• Jorge Caldeira

    Por João Gualberto

    “Mauá: empresário do Império”, obra publicada pela primeira vez em 1995.

    Convidado por Jorge Caldeira fui a sua posse na Academia Brasileira de Letras no último dia 25. Uma festa e uma celebração da obra desse grande intelectual. Historiador produtivo tem uma extensa produção, onde é difícil saber qual a mais importante. Seguramente o mais conhecido de seus livros é “Mauá: um empresário do império”, no qual destaca o papel do grande empreendedor do século XIX e sua luta contra a incrível burocracia imperial brasileira e também contra a mentalidade escravocrata que dominava os círculos de poder de sua época.

    “O banqueiro do sertão”, publicado em 2006.

    O livro sobre José Bonifácio de Andrada e Silva, é de uma profundidade extraordinária e coloca luzes sobre os movimentos políticos e econômicos que produziram nossa independência, que tem muito mais densidade do que o simbólico grito do Ipiranga, que aliás só ganhou importância depois da pintura de Pedro Américo. O quadro é de 1888, portanto do fim do período imperial. Até então o gesto simbólico tinha pouca importância. O que importava mesmo como símbolo da independência na época era a coroação de Pedro I em 01 de dezembro de 1822. Lendo o que Caldeira pesquisou e escreveu sobre a vida de José Bonifácio podemos entender melhor como ele foi fundamental na construção do Brasil, da invenção da nossa nacionalidade.

    Outra obra fundamental é o “Banqueiro do Sertão”, onde ele narra o início do processo de descoberta do ouro no Brasil e os mecanismos de seu financiamento, aliás não só do ouro como também de todo o processo de interiorização das atividades produtivas na então colônia. Da leitura, a gente entende como faziam os bandeirantes para obter recursos para suas aventuras no sertão daqueles tempos. A trajetória do Padre Guilherme Pompeu de Almeida, é o fio condutor de uma história construída quase em forma de romance, onde fica destacado o empreendedorismo desses personagens. Jorge Caldeira destaca a formação do que ele chama do capitalismo Tupinambá, ou seja, a incrível articulação de culturas que nos produziu e que produziu nosso capitalismo. Isso não quer dizer que ele defenda que ouve igualdades nesse amalgama, antes pelo contrário ouve clara imposição da lógica cristã portuguesa.

    “História da riqueza no Brasil”, que teve sua primeira publicação em 2017.

    Finalmente, a “História da Riqueza no Brasil”, o mais recente dos três, é uma obra síntese de suas formulações, onde fica claro o caráter empreendedor de nossa sociedade, muito mais ampla do que costuma descrever nossa historiografia tradicional. Muito me inspiro em Jorge Caldeira para tentar entender o que se passou no Espírito Santo. Nossa trajetória também é de muito empreendedorismo, que fica claro na fase colonial pela produção nas fazendas jesuíticas desde o século XVI até o ciclo do café, a partir da segunda metade do século XIX.

    É falsa a afirmativa história de que fomos sacrificados pela coroa que estabeleceu a capitania do Espírito Santo como uma barreira verde entre o mar e as Minas Gerais. O ouro é importante – e põe importante nisso – no século XVIII. Portanto tivemos dois séculos de atividades econômicas antes da tal barreira verde. O ciclo teve seu auge nesse século. Logo depois chegariam ao Brasil as cortes portuguesas e começaríamos outro período. Portanto atribuir um certo marasmo colonial a um determinado período de um ciclo mais amplo é puro preconceito.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 30 de novembro de 2022.

  • O futuro da direita capixaba

    Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

    O Presidente Jair Bolsonaro foi muito bem votado no Espírito Santo, aqui ele teve 58% dos votos no segundo turno. Muito além da média nacional. Aliás, nas eleições de 2018, quando se elegeu, teve aqui 63% dos votos. Somos um estado onde a liderança de Bolsonaro é muito forte. Um estado bolsonarista, enfim.  Tão forte que elegeu seu aliado Magno Malta Senador da República, derrotando a experiente senadora Rose de Freitas, que teve o apoio do governador reeleito Renato Casagrande.

    Magno Malta, eleito novamente Senador pelo Espírito Santo nas eleições em 2022.

    No primeiro turno Bolsonaro teve 52% dos votos e ajudou a eleger aliados na bancada federal e na estadual. Gilvan da Federal, até então vereador no primeiro mandato em Vitória, foi o segundo mais votado para a câmara. A expressiva votação de personagens na nova direita capixaba na assembleia legislativa, como o Capitão Assunção, ficou muito acima do que esperava o mercado político, para ficar em dois exemplos marcantes.

    Em termos da eleição para o governo do estado, foi surpreendente a votação de Carlos Manato do PL, que fez campanha colada na de Bolsonaro, nos dois turnos. Só o fato de ter provocado um segundo turno já foi em si mesmo um grande feito. O governador em campanha e seus principais aliados como o prefeito de Cariacica Euclerio Sampaio fizeram uma inflexão a direita, sobretudo quando o governador faz notáveis esforços para captar eleitores de Bolsonaro. Essa inflexão a direita, produzirá modificações importantes no próximo governo Casagrande. Afinal terá que haver uma compensação em termos de formação de governo, alianças políticas e mesmo políticas públicas para essa fração de eleitores mais conservadores.

    Mas independente desse participação do tabuleiro político comandado por  Casagrande, o que já é um ganho em si, o que de mais orgânico a direita capixaba está pensando? É uma questão política e eleitoral importante, com desdobramentos na governabilidade e no relacionamento com a assembleia. Do ponto de vista eleitoral, o primeiro efeito desse posicionamento se verá nas eleições municipais do ano que vem. Bolsonaro venceu a eleição em 61 dos 78 municípios capixabas, terá certamente candidatos na maioria deles. A questão concreta é como se organizarão, como conseguirão manter a uma identidade da direita nos mesmos moldes de 2022. Esse elemento ainda não está claro.

    O que queremos argumentar é que a organização da nova direita em nosso estado foi feita a partir da forte liderança do presidente-candidato. Agora não sabemos como isso vai se dar. Da construção de rede de lideranças conservadoras depende em grande parte o seu sucesso eleitoral. Lideranças municipais normalmente se vinculam a lideranças estaduais. Essa construção da liderança estadual vai ser resolvida aos poucos. Ainda não sabemos o quanto os bem votados desse pleito jogarão esse jogo.

    Mas uma coisa é certa. Há uma enorme densidade na direita conservadora que se construiu entre os evangélicos. Achamos mesmo que o amalgama central de valores vem desse segmento de eleitores. Enquanto empresários estão normalmente preocupados com a agenda econômica do governo, os evangélicos em particular e os católicos conservadores de uma forma geral, buscam valores, buscam princípios que se encontram no plano moral.

    A Marcha Para Jesus realizada em Vitória (ES), neste ano, contou com a presença do Presidente Jair Bolsonaro e da Primeira-dama Michelle Bolsonaro.

    Pode ser até que os novos passos da nossa direita sejam dados no campo dos valores cristãos. Certamente eles são mais densos e permanentes do que os interesses que se articulam em torno do campo meramente eleitoral. Pensemos em um exemplo, a Igreja Cristão Maranata, nascida no Espírito Santo e muito influente aqui. Dela podem surgir muitas lideranças articuladas em termos de um discurso musculoso no campo moral. Será como uma célula de líderes. Todas as demais denominações podem fazer o mesmo. Ou seja, toda atenção dele ser dada a esse segmento.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 16 de novembro de 2022

  • A força do segundo turno

    Por João Gualberto

    As eleições em duas etapas foram introduzidas na vida política brasileira a partir de 1989, nas eleições protagonizadas por Fernando Collor e Lula no segundo turno. No caso brasileiro, para vencer na primeira rodada eleitoral é preciso ter metade mais um dos votos. Quando um candidato não consegue esse número no primeiro turno, os dois mais votados voltam as urnas.

    A lógica desse dispositivo eleitoral, é permitir que se construa uma maioria que não houve no primeiro turno, um leque mais amplo de apoio. No caso das eleições que se encerraram no domingo, o mesmo raciocínio pode se aplicar tanto ao caso nacional quanto ao caso capixaba. A campanha de Lula esperava sua vitória em 02 de outubro. Ela não veio com os recursos que foram utilizados, como a presença de Geraldo Alckmin no palanque. Foram para o segundo turno e agregaram mais forças políticas ao processo.

    Simone Tebet declarou apoio a Lula após o 1º turno.

    Simone Tebet foi o maior exemplo disso. Agregou muito a campanha. É uma das vencedoras de 2022 e sai maior do que entrou. Agora na transição, a escolha de Alckmin para coordenar politicamente e tecnicamente a sua gestão, mostra que o presidente eleito acena ao centro, acena ao mercado e as forças que não são de esquerda. Ou seja, o segundo turno consolidou a ideia de que não deve haver um governo de esquerda. O Brasil espera mais um momento de conciliação.

    No caso capixaba, a campanha do governador Renato Casagrande também esperava a vitória no primeiro turno. Era, aliás, o mais provável. Houve, entretanto, um crescimento vertiginoso da direita no Espírito Santo. Candidatos a assembleia e a câmara federal cuja eleição não era esperada, tiveram votação muito expressiva e foram verdadeiros fenômenos eleitorais. Essa febre da direita impactou a campanha e levou Carlos Manato ao segundo turno. Casagrande teve que ampliar suas bases para vencer o pleito.

    Renato Casagrande e Ricardo Ferraço, chapa vitoriosa na disputa para o governo do Espírito Santo em 2023.

    A maior evidência disso foi a participação do vice-governador eleito, Ricardo Ferraço, nos atos de campanha no segundo turno. Foi fundamental na vitória. A participação dos prefeitos Euclério Sampaio e Arnaldinho Borgo também foram fundamentais, isso para ficar em exemplos mais visíveis. Eles são de direita. Ou seja, campanha a vencedora acenou claramente para o campo conservador.

    Em suma, o crescimento do conservadorismo em nossa sociedade se desdobrou nas campanhas vencedoras. No caso específico do Espírito Santo, certamente o terceiro governo de Casagrande será mais amplo do que sua tradicional base no PSB, até para respeitar o resultado das urnas.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 2 de novembro de 2022.

  • A febre da direita

    Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

    Em toda eleição estão presentes elementos estruturais, desses que organizam e alimentam a política e fazem parte do imaginário social. Também estão presentes aqueles que podemos chamar de conjunturais. Esses últimos dizem respeito à conjuntura e ao contexto de cada processo eleitoral. No caso daqueles que nos estruturam estão a fragilidade da estrutura partidária, o caciquismo interno dos partidos, a imensa estrutura de favores que se forma para captar votos, a força do capital nos processos, a baixa presença feminina, dentre outros.

    Os conjunturais mudam dependendo do contexto próprio a cada processo. No caso de 2022, temos uma continuidade da polarização esquerda x direita, Lula x Bolsonaro iniciada em 2018 e aprofundada em 2022. Em 2018 foi uma polarização bem forte, mas em 2022 está sendo uma hiperpolarização. O surpreendente desempenho das forças da direita conservadora no primeiro turno, deram a elas uma presença determinante nesse momento eleitoral. A volatilidade que marca as eleições brasileiras não nos permite afirmar quem vai vencer o pleito nacional, mas será certamente uma reta final muito nervosa.

    Jair Bolsonaro, atual presidente e candidato à reeleição em 2022.

    Quanto à conjuntura estadual, o panorama também é muito revolto, porém a grande marca desse segundo turno capixaba é a ascensão ainda maior da direita. Foram vitoriosos no primeiro turno, sobretudo pela surpresa da produção da segunda volta das eleições, a eleição de Magno Malta como senador da república, além disso, pela expressiva votação de Gilvan da Federal, do Tenente Assis, do Capitão Assunção, do Serginho Meneguelli, dentre outros.

    A esquerda também foi vitoriosa com Helder Salomão. Jack Rocha surpreendeu a todos. Se a votação de Gilvan da Federal foi uma enorme surpresa, é sempre bom lembrar que Helder Salomão do PT foi o deputado federal mais votado do Espírito Santo. O eleitor puniu os que não ingressaram na polarização. O PSDB não conseguiu eleger um só deputado federal. Nomes como Sergio Majeski e Max Filho tiveram baixa votação.

    No fundo, nossa conjuntura não admite meios termos em 2022. Helder, Jack, João Coser, Camila Valadão são de esquerda. Manato, Magno Malta, Gilvan, Assunção, Assis são de direita. Será assim também no segundo turno. Aliás, será ainda mais forte no segundo turno. Esquerda e direita vão se enfrentar nacionalmente e regionalmente. Cremos que Bolsonaro e Manato crescerão no Espírito Santo. Difícil nesse momento dizer quanto, mas certamente crescerão. E qual será a reação do PSB local frente a isso? Vão abraçar a hiperpolarização e enfrentar a direita ou irão tentar evitar o enfrentamento?

    Carlos Manato, candidato ao Governo do Espírito Santo em 2022.

    A resposta não está dada. Não é fácil para Renato Casagrande colocar o Lula no seu palanque, dada a trajetória política de sua carreira e o posicionamento político do capixaba, que elegeu Bolsonaro no Espírito Santo. Longe de ser o comunista da propaganda da direita, o que será então Casagrande nesse segundo turno?

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 14 de outubro de 2022.

  • A direita no 2º turno capixaba

    Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

    Renato Casagrande e Carlos Manato.

    O segundo turno no Espírito Santo sempre esteve no nosso radar. Tanto é assim que no dia 31 de agosto último, publicamos aqui na coluna do ESHOJE um artigo intitulado de “O Segundo Turno Capixaba”. Nele, argumentamos que o surgimento de uma identidade coletiva de direita no Brasil tendia a aumentar em muito as definições de voto nesse segmento ideológico. E mais, que essa inflexão conservadora seria a grande marca do atual processo eleitoral. Agregamos ainda o fato de que parte considerável dessa direita conservadora está sendo formada pelo segmento evangélico, que vota segundo princípios bem rigorosos. Em artigos posteriores desenvolvemos mais a questão do voto evangélico e da sociologia de sua constituição. Esse eleitor engrossou as fileiras conservadoras.

    Lembramos que os brasileiros decidem seus votos cada vez mais tarde, e que esse voto tardio tenderia a aumentar o peso da direita entre os eleitos, já que ela vem sendo a força política mais organizada e coesa. É evidente que a direita se articula em torno do presidente Bolsonaro, e que ele seria o personagem central das eleições também entre os capixabas. 

    Porém, o fenômeno é muito mais denso do que a liderança de Jair Bolsonaro, e deve-se em grande parte graças à força das redes sociais. Aliás, o lugar da política, para esse público conservador, são as redes sociais, assim o mundo político é acessado através do seu celular. Esse eleitor organizado de forma conservadora, com muito acesso a informações e de decisão tardia seria o fator mais importante na reta final das eleições. Havia, portanto, muitos elementos que possibilitaram uma análise dos fatos.

    Crucial para mostrarmos a tendência do segundo turno capixaba é que as pesquisas a que tivemos acesso mostravam claramente um forte nível de indecisão para o voto ao governo do estado. O governador Renato Casagrande apesar de ter sido o líder das pesquisas por todo o tempo, nunca foi um campeão de votos incontestes. Ele é um personagem afável e simpático, faz um governo sem marcas de corrupção, com bom controle das finanças, mas não vinha encantando o seu público. Os brasileiros estão gostando dos discursos musculosos. Na pesquisa realizada pelo instituto Perfil e publicada aqui no ESHOJE no fim de agosto mostrou o governador com 33% das intenções estimuladas de votos, enquanto os seus concorrentes tinham somado 40% dos votos. Todos os sinais que podíamos captar mostravam que o segundo turno era uma possibilidade real.

    O fato novo e mais importante dos últimos dias da campanha é que não foi a soma dos concorrentes fragmentados de Casagrande que produziu o segundo turno. Foi o crescimento expressivo de Carlos Manato, na reta final, que determinou, de fato, o resultado. Essa força que catapultou Manato foi o bolsonarismo. Ele se transformou no candidato dos que votaram fechados no grupo conservador. Bolsonaro, Magno Malta, Manato e os parlamentares agregados a esse grupo. Foi essa a razão do crescimento de Gilvan da Federal e do Tenente Assis para a Câmara dos Deputados e do Capitão Assumção para a Assembleia Legislativa. Todos com expressiva votação. Como reação, a identidade da esquerda também se fortaleceu. Helder Salomão do PT foi o campeão de votos para deputado federal e João Coser e Camila Valadão também tiveram votações recordes.

    Agora começa a campanha do segundo turno. O começo beneficia muito o candidato Manato, pelo elemento surpresa de sua grande votação. Sai como vencedor da primeira rodada, embora o governador tenha tido mais votos. Não acreditamos que o segundo turno seja outra eleição, como gostam de dizer os brasileiros. Os elementos mais importantes já estão colocados na trajetória dos candidatos. Porém, o enfrentamento direto o tempo todo, com igual tempo de televisão é o diferencial. Desse embate nasce o vencedor. Renato Casagrande é muito experiente e racional, Manato mais impetuoso. Vamos esperar o início da campanha, a primeira semana de propaganda na televisão, no rádio, nas ruas e nas redes sociais para avaliar os movimentos dos candidatos nos próximos artigos. 

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 05 de outubro de 2022.

  • Os evangélicos e a renovação geracional

    Por João Gualberto e Ana Carolina Andrade

    Jovem evangélica.

    O presente artigo é o último de uma série que escrevemos, especialmente, para nossa coluna sobre o fenômeno evangélico no Brasil. Todos eles foram estruturados a partir de duas pesquisas sobre o comportamento político deste público em particular, realizadas pela Gualberto & Gualberto nos municípios da Grande Vitória sob a coordenação de Ana Carolina Andrade. A primeira, de caráter qualitativo, foi executada entre os meses de julho e dedicou-se à escuta, em longas entrevistas, de 50 lideranças, estudiosos, pastores e fieis de diferentes denominações e tradições evangélicas. Já a segunda, de caráter quantitativo, ouviu 812 evangélicos dos municípios de Vitória, Serra, Cariacica e Vila Velha entre o final de agosto e início de setembro.

    Tais pesquisas nos permitiram elucidar muitos elementos que compõem o imaginário evangélico brasileiro nesse início de século XXI. Sobretudo nos permitem afirmar,  sem medo de errar, que jornalistas, intelectuais e membros das elites brasileiras costumam ver esse segmento com muito preconceito. Os tratam como se fossem teleguiados e pessoas não dotadas de senso crítico e, ainda, tomam as figuras dos pastores midiáticos como se fossem e representassem a totalidade do “Povo de Deus”.

    Outra coisa que vimos de perto é que os setores evangélicos neopentecostais são formados por uma base popular, fortemente influenciada pela chamada “Teologia da Prosperidade”. Isso os torna muito ligados ao mundo do trabalho duro e que será recompensado por Deus, afastando-os da política de favores, que marca a tradição política brasileira. Hoje, estes setores estão mais próximos da direita pela aversão à corrupção, ao assistencialismo e, na pauta de costumes, pela defesa da família tradicional.

    O empreendedorismo, por sua vez, é a marca das igrejas de “Parede preta”, como Bola de Neve, Lagoinha, Batista Atitude, Missão Praia da Costa e outras. São igrejas voltadas para um público mais jovem e de classe média e classe média alta, materializam o desejo de prosperidade com ações concretas. Aqui o evangelho auxilia no processo de desenvolvimento individual e a relação com o enriquecimento é positiva, afinal, todos têm direito de desfrutar dos bens criados por Deus.

    O que queremos mostrar com esses achados é que os evangélicos estão ajudando o Brasil a encontrar um caminho de prosperidade em valores, baseados numa releitura da velha Reforma Protestante. São os caminhos da sociedade brasileira e que precisam ser melhor compreendidos e estudados.

    Hoje, queremos nos deter nas questões geracionais que dizem respeito a esse universo, uma vez que as novas gerações, em nossos estudos, parecem apontar para algumas mudanças. Se a face típica do evangélico já é feminina, negra e jovem, ao analisarmos, especificamente, os evangélicos de 16 a 24 anos, podemos vislumbrar alguns movimentos interessantes: estão mais “desigrejados”, é um público que frequentou menos outras religiões e têm posicionamentos – na política e nos costumes – menos conservadores.

    Na pesquisa quantitativa feita pela Gualberto & Gualberto na Grande Vitória, 13,6% dos 812 evangélicos entrevistados possuíam 16 a 24 anos. Deste total, 40,19% não é membro ou está congregado a nenhuma igreja, sendo que a média geral foi de 24% de “desigrejados”. Se 34,7% dos evangélicos já foram de alguma outra religião no decorrer da vida, este número cai para 17% quando se trata dos jovens entre 16 a 24 anos.

    Lula (PT) recebe orações de lideranças evangélicas.

    No que diz respeito aos posicionamentos, os jovens têm maior adesão à candidatura de Lula (PT) – 19,9% declararam voto nele na questão estimulada – e rejeição à candidatura de Jair Bolsonaro (PL), onde 21,22% disseram não votar nele de forma alguma. Além disso, são mais favoráveis a temas como a legalização das drogas – a concordância total ou parcial é de 7%, porém, nesta faixa etária este valor sobe para 15% – e a defesa dos direitos da população LGBTQIA+, das mulheres e dos negros (60,56%, frente a 52,1% do total geral).

    Esses indícios apontam para uma renovação geracional no meio evangélico, que poderá ocasionar, a longo prazo, modificações relevantes em termos de comportamento, costumes e também políticos. Compreender este contexto não é tarefa fácil, mas soma-se aos desafios do exercício de uma leitura sobre os evangélicos que se distancia de preconceitos, visões totalizantes e monolíticas.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 27 de setembro de 2022.

  • O empreendedor evangélico

    Por João Gualberto e Ana Carolina Andrade

    Esse é o terceiro de uma série de artigos que estamos escrevendo sobre a identidade evangélica no Brasil de nossos dias. No primeiro, chamamos a atenção para o fato de não podermos tratá-los como se fossem um só bloco, como se não houvessem muitas diferenças internas. O fato da maioria das denominações terem se unido na candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 não as torna bloco só o tempo todo, como aparece na leitura cotidiana da imprensa.

    Jair Bolsonaro, atual presidente do Brasil, segura uma Bíblia.

    No segundo dos artigos tratamos de como os chamados neopentecostais, entre os quais se destacam os fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus liderada pelo bispo Edir Macedo e as muitas denominações surgidas a partir dela como a Mundial do Poder de Deus ou a Igreja Internacional da Graça de Deus, abraçaram a chamada Teologia da Prosperidade e fizeram dela um elemento diferenciador no universo do cristianismo brasileiro. Igrejas de base muito popular, reúnem sobretudo moradores das periferias urbanas de todo o Brasil e divulgam além da fé em Cristo, a fé no crescimento individual de cada um dos membros. Ao realizarem a transformação da aceitação da pobreza natural no cristianismo tradicional brasileiro em luta pela melhoria de suas vidas, estão contribuindo para uma mudança importante na cultura brasileira. E isso não é pouco.

    No presente texto, queremos trazer um novo elemento para a reflexão dos nossos leitores. É que sobretudo no presente século XXI, a sociedade brasileira foi tomada por uma nova onda igrejas evangélicas. No primeiro texto, as chamamos de Igrejas da Parede Preta, porque tem uma arquitetura interna que valoriza o fundo dos altares com as cores escuras para facilitar a transmissão dos cultos pelo Youtube e outros canais das mídias sociais. São igrejas frequentadas sobretudo pela juventude de classe média e classe média alta urbana desse imenso Brasil. A Bola de Neve, a Batista Atitude, a Lagoinha, a Fonte de Vida, a Ser Amor ou a Missão da Praia da Costa são exemplos desse gênero de denominação presentes no Espírito Santo.

    Culto na Bola de Neve Church.

    Seus cultos são tomados por cantos de louvores com base na música “worship” e a estética como um todo de ambientes e frequentadores marcados pela modernidade, pela descontração e também pelo uma outra relação com a prosperidade. Evidentemente que esses elementos estão longe de esgotar as características desse universo. Estamos apenas chamando a atenção para alguns no contexto desse espaço. Mas, do ponto de vista da sua contribuição à cultura da prosperidade que também marca as igrejas de corte mais popular, o fato que mais nos chama a atenção é seu foco no empreendedorismo.

    Enquanto as igrejas mais tradicionais têm seu eixo central voltado para o reino dos céus e das atitudes que devemos ter para ser dignos dele, essas igrejas também se preocupam muito com o progresso material dos seus membros. Mais do que se preocupar, estimulam e orientam o empreendedorismo. Tratam todos como empreendedores natos e chamam a atenção que Deus colocou na terra bens e oportunidades que todos devem poder desfrutar. Todos têm o direito de desfrutar. Faz parte das habilidades que essas igrejas devem desenvolver nas pessoas, a preparação para se servir desses verdadeiros presentes que Deus nos oferece.

    Assim, em seu conjunto a, digamos, modernização do cristianismo tradicional as aproximou dos padrões norte-americanos da busca da vida próspera. Introduziu e aprofundou os elementos essenciais para a construção de uma sociedade afluente e que busca com mais determinação melhorar a vida familiar de todos. São novos padrões de comportamento coletivo que devem ser observados por todos, para não corrermos o risco de não entendermos o que se passa no Brasil e o que deve determinar nosso futuro como sociedade.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 21 de setembro de 2022.

  • Os evangélicos e a prosperidade

    Por João Gualberto e Ana Carolina Andrade

    Estamos nos dedicando a tentar elucidar o papel dos evangélicos na sociedade brasileira, dada a importância e densidade que o “povo de Deus” ganhou ao longo das últimas décadas. Povo de Deus esse que não entendemos, como muitos o fazem por puro e simples preconceito, como “manipulados” por seus pastores – midiáticos ou não – ou suas igrejas. A tese da manipulação não dá conta de explicar os enormes efeitos sobre a sociedade que o grupo tem tido.

    Culto na Igreja Universal do Reino de Deus.

    Aqui, defendemos a existência de uma identidade evangélica, construída a partir de vários princípios. Calcados nos preceitos bíblicos, eles compõem o que chamamos de “imaginário evangélico brasileiro”, onde a ideia da busca da prosperidade está inserida. Tais princípios englobam a excelência, o trabalho, a autoridade, o temor, a obediência e muitas outras coisas. São, em grande parte, conservadores e, como temos percebido, se estendem a um mundo do cristianismo que envolve também os católicos, ou boa parte deles.

    Existe, de fato, um cristianismo conservador no Brasil, que alimenta esse imaginário do qual estamos falando. O fenômeno do crescimento evangélico no Brasil – ponto de virem a ser maioria da população brasileira na próxima década – em nada se destoa das nossas bases cristãs históricas. São, na verdade, seu aggionarmento, sua atualização para o Brasil moderno.

    Mas, vamos ao tema de hoje. O crescimento exponencial das igrejas protestantes no Brasil que se deu a partir dos anos 1970. O enraizamento popular do cristianismo reformado se deu pelo chamado “neopentecostalismo”, a partir da Igreja Universal do Reino de Deus e da liderança inconteste do Bispo Edir Macedo. Dele surgiram outras denominações fortes nesse campo como a Mundial do Poder de Deus do Apóstolo Valdemiro Santiago, a Igreja Internacional da Graça de Deus sob a liderança de R. R. Soares, dentre muitas outras. São igrejas de base popular, frequentadas por pessoas pretas, pobres e moradoras das periferias miseráveis desse imenso Brasil. A maioria é feminina. Nesse universo as carências são brutais. Materiais, emocionais e educacionais. É uma massa que precisa ser ouvida, atendida, ter sua dor mitigada pela presença de Jesus em suas vidas e por suas bênçãos (espirituais e materiais).

    Apóstolo Valdemiro, fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus.

    Assim, as igrejas neopentecostais, que trabalham a ideia da prosperidade, se implantaram fortemente nesses setores sociais. A chamada Teologia da Prosperidade, que alguns até chamam de Pedagogia da Prosperidade, dada a intensidade e frequência dos ensinamentos nessa direção. Isso tem enorme importância na compreensão do sucesso e do crescimento dessas denominações entre os mais pobres no Brasil: se Deus é o dono do ouro e da prata qual a razão de nós, filhos e filhas dele, não os possuírem?

    Nós temos mesmo chamado esse fato social de enorme relevância da Reforma Protestante à Brasileira, ou de Reformas Protestante à Brasileira, e consideramos que a grande contribuição que dará a cultura brasileira a longo prazo será a ideia de que podemos vencer a pobreza, a miséria, as dificuldades do dia a dia pela nossa ação empreendedora, autônoma. Dessa forma, uma forma de servir a Deus é poder aproveitar todos os bens que a sua criação colocou à nossa disposição.

    Esses contingentes sociais refutam o assistencialismo governamental puro e simples. Querem vencer por seus esforços. Acreditam e buscam a prosperidade para suas famílias através do trabalho árduo e da bênção divina, do fato de serem bons cidadãos. Convenhamos, é uma enorme mudança de tons no nosso imaginário social a ideia da prosperidade que virá do trabalho duro.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 14 de setembro de 2022.

  • A identidade da direita brasileira

    Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

    Até as eleições de 2018, os brasileiros confundiam a política tradicional, sobretudo a fisiológica – aquela que é feita através de favores e assistencialismo – com direita. A imprensa considerava políticos como Paulo Maluf de direita, como sendo a expressão do nosso conservadorismo. Hoje esse conceito mudou. E mudou muito.

    Vários elementos estão presentes nessa trajetória de mudanças. Um dos mais relevantes, é o surgimento de uma extrema direita mundial, muito forte hoje na Europa. Isso impactou fortemente a nossa realidade eleitoral. Sobremaneira importante para isso foi a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, pelo caráter de impactar os brasileiros que tem a grande nação Norte-Americana. Trump passou a ser um modelo a ser seguido e admirado. É muito claro que o presidente Bolsonaro se alimenta muito nesse imaginário instituído nos Estados Unidos.

    Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos.

    Hoje existe no Brasil uma outra compreensão do que seja a direita, o pensamento conservador. Temos nas militâncias a noção clara de um pensamento conservador.  Ele tem forte base no cristianismo, sobretudo o evangélico, mas não apenas. Há um catolicismo brasileiro conservador e de direita que também é muito forte.

    Esses novos setores se enxergam como conservadores, e se orgulham disso. Ou seja, existe hoje um fato novo a ser levado em conta na política: um coletivo que se reconhece em princípios e que se identifica com eles. Podemos chamar esse novo elemento de Identidade Coletiva de Direita. É nesse coletivo identitário que a Nova Direita capta os seus votos hoje. A militância desses grupos se dá sobretudo nas redes sociais. A nova direita brasileira se expressa nas redes sociais e existe sobretudo nelas.

    O que dá coesão a esse segmento político, é o conjunto de princípios que devem ser respeitados e valorizados. Na verdade, a direita brasileira acredita que ela trouxe a essência da democracia para o jogo da política através das redes sociais e das manifestações públicas, pois criou o contraditório, a disputa no campo das ideias. Isso é visto por esse público como uma boa contribuição para o debate das ideias. Há uma busca frequente deste debate, até mesmo de forma ostensiva e sem dificuldades de mostrar certa agressividade.

    Nesse campo ideológico, há uma valorização da atividade política, ao contrário do distanciamento mais comum no restante da população. Quem proporcionou em grande parte a emergência social dessa lógica política, e fez isso com maestria em 2018 foi Jair Bolsonaro. O atual presidente conseguiu organizar em uma plataforma eleitoral o que estava disperso em mentes isoladas. Para isso construiu uma coalizão que teve no mundo das armas, nos evangélicos e no agronegócio fortes bases. A manutenção dessa coalizão tem sido um grande desafio para a liderança de Bolsonaro na direita conservadora. Tem lhe custado um exercício permanente de superexposição e pode produzir algum cansaço.

    Jair Bolsonaro, então Deputado Federal, protestando contra o “kit gay”.

    Nesse contingente que tem uma identidade clara, o que mais conta é a pauta conservadora dos costumes, cujo grande pilar é o conceito muito tradicional da família. Para sustentar esse princípio de defesa da família é importante o combate as seguintes pautas: aborto, “ativismo gay”, educação sexual nas escolas, as questões de gênero e que tem nexo nessas significações imaginárias sociais.

    Para entendermos a força e a resiliência da campanha de reeleição do Presidente Bolsonaro, que resiste aos erros de marketing do agora candidato, é fundamental compreendermos a magnitude desse processo e da importância da construção mitológica. Ela une todas as tendências internas na direita, embora esbarre fortemente nas mulheres, sobretudo nas mulheres pobres evangélicas. Esses são os paradoxos dessa coalizão conservadora, impensável décadas atrás, mas o motor político do Brasil que estamos construindo.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 07 de setembro de 2022.

  • Os evangélicos não são um bloco

    Por João Gualberto e Ana Carolina Andrade

    Os jornalistas políticos brasileiros, e mesmo os intelectuais de nossa academia, costumam cometer um equívoco comum ao julgar que os evangélicos formam um conjunto compacto e que tomam decisões como a do voto em bloco. Nada mais falso. Na verdade, existem importantes frações internas no segmento e, no que diz respeito à política e ao voto, isso é muito claro: Paul Freston, sociólogo especializado no estudo da sociologia das igrejas evangélicas brasileiras, já afirmava que os evangélicos não votam em bloco desde os anos 1990.

    A Igreja Batista de Santa Barbara, fundada em 11 de setembro de 1871, com cerca de trinta membros, foi a primeira igreja Batista do Brasil.

    Para que todos possam entender o que estamos querendo dizer, e para que compreendam a raiz de nossos estudos, precisamos elucidar como se organiza o “Povo de Deus”. Em primeiro lugar vamos pensar no segmento “evangélico tradicional”, que diz respeito às igrejas como a Batista, Presbiteriana, Adventista, Luterana, Anglicana, dentre outras. Elas têm origem no protestantismo histórico, na ruptura com a Igreja Católica. Tais igrejas chegaram ao Brasil no século XIX e, de acordo com Juliano Spyer – autor do festejado livro “O Povo de Deus” – possuem um público “intelectualizado e discreto”.

    Gunnar Vingren e Daniel Berg, pioneiros da Assembleia de Deus no Brasil.

    Os “pentecostais”, por sua vez, chegaram ao país no início do século XX, por meio da Congregação Cristã e da Assembleia de Deus. Tiveram aderência das classes populares e grande crescimento nas periferias. Diferem-se dos tradicionais pela crença na manifestação dos dons espirituais, como a cura, os milagres, as línguas estranhas, entre outros.

    Já o “neopentecostalismo” chega ao país por volta dos anos 1970, através da igreja Universal do Reino de Deus. Nascido nos Estados Unidos, une as características do pentecostalismo com a teologia da prosperidade, onde os fiéis são fortemente estimulados a adotarem uma postura empreendedora na vida. O fenômeno pentecostal e neopentecostal, para os mais curiosos, é brilhantemente explicado pelo Doutor em Sociologia Brand Arenari no episódio 11 – nomeado “O Pentecostalismo à luz da Sociologia” – no podcast “Intelecto geral”, disponível nas plataformas de áudio.

    Culto no Templo de Salomão da Igreja Universal do Reino de Deus.

    Aqui acrescentamos um novo segmento: as igrejas de “parede preta”. Trata-se de um movimento ainda mais recente, também importado dos Estados Unidos. São tradições pentecostais que adotaram estéticas e práticas mais contemporâneas, como uma linguagem mais atual, incorporação da cultura “pop”, condução dos cultos em formato “worship” – que é um padrão de liturgia norte americano -, e uma maior liberdade doutrinária quanto às vestimentas, tatuagens, piercings, e outros sinais externos de modernidade. Tais igrejas costumam ter como público alvo adolescentes e jovens de classe média e classe média alta, sendo alguns exemplos: Bola de Neve, Hillsong, Missão, Atitude, Ser Amor e Lagoinha.

    Primeiro culto da Hillsong Church em São Paulo (2016). A Hillsong Church é um dos maiores expoentes do estilo worship de adoração.

    Ainda, não podemos deixar de lembrar dos “desigrejados”, isto é, aqueles que mantêm a identidade evangélica, contudo, não estão congregados em nenhuma denominação. Praticam a fé, mas não precisam de um templo para tal.

    Esse conjunto amplo de denominações evangélicas tem como diferenciação algumas características chave. A primeira delas é de classe. As tradicionais e as pentecostais pouco se diferenciam da constelação de classes sociais que compõem o catolicismo. Já as neopentecostais são claramente mais populares e, hoje, são a imensa maioria dos evangélicos. O perfil de seus seguidores é o de uma mulher preta, da periferia e pobre. O corte que mais diferencia as igrejas de parede preta é o geracional: a renovação das tradicionais e das pentecostais acabou atraindo uma juventude mais descontraída e menos vinculada às tradições eclesiásticas.

    Nesse universo, não dá para pensar em bloco. Sobretudo, não dá para pensar a polarização das eleições presidenciais com um olhar monolítico. Os elementos da complexidade evangélica brasileira se farão presentes. O corte de classe, de geração e de olhar sobre a política e o mundo estarão presentes. São fenômenos de sociedade muito superiores ao desejo das elites religiosas, dos pastores e das cúpulas eclesiásticas.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 19 de agosto de 2022.