• A violência policial

    A violência não é apenas um traço do passado, mas um desafio do presente que exige reflexão e ação coletiva.

    A violência é um dos traços mais marcantes do Brasil, desde sempre. Ela é a marca histórica de uma sociedade que foi fundada pelos portugueses a partir de relações assimétricas não só com indígenas e africanos escravizados, mas também com os estratos menos favorecidos dos que vieram da Europa.

    Fomos fundados naturalizando relações violentas entre todos os membros desta nossa sociedade em que a vingança foi sempre moeda de ajuste de contas, feita com sangue. No regime escravocrata, que reinou entre nós por mais de 300 anos, o açoite era forma de punição e de implantação do medo. Sem o domínio medo a escravidão não se sustentaria.

    A coesão social das elites sempre se fez com o cabo do chicote na mão. A naturalização da violência é uma marca muito perversa. Os poderosos, sentindo-se donos da lei,  entendiam poder usá-la quando quisessem e contra quem escolhessem. É claro que os mais vulneráveis sempre foram os principais objetos das punições desmedidas e também dos ódios gratuitos, das relações de classe as mais odiosas.

    Mesmo a modernização da nossa sociedade, trazida pelo republicanismo dos positivistas, pelo progresso material e das bases produtivas nacionais, foi feita com essa herança histórica. Basta observarmos como agiram os coronéis com a sua ideia de progresso e de melhoramentos, os verdadeiros agentes do capitalismo brasileiro. Mesmo que eles tenham marcado com seu estilo mais desenvolvimentista o enriquecimento trazido pelo café, pelo cacau, pela borracha, pela industrialização e os beneficiamentos por meio de novos serviços públicos, ainda assim eram figuras muito violentas.

    Cada um dos grandes coronéis da segunda metade do século XIX e do início do século XX, grandes proprietários de terra, com suas milícias privadas – seus pequenos exércitos – distribuía uma ordem e uma justiça que lhes eram muito particulares. Eles ainda portavam traços herdados da situação colonial. Muito tardiamente ainda permanecia entre nós essa naturalização da violência.

    Analisei em alguns artigos essas marcas em grandes autores da literatura capixaba. Em todos eles consta que as delegacias do interior eram lugares onde se distribuíam bordoadas, segundo critérios socais, em pretos, pobres, gente sem propriedade. Os pobres sempre foram os que sofreram no próprio pelo as dores dessa nossa tragédia social.

    A violência sempre se deu sobre os elos sociais mais frágeis, somente para lembrar a todos como se construíram as formas como vivemos a violência policial no Brasil. Assim, os fatos largamente noticiados sobre o que anda se passando na ação da Polícia Militar de São Paulo são comuns a todas as forças da ordem no Brasil. O crescimento recente de setores de extrema direita, sua defesa do porte de armas pelas pessoas comuns, seu suporte ao retorno de padrões ditatoriais de gestão do estado e do aparato policial, certamente agudizaram muita coisa, mas estão longe de ser a origem desses fatos. Claro que as palavras têm poder. Não se pode glorificar atos selvagens. Os gestos mal pensados dos atuais donos do poder nada têm de dignificante. Eles devem mesmo se desculpar perante a população, afinal seus atos ou omissões foram gatilhos para situações horríveis. Os dispositivos internos das Polícias Militares, feitos para beneficiar e proteger  os profissionais mais violentos, devem ser extintos.

    Entretanto, o mais grave de toda essa questão da violência policial, muito noticiada em São Paulo, é que os dirigentes não se desculpam em público dizendo exatamente o pensam, são desculpas de fachada. Todos conhecem bem suas posturas de defesa permanente e até celebração dos atos violentos, que infelizmente soam como música aos ouvidos de milhões de brasileiros. Isso é o que parece ser a questão mais densa das nossas heranças culturais, das nossas raízes imaginárias sociais. Como é que se instituiu uma sociedade na qual, independentemente de seu lugar social, as pessoas aprovam o uso indiscriminado da força contra meros suspeitos? Nessa sociedade, quem vive nas favelas e periferias é sempre tratado como se fosse bandido pelas autoridades da ordem.

    Está claro onde se localiza essa raiz, a origem desse fenômeno na nossa jornada histórica como sociedade, com a naturalização de padrões que nunca poderiam ser admitidos como naturais e na forma como essa realidade é vivida por grande parte dos brasileiros. A ação pedagógica de punir os atos violentos das forças da ordem não deveria dizer respeito somente aos dirigentes e policiais, embora eles sejam os atores sociais chave, mas sim a toda a sociedade, especialmente na parcela da população que aceita, apoia, justifica e naturaliza grandes barbáries.

  • Eles ainda estão aqui

    Filme “Ainda Estou Aqui” revive os horrores da ditadura e emociona o público ao narrar a história de Rubens Paiva.

    Assisti, há alguns dias, o extraordinário filme de Walter Salles Ainda Estou Aqui. Fiquei muito emocionado e entristecido, como quase todos os milhões de brasileiros que têm ido aos cinemas para mergulhar por algum tempo nos anos de chumbo que infelizmente vivemos no Brasil. O extraordinário texto de Marcelo Rubens Paiva, que é a base do roteiro, o desempenho dos atores, em especial o de Fernanda Torres, tudo nos leva ao despertar das nossas emoções.

    O que mais chama a atenção é o modo como o exército brasileiro foi capaz de sequestrar um bom pai e marido carinhoso, um político que fora cassado e que tentava reconstruir sua vida na iniciativa privada, na área de construção civil no Rio de Janeiro. Em seguida o exército levou Rubens Paiva como prisioneiro para dentro de uma de suas dependências para matá-lo, como foi anos depois comprovado. Mais do que isso, penso em como puderam levar sua esposa – na verdade já viúva, sem o saber, visto que os documentos oficiais atestaram a morte do prisioneiro 24 horas após o sequestro – para um lugar sórdido, de forma proposital, para que ela ouvisse os gritos de outros presos sendo torturados.

    Tudo ao que assistimos no filme é assustador, tanto que o público permanece em silêncio profundo e sai da sala da sessão com olhos vermelhos de chorar pelo que acabou de ver. Choramos, na verdade, os muitos mortos por aquele regime de horror, que enquanto produzia o chamado milagre econômico, enquanto ficava popular entre os setores médios da população, matava os seus críticos. Os que acompanharam as matérias recentes sobre o crescimento do crime organizado no Brasil viram que figuras como o Capitão Guimarães nasceram naquelas masmorras que mataram Rubens Paiva e torturaram psicologicamente a admirável Eunice Paiva.

    O filme não retrata só o passado, ele também trata do presente entre nós. Vimos agora, pelo indiciamento em processo da Polícia Federal que, no governo brasileiro que perdeu as eleições de 2022, houve um movimento pelo retorno dos governos como aqueles que mataram Rubens Paiva de forma covarde. Não apenas ele, mas milhares de outros opositores, em sua enorme maioria jovens. Mais do que isso, um  recente ex-governante do nosso país ameaçou interromper o processo democrático  inúmeras vezes, como quando desfilou com seus velhos tanques em Brasília.

    Certamente a anistia dada aos torturadores em 1979 foi um grande equívoco, um dos maiores erros na construção democrática brasileira dos anos recentes. Nenhuma violação como aquela que vimos em Ainda Estou Aqui foi investigada ou apurada, nenhum daqueles gorilas que faziam pingar sangue do corpo de inocentes teve seus atos trazidos a público para o julgamento da sociedade. Tanto que talvez aquele que tenha sido o mais brutal dos torturadores do regime militar, o coronel cujo nome não merece ser citado, foi homenageado pelo então deputado Jair Messias Bolsonaro ao votar pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Só isso já mereceria sua cassação, se os crimes cometidos pelo regime militar tivessem sido apurados pela justiça e o torturador homenageado houvesse sido devidamente condenado pelas  atrocidades que cometeu. Outro fato a ressaltar, como muito bem registrou o jornalista Vitor Vogas em artigo recente, que Marcelo Rubens Paiva relata que Jair Bolsonaro, quando deputado federal, literalmente cuspiu no busto erguido em memória de Rubens Paiva na Câmara dos Deputados, em Brasília.

    Um candidato a tirano tentar dar um golpe com a ajuda de um certo número de oficiais das forças armadas já é em si espantoso, mas o que me parece mais difícil de entender é como milhões de brasileiros ainda apoiam uma atitude como essa. É comum observarmos pessoas da nossa convivência, seja dos setores médios ou mesmo dos meios populares, ainda defenderem com vigor a volta dos governos ditatoriais ou, no mínimo, aprovarem os gestuais autoritários que dão passagem às narrativas pela suspensão do estado democrático.

    Para não irmos mais longe, basta lembrar das multidões que se aglomeravam diante dos quartéis pedindo que um golpe impedisse a posse do presidente eleito em 2022. Vindas de uma sociedade violenta como a brasileira e sujeitas às mentiras que circulam pelas redes sociais, muitas pessoas de bem cederam e cedem ao discurso fácil dos populistas de direita. O que me parece é que o pesadelo da família de Rubens Paiva não é um fato sobre o qual possamos ter certeza de que não voltará; não ainda. Talvez um passo importante seja a condenação, agora, para servir de lição, daqueles que querem articular o retorno do regime cruel que infelicitou a vida de tantos brasileiros.

  • Nossos extremismos.

    O impacto da violência e das redes sociais na radicalização política do atual cenário do Brasil.

    As notícias no campo da política nas últimas semanas estão tomadas pelo extremismo, por um certo número de atos violentos que até bem pouco tempo não eram comuns no Brasil. Antes pelo contrário, nossa sociologia sempre falou do homem cordial e do caráter mais alegre de nossa gente, de relações menos tensas na nossa sociedade. Nós sabemos que boa parte dessa cordialidade esconde nossa natureza hierarquizada, violenta e impregnada de um machismo tóxico. O coronelismo que marca nossa história política é prova concreta disso. No tempo dos coronéis os grupos armados que sustentavam o poder no interior do país eram muito comuns, assim como a pressão que eles exerciam sobre os mais vulneráveis. A troca ostensiva de votos por favores é outra dessas marcas.

    De fato, a violência sempre esteve bem presente na nossa política, mas não da forma como está instituída hoje. Estamos vivendo um momento diferente, em que passamos a conviver com práticas ligadas à divisão por ideologias e por grupos de lideranças. De modo contrário ao que historicamente sempre vimos, com as grandes disputas nos municípios ligadas às eleições, agora temos um processo mais permanente, que nos acompanha todos os dias e em todas as instâncias, atingindo um nível de radicalização muito alto.

    As notícias que nos chegam falam de um homem-bomba em Brasília – ao que eu saiba, o primeiro da história política brasileira – além da tentativa de assassinato do Presidente da República, de seu vice e do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Todos esses são fatos novos entre nós. Eu arrisco afirmar que na política a violência subiu de escala, passando a fazer parte do nosso cotidiano de forma diferente. Nem mesmo os golpistas de 1964 foram tão longe.

    Até alguns anos atrás havia disputas acirradas que dividiam famílias e cidades. No tempo dos velhos partidos – PSD, UDN, PTB e outros – cada reduto eleitoral tinha seus chefes políticos, que controlavam a vida e os cargos públicos. Quando os chefes disputavam as eleições os seus partidários ficavam inflamados, o que sempre gerava algum enfrentamento mais vigoroso.

    Passados esses momentos todos voltavam à antiga convivência, toleravam-se bem, mesmo que cada bolha buscasse seu espaço. O atual tempo das redes sociais, porém,  mudou tudo isso. Agora o relativo anonimato, a comunicação massiva, os grupos de whatsapp, nos quais todos se expressam de forma muito convicta, gerou uma possibilidade de conflito que antes não estava colocada. Creio que mereçam atenção especial as chamadas fake news, em bom português as mentiras mesmo. O mundo das redes sociais é o campo das intrigas, das maledicências e das provocações. Como é tudo muito novo, não há regras capazes de conter a mentirada que rapidamente se espalha.

    As pessoas mais velhas, que já se encontram fora do mundo do trabalho e das múltiplas ocupações do dia a dia, e portanto têm mais tempo disponível, são as mais vulneráveis. Como entraram tarde nesse novo universo digital, deixam-se levar pelas mais grosseiras montagens, divulgam farsas elementares julgando que estão contribuindo para uma revolução, para denúncias graves. Não se dão conta de que são um exército iludido de pessoas bem intencionados a serviço de uma ordem que não se sabe onde está.

    As redes sociais passaram a ser o lugar do extremismo político, onde milhões de analógicos divulgam o que não sabem se é verdade e sem nenhuma consequência. Desse modo, o universo das intrigas, que sempre fez parte das nossas vidas, passou a alcançar outra dimensão.

    O nosso mundo da fofoca e da violência ganhou a potência das redes sociais. Nesse mundo, os novos líderes – com destaque especial para os extremistas de uma nova direita –  desempenham um papel especial. Os horrores do machismo, de um patriotismo anacrônico, de patamares de linguagem chula e violenta viraram o playground dos avôs e das avós brasileiras. Dessa forma foi aos poucos se naturalizando uma violência verbal que antes não havia entre nós, pelo menos não nessas proporções. Os homens-bomba, aqueles que quebraram tudo no prédio do Supremo Tribunal Federal, aqueles que apoiam os que desejam matar o presidente, nascem todos nesse metaverso. São levados a pensar podem tudo.

    A defesa da liberdade de agressão marca a narrativa política dos novos tempos e dos velhos senhores e senhoras do nosso mundo social. Daí nascem desejos que pareciam sepultados, como o do retorno da ditadura militar, que terminam por se disseminar no seio das famílias mais conservadoras. Creio que isso está longe do fim. Somente com a disciplina nas redes sociais, com a criminalização do compartilhamento irresponsável de mentiras, esses ataques virtuais começarão a diminuir. Até lá precisaremos de muita paciência e diplomacia para lidar com esse novo universo virtual cheio de homens-bomba, de amigos e familiares com seus discursos inflamados e agressivos nas mensagens pelas redes sociais.

  • A força de Max Mauro

    Faleceu recentemente o ex-governador Max de Freitas Mauro, que dirigiu o Espírito Santo entre 1987 e 1991. Foi um grande expoente da nossa política. Democrata convicto e homem de expressivo valor moral, teve a trajetória de um grande capixaba. A ele dei meu primeiro voto, quando foi eleito prefeito de Vila Velha, em 1970. Era, na época, um médico humanitário com seu consultório aberto na Prainha, região central do município. A forma como lidava com as dores do povo chamou a minha atenção, por seu caráter assistencialista. Era já muito reconhecido pelos setores mais pobres da população.

    Max Mauro não vinha apenas de uma vertente política de maior dedicação ao atendimento popular. Ele era filho de uma antiga liderança trabalhista e getulista, Saturnino Mauro, um dos fundadores do antigo PTB em nosso estado, que havia sido deputado estadual constituinte e sempre lutou em prol dos setores que o trabalhismo defendia: os sindicatos, os trabalhadores, as políticas sociais, sempre voltado às causas populares. Foi nesse berço político, portanto, que se forjaram as marcas do nosso ex-governador.

    Max fez de seu mandato de estreia na política um período muito voltado para a construção das relações do poder público municipal com as comunidades, para além  da afirmação de sua liderança política. Os movimentos comunitários dos bairros mais carentes de Vila Velha eram uma forma de dar voz a tantos que não tinham como se fazer ouvir. Havia uma política pública democrática e voltada para o fortalecimento dos movimentos de participação popular. É bom lembrar que estávamos no período de força dos governos militares, vivendo o que ficou conhecido como o milagre brasileiro, capitaneado pelo ministro da fazenda Antônio Delfim Neto, com várias vitórias no campo econômico.

    Max Mauro foi um dos criadores do MDB – Movimento Democrático Brasileiro -, partido através do qual governou Vila Velha e fez uma política de oposição aos governos militares. Findo o seu período na gestão municipal e graças ao bom mandato que construiu, elegeu-se deputado estadual. Na Assembleia Legislativa lutou bravamente pelo fim do período de exceção em que vivíamos. Por conta da qualidade de sua participação na Assembleia Legislativa ele foi eleito logo depois deputado federal, ocasião em que também ajudou a criar o PMDB, novo formato do seu antigo partido.

    Os seus anos de luta em Brasília contra o arbítrio o consagraram como político de aspirações regionais, pois seu mandato teve também forte repercussão entre os capixabas. Por essa razão disputou contra Gerson Camata, em 1982, a convenção do PMDB para a escolha do candidato do partido ao governo do estado. Camata venceu a convenção e Max foi mais uma vez candidato eleito a deputado federal. Em 1986 finalmente elegeu-se de forma consagradora para governador do nosso estado, tendo vencido o muito prestigiado ex-governador Élcio Alvares, passando assim a ocupar o mais alto cargo do poder político capixaba.

    O período governamental de Max Mauro foi marcado por sua franqueza e honestidade, com uma postura ética que de fato muitas vezes o conduziu a medidas de centralização que lhe garantissem o controle dos gastos. Marcou o seu governo a instalação do Sistema Transcol, que impactou de forma muito positiva o transporte coletivo na região metropolitana. Além disso, criou a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e o nosso sistema de defesa ambiental, além de nova legislação e órgãos descentralizados para a sua execução.  O ex-prefeito de Guaçuí, Luiz Moulin, foi primeiro secretário da nova pasta.

    A boa avaliação que teve ao final de seu governo o levou a eleger seu sucessor, o então Secretário de Planejamento Albuíno Azeredo. Candidato uma vez mais ao governo do estado em 1994, Max Mauro não obteve êxito, mas foi novamente eleito deputado federal em 1998.  Por todos esses e ainda muitos outros motivos, que não cabem neste nosso espaço, devemos de fato homenagear o grande político que acaba de partir. Ele dignificou e honrou o nosso estado, inclusive nos pleitos em que não saiu vencedor, pois nunca se dedicou a desconstruir seus adversários fora da arena política, mantendo seus enfrentamentos sempre na lógica das lutas que se travam no espaço público. Foi, por certo, um homem honrado e merecidamente alcançou o panteão dos mais notáveis capixabas.

  • A matriz política dos evangélicos brasileiros

    Muito se tem discutido sobre a influência que a eleição de Donald Trump terá no pleito brasileiro de 2026, especialmente na escolha do nosso próximo presidente da República. Há um projeto da direita mundial que certamente será favorecido com a escolha feita agora pelos estadunidenses, inclusive no Brasil e nas próximas eleições.

    Entretanto, não creio que o homem mais poderoso do planeta irá se importar com qual liderança brasileira será beneficiada. Provavelmente é mais importante para ele a manutenção do processo político em patamares conservadores do que propriamente o nome do vencedor. Substituir a esquerda no poder aqui deve ser mais importante do que tentar se envolver com o nome do candidato que será eleito.

    Creio mesmo que algumas instituições que povoam a cena política no Brasil serão fortemente influenciadas pela volta de Trump e da direita americana ao poder. Dentre elas estão certamente as igrejas evangélicas. Várias são as razões históricas para que isso aconteça, e a principal deve-se ao fato de que elas chegaram ao Brasil somente no século XIX, já com influência das americanas.

    Há uma razão para isso. É que durante todo o período colonial, e mesmo no Império, o catolicismo era a religião do estado, o que significava que ninguém que vivesse em nosso solo poderia legalmente professar qualquer outra religião. Isso tem história. Quando os portugueses aqui chegaram havia acontecido a chamada reforma protestante em terras europeias. A resposta da igreja católica foi a contrarreforma, que instituiu um processo muito mais rigoroso de controle da população em relação à religião.

    A Santa Inquisição se instalou entre nós, esteve mesmo em Vitória por algumas vezes, e instituiu um processo de perseguição feroz aos que não professavam o catolicismo e todos os seus rituais, que eram obrigatórios. Qualquer movimento em direção à lógica dos reformados que se criasse no Brasil colônia seria rechaçado imediatamente. Por essa razão, somente no Brasil independente algumas dessas igrejas puderam chegar ao país, ainda que de forma mais amena, com pouca visibilidade.

    A primeira foi a igreja evangélica de confissão luterana, que chegou com os imigrantes germânicos a partir das primeiras décadas do século XIX, mas que ficou inicialmente muito restrita a esses grupos na sociedade. Mais para o fim do século, no segundo reinado, chegaram os missionários americanos, junto com imigrantes vindos dos Estados Unidos, boa parte batistas, mas também presbiterianos, membros da igreja congregacional e adventistas, dentre as mais conhecidas até hoje.

    Os pentecostais da Assembleia de Deus desembarcam no início do século XX, primeiramente no Pará, e depois ganharam todo o território nacional. Também eles chegaram por meio de missionários americanos. Esse é o ponto sobre o qual eu quero chamar a atenção: o fato de a origem do nosso movimento evangélico estar vinculado à forma como os norte-americanos viveram a reforma protestante. Somos umbilicalmente vinculados aos Estados Unidos em termos do movimento evangélico, inclusive em padrões estéticos. O crente tradicional herdou dos missionários seu estilo de se vestir e seu gestual contido. Essa vinculação é mais do que importante para que se entenda por que a expansão dos evangélicos no Brasil se dá a partir dessa matriz.

    Não é por outra razão que a expansão recente das igrejas evangélicas no Brasil não apenas fez crescer o sentido conservador, como também se vinculou com a direita, a qual passou a dominar o partido republicano nos Estados Unidos. Mais recentemente as igrejas evangélicas de corte mais jovem passaram a se denominar church e a fazer cultos totalmente americanizados. A extrema vinculação a Israel, inclusive na defesa da guerra de Gaza, certamente vem daí.

    Essa é a trama política mais densa que, na minha opinião, a vitória de Trump trouxe: o apoio a uma matriz conservadora de origem cristã e evangélica que define os EUA como parceiro privilegiado e a nação mais importante do mundo. Defender tais valores certamente faz sentido para o novo governo americano. Já com relação à escolha de quem será o nosso próximo presidente, é um problema nosso, provavelmente não faz parte da pauta deles.

  • O Espírito Santo que saiu das eleições

    A primeira constatação que podemos fazer é a de que o Espírito Santo vem consolidando um perfil bastante conservador nas suas escolhas eleitorais. Isso, contudo, não é nenhuma novidade. Basta vermos a importância que aqui tiveram os integralistas – expressão mais acabada da nossa direita no início do século XX – ou até mesmo outras lideranças de igual peso no espectro mais à direita.

    No processo de redemocratização, após a ditadura de Vargas, na segunda metade dos anos 1940, foram também atuantes os conservadores do PSD, da UDN e do PRP, partidos muito importantes aqui. Nossa trajetória partidária nunca foi de hegemonia dos partidos progressistas, embora eles tenham sido fortes em municípios como Vitória, Vila Velha ou Cachoeiro, para citar alguns deles, sobretudo o MDB, já na fase dos governos militares.

    Essa inflexão autoritária mais recente, portanto, não deve surpreender quem estuda o nosso estado, mesmo que tenhamos passado por um governo estadual do PT, com Vitor Buaiz, entre 1995 e 1998. Nossa velha tradição já havia ficado clara na expressiva votação do ex-presidente Jair Bolsonaro, tanto em 2018 quanto em 2022. Se dependesse somente dos capixabas ele teria sido reeleito presidente da república, no último pleito. O embate de Renato Casagrande, no segundo turno, contra o candidato do PL Carlos Manato foi duro de vencer, tanto que prefeitos aliados do governador pediam votos, ao mesmo tempo, tanto para Bolsonaro quanto para Casagrande.

    Nas últimas eleições municipais o Espírito Santo seguiu forte nessa vertente mais conservadora, o que ficou claro com os prefeitos eleitos nos maiores colégios eleitorais capixabas. Houve uma forte tendência para a recondução de quem já estava no poder, como de resto tem sido comum desde que adotamos a reeleição, ainda nos anos 1990. No Brasil, via de regra, o mandato tem sido de oito anos, com um plebiscito no meio. Só mesmo os que não têm bom índice de aprovação são impedidos, pelo voto, de permanecerem no cargo para um segundo mandato. No Espírito Santo o comportamento também tem sido este, o que acentua o caráter conservador das eleições, entendendo-se o conservadorismo de uma forma mais ampla.

    O Espírito Santo que sai das eleições é, portanto, claramente conservador. Além disso, o governador Renato Casagrande tem feito mandatos muito voltados para obras e ações casadas com as dos prefeitos. Agindo assim, turbinou o mandato de muitos dirigentes municipais e associou seu nome a inúmeras benfeitorias nas bases regionais. Saiu o governo vitorioso dos pleitos municipais.

    O governador é um homem moderado, um político tipicamente de centro e fez um grande arranjo para não enfrentar desavenças ideológicas, operando quase sempre com obras e um discurso de apoio aos cidadãos que vivem nos municípios. Com isso, transformou-se em candidato com forte favoritismo ao senado da república, caso realmente queira disputar o cargo. Temos, assim, outra marca desse Espírito Santo que saiu das urnas: a liderança de Renato Casagrande, junto a prefeitos que não optaram por discursos radicais, o que acentuou a tendência centrista, ou de centro-direita, nos resultados da eleição.

    Outro elemento importante é a renovação geracional. Grande parte dos prefeitos eleitos nos municípios capixabas estão na casa dos 40 anos: Pazolini, em Vitória; Arnaldinho, em Vila Velha; Wanderson, em Viana; Weverson, na Serra; Renzo Vasconcellos, em Colatina; Lucas Scaramussa, em Linhares; Rodrigo Borges, em Guarapari. Temos, portanto, uma nova safra de dirigentes municipais, mostrando que o eleitor quer o novo. Houve, no entanto, notáveis exceções, dentre as quais destacamos Cachoeiro de Itapemirim, com o veterano Theodorico Ferraço; Aracruz, com o Dr. Coutinho e Cariacica, com Euclério Sampaio.

    Assim, nossos eleitores mostram o perfil de seus desejos para o Espírito Santo: uma nova geração de prefeitos, mesmo os reeleitos, de perfil conservador, mas sem extremismos. A velha polarização enfraqueceu e serviu para reduzir a importância da presença de Lula e Bolsonaro como grandes lideranças, dando espaço a uma construção mais de centro-direita. Essas parecem ser as razões de voto que definirão o nosso próximo governador.

  • Lições do segundo turno

    Apesar de já ser assunto muito comentado, gostaria de deixar aqui algumas observações que me parecem relevantes sobre as eleições que se encerraram.

    As eleições de 2024 chegaram ao fim no dia 27 de outubro último. Boa parte dos resultados há haviam sido anunciados pelas pesquisas quantitativas, de ótimo nível, que são feitas e publicadas no Brasil. Muitas análises também já foram publicadas depois dos resultados anunciados, aliás em uma velocidade impressionante e impensável há poucos anos.

    Apesar de já ser assunto muito comentado, gostaria de deixar aqui algumas observações que me parecem relevantes sobre as eleições que se encerraram. A primeira é que a fragmentação das lideranças da direita era um fato que tinha tendência de acontecer, embora não fosse ainda uma certeza. Jair Bolsonaro, com grande esperteza política, galvanizou o mal-estar com o sistema político brasileiro nas eleições presidenciais de 2018. Aliás, já havia multiplicado em muitas vezes sua votação para deputado federal pelo Rio de Janeiro em 2014, quando incorporou um discurso misógino e autoritário à sua atuação parlamentar de intermediação de interesses dos militares naquele estado.

    Bolsonaro não criou a onda conservadora no Brasil, mas soube surfar nela com sagacidade. Aos menos atentos, ele pareceu ser, naquele momento, mais importante do que realmente era, embora não se possa negar a sua importância na visibilidade das teses conservadoras que sempre existiram no Brasil. Fez isso de forma especial com os evangélicos, um grupo até então alijado do poder tradicional, sobretudo os mais pobres, reunidos nas chamadas igrejas neopentecostais.

    Deu passagem e articulou os elementos do Brasil profundo, das nossas formações mais tradicionais em torno dos valores da família, do cristianismo conservador, das populações recém enriquecidas do mundo rural, dentre muitas outras. Seu papel político na nossa história, para sempre, terá sido esse: o de organizar uma nova direita, em grande parte como reação às conquistas individuais das múltiplas identidades no mundo contemporâneo.

    Ocorre que a roda do tempo gira – usando uma expressão muito cara ao grande jornalista Rogério Medeiros – e os elementos vão se transformando. A direita se enraizou na sociedade e passou a articular interesses que não cabem mais na narrativa moral e de valores tradicionais. Outros atores foram se incorporando ao processo, com demandas mais sofisticadas e sem vínculos mais fortes com aqueles que produziram o furacão de 2018.

    Prova disso é o protagonismo que o chamado empreendedorismo ganhou recentemente, ajudando a produzir novos valores na sociedade e projetando novas lideranças, coisa que não estava posta nos primeiros anos de existência da nova direita. Mas, para além desse fator, vimos também que muitos líderes se desgastaram pela incapacidade de construir novos debates em torno de si, pois é muito difícil manter a chama da liderança acessa tocando uma espécie de “sambinha de uma nota só”.

    Por outro lado, está ficando cada vez mais claro que a população cansou dessa brigalhada sem fim. A polarização afetiva que dividiu famílias e destruiu amizades cansou. As urnas também mandaram esse recado: chega de agressões, de violência, de fake news. Tudo isso está sendo abandonado como prática política que produz votos. O grande resultado eleitoral de lideranças como a de Gilberto Kassab e seu partido de centro mostram isso. Por conta desse novo quadro político, a família Bolsonaro está perdendo a hegemonia de liderança nas direitas brasileiras. O auto-proclamado “imbrochável” está com menor potência.

    O maior atestado dessa inflexão para o discurso moderado é o governador Renato Casagrande, que obteve muito sucesso eleitoral nestas eleições. Como não pode mais concorrer ao cargo de governador, tende a uma futura campanha ao senado da República, com grandes chances de sucesso. Creio mesmo que vá se compor bem tanto à esquerda quanto à direita, como fez na prefeitura de Vitória, quando apoiou Luiz Paulo, do PSDB, e João Coser, do PT. Essa é a tônica do estilo Casagrande de fazer política.

    Para 2026 temos no Espírito Santo um cenário ainda bastante opaco. Não se pode, neste momento, avançar em torno de candidaturas viáveis para 2025, não é tempo disso. Estamos no tempo de plantar, e todos os players políticos que tenham potencial de sucesso farão exatamente isso, posicionando-se de forma estratégica e esperando o início de 2026. Aqui certamente haverá um grande número de pretendes na centro-direita, sobretudo daqueles que aguardam o apoio de Renato Casagrande.

  • Nossas esquerdas

    A renovação política brasileira se torna essencial diante das novas demandas sociais e da ascensão de forças políticas à direita.

    Ficou bem clara a consolidação de uma certa direita mais moderada nas eleições municipais de 2024, em muitos casos com inflexões para o centro. Podemos citar, por exemplo, o PSD do prefeito reeleito em primeiro turno no Rio de Janeiro, Eduardo Paes. O partido é dirigido nacionalmente pelo astuto Gilberto Kassab, outro grande vencedor no processo deste ano, pela enorme quantidade de prefeituras que foram conquistadas.

    Kassab aparece agora como o ponto de referência política mais sólido no governo de Tarcísio de Freitas em São Paulo, e certamente um dos articuladores mais importantes na construção de uma provável candidatura do republicano à presidência da república. Aliás, os republicanos viram crescer sua base de apoio ao governo estadual e também no quadro partidário nacional. Enfim, os partidos de centro-direita saíram fortalecidos no seu processo de construção de uma candidatura nacional  para as eleições de 2026.

    O PP e o União Brasil também viram crescer suas bases de apoio e o número de prefeituras que governam em todo o Brasil, sobretudo em localidades onde se concentram suas bolhas de eleitores, como no agronegócio. O PT, a maior sigla da esquerda brasileira, também teve o número de prefeituras aumentado, mas viu crescerem e se consolidarem a direita e o centrão. Merece atenção, sobretudo, a inexistência de uma nova geração de líderes em meio ao que poderíamos chamar de esgotamento do ciclo político de Lula em seu partido.

    Entretanto, mesmo diante dessa constatação, fica claro que o Partido dos Trabalhadores vem enfrentando dificuldades em se conectar com novas demandas do eleitorado. As mudanças ocorridas no mundo em que vivemos, seguramente, não estão vinculadas ao discurso das reivindicações trabalhistas que tanto marcaram a trajetória da sigla.

    Quem faz uma importante análise desse universo político contemporâneo é o sociólogo Jailson de Souza e Silva, em particular em Bruxas & Bruxos da Cidade: personagens da revolução do contemporâneo. O autor analisa, nessa obra, o modo como a sociedade atual constrói o lugar dos novos atores e as suas expectativas.

    Temos nesse novo universo a potência, por exemplo, que as questões raciais adquiriram no mundo contemporâneo. Desde o início desses movimentos, de forma mais orgânica e organizada, no fim dos anos 1960 – com a presença simbólica de líderes mundiais como Martin Luther King Junior – até os dias de hoje, muitas lutas e vitórias foram conquistadas. Por mais que ainda estejamos em um mundo desigual e fortemente marcado pela presença de um desejo de supremacismo branco, o fato é que muita coisa mudou.

    O mesmo podemos dizer da condição feminina, já que também vimos crescer o patamar de reivindicação das mulheres, assim como de suas grandes conquistas nos últimos 50 anos. Muitos outros movimentos também cresceram ultimamente, como os ligados ao universo LGBTQIAPN+ e aos povos originários. Deve-se ponderar, contudo, que a forma de esses movimentos se organizarem não os enquadra nos partidos políticos tradicionais e muito menos em reivindicações trabalhistas.

    Não estou querendo negar que os partidos nascidos nas matrizes mais racionais, econômicas e até mesmo conservadoras, em termos de comportamento, desempenharam importante papel na trajetória histórica dessas lutas, e nem é disso que estou falando. O que me parece evidente é que esses novos atores e suas demandas contemporâneas precisam de novos abrigos institucionais e partidários. É justamente aí que entram os raciocínios políticos que sinalizam para a necessidade da construção de uma esquerda renovada no Brasil.

    A direita está conseguindo consolidar sua posição no cenário nacional, e é bom que as pessoas que concordam com essas ideias tenham sua representação. Só não podemos correr o risco de viver num país em que a direita domine tudo, pois essa situação poderia rapidamente se transformar em uma tirania. Toda tendência que opera sozinha no espaço político caminha para asfixiar seus opositores. Já vimos isso acontecer à direita e à esquerda nos últimos tempos, da Alemanha Nazista à União Soviética.

    Por todas essas razões que elencamos, ainda que rapidamente, concluímos que a esquerda brasileira precisa sair do lugar de representação política em que hoje se encontra. Os velhos partidos precisam dar passagem para os novos personagens do campo da política e os novos atores do mundo contemporâneo precisam estar representados à altura de sua importância.

  • Economia das mercês

    O empreendedorismo emerge como uma esperança para brasileiros que buscam romper com heranças históricas e construir um futuro baseado em oportunidades e meritocracia.

    A sociedade brasileira foi construída a partir de um regime aristocrático trazido de Portugal, com muito pouco espaço para relações mais livres ou liberais. Na verdade, constituiu-se uma cultura do poder cheia de vantagens comerciais, com os bons cargos públicos distribuídos entre os fidalgos e sua gente. Uma nobreza da terra que foi se construindo entre nós.

    Nunca foi desejo dos nossos primeiros dirigentes ter um ambiente marcado por justiça social ou igualdade. Antes, pelo contrário, o papel das instituições era manter o mundo sempre como estava, sem lugar para mudanças sociais. Todo o processo político e econômico se dava através da distribuição de recompensas materiais e simbólicas entre os principais da sociedade, que aguçava o jogo de poder com graças, benefícios, donativos, favorecimentos e ainda da troca de favores, nos moldes do Antigo Regime.

    Olhando esses elementos do ponto de vista histórico, pode ser até que se justificassem naquela época, afinal eram outros tempos e a vida corria de uma outra forma, com uma dinâmica muito diferente da que temos hoje. A questão é que esse passado não nos abandona. Ele se mostra muito presente entre nós e se expressa tanto pelos apadrinhamentos dados a uns poucos quanto pelo excessivo número de cargos que existem em instituições, como as que compõem o poder legislativo, para ficar apenas em um exemplo mais óbvio.

    Essa diferença entre os que estão na cúpula das instituições herdeiras desse imaginário histórico e as condições duras da vida das pessoas comuns vem gerando um forte desejo de disruptura social há algumas décadas. Esse desejo foi apropriado, em um primeiro movimento, pelas chamadas esquerdas, que muito trabalharam nos anos finais do século XX para tentar amenizar suas consequências sociais mais graves.

    Entretanto, à medida que a esquerda chegou ao poder no Brasil, através do PT, no início do nosso século, foi se institucionalizando no poder e aos poucos deixou de ser a bandeira do desejo de mudanças. As redes sociais, a enorme facilidade de comunicação de nossos tempos e uma certa naturalização da esquerda no poder deram lugar ao surgimento de uma direita que, em nome da liberdade econômica, foi ocupando o lugar da contestação.

    Em 2018 o então deputado federal Jair Bolsonaro deslocou de forma fulminante o lugar da narrativa contra esse sistema herdado de nossos antepassados políticos. Construiu então sua liderança e também trouxe para a política brasileira uma nova direita, muitas vezes extremada, mas sempre batendo muito na ordem estabelecida e afastando a esquerda da hegemonia dos espaços de contestação ao sistema.

    Essa direita extremada, em muitos pontos, também chegou ao poder e suas lideranças tendem tanto a se desgastar quanto também a se renovar. O tempo, na política, é criação, e assim vai mostrando a viabilidade ou não das propostas e sinalizando desgastes. Caso as condições sociais que produziram essas disrupturas não se modifiquem, outros líderes surgirão, portando a bandeira das demandas não resolvidas.

    É o que me parece se passar com o surgimento de novas lideranças na direita brasileira. Em uma sociedade mal resolvida, herdeira da economia das mercês, é fácil entender por que motivo o discurso da ineficiência do estado e da necessidade de um país de empreendedores cola rapidamente no eleitorado. Foi assim que Pablo Marçal, em seu movimento de crescimento no primeiro turno das eleições em São Paulo, nacionalizou sua narrativa e conseguiu tantos adeptos, evidenciando que há uma razão muito forte para essa grande adesão ao seu discurso.

    Uma sociedade empreendedora é contrária à lógica social estruturada em favorecimentos, em benefícios, na corrupção e nos desmandos. Ou seja, a narrativa do fim desse ciclo das mercês, que ainda é forte entre nós, faz todo o sentido, caso contrário ela não teria se destacado tanto. O brasileiro mediano, o jovem que rala, o pequeno empreendedor que sofre com as burocracias exageradas dos governos sonham com um país de oportunidades. Exatamente por esse motivo seus ídolos estão entre aqueles que sinalizam para um novo momento no Brasil, finalmente livre dos herdeiros dos fidalgos do Antigo Regime.

  • Saldo das eleições

    Eleições de 2024 mostraram bom resultado para a engenharia política construída pelo governador Renato Casagrande nas sucessões municipais.

    As eleições de 2024 mostraram bom resultado para a engenharia política construída pelo governador Renato Casagrande nas sucessões municipais. Ele construiu um mandato calçado politicamente em alianças sólidas na maioria dos municípios do Espírito Santo, distribuindo obras em quase todos eles e as realizando em parceria com os governos das cidades. Esse caminho de fazer investimentos em parcerias com os prefeitos ou as forças políticas locais parece ser a receita do sucesso do projeto.

    Quando as obras são da prefeitura em convênio com o governo do estado, os moradores ficam satisfeitos com as entregas, que melhoram suas vidas e atendem muitas vezes a demandas muito antigas. Os chefes políticos locais também ficam satisfeitos, porque melhoram suas avaliações nas gestões municipais. Forma-se, assim, um jogo de ganha-ganha para ambos os lados, além de envolver muitos atores locais nesse processo.

    As eleições foram, sob esse ponto de vista, o momento mais forte da consolidação dessas alianças. Basta vermos os casos de Cariacica, Vila Velha e Viana, para ficarmos apenas na região da Grande Vitória. Até nos municípios onde o prefeito não conseguiu se reeleger, apesar das muitas obras realizadas e suas alianças com o governo estadual – casos de Colatina e Guarapari – Casagrande garantiu alianças, mesmo sem a vitória eleitoral. Nesses casos, também garante boas bases aliadas para uma possível futura construção de sua candidatura ao senado. É o que se chama, na política, de “perder ganhando”.

    O raciocínio eleitoral é simples: mesmo sem obter a vitória para um correligionário, é importante manter um aliado forte, que poderá em 2026 ser candidato aos cargos em disputa, como deputado estadual ou federal. Caso isso não se viabilize, o parceiro poder vir a ocupar um cargo na gestão estadual. Acomodações é que não faltam. O importante é, no caso analisado, haver uma boa base política no território como um todo, no caso de uma provável candidatura senatória do atual governador. O saldo é, então, muito positivo para ele. Essa positividade pode ou não ser transmitida à disputa para o governo estadual, porém ainda é muito cedo para especular sobre isso.

    Outro elemento que o processo encerrado no domingo nos mostrou é que o radicalismo político da direita está muito enfraquecido, mesmo que ainda reste o segundo turno em muitas cidades maiores, inclusive na Serra, aqui no Espírito Santo. Somente em pouquíssimas cidades venceu o discurso mais extremado.

    Os tempos da polarização que dividiu famílias e sepultou velhas amizades parece estar mesmo chegando ao fim ou, ao menos, diminuindo muito. Os grupos políticos que saíram muito mais fortalecidos das urnas de 2024 foram os do chamado centro.

    Nacionalmente e pensando em partidos, o PSD do prefeito reeleito do Rio de Janeiro venceu em muitas prefeituras, e o mesmo pode se dizer do PP ou dos republicanos. Eles são os partidos dos quais a direção regional do PL em nosso estado vem duvidando serem realmente de direita, mas foi justamente essa direita mais moderada que surgiu vitoriosa do pleito. Creio que estamos construindo um centro mais denso e com capacidade eleitoral, conforme Sérgio Denicoli vem defendendo em seus artigos no jornal O Estado de São Paulo. Deveremos ter em 2026 três forças eleitorais competitivas: a esquerda, a direita e o centro, ainda que exista uma centro-esquerda e uma centro-direita.

    Finalmente, é importante registrar uma tendência muito forte no envelhecimento das esquerdas mais tradicionais, sobretudo aquelas capitaneadas pelo PT. O mais grave desse processo é que os velhos atores desse segmento não dão passagem para os mais novos. Quando chegarmos a 2026 corremos o risco de  haver  renovação somente na direita, onde a fragmentação das lideranças permite o surgimento de novos grupos.

    No Partido dos Trabalhadores, por seu turno, ainda preponderam lideranças forjadas em outro momento e distantes das novas demandas da sociedade. O Espírito Santo e o Brasil precisam valorizar as novas alternativas. Elas existem e só precisam ganhar visibilidade para dar passagem a atores sociais hoje dispersos em movimentos sociais mais contemporâneos.