O chupa-cabras e o capitalismo cultural

 João Gualberto

Rodrigo Aragão era desconhecido do grande público brasileiro. Mas, seu primeiro curta-metragem, Chupa-cabras, de 2004, foi um hit no Youtube.

Pouco mais de dez anos depois, sua trilogia de horror feita sem incentivos fiscais, com pouca verba e atores desconhecidos já percorreu festivais em várias partes do mundo e foi vendida para países como EUA, Holanda, Bélgica, Alemanha e Japão.  Só na China, um episódio envolvendo a censura do seu filme “Mar Negro” impulsionou o download de mais de 1 milhão de cópias do filme, rebatizado “Zumbis das terras alagadas”. 

 

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Rodrigo Aragão e José Mojica, o Zé do Caixão, durante gravações do filme “O Saci” – Fonte: Midicult.wordpress

A forma como Aragão, fã do gênero terror desde criança e perito em efeitos visuais, pode expressar sua criatividade para dar vida a suas sanguinolentas e divertidas produções,  é um elemento importante daquilo que tem sido chamado de economia criativa.

Uma das leituras a serem feitas em torno desta economia é o trabalho dos autores franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, que a incluem no que denominam como a era hipermoderna e do capitalismo cultural.

No livro A Cultura Mundo- Resposta a uma sociedade desorientada, os dois autores apontam elementos que definem um novo cenário global em que se entrelaçam elementos de várias padrões culturais antes vistos como nacionais. Um movimento que se iniciou com uma espécie de americanização do mundo, até chegar a uma verdadeira Cultura-Mundo.

Lipovetsky e Serroy afirmam que o que caracteriza a época época hipermoderna não é mais o conjunto das normas sociais herdadas do passado e da tradição – ou seja a cultura no sentido antropológico – nem mesmo o que eles chamam do “pequeno mundo” das artes e das letras. Na hipermodernidade, a cultura se tornou um setor econômico em plena expansão, base da sociedade e reflexo das novas tecnologias, da economia globalizada, do individualismo e do consumismo.

Nesse novo sistema de valores, a produção cultural é um segmento de bens mercantis e simbólicos que vão dos livros à moda, das inovações tecnológicas ao design, da música à gastronomia. A economia e seu poder multiplicado é que se impõem como a instância principal da produção cultural. E as indústrias culturais conseguiram criar uma lógica que não tem somente a ver com as transgressões vanguardistas.

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LIPOVETSKY, Gilles e SERROY, Jean. A cultura-mundo, respostas a uma sociedade desorientada. São Paulo: Companhia das Letras, 2011

É preciso relativizar as opiniões dos autores e também valorizar inúmeros povos e comunidades que ainda justificam seu fazer cultural e todas as ações da vida cotidiana a partir de outras ordens. Um pajé, por exemplo, terá outros elementos como justificativa de seu fazer cultural. Por outro lado, é de grande importância destacar que esse olhar não deixa de ser revolucionário e inédito.

Os autores nos lembram que, pela primeira vez, há uma cultura produzida não mais para a elite social e intelectual , mas para todo mundo, sem fronteiras de país e mesmo de classes. Diferentemente da civilização criada pelo livro e pelas bibliotecas, as indústrias culturais modernas dirigem-se de imediato à maioria, abrem uma página inteiramente nova da difusão cultural.

Os resultados são novos desejos de partilha, expressão e participação. O individualismo hipermoderno não é apenas consumista, ele é ao mesmo tempo expressivo, interativo e participativo. Ele está em busca de interação múltipla, o que não impede dos artistas contemporâneos aspirarem de um novo objetivo muito mais bem definido: ganhar dinheiro e ser célebres.

O que Lipovetsky e Serroy apontam não esgota a dinâmica do fazer cultural contemporâneo em sua grande diversidade. Mas, com certeza, contribuem para entender e construir caminhos em que cada vez mais pessoas tenham acesso ao entretenimento, ao saber e a cultura: seja ela a do chupa-cabras ou do pajé.

 

Para quem ainda não conhece o trabalho do cineasta, o link do canal no Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCf–7M89BFp_s9C365m5k1w

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