O fim do poder

João Gualberto, artigo publicado em A Gazeta sobre a obra de Moisés Naim.

Um registro vale para iniciar esta resenha: trata-se de um bom livro, cuja leitura muito enriquece aqueles que gostam de estudar o tema. Moisés Naim, o autor, faz uma leitura atenta e inteligente  do tema, mostrando como o poder vem se fragmentando no mundo em que vivemos. E que esta fragmentação não se limita aos efeitos da  internet, mesmo sabendo que sua força na socialização das informações é algo extraordinário É um fenômeno muito mais complexo.

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A greve dos garis no Rio de Janeiro, em 2014: os trabalhadores passaram por cima da ordem do sindicato. E a foto que marcou o movimento não é de um grande jornal, mas do grupo Mídia Ninja.

Apesar do nome um tanto exagerado do livro, não existe a argumentação que o poder morreu, a frase limita-se ao título, aliás ruim para uma obra tão densa. Na verdade, trata-se antes um estudo da configuração do poder nos tempos em que vivemos. Os argumentos não surgem de devaneios , Afinal o autor foi ministro do desenvolvimento na Venezuela na década de 1980 e inicio da de 1990. Foi também Diretor Executivo da Banco Mundial e editor chefe da revista Foreign Policy. Ele é hoje autor de artigos respeitáveis em grandes jornais europeus.

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Moises Naim é escritor e colunista venezuelano e, desde 1996, o editor-chefe da revista Foreign Policy.

Um ponto importante do trabalho é quando ele utiliza a formulação sociológica de Max Weber para explicar que o poder no mundo moderno, sobretudo a partir do século XIX, organizou-se em grandes instituições burocráticas. Isto é válido para os estados, os exércitos, as religiões, as empresas e tudo mais que compõem tradicionalmente as estruturas que até aqui vem suportando as grandes aventuras econômicas e políticas da modernidade. A burocratização da guerra, por exemplo, tirou os generais da frente de batalha e os trouxe para espaços onde se constroem estratégias e acompanha-se as batalhas de longe.

Mas, o século XXI trouxe muitas novidades. Entre elas o aprofundamento de um leque imenso de micro instituições que estão mudando a vida. Que vem saindo do controle dos grandes atores tradicionais tais como governos, exércitos, empresas ou sindicatos, para ser compartilhado por novos e inesperados rivais. Alguns deles muito menores em tamanho e recursos. Além disto, aqueles que controlam o poder deparam-se cada vez mais com restrições ao que podem fazer com ele. Na verdade argumenta o autor que o poder real de um presidente da república ou de presidente de uma grande empresa vem diminuindo. Eles devem ceder cada vez mais a este imenso leque de pequenas organizações que articulam outros níveis de poder como ONGs, por exemplo.

Nesta perspectiva, o poder está passando dos que tem mais força bruta para os que tem mais conhecimento, do países do norte para os do sul e do ocidente para o oriente, dos velhos gigantes corporativos para as empresas mais jovens e ágeis, dos ditadores para o povo que protesta nas ruas. Hoje ele está mais fácil de obter, mais difícil de utilizar e mais fácil de perder. Organizações terroristas, sobretudo aquelas vinda do mundo islâmico, são prova concreta disto.

Os argumentos do livro, sua tese central digamos, baseia-se no fato de que vivemos em uma época de abundância e temos mais de tudo. A produção econômica mundial aumentou cinco vezes desde 1950. Há mais 2 bilhões de pessoas no mundo do que havia duas décadas atrás. A produção aumentou, a população aumentou, a riqueza aumentou, formou-se uma classe média importante em termos globais. É a soma destes mais gera uma classe média impaciente e bem informada, que quer um progresso  mais rápido do que aquele que os governos são capazes de oferecer e cuja intolerância com a corrupção tornou-se uma poderosa arma política. São estes atores que estão em grande parte colocando em questão as velhas estruturas de poder. São para ele estas as razões de fundo para fenônemos como o movimentos das ruas no Brasil em 2013.

Para o autor um dos aspectos importantes da fragmentação do poder é a enorme mobilidade adquirida em tempos de muita mobilização. Se os emigrados fossem um país, ele seria o quinto mais populoso do planeta.  As revoluções do mais e da mobilidade criam e fortaleceram uma nova classe média cada vez mais exigente  e cada vez mais distantes do velhos mecanismo de poder e controle social. Isto acabou por produzir uma revolução da mentalidade segundo o autor. Esta nova mentalidade, associada os mecanismos que a tecnologia oferece hoje estão mundo o mundo. Estão de fato reconfigurando o poder e  mudando a vida.

O livro é, de fato, uma boa leitura para os interessados.

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Imagens do site: moisesnaim.com

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