A ave que não voa

João Gualberto

 

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A Copa do Mundo de 14  e o dilema brasileiro: somos mesmo uma ave que não voa?

 

As últimas 5 semanas no Brasil, período em que foi realizada a Copa do Mundo, evidenciaram dois elementos muito presentes na nossa cultura.  Antes da Copa vimos o tom geral da cobertura ser negativo e alertar para os problemas estruturais do Brasil. Pouco mais de um mês depois, o clima festivo e sucesso do evento conquistaram os brasileiros e as manchetes internacionais, apesar do fracasso dentro do campo.

O primeiro elemento é a nossa falta de amor pelo Brasil, um dos pilares sobre o qual se apoia a vida social e o poder entre nós. Essa falta de amor se expressa, entre outras coisas, pela ausência de um sentimento profundo entre o povo e a nacionalidade. Nesta hora, temos uma imagem do Brasil como a única ave que não voa: a galinha. Apesar do enorme barulho que faz, só consegue voos minúsculos. Tanto barulho para tão pouco. À semelhança das galinhas, temos enorme dificuldade para voar.

Não temos conseguido decolar como nação moderna e sem miséria, apesar do enorme ruído que faz o Brasil toda vez que se imagina lançar ao voo.

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Nossa falta de amor ao Brasil: um mecanismo sobre o qual se apoia a vida social e o poder.

O outro elemento é que somos um povo original e criativo. Ao contrário do que expressamos no primeiro elemento, reconhecemos que temos muitos fatores positivos, entre os quais destacam-se a inventividade, a capacidade de improvisar, um senso poético fantástico, uma enorme musicalidade. Temos, isto sim, uma imensa dificuldade em transformar esses traços originais, essa nossa singularidade, em ações coletivas capazes de transformar a sociedade hierarquizada e injusta na qual vivemos.

Este dilema, a ambiguidade entre os dois elementos, transforma-se nesta incapacidade que tem os brasileiros de se transformar em atores coletivos capazes de mudar os seus destinos é que marca, ao meu ver, nossa vivência social.

Já ouvi muitos estrangeiros, quando voltam de viagem ao Brasil, dizerem que adoraram os brasileiros. Entretanto, poucas vezes ouvimos dizer que os americanos ou os franceses são interessantes, ou que se gosta deles. Os elogios são dirigidos às cidades, por exemplo, Paris ou Nova Iorque. Somos certamente um dos poucos povos do mundo capazes de despertar esta simpatia coletiva. A Copa do Mundo disputada recentemente aqui mostrou bem isto. Mas, esse amor coletivo não existe claramente entre os brasileiros. Melhor: creio que ele existe, mas não é percebido e nem vivido como tal. Não se valoriza as verdadeiras raízes de nossa nacionalidade, entre as quais estão certamente a inventividade, por vezes tão ausentes em outros povos. Por que não valorizamos o fato de sermos brasileiros? Por que não nos orgulhamos de sermos assim e não buscamos a nossa identidade fora dos marcos racionalizantes das sociedades europeias e norte-americanas?

Não é simples achar respostas para essas indagações. Não me atreverei a oferecer respostas, embora deseje muito contribuir para o voo desta ave. Creio, entretanto, que as respostas não podem se apoiar unicamente em fatos objetivamente econômicos. Afinal, após as cinco semanas em que o mundo esteve com os olhos voltados para o Brasil, tivemos uma oportunidade de observar que apesar de não construímos estádios com a velocidade dos alemães ou da China, fomos capazes de receber visitantes e suportar uma Copa com reconhecido sucesso.

Creio também que a ausência da valorização coletiva de nossos predicados é profundamente perversa. Talvez possa vir desta valorização o sentido de uma identidade nacional reconhecida como positiva.

Talvez esta galinha não voe porque não se ama, porque se desvaloriza e não queira voar. No dia em que valorizarmos nossas singularidades, começaremos uma longa caminhada de construção de outra nação.

O antes e o depois da Copa : uma representação  do dilema brasileiro.
As festas durante o mundial: somos certamente um dos poucos povos do mundo capazes de despertar esta simpatia coletiva.

 

 

 

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