• Parlamentarismo à brasileira

    Clique no link abaixo caso queira ouvir esse artigo no formato podcast:
    https://on.soundcloud.com/Y9Sef3XKpSPU5LHzUl

    As culturas nacionais constroem grandes redes simbólicas e muitas significações, que  chamo de imaginárias.

    A sociedade brasileira tem uma questão mal resolvida quando cria novas instituições: nossas elites copiam com frequência os modelos de outros países, onde funcionam bem. Foram exemplos disso a França e os Estados Unidos, nos quais nos inspiramos para construir nossos modelos republicanos no final do século XIX, mas esses não são os únicos exemplos.

    A grande questão que ficou para o futuro é que não temos nem franceses e nem estadunidenses para honrar tais modelos políticos; o que temos somos nós, brasileiros, imersos em outra cultura. Não que sejamos moralmente inferiores ou incapazes de absorver modelos mais elaborados, mas as instituições que vingam em uma sociedade têm que fazer sentido para ela, precisam estar ligadas à sua teia de significações imaginárias sociais.

    As culturas nacionais constroem grandes redes simbólicas e muitas significações, que  chamo de imaginárias. Essas redes simbólicas e imaginárias é que dão potência, ou não, ao desejo conceitual do legislador republicano de primeira hora. Exemplo claro disso é o federalismo, construído no início de nossa república. Não que fosse um ideal somente republicano; Feijó já pensava em um federalismo monárquico, que nunca se efetivou.

    O federalismo foi uma das grandes molas da democracia que vingou nos EUA, desde o início de o início de sua trajetória como nação independente. Já aqui virou, sobretudo, uma estratégia de legitimação do poder das oligarquias regionais, que estavam ávidas pelo poder no fim do império. Seria um despropósito dizer que ele se resume a isso, mas também não seria correto dizer que a afirmação política dos coronéis – autoritária, elitista e apoiada na tese da incapacidade política das massas – não passou pela distorção do sentido original da ideia.

    Outro exemplo de uma instituição transposta das democracias mais inclusivas do que a nossa nascente experiência como nação foram os partidos políticos. Os estadunidenses criaram, ainda no século XIX, os movimentos que levaram tanto o Partido Republicano quanto o Partido Democrata a ter fortes raízes populares, como também aconteceu em outras nações. As grandes convenções com participação em massa de eleitores são antigas e marcam a força daquela democracia, afinal trata-se do único país ocidental em que nunca houve uma ditadura. Mesmo as loucuras de Trump passaram pelo processo eleitoral e têm aprovação em seu país, e precisam dessa aprovação para continuar. Nesse caso, trata-se mais de um problema de sociedade do que de um desejo de tirania isolado. Mais isso é uma outra discussão.

    Nosso legislativo sofre da mesma enfermidade, pois expressa o desejo das elites, refletindo mais um olhar intelectualizado sobre a política do que propriamente um desejo do eleitorado. Victor Nunes Leal, no seu clássico Coronelismo, Enxada e Voto, nos ensina que o eleitor da roça, em dias de votação, faz festa, tem transporte gratuito, recebe alimentação e presentes variados, como pares de botas ou, mais recentemente, panelas de pressão. As pessoas mais pobres, historicamente, não têm uma relação orgânica com o voto. Muito disso ainda acontece até hoje, como sabemos todos.

    Essa baixa relação com o voto faz com quem muitas demandas do parlamento não expressem demandas coletivas. Uma vez eleitos, deputados federais e senadores não se sentem obrigados a prestar contas de suas ações a seus eleitores. A ideia de representação desaparece ao longo do mandato, restando a origem territorial do parlamentar. Não se costuma respeitar o que pensa o eleitor sobre aquela ação específica.

    Essa ideia do descasamento entre as demandas populares e a ação parlamentar veio à mente agora, em função da clara crise que vivemos entre o executivo e o congresso nacional. Não quero colocar a culpa no congresso, pois seria preciso ser mais longo e mais crítico para um julgamento mais correto. Quero apenas chamar a atenção para o descolamento do contexto das necessidades nacionais e do desejo dos eleitores  em tudo isso.

    Sentindo a fragilidade do Governo Lula e sua incapacidade de estabelecer conexões com o novo mundo que está sendo criado em nosso tempo, o congresso viu-se em condições de ditar, por si mesmo, os desejos nacionais. Só que faz isso a partir de uma enorme fragmentação política, baseada dos anseios de cada parlamentar, sem uma visão clara do conjunto da sociedade brasileira.

    O chamado presidencialismo de coalizão está ferido de morte. O que vemos hoje são presidentes fracos. Não podemos esquecer que Bolsonaro também estava refém do congresso, um congresso forte e sem pauta, a não ser a defesa de interesses – nem sempre republicanos – dos nossos legisladores.  A crise política precisa ser resolvida.

  • Teoria da solidão

    Quando o Estado regula até os vínculos afetivos, a solidão deixa de ser apenas um sentimento e se transforma em política.

    Escrevi há algumas semanas neste mesmo espaço um texto sobre a solidão em nossos tempos. Na verdade, minha intenção foi mostrar que existe atualmente uma apropriação da solidão pelas redes sociais. Citei, inclusive, que há uma “economia da solidão”, a qual opera oferecendo produtos e serviços que vão desde encontros e pornografia até a terapia realizada pela Inteligência Artificial. Não quero igualar essas coisas, apenas lembrar que elas existem.

    Recebi alguns comentários muito interessantes, como é de hábito, mas um deles foi feito por Nathalia Alves, pessoa de sólida formação intelectual e amiga querida que, de certa forma, ajudei a criar, e por quem nutro admiração e respeito. Ela indicou um documentário sueco de 2015 dirigido por Erick Gandini, que oferece um olhar crítico sobre as ideias e práticas do que poderíamos chamar de “individualismo estatal”. Isso porque, segundo os críticos, a maioria dos benefícios oferecidos pelo governo no que tem sido chamado de Estado Sueco do Bem-Estar Social está ligado a cada indivíduo e não em famílias, como ocorre em outros países do mundo. Em sueco, essa ideologia é chamada de “individualismo estatista”.

    O documentário mostra como a sociedade sueca criou um manifesto público sobre a independência de todos frente a todos, inclusive entre pais e filhos e vice-versa. Nesse contexto, o estado assume essa função reguladora. Como consequência existem, entre outras, políticas públicas de incentivo à concepção das mulheres por meio da inseminação artificial, o que faz com que a função paterna se altere inteiramente. Sem saber a origem familiar do doador masculino, as crianças são criadas somente pela mãe. Os vínculos familiares são muito mais restritos. É uma forma de fortalecer essa política pública.

    Além disso, o estado pode disciplinar os que queiram – na visão sueca – exceder seus direitos. A ideia central é criar indivíduos independentes e livres de uma autoridade que, no nosso mundo latino, atribuímos ao amor, embora seja uma ideia sobre a qual precisamos nos aprofundar. Aquela mãe cuidadora e centralizadora de amor e controle, que Woody Allen gosta de explorar de forma exagerada em seus filmes, tende a ficar totalmente ausente nesse tipo de sociedade, tanto para o bem quanto para o mal.

    É importante esclarecer que estou me atendo ao texto do documentário, sem conhecer outros olhares. Por meio dele, infere-se que o manifesto que instituiu esse comportamento por parte do estado, desde de 1972, acabou por radicalizar o individualismo sueco. Não que ele não exista em outras sociedades. Antes, pelo contrário, nos países europeus e nas sociedades mais ricas e cultivadas do mundo, a tendência ao individualismo é muito clara. O papel das famílias nas sociedades tradicionais entrou em colapso no mundo atual. As moradas com uma só pessoa tornaram-se muito numerosas.

    Enfim, o que parece importante notar no exemplo que estou trazendo é o radicalismo como política pública, enfraquecendo a vida social mais espontânea. Segundo Gandini, o resultado prático é que muitas e muitas pessoas idosas que vivem sozinhas, apartadas de vínculos sociais mais densos, terminam a vida muito solitárias. São frequentes as mortes dos mais velhos que não são nem mesmo percebidas. Nesses casos, um serviço importante que existe é o de recolher os restos mortais dessas pessoas. São frequentes os casos que duram até dois anos para serem executados. Ninguém percebe essas mortes, o que mostra que a solidão era a mais intensa possível.

    O que me parece mais importante, do ponto de vista das análises que venho fazendo da vida em nossos tempos, é como esse caminho radical está presente mesmo nos setores sociais mais privilegiados das grandes cidades, inclusive as brasileiras. As famílias muito ampliadas que havia nos séculos que antecedem ao nosso estão mesmo desaparecendo. Os velhos coronéis e sua parentela, que costumavam mandar em todo um território, vão mesmo ficando para trás.

    A tendência normal hoje é o individualismo. Ele de fato trouxe um nível de liberdade individual extraordinário, o que é muito bom, mas isolou cada um em si mesmo, dificultando a espontaneidade do amor. É claro que o amor é uma instituição imaginária social, que é vivida de forma diferente em cada sociedade específica.

    Para nós, brasileiros, é muito difícil entender essa Teoria Sueca do Amor, onde ele é fortemente ligado à ideia de dependência. Vamos admitir que, de alguma forma, ele realmente o é. Os homens, sobretudo, gostam de forçar esses vínculos em suas relações. Mas, convenhamos, a paixão é um momento em que os amorosos se fundem. Penso ser difícil que o amor sobreviva, do modo como o conhecemos, frente a um individualismo regulado pelo estado.

  • Bolsonaro em 2026

    Clique no link abaixo caso queira ouvir esse artigo no formato podcast:
    https://on.soundcloud.com/PGal9v8tndsDkuNdLs

    Apesar da popularidade, Bolsonaro enfraquece sua chance de retorno ao poder com decisões equivocadas e falta de leitura do cenário político.

    Eu sempre insisto na ideia de que o grande papel político de Bolsonaro foi cumprido em 2018, quando ele conseguiu reunir a direita brasileira, elegendo-se presidente da república e produzindo, com a eleição, inúmeros aliados. Seu governo, no entanto, não foi bem sucedido, cometendo erros primários. Em decorrência de sua má gestão acabou por se tornar o primeiro presidente brasileiro que não conseguiu se reeleger. Havia sinais claros de que a forma como a pandemia foi enfrentada criou grandes problemas para o governo, mas ele insistiu em tratar de forma debochada e inadequada as graves consequências da Covid – isso para dizer apenas o mais óbvio.

    Perdeu a eleição por pequena margem de votos. Mais uma vez não entendeu os sinais que vinham das ruas, e investiu em manobras escusas para minar os resultados eleitorais. São imensas as evidências de que ele incentivou esquemas para continuar no poder. Desde os discursos veementes – na verdade quase beirando a histeria – contra o judiciário, até os elogios claros à ditadura brasileira e mesmo aos abomináveis atos de exceção dos militares em seus períodos de governo, como o AI5, levantando na parcela da população que o apoia o desejo por um governo de inspiração militar.

    O momento mais tenso dessas manobras foi o incentivo que deu aos acampamentos que tentavam impedir a posse de Lula e acabaram por preparar os atos violentos do 8 de janeiro de 2023. Ao acompanhar pela mídia os depoimentos dos militares e civis envolvidos naquela teia de comportamentos claramente golpistas, percebe-se que faz todo o sentido imaginar que o ex-presidente Bolsonaro estava imerso naquele universo.

    Uma coisa foi elogiar o único torturador oficialmente reconhecido das forças da ordem no Brasil, durante a sessão do impeachment de Dilma Roussef, chamando a atenção para esse personagem abominável, ainda bastante desconhecido do eleitorado brasileiro. Outra muito diferente foi manter esse mesmo discurso, que afastou seus apoiadores menos radicais. Governo tem que ter entrega, nenhum governo se mantém somente pela ideologia. Os sinais do cansaço estavam evidentes.

    Como lembrou o grande analista das mídias sociais Sérgio Denicoli, em um de seus textos em O Estado de São Paulo, a guerra cultural está em baixa, as pessoas agora estão focadas nas contas. “Se Bolsonaro tivesse reconhecido a vitória de Lula, seria provavelmente presidente de novo. Não soube ler os sinais”. De fato, por não ler os sinais de forma adequada perdeu a eleição. Posteriormente, por não compreender os seus erros, mais uma vez jogou fora a oportunidade de se eleger em 2026.

    O fato de não sair vencedor nas eleições em 2022, apesar da popularidade, do estilo carismático e de ter na mão a máquina do governo jogou também pela janela as chances de voltar ao poder em 2026, ao não aceitar a vitória do opositor. Digo isso porque são evidentes os enormes equívocos políticos do governo do PT, mas, mesmo assim, os permanentes erros de Bolsonaro podem derrotar a direita mais uma vez.

    Resta claro, pelas pesquisas de opinião, que o presidente Lula faz um governo afastado das demandas atuais da sociedade. É um dirigente analógico e distante das novas formas de comunicação que a sociedade exige. Insiste nos discursos para claques de centenas de pessoas arrebanhadas por prefeitos, pelos métodos tradicionais, enquanto seus adversários nadam de braçada nas redes sociais, com milhões de seguidores.

    Resta claro, pelas pesquisas de opinião, que o presidente Lula faz um governo afastado das demandas atuais da sociedade. É um dirigente analógico e distante das novas formas de comunicação que a sociedade exige. Insiste nos discursos para claques de centenas de pessoas arrebanhadas por prefeitos, pelos métodos tradicionais, enquanto seus adversários nadam de braçada nas redes sociais, com milhões de seguidores.

    Fenômenos de comunicação como Nikolas Ferreira não são compreendidos pela nossa velha esquerda. Na guerra pela comunicação, a direita usa canhões e a esquerda ainda usa suas velhas espingardas. O resultado é um governo nacional capenga em termos de popularidade, como temos hoje. Somente mais um erro de Bolsonaro produziria uma vitória de Lula: seria tentar impor como candidato a presidente alguém de sua família, como a sua mulher, Michele, ou um de seus quatro filhos que estão na política partidária. O preferido entre os irmãos parece ser o deputado federal Eduardo Bolsonaro – outro equivocado -, atualmente residindo nos Estados Unidos.

    O fracionamento da direita pode colocar Lula no segundo turno contra um candidato fraco eleitoralmente, facilitando sua vitória. Ou seja, Bolsonaro levou a direita à derrota em 2022 por falta de compreensão de seu papel, depois enterrou sua chance de voltar ao poder por incentivar um golpe de estado totalmente fora de lugar. Agora, caso não apoie um candidato forte, poderá levar seu campo político a uma nova derrota.

    Bolsonaro ainda é muito forte politicamente, mas não o suficiente para eleger um membro de sua família. Se não estiver atento aos sinais que o eleitorado manda a toda hora, vai sair da política pela porta dos fundos.

  • Os evangélicos e o censo de 2022

    Clique no link abaixo caso queira ouvir esse artigo no formato podcast:
    https://on.soundcloud.com/9F0Fe3PdABNEVQbvke

    O Censo de 2022 revela o impacto dos evangélicos na formação do eleitorado conservador e nas disputas de valores no país.

    Recentemente foram publicados os números do Censo de 2022. Faço aqui uma breve análise quanto aos dados apurados com relação aos evangélicos no Brasil. Já tratei do tema em artigos anteriores, com ênfase especial para o caso capixaba. No fundo, ninguém entende mais o Brasil sem levar em conta o mundo evangélico. Só mesmo a miopia dos setores médios e intelectualizados para menosprezar o papel desse segmento em nossa sociedade. Achar que são apenas pastores desonestos e uma população idiotizada é puro fruto de preconceito.

    Alguns elementos devem ser levados em conta. O primeiro é o fabuloso crescimento do segmento desde os primeiros anos do século XXI. Não que o crescimento anterior fosse menos importante, mas a velocidade foi extraordinária nos anos 2000. Afirmava-se mesmo que, na década seguinte, os evangélicos já seriam maioria dentre os brasileiros.

    Outro elemento importante é, do ponto de vista eleitoral, a forma como constroem seus votos. Poucos são os eleitores coletivos no Brasil. Um católico, por exemplo, tem razões de voto mais pulverizadas. Costuma entrar na cabine eleitoral e decidir em quem votar com base em razões que podem ser territoriais, ideológicas ou mesmo por relações de amizade. Os evangélicos, ao contrário, votam por princípios e comportamentos partilhados por todo o grupo. Construíram uma lógica eleitoral que poucos possuem no Brasil e ocuparam de uma vez o espaço do voto conservador, que já foi católico.

    Os embates sobre o aborto, os temas ligados ao divórcio e a questões de gênero passaram da esfera do catolicismo para o mundo evangélico. Em torno desses temas, lideranças importantes como Silas Malafaia, RR Soares, Edir Macedo ou Valdemiro Santiago passaram a exercer um papel fundamental de mobilização do conjunto dos fiéis. Os grandes embates da mídia, nos temas de comportamento, passaram a ter o peso e a influência dessas lideranças.

    Uma grande sacada de Jair Bolsonaro, candidato à presidência em 2018, foi organizar e articular esse grande contingente de eleitores a partir de seus comportamentos mais conservadores, em termos morais. Esse foi o maior diferencial de Bolsonaro naquela eleição, além de constituir um legado seu ao processo político brasileiro: o protagonismo dos evangélicos. Basta ver que a Marcha para Jesus já existia desde os anos 1990, mas ele foi o único presidente da república que a prestigiou, comparecendo a todas. Casado com uma evangélica, batizou-se em águas. Ou seja, politizou seu comportamento, valorizou o povo de Deus e assim abarcou um enorme contingente para a arena eleitoral jogando a seu favor.

    Com base nessas observações, a Persona – empresa que dirijo junto a Hélio Gualberto e Maria Vitória – fez investigações profundas de ordem quantitativa e qualitativa, entrevistando centenas de evangélicos na Grande Vitória, além de dezenas de formadores de opinião do setor em todo o Espírito Santo. Os resultados só fortaleceram a ideia de que os evangélicos são mesmo um grupo que vota baseado em princípios fundamentalmente ligados à questão das famílias, o epicentro de sua opção diante da vida. Eles as sentem ameaçadas pela brutalidade da recente urbanização brasileira, pelos perigos da rua onde moram: prostituição, tráfico de drogas, violência. Não nos esqueçamos de que são majoritariamente pobres, pretos, mulheres e periféricos. O mundo brasileiro não é fácil para essa população. A família costuma ser o único ponto de refúgio nesse estado de coisas em que só os ricos e as classes médias têm direito a privilégios. Isso ajuda muito a definir seus votos.

    Entretanto, mesmo com tudo isso, seu crescimento desacelerou nos últimos anos, segundo o censo divulgado. A questão que se coloca, portanto, é: por que isso está acontecendo? Arrisco dizer que os mesmos fatores que produziram o crescimento acelerado podem estar contribuindo para reduzir a velocidade do processo. A politização parece que passou do ponto, as manifestações a favor de Jair Bolsonaro, organizadas pelos grandes líderes religiosos, não dizem mais respeito aos princípios do cristianismo conservador. São temas da velha politicagem brasileira, mais afeitas à sobrevivência do ex-presidente do que aos reais motivos que movem a massa.

    As bases da igreja católica também se locomoveram em direção ao movimento conservador. Não falo aqui das cúpulas do vaticano nem dos vários países de base católica: falo mais das pequenas comunidades, das paróquias, das práticas cotidianas dos religiosos. As diferenças entre evangélicos e católicos parecem estar diminuindo. O dia a dia dos católicos aproximou-os das bandeiras mais conservadoras no plano moral.

    Enfim, eis aí um pouco do que talvez possa explicar a desaceleração que o Censo de 2022 mostra: 26,9% da população brasileira é evangélica, um percentual expressivo, mas longe do majoritário.

  • A capitania austral

    Clique no link abaixo caso queira ouvir esse artigo no formato podcast: https://on.soundcloud.com/xzuEUvbS2TEI5pVazK

    Pesquisas recentes revelam que a capitania austral, hoje Espírito Santo, já ocupava papel estratégico nos planos da monarquia portuguesa no fim do período colonial.

    A primeira vez que ouvi a expressão Capitania Austral foi assistindo a uma palestra da professora Adriana Campos, no Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, não faz muito tempo. Ela explicou do interesse das autoridades portuguesas em transformar a nossa capitania no centro nervoso do processo econômico brasileiro, no fim do período colonial. Isso mostra que a Capitania já era observada como elemento do projeto de futuro do império lusitano. Essa afirmativa causou surpresa, porque aprendemos que fomos o espaço do atraso e do marasmo, usados apenas para atenuar o risco de contrabandos e invasões em direção às Minas Gerais.

    Existe de fato uma convicção de que, durante todo o período colonial e imperial, fomos um território de pouca expressão e que disso resultou um enorme atraso em relação ao resto do Brasil. Evidentemente trata-se de constatações que não colaboram para a existência de uma autoestima acentuada por parte dos capixabas, já que aprendemos a olhar para o passado de forma desconfiada, mediante nossa suposta  pouca relevância histórica.

    Ocorre que as evidências das pesquisas históricas mais recentes apontam em outra direção. Prova disso é que, em capítulo de um livro ainda inédito a que tive acesso, há uma excelente reflexão da mesma pesquisadora e professora da Ufes, Adriana Campos – sempre na vanguarda – com o título Circuitos de poder e ocupação territorial: concessões e confirmações de cartas de sesmarias no Espírito Santo (1814-1831), em que ela toca no assunto de maneira muito profunda.

    O texto analisa o processo de concessão e confirmação de sesmarias (cartas de doação de terras) na capitania do Espírito Santo o início do século XIX, entre o fim do período colonial e o início da nossa independência, com foco nos registros de demarcação e posse relacionados à titulação fundiária no Brasil. Com base em manuscritos do Arquivo Nacional e do Arquivo Público do Espírito Santo, o estudo combina análise diplomática de documentos, usando metodologia histórica bastante atual e sofisticada.

    Dentre as inúmeras revelações históricas da maior importância para nós, capixabas, está uma que me chamou a atenção, quando a autora afirma que: a política de ocupação do Espírito Santo não começou abruptamente no período joanino, mas foi um processo gradual. Antes marginalizada pelas restrições administrativas para evitar o contrabando de ouro, a capitania tornou-se estratégica nos planos territoriais da monarquiaA partir de meados do século XVIII, a preocupação com a evasão fiscal deu lugar a uma visão integradora, aproveitando o papel logístico da capitania nas rotas de circulação entre o interior minerador e a costa atlântica.

    Explica a autora que desde 1768 documentos em Portugal sugeriam uma reconfiguração da capitania do Espírito Santo. Propunha-se, por exemplo, mudar seu nome para “Província Austral do Rio Doce”, considerando-se que o nome atual “cheirava a direito feudal”. O que então se visava era conectar o litoral às Minas Gerais, facilitando a navegação pelo Rio Doce e beneficiando tanto essa região quanto Vila Rica.

    Essas ideias antecipavam o esforço da Coroa em usar a distribuição de sesmarias para criar corredores econômicos e valorizar a região centro-sul do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

    A partir de 1814 iniciaram-se na Capitania do Espírito Santo dois movimentos simultâneos de concessão de sesmarias para promover povoamento e conquista territorial, como muito bem sinaliza o estudo a que me refiro. O primeiro focou na fixação de colonos açorianos em Viana, fortalecendo a ocupação agrícola e criando núcleos populacionais, fato que é mais conhecido dos capixabas em geral.

    O segundo ocorreu ao longo do rio Doce, visando criar uma via de escoamento para produtos de Minas Gerais, conectando o interior à costa atlântica. Ambos os movimentos, apesar de possuírem finalidades distintas — adensamento populacional e dinamização comercial — aconteceram simultaneamente, refletindo a intensificação das políticas régias no início do século XIX.  Ressalte-se que essas políticas colocavam o nosso território no cento da vida do país que estava surgindo.

    As informações e achados históricos nos quais se apoiam as afirmativas dessa pesquisadora de alto nível nos mostram que ainda temos muito o que aprender e desaprender sobre o nosso estado, cuja força e potência são percebidas há muito tempo.

  • Sociedade da solidão

    Na era da conexão digital, a solidão persiste como sombra silenciosa em lares de todas as idades.

    Vivemos em tempos de solidão. Muitos são os lares que têm apenas um morador, em qualquer classe social, sobretudo nos países mais ricos. Quando os que vivem sozinhos são jovens e saudáveis, trata-se apenas de uma opção, uma escolha. Entretanto, quando a solidão pesa, incomoda e atormenta, sobretudo entre os idosos, buscam-se formas de conviver com essa situação.

    No mundo atual as redes sociais passaram a ser essa companhia invisível, entretanto muito presente. Em um país como o nosso, as pessoas estão em permanente interação com esse mundo que o celular coloca na palma das nossas mãos e à altura dos nossos olhos.

    Vamos falar um pouco da nossa trajetória social na solidão. No mundo antigo, cada moradia abrigava uma família extensa, composta de várias gerações: avós, filhos, netos e um conjunto de agregados, como sobrinhos, afilhados e filhos de amigos. Não havia mesmo esse conceito tão caro e natural aos nossos dias: o da vida privada. O ambiente familiar envolvia a todos, que acabavam compartilhando dos momentos de intimidade, pois que tudo era vivido de forma mais coletiva. O conceito de família era amplo e a possibilidade de comportamentos desviantes era sempre punida.

    Não sei se a minha leitora e o meu leitor sabem, mas as camas nas casas do mundo antigo eram coletivas. Nelas dormia toda a família e, nas noites frias de inverno, incluíam-se até os animais domésticos, como patos, galinhas, cachorros. Era uma forma de espantar o frio, mas que, evidentemente, impedia qualquer privacidade nas relações sexuais dos donos da casa: tudo era feito na presença de todos. É bom também lembrar que na idade média europeia os banhos eram anuais. O banho semanal, geralmente aos sábados, só foi adotado na maioria dos países em pleno século XIX. Difícil imaginar um romantismo assim.

    Dentro desse conceito abrangente de família tudo era compartilhado: refeições, banhos, punições, até porque o chefe desse clã numeroso era também o provedor de todas as despesas. Havia uma dependência muito grande em torno dessa figura e também um padrão de socialização de comportamentos muito rigoroso. Lentamente, através os séculos, isso foi mudando. A sociedade urbana permitiu mais flexibilidade nos estilos de vida, os novos padrões de higiene e de saúde pública também se estabeleceram.

    A partir sobretudo da segunda metade do século XX as pessoas foram ficando mais autônomas, desmembrando-se do núcleo familiar que as prendia até então. As grandes cidades se impuseram em todos os continentes e a vida urbana trouxe várias mudanças. Como consequência, passamos a conviver com um universo de novas configurações familiares, onde os papéis de gênero foram redefinidos e a noção da autoridade mudou muito.

    Nesse novo padrão de comportamento a velha família patriarcal dos velhos tempos ficou mesmo no passado. Os filhos se desprendem muito mais cedo em busca de seus projetos de vida, assim a solidão passou a ter papel definitivo na noção de felicidade. Nem todos querem perder sua autonomia, por isso muitas pessoas passaram a viver sós, de forma espontânea ou mesmo por imposição de novas circunstâncias. Agora outras formas de ocupar o tempo se impõem, ou novas formas de conviver com a solidão, querida e temida ao mesmo tempo.

    A jornalista Ruth de Aquino, na sua coluna em O Globo, assinalou, há algumas semanas, que o principal uso da Inteligência Artificial hoje se dá como companhia e terapia. O divã de terapeutas robôs atrai, segundo a autora, milhões de pessoas no mundo todo, sobretudo jovens de 18 a 24 anos. Sem muito dinheiro pagar psicanalista, insones na madrugada, sem ninguém com quem conversar, ficam prisioneiros da depressão e da ansiedade e querem disponibilidade às três horas da manhã.

    Para Ruth de Aquino, a IA explora a carência emocional e – acrescento eu – os donos do poder nas redes sociais já descobriram que existe uma espécie de “economia da solidão”, uma forma pouco ética de faturar com a carência de milhões de pessoas, oferecendo uma multiplicidade de produtos. A tecnologia, em princípio fria e desprovida de humanidade, passa a ser o centro de uma sociedade que tem pouco a oferecer aos que sofrem com as consequências do mundo contemporâneo. Não ouso dizer que os antigos eram mais felizes, afinal a liberdade não tem preço, mas o progressivo processo de desumanização das relações é algo que deveria nos preocupar.

  • Rubem Braga e a identidade das cidades

    Em ‘Crônicas do Espírito Santo’, Rubem Braga captura a Identidade Urbana Perdida do ES (1920-1950), documentando cidades coesas hoje fragmentadas pela modernidade

    Rubem Braga é capixaba de Cachoeiro de Itapemirim, como todos os que leem este meu texto sabem muito bem. Quando pensei em fazer, através dos textos que venho publicando neste espaço, uma viagem pela literatura, dela pretendia tirar lições sobre o cotidiano capixaba. Além disso, tinha a intenção de aprofundar o entendimento sobre a construção do nosso imaginário social. Assim, logo imaginei que um dos maiores cronistas brasileiros – considerado por alguns, de fato, o maior do século XX – não poderia estar ausente do meu quadro analítico. Seu livro Crônicas do Espírito Santo, que acabo de reler e recomendo fortemente, é uma aula sobre o nosso estado nos anos 1920, partindo da sua infância em Cachoeiro, como não poderia deixar de ser.

    Também é uma aula sobre as condições da natureza do Espírito Santo dos anos 1940 a 1951, registrada sobretudo nos seus relatos de viagens ao Norte do estado, em especial ao Rio Doce, no trecho que vai de Linhares a Colatina. O vale descrito não existe mais, o rio navegável e caudaloso hoje tem trechos que podem ser atravessados a pé. Existem tantos bancos de areia em seu leito que, muitas vezes, dependendo da época do ano, há mais areia que água.  A mata então existente simplesmente desapareceu. Praticamente nada restou, e junto com ela foram dizimadas a fauna e a flora. Nossa natureza foi eliminada pela modernidade.

    Rubem Braga nasceu em 1913, portanto a fase da infância a que ele se refere nas crônicas deve ser por volta dos anos 1920, no início do século passado. Estamos falando de algo distante para a velocidade dos tempos em que vivemos. O ritmo da vida mudou muito desde então. Havia a relativa estabilidade que nos davam as famílias antigas e as casas em que morávamos, num mundo de certo modo previsível, portador de poucas transformações. Não é por outra razão que as cidades nos emprestam identidade, já que elas permanecem mais ou menos como são durante a nossa rápida existência.

    As trajetórias das cidades onde nascemos e crescemos também são as nossas próprias trajetórias, com suas casas, suas ruas, seus personagens marcantes de todas as classes sociais. Rubem era filho de um coronel importante, que foi o primeiro prefeito de Cachoeiro de Itapemirim. A vida que ele nos narra naquela cidade – a mais importante economicamente do Espírito Santo do início do século XX – era a das suas elites, de seus homens, mulheres e famílias mais abastadas.

    Entretanto, na cidade descrita no livro, a diferença social era pouco sentida, afinal os antigos grupos escolares e os ginásios, que correspondem hoje ao ciclo fundamental e ao ensino médio, eram os espaços de educação e socialização a que todos tinham acesso. Os hospitais e centros de saúde, também públicos, atendiam igualmente aos   ricos, aos pobres e à pequena classe média da cidade. Assim, a diferenciação social era de fato menos intensa.

    Já as cidades brasileiras do século XXI, mesmo as menores, como várias do Espírito Santo, estão contaminadas por um novo espírito dos tempos: o da acentuada divisão das várias camadas sociais que as compõem. A bola que os meninos jogavam na rua praticamente desapareceu, substituída por esportes mais sofisticados praticados em espaços mais exclusivos, aos quais só tem acesso quem tem dinheiro.

    A isso tudo se adiciona o caráter de ostentação que os ricos ou os quase ricos ganharam no Brasil. A cultura da ostentação está visceralmente ligada ao universo das celebridades que marcam o nosso cotidiano atual. Na verdade, as redes sociais tornaram-se um novo ambiente de socialização de meninas e meninos, que os remete ainda a um outro ambiente, o digital. Isso os afasta de qualquer cotidiano que leve o território em conta. Assim, o mundo descrito por Rubem Braga em Cachoeiro, que era o mundo urbano do início do século XX, foi atropelado pela modernidade digital, das ostentações e do mundo privado que só o dinheiro pode comprar.

    Em uma análise mais sociológica, a identidade que as cidades nos davam foi ficando cada vez menos importante, até porque elas foram ficando cada vez mais parecias umas com as outras. As diferentes camadas sociais que as constroem foram se afastando no cotidiano da vida. As compras on line, que marcam a vida pós pandemia, também diminuíram a importância dos comércios locais. A territorialidade cultural está sendo invadida por um outro fenômeno na sociedade, mas isso é história para uma nova coluna.

    Fica da leitura de Rubem Braga, de seu texto leve e saboroso, a ideia de um outro Brasil, mais suave, mais delicado, que a modernidade está se encarregando de matar.

  • O parlamento dos invisíveis

    O grande historiador e sociólogo francês Pierre Rosanvallon – diretor de estudos na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris e conferencista no Collège de France –  é autor de dezenas de livros da maior importância no campo das ciências sociais. É dele um pequeno livro que me parece particularmente importante nesse momento: O Parlamento dos Invisíveis, que foi publicado originalmente em francês em 2014, cuja primeira edição brasileira é de 2017.

    O texto do sociólogo contém uma proposta muito interessante: fazer avançar a democracia, partindo do princípio de que é preciso dar voz ao cidadão comum. Argumenta que é necessário ter uma rede de informações digital que capte o sentimento de todos sobre a vida social, revitalizando o fazer democrático e construindo plataformas com o vigor de um sistema baseado em múltiplos relatos, que seriam como livros de menor tamanho.

    O princípio geral em que se baseia o autor é o de que as instituições responsáveis por dar voz ao povo estão em baixa. Ele inclui aí os sindicatos, a imprensa tradicional, os partidos políticos e todos os chamados espaços de socialização das atividades políticas. Esses espaços encolheram muito, segundo Rosavallon, que propõe então seu ingresso na arena digital para facilitar sua operação no mundo de hoje, até porque as plataformas digitais favorecem o diálogo e a troca. 

    Chamou minha atenção a valorização da encenação dos relatos da literatura através dos tempos na análise do grande pensador. Afinal, tenho enorme interesse na forma de expressão que a literatura faz de uma certa sociologia do cotidiano, como sabem os que vêm acompanhando os meus artigos. A literatura, para Rosanvallon, torna mais sensível o mundo, ao exprimir sem falsas aparências as indeterminações e a complexidade dos sentimentos morais. Ele registra que o romance foi por muito tempo o gênero que se mostrava o mais poroso às diferentes modalidades de conhecimento do homem e da sociedade.

    Balzac, Hugo, Flaubert e Zola, para ele, exploraram o íntimo e o coletivo, superando o registro entre ficção e pensamento. O projeto de Rosanvallon chamado Contar a Vida pretende retomar esse viés de conhecimento pela escrita, pela investigação, pelo testemunho. A proposta pretende romper todas as hierarquias de gênero ou estilos em um site que agregue todas as contribuições de vastos setores sociais, hoje invisíveis porque impossibilitados de se expressarem. 

    O site raconterlavie.fr, que está no ar na França há alguns anos, pretende, com essa visão, ter uma dimensão comunitária, sendo produtor de laços sociais, tanto pela dinâmica de intercompreensão e de curiosidade pelo outro, que lhe serve de base, quanto pelas trocas e formas de ajuda que favorece. Alcança, assim, uma dupla dimensão: local e de laços, permitindo desenvolver as virtualidades democráticas da internet e ao mesmo tempo recuar seus usos estreitos e desconstrutivos. Desse modo, faz sua contribuição ao desenvolvimento das redes sociais de essência cidadã.

    São pequenas obras que se concentram essencialmente na exploração de três conjuntos: 1. os relatos e trajetórias de vida, mesclando perfis e histórias singulares; 2. os lugares de produção ou expressão do social, que podem ser espaços exemplares de um novo modo de vida, lugares reveladores de uma crise social, de fluxo ou ainda lugares de trabalho, e 3. os romances de vida, aqueles que resultam de uma guinada, como o fim dos estudos, uma separação, um acidente ou a perda de um emprego. 

    A ideia é compreender a sociedade a partir de suas zonas de ambiguidade ou de inflexão e ainda as dinâmicas singulares que refazem a trajetória dos indivíduos. Tudo apreendido através de histórias singulares, mostrando essa maneira de lidar com a diversidade, a superação de elementos como o racismo, o machismo e todas as formas de preconceito que ameaçam uma sociedade igualitária e democrática.

    Fiquei encantado com a ideia de discutir na nossa sociedade essa espécie de Parlamento dos Invisíveis, que, apoiando-se em um futuro site Contar a Vida, poderá incluir outras ferramentas, como as de imagem e som, além de criar um espaço para discutir as obras. A ideia é ter um espaço virtual de edição de todos os relatos de vida e as discussões e comentários produzidos pelo conjunto dos usuários. 

    Nós precisamos criar espaços abertos, democráticos e livres, onde as individualidades invisíveis possam se expressar e fazer avançar espaços de construção de novas identidades, como contraponto e superação dos permanentes ataques a um projeto de sociedade ancorado na igualdade.

  • O personagem inesperado

    José Coelho dos Santos, médico negro formado em 1887, tornou-se vice-presidente do Espírito Santo em 1908 após trajetória como deputado constituinte, juiz e líder maçom, desafiando estruturas racistas do pós-abolição.

    O pensador alemão Max Weber afirmou em seus escritos que “A história é o lugar do milagre”. De fato, muito do que ocorre na vida das sociedades só se explica mesmo por algo milagroso. É a surpresa, o inesperado que muitas vezes nos atropela. Essa frase me veio à mente quando comecei a estudar a vida de um dos mais notáveis – e desconhecidos – políticos capixabas.

    A pesquisa começou quando a professora e historiadora Adriana Campos me pediu para estudar os coronéis que foram deputados em nossa assembleia legislativa na Primeira República, entre 1889 e 1930. É um trabalho que estamos fazendo junto a uma equipe que tem outros nomes, no contexto da comemoração dos 190 anos da Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Ela é a organizadora de um livro que trata do evento comemorativo, e por sua solicitação comecei a analisar a história política do Dr. José Coelho dos Santos, que foi deputado constituinte em 1892, no início da nossa era republicana.

    O Dr. Coelho dos Santos foi um típico político dos novos tempos que a república trouxe: positivista, maçom, abolicionista, republicano. Na lógica dos grupos políticos locais foi membro da corrente ligada à liderança de Muniz Freire, presidente do Espírito Santo de 1892 a 1896 e, depois, de 1900 a 1904. Os Munizistas foram responsáveis por uma nova pauta no desenvolvimento regional. Eram muito ligados à ideia do progresso, do avanço da ciência e dos processos de instalação de uma sociedade voltada para o que significava o sucesso material, a educação, o urbanismo, a saúde pública, ideias para o Brasil que estava saindo do sistema escravocrata.

    O mais admirável, o que o faz um milagre em nossa história política é um outro elemento da sua história: Dr. José Coelho dos Santos era preto.  Médico formado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1887, em pleno período do escravagismo, portanto. Certamente não era membro de uma família pobre. Nascido em 1862 em São Pedro de Itabapoana, no Sul do Espírito Santo, era filho de um casal de negros. O  pai – artesão, pedreiro e carpinteiro – conseguiu pela força do seu esforço comprar uma propriedade e educar o filho em boas instituições da região, inclusive em Campos.

    Por sua sólida formação educacional foi aceito em uma faculdade na Corte e lá concluiu a sua graduação, com uma tese de doutoramento sobre Paralisias Periféricas. Sim, doutoramento. Naquela época os médicos eram chamados de doutores porque precisavam apresentar e defender teses de doutorado. A do Dr. Coelho dos Santos  tem 123 páginas e contém o que havia de mais moderno em seu campo de estudos no fim do século XIX. Ele foi, de fato, um homem da ciência.

    Apesar de não estar situado nos setores sociais menos favorecidos, tinha contra si toda uma construção racista que perseguia os de sua origem. Não é difícil imaginar os preconceitos que teve que superar em sua trajetória estudantil e profissional para se  tornar médico e exercer sua profissão em um mundo onde os de sua origem andavam descalços, exerciam em sua maior parte atividades simples e manuais, sendo a maioria analfabetos. Aos escravizados não havia o direito à educação, às consultas médicas, não estavam incluídos em nenhuma política pública. Os bem-nascidos os viam com maus olhos.

    Ainda assim, o Dr. Coelho dos Santos concluiu o seu curso superior e voltou para clinicar na sua vila de origem, onde fez carreira como médico e cirurgião. Além disso, por sua formação, exerceu os cargos que correspondem hoje ao de vereador e de prefeito municipal por várias legislaturas. Foi eleito deputado constituinte em 1892 e  por mais duas vezes deputado estadual. Foi ainda juiz de direito, delegado local da Saúde Pública, articulista e dono de jornal, além de major cirurgião da Guarda Nacional.

    Por fim, terminou sua carreira política como vice-presidente do estado no mandato de Jerônimo Monteiro, eleito em 1908. Uma trajetória de muito sucesso para qualquer  cidadão de seu tempo, e ainda mais para um ser humano que certamente não havia nascido predestinado a ter essa trajetória. Seguramente foi um ser humano excepcional.

    A partir de 1910 mudou-se para Campos, onde passou a exercer a medicina. Lá também fez carreira de sucesso e prestígio, tendo sido venerável da maior loja maçônica daquela região em seu tempo. Para terminar, volto ao início: a história é o lugar do milagre, mas só para os fortes, só para os que acreditam em si e na força do destino. Homens como esse certamente merecem ser mais conhecidos e admirados.

  • Pablo Rosa

    Pablo Rosa desvenda o crescimento de extrema direita e machosfera, expondo como redes sociais e gurus como Olavo de Carvalho.

    Conheço há alguns anos o notável pesquisador e professor universitário Pablo Ornelas Rosa. Ele é um dos grandes estudiosos, no nosso país, do fenômeno do crescimento da extrema direita como forma de pensamento político. Nesse campo, a amplitude do pensamento conservador está muito presente. De um espaço praticamente inexistente no Brasil, marchamos para teorias feitas por uma legião de novos formuladores que se expressam sobretudo nas redes sociais e têm milhões de seguidores. Esse talvez seja o fenômeno político mais surpreendente dessas primeiras décadas do século XXI.

    Pablo dedica-se a estudar aquele que talvez tenha inaugurado de forma mais clara esse campo: Olavo de Carvalho. Ele lê e analisa de forma muito pertinente a força do pensamento do grande mago da direita brasileira. Tem inclusive um bom livro publicado sobre o site Brasil Paralelo e a grande influência de Olavo de Carvalho no universo digital. São imensas as influências do site Brasil Paralelo, que atua através de uma rede de sites, blogs e página nas várias redes sociais, em todo o campo do pensamento conservador brasileiro.

    Na verdade, Olavo de Carvalho, seus cursos e seguidores inventaram a nova direita brasileira. Até seu surgimento o que tínhamos eram políticos tradicionais, em especial presos a um pensamento mais religioso, próximos a um catolicismo tradicional. Esse novo polo de pensamento brasileiro se articulou com o crescente movimento evangélico e criou uma nova narrativa moral. Os temas não se diferenciam dos católicos mais tradicionais: aborto, fidelidade nos casamentos, cruzada moral contra o casamento gay e outros assuntos que valorizam o papel da família tradicional. De novidade há apenas a intensidade do discurso.

    Aprendi com Pablo, e com a leitura de seus livros e artigos, que muito do que se lê nas redes sociais da direita tem como origem o pensamento de Olavo de Carvalho, em especial através das postagens de seus discípulos e alunos como Eduardo Bolsonaro. Esse mecanismo multiplicador o transformou no maior guru da direita brasileira.  Creio mesmo que a articulação feita pela família Bolsonaro entre evangélicos e a nova direita apoiou-se quase totalmente sobre a base conceitual criada por Olavo de Carvalho.

    O professor Pablo é um sociólogo nascido em Porto Alegre e realizou seu doutorado na PUC de São Paulo. Concluiu mais de uma pesquisa de pós-doutorado, sendo uma delas na UFES, a qual resultou na publicação do livro Fascismo Tropical: uma cibercartografia das novíssimas direitas brasileiras. Sua produção científica é ampla, diversificada e de alto nível, sendo em sua maioria dedicada ao novo fenômeno político brasileiro do início do século XXI. Seguramente, Pablo é uma das maiores autoridades brasileiras na sociologia política da nova direita.

    Ele agora iniciou um novo doutorado na UFES na área da psicologia social, tendo como campo de pesquisa questões envolvendo as relações de gênero e sexualidade, assim como tentativas de reconstrução de certa masculinidade tradicional supostamente perdida, segundo o ideal dos jovens conservadores que se reconhecem como red pill,  em flagrante crise com o advento da modernidade. O novo trabalho está dentro de sua agenda de pesquisas mais ampla intitulada Tecnopolíticas e governabilidades à direita: uma cartografia dos discursos conservadores nas plataformas digitais.

    Tudo isso me parece assustador: é o crescimento expressivo da chamada “machosfera”, que dissemina conteúdos misóginos nas redes sociais. Publicam vídeos com narrativas masculinas que disseminam teorias conspiratórias prejudiciais à igualdade de gênero e que incentivam comportamentos nocivos contra as mulheres, ainda que disfarçados de estratégias de valorização dos homens. É misoginia brava, é uma cruzada para desmoralizar o universo feminino. É nesse caldo de cultura machista  que acontecem histórias como as presentes na série Adolescência, sobre a qual escrevi há algumas semanas.

    Enfim, estudiosos como Pablo Rosas nos mostram a extensão dos perigos de redes sociais sem controle por parte do estado e da sociedade. Há hoje um esforço enorme para anular as conquistas de homens e mulheres que vêm acontecendo há décadas.  A busca repugnante pelo retorno do machismo certamente vai afetar toda a geração que   está agora sendo apresentada a essa barbárie contra mulheres e gays.

    Provavelmente teremos uma futura geração ainda mais machista e reacionária. A sociedade brasileira precisa se organizar para fazer frente aos novos tempos, que podem ser sombrios, e o quanto antes colocar rédeas no discurso machista que corre solto nas redes. É preciso ler Pablo Rosas para perceber, como ele próprio, que esse “é um assunto assustador pela capilarização que passou a abarcar, principalmente em relação aos jovens e adolescentes”.