História do Brasil com Empreendedores

João Gualberto O livro escrito por Jorge Caldeira, a História do Brasil com Empreendedores, editada pela Mameluco em 2009, tenta explicar o desenvolvimento do Brasil Colonial levando em conta a história de nossas atividades empresariais. É obra fundamental para aqueles que pretendem avançar na compreensão de nossa trajetória social-histórica, e tem um caráter inovador em relação à nossa historiografia mais tradicional. Capa_Empreendedores1 Na verdade, trata-se de elucidar o papel do empreendedor em nosso processo econômico e social. O autor reúne dados e reflexões para desconstruir a ideia de que fomos apenas uma sociedade gerada pelo Estado ou um país que viveu somente do produto das exportações para o mercado internacional, sem dinâmica empreendedora própria, portanto. O mais importante para Caldeira é mostrar que – ao contrário do que toda uma bibliografia tradicional no Brasil tenta explicar – tivemos sim um forte mercado interno durante a colônia e que este mercado foi sustentado por uma multidão de pequenos, médios e grandes empreendedores. A partir do que o autor nos coloca, podemos pensar como a cultura empreendedora emerge em nosso imaginário social e como o capitalismo se insere em nosso processo social-histórico que continha elementos europeus, a escravidão africana e os indígenas. É disto que trata a obra. Para atingir o objetivo a que se propõe, o autor analisa de forma muito crítica a obra do grande pensador brasileiro da primeira metade do século XX Caio Prado Júnior. isto porque ele foi para Caldeira o grande artífice da elaboração de uma interpretação do Brasil que não enxerga nem o mercado interno e nem o papel de seus grandes articuladores, os empreendedores, os empresários e como eles criaram uma espécie de amarração de toda uma teia de significados que deram vida ao nosso mercado interno emergente. O que Caldeira mostra com veemência argumentativa e muitos dados históricos é que o Brasil que Caio Prado e outros autores importantes como Oliveira Vianna descreveram é apenas uma parte da história. A parte que permitiu a socialização – sobretudo no pensamento marxista brasileiro – de que fomos economicamente somente subordinados à lógica da colonização imposta pela Corôa Portuguesa. A outra parte da história é a deste Brasil que ficou em pé, que absorveu entre seus modos a dinâmica social e econômica dos habitantes indígenas e que forjou o imaginário do empreendedor como instituição imaginária na sociedade brasileira. Disto também se ocupa o livro, e de forma brilhante. As nações indígenas tinham sua estrutura econômica, sua política de trocas. Como era comum nestes universos, a estrutura econômica não tinha a autonomia que alcançou no capitalismo moderno. Estava antes toda imbricada em toda a estrutura social. As famílias estavam todas imersas neste imaginário. Assim, quando os colonos em seu intuito de enriquecer começaram a relacionar-se com as nações indígenas, promoveram casamentos que viabilizassem as transações desejadas. O Brasil assim tupinizou suas estruturas para poder sobreviver e transacionar mercadorias. Um capitalismo muito próprio e com grande força empreendedora. Mas Caldeira amplia sua crítica ao articular ar as formulações de Caio Prado às de um outro grande autor: Oliveira Vianna. Embora tenham expresso pensamentos distantes ideologicamente, pelo direitismo assumido de Vianna e o marxismo de Caio Prado, ao serem cotejados vê-se claramente a origem de uma certa leitura do Brasil que mutila muitos movimentos internos e elimina totalmente o papel social do empreendedor. Isto ele demonstra quando, por exemplo, quando diz que estas análises deixaram de fora o impacto da descoberta do ouro em terras brasileiras. É óbvio que a metal preciosos destinava-se à exportação, mas sua descoberta provocou enormes transformação em nosso mercado interno.

O autor Jorge Caldeira. Foto: jornal Zero Hora
O autor Jorge Caldeira. Foto: jornal Zero Hora

Na verdade, ao utilizar de forma excessiva o conceito de latifundiário e de todo o universo que isto implicou – sobretudo como explicação das causas do subdesenvolvimento brasileiro como se dizia na época – foi que nossa historiografia matou o papel do empreendedor dos tempos coloniais. Além disto, retirou-lhe os aspectos positivos relativos à construção de um certo capitalismo com marcas próprias no Brasil, e reduziu-o a um personagem: o coronel. Pior do que isto, deu ao coronel uma gama de marcas negativas no campo da política. Concentrou de forma exagerada e equivocada seu olhar na violência e no controle social das massas, esquecendo sua extensa contribuição à formação de nossa economia e da nossa sociedade. Tirou-lhe, portanto, a dimensão empreendedora.

Apesar das pretensões aristocráticas, o típico senhor de engenho era muito mais um empreendedor que qualquer outra coisa, e investia em atividades especulativas como o comércio de escravos, a coleta de impostos e a abertura de novas terras agrícolas.

Em resumo, trata-se de toda uma argumentação muito rica e interessante e leitura muito oportuna para aqueles que querem entender nossa trajetória histórica e sobretudo não permitir que tenhamos uma leitura muito preconceituosa sobre nós mesmos.

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