O pemedebismo na cultura política brasileira

João Gualberto

A Companhia das Letras acaba de publicar Imobilismo em Movimento, obra mais recente de Marcos Nobre, também autor de Dialética Negativa, de 1998 e Teoria Crítica, de 2004. O autor é professor de filosofia da Unicamp e pesquisador do Cebrap. No livro, o pesquisador faz um importante resgate dos acontecimentos políticos brasileiros das últimas décadas – na verdade dos movimentos políticos do pós-ditadura – com foco especial na construção de uma cultura política que ele chama de pemedebismo, e que é considerada estruturante na redemocratização brasileira.

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O escritor, filósofo e cientista político Marcos Nobre.

Em Imobilismo em Movimento  é feita uma espécie de síntese da política no Brasil nos últimos trinta anos. Mas, não de  uma forma qualquer. Ele tem uma chave interpretativa, uma idéia-chave: a cultura do pemedebismo. Para Marcos Nobre o pemedebismo pode ser entendido como uma espécie de blindagem do  sistema político.  Esta blindagem represa as forças de transformação. Em última análise, é a redução das alianças em simples balcão de negócios e da prática política na busca de resultados sem preocupações morais.

As origens do pemedebismo remontam ao velho MDB, partido criado durante a ditadura militar e que abrigava todas as forças de oposição. Depois de transformado em PMDB, encastelou-se no governo e de lá nunca mais saiu, justamento pela construção de uma lógica de poder apoiada no nosso imaginário político mais profundo. Mas, do decorrer da leitura, vemos que o pemedebismo não se restringe ao PMDB, mas é um modo de fazer política que está além dele. Nobre argumenta que foi se criando no país, em nome da governabilidade, um ambiente em que não existem situação e oposição, mas uma massa homogênea, amorfa e indistinta que fecha todos os canais possíveis de representação política de fato.

Livro lembra que a primeira crise política enfrentada pelo sistema político atual se deu durante a constituinte, nos anos 80.
Livro lembra que a primeira crise política enfrentada pelo sistema político atual se deu durante a constituinte, nos anos 80.

Tentando explicar o fenômeno, o autor faz uma breve passeio pelo passado recente. Ele nos lembra que a primeira crise enfrentada pelo sistema político atual se deu entre março de 1987 e outubro de 1988, durante a Constituinte. A unidade forçada que marca nossa vida partidária chocou-se de frente com movimentos e organizações sociais, sindicatos e manifestações populares que não cabiam nos canais estreitos da abertura política. Sob o comando do Centrão – bloco suprapartidário que contava com maioria de parlamentares do PMDB – o sistema político encontrou maneira de neutralizar estas demandas articuladas na sociedade, apostando na ausência de uma pauta unificada e de um partido, ou mesmo frente de partidos, que canalizasse as aspirações mudancistas. Para  Marcos Nobre nasceu neste momento a primeira estratégia de blindagem do sistema político contra a sociedade, a que ele dá o nome de pemedebismo.

A partir do impeachment de Collor, em 1992, o sistema aprofunda-se. Seguindo o modelo do Centrão, foi instalada uma lógica em nome da governabilidade que envolvia a construção de uma imensa maioria congressual. Até o final do governo de Itamar Franco, em 1994, as ferramentas de blindagem  foram sendo produzidas, testadas e aperfeiçoadas. Seu desenvolvimento deu-se ao longo dos dois mandatos consecutivos de Fernando Henrique Cardoso. Apesar de o PT ter se mantido durante mais de uma década como representante por excelência do antipemedebismo, o mesmo figurino se repetiu no período Lula, após o escândalo do mensalão , em 2005.  Vendo-se acossado pelo fantasma do impeachment, o governo Lula aderiu à ideia pemedebista da construção de supermaiorias parlamentares, o que continuou de maneira mais ostensiva sob a presidência de Dilma Roussef. Assim, o trabalho nos mostra que a cultura política que permitiu a construção do pemedebismo é mais forte do que os governos que tivemos. Todos eles.

É muito rica a análise feita pelo autor. Ele dá elementos factuais de sobra para mostrar que nosso sistema político criou uma massa sem forma, movida apenas pelo ajuste de demandas individuais dos parlamentares, sobretudo. Falta-lhe talvez, porque este não é seu foco, uma retrospectiva histórica do chamado clientelismo. Nem o PMDB nem nenhum outro partido atual o criou. O clientelismo é uma instituição social criada através do tempo e de tal forma enraizada em nossas práticas sociais que podemos mesmo chamá-la de uma instituição imaginária. É dela certamente que nascem fenômenos estruturais como o estudado por Marcos Nobre.

Mas, o fato é que o clientelismo, que remonta aos velhos coronéis, ganhou vigor em nossa democracia incompleta, não enraizada nos atos cotidianos da sociedade. Muitas coisas no Brasil tem andado para frente. Mas o sistema político tem sua lanterna na popa e ilumina para trás. Está preso ao passado. Na política pioramos. Criamos um sistema blindado ao povo. É disto que trata Marcos Nobre em livro que merece ser lido e discutido.

Em 2013, a onda de insatisfação popular enfrentou um sistema político que se mostra blindado ao povo. Mais um elemento que torna importante a discussão do tema.
Em 2013, a onda de insatisfação popular enfrentou um sistema político que se mostra blindado ao povo. Mais um elemento que torna importante a discussão do tema.

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