• COLONIZAÇÃO CAPIXABA

    Em maio de 1535 os portugueses chegaram ao Espírito Santo.  Na nossa história oficial comemoramos no dia 23 de maio, com o pomposo – e algo fora de moda – nome de Colonização do Solo Espírito-Santense. Na verdade, o início de nosso processo de construção de uma nova sociedade. Bem perversa.

    Vamos relembrar essa história. Os portugueses dominavam a arte da navegação. Havia toda uma tecnologia que lhes permitia a aventura de atravessar o Mar Tenebroso, como chamavam o Oceano Atlântico. O comércio de Florença e de outras cidades italianas com o mundo árabe estava prejudicado desde a metade do século XV pela tomada de Constantinopla pelos Turcos. Muitos capitais italianos ligados ao comércio no mediterrâneo buscaram novas alternativas. Havia interesses comerciais e havia interesses religiosos. 

    A vinda dos portugueses para o Brasil não deixou de ser uma espécie de continuidade das cruzadas. Continha o combate aos infiéis, que no nosso caso eram os indígenas. Os nativos da terra podiam ser cristianizados, aí seriam salvos, ou podiam ser escravizados, o que ocorreu a um grande número. Mas, a maioria foi mesmo exterminada.

    Como registrou Adilson Vilaça, não há colonização sem dor. “Morte e sangue vertido, morte e sangue perdido, morte e sangue pervertido – morte sob o ataque do aço, morte por enforcamento, morte após tortura e estupro. Porque não há colonização sem dor. Sem muita dor”.

    O que os capitais italianos queriam eram lucros polpudos. O que os navegadores portugueses queriam era expandir os seus limites. O que queria a nobreza portuguesa era ouro, prata, pedras preciosas. A aventura ultramarina era estruturada a partir da fé e dos interesses comerciais. Pau Brasil, cana de açúcar eram, por assim dizer, riquezas intermediárias. O objetivo do enriquecimento rápido, da ética da aventura, para ficar numa expressão do grande historiador Sérgio Buarque Holanda em Raízes do Brasil, era ouro.

    Voltemos ao Espírito Santo. O primeiro de nossos donatários, aquele que ganhou o direito de expressão de tudo o que houvesse com as regras que ele mesmo criasse, foi Vasco Fernandes Coutinho e ganhou por seus triunfos nas guerras lusas na África e na Ásia. Era um homem com proezas de guerra. Com eles vieram os tais degredados, 58 bandidos comuns, desorelhados. Era hábito que esses condenados fossem desorelhados, orelhas extraídas como parte da pena. A justiça portuguesa andava com mão pesada para condenar muitos pobres ao degredo, por crimes como bigamia ou moeda falsa, e assim favorecer a colonização. 

    Mas, entre os tais degredados, havia dois nobres particularmente perversos: Dom Jorge de Menezes e Dom Simão de Castelo Branco. Dom Jorge de Menezes havia sido governador de uma ilha nas Índias, e tantas foram as suas loucuras e maldades que foi mandado a ferros para Portugal, de onde saiu para vir para o nosso Espírito Santo, para ajudar Vasco Fernandes Coutinho a comandar a tal colonização. 

    Dom Simão Castelo Branco também havia chegado a ferros a Portugal, vindo de Marrocos, de onde fora destituído de suas funções de governo, por corrupção. Também foi mandado para o Espírito Santo juntos com o primeiro donatário.  Foram tão maus que acabaram sendo assassinados pelos índios, em escaramuças sanguinárias. Dom Jorge de Menezes começou um cruel processo de escravização dos índios. Mas eles eram os valentes Goitacazes, talvez os mais temidos guerreiros de todo o litoral, e responderam de forma dura com uma guerra que acabou com a morte dos dois. Foi, digamos assim, um encontro de selvagerias. 

    É preciso rever certas festas cívicas, entre ela a data da Colonização do Solo Espírito-Santense. O evento merece ser lembrado como marco de dor e maldade, como a imposição de uma cultura toda voltada para a ambição desmedida. Como bem lembrou Adilson. Não há colonização sem dor. Sem muita dor.

  • O NOVO NA POLÍTICA BRASILEIRA

    O sistema político brasileiro foi construído, desde de sempre, de costas para a opinião pública, ou, como dizia Pedro II, da opinião nacional. A independência e a nossa primeira constituição, o sistema parlamentarista de pé quebrado instituído por ela, o centralismo do Império, tudo foi feito longe da escuta popular.

    Quando o Império esgotou seu papel, quando a insatisfação se instalou, abriu espaço para um tipo de republicanismo onde as eleições eram meros detalhes, fraudadas escancaradamente. Para dar um exemplo, na eleição de Jerônimo Monteiro em 1908, ele teve cerca de 18.000 votos, e o seu adversário, o Barão de Monjardim teve 13 e o Dr. José Belo de Amorim, 10. Eram vitórias na mão grande, para usar uma expressão atual. 

    Também a Proclamação da República foi um Golpe Militar, sem o envolvimento da militância republicana. O povo a tudo assistiu bestializado registrou o jornalista Aristides Lobo no dia 15 de novembro, no Rio de Janeiro.

    A charge de Miguel Paiva: Constraste com a épica imagem “Independência ou Morte” de Pedro Américo, pintado em 1886 (Portanto, 64 anos após a separação do Brasil de Portugal)

    No século XX, duas ditaduras atropelaram nosso sistema político: a de Vargas iniciada nos anos 1930 e a dos militares iniciada em 1964.  A retomada da democracia se deu através das elites tradicionais. Maior prova disso é que José Sarney foi o nosso primeiro presidente depois da ditadura, em 1985. Mas, sempre ouve uma tensão entre o novo e velho em nosso sistema político. Desde sempre. O velho vem se impondo, às vezes imbricado com o novo. Em vários momentos a sociedade optou pelo novo. O arcaico não se impôs como um bloco monolítico.

    Há uma grande confusão no eleitor brasileiro, que julga que o novo é uma questão geracional. Votar em um jovem não significa votar no novo na política, votar em uma pessoa vinculada a religião não significa dar um voto ético. Mas embalado por uma certa ingenuidade política, os brasileiros têm agido assim.

    Fiz uma recapitulação histórica muito breve. Vamos, entretanto, nos fixar nos momentos mais recentes. Em especial nas eleições disruptivas de 2018. No Espírito Santo os experientes senadores Magno Malta e Ricardo Ferraço foram substituídos por dois novatos, sem passado político. Por todas as evidências foi o alinhamento simbólico com a campanha de Jair Bolsonaro que os levou a Vitória.

    A espetacularização do combate a corrupção feita pela operação Lava Jato talvez tenha sido o estopim dessa disruptura. O cansaço com a velha política, a existência de elites partidárias totalmente corrompidas deu o motivo para o voto no novo, no desconhecido, de certa maneira na aventura. Governadores de dois estados vizinhos nossos foram eleitos assim: Rio de Janeiro e Minas Gerais. Um desejo de mudar, que não é novo, foi potencializado pelas evidências de corrupção exibidas na televisão e no restante da mídia. O PT foi reduzido politicamente de forma drástica. 

    Disso todos sabemos. A nossa questão é quanto desse desejo de disruptura ainda está presente em nosso imaginário político. Como ele se apresentara agora? Tivesse sido o governo Jair Bolsonaro um sucesso até agora, nós teríamos a resposta fácil. Mas, não é o caso. Sobretudo diante da pandemia do novo corona vírus, ele teve uma condução negacionista. Fosse o governo um fracasso também seria fácil falar. Mas, o governo tem sua popularidade, o presidente tem sua bolha fiel. Estamos no meio. Isso significa que poderemos ter diferentes apropriações do fenômeno do novo.  

    As primeiras pesquisas de opinião realizadas nas maiores cidades, como é o caso de Vitória, mostram o surgimento de políticos com experiência. Então temos um elemento ainda não definida o para o próximo pleito. A experiência terá que papel? A busca do novo terá que peso?

    Evidentemente que a velha política terá mais uma vez um papel negativo. O que parece é que aqueles que tiverem uma mancha com a corrupção serão punidos. Mas não acredito que tenhamos uma repetição da disruptura que levou o capitão ao poder. Não naquela intensidade. O fenômeno tende a se repetir de forma mais matizada, menos abrupta.

    Cabe ao campo democrático discutir esse novo. Seu conteúdo, sua característica. Senão vamos repetir as frustações de votar em um candidato que é jovem, mas que não porta nenhuma novidade seja na formulação, seja na ação política.

  • COMO VENCER A TRUCULÊNCIA

    Em termos políticos, o mundo tem sido varrido por uma nova onda ocidental, organizada a partir de discursos nacionalistas, conservadores e autoritários. Os estudiosos que têm analisado esses novos modelos “democráticos” – chamados de democracias iliberais por líderes desses movimentos, como Vitor Orban, da Hungria, por exemplo – convergem em um ponto: o entendimento de que a nova extrema direita quer sufocar as instituições democráticas, impondo valores conservadores, além de operar, de maneira permanente, para ampliar o seu poder.

     

    E esse fenômeno também pode ser observado aqui, no Brasil, uma das mais jovens democracias do mundo.

     

    Em seu livro “Os engenheiros do caos”, o escritor italiano Juliano Da Empoli analisa, por meio de posturas caricatas como a do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e de Jair Bolsonaro, atual chefe do Executivo nacional, a chegada dos outsiders (aventureiros políticos) ao poder por meio do caos nas sociedades em que estão inseridos. O pano de fundo para o estudo de Empoli é a forma como esses atores descobriram que a democracia, na era do narcisismo de massa e da força das redes sociais, pode oferecer possibilidades inesperadas de mobilização social.

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    A obra de Empoli está repleta de exemplos contundentes acerca das manipulações feitas a partir de mecanismos como o da disseminação das chamadas fake news (notícias falsas) em função do interesse particular. O texto destaca, por exemplo, a ousadia do americano Steve Bannon, conhecido como o homem-orquestra do populismo norte-americano, que, depois de ter conseguido eleger Trump, sonha fundar uma “Internacional Populista”, para combater o que ele define como “o partido de Davos das elites globais”. Bennon trabalhou na campanha de Bolsonaro, tendo trazido muito dessa tecnologia global de construção do medo coletivo e da balbúrdia social, cada vez mais presente na nossa política. A tática do americano se mostrou eficiente para vencer as eleições.

     

    No entanto, a atual pandemia que enfrentamos, com o avanço do novo coronavírus no mundo, veio descortinar e expor a fragilidade política e gerencial dessa estruturação política fundada no caos e nas informações desencontradas. Diante de um desafio como esse que governos de todo planeta têm enfrentado atualmente, os líderes que têm seus mandatos consolidados por meio do conflito e da polarização social, não têm dado a resposta devida ao problema. Precisamos vencer esse modelo paralisante, focado no embate. Nosso desafio é desconstruir essa trajetória de irresponsabilidades políticas e manipulações, feitas pela propagação de uma rede perversa para destruir reputações – como o famigerado “gabinete do ódio”, instituído com o intuito de divulgar mentiras acerca de projetos e pessoas que se posicionem contra o atual governo. Não podemos construir uma nação justa e igualitária com bufões como Bolsonaro e sua trupe, cujo maior trunfo político é uma ignorância militante, uma capacidade de mentir e de criar situações antes impensáveis e inaceitáveis na nossa democracia.

     

    É urgente que se comece a pensar novos modelos políticos. O coronavirus é, hoje, uma ameaça real para o mundo inteiro. Como governos chefiados por personagens que chegaram ao poder mentindo, ridicularizando, ofendendo – que é a única coisa que sabem fazer – se comportarão diante da evidente necessidade de uma gestão séria e comprometida da crise? A impressão que tenho é a de que eles “derreterão” diante da realidade dos fatos, até porque a verdade nua e crua tende a assustar quem sempre lidou – e fez uso também – com factoides. Bastava a mentirada que alimentam todo dia nas redes, dos absurdos que falam e das desavenças que criam. A gestão é para ser delegada aos especialistas em cada área, os postos “Ipiranga”. As lideranças fajutas que chegaram ao poder estarão esgotadas no curto prazo.

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     Bannon:  diretor executivo da campanha presidencial de Donald Trump, em 2016.[4][5]
    Não restam dúvidas sobre a necessidade de encontrar uma saída que dê conta das nossas demandas. Mudanças que já estavam em curso em importantes segmentos da sociedade e que podem fundar uma nova política serão aprofundadas, caso haja o fim desse populismo chancelado e reverberado pelos líderes religiosos simpatizantes do conservadorismo. Por outro lado, as velhas esquerdas estão fragilizadas. Caso essa nova direita populista saia do centro do poder, como será construída a nova cena política nacional?

     

    Em primeiro lugar, ao que tudo indica e aos preços de hoje, a nossa saída será à direita. O eleitorado brasileiro está cansado das elites tradicionais. A rejeição não é só ao Partido dos Trabalhadores (PT), mas, também, aos políticos de tradição social democrata e, por fim, aos membros do chamado centrão. Alguns movimentos novos, de corte mais cívico, têm sido construídos, mas não estão maduros para ocupar o centro das principais discussões políticas nesse primeiro momento.

     

    Assim, com a falência do modelo populista-olavista, só nos resta imaginar que, na centro-direita, surja um nome capaz de agregar; capaz de absorver os eleitores mais conservadores, mas sem a aliança internacional populista, sem o negacionismo e o terraplanismo. Ou seja, que voltemos a ter capacidade de avançar pelo centro democrático, mas varrendo as práticas mais antigas tão negadas pelo eleitor, hoje.

    Ao rejeitar nossa política dos conchavos e jeitinhos, o povo brasileiro parece agir de maneira correta. Agora, cabe aos democratas apresentar uma saída viável para sucessão da truculência que está no poder atualmente.

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    O presidente Jair Bolsonaro e o filho, Senador Flávio Bolsonaro.

     

     

     

    João Gualberto 
    [1] Doutor em Sociologia Política pela Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociiales, Paris, França e Professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo.

  • PANDEMIAS E CIDADANIA

    Nossa história política é a história de elites de costas para a maioria da população. É a história de um país escravocrata, onde parcelas importantes da população não tinham direito algum. Nos transformamos em república sem construirmos uma relação política densa com a população, que continuou alijada dos processos de escolha.

    Mas, os tempos foram mudando e a população já não assistia a tudo calada. Bom exemplo dessas mudanças, foi a Revolta da Vacina. As condições sanitárias das nossas cidades, inclusive da capital, o Rio de Janeiro, eram muito ruins. A cidade sofria com problemas de saúde pública.

    O presidente Rodrigues Alves (1902-1906) tentou enfrentar a questão na capital, nos modos autoritários da Primeira República. Nomeou o engenheiro Pereira Passos prefeito do Distrito Federal e o médico Oswaldo Cruz assumiu a Diretoria Geral de Saúde Pública. Iniciaram sem discutir com a cidade, uma campanha de saneamento da cidade que tinha como objetivo erradicar a febre amarela, a peste bubônica e varíola.

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    A charge da revista O Malho, de 29 de outubro de 1904, parecia prever a revolta que se instalaria na cidade poucos dias depois: nem com um exército, o %u201CNapoleão da Seringa e Lanceta%u201D, como muitos se referiam a Oswaldo Cruz na época, conseguia conter a fúria da população contra a vacinação compulsória.(foto: Leonidas/Acervo Fiocruz)

    Foram intensos os debates em torno da proposta do governo, e a população em sua maioria era contra. Mas a lei foi aprovada assim mesmo em outubro de 1904. Por ela quem não tivesse o comprovante da vacinação não poderia obter empregos públicos, matricular-se as escolas do governo, viajar, casar, se hospedar em hotéis. Mas em meio a grande tumulto popular no dia 16 de novembro – a revolta havia começado no dia 10 daquele mês – foi decretado estado de sítio e suspensa a vacinação obrigatória. O saldo foi: 945 pessoas presas, 110 feridos, 30 mortos e 461 deportados para o estado do Acre. De fato, a população não entendeu, não foi informada e reagiu. Mostra de que o déficit de democracia já tinha impactos populares naquela época.

    Fomos vencendo isso aos poucos. Nas décadas seguintes obtivemos muito sucesso em campanhas sucessivas de vacinação, quando os brasileiros foram convencidos de que a doenças existiam e de que era possível vencê-las com o engajamento de parcelas importantes da população. Houve uma socialização das informações. Ninguém mais fez revoltas contra a vacinação.

    Mas, nesse momento o governo nacional parece esquecer da nossa história, das nossas lutas e dos nossos sucessos, entregando-se a um negacionismo que nos remete aos tempos da Revolta da Vacina, a uma ausência de discussão típicas dos governos autoritários do passado. Estamos regredindo. Parece que não temos uma política pública clara com relação a pandemia que hora nos assola. Vamos pagar todos o preço dessa recaída autoritária.

     

     

  • SÓ O POVO SALVA O POVO

    A maior tragédia climática que presenciei no Espírito Santo, foram as enchentes que ocorreram em 1979, nessa mesma época do ano. Baixo Guandu, Linhares e Colatina, no Vale do Rio Doce, foram as cidades mais atingidas. Mas as enchentes também chegaram a bacia do Rio Itapemirim, atingiu cidades como Cachoeiro e Castelo.

    Carie Lindenberg dedicou um de seus livros, Pingos e Respingos de 2005, à descrição da tragédia. Mas, ele trouxe à luz também a enorme rede de solidariedade que se construiu em torno do episódio. É dessa época a frase memorável do nosso então Arcebispo, Dom João Batista: só o povo salva o povo. Em 2013, quando fortes chuvas também se abateram sobre nós, mais uma vez lá estava a população capixaba disposta ajudar, sendo solidária com os atingidos.

    Nesse momento, vivenciamos mais uma vez o mesmo processo. Aí estão as fortes chuvas, o despreparo das cidades para lidar com elas, os alagamentos, os desabrigados, a dor. Mas também aí estão os voluntários, os abnegados de sempre com suas redes de ajuda. Nesses momentos trágicos surge sempre essa solidariedade forte, que também é marca desses eventos trágicos.

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    Nós brasileiros não temos muito desenvolvido o amor próprio. Não nos elogiamos como povo. Antes pelo contrário, gostamos de nos menosprezar e de nos sentir menos potentes do que somos. Isso me parece injusto. Acho que nossa solidariedade nasce do mundo dos pobres, daqueles que não tem ao seu lado um Estado potente e preparado para ajudar a vencer as dificuldades do dia a dia. Existem redes inteiras de ajudas coletivas. As igrejas trabalham muito esse elemento.

    Acredito que, sem o sentimento de solidariedade e de compartilhamento, a vida dos desfavorecidos pela fortuna no Brasil seria muito mais dura. Nossas redes de solidariedade nascem desse sentimento profundo, se alimentam nesse imaginário das dificuldades compartilhadas. Por isso a vida se faz possível um em universo de carências. Assim temos nosso sentido de coletividade alimentado. Assim somos brasileiros. Assim somos capixabas. Solidários.

     

     

    João Gualberto

    [1] O autor é Doutor em Sociologia Política, Professor Emérito as Universidade Federal do Espírito Santo e Diretor da Saber Capixaba.

  • COTAXÉ

    Autores capixabas tem produzido ótimos romances, e de grande densidade. Eles nos ajudam a melhor entender a alma capixaba. Mas, poucos tem a força de Cotaxé: romance do efêmero Estado de União de Jeovah. Nele, Adilson Vilaça mostra todo o horror implantado pelas forças da ordem na área do que era chamado de Contestado. O texto de Adilson é de uma força terrível e descreve com um estilo próprio e insuperável todos os acontecimentos. É obra de arte.

    Adilson capta com força, estilo e perfeição a trajetória de Udelino Alves de Matos, um modesto professor em uma grande propriedade da região que, depois de um grande fracasso amoroso, soltou-se no mundo para criar o Estado União de Jeovah. Muito religioso, leitor fervoroso da Bíblia, exercia forte liderança nesse plano entre os humildes moradores da região.

    No ano de 1952 inicia Udelino sua cruzada. A região, devido a insegurança de não saber a qual estado de fato pertencia, era alvo de muitos aventureiros, de muitas pessoas perseguidas, mas, também era muito atrativo para os miseráveis lavradores da região. Diante da mataria sem uso agrícola, eles instalavam-se. Esse misto de posseiros e aventureiros era a base e a força de Udelino. Escolhe Cotaxé – hoje distrito de Ecoporanga – na época epicentro econômico da região, como a sede de seu governo. Nomeia o primeiro escalão em julho daquele ano. Escolhe bandeira e hino. Começa a organizar a partilha das terras.

    Prometia Udelino sua regularização e distribuição, mesmo para os proprietários que tinham títulos. Ele daria aos solteiros quatro alqueires e aos casados dez alqueires. Mas, aos fazendeiros já instalados o novo governo permitiria setenta alqueires. Sendo que quem tivesse naquele momento mais, poderia registrar nome da família, dos filhos, dos genros. Na condição de delegado de terras do chefe da nação, ele tudo registraria num livro. Quem não aderisse a partilha, teria os bens confiscados. Para quem aderisse bastava assinar o livro e pagar os impostos ao Estado de União de Jeovah. Havia muita terra a distribuir e regularizar. Mais de 10.000 quilômetros quadrados.

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    No mês de julho de 1952, o governador Udelino partiu para o Rio de Janeiro, então a capital da república. Faria um encontro com o presidente Getúlio Vargas, levando uma petição assinada por 866 posseiros, que dava legitimidade ao pleito por terras. O encontro de fato não ocorreu, mas ele foi recebido pelo Ministro da Agricultura e voltou dizendo-se portador de um documento que o nomeou delegado de terras do chefe da nação.

    Mas, pouco durou a paz no Estado de União de Jeovah. No início do ano seguinte, 1953, as forças capixabas deslocaram-se para o Contestado, dispostos e exterminar com aquela experiência. Conseguiram, mas, depois de meses de lutas cruentas. Já no ano de 1954, tudo estava destruído. Nesse intervalo de tempo, as escaramuças foram cruéis. Maldades de ambos os lados.

     

    Os soldados matavam, espancavam, estupravam, humilhavam. O lugar tenente de Udelino, que comandava a tropa que chegou a ter 600 homens armados, João Come-Vivo, no romance, matou de forma impiedosa e violenta todos os que considerava traidores. Arrancava-lhes a língua quando estavam ainda vivos, quebrou joelhos com marreta, furou olhos com seu punhal.

    Saindo do plano literário para a análise sociológica, o que vemos é que naquele espaço sem lei, a violência tudo regulava. Era o mandonismo total. A leitura de Cotaxé, além das delicias de um grande livro, nos ensina muito do Espírito Santo, sobretudo das raízes da violência urbana que nos atormenta até hoje. Somos, desde sempre, marcados por ela. E, certamente, não apenas em Ecoporanga.

     

     

    João Gualberto

    [1] O autor é Doutor em Sociologia Política pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, Paris, e Professor Emérito da UFES. Ex-secretário de estado da cultura e Diretor da Saber Capixaba.

     

  • Raízes do autoritarismo brasileiro

     

    Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo

    Os grandes personagens que têm animado nossa vida política estão profundamente mergulhados em um imaginário social excludente, masculino e alicerçado na legitimação da desigualdade. O mais paradigmático desses personagens talvez seja o coronel.

    Não seria exagero dizer que, mesmo nos dias atuais, o sistema político brasileiro foi capaz de aprofundar algumas das estruturas mais perversas do coronelismo, a partir do personalismo e de padrões autoritários de comportamento gerados nesse longo processo histórico.

    Afinal, a cultura brasileira ainda é rica nas características gestadas em todo o nosso processo social e histórico, tendo o coronel como figura chave do mandonismo brasileiro e um ator central na estrutura do poder. Tão grande foi o seu papel na construção de nosso imaginário social que ele se transformou numa espécie de “mestre da significação”.

    Como a instituição imaginária que gerou nosso processo político muito antes do advento da República, o coronel foi instituinte do processo político brasileiro —ou seja, seus padrões de comportamento no poder moldaram nossas instituições, abortando em muitos aspectos nosso processo democrático.

    Fomos, antes, marcados pelo nepotismo, compadrio, personalismo e outras características ligadas a um mundo social que se instituiu pela força do poder e não pelas construções coletivas. Instituições como a escravidão e o latifúndio têm forte papel nesse contexto.

    O coronel é o personagem fundamental da chamada Primeira República, mas cujos restos sobrevivem até hoje. Inclusive no mundo empresarial, onde ainda existem traços desse coronelismo de viés autoritário.

    Esse é um motivo para que, em grande parte a gênese de nossa gerência dê as costas para padrões modernos de gestão de pessoas. Assim, o coronel é uma figura central, o mestre da significação no mundo que fomos capazes de construir e que nos habita até hoje.

    Não é por acaso que ele está no epicentro de nosso dilema. De um lado, as instituições que o coronelismo gerou não são mais capazes de dar conta de uma sociedade moderna como a que temos. De outro, ainda estamos presos aos personalismos e as saídas autoritárias.

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    No grande altar que construímos na política da ambiguidade que o coronel porta, colocamos o capitão Jair Bolsonaro no poder.  Moderno quando usa os meios de comunicação de massa digitais, mas arcaico quando o faz de forma personalista e autoritária —e ainda mais focado na sua própria família, símbolo maior da sociedade tradicional que queremos e precisamos vencer.

    Decorre daí considerável parte da inadequação de seu funcionamento nos dias atuais. Sua inexorável crise.

    Nosso sistema centralizado de poder foi construído garantindo o controle das elites nas instituições, inclusive as partidárias.

    Tudo passa pela compreensão mais generosa e atenta de importantes características da sociedade brasileira. Entre elas, a invenção do coronel e a manutenção das instituições criadas a partir dele.

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    João Gualberto Vasconcellos

    Doutor em sociologia política pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris) e autor do livro ‘A Invenção do Coronel: ensaio sobre as raízes do imaginário político brasileiro’ (ed. Edufes)

     

  • AUTORITARISMOS

    Uma nova onda varre o mundo ocidental em termos políticos. Ela se organiza a partir de discursos autoritários em muitos países muito importantes como Estados Unidos, Rússia, Itália, Hungria, Polônia, Venezuela. Esse último é tido como de esquerda pelo apoio que tem do PT, mas tem a mesma raiz autoritária dos demais.

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    Muitas obras têm sido publicadas para tentar entender o novo fenômeno, qual seja, o ressurgimento em massa de uma direita mais virulenta e menos liberal. “Como as Democracias Morrem” de Steven Levitsky e Daniel Ziblat professores de ciência política em Harvard e “O Povo contra a Democracia” de Yascha Mounk da Universidade Johns Hopkins são dois ótimos exemplos. Existem outros, cito apenas os que tem tido maior repercussão na mídia.

     

    Esses trabalhos apontam para as bases comuns do novo autoritarismo, que são: o ódio à globalização, chamada de marxista cultural; a nostalgia de um passado melhor e com ordem; o incentivo à polarização que divide a população entre eles e nós; a criação de um movimento anti-intelectual que é tanto contra o chamado jornalismo de base quanto às universidades públicas; o retorno a conceitos de hierarquia e ordem típicos de sociedades mais tradicionais;

    Há ainda outros elementos: o uso da polícia para punir desafetos políticos; um ataque a homossexuais, mulheres, travestis e outros grupos sociais que seriam responsáveis pela degeneração moral da nação; a propaganda política estruturada em fake News e a tentativa de um retorno nostálgico aos valores da terra, da família e das tradições.

    E uma mudança natural entre os pesos próprios que cada país e cultura dão a cada um desses elementos. Mas, o que torna a experiência um fenômeno sociológico mais global são as bases comuns dos discursos que tanto alimentam a redução do papel do liberalismo clássico, quanto seduzem parcelas importantes da população para um engessamento da democracia, em uma aceitação de práticas autoritárias.

    Talvez a nação que tenha conseguido implantar com mais perfeição o modelo seja a Hungria de Viktor Orbán. Ele, igual ao que foi feito na Turquia, na Venezuela ou Polônia, foi encantonando as instituições que dão os chamados contrapesos das democracias. O parlamento ou os órgãos superiores da justiça, o STF brasileiro, apoiando-se em consultas diretas à população. A utilização massiva das redes sociais permite isso facilmente: Twitter, Facebook, Whatsapp. Transformou-se Órban, de forma quase perfeita, no modelo do novo tirano: autoritário, mas de um autoritarismo com forte apelo popular. As massas acreditam mesmo que continuam vivendo numa democracia porque existem as consultas populares e a comunicação direta, sobretudo pelo twitter. Viktor Órban lançou então o modelo do que ele chama de Democracia Iliberal. Parece ser esse o destino de outras nações hoje.

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    Mas, já existem esforços para trazer essas reflexões para o que está acontecendo no Brasil. E não falo apenas do papel do presidente Bolsonaro, visivelmente apenas um sócio desse modelo. Um exemplo: a historiadora brasileira Lilia Moritz Schwarcz acaba de lançar um bom trabalho, chamado “Sobre o Autoritarismo Brasileiro”. Sua intenção é a de dialogar com esses trabalhos internacionais. Para tanto, ela estuda os elementos históricos que transformam, desde sempre, o Brasil numa sociedade autoritária e que conviveu bem tanto com Vargas quanto com os militares de 1964. A autora trabalha então três conceitos que me parecem fundamentais para estudar o caso brasileiro: A escravidão e o racismo que ela alavancou, o mandonismo e o patrimonialismo. Assim, o brasileiro pilotando essas heranças do nosso processo histórico – daquilo que chamo da construção do nosso imaginário social – tem dado passagem a essa onda mundial e a ela aderiu claramente na eleição de 2018.

    A questão que nos cabe responder agora é se o exercício do poder, pelos que recentemente chegaram a ele, vai realmente construir entre nós uma Democracia Iliberal, ou se as nossas instituições e, sobretudo, nossa cultura democrática resistirá aos novos modelos de fazer política.

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    Jair Bolsonaro: autoritarismo com os elementos característicos da sociedade brasileira.

  • MEMÓRIA  E  ESQUECIMENTO

    A memória de qualquer sociedade não é construída de forma linear. Ela é constituída de vazios deliberados e de potencialização, também deliberada, de determinados fatos e personagens. Como muito bem disse Lilia Schwarcz, a história é uma disciplina com grande capacidade de lembrar. Poucos se lembram, porém, do quanto ela é capaz de “esquecer”.

    Vamos tomar um exemplo concreto na história do Espírito Santo. Um dentre vários outros que podem ser levados em conta. Na região Sul, brotaram os clubes republicanos que animaram de forma extraordinária a sua vida política no final do século XIX. Foram atores privilegiados do nosso processo de modernização política.

    Muitos já ouviram falar de, por exemplo, Jerônimo Monteiro e seus feitos extraordinários, ou de Florentino Avidos e sua gestão moderna e modernizante. Foram Presidentes do Estado na Primeira República. Eram cunhados, e ambos surgiram da força política da família Monteiro e da Fazenda Monte Líbano. Esses republicanos eram quase em sua totalidade positivistas. Trouxeram dessa doutrina um olhar mais racional sobre a vida social. Eram também abolicionistas.  Promoveram além disso, uma verdadeira revolução na lógica urbana da cidade de Vitória. A razão dessa visibilidade é a produção farta de escritos e fotos sobre seus feitos.

    É bem verdade que construíram uma nova visão da cidade de Vitória, rompendo com a tradição colonial e monárquica. Vitória ficou alinhada com os modismos parisienses, bem como com as modernidades das principais cidades brasileiras, entre as quais se destaca a Reforma Pereira Passos no Rio de Janeiro e a construção de Belo Horizonte. Mas, também era uma cidade para os ricos. Tanto que, nas normas urbanas por eles criadas, havia a proibição do acesso ao Parque Moscoso aos membros das chamadas “classes perigosas”, ou seja, os pobres.

    São apenas alguns exemplos. Eles existem às centenas. Vamos pensar então naquilo que podemos chamar de raiz do esquecimento, sua origem.  Nos ensina o brilhante historiador Jorge Caldeira, em “A Nação Mercantilista”, que o Conselho Ultramarino, ao proibir “A Obra e a Opulência do Brasil”, de Antonil, em 1711, construiu o argumento que se deveria recolher o livro e não permitir que fosse vendido. O Conselho passou a exigir que fosse ouvido acerca da impressão de obras que tratassem do assunto das Conquistas portuguesas no Novo Mundo.

    caldeira

    O motivo da proibição era a velha política de sigilo dos portugueses. Era difícil para a pequena nação europeia conviver com livros que falassem das minas, que mostrassem ao mundo as riquezas do Império. Podiam despertar a cobiça em outros povos. Quando se tratava de cultivar a ignorância no Brasil, e sobre o Brasil, o governo português não titubeava. Nunca foi devidamente socializado, por exemplo, que os moradores de São Paulo utilizavam o braço índio conquistado à força em suas entradas pelo sertão, provavelmente para não provocar discussões naqueles que eram contra, como os próprios jesuítas.

    Na verdade, era proibida a imprensa no Brasil. Nenhum livro, nenhum jornal, nada. Tirando os esforços jesuíticos e de outras ordens religiosas, a educação não estava na pauta dos colonizadores. Aliás, o estado português só recolhia os tributos e nada mais.

    Assim, a produção de informações que possibilitem hoje a reconstrução de trechos da nossa história ficou muito prejudicada. Dos republicanos podemos falar muito bem, mas da aventura colonial e do período da monarquia que lhes precedeu, muito pouco. Pouco sabemos do heroísmo da resistência indígena, das grandes lideranças dos negros escravizados, enfim, de todos os capixabas, e não apenas de uma fração. O esquecimento faz parte do fazer histórico, tanto quanto as lembranças.

    Esquecer é, assim, uma forma de retirar importância, de não dotar de significado certas ações. A cultura cívica que se pretende retornar à escola agora, espera-se que se faça, fortalecendo aqueles que com seus corpos, suas mentes e com seu trabalho também construíram o Brasil e o Espirito Santo.