Eleições 2014

 

João Gualberto

As manifestações que tomaram as ruas de centenas de cidades brasileiras mudaram as expectativas sobre as eleições do ano que vem, tanto do executivo quanto do legislativo.

O cenário de favoritismo da presidente Dilma e da força de seus aliados foi dissipado. Mas, as manifestações não esgotam nisto a sua pauta e nem na exposição das fragilidades da presidente e de seu governo. Elas tem, ao contrário, uma pauta que deve permanecer a despeito das mudanças na sua expressão. Da surpresa inicial das multidões nas ruas, fomos para as fase que tiveram como epicentro cenas de violência ou do oportunismo sindical. Entretanto, o fato das massas não estarem mais nas ruas não significa que sua pauta em favor de uma política menos corrupta, do fim dos abusos em mordomias e por serviços públicos de melhor qualidade esteja esgotada.

O que parece mais provável é que os grandes movimentos de rua desapareçam nos próximos meses, mas que as demandas que eles portaram continuem presentes nas redes sociais, a verdadeira novidade no processo. O sistema político brasileiro não tem se mostrado capaz de oferecer respostas a estas demandas, sobretudo na velocidade das redes, ampliando a tensão entre desejo e realidade. A essência de seus compromissos impedem as mudanças. Elas são na verdade grande ameaça para nosso sistema de poder. E, caso o quadro não se modifique, o que se pode esperar é uma renovação brutal dos parlamentos e dos quadros políticos com um todo.

Aliás, a lógica da mudança já presidiu a eleição municipal nas principais cidades capixabas. Na verdade, o que teremos no ano que vem é um aprofundamento de uma tendência já colocada. Mas, como se dará esta mudança? É bom lembrar que mudar não é sinônimo de melhorar. Pode-se mudar para pior.

Este parece ser o enigma das eleições de 2014 no Brasil e no Espírito Santo. Como o eleitor vai escolher quem representa o novo? Como os atuais ocupantes de cargos eletivos vão mostrar aos eleitores que eles também podem encarnar uma forma de fazer política compatível com os sentimentos majoritários da opinião pública? Este deve ser o enigma central da eleição, como mudar em um mundo em que partidos e outras instituições políticas significam muito pouco. Quem restará? As igrejas? Alguns movimentos sociais novos? Ou estaremos todos na massa anônima?

A partir destas indefinições, a eleição deverá promover a gestação de novos centros de poder e de novos atores coletivos. Temos que levar isto em conta para entender o processo que se aproxima.

 

“Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar”

O sistema político brasileiro parece ter chegado a pergunta de Chico Buarque na música “O Velho”. Mas inda não chegou a resposta.

Um comentário sobre “Eleições 2014

  1. Lembras, caro João, das lições do velho Costa Pinto sobre marginalidade estrutural. Quando o dito novo não resolve os problemas criados pela permanência do arcaico.
    Pois é. Tem um cheiro de frustração no ar.

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