Violência e Progresso: Os coronéis do cacau em Jorge Amado

– João Gualberto

Uma das formas mais ricas de elucidar as tramas políticas e culturais de uma sociedade é a literatura. Não raro ela representa, de forma muito clara, toda a complexidade dos elementos que compõem uma realidade. Conta com a vantagem da liberdade de compor tipos que são sínteses, que comportam multiplicidades. Não por acaso, portanto, a literatura de Jorge Amado é fonte de compreensão não apenas da Bahia do século XX, em especial, da Zona do Cacau, mas de todos os personagens centrais do mundo brasileiro. Ler Jorge Amado é ler o Brasil, é ler a política brasileira. 

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O que o caricato Coronel Jesuíno, interpretado por José Wilker na recente “Gabriela” e outros coronéis de Jorge Amado podem nos ensinar? (Foto: TV Globo).

Um dos temas importantes de sua obra, em minha perspectiva analítica, foi o coronelismo tal como praticado na região onde ambientou seus romances. O coronel como personagem tem papel fundamental na consolidação da política brasileira. De uma forma tradicional e elitista, é verdade, mas muito marcante.

A essência do compromisso coronelista era: do lado dos chefes do interior, o apoio incondicional aos candidatos do governo; e, do lado do governo, a carta branca dada ao chefe local em todos os assuntos relativos à sua zona de influência, até mesmo na nomeação de funcionários públicos. Expressava localmente o poder. Viabilizava uma forma de dominação.

COMUNISTA DE UM LADO, 
EXÓTICO E ROMÂNTICO DE OUTRO

Para entender Jorge Amado é bom saber que a crítica literária costuma dividir sua obra em duas grandes fases: a primeira sob forte influência comunista, derivada de sua vinculação partidária. Afinal, ele foi deputado federal pelo PCB de São Paulo, na constituinte de 1946. A outra mais fortemente ligada às coisas da cultura brasileira, em especial da Bahia e que foi inaugurada com Gabriela, Cravo e Canela, publicada em 1958. A obra assinala uma mudança de tom vindo dos livros, muda a preocupação da denúncia social para os romances de costume.

Até a segunda fase, seus livros, com indiscutível qualidade literária, tratavam da luta entre oprimidos e opressores. A temática girava em torno de homens honestos, pobres e confiantes, migrantes miseráveis, cujas vidas ganham sentido com a descoberta do Partido Comunista Brasileiro. Gente de forte personalidade moral e cheia de convicção ideológica. A partir de Gabriela, Cravo e Canela, esse conflito dualista transforma-se num drama que, mesmo incluindo problemas de exploração e de poder, pretende mostrar também relações que o poder mantém com ele mesmo e suas manifestações. E ai que ele consegue uma boa leitura dos tipos políticos da Ilhéus de então como coronéis, comerciantes ou exportadores de cacau.

No primeiro período, a obra retratava um coronel muito duro, como o Horácio da Silveira de Terras do Sem Fim  e de São Jorge dos Ilhéus. 

No mundo político onde habitou o Coronel Horácio, não havia lugar para qualquer vestígio de democracia ou tolerância. As eleições, por exemplo, eram fraudadas e era no legislativo que se faziam os acertos que as legitimava. 

Esse tipo fraudulento é o Coronel pronto, aquele que operou a opulência da Primeira República. Era ela quem representava, como no romance, a face real do poder com quem o homem simples do povo lidava no seu dia a dia. Afinal, ele nomeava todos os cargos, prendia e soltava, trazia benefício. A leitura de Jorge Amado mostra isto de forma clara.

ILHÉUS, VIOLÊNCIA E PROGRESSO

As marcas nítidas do progresso naquele início de século XX eram: a estrada de ferro, a linha de ônibus (as marinetes) que ligavam Ilhéus a Itabuna, cidade vizinha, e também muito próspera, dois jornais, cinema, eletricidade e, sobretudo, a dragagem do canal para os navios que levavam o cacau para outros países.

Progresso que atraiu um jovem de família rica e influente na capital da República. Ele chegou para fugir de problemas amorosos e enriquecer. Estabeleceu-se como exportador de cacau. Era Mundinho Falcão que, interessado no progresso da cidade, incentivava tudo o que parecia portá-lo, tudo que era novo. Fez loteamentos, abriu novas avenidas, financiou um jornal e tornou-se sócio em um restaurante destinado aos visitantes, que antes eram obrigados a comer em humildes pensões.

Jorge-Amado-na-maquina-de-escreverNo livro, Mundinho Falcão foi um dos fundadores da associação comercial, lugar de articulação coletiva de interesses econômicos, um lugar diferente e inovador de fazer política na cidade. Transformou-se no símbolo da uma nova Ilhéus, aquela do progresso e da modernidade. Transformou-se, logo, no grande rival do Coronel Ramiro Bastos, o chefe indiscutível dos velhos coronéis e que dominava a política desde os primeiros tempos do crescimento do cacau, a época do desbravamento das matas. Intendente várias vezes da cidade, era também senador estadual, cargo de acomodação das velhas elites na República Velha. Seu filho era deputado estadual.

Do ponto de vista que interessa à nossa análise mais política, a ação do romance está concentrada na rivalidade política entre o Coronel Ramiro Bastos e Mundinho Falcão. À medida que a narrativa avança, os interesses dos dois se opõem cada vez mais. Mundinho interessava-se, sobretudo, na dragagem do canal, o que significava a exportação de cacau pela cidade, em vez de enviá-lo para ser exportado na Capital do Estado.

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Ilustrações de Di Cavalcanti para a 1ª edição do livro, de 1958

O desfecho da trama é compatível com o mundo dos coronéis. Ramiro Bastos morre doente e já ancião, antes do dia tão esperado no livro: as eleições. Seus filhos, prováveis herdeiros políticos, não eram capazes da tarefa. Assim, com a morte do Coronel, seus aliados ficaram livres do dever de fidelidade, imposto pela lógica da época. Passam o poder a uma nova geração de comerciantes e exportadores e seus modernismos, o que faz do grupo de Mundinho os novos donos de poder. É bem verdade que a eleição aconteceu por meio de ampla aliança com os coronéis e atores mais urbanos, que compartilhavam obviamente do mesmo imaginário político. Tornou-se o novo chefe político local, consolidou-se como liderança mesmo com seus ares mais modernos para a cidade.

O novo chefe era, sem dúvida, portador de práticas políticas menos atrasadas do que as de Ramiro Bastos, mas banhava-se nas mesmas significações imaginárias das velhas elites. Isso significa dizer que a relativa modernização política e de modos da cidade de Ilhéus não colocou em risco, no romance de Jorge Amado, a estabilidade política das elites locais, mas as moderniza. O que se vê é, na verdade, o avanço do capitalismo à brasileiro fundindo personagens e criando novos. Mas todos imersos no mesmo mundo de progresso e violência.

Cena do filme de Bruno Barreto, de 1983: a morte do coronel como representação de um novo momento que chega mas mantém as coisas iguais a antes. Iguais, mas diferentes.

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