O POPULAR E O ERUDITO

A sociedade brasileira, como sabemos todos muito bem, é muito elitista e excludente. Do ponto de vista histórico, vários elementos nos ajudam a compreender o processo que produziu a cena social na qual nos movimentamos hoje, repleta desse elitismo que atravessou os séculos. Um desses elementos me parece particularmente relevante: a instituição da escravidão. Nossos antepassados europeus não apenas atravessaram o oceano para trazer aprisionados, no porão de sujas embarcações, os africanos escravizados, mas também submeteram ao trabalho forçado milhões de indígenas. Eram os escravos da terra.

No mundo dividido entre as pessoas livres e as escravizadas havia um imenso abismo social. Abismo esse que acabou por instituir um imaginário social onde tudo que emergisse dos setores sociais ligados ao trabalho forçado era obrigatoriamente de segunda classe. Foi assim com a religião, com os papéis sociais, com os conceitos de beleza, com a forma de se vestir, com tudo enfim. 

Não causa, portanto, nenhuma estranheza quando observamos o descaso histórico sempre dado a cultura popular entre nós. Ela expressa – nesse olhar elitista – uma arte menor, uma forma dos grupos sociais marginalizados econômica e socialmente manifestarem seu olhar sobre o mundo. Algumas dessas manifestações foram reprimidas com vigor pela polícia. Eu mesmo vi quando criança no interior do Espírito Santo, atitudes violentas das autoridades contra os terreiros de macumba, como eram chamados, contra a religiosidade de matriz africana e que sempre contiveram elementos do outro grupo de escravizados, os indígenas.

Somente nos nossos dias, os governos começaram a construir de forma mais sólida políticas públicas que levam em conta a força da contribuição dos setores populares. 

Apenas agora a parte da sociedade brasileira que tem a chave que abre os cofres públicos e que abre as portas do que conta e do que não conta começa a perceber a força dessas tantas manifestações sobretudo na música, na dança, na pintura, na arte em geral. Na literatura contam-se nos dedos das mãos as Conceição Alvarenga ou Carolina de Jesus que romperam a barreira social e produziram obras com grande repercussão, inclusive no mercado literário. 

Mas, o ponto que seja talvez o mais importante hoje é como as instituições que cuidam do dia a dia da cultura devem lidar com essa duplicidade. Acredito que construindo as pontes que reduzam esse abismo. Um bom exemplo talvez seja o da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo, que sob a liderança artística e humana do Maestro Helder Tretzger, realizou um conjunto de concertos envolvendo ora bandas lindas de congo, ora o maravilhoso Ticumbi de São Benedito de Mestre Terto de Conceição da Barra (Veja vídeo aqui – Seculo Diário). Tenho orgulho de ter contribuído com esse processo enquanto ocupei o cargo de secretário de estado a cultura em nosso estado. 

Todas as instituições da sociedade civil que operam na área da cultura e que vieram de uma visão mais tradicional, sobretudo devido a um olhar positivista do campo, devem se aproximar cada vez mais desse novo patamar de integração e abandonar de uma vez por todas a ideia de que o erudito se opõe ao popular. Na verdade, as duas dimensões se integram e se completam.

3 comentários sobre “O POPULAR E O ERUDITO

  1. Mestre João,
    A semente deixada na SECULT foi enterrada. Antes de germinar vai sofrer ação das energias primárias, da escuridão e da umidade

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