• Para que serve a literatura? Ou Reinaldo Santos Neves

    Reinaldo Santos Neves retrata, com maestria, as contradições e evoluções da sociedade capixaba em narrativas que desafiam o tempo e os costumes.

    É óbvio que essa questão pode comportar várias respostas, mas, por certo, também é difícil encontrar uma resposta absolutamente funcional: como linguagem artística a literatura tem na vida humana um papel que cada um dimensiona no seu universo  subjetivo. Para mim a literatura, por exemplo, é vida: uma forma de eu me abstrair do mundo pequeno a que estamos invariavelmente sujeitos e mergulhar em sentimentos e emoções.

    Tenho usado a literatura, entretanto,  de uma outra forma, para estudar a vida social, para compreender como se configura o cotidiano de uma sociedade em determinado momento. Em A Invenção do Coronel, livro originado da minha tese de doutorado em sociologia política, retirei de obras literárias muitos elementos para explicar o coronel, ícone portador de violência e progresso, na sociedade brasileira do início do século XX. Podemos observar esses elementos tanto em Mundinho Falcão, personagem de Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, quanto no Dr. Rodrigo Cambará, de Érico Verissimo, em O Tempo e o Vento. Mais recentemente tenho estudado autores capixabas para compreender o nosso cotidiano e as raízes de nossa construção imaginária.

    Foi assim que, nos últimos meses, li mais atentamente Renato Pacheco, Getúlio Neves, Pedro Nunes, Luiz Guilherme Santos Neves, Adilson Vilaça e Ezequiel Ronchi Neto, todos grandes autores capixabas. Fiz apontamentos sobre as leituras – publiquei inclusive alguns neste espaço e no meu blog – para escrever um livro sobre as raízes do imaginário capixaba a partir da nossa literatura. Até avancei nesses artigos sobre a fofoca e a violência como duas marcas históricas de nossa sociedade.

    Agora comecei a ler, com a mesma finalidade, a extraordinária produção literária de Reinaldo Santos Neves. O primeiro passo foi analisar a trilogia Graciano, que é como o próprio autor denomina os três livros: Poema Graciano, As Mãos no Fogo: o romance Graciano e a Ceia Dominicana: Romance Neolatino. São obras que tratam das aventuras de Graciano Daemon, o personagem principal de todos eles, no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980. O Romance Graciano se passa na ilha de Vitória, já Ceia Dominicana é uma aventura rápida, rica e cheia de emoções, que se passa na vila de Manguinhos, em apenas três dias. É uma continuação do Romance Graciano e um desdobramento de um casamento fracassado. A Ceia se passa quando deveria se passar a lua de mel do personagem.

    Eles são uma extraordinária radiografia da moral provinciana de nossas elites, já que o circuito social dos romances é todo o das classes mais próximas ao poder regional. A família do protagonista da série é descendente de um antigo governador de nosso estado. Um irmão seu disputa o cargo de reitor da Ufes no Romance Graciano, enquanto ele próprio foi nomeado professor da mesma universidade no departamento de letras e só não iniciou as aulas porque recebeu grossa herança e foi viver sua vida.

    Graciano é obcecado por “cabaços”, como ele próprio relata inúmeras vezes, e tem até  mesmo um episódio pouco edificante com uma sobrinha adolescente, história que depois vem a público de forma vergonhosa para ele. Abandonara a noiva na noite de núpcias porque não era mais virgem, porém ele mesmo tinha rompido com a virgindade dessa jovem e desamparada sobrinha. Enfim, uma confusão de procedimentos dentro de um código moral machista tóxico. Ler Reinaldo nos deixa bem próximos desses tempos de grandes mudanças em nosso país. Os militares se despediam do poder, a democracia impunha o fim de tradições ultrapassadas e o velho machão corria riscos.

    Com relação a outras obras do autor, Suely ainda o traz preso a critérios rigorosos em seus personagens, sendo ele próprio o protagonista do livro. O mesmo se dá em Muito Soneto Para Nada. São obras que mostram como funciona o mundo intelectual do Espírito Santo no mesmo período, com as mesmas formas de expressão do amor masculino. Entretanto, em Kitty aos 22: divertimento Reinaldo já mostra uma família de classe média alta de Vitória, moradora da Mata da Praia, habitando outra realidade. O pai é separado da família mas lhe garante um alto padrão de vida, enquanto vive seu novo casamento com um homem em Buenos Aires.

    Kitty é totalmente liberada e vive sua sexualidade em completa liberdade, mostrando o salto moral de procedimentos que a ilha viveu em pouco mais de 20 anos, ingressando sem dó no mundo das drogas, do sexo e do rock, que é o estilo musical preferido de Kitty. Um livro extraordinário, que mostra como a literatura diverte, informa e nos faz refletir sobre a essência de tudo. O Espírito Santo precisa conhecer melhor os seus grandes escritores, entre eles Reinaldo Santo Neves, um autor maior e que nos ajuda a entender o que somos como sociedade.

  • A política como espetáculo

    A política como espetáculo migrou do rádio e cinema para as redes sociais, onde gestos teatrais e narrativas simplistas dominam a comunicação pública

    Desde pelo menos os anos 1980, sociólogos franceses como Alain Touraine e Michel Mafessoli trabalham a ideia de que na época em que vivemos – que desde então Mafessoli chama de pós-modernidade – estamos imersos na sociedade do espetáculo, fato que é hoje muito fácil de ser verificado.

    Já nos anos 1960, o filósofo Guy Debord falava do mesmo tema. Todos esses autores têm uma abordagem bastante crítica quanto ao conteúdo que vai sendo substituído pela forma, tornando-nos cada vez mais superficiais como sociedades. Mais do que isso, só quem consegue caminhar pelas superfícies consegue se comunicar com esse mundo cada vez mais raso, onde o aprofundar-se resta inútil.

    Na verdade, podemos ver os sinais dessa política espetáculo no alvorecer do século XX na Alemanha de Hitler, que foi o primeiro líder a utilizar de forma massiva e organizada os modernos instrumentos da comunicação à época, como o rádio. Há mesmo um cinema nazista, elemento mais do que importante na campanha de doutrinação ideológica que construiu o Terceiro Reich. Nele se destacam obras como O Triunfo da Verdade, de Leni Riefentahl, pura propaganda do regime.

    Por falar em cinema, o documentário Hitler, uma carreira é uma obra importantíssima sobre a imagem pública do dirigente nazista, feito com a colaboração do historiador Joachim Fest, seu biógrafo, com trechos de discursos e dos noticiários cinematográficos da época. Fica muito claro, no filme, como foi construída com detalhes a narrativa que conquistaria não apenas os alemães, mas também boa parte da opinião pública europeia. Foi ela que permitiu o crescimento de uma extrema direita que chegou ao poder em muitos países como Portugal, Espanha e Itália, criando uma legião de colaboradores em outros países com a França, possibilitando a expansão do nazismo. O requinte de detalhes de Hitler, uma carreira permite muito bem compreender porque podemos dizer que o marketing político moderno começa na Alemanha dos anos 1930.

    Tudo isso embasa a premissa de que os expedientes para transformar a conquista do poder em um espetáculo e desse modo despolitizar a política não surgiram recentemente, como pode ser pensado; na verdade, eles vieram de épocas pretéritas. No fundo é uma espécie de aggiornamento das práticas de conquista do voto, de expansão das doutrinas ideológicas, de determinado partido ou grupo político, possibilitado pela tecnologia, que foi se transformando. Mesmo países como o Brasil da Era Vargas utilizaram o rádio e inclusive o cinema, em larga escala, para construir uma vasta aceitação popular de seus dirigentes.

    Quando a sociologia política começou a tratar da política espetáculo, ela era praticada com vasto apoio da televisão, o meio de comunicação que ganhou o mundo a partir do fim da segunda guerra, ampliando o papel dos velhos palanques das eleições. A televisão brasileira começa logo no início dos anos 1950. Essa ampliação dos palanques deveu-se à capacidade de sedução ampliada pelas tecnologias, sobretudo a das cores. Hoje ela tem uma catapulta gigantesca: as redes sociais.

    Eu diria mesmo que a política migrou para as redes sociais, é ali que as pessoas comuns vão se informar no seu cotidiano. É ali, com inúmeros artifícios tecnológicos, que todos podem ampliar suas capacidades de produzir coisas inusitadas. Mais do que isso, é nas redes sociais que os atores políticos brasileiros passaram a produzir suas carreiras. O maior deles, Jair Bolsonaro, não existiria sem as redes sociais. Por meio delas elegeu-se presidente da república sem partido político, sem tempo de televisão, sem uma rede de políticos importantes.

    Depois aprendeu a sobreviver nessas condições, tanto que, mesmo eleito presidente, usou e abusou de uma estratégia de projetar-se como um homem simples. Sua fala depois da posse foi apoiada em uma mesa improvisada com uma prancha de surfe. Comeu farofa de forma a parecer um brasileiro simples do povo, posou com sandálias quase toscas. Isso todo mundo conhece, porque viu a ópera bufa se desenvolver.

    Estamos vendo hoje o ápice da política espetáculo com o personagem Donald Trump, com seu gestual teatral, com sua foto oficial demoníaca e suas palavras e atitudes chulas, ocupando a mídia o tempo todo, promovendo bizzarices permanente. Parece que com ele chegamos ao máximo de um tempo marcado pela absoluta ausência de conteúdo e socialização de projetos, tanto que ninguém sabe ao certo onde ele quer chegar. É o tempo dos grandes atores e dos grandes espetáculos. Mas uma hora o ciclo acaba, pois, como tudo, também se esgotará sua capacidade de produzir resultados.

  • Adolescência

    Adolescência é uma minissérie britânica de televisão que é hoje um fenômeno mundial de público. Ela gira em torno de um estudante de 13 anos que é preso sob acusação de assassinar uma colega de classe. Como um dos panos de fundo, aborda a radicalização de meninos no universo digital por influência de comunidades masculinas, que propagam ideias como a da superioridade dos homens, defendendo até mesmo o uso da violência.

    Não vou dar spoiler, ser uma espécie de desmancha-prazeres, para os que não viram  ainda a série. Na verdade, quero usar Adolescência para chamar a atenção para uma mudança importante de comportamento nos nossos dias. O mote da série é o bullying digital que se faz entre os alunos de uma escola, numa pequena cidade inglesa. Os alunos, mais do que expor ao ridículo seus colegas de forma presencial, como sempre se fez muito no Brasil, agora fazem isso com maior alcance. Uma perversidade ampliada pela tecnologia, e à disposição de todos, baseada em preconceitos como o machismo.

    Em qualquer rede social isso pode ser feito, desde owhatsapp até facebook ou o instagram, como mostra com muito bem Adolescência. Muita coisa fica protegida por um código de compreensão difícil para quem está fora da bolha. Uma investigação conduzida por quem não entende esses códigos dificilmente pode chegar a bom termo, como bem mostra a série de televisão.

    Isso deve chamar a atenção de todos sobre a necessidade de a sociedade ter essas redes sob controle. Quando setores empresariais que as exploram dizem que querem ampla liberdade de expressão, na verdade estão tentando manter todos esses movimentos, que as fazem o epicentro da vida na sociedade contemporânea, totalmente livres. Um outro filme de muito sucesso recente, o Quarto ao Lado, do festejado diretor espanhol Pedro Almodóvar, mostra como a personagem, que queria tirar sua própria vida, consegue comprar um medicamente proibido na internet, na sua versão conhecida como Dark Web, ou a internet obscura.

    Nesse território opaco pode-se comprar um pouco de tudo, ou aprender a fazer também muita coisa que as pessoas comuns até duvidam, já que os sites ali alojados estão não são indexados pelos mecanismos de busca. Lá estão fóruns privados e redes sociais restritas. Armas, formas de cometer suicídios, receitas para fazer bombas, objetos cuja venda é proibida. De tudo tem um pouco lá.

    Quando os grandes investidores dessas máquinas de negócios gigantesca que é a internet não querem que os seus mundos sejam disciplinados, é porque não querem ter seus lucros reduzidos. Assim, quando as redes conseguem manipular as massas e elas se revoltam contra o sistema legal dos países, há muito mais em jogo do que o direito de xingar livremente qualquer pessoa, sem ter que pagar pelos próprios excessos.

    Não existe a possibilidade de uma sociedade sem leis, nenhum país pode ser governado pela lei do desejo. Os sistemas legais existem para que as pessoas que infrinjam as boas normas de convivência legal sejam punidas, presas se for necessário. Punir é cada vez mais difícil, não é fácil fazer esse controle em uma sociedade globalizada, onde as fronteiras são muito fluidas. Por isso mesmo, nós precisamos de princípios legais que estejam de acordo com as culturas nacionais.

    Há hoje uma luta política em torno da disciplina das redes sociais. Aos que buscam instrumentos para desconstruir o sistema de poder vigente, as redes parecem oferecer uma alternativa de divulgação de notícias e ideias fora do controle da mídia tradicional. Ocorre que as redes sociais não são apenas um substituto dos jornais, do rádio e da televisão na propagação de notícias. São muito mais, são lugares de construção de uma nova ordem de coisas, onde se misturam publicidade, propaganda, meias-verdades e, desde que permitamos, um sem fim de negócios sem regra e sem obediência a ninguém.

    Por isso os donos desses novos espaços de construção social, tão logo começam a operar, tentam descontruir o sistema legal das sociedades – em especial das supremas cortes de cada país – para operarem sem dar conta de nada a ninguém. Adolescência mostra os riscos da falta de ordem de um mundo contemporâneo cujo nascimento estamos presenciando, e da necessidade de manter as redes sociais sob controle.

  • Nossos braços não são fracos

    A reconstrução identitária revela a força de um passado que molda o orgulho capixaba e inspira o futuro.

    A sociedade capixaba tem uma espécie de dívida histórica com ela mesma: não estuda o seu passado, não consegue elucidar bem a sua trajetória e nem a sua própria construção social. As lutas e conquistas dos nossos antepassados, os sacrifícios de muitas gerações são desprezados por simples falta de conhecimento. Pior que tudo isso é repetirmos velhos mitos  como consequência do desinteresse coletivo por nossa trajetória.

    Gaúchos, pernambucanos, mineiros e que os nasceram ou habitam outras regiões brasileiras constroem mitos positivos sobre si mesmos, enaltecem os feitos do passado e dão origem a um sentimento de pertencimento, de regionalismo que impulsiona a sociedade, ajuda na construção de um bom patamar de turismo, por exemplo. Nós, ao contrário, alimentamos mitos negativos para explicar uma falsa falta de identidade. Entre esses mitos está, por exemplo, que nossas matas serviram como uma espécie de barreira verde para o ouro das Minas Gerais, impedindo a entrada de visitantes indesejados e a saída clandestina do rico mineral. Isso é meia verdade, já que o período do ouro não durou toda a fase colonial, que teve seu auge circunscrito ao século XVIII.

    Outro desses mitos é que teria havido uma espécie de marasmo colonial, que transformou a Capitania do Espírito Santo em retardatária em relação às demais. Trata-se de ideias pouco estudadas, pouco esclarecidas e que precisam ser revistas com mais seriedade  e aprofundamento. Para nos contrapormos a essas teorias basta lembrar que, já a partir do século XVI, fomos sede de potentes empreendimentos agrícolas jesuíticos que deixaram como saldo arquitetônico as igrejas de Nossa Senhora das Neves, em Presidente Kennedy, a Basílica de São José de Anchieta, a dos Reis Magos, em Nova Almeida e a que agora se encontra em obras de restauração, em Araçatiba, além da sede do Colégio São Tiago, onde hoje está o Palácio Anchieta. Só atividades econômicas muito intensas poderiam ter proporcionado recursos para essas obras. De fato, tínhamos as maiores fazendas do litoral brasileiro, como a Muribeca, na fronteira com o Rio de Janeiro ou a de Araçatiba, em Viana.

    Isso sem falar em outro ciclo histórico, nas riquezas que o café trouxe, cultura que se consolidou na metade do século XIX e foi muito potente na primeira metade do século XX. Esse ciclo nos transformou no terceiro estado maior produtor do Brasil, enriqueceu os fazendeiros escravocratas no Sul do estado e deixou um rico patrimônio histórico na região Sul, onde se destacam os importantes sítios históricos de São Pedro de Itabapoana e Muqui. Esse patrimônio histórico também é subaproveitado no nosso turismo.

    Por falta de conhecimento elementar sobre a história do rico empreendedorismo que tivemos, pouco valorizamos esses e outros patrimônios materiais que temos como ativos turísticos importantes. Chamo a atenção desses elementos para afirmar que os nossos braços não são fracos, como costumamos cantar no hino do Espírito Santo. Não estou propondo modificações em sua letra, pois ela faz parte da história, tem as suas razões no tempo. Nossa missão é outra, é explicar para todos os capixabas que temos um passado do qual devemos nos orgulhar. Fincados nesse passado construiremos um futuro de muito desenvolvimento, distribuído com mais igualdade.

    Esses mitos, construídos em grande parte no alvorecer da república – no fim do século XIX e início do século XX – tiveram sua razão de ser. Os republicanos tinham afã de progresso. A extraordinária gestão de Muniz Freire à frente de nosso estado entre 1892-1896 e 1900-1904 mostra bem isso. Eles pretendiam crescer nos moldes positivistas, tinham pressa e ainda possuíam restos de uma luta ideológica com o passado imperial, portanto precisavam mostrar-se mais fortes politicamente. Mas isso acabou, são elementos que estão em nosso passado, são questões vencidas. A narrativa agora tem que ser outra.

    Precisamos virar esse jogo, esquecer esses mitos negativos que foram construídos no passado e usados por muitos dos que pretendiam fazer inflexões para o futuro. Isso é uma guerra que já foi vencida. Agora, para irmos mais longe, precisamos da narrativa do estado empreendedor e da construção de um imaginário social que transmita esse orgulho do passado, o orgulho de ser capixaba.

    Não se faz economia criativa, turismo e enraizamento da cultura no cotidiano da sociedade repetindo-se que não temos identidade, até porque esse é um falso sentimento. Afinal nossos braços são fortes, e é isso que importa.

  • Nacionalismos e protecionismos

    Análise traça paralelos entre o protecionismo histórico, marcado por substituição de importações e tarifas alfandegárias, e as recentes políticas de Trump.

    Quando estudamos a história econômica e empresarial brasileira, aprendemos que nossa industrialização foi bastante tardia. Enquanto a Europa já avançava na produção em massa de bens de consumo, através de indústrias, ainda estávamos imersos na economia agrícola, éramos grandes produtores de café. Nossa tímida era industrial só se iniciou no final do século XIX, com a produção têxtil e de outros itens de consumo menos sofisticados e com menor uso de tecnologia.

    Essa nascente indústria era voltada sobretudo para a produção que atendia aos setores com menor renda. Os mais abastados podiam consumir produtos elaborados em outros países, mais caros e sofisticados. Quando a Primeira Guerra Mundial impôs barreiras reais nos mares para a importação, nossas indústrias tiveram que se adaptar para atender a um mercado de classes com maior poder de consumo, ou para substituir peças de equipamentos que não poderiam ser comprados dos fornecedores estrangeiros habituais. Afinal, tínhamos que resolver as coisas por aqui mesmo.

    Assim, tivemos que começar um processo de substituição de importações de produtos que nunca havíamos fabricado. Os bens mais simples que se usam nas cozinhas das casas, como louças e talheres, por exemplo, eram produzidos aqui para as classes populares e comprados fora pelos mais ricos. Na impossibilidade de serem importados durante o conflito, produtores nacionais passaram a atender a demandas de outros setores sociais.

    Uma vez constituído esse processo como interesse econômico, começaram as pressões sobre o governo para que, com o fim do conflito mundial, houvesse condições para a continuidade da produção brasileira. Medidas governamentais foram tomadas, iniciaram-se as políticas públicas do processo da chamada substituição de importações. Grosso modo, eram formas de proteger os interesses da indústria nacional com tarifas que elevavam os preços da importação e assim viabilizavam a produção local.

    Em alguns casos era mesmo proibida a importação, como por longos anos ocorreu com algumas bebidas alcoólicas, entre elas o whisky e os vinhos, além de muitos outros produtos. Essas medidas restritivas ao consumo de produtos de outras nacionalidades permitiram que nossas empresas tivessem acesso a um mercado que não teriam em condições concorrenciais. De fato, elas cresceram e, protegendo a produção nacional, o Brasil construiu um parque industrial de grande porte.

    Entretanto, nem tudo foram vantagens. Escondidas pelo protecionismo e pelo nacionalismo dos governos, muitas empresas não desenvolveram inovações tecnológicas de importância. Acabamos tendo produtos mais caros do que os importados, e frequentemente com qualidade inferior. Esse estado de coisas só começou a ser superado no início os anos 1990, no governo Collor, quando Luiz Paulo Vellozo foi Secretário Nacional de Indústria e Comércio, órgão que corresponde hoje ao Ministério com as mesmas funções. Na ocasião, foi a secretaria sob o comando de Luiz Paulo que supervisionou esse processo.

    Nessa época teve início o salto para o processo de inovação e ganhos de produtividade que hoje se tornaram comuns no Brasil. Lembro aos leitores de tudo isso porque o governo Trump trouxe para a pauta política a questão do protecionismo, do nacionalismo produtivo, para justamente oferecer barreiras ao ingresso naquela economia de produtos com condições mais competitivas do que as produzidas localmente. Isso me parece um processo anacrônico, já muito usado no passado, mas que hoje é muito problemático.

    A brutal globalização da economia mundial criou cadeias produtivas integradas, e muito do que o consumidor hoje compra, na verdade, não tem mais uma nacionalidade específica. Um bom exemplo são os automóveis, cujas peças e partes integrantes são produzidas em muitos países diferentes. Não creio mais ser possível   haver uma política de restrição à aquisição de bens feitos em outras economias – como já foi feito no passado – sem penalizar brutalmente os consumidores.

    Os preços sobem, a inflação aumenta, uma guerra comercial se instala com severas consequências internacionais e o jogo diplomático tem que ser substituído por medidas de força. O resultado é um jogo difícil de ser controlado globalmente, ou seja, são medidas tomadas fora do contexto político em que possa ser controlado.

  • Hercílio, tantas vezes pirão

    Hercílio Pirão e seu restaurante simbolizam laços que a polarização política desfez, mas sua história inspira a esperança de que amizades e diálogo possam renascer das cinzas.

    Estávamos vivendo o início dos anos 2000, ou seja, começo do século XXI. Eu tinha uma rotina de todos os sábados: ao fim da manhã passava na Banca do Japonês, na Praia do Canto, para comprar o Jornal do Brasil. Amava ler a coluna de Danuza Leão, ela falava sobre um certo cotidiano charmoso dos sábados do Rio daquela época. Ia com minha primeira e querida neta, Júlia, pois para ela havia sempre uma publicação de interesse infantil. Ela não havia chegado ainda à idade das primeiras leituras. De lá seguíamos para um restaurante onde eu comia alguma coisa e tomava cerveja. Ela adorava saborear os pasteizinhos recheados com camarão, enquanto eu lia o jornal.

    Foi assim que avistei alguns amigos que frequentavam a varanda do Restaurante Pirão, também na Praia do Canto, e então conheci seu proprietário, o simpático Hercílio, que todos sempre chamaram de Pirão. Esse apelido ele ganhou ainda nos tempos de criança, quando trabalhava com seu pai no Restaurante São Pedro, na Praia do Suá. De lá saiu, com sua enorme carga de alegria e simpatia, que raramente o abandonavam, para montar o seu próprio restaurante, em 1982. Com Júlia passei dezenas de manhãs no Pirão, viramos frequentadores habituais, até que seus afazeres de adolescente a levaram para outros programas mais adequados à nova fase.

    Eu, entretanto, continuei a frequentar a animada mesa que chamávamos de diretoria, por brincadeira do Hercílio. E foi assim por quase duas décadas. Construí ali amizades sólidas, como as de Fabinho Nascimento, Paulo Erlarcher e delegado Júlio Cezar. Foram tardes e tardes de sábados e domingos. Comemorava-se de tudo lá: aniversários, chegadas e partidas. Como nós brasileiros gostamos, eram amizades festivas e batizadas por boas doses de deliciosas capivodkas. Vimos casamentos começarem e terminarem em conversas que estimulavam ou consolavam. Alegria era a marca sempre presente.

    No último dia 13 de março a dona morte, que um dia abraçará a todos nós, levou o nosso querido Pirão nos braços, no alto de seus 78 anos. Ele já não era mais o dono do restaurante, que lhe foi tirado de uma forma tão dura que nunca mais se recuperou do baque. Foi logo depois daquele ano de 2020, marcado pela pandemia do Corona Vírus, que tantas vidas levou e tantos negócios muito bem estabelecidos fez derreter. O grupo que ali se reunia, no entanto, foi marcado, mesmo antes do término daquela mesa dos fins de semana, por uma outra cicatriz de nossos tempos: a polarização afetiva.

    A mesma tempestade que trouxe a polarização política, que inventou discursos de ódio e uma certeza da razão em pessoas que sequer falavam em política até então – as quais nunca gastaram mais do que 5 minutos diários com essa questão – semeou ódios, desavenças e constrangimentos. Amizades foram abaladas porque os até então amigos viraram autoridades dogmáticas, uns contra os outros. Não chego a dizer que muitas uniões foram desfeitas por petismos e bolsonarismos, posto que talvez fossem mesmo acabar por outras e diversas circunstâncias. Nunca saberemos.

    Uma coisa, entretanto, é certa: a polarização política contaminou esses e outros grupos, ferindo-os de morte. Nenhuma amizade vale uma rivalidade política. Somente povos com a paixão exposta, como os brasileiros, com a sentimentalidade de nossa gente, se deixariam levar por razões tão pouco profundas para desfazer laços afetivos. Vários grupos de amigos e de famílias também foram vítimas desse tipo de comportamento, muitos foram contaminados até se tornarem insuportáveis.

    Parece que a polarização no campo da política tende a ficar menor daqui para a frente, com o ocaso natural dos dois maiores ícones de ambos lados, Lula e Bolsonaro. A mesma dama fria que abraçou nosso amigo Pirão também abraçará esses dois personagens privilegiados da cena política brasileira contemporânea. Antes, porém, ficarão senis, ou até mesmo esquecidos por seus milhões de adoradores. Enfim, deixarão em paz as velhas amizades que um dia morreram para defender vagas ideias ou comportamentos anacrônicos.

    O mesmo vento de bonança que um dia poderá trazer solução menos radical na política, dessa vez mais no eixo da compreensão, solidariedade e cooperação, talvez traga de novo a magia do entendimento, do amor e da amizade que sempre uniram essa sociedade tão extraordinária que todos nós construímos no Brasil, a despeito das enormes injustiças e desigualdades sociais.

    Vou retomar meus sentimentos sobre Hercílio Pirão para encerrar esta coluna em forma de homenagem e despedida. Quero para sempre ter na lembrança a boa pessoa que era, o exemplo de um ser humano especial, que, com sua alegria e simpatia, deixou todos que com ele conviveram um pouco melhores, mais leves. Foi um homem feliz, apesar das armadilhas que a vida lhe fez, dos sustos que a saúde lhe deu e das dores que, afinal, todos temos.

  • A realidade e seus contrários

    A nova ordem mundial em construção: entre a assertividade de Trump, o poderio chinês e a fragilidade das instituições globais, o futuro geopolético se desenha entre riscos e possíveis equilíbrios.

    A publicação regular de artigos semanais, como venho fazendo há alguns anos, possibilita a interlocução com os leitores sobre os temas abordados, facilitada pelos aplicativos de mensagens, como o WhatsApp. Muitos são os amigos com os quais perdemos a convivência diária. Um deles, amigo há muitos anos, – desde que almoçávamos, nos fins de semana, em um grupo sempre animado no Restaurante Pirão, na Praia do Canto – é Júlio César. Formávamos uma mesa animada,  “a diretoria”.

    Quando discutimos os meus artigos, nossas opiniões não obrigatoriamente convergem, mas sempre me enriquecem e colaboram na construção de novas abordagens. As conversas que tenho tido com ele e com outras pessoas que gostam do intercâmbio de informação estimulam as trocas de opiniões, sempre muito positivas.

    Em uma dessas conversas recentes dialogamos sobre o início do segundo governo de Donald Trump. Eu havia registrado minha perplexidade sobre a sua postura agressiva, como personalidade política e como o dirigente mais poderoso do mundo, em relação aos mecanismos e instituições que regulam as relações internacionais. O argumento que havia desenvolvido no artigo sobre o qual falávamos dizia respeito às reações às medidas tomadas por seu governo, que vão se organizando em todo o mundo. Ou seja, muito do que vai passar a acontecer não ocorrerá obrigatoriamente como foi pensado pelo presidente dos Estados Unidos, e nem poderia ser, já que cada governo tem a sua reação.

    Como dizia o filósofo político Cornelius Castoriadis, os atores não dominam os processos que iniciam, e assim vai sendo gerada uma nova ordem mundial, um novo arranjo de articulação das relações entre os países. Quando a primeira guerra mundial acabou, não se acreditava que fosse possível haver uma outra que envolvesse os países europeus. A segunda grande guerra mundial, porém, foi ainda mais avassaladora, envolveu um maior número de países em vários continentes e deixou mais de 60 milhões de mortos, além de uma devastação generalizada. Somente o lançamento das duas bombas atômicas sobre cidades japonesas já seria, em si mesmo, uma tragédia.

    Os grandes líderes e dirigentes do mundo que saiu da guerra, na segunda metade dos anos 1940, construíram instituições e normas que garantiram quase 80 anos de paz entre os países mais importantes do globo. No final dos anos 1980 falava-se do “fim da história”. Afirmava-se que o sistema democrático e liberal baniria as guerras e que o futuro das nações seria muito parecido. Entre as instituições que garantiram a paz estavam a ONU, a OTAN e um vasto número de acordos com base em noções de direito internacional que foram enraizados e praticados com naturalidade.

    Entretanto, essa estabilidade mostrou-se mais frágil do que parecia, pois ao longo do tempo algumas fontes de desiquilíbrio foram se instalando. Entre elas chama a atenção a força que a China adquiriu. O país é hoje uma espécie de fábrica de todo o mundo, com enormes reservas financeiras e uma capacidade de influenciar decisões que sequer seria sonhada quando segunda guerra mundial acabou. A China é um país totalmente imerso no capitalismo global, mas não se trata de uma democracia. É uma ditadura comandada por um rigoroso partido comunista. Essa direção autoritária pode impor aos chineses estilos de vida que dão enorme vantagem competitiva ao país, mesmo que à custa da liberdade individual de grande parte de sua enorme população,  gerando grande produção e baixo consumo.

    Esse novo entrante no ciclo privilegiado das grandes nações do planeta desequilibrou muito o jogo, mas não se trata apenas disso. Estou sendo muito simplista para dar uma visão mais genérica do que está acontecendo. É a busca por um novo arranjo internacional, que levou o eleitorado estadunidense a escolher Donald Trump como presidente, o qual já começou seu mandato embaralhando tudo. Dono de um estilo teatral, espalhafatoso e prepotente, ele faz ameaças às economias que representam qualquer risco à dominação que os Estados Unidos vinham exercendo há quase um século.

    Aqui é que entram os meus diálogos com Júlio César, nas consequências reais desse rearranjo das forças do planeta em torno de uma nova ordem internacional. Pode ser que nem todas sejam negativas. Um exemplo poderia ser a necessidade de a América Latina se organizar em torno do desejo de um grande número de países diferentes entre si. Outro seria a união dos vizinhos da Palestina, como o Egito e outros países do mudo árabe, para elaborarem uma alternativa de reconstrução da Faixa de Gaza, longe da proposta do resort de Trump. Pode-se ainda citar a expectativa de a Europa puxar uma nova organização de instituições que exclua os Estados Unidos.

    Acredito que existam as condições hoje para um confronto armado entre EUA e China, que passe a envolver também inúmeros países. Uma nova guerra mundial. Pode ser ainda que, dentro de uma perspectiva tensa e cheia de perigos, surja um novo equilíbrio. Só o futuro dirá.

  • Lideranças esgotadas

    Análise aponta que a polarização política, agravada pela desconexão com evangélicos e jovens, explica a erosão de apoio ao governo Lula e projeta cenário desafiador para 2026.

    emos visto, quase que diariamente, nos meios de comunicação, o crescimento do descontentamento dos brasileiros com o terceiro governo do presidente Lula. Grupos sociais como as mulheres e eleitores de territórios como os do Nordeste chamam a   atenção nas quedas nas pesquisas. Os níveis de descontentamento, entretanto, são generalizados, não são fenômenos de bolhas sociais. Trata-se de algo mais amplo.

    As especulações sobre as razões que levaram o governo quase à lona têm sido feitas com muita frequência e nos mostram pontos importantes do processo de erosão da sua popularidade. Entretanto, é importante chamar a atenção para alguns pontos fundamentais no quadro de dificuldades ora instalado, o qual fatalmente complicará a situação do governo frente à sua própria sucessão, em 2026.

    Em primeiro lugar, acredito que a maioria dos petistas não se deu conta de que foi mais Bolsonaro quem perdeu do que Lula quem ganhou a eleição de 2022. O ex-presidente teve crédito político ao organizar entorno de si o que podemos chamar de nova direita brasileira. Costurou com perfeição pontos concretos de insatisfação com o sistema vigente, agudizados pela incapacidade da então presidente Dilma Roussef para gerir a política.

    O mérito de Bolsonaro e seu grupo foi perceber a força de renovação conservadora que portam os evangélicos, até então desprezados pelos políticos tradicionais e por intelectuais de uma forma geral. Ouso dizer que o fator chave que dá densidade ao pensamento dessa direita que hoje temos no Brasil é o cristianismo conservador. A Argentina, por exemplo, que não tem a mesma potência política dos evangélicos, busca sustentar o governo de Milei nas forças econômicas e de mercado. Aqui a narrativa reacionária cumpriu um papel eleitoral definitivo.

    Essa nova direita venceu as eleições de 2018 comandada por Jair Bolsonaro e provocou uma disruptura totalmente inesperada, com derrotas importantes na maioria dos estados brasileiros. Entretanto, o governo que saiu das urnas nesse processo teve resultados muito ruins, com poucas entregas. Podemos dizer que Bolsonaro perdeu as eleições porque falou demais, tentou fazer muita graça e errou nos deboches da pandemia. Além disso, massacrou a cultura, as universidades e a ciência, de forma geral.

    Lula deu aos setores que perderam em função dos excessos e incompreensões de Bolsonaro uma esperança de superar o atraso que estava colocado: ameaças ao meio ambiente, aos povos indígenas e às comunidades quilombolas, por exemplo. Creio que boa parte dos eleitores de Lula em 2022 esqueceu, naquele momento, o antipetismo e foi às urnas para evitar um segundo governo Bolsonaro. Creio mesmo que  Bolsonaro perdeu por merecimento, ao passo que Lula ganhou jogando parado, impulsionado pelos erros do seu adversário e pela memória de seus feitos em governos anteriores.

    Vencer uma eleição e montar um governo, quando boa parte dos seus eleitores não tem mais encantamento com sua liderança, não é simples. Sem o magnetismo pessoal de outros tempos e sem adesões emocionais fortes, como gostam os brasileiros, o governo começou tentando montar velhas lógicas. Nada de muito novo apareceu, destacando-se a repetição de antigas lideranças que acompanham Lula há décadas. O atual governo precisava ter encontrado novos eixos de relação com a sociedade, mas ao que parece não os encontrou, daí o mau desempenho nas pesquisas.

    Vou ficar em dois exemplos: evangélicos e juventude. O governo do PT não encontrou meios de estabelecer uma relação qualificada com o mundo dos que antes chamávamos de crentes. Ficou na superfície, não trouxe nenhum quadro novo saído desses setores sociais e nem incluiu as demandas evangélicas nas políticas públicas. As suas redes de trabalhos sociais não foram beneficiadas, seus líderes também não. A prosperidade que desejam ficou nos discursos da direita.

    As juventudes, sobretudo as de periferia, mas também as dos setores médios, com sua arte inovadora, seu engajamento nas redes sociais, seus desejos de igualdade e liberdade, não são compreendidas pelo atual governo. Na pior das posturas, Lula não fala para os jovens mais conservadores evangélicos e nem para os mais ligados aos temas identitários da classe artística, dos coletivos urbanos ou do público universitário.

    O fato de ter vencido Bolsonaro ficou no passado. É preciso ir adiante no enfrentamento das velhas questões nacionais. O Brasil pode ter uma eleição presidencial no ano que vem sem as duas velhas raposas, e aí o novo se imporá. Parece ser esse o nosso caminho,  buscando benefícios para todos, longe das ideologias que não geram bons governos.

  • Capitalismo violência e progresso

    A construção do capitalismo no Brasil reflete uma articulação desigual entre o arcaico e o moderno, com os coronéis industriais como principais agentes dessa transformação

    As diferentes sociedades no mundo tiveram, cada uma delas, os seus agentes de promoção ao capitalismo, sobretudo no século XIX. Foram eles que ajudaram, de forma especial, a fazer a passagem dos antigos sistemas econômicos tradicionais para as formas automatizadas de produção.  Sendo um pouco simplista, posso afirmar que também impulsionaram a sociedade aos padrões modernos de consumo.

    No caso da maioria dos países europeus esses agentes foram os industriais, além dos trabalhadores em suas fábricas. Os primeiros livros que tratam dessa transformação econômica e social, como A Riqueza das Nações, de Adam Smith, escrito no século XVIII, ou mesmo o do pai administração moderna, Frederick Taylor, com o seu Princípios de Administração Científica, já no início do século XXdescrevem sob diferentes ângulos o mesmo processo de criação de novos valores sociais.

    Na gênese, Adam Smith faz as primeiras reflexões de que se tem notícia sobre a especialização no mundo do trabalho, citando o caso do aumento de produção que ela provocou em fábricas europeias do seu tempo. Creio que poderíamos chamar esse fenômeno de ganhos de produtividade, com o fracionamento do trabalho. Os trabalhadores especializados nas fábricas produziam muito mais do que os antigos artesãos das corporações de ofício medievais, essa era a tese.

    Quanto a Taylor, engenheiro nascido nos EUA, suas reflexões já foram produzidas em um sistema não só especializado, mas também automatizado pelas máquinas movidas a vapor ou, sobretudo, pela energia elétrica. Em ambos os casos, com perspectivas analíticas muito diversas, o que temos é o enaltecimento de um mundo novo, que foi surgindo com muita velocidade, sendo hoje hegemônico.

    Olhando esse movimento de um outro ângulo, Karl Marx, em O Capital, ou no Manifesto do Partido Comunista, escrito junto com Engels, concebeu uma teoria sobre o papel dos conflitos entre a classe operária e os detentores do capital.  Mostrou as perdas que os operários tiveram até então, concebendo os conflitos entre essas duas classes como o motor da história. Ou seja, Marx deduziu que devemos a esses conflitos os movimentos dos avanços sociais possíveis, portanto os operários deveriam insistir neles e se organizarem para as lutas que certamente viriam.

    No caso brasileiro, o que se passou foi bem diferente. Aqui não observamos os mesmos movimentos da sociedade construindo novos modos de produção. De forma diferente, foram os proprietários do capital agrícola e comercial que importaram novos equipamentos produtivos, iniciando outra etapa de produção, agora industrial. Foram os antigos usineiros, ou outros capitalistas nacionais, que importaram máquinas e tecnologias para a produção de açúcar, já no século XX, e esse é apenas um exemplo.

    Esses antigos usineiros, comerciantes de açúcar, eram os nossos velhos coronéis. Os homens poderosos do início do século XX no Brasil republicano eram coronéis na sua quase totalidade. Era o nome que as pessoas pobres e dependentes desses senhores davam a todos os que tinham alguma fortuna. Assim, os homens poderosos e relativamente ricos daquela época eram chamados de doutores, se o fossem, ou de coronéis. Eles foram os agentes de construção do nosso capitalismo moderno, ainda que tivessem muitas marcas dos potentados rurais descritos por Raymundo Faoro em Os Donos do Poder.

    Portavam o que os republicanos positivistas chamavam de progresso: as novas máquinas, os novos estilos de vida que a industrialização permitia, a vida urbana com luz elétrica, as ferrovias, o cinema e outras modernidades da época. O grande industrial de origem cearense Delmiro Gouveia construiu em 1911 em Alagoas uma fábrica de linhas com uma vila operária que possuía requintes urbanos, destacando-se na região. Farmácias, serviço médico, luz elétrica. Em tudo lembrava uma vila inglesa, menos em um detalhe: quem infringisse as normas, como trabalhar descalço ou não fazer uso regular dos serviços de saúde, era tratado no chicote.

    Em tudo Delmiro Gouveia expressou o coronel industrial que estou descrevendo, portador do progresso das novas técnicas produtivas consolidadas no século XX, mas ao mesmo tempo trazendo a marca indelével das elites brasileiras acostumadas a tratar o povo com brutalidade. Violência e progresso nas mesmas mãos, esse é a marca da construção do nosso capitalismo. O coronel foi o seu grande agente, talvez por isso o nosso imaginário da modernização una de forma tão cabal os velhos métodos de trabalho vindos da escravidão com as novas tecnologias industriais. Essa articulação desigual entre o arcaico e o moderno é marca da civilização brasileira, como muito bem vem registrando Roberto DaMatta ao longo de sua obra, que explica os dilemas da sociedade brasileira.

  • A reação às mudanças

     

    O início do século XX foi um período de muitas transições sociais em todas as sociedades ocidentais. Relatos sobre essas mudanças estão presentes no excelente livro de crônicas de João do Rio A Alma Encantadora das Ruas, que reúne seus textos publicados imprensa carioca no início do século XX. Ele que foi o cronista por excelência do Rio de Janeiro da Belle Epoque. Fica claro, na leitura, o impacto das transformações pelas quais o mundo ocidental passava. Não deve ter sido essa a intenção mais forte do autor, provavelmente foi fazer denúncias do desprezo das elites da época pela população pobre, e sem direito a cidadania. Também trata da força dessas pessoas que viviam longe das elites, abandonadas. As crônicas são de uma elegância que fazem sua leitura muito agradável, apesar do conteúdo forte.

    Entretanto, quando buscamos uma compreensão mais sociológica do que escreveu João do Rio, observamos o impacto enorme que trouxeram as mudanças das novas invenções no cotidiano das pessoas comuns. São a energia elétrica, o telegrafo, as locomotivas a vapor, o automóvel, o cinema e tantas outras. Ele aborda personagens de um mundo que ia morrendo como os veículos de tração animal e seus condutores, por exemplo.

    Deixando o Rio de Janeiro, e indo para o cenário europeu, podemos imaginar uma Paris com metrôs e os primeiros aviões experimentais, dos balões dirigíveis e dos aviões de Santos Dumont. O cotidiano das maiores cidades mudou enormemente e, tempos depois, veio o rádio que modernizou a comunicação e criou aquela música que chegava às multidões, como o samba de Noel Rosa no Brasil.

    Penso nisso para fazer um paralelo entre as modernidades do começo do século XX e as brutal reação que representou o nazismo nesse mundo em transformação. Não sei exatamente o peso do confronto entre modernização e atraso na construção dos enfrentamentos políticos nas diferentes sociedades europeias. Muitas viveram o crescimento e a ascensão da extrema direita:  Alemanha, Itália, Espanha ou Portugal. Enfim, o fato concreto é que essas diferenças de comportamentos e expectativas dentro das nações acabou levando a Segunda Guerra Mundial, conflito que matou milhões de pessoas, em praticamente todos os continentes. Não ouso afirmar que essas foram as principais razões da guerra, mas ela não existiria sem o ingrediente beligerante que já estava colocado.

    Hoje as mudanças são outras, mas temos que reconhecer que a complexidade das inovações trouxe também transformação nos nossos cotidianos. Para ficarmos em um exemplo forte, pensemos no movimento identitário, que já tem longa jornada em muitas e diferentes sociedades. Nos Estados Unidos, começou com as lutas do fim dos anos 1960 como o movimento negro ou a libertação das mulheres à submissão ao mundo masculino, dentre outros. Produziu heróis como Martin Luther King e foi muito absorvido pela ala mais à esquerda do Partido Democrata, e atualizou muito sua pauta de lutas. A gestão Obama, por razões raciais óbvias acirrou os conflitos. A reação republicana deu-se com a eleição de Donald Trump em 2016.

    O presidente Trump conduziu, em seu primeiro mandato, forte reação às essas políticas identitárias, mas também agregou a isso forte desilusão com o sonho dos cidadãos estadunidenses, vindo do pós-guerra, como a nação mais potente do mundo. Ela era capaz de distribuir bem-estar a maioria de seus habitantes.  A reação brutal organizada pelo novo presidente articula pelo menos essas duas instâncias. É muito enraizada no imaginário daquele povo.

    Todo processo de mudanças produz desconforto a quem estava bem instalado antes dele, como é o caso das nos Estados Unidos das elites ricas e brancas, sobretudo os homens e os de espírito mais conservador. É um sentimento até natural, mas que tende a se transformar em lutas internas importantes. Há um século, foram anos entre o nascimento da reação ao novo, o embate da Primeira Grande Guerra Mundial e a ascensão do nazismo e do fascismo. No mundo atual tudo é muito mais rápido, a dimensão digital também acentuará a velocidade os problemas advindos do surgimento de um movimento estruturado na reação às mudanças, hoje já instaladas também no terreno da economia como estamos vendo nas super taxações do governo Trump.

    Explodirão grandes conflitos entre nações do mundo, seus nacionalismos recém trazidos à tona, seus espíritos de reação às mudanças de comportamento e de valores morais, tendem a ser estopins poderosos a desentendimentos que podem se espalhar por muitos países, a começar pelo mundo árabe. Muito vai acontecer ainda este ano.