• O futuro da centro-direita

    Analistas vinham trabalhando com a ideia do surgimento de uma centro-direita com um discurso mais comedido.

    Quando, em 2018, a força avassaladora da candidatura presidencial de Jair Bolsonaro tomou conta do processo eleitoral, o carisma do candidato tornou-se uma forte marca. É comum que fenômenos de uma grande força política, de uma liderança potente, dominem determinado processo eleitoral e se transformem numa espécie de febre que toma grande parte dos os eleitores, conduzindo todos os desdobramentos da situação.

    No Espírito Santo isso ocorreu em 1982, quando Gerson Camata venceu o pleito e alavancou um grande número de prefeitos, vereadores e deputados. Foi a estrela Camatista que presidiu aquele momento tão rico em nosso estado. Toda uma geração política de líderes como Paulo Hartung, Luiz Moulin, Rose de Freitas e Renato Casagrande nasceu ali. A lógica dos governos militares que findavam sua jornada política foi francamente derrotada e o Espírito Santo começou uma nova jornada.

    Entretanto, voltando aos fatos nacionais contemporâneos posteriores à vitória disruptiva da nova direita, por diversas e complexas razões que os leitores muito bem conhecem, a gestão de Jair Bolsonaro frente ao governo nacional não ampliou e nem manteve acesa toda essa força, tanto que ele não se reelegeu em 2022. Mesmo assim, o bolsonarismo permaneceu suficientemente forte para seguir importante na cena política brasileira, e de forma decisiva em muitas situações. Mas uma coisa também é certa: a liderança de Jair Bolsonaro continua, mas é uma força em evidente declínio.

    Um exemplo muito claro disso é o esvaziamento das manifestações de rua organizadas pela direita e por seus grandes líderes evangélicos, como o Pastor Silas Malafaia. O eleitor que foi às manifestações apinhadas de gente nas versões anteriores, mas que não compareceu a essas últimas, nem por isso deixou de ser conservador. Talvez esteja mais contido nos discursos ou mesmo cansado da chamada guerra cultural, mas continua conservador. É preciso acompanhar com atenção o que vem se passando nessa bolha de insatisfeitos devido à radicalização, à verbalização excessiva. Existem sinais de cansaço, afinal são quase oito anos de discussões, palavrões, bate-bocas, quando não agressões físicas.

    Todas as evidências indicam que há uma massa expressiva de eleitores que deseja certa pacificação, buscando um líder com propostas nacionais fora da disputa que atualmente está colocada. Assim, em um país que continua conservador, porém cansado do extremismo, pareceria natural que as lideranças de direita fizessem uma inflexão para o centro. Os analistas vinham trabalhando com a ideia do surgimento de uma centro-direita com um discurso mais comedido, capaz de absorver esse contingente de moderados.

    Tudo vinha apontando na direção de uma candidatura de centro-direita mais viável eleitoralmente. Tanto é assim que o nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, havia despontado como liderança capaz de ocupar esse espaço de maior moderação. Ministro do governo de Jair Bolsonaro, oriundo de um quadro mais técnico e de pouca experiência política, venceu a eleição graças à força do ex-presidente no interior de São Paulo, mas vem conduzindo o governo sem os extremismos do líder a quem serviu.

    Desta forma, saiu das entranhas do bolsonarismo um quadro que parecia capaz de fazer a transição para uma centro-direita mais técnica, menos explosiva e mais focada em políticas públicas. No entanto, desde a eleição e posse do presidente Donald Trump, as coisas começaram a mudar, a desandar. Do alto de sua inexperiência, Tarcísio se precipitou em tudo: na adesão ao novo presidente estadunidense, na defesa de sua lógica imperialista e, sobretudo, no apoio ao tarifaço. O resultado de tantos desacertos tem sido a inevitável desidratação de sua candidatura.

    Para piorar a situação da direita, eis que o deputado federal do PL de São Paulo, Eduardo Bolsonaro, começou uma campanha de radicalização nacional contra o STF, na tentativa de salvar seu pai da condenação pelos atos golpistas do final de seu governo. Eduardo não está gostando das posições de liderança mais moderada no processo de Tarcísio. Começou a atirar também nele, enfraquecendo ainda mais sua possível candidatura presidencial.

    Convenhamos que é muita confusão para uma candidatura só. A direita, assim, vai perdendo o lugar de destaque que vinha ocupando no quadro nacional. Como ainda estamos a um ano das eleições, muita coisa vai mudar, mas a direita recuou duas casinhas no jogo nacional de poder, cedendo espaço ao experiente Lula.

  • Coisa de rico

    Analisar o mundo dos ricos, famosos e poderosos é uma forma consistente de encontrar um eixo de sustentação da coesão em uma sociedade tão hierarquizada e desigual.

    Li recentemente o livro cujo nome dá título ao artigo desta semana, e cujo subtítulo é a vida dos endinheirados brasileiros, escrito pelo antropólogo Michel Alcoforado. Esse livro tem dado a ele muito espaço na mídia. Seus podcasts É Tudo Culpa da Cultura encontram-se entre os mais ouvidos nos últimos tempos. É realmente um autor que tem muito conteúdo e que encontrou na ostentação típica da sociedade brasileira um bom vetor de análise.

    Analisar o mundo dos ricos, famosos e poderosos é uma forma consistente de encontrar um eixo de sustentação da coesão em uma sociedade tão hierarquizada e desigual como a nossa. Justamente por essas mesmas razões é que me ponho, há muito tempo, a estudar o mundo dos coronéis e do coronelismo como a origem do nosso sistema político, extremamente autoritário desde suas raízes até suas manifestações no tempo presente. O mundo dos ricos nos ajuda a desvendar o imaginário social de toda uma sociedade, é uma janela analítica.

    A antropologia brasileira tem ajudado muito a entender O que Faz do Brasil, Brasil – como já escreveu outro brilhante antropólogo, o professor Roberto DaMatta, autor do antológico Carnavais, Malandros e Heróis, que nos anos 1970 nos ensinou sobre o malandro e sua ética, o jeitinho brasileiro e as inversões do carnaval, que fazem a vida ficar suportável neste vale de lágrimas brasileiro. DaMatta é um gigante do pensamento social brasileiro, um intelectual maior que nos brinda até hoje com inteligentes artigos no jornal O Estado de São Paulo.

    Outro brilhante intelectual nessa mesma seara é Juliano Spyer, autor de O Povo de Deus: Quem são os Evangélicos e por que eles importam, livro publicado em 2020, que esclarece as razões pelas quais esse fenômeno de sociedade é tão importante. Com um olhar livre de preconceitos, Spyer nos ensina a profundidade do que se passa nesse universo. Com ele aprendi que, enquanto o conjunto da sociedade brasileira não entender por que os pobres da periferia – que professam o chamado neo pentecostalismo com tanta convicção – aderiram ao discurso da prosperidade e a uma leitura conservadora da bíblia, não sairemos dos enormes impasses que nos cercam e nos impedem se ser uma nação mais justa com todos. Há nesse contexto muitas outras razões além do que articulam os que os acham apenas vítimas de pastores charlatões.

    Finalmente, chego ao livro que acabo de ler: Coisa de Rico. Ele é a versão – certamente adaptada para um público maior – da tese de doutorado em Antropologia Social de Michel Alcoforado, que há anos se dedica a pesquisar o impacto do consumo na vida dos brasileiros. Para ele há um traço comum a boa parte dos endinheirados brasileiros: eles não se consideram ricos. Por mais variados que sejam os costumes, a origem e a quantidade de dinheiro, o fato é que não existe um critério absoluto para a riqueza no Brasil. Aqui ela é relacional, e é justamente nesse aspecto relacional que a antropologia exerce sua enorme capacidade explicativa do universo cultural dos brasileiros. O texto do livro lembra que sempre haverá alguém com mais dinheiro, mais pompa, mais patrimônio, mais próximo do topo da pirâmide.

    Como a questão é relacional, o que determina o mundo dos ricos, para si mesmos, são sinais visíveis somente para quem compartilha dos mesmos valores. Ele nos mostra que dois grandes grupos existem dentro do mundo dos ricos: os bem-nascidos e os novos-ricos. Os que pertencem ao grupo dos novos-ricos precisam mostrar seus sinais visíveis de riqueza a todos. Afinal, mesmo que tenham conseguido emergir da massa de dificuldades dos empreendedores que construíram fortuna com seus esforços, ainda terão parentes e amigos no mundo do qual tentam a todo momento se afastar. Por isso os rolex de ouro, os procedimentos estéticos, o corpo magro e malhado, as leituras performáticas, enfim, todo o comportamento caricato que busca demonstrar o quanto a pessoa se aproxima dos ideais dos endinheirados.

    Por outro lado, os bem-nascidos não fazem compras em Miami e nem ostentam ouro por todo o corpo. Ao contrário, são discretos. Os sinais de sua riqueza só são entendidos pelos que sabem ler os códigos. Roupas caríssimas feitas de forma exclusiva, mas sem marcas ostensivas, que só quem sabe que custa muito caro entende. Sinais para um mundo de dentro, que exclui com força, perversidade e elegância.

    Eu diria que estamos no Brasil dos jogadores de futebol ricos, das influenciadoras de fortuna recente, dos grandes pastores midiáticos, dos chapelões do agronegócio, do breganejo. Estamos todos sujeitos, o tempo todo, a uma cafonice estética massificada a partir desses sinais visíveis de riqueza. O que nos faz, na verdade, mais pobres, distantes das nossas raízes e próximos a universos que nos afastam de nós mesmos.

  • O aprendiz

    O Aprendiz filme revela as origens do estilo controverso de Donald Trump.

    Assisti há alguns dias, na Netflix, um filme muito interessante chamado O Aprendiz, que trata da ascensão empresarial do jovem e ambicioso Donald Trump na Nova Iorque dos anos 1970. Trump acaba por ser acolhido em suas pretensões por um advogado de poucos escrúpulos, Roy Cohn, com seus planos, nada triviais, de enriquecimento no setor imobiliário na cidade, então falida. O roteiro do filme tem uma história que já mostra os passos iniciais de um negociador cheio de artimanhas distantes da ética.

    O Aprendiz mostra a ganância do jovem empresário disposto a tudo para vencer e sua aproximação com o advogado Roy Cohn, sem critério éticos, que foi também o principal conselheiro do senador Joseph McCarthy em 1954. Naquela ocasião Cohn o auxiliou em investigações para incriminar os acusados de serem comunistas. Nas décadas de 1970 e 1980 o mesmo advogado tornou-se importante agente político na cidade de Nova Iorque. Foi como advogado trapaceiro e operador de acordos comerciais obtidos sob coação que ele representou e foi o principal mentor de Donald Trump em sua trajetória vertiginosa no mundo dos negócios imobiliários.

    Em 1986 Cohn foi destituído pela Divisão de Apelações do Supremo Tribunal do Estado de Nova Iorque por conduta antiética, após tentar fraudar um cliente moribundo, forçando-o a assinar uma alteração no testamento que deixaria toda sua fortuna ao advogado corrupto. Roy Con morreu por complicações decorrentes da Aids, negando até o fim ser soropositivo. Foi nessa forja moral que se moldou a personalidade de Donald Trump. Ele seguiu muito de perto os passos de seu mestre, por isso o filme se chama O Aprendiz, remetendo também ao nome de um programa de televisão que o agora presidente americano estrelou por longos anos.

    Nesse mundo onde Trump prosperou havia uma adoração pelos Estados Unidos, proclamados como o paraíso da liberdade e como potência mundial. Um patriotismo exclusivista que não levava em conta negros, pobres ou todos aqueles que eram considerados perdedores. Esse tipo de patriotismo somente cabia em personalidades como a dele, vinculadas à lógica da supremacia racial, de um machismo antiquado, de um mau gosto a toda prova no mundo da estética. Tudo isso que hoje vemos no modelo político de gestão do presidente Trump nasceu do aprendizado que pode ser visto no filme, lançado em 2024.

    Quando comparamos o que vimos na tela com os fatos políticos que se passam hoje no império americano, fica fácil entender por que a lógica política das gestões de Donald Trump são tão desprovidas de compaixão, de solidariedade ou mesmo de espírito público, em sentido mais amplo. Ela aprendeu a sobreviver como um grande magnata pisando no pescoço de quem precisasse pisar, inclusive da própria família, com vemos na tela. É assim que ele vê o mundo.

    O estilo de negociar contratos e vantagens bem descrito no livro A Arte da Negociação, um best seller mundial assinado por Trump, mostra sem pudores instrumentos até hoje usados por ele: o pensamento grande, o instinto, a ousadia e as táticas agressivas para o mundo dos negócios. Tudo o que podemos acompanhar pela mídia nos mostra que esse modelo usado no mundo privado, que o fez enriquecer, é o mesmo que utiliza na esfera pública, agora na condução da economia mais importante do mundo.

    Ao impor seu tarifaço ao mundo, ou ao apoiar as atrocidades cometidas pelo governo sanguinário de Israel, o que se vê são os vestígios dessa formação de caráter para ser um valentão, um sujeito de usa de quaisquer armas para tirar vantagem em sua posição privilegiada. O governo que esse personagem conduz mostra muito bem um certo ideal estadunidense de supremacia no mundo. Para ele é preciso inflar cada vez mais esse nacionalismo opressor, racista e desigual. Se foram feitos para serem os donos do mundo, os outros povos que se submetam – assim pensam os adeptos de suas ideias.

    Nesse ponto da submissão de outros povos está o que mais me intriga, quando vejo milhões de brasileiros portando ou promovendo a bandeira americana em suas manifestações, ou mesmo desejando um ato de força de Donald Trump contra o Brasil, para forçar o STF a tomar uma medida favorável ao ex-presidente Bolsonaro. Como seria possível um dirigente totalmente vinculado aos interesses de um imperialismo desalmado fazer concessões a um país latino-americano, olhado com desprezo pelas forças que sustentam o atual governo estadunidense?

    Tudo nesse mundo trumpista – mesmo a sua defesa entre os radicais de direita brasileiros – me parece pouco consistente, a não o desejo desenfreado e contínuo de ganhar dinheiro e de acumular poder, muito poder. Todo o resto são detalhes no universo cafona que essa gente criou.

  • A banalização do voto parlamentar

    Reflexão sobre a importância do voto responsável revela como escolhas impulsivas podem comprometer o futuro político e social do país.

    Conceitualmente, são muitas as chamadas razões de voto dos eleitores. Ou seja, quando votam, as pessoas têm formas diferentes de decidir, dependendo de sua compreensão do papel que o seu escolhido vai desempenhar no sistema político. Um mesmo eleitor pode votar por razões e motivos diferentes, dependendo do cargo que está em disputa.

    Creio que as razões que levam alguém a votar para os cargos ditos executivos (presidente da república, governador do estado e prefeito), no caso brasileiro, não são as mesmas que o fazem decidir nas eleições dos parlamentares, quando são escolhidos vereadores, deputados e mesmo senadores. Creio que, de fato, o voto mais banal no Brasil é aquele para a escolha dos vereadores. Explico melhor.

    Em vez de se informar sobre as funções desse importante ator no processo decisório de uma cidade, normalmente a maioria dos eleitores chega quase ao dia das eleições sem saber em quem votar. As pesquisas de opinião mostram que, a 15 dias do pleito, mais da metade dos eleitores ainda não decidiu seu voto para vereador, muitas vezes sem nem mesmo ter pensado sobre o caso. Tanto isso é verdade que existe uma ação eleitoral chamada boca de urna, que, como sabemos, consiste em abordar o eleitor a caminho ou nas proximidades de sua seção eleitoral e oferecer panfletos de determinado candidato, na tentativa evidente de captar seu voto no último minuto.

    Por si só, a existência desse tipo de abordagem já demonstra a pouca importância que costumamos dar à eleição para vereador, decidida em cima hora. Normalmente a razão de voto nesse cargo tem a banalidade das pequenas escolhas. O candidato pode ser um parente próximo ou distante, receber o voto em troca de um favor prestado ou mesmo sem razão alguma: diante da obrigatoriedade do voto, simplesmente escolhe-se um nome qualquer. É aí que entra a famosa boca de urna.

    Os votos para deputados estaduais e federais exigem um pouco mais de reflexão, afinal não há aquela multidão de candidatos como para as câmaras de vereadores,  nem se trata de uma eleição disputada por vizinhos. Como não se sabe exatamente o que fazem os deputados em seus dois níveis, escolhemos o nome mais sonoro, uma liderança comunitária mais perto do nosso cotidiano, alguém que já governou nossa cidade ou até mesmo aquela pessoa que nos desperta uma simpatia pessoal mais forte.

    É como se os cargos em disputa não tivessem responsabilidade política nos destinos da sociedade. De fato, pouco sabem os eleitores das funções dos deputados. Levando-se em conta esse desconhecimento relativo, os candidatos prometem o que não podem cumprir, fazem, de propósito, confusão entre o papel legislativo e o executivo. Prometem obras que sabem que não farão. As emendas parlamentares, ao ampliar o papel de carreador de recursos dos deputados federais e dos senadores, confundiu ainda mais os processos de escolha. Os deputados são agora muito mais influentes do que foram no passado na decisão de obras.

    Quando analisamos a relevância, por exemplo, da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, em sua trajetória histórica de 190 anos, nos damos conta de que ela foi palco de decisões importantes e que por lá transitaram projetos definitivos para a história política capixaba. Tudo que diz respeito ao processo capixaba de desenvolvimento passou por aquela casa, como, por exemplo, o traçado das nossas ferrovias, tão importantes no século XIX e na primeira metade do século XX. Toda a nossa malha logística, como pontes, túneis, portos e rodovias também foram lá discutidas.

    Podemos dizer que tudo de importante que o executivo estadual fez em nosso estado foi motivo de muita discussão nas comissões e no plenário da Assembleia. Não apenas as obras físicas, mas elementos como as campanhas de vacinação, as reformas do ensino, o transporte e tantas outras políticas públicas vitais para todos. Escolher o voto para deputado por simpatia ou porque o candidato fez uma campanha engraçada representa riscos e irresponsabilidade.

    O mesmo podemos dizer para os que recebem o mais banal dos votos, os nossos vereadores municipais. Eles decidem muitas questões que afetam a vida dos bairros onde vivemos e afetam pontos tão importantes quanto a escola de nossos filhos e o funcionamento das unidades de saúde que usamos.

    Os brasileiros costumam sempre desqualificar seus representantes políticos, chamando a atenção para os seus graves defeitos, muitas vezes verdadeiros. Por outro lado, porém, gostam de usar o seu voto para expressar deboche e irreverência. Essa é a raiz do problema: precisamos entender que estamos visceralmente envolvidos nesse processo que tanto criticamos. Por isso, não podemos e não devemos banalizar nosso voto, pois ele é a arma que usamos para intervir na construção da vida política nacional. Voto é responsabilidade.

  • Raízes do autoritarismo brasileiro

    As raízes do autoritarismo no Brasil ajudam a compreender como elites políticas e econômicas consolidaram um sistema de poder excludente e duradouro.

    O mundo vive hoje uma espécie de surto de autoritarismo, cujo personagem mais visível é Donald Trump, dos EUA. Esse fenômeno, porém, ocorre igualmente em outros países, como Itália, Polônia e Hungria, no continente europeu. Na verdade, o novo presidente dos Estados Unidos opera como uma espécie de cabeça desse gigantesco sistema de controle da economia mundial, conforme já fez no passado a União Soviética e outras nações que foram sede de impérios, como Inglaterra e França. Cada fase do mundo tem um modus operandi. A Alemanha do inicio do século, por exemplo, dominou com base nas armas e na destruição física; agora esse poder se dá por meio da asfixia financeira e de taxações exorbitantes.

    Cada momento da história produz um tipo de dominação entre as nações, assim como cada nação produz internamente as condições de sua adesão a esses sistemas. No caso brasileiro contemporâneo, o que temos visto é a construção de um autoritarismo interno que viabiliza a adesão muito rápida a um sistema internacionalizado. Mas nosso autoritarismo é particular, como são particulares os de cada nação do planeta.

    O que quero dizer é que cada sociedade faz, ao longo da história, as suas escolhas. São as classes dirigentes as grandes responsáveis por boa parte do que nos ocorre hoje, já que as decisões foram delas. No caso brasileiro, as raízes do nosso autoritarismo são muito profundas, pois nascem em um passado muito distante. Basta lembrar que tivemos um poder local construído a partir de elementos muito bem definidos. O primeiro desses elementos na construção do nosso sistema político foram as Câmaras de Vereadores.

    Nas Câmaras eram eleitos os chamados homens bons, os filhos de algo, os fidalgos. Não eram admitidos os que não tivessem o que chamavam, preconceituosamente, de sangue puro: indígenas, negros, judeus, filhos das pessoas comuns. É certo que não tivemos uma aristocracia clássica no Brasil, mas os vereadores municipais mandavam no município, podiam até mesmo decretar guerra aos indígenas. Cada cidade era uma espécie de república governada por essa instância importante, a câmara de vereadores. Era sobretudo com eles que a sede do reino se comunicava.

    Além de poderosos politicamente, esses homens públicos eram os senhores das terras da região, e por essa condição dispunham de bens materiais de forma favorecida, eram os ricos daqueles tempos. Os senhores da terra – os potentados rurais, como os chamou Raimundo Faoro em Os Donos do Poder – eram também os que detinham a posse dos escravizados, que em muitos momentos constituíram-se de indígenas e também de africanos. Os proprietários de outros seres humanos podiam deles dispor como bem entendessem. Eram os senhores de suas vidas e de suas mortes. Podiam usar a seu bel prazer dessa mão de obra, que era também sujeita a todos os seus desejos.

    Outro elo importante para construir esse poder local centralizado em poucos potentados foi a militarização da sociedade brasileira. As cortes portuguesas não tinham condições materiais concretas de manter a segurança e a ordem que lhes interessava em todo o território brasileiro. Assim, atribuíam patentes aos senhores do campo de suas organizações militares criadas para esse fim. Desse modo, ficava enfeixada em um só individuo a patente militar, a propriedade de pessoas das quais ele podia dispor como melhor lhes conviesse, incluindo-se, obviamente, a violência, e ainda o poder material, com a propriedade de terras e cargos públicos.

    O sistema político brasileiro transformou esses poucos homens poderosos no epicentro do poder político, econômico e militar. Nossa origem política é essa, Foram esses personagens que se transformaram nos coronéis republicanos e que instituíram o sistema político que nos governa até hoje. Não é, pois, de se admirar que parte importante de nossas elites políticas atuais banhe-se nas águas de um oceano autoritário. Eles foram instituídos assim, suas raízes históricas estão solidamente vincadas em um mundo onde o desprezo pelo povo, pelo popular, pela gente da terra é enorme. Não podemos nos esquecer do papel da religião nesse processo, mas trataremos melhor disso em outro artigo.

    O reacionário brasileiro nasce assim na história, vem de muito longe e domina os códigos de controle das massas. Por isso somos essa sociedade profundamente hierarquizada, desigual e elitista. A nossa extrema direita atual nos é própria, vem de tempos remotos e, mesmo que se articule de forma global, é o retrato do atraso no Brasil. Há, pois, esse perfil histórico que explica a existência da direita atual em nosso país, com seus modos próprios – e condenáveis – de agir.

  • A crise do machismo

    A crise do machismo expõe a fragilidade da masculinidade diante das mudanças sociais e do fortalecimento feminino.

    Sérgio Denicolli, um dos grandes analistas da sociedade brasileira, usa como campo de pesquisa as redes sociais e a partir delas faz análises poderosas. Temos conversado pelo whatsapp sobre seus artigos. Numa dessas conversas enviou matéria muito interessante sobre a crise do macho alfa, publicada na BBC News e assinada por Katy Kay. O texto foi escrito a partir de entrevista feita com o professor Scott Galloway, da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, destaque na imprensa nos últimos anos.

    Atualmente o professor é consultor do partido democrata, especializado em comunicação com jovens e homens adultos. A conversa entre a jornalista e o professor foi sobre os homens jovens nos dias de hoje, e como acontecimentos ao redor deles afetam também a vida das mulheres jovens. A versão publicada na BBC News é uma condensação da conversa. O professor constata que os homens jovens nos Estados Unidos enfrentam algumas dificuldades, como veremos.

    O raciocínio parte do princípio de que as mulheres jovens e adultas já enfrentam desvantagens estruturais há séculos, mas agora elas têm encontrado chance de brilhar. Perante esse panorama do sucesso feminino Galloway ressalta a ação de pessoas mal-intencionadas na internet, que tentam transformar as dificuldades dos homens jovens em um grito de vingança contra as mulheres. Um entendimento entre homens e mulheres fica agora ainda mais difícil, já que há um sentimento de perda, vez que a prosperidade recente ficou restrita a um terço da população, especificamente entre os homens brancos e heterossexuais, numa prosperidade injusta. Essa injustiça começa a ser corrigida nos EUA, e isso tem provocado enorme reação emocional no universo masculino.

    Os dados apresentados são avassaladores. Entre os jovens norte-americanos há quatro vezes mais possibilidade de cometerem suicídio, três vezes mais probabilidade de contraírem dependência, doze vezes mais probabilidade de serem presos, além dos níveis recordes de depressão entre essa população. Para Galloway, está sendo criada a geração mais obesa, ansiosa e deprimida da história estadunidense. Pela primeira vez na história recente, pessoas de 30 anos estão se saindo pior do que os seus pais na mesma idade.

    Na entrevista, Scott Galloway chama a atenção para o fato de que as mulheres, na falta de um relacionamento, costumam canalizar parte de sua energia amorosa para suas amizades e sua carreira profissional, enquanto os homens jovens tendem a canalizá-la para videogames ou pornografia, por exemplo. Conclui afirmando que há hoje nos Estados Unidos – e creio em todos os países do mundo ocidental – um grupo de homens jovens econômica e emocionalmente inviáveis.

    Na visão do professor, as mulheres namoram pessoas mais velhas porque desejam homens viáveis, tanto econômica quanto emocionalmente; portanto, as mulheres seriam menos atraídas sexualmente por homens que perderam sua viabilidade econômica. Creio ser este um ponto muito importante para compreender o que se passa na sociedade brasileira, que é particularmente sexualizada. Aqui os códigos morais são mais severos com os que aparentam fracasso, porque somos muito ligados às ostentações de poder e dinheiro.

    Existe hoje no Brasil, na minha opinião, parte de uma masculinidade fragilizada, digamos até que fracassada. Foi esse ponto da conversa com Denicolli que deu origem a essas breves reflexões, pois ambos concordamos que o quadro atual gerou essa espécie de desespero entre os homens. As mulheres hoje têm muito mais densidade do que os homens, desde as mais pobres até as mais ricas. A ideia ultrapassada do macho alpha que lidera a matilha pelo uso da violência, portanto, volta a parecer atraente para esses indivíduos na verdade fracos, que se sentem menosprezados ante o empoderamento feminino.

    Meu campo de reflexões prioritário é o imaginário social brasileiro, o modo como ele se desdobra em termos políticos e de gestão na nossa sociedade. Trazendo esses elementos para o campo do nosso comportamento coletivo, vemos um endurecimento do discurso machista por parte de boa parte dos homens em todas as classes e etnias. A existência hoje dos autodenominados legendários é prova mais cabal disso, numa tentativa de retorno ao tempo em que as virtudes masculinas eram tidas e vividas de forma simples, o que vem a demonstrar justamente a fragilidade do homem de nossos tempos.

    Na ausência de recursos mais sofisticados, caímos numa exacerbação do discurso do macho alfa – como esse que agora faz o pastor Malafaia – mostrando falta de elaboração e excessivo apoio na força e violência. Apesar dos avanços sociais que temos visto, o macho alfa, personagem que deveria estar desaparecendo, sangra em praça pública, mas resiste. Pratica feminicídios, bate em mulheres e tenta assustar o mundo com seus gritos de guerra. A extrema direita deu a ele recentemente um lugar, e ele fez desse lugar a débil trincheira de uma guerra perdida.

  • Newton Braga

    Newton Braga é resgatado como figura central da literatura e da cultura capixaba, com obras que unem lirismo e valorização da identidade de Cachoeiro.

    Todos os que leem esta coluna certamente conhecem o grande cronista Rubem Braga, o “rei do texto leve”, como a ele costuma se referir Rogério Medeiros, ele também uma estrela do nosso jornalismo investigativo. Rubem brilhou no jornalismo brasileiro desde o fim da II Guerra até sua morte, no início dos anos 1990. Quase todos sabem, também, que ele nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, no início do século XX – mais exatamente em 1913 – e que gostava muito de se referir a sua cidade natal em suas crônicas.

    O que nem todos sabem é da importância igualmente como escritor, mas também como grande animador cultural, de seu irmão mais velho, Newton Braga. Ele viveu uma vida curta: morreu aos 51 anos, no Rio de Janeiro, em 1962, para onde havia se mudado três anos antes. Dono de um texto leve e elegante, foi escritor muito talentoso, mas produziu pouco. Sua literatura é feita a conta-gotas, dentro de seu estilo pessoal pouco afeito a muitas exibições. Talvez por essa excessiva modéstia não tenha alcançado todo o sucesso que certamente mereceu.

    Ele gostava das coisas mais simples: pescar, ler, conviver com os amigos, e teve a vida marcada por essa simplicidade. Seus filhos, Marília, Raquel e Edson, organizaram, em 2011, ano em que o escritor faria cem anos, um livro com ricos depoimentos sobre sua trajetória, sob o título Newton Braga, cachoeirense ausente.

    Helena Carone, em sua introdução e no texto em que explica o método utilizado nas entrevistas, revela, entre tantos outros fatos, que, além de escritor, Newton foi o criador do Dia de Cachoeiro e do título de Cachoeirense Ausente, dado anualmente a um personagem importante para a cidade e que não mais more naquele município.

    Jornal, rádio, carnaval, festa da cidade, teatro, literatura, política, esporte, educação, publicidade, folclore e até bate-papo no bar, nada acontecia em Cachoeiro que não fosse ideia de Newton Braga, “coisas do Dr. Newton”.

    Segundo depoimento de seu compadre e grande amigo Newton Meirelles, Braga militou na Esquerda Democrática (que depois se transformou no PSB), mas por causa do grupo de amigos e não pelas ideias políticas. O amigo o achava individualista, portanto não poderia ser socialista. Newton Braga, na verdade, achava que a Esquerda Democrática podia fazer coisas boas pela cidade e aproveitou muitas dessas ideias fora do campo partidário. Chegou, sem entusiasmo, a ser candidato a vereador. Teve poucos votos.

    Em sua obra destaca-se um pequeno e muito interessante livro chamado Histórias de Cachoeiro, que trata dos principais acontecimentos de sua cidade natal, citando seus primeiros grandes marcos, como jornais, jornalistas, escolas e professores. É, sem dúvida, um chamado à cultura cívica de sua terra, feito para a juventude.

    Depois da morte de Newton, Rubem Braga reuniu boa parte de seus escritos publicados em vida para uma nova edição. Nela estava Cidade do Interior, originalmente parte da coleção “Os Cadernos de Cultura” do Serviço de Documentação do Ministério da Educação, que continha uma seleção de “casos e epigramas” publicados por Newton, durante muitos anos, no suplemento dominical do Diário de Notícias do Rio.

    Ele preparava uma segunda coletânea para a Editora do Autor quando a morte o colheu. Rubem terminou esse trabalho para seu irmão. Por definição, epigramas são curtos e cortantes, exigindo muita perícia de quem os redige, seja pela veia satírica, seja pela concisão das ideias.

    Quando morreu, Newton preparava a edição de um livro contendo novos casos e epigramas. Como já morava no Rio de Janeiro, tinha uma outra direção na sua escrita, que então se destinava à veiculação na grande imprensa carioca da época.

    Lirismo Perdido é um inspiradíssimo livro de poemas que reúne grande parte de sua produção poética. Nele há uma linda reflexão sobre a vida chamada Fraternidade, que termina com os versos que reproduzi para iniciar este texto em homenagem a um grande, e hoje esquecido, autor capixaba.

  • Jorge Amado, Mundinho Falcão e o universo dos coronéis

    A obra de Jorge Amado revela, por meio de Mundinho Falcão, o universo dos coronéis na Primeira República, mostrando como progresso, empreendedorismo e tradição se entrelaçam.

    Jorge Amado é, seguramente, um dos maiores escritores brasileiros do século XX. Vinculado ao chamado romance regional, ele produziu uma obra relevante não apenas no nível literário, mas também por suas versões para o cinema e a televisão. Como suas obras de maior importância popular podemos citar Gabriela, Cravo e Canela e Dona Flor e seus Dois Maridos, embora tenha escrito dezenas de livros. Gabriela e Dona Flor tornaram-se filmes e novelas de estrondoso sucesso nacional e circularam o mundo, levando grandes marcas da cultura brasileira.

    Tal importância também se mede por seu sucesso junto ao grande público, pois significa que as pessoas se reconheceram nessa obra. Por essa razão os personagens de Jorge Amado representam, em boa parte, o Brasil que ele conseguiu captar em sua época. Estou construindo esses argumentos para fortalecer a minha tese de que o mundo dos coronéis está fortemente representado em Gabriela, especialmente na figura de Mundinho Falcão.

    O coronelismo é contemporâneo da República. Foi ela que permitiu o protagonismo das elites regionais, até então politicamente sufocadas pela lógica centralizadora do Império. Foi o enriquecimento – em especial dos fazendeiros, mas não apenas – que deu origem às oligarquias estaduais e ao seu enorme peso político na chamada Primeira República. Minhas leitoras e meus leitores sabem que costumo dizer que os coronéis são uma síntese de violência e progresso. É justamente isso que Mundinho Falcão encarna na trama de Jorge Amado.

    Jovem das elites dos grandes eixos culturais brasileiros, amigo da cúpula republicana do Rio de Janeiro, ele se muda para Ilhéus no início dos anos 1920, onde vai negociar o grande produto da região, o cacau. Logo entende que precisava mudar a cultura local para produzir o progresso. Sua meta maior: dragar o canal do porto para possibilitar que grandes navios ali atracassem e que assim a riqueza local pudesse ser exportada sem passar pela intermediação dos homens de negócio de Salvador.

    Como personagens reais da época, a exemplo de Jerônimo Monteiro, no Espírito Santo ou Delmiro Gouveia, em Pernambuco e Alagoas, Mundinho era fascinado pelo progresso, tanto que criou a Associação Comercial de Ilhéus, ficou sócio na empresa local de transportes, financiou o restaurante de Gabriela e abriu avenidas. Um homem realmente ligado aos ideais de desenvolvimento e progresso. Jornais locais também financiados por ele passaram a dar às disputas políticas um tom programático que antes não tinham.

    O resultado político dessas ações foi a mudança do sentimento que movia o campo político local, passando da simples relação de fidelidade e lealdade ao líder a uma rede mais complexa de interesses, que marca justamente a vida democrática. Ao construir claramente um projeto econômico coletivo, ao dividir as benesses do progresso, Mundinho Falcão agiu como o verdadeiro empreendedor, aquele que projeta construir um degrau superior da vida cotidiana.

    Ele era, entretanto, um homem do seu tempo. Sobreviveu em um universo de maldades e violências, não as cometendo de forma direta, mas construindo alianças com muitos que as praticavam.

    A forma como o grande autor baiano encaminha o fim do romance é obra de arte: o jovem coronel moderno e modernizador casa-se com a filha do último coronel da velha geração, dos desbravadores da mata, e vence uma eleição que deveria ser travada entre o velho e o novo, entre o arcaico e o moderno. Faz uma espécie de aliança informal e assim se introduz como o novo que convive bem com o velho.

    Desse modo foram, de fato, tais personagens, esses agentes possíveis do capitalismo brasileiro, que deram ao cacau, ao café e à cana de açúcar uma nova dimensão de exploração econômica, modernizando os meios de sua exploração em muitos campos, mas ao mesmo tempo casando-se com a tradição. Justamente por isso foram expressões acabadas de nossas dificuldades de articular as necessidades de progresso com o relativo apego às tradições desenvolvidas desde o Brasil Colônia.

    Sempre que a literatura nos dá uma visão clara do real, por meio de uma linguagem encantadora e com tramas tão próximas de nós, estamos diante de uma obra de arte.

  • Apocalipse nos trópicos

    Apocalipse nos Trópicos revela, por meio do documentário de Petra Costa, o impacto do movimento evangélico na política e nas eleições brasileiras recentes.

    Petra Costa, diretora premiada por outras realizações, lançou, pela Netflix, um documentário vigoroso e de ótima qualidade sobre o impacto do fenômeno evangélico nos campos político e eleitoral brasileiros. A produção traça a trajetória das eleições que levaram Jair Bolsonaro ao poder em 2018, seu mandato presidencial e, finalmente, sua derrota – jamais aceita – em 2022 para o atual presidente, Luís Inácio Lula da Silva.

    O fio condutor da narrativa de Petra é o papel dos evangélicos nesse contexto, começando pela unção de Jair Messias como candidato das direitas em 2018, processo que o levou ao poder. À opção majoritária desse setor por sua candidatura conservadora aliou-se o seu discurso claramente colado ao imaginário social dos evangélicos no Brasil. Esse fio condutor deixa muito clara a força desse segmento na construção de uma direita de novo formato.

    Sempre ressaltei o papel do discurso evangélico para a direita brasileira; acho mesmo que quem dá consistência e densidade ao movimento é o papel dos evangélicos. Na Argentina, por exemplo, onde eles não têm a mesma expressão do que no Brasil, o governo de direita de Millei tem que se apoiar muito mais em ações econômicas. Aqui não funcionou assim. A guerra cultural, o combate a um comunismo fantasioso, e quase inexistente nos dias atuais, foram a grande munição gasta na guerra contra a esquerda.

    Os evangélicos votam por princípios, entram na cabine eleitoral com uma construção coletiva na cabeça, e votam a partir dela. É um dos poucos segmentos no Brasil que age assim e que pode, portanto, ser conquistado de forma mais ampla e genérica. Além disso, é um setor que se sujeita à liderança inconteste dos pastores, os quais, se não dirigem seus votos, dirigem muitas de suas escolhas morais, que acabam por determinar suas inclusões no mundo, daí resultando, obviamente, opções políticas.

    Para dar materialidade a esse percurso eleitoral no seio dos evangélicos, Petra escolheu um ator privilegiado: Silas Malafaia. É certo que, ao lhe dar um protagonismo algo exagerado, faz com que ele sai um pouco maior do que realmente foi em 2018. Mas de uma coisa não temos dúvida: foram os pastores os maiores responsáveis pela ascensão de Jair Bolsonaro. Malafaia, em Apocalipse nos Trópicos, mostra como esses pastores midiáticos agiram para transformar um obscuro deputado federal de extrema direita em um dos maiores fenômenos eleitorais da história política brasileira.

    Levando sua estupenda capacidade verbal, mesclada a práticas de convencimento através dos evangelhos para a cena política, Malafaia conseguiu ajudar a construir o mito, um novo messias na política brasileira. Ele afirmou, dois dias após a eleição de Bolsonaro, em sua presença, que ele era um representante dos “loucos, fracos, vis e desprezíveis” – numa linguagem claramente bíblica. Assim, ressaltou a ausência de qualidades que fez dele um eleito por Deus para ser um fraco entre os fortes, provavelmente como cada um dos evangélicos que ouviram tais palavras também assim se sentiram.

    A posição da diretora do documentário é claramente a de quem denuncia a prática de manipulação da fé em favor de projetos pessoais de lideranças religiosas. Esse tom se expressa com força no filme e pode até criar rejeição por parte de alguns espectadores, mas não tira a força do que vemos na tela, nem tira a verdade nua e crua que nos é mostrada.

    Outra questão que salta aos nossos olhos é que várias lideranças não foram retratadas no documentário e que, obviamente, as opiniões de Silas Malafaia não expressam todas as que existem no seio do movimento evangélico. Ele chega a ser quase caricato, de tanta ênfase que dá a seu poder e a sua capacidade de influência junto a Bolsonaro. Tudo o que o filme retrata, porém, tem cunho de verdade. Ademais, é sempre bom lembrar que cinema não é sociologia, não se trata de trabalho científico ou de investigação. É arte.

    E, como arte, é convincente e mostra, de forma quase assustadora, como os bastidores do poder se movimentam no Brasil, como chegam ao STF e como uma certa consciência ingênua pode servir de massa de manobra para planos de poder que levam em conta elementos que desconhecemos. A quem não viu o filme, sugiro que veja, para construir seu próprio julgamento. É para isso, afinal, que serve a arte feita com responsabilidade: para provocar discussões e fazer avançar nossas reflexões sobre o Brasil.

  • Empresários e relações democráticas

    Empresas do século XXI precisam conquistar a licença social para operar, articulando-se com comunidades, governos e o meio ambiente por meio de relações democráticas.

    Quando lemos um velho romance de Jorge Amado, como Capitães da Areia, por exemplo, publicado pela primeira vez em 1937, temos um retrato terrível dos antigos patrões, sempre malvados e mesquinhos. A mesma impressão nos despertam os filmes do diretor francês Jean Renoir, que são, aliás, da mesma época.

    Obviamente, no caso da expressão desses dois artistas, trata-se de ficção e, mais ainda, de leituras muito críticas do universo relacional do capitalismo liberal daquela época. Foram, ambos, homens de esquerda, ligados às teses comunistas que eram muito populares então. Bom registrar, entretanto, que eles não estavam muito longe da verdade. As empresas no início do século XX tinham uma baixa relação com os sistemas social e natural que as cercavam. Muitas foram, de fato, predadoras.

    Ocorre que, entre os quase 100 anos que separam as críticas contundentes que se faziam à ganância dos empresários, naquela época, e os dias atuais, muita coisa mudou. O mesmo se pode dizer das preocupações que cercam as decisões governamentais. Houve época no Espírito Santo – sobretudo pelo enorme esforço necessário para nos industrializarmos – em que o mais importante era atrair novos negócios, criar empregos e tirar a economia da estagnação. Questões ligadas ao meio ambiente, por exemplo, eram subestimadas.

    A sociedade, porém, se movimentou muito. Novos direitos foram reivindicados e conquistados pelos cidadãos e suas representações coletivas. Mais do que isso, novos patamares de consciência de seus lugares e responsabilidades no mundo foram tomando conta de toda a sociedade, inclusive de suas elites econômicas e políticas.

    A soma desses fatores mudou a equação social. Tanto do lado dos empreendedores, quanto do próprio governo, níveis mais altos de exigências foram estabelecidos quando a sociedade passou a exigir mais responsabilidade social das novas plantas de negócios, fossem do setor agrícola, extrativista mineral, de logística ou industrial. Desse modo surgiram novos protocolos de articulação entre empresas, estado e sociedade civil.

    Como consequência das mudanças na sociedade, as empresas, neste início de século XXI, necessitam da Licença Social para Operar. Isso significa que devem medir as consequências de sua ação no meio ambiente em que atuam, mas não apenas isso. É preciso que as comunidades que as cercam conheçam e aprovem as intervenções que serão feitas nos ambientes social, político e natural, que são patrimônio e ativo de todos, afinal ninguém é dono da natureza.

    Não se pode mais interferir na lógica de funcionamento de uma determinada comunidade sem ouvi-la, e sem, sobretudo, levar em conta as demandas surgidas nos processos técnicos de escuta estabelecidos. Para isso deve haver o emprego de certas técnicas, certas expertises de consultores que ajudem as empresas e os governos a se articularem em entre si.

    O importante é estabelecer diálogo com as comunidades, autoridades e organizações relevantes da região atingida, visando a construir uma espécie de aliança por meio da qual todos possam usufruir dos benefícios, e assim ajudarem a própria empresa a obter apoio governamental ao seu projeto. Essa é uma forma de obter licença social e engajamento no projeto. Ao mesmo tempo, as autoridades poderiam ter certeza de estar atendendo a toda uma região e seus múltiplos interesses, e não apenas ao desejo de um grupo empresarial.

    Esse é o aprendizado da implantação de novos negócios nas últimas décadas. A capacidade de construir juntos o desenvolvimento. A compreensão de que nenhuma empresa é simplesmente implantada num determinado sítio territorial e social. Ela é, antes, produzida e produtora de uma nova cultura, da circulação de mais dinheiro, da geração de mais postos de trabalho, mas também de impactos que devem ser levados em conta, analisados e compreendidos por todos.

    As pessoas que compõem uma determinada sociedade querem prosperidade, estão dispostas a abrir mão de certas comodidades se compreenderem a extensão do que está sendo proposto. Também precisam conhecer os cuidados técnicos que serão tomados pelos responsáveis pelo novo empreendimento.

    No fundo, voltamos à ideia do contrato social de Rosseau, em que as partes contratam entre si as condições da convivência social, seus custos e benefícios. É disso que se trata quando falamos de Licença Social para Operar: criar bases claras e compreensíveis de um contrato social com benefícios para todos. Obviamente, temos muito a evoluir. Entender o quanto as organizações podem dialogar com o seu entorno, por meio de relações e trocas positivas, é fundamental para continuar neste caminho.