leitura importante do que se passa no Brasil de hoje.

     

  • Macron e a jabuticaba brasileira

     

    Ainda existem muitas incertezas quanto às eleições que se aproximam. A extrema fragmentação partidária, o desprestigio da política e dos políticos, a crise dos governos do PT, a fragilidade de imagem do governo de Temer: tudo isso forma um ambiente tóxico, onde a maioria dos eleitores não sabe exatamente o que fazer.

    Nesse contexto, surgiram algumas candidaturas de outsiders como as de Luciano Huck Joaquim Barbosa, que já anunciaram que não vão de fato enfrentar a disputa. Atores descolados de histórias partidárias e relacionamentos no campo da política.Na minha opinião, um risco para todos nós. A inépcia de Dilma Roussef tanto quanto a de Fernando Collor em lidar com o parlamento custou seus mandatos. Não podemos ter mais um presidente sem experiência política. O Brasil não suporta isso. Temos que avançar.

     

    emmanuel-macron-um-amigo-influente-para-quem-trump-e-so-elogios1524664791
    O presidente francês ao lado de Donald Trump, em recente jantar no EUA. Reuters

    Alguns defensores dessas candidaturas gostam de citar o exemplo das eleições presidenciais francesas de 2017, onde um ator descolado dos grandes partidos tradicionais construiu uma vitória inesperada: Emmanuel Macron. Aliás, os analistas brasileiros têm dado peso excessivo ao papel do marketing político naquelas eleições. Neste momento, somos visitados pelos marqueteiros da França com promessa de construir fenômeno parecido entre nós. Nessa vertente, seria fundamental reproduzir algumas estratégias exitosas com Macron. O exemplo do atual presidente francês aplicado ao Brasil é frágil e leva mais a equívocos do que a acertos.

     

    Em primeiro lugar, é preciso levar em conta que o papel da mídia e sobretudo da propaganda eleitoral dita gratuita na televisão no Brasil é único na sociedade ocidental. Nenhum outro país articula uma televisão de excelente nível tecnológico e uma população com baixa escolaridade e nenhuma participação política de forma tão forte. A televisão foi a base da construção de nossos mitos políticos recentes. É claro que ela vem perdendo espaço para novas mídias, e a juventude sobretudo tende a se informar politicamente pelas redes sociais. É no celular que vai se travando cada vez mais os embates eleitorais. Mas o modelo mental está construído a partir da nossa trajetória.

    A última eleição que levou Dilma Roussef ao poder mostra bem isso. Um extenso conjunto de mentiras em uma campanha bilionária foi capaz de eleger uma candidata vazia. Esse é um modelo nosso. É a nossa jabuticaba. Não é o que costuma se passar nas eleições europeias de uma forma geral, e não foi o que se passou seguramente nas últimas eleições francesas.

     

    images (3)
    Propaganda eleitoral de Dilma na TV em 2014: ataques e compromissos descolados da realidade são a tônica das eleições no Brasil.

    Para começar, Macron responde ao desejo da sociedade francesa em muitos pontos. É o retrato daquilo que a população procurava naquele momento. Jovem, havia sido diretor de um banco importante, ministro de estado e com boa experiência política. Apesar de ter somente 39 anos, por sua inteligência privilegiada e pelos cargos que ocupou era um homem tarimbado, capaz de dirigir um país, de ter uma visão de futuro da sua sociedade e do mundo. Jovem, mas experiente em gestão, em governo e em política.

     

    Mas, quero chamar a atenção em especial para um outro ponto: sua sólida cultura intelectual, reconhecida mesmo pelos seus adversários. Entre os grandes pensadores que marcaram a formação do presidente está o filosofo Paul Ricoeur, do qual Macron foi mesmo assistente editorial em 1999, tendo contribuído para a construção de uma de suas maiores obras la Mémoire, l’histoire, l’oubli. Na verdade, ele seguiu os cursos de história da filosofia de Ricoeur na Universidade de Nanterre, sendo considerado um leitor voraz e disciplinado.

     

    Não é pouco ter sido assistente do grande filosofo, afinal ele é considerado um dos grandes pensadores franceses da segunda metade do século XX. Além de ter sido discípulo de Paul Ricoeur, ele escreveu um trabalho na sua formação intelectual analisando a obra de Maquiavel, uma tese, um mémoire como chama a academia francesa. Este trabalho nunca foi tornado público, assim não se tem uma ideia clara de seu valor acadêmico, mas uma formação desse tipo certamente o ajudou na construção de sua carreira política. Aliás, ajudou a que os franceses vissem nele um intelectual, sendo este um elemento fundamental na sua trajetória vitoriosa, legitimando seu projeto ambicioso de mudanças na sociedade francesa.

    Além dessa bagagem de muito valor simbólico na França de hoje, na ação política de Macron é muito fácil perceber uma filosofia econômica que tem suporte na dimensão da inovação e nos investimentos. Sua base nesse caso foi Schumpeter, o extraordinário pensador austríaco ao qual ele está intelectualmente vinculado. No livro escrito pelo futuro presidente francês em 2016 Révolution foi fortemente apoiado no pensamento schumpeteriano. Ou seja, sólida formação política e sólida formação econômica. Um autor de livros, um estudioso da história e da filosofia.

    No Brasil pode ser que tal formação não seja tão importante quanto é na França. A dimensão intelectual de Macron é o fundamento principal de sua respeitabilidade. Não que suas estratégias eleitorais tenham pouco valor, não que a forma como venceu a eleição seja banal. Isso a imprensa tem dito muito. O que quero é chamar a atenção para uma outra dimensão: a intelectual, sem a qual o atual presidente francês não fica em pé. Por isso a comparação com aventureiros no Brasil não faz qualquer sentido. Macron usou o marketing político para projetar suas qualidades. Não o comparemos ao vazio brasileiro.

     

  • INDÍGENAS NO ESPÍRITO SANTO

    Texto parte de três ensaios que buscam colaborar com o debate e a pesquisa em torno dos elementos que ajudam na formação da identidade: germânicos (Imigração Germânica e Identidade Capixaba), negros (A formação Afro Capixaba) e indígenas. 

    É de leitura indispensável para os que querem compreender melhor a construção histórica da identidade capixaba, o trabalho Espírito Santo Indígena: Conquista, trabalho, territorialidade e autogoverno dos índios, 1798-1860, de autoria da professora e pesquisadora Vânia Maria Losada Moreira. Isto porque a autora introduz várias dimensões novas nos estudos sobre a questão indígena em nosso estado, enriquecendo sobremaneira o seu entendimento. O trabalho mostra uma realidade conhecida certamente por muito poucos, e socializa entre os que desejam estudar o nosso estado informações e análises da maior importância.

    Fundamental é quando ele mostra que o Espírito Santo oitocentista foi uma região do Império bastante indígena, até porque eles atuavam no cotidiano de sua vida social e política, contribuindo para moldar e desenvolver a vida local, junto com os brancos, pardos e escravos. Ela mostra através da análise da correspondência oficial da época, a evolução dos dois principais assuntos tratados entre os presidentes da província e as autoridades da vila indígena: trabalho e terra. Era enorme a importância destes elementos em nossa história, até porque era costume na província do Espírito Santo tomar-se conta dos índios desde meninos, mesmo que pertencessem a alguma instituição do tipo orfanato, comprometendo-se a criá-los e vigiá-los até uma certa idade como empregados.

    O livro tem grande importância porque reúne cinco estudos sobre  a presença dos índios na história do Espírito Santo. Todas as questões levantadas e problematizadas situam-se no horizonte de um mesmo período histórico, entre o fim do Diretório dos Índios, em 1798, e a início da segunda metade dos oitocentos, período no qual passamos da condição colonial para a nacional. No período rico em mudanças ocorridas na sociedade como um todo, vemos que elas impactaram a vida dos índios e sua relação com a própria sociedade.

    Assinala Maria Regina Celestino de Almeida no prefácio da obra que boa parte das análises fundamentam-se no cruzamento de informações obtidas em muitas fontes, nos mais diversos documentos, principalmente aqueles sobre a Vila de Nova Almeida, a mais populosa e longeva antiga aldeia de índios no Espírito Santo. Os dados trabalhados pela autora evidenciam a importância do trabalho indígena entre nós e a presença significativa deles no exercício de cargos nas câmaras municipais e Nova Almeida e Benevente, outra antiga aldeia de índios. Aliás é sobre a questão do trabalho dos indígenas entre nós que a pesquisa de Vânia Losada tem um de seus pontos altos, esclarecendo questões fundamentais para a compreensão não apenas de nossa história, mas também da construção da identidade capixaba.

    No começo do oitocentos, Nova Almeida era uma vila mestiça, segundo o que lemos no trabalho, do ponto de vista cultura, agregando pessoas, valores e práticas dos campos ameríndio e afro-luso-brasileiro. O trabalho inicia-se com a análise da carta régia de 13 de maio de 1808, que deflagrou a guerra ofensiva contra os índios botocudos do Rio Doce tanto da capitania das Minas Gerais quanto na do Espírito Santo. Nela foi permitido o cativeiro indígena por dez anos ou enquanto durasse a fereza ou antropofagia entre eles. Em outra carta régia datada de 02 de dezembro do mesmo ano, os territórios conquistados foram qualificados de devolutos, com os quais se colonizaria o vale graças à distribuição deles como sesmarias entre novos colonos.  A autora interpreta essa norma como um arcaísmo já que reabilitou o velho princípio da guerra justa e do cativeiro indígena, mas chama a atenção que, na verdade, trata-se da reconstrução do império português no Novo Mundo com a chegada da família real.  A presença de índios considerados hostis e refratários ao controle da sociedade regional em expansão foi durante todo o século XIX um dos problemas centrais da chamada segurança pública em todo o norte da província, que incluía São Mateus e a região do vale do Rio Doce.

    As leis pombalinas existentes até então eram menos rigorosas. O cativeiro tinha sido abolido em 06 de junho de 1755 graças à decretação da liberdade absoluta dos índios, que se transforam em vassalos do rei. Deveriam ser integrados nos corpos de ordenança e estavam sujeitos ao recrutamento para prestarem serviço nas milícias. Ficaram equiparados aos demais vassalos luso-brasileiros, embora fossem vassalos especiais, principalmente aqueles que viviam nas matas “sem lei” e “sem fé”. Desse ponto de vista, a guerra e a conquista dos territórios indígenas do Espírito Santo e de Minas Gerais fazem parte do movimento de reorganização do abastecimento comercial da corte implantada no Rio de Janeiro e também da integração econômica do Centro-Sul. Os índios ocupavam em Nova Almeida os principais cargos e lugares da governança da vila, no chamado sistema de autogoverno.

    Chama a autora a atenção para o fato de que tanto em Linhares como nos minúsculos povoados, quarteis e destacamentos existentes na bacia do Rio Doce, parte considerável dos soldados eram composta dos chamados índios civilizados. Conceito que se aplicava em nossa capitania ao grupamento assentado nas antigas missões jesuíticas da região e que a partir das leis pombalinas passaram a compor a população das vilas e lugares que surgiram nos antigos aldeamentos. Interessante que se eles não viviam mais de acordo ás regras e valores de seus grupos de origem, também não podiam ser confundidos com os escravos de origem africana nem com a população de origem europeia.

     

    É contudo na articulação entre o trabalho dos indígenas e dos negros escravizados que ganha o trabalho força especial. Ele sustenta a hipótese de que a proliferação de quilombos no Espírito Santo, especialmente no norte da província durante a primeira metade do século XIX, esteve intimamente ligada ao que ele chama de política de segurança pública.  Ou seja, a aliança entre índios e senhores no combate a escravos fugidos, quanto de escravos armados e seus senhores contra os índios no sertão estavam no coração da vida social na capitania.

    Importante informação é a de que houve a construção, mesmo que transitoriamente, de uma espécie de república na região de Guarapari. Segundo a autora, os escravos de duas fazendas da região passaram a desfrutar de uma vida comunitária regular para os padrões da vida local. O que ficou conhecido como a república negra de Guarapari não era propriamente bem vista pelas autoridades, mas eles a toleravam  devido tanto à incapacidade de reprimi-los, mas sobretudo porque o inimigo maior não eram os escravos que se recusavam a trabalhar. Os chamados botocudos que viviam nos sertões em guerra permanente com a população afro-luso-indígena eram os que enfraqueciam ou subvertiam o sistema vigente. Mas havia também alianças entre senhores e grupos de índios aliados com a finalidade de combater os escravos evadidos do cativeiro, já que a formação de quilombos parecia atingir praticamente todas as localidades do Espírito Santo.  Chama a atenção a autora que nos anos 1840, a formação de quilombos tornou-se endêmica na província, com notícias de sua existência em cada quadrante do território.

    Sem ir mais longe, até porque os elementos aqui reunidos neste pequeno texto estão muito vem expostos e analisados no livro, é obrigatório afirmar que é muito mais complexa do que se imagina com simplismo a construção da sociedade capixaba, da sua identidade e do papel relativo de cada etnia neste contexto. Quando estudamos a chegada dos imigrantes europeus na segunda metade do século XIX, por exemplo, temos que levar em conta que toda esta malha já estava construída entre nós e que ela seria a base para a construção societária que tivemos na sequência.

     

    Foto de capa: Walter Garbe, Índios Botocudos – Cachoeiro de Sta. Leopoldina, 13-7-1909