PANDEMIAS E CIDADANIA

Nossa história política é a história de elites de costas para a maioria da população. É a história de um país escravocrata, onde parcelas importantes da população não tinham direito algum. Nos transformamos em república sem construirmos uma relação política densa com a população, que continuou alijada dos processos de escolha.

Mas, os tempos foram mudando e a população já não assistia a tudo calada. Bom exemplo dessas mudanças, foi a Revolta da Vacina. As condições sanitárias das nossas cidades, inclusive da capital, o Rio de Janeiro, eram muito ruins. A cidade sofria com problemas de saúde pública.

O presidente Rodrigues Alves (1902-1906) tentou enfrentar a questão na capital, nos modos autoritários da Primeira República. Nomeou o engenheiro Pereira Passos prefeito do Distrito Federal e o médico Oswaldo Cruz assumiu a Diretoria Geral de Saúde Pública. Iniciaram sem discutir com a cidade, uma campanha de saneamento da cidade que tinha como objetivo erradicar a febre amarela, a peste bubônica e varíola.

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A charge da revista O Malho, de 29 de outubro de 1904, parecia prever a revolta que se instalaria na cidade poucos dias depois: nem com um exército, o %u201CNapoleão da Seringa e Lanceta%u201D, como muitos se referiam a Oswaldo Cruz na época, conseguia conter a fúria da população contra a vacinação compulsória.(foto: Leonidas/Acervo Fiocruz)

Foram intensos os debates em torno da proposta do governo, e a população em sua maioria era contra. Mas a lei foi aprovada assim mesmo em outubro de 1904. Por ela quem não tivesse o comprovante da vacinação não poderia obter empregos públicos, matricular-se as escolas do governo, viajar, casar, se hospedar em hotéis. Mas em meio a grande tumulto popular no dia 16 de novembro – a revolta havia começado no dia 10 daquele mês – foi decretado estado de sítio e suspensa a vacinação obrigatória. O saldo foi: 945 pessoas presas, 110 feridos, 30 mortos e 461 deportados para o estado do Acre. De fato, a população não entendeu, não foi informada e reagiu. Mostra de que o déficit de democracia já tinha impactos populares naquela época.

Fomos vencendo isso aos poucos. Nas décadas seguintes obtivemos muito sucesso em campanhas sucessivas de vacinação, quando os brasileiros foram convencidos de que a doenças existiam e de que era possível vencê-las com o engajamento de parcelas importantes da população. Houve uma socialização das informações. Ninguém mais fez revoltas contra a vacinação.

Mas, nesse momento o governo nacional parece esquecer da nossa história, das nossas lutas e dos nossos sucessos, entregando-se a um negacionismo que nos remete aos tempos da Revolta da Vacina, a uma ausência de discussão típicas dos governos autoritários do passado. Estamos regredindo. Parece que não temos uma política pública clara com relação a pandemia que hora nos assola. Vamos pagar todos o preço dessa recaída autoritária.

 

 

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