• Atacar a polarização

    Por João Gualberto

    Tenho escrito com certa frequência sobre os riscos que a extrema-direita pode causar à instável democracia em nosso país. A soberania popular e a democracia são plantinhas que devem ser regadas todo dia, e que pode correr o risco de, ao ser submetida ao sol intenso, por longo tempo, murchar. Quando escrevo, tento não confundir extrema direita com os conservadores. São personagens diferentes. Os conservadores são os que preservam tradições e são, normalmente, contra os avanços sociais. Os reacionários querem promover o retrocesso e querem eliminar os que não concordam com eles. Representam a extrema-direita.

    Antes de querer conservar o legado do passado, a extrema-direita pretende promover mudanças e retrocessos para que suas ideias prevaleçam – como muito bem demonstraram os nazistas no início do nosso século. Os que promoveram o quebra-quebra em Brasília, no dia 08 de janeiro do ano passado são, certamente, extremistas. Não são a direita convencional do nosso país. Não é tradição do Brasil essa direita extremada e massificada, exceto no alinhamento que os integralistas fizeram ao nazi-fascismo nos, já distantes, anos 1930.

    Por quase um século fomos um país que, mesmo durante o período do governo militar, não teve práticas políticas de massa da direita. O apoio a ideias que agora absorvemos de um internacionalismo populista como o liderado por Donald Trump é algo diferente. Produto da enorme divulgação que permitem hoje as redes sociais. No contexto histórico político brasileiro, causa espanto, em boa parte da opinião pública, o surgimento dessa corrente que hoje amalgama o pensamento que dá, com excessiva facilidade, passagem e permissão ao ódio. De onde está surgindo esse sentimento, nos perguntamos com frequência. Proponho alguns motivos que me parecem relevantes.

    O primeiro deles, nasce da forma quase agressiva com que setores importantes do pensamento brasileiro trouxe à tona o chamado identitarismo, nos mesmos moldes do partido democrata americano. As lutas de classe, deram lugar aos combates de frações da sociedade e de suas bandeiras. As questões raciais, de gênero e outra auferiram grande destaque e têm promovido mudanças sociais. Entretanto, os excessos identitários assustam os mais tradicionais. Os evangélicos e cristãos conservadores são um bom exemplo. Espantados com os temas mais ousados, eles correm para o outro lado do espectro político. Embarcam na lógica das redes sociais alimentadas por pensamentos como os de Olavo de Carvalho e outros. Tornam-se extremistas.

    Outro motivo relevante, sobretudo no mundo do agronegócio, é a forma com que os conflitos da terra têm sido tratados por algumas autoridades.  Tudo aquilo que não está claramente colocado nas leis e nas normas, aceitas pela maioria, em uma sociedade, pode causar grandes transtornos. As chamadas invasões provocam revolta nos proprietários rurais. Quando o direito elementar á propriedade está em risco, é fácil incendiar esse setor social. É justamente o que tem acontecido nos últimos anos. Não são apenas as invasões, existem muitos outros elementos nessa combustão. Quero apenas atrair a atenção para um outro fator que tem levado a expansão e a radicalização de muitos. O mundo rural, o terreno do agronegócio virou lugar de expansão do pensamento autoritário. É fácil implantar o medo onde há muita insegurança.

    Podíamos citar ainda outras, mas creio que essas bastam para dar ao leitor clara ideia daquilo que desejo evidenciar. O ódio que alimenta a extrema-direita nasce de processos sociais muito concretos. Toda essa onda, que causa estranheza, não nasceu do nada. Não é um sentimento aleatório, o que os brasileiros desenvolveram. É produto da fragilidade de nossas instituições democráticas, da falta de leitura política de alguns extremados e do espírito conservador da sociedade que vem sendo instigado.

    Precisamos ter equilíbrio e buscar intervir na polarização com racionalidade política. Precisamos de sensatez na cena política. Para dar um basta nessa polarização afetiva, é preciso muita força de vontade coletiva.

  • A organização do prazer

    Por João Gualberto

    Uma das marcas da sociedade brasileira, é a grande dificuldade em organizar os espaços e as suas atividades coletivas. Não temos como característica a ordem, como os alemães ou ingleses, por exemplo. Afinal, somos filhos de povos ibéricos, tradicionalmente menos ligados a esse tipo de questão. Nem mesmo os órgãos públicos conseguem planejar suas intervenções na maioria das cidades. As prefeituras asfaltam, as companhias de águas e esgoto escavam crateras nos dias seguintes. Conserta-se, e logo depois vem outra empresa e perfura novamente. Dei apenas uma amostra do que vivemos em nosso dia-a-dia.

    Além disso, estamos às voltas com atrasos nos horários, calendários e cronogramas que raramente são cumpridos. Paradoxalmente, temos uma grande organização em outro gênero de eventos, como o das escolas de samba no carnaval. Trato, em especial, das escolas do maior carnaval brasileiro em que elas estão presentes, no Rio de Janeiro, mas avalio, também, Vitória. Aqui, na capital, desde que, o então prefeito Luiz Paulo Vellozo instituiu a antecipação do desfile das escolas de samba para uma semana antes da data oficial do carnaval, esse evento só tem crescido e melhorado.

    Sempre fiquei intrigado esse elemento da nossa cultura. Na Marquês de Sapucaí temos um espetáculo que é um dos maiores eventos turísticos do mundo. Há contradição entre a desordem nas atividades mais simples do nosso cotidiano – como os horários das reuniões ou o início dos eventos sociais – e a complexa organização dos desfiles, onde tudo funciona com perfeição. Não deve ser simples colocar todo aquele aparato de enormes carros alegóricos, milhares de pessoas, ou a bateria, na avenida. E tudo conduzido de forma cronometrada, dentro de princípios bem rigorosos de organização.

    Não quero avançar na análise do carnaval como festa popular, o que já foi feito, aliás de forma magistral, pelo antropólogo Roberto DaMatta em seu clássico “Carnavais, Malandros e Heróis”. Quero apenas me aventurar, numa tentativa de explicar a organização das escolas de samba. Acredito que um caminho explicativo é a importância que o desfile tem na vida de cada um dos envolvidos. O desfile é uma obra coletiva, importante para todas as milhares de pessoas partícipes do processo. É preciso ter ações integradas, sem as quais o evento fica inviável.

    É impossível pensar em um desfile desses, organizado de forma autoritária. Os sorrisos e a graça seriam destruídos pelo peso das tarefas de cada um. O sucesso do empreendimento pode tentar ser explicado pelo caráter coletivo e democrático de sua organização, e pela espontaneidade das participações. Conta, também, a importância pessoal e social que o evento tem na vida de todos.

    Muitos de nós conhecemos a história do trabalho e também das instituições sociais brasileiras. Elas nasceram imersas em um imaginário social autoritário e excludente. No início, pelo trabalho forçado dos escravizados. Pela forma tardia, e também imperiosa como as leis que garantiram o trabalho livre foram construídas. Depois, a incrível mania que tem as nossas elites de importar modelos de outras sociedades, sobretudo a norte-americana e a europeia.

    O contraste entre as duas formas de organizar o mundo: uma pela motivação e pelo prazer da colaboração coletiva e, a outra, pelo autoritarismo centralizador que elimina a importância de cada pessoa nos processos, é uma dica para avaliar o caso de sucesso de organização do nosso carnaval, imerso no prazer. Não é o único evento bem sucedido, apenas o mais visível. Vejo muito disso nos coletivos juvenis, nas celebrações da cultura popular e em muitos espaços onde está ausente – por puro desinteresse, o poder público.

    Enquanto não avançarmos nessa discussão estaremos fadados a ser um país menor do que poderia ser.

  • O cristianismo conservador

    Por João Gualberto

    Nós, no Brasil, de uma forma geral, temos utilizado de forma abusiva o termo Evangélico. Ele tem sido usado para denominar um contingente de pessoas que se comporta de forma conservadora na religião, na sociedade. Temos utilizado também, na mesma direção, a expressão “bancada evangélica” para tratar de vereadores, deputados e senadores que agem, nos parlamentos, na defesa de normas e leis que se apoiam em princípios morais rigorosos e até mesmo fundamentalistas. Tais princípios, no entanto, me parecem comuns às igrejas cristãs de uma forma geral, e ao catolicismo, inclusive. Vou explicar.

    Desde o início desse século XXI, a representação dos interesses mais conservadores tem sido confundida com as teses e práticas morais das igrejas evangélicas, de forma especial as chamadas neopentecostais como Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Evangelho Quadrangular, Renascer em Cristo, Igreja Mundial do Poder de Deus e muitas denominações nascidas da Assembleia de Deus, para citar apenas algumas. Na verdade, todas as igrejas até aqui citadas são mesmo conservadoras. Elas não evitam o adjetivo. O que me parece, entretanto, digno de nota, é que o cristianismo brasileiro foi, na maior parte de tempo e na maior parte dos lugares, de corte também muito conservador e não somente os evangélicos.

    Vamos pensar um pouco na história. Quando os europeus atravessaram o Oceano Atlântico, no século XVI, para colonizar a América, estavam ainda imersos na ordem social medieval. Os portugueses que para aqui vieram praticavam um catolicismo totalmente imerso na ideia de cristandade. Como muito bem me explicou em conversa culta e agradável o professor Edebrande Cavalieri, Doutor em Ciências da Religião, vinham com a ideia de que as religiões que aqui encontrassem e praticadas pelos indígenas deveriam ser combatidas. A única fé aceita seria aquela praticada e ensinada pela igreja católica. Ela excluía as novas práticas trazidas pela Reforma Protestante, a fé judaica, e também as crenças que tinham os escravizados trazidos da África.

    O catolicismo era religião oficial, obrigatória e organizada pelo Estado Português. O fim da fase colonial nada mudou na organização religiosa, já que o império brasileiro manteve a religião de estado e o culto obrigatório do catolicismo. As funções civis de registro de nascimentos, casamentos e mortes também eram privativas da Igreja Católica, no jovem país que se tornara independente. Foi assim, até o advento da república, já no fim daquele século.

    Nossas práticas religiosas cristãs, desde sempre estiveram muito mais vinculadas aos patamares conservadores e fortemente ligadas ao poder e ao estado. Não é por acaso que ainda no início do século, o Cristo Redentor já guardava e protegia a capital da nossa república e várias cidades do interior do Brasil.

    Crédito: dislentev

    A Ação Integralista Brasileira, uma espécie de fascismo tropical, cresceu no Brasil dos anos 1930, fortemente ligada à igreja católica. Os padres de milhares de paróquias brasileiras eram os maiores cabos eleitorais do partido de direita e conservador que era dirigido por Plínio Salgado. Essa é apenas uma evidência do que estou tentando argumentar. Temos outras, como as marchas com Deus pela Pátria e pela Família, que deu sustentação ao movimento militar de 1964, é outra evidência do que estou expondo.

    Acho que não preciso ir mais longe. O cristianismo brasileiro é majoritariamente conservador. Atribuir todo conservadorismo cristão aos evangélicos é um erro que eu mesmo já cometi. A representação desse cristianismo conservador não pode ser atribuída somente aos evangélicos. Não acredito que os católicos tentem discordo do conservadorismo da maioria dos fiéis.

  • Banalidade do autoritarismo

    Por João Gualberto

    Em meu último artigo, fiz um breve comentário sobre o livro Como Salvar a Democracia de dois autores estadunidenses, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Eles analisam, basicamente, as ameaças que estão colocadas para a democracia em seu país. Na sólida argumentação que constroem, relembram movimentos do passado que, em suas épocas, também foram ameaças ao sistema democrático e se concretizaram no nazismo, no fascismo, no salazarismo e no franquismo, para citar as mais conhecidas entre nós.

    Atraiu, particularmente, a minha atenção, um movimento ocorrido na França, nos anos 1930, pela semelhança com acontecimentos recentes em nosso país. Narram, os autores, que na noite do dia 06 de fevereiro de 1934, dezenas de milhares de jovens raivosos – na maioria participantes de associações de veteranos ou de ligas de direita, que ostentavam nomes como Juventudes Patrióticas, Ação Francesa ou Cruz de Fogo – reuniram-se na Place de la Concorde/ Praça da Concórdia. 

    Os acontecimentos tomaram rumos inesperados. Houve queima de ônibus, e os manifestantes arremessaram objetos em direção à Assembleia Nacional. O violento ataque de 06 de fevereiro foi contido, mas produziu profundas marcas na política francesa. Os insurgentes afirmaram que eram patriotas heroicos que haviam tentado salvar a república da corrupção, do comunismo e da ausência de função pública. Eram mártires. Para eles, foi a polícia quem errou ao conter as manifestações.

    Quando o nazismo passou a ser uma ameaça a toda a Europa, esses mesmos grupos de extrema direita na França aderiram aos seus princípios autoritários. Quando o exército alemão invadiu aquele país, no início da Segunda Guerra Mundial, foram os membros de entidades, como a Juventude Patriótica, que colaboraram com os nazistas. Através deles, foi instituído um regime de colaboração com os invasores, na cidade de Vichy. 

    Mais do que isso, foram os que deram suporte à propaganda desse regime. Foram eles, os que mataram a democracia francesa, seis anos depois dos lamentáveis acontecimentos de 1934. Foram os seus líderes, os responsáveis pela entrega dos judeus, enviados aos milhares para a morte nos campos de concentração.

    As elites tradicionais têm a responsabilidade de liderar pelo exemplo e promover a estabilidade e o respeito mútuo na sociedade. Ao incitar grupos raivosos da chamada extrema-direita, elas correm o risco de desencadear ações violentas que fogem ao seu controle. A história da Europa nos lembra dos perigos desse tipo de colaboração, especialmente durante a ascensão do nazismo e do fascismo, quando grupos extremistas de direita encontraram terreno fértil para propagar suas agendas. É crucial aprender com esses eventos passados e trabalhar ativamente para evitar que tais situações se repitam no futuro.

    Essa colaboração foi construída durante décadas, e, sem ela, não teria havido a devastação que a guerra produziu. Os apoios nacionais de grupos de ultradireita foram fundamentais na construção de uma ordem que gerou a simpatia que fez Hitler e Mussolini avançarem. No fundo, esses grupos queriam que o nazismo triunfasse e seriam os apoiadores nacionais desses regimes.

    Por evidências históricas, como essa, é que devemos temer o crescimento de um patriotismo exacerbado, estribado em teses de intolerância e de exclusão dos adversários. Já que existe uma polarização inevitável no Brasil, que ela se dê no terreno da racionalidade política, a qual não admite que extremismos sobrevivam.

  • Salvar a democracia

    Imaginário autoritário entre os brasileiros é muito denso, é muito profundo, está muito enraizado
    por João Gualberto

    Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, os mesmos autores do excelente livro Como as Democracia Morrem, um best-seller global, escreveram outro que foi lançado no Brasil no ano passado, intitulado Como Salvar a Democracia.

    No livro recente, os dois professores de Harvard traçam um panorama das transformações que a democracia vem passando nos Estados Unidos. Eles analisam também, a perspectiva de mudanças que uma reação autoritária colocou. Essa reação autoritária, ameaça também os fundamentos do próprio sistema político. Ele estará no epicentro das eleições naquele país, agora em 2024.

    Para os autores, o modelo democrático estunidense garantiu a dominação de cristãos brancos durante dois séculos. Durante duzentos anos, ficaram no topo de todas as hierarquias econômicas, políticas e culturais do país. Isso começou a mudar de forma drástica no século XXI. As velhas hierarquias raciais estão sendo seriamente contestadas e o país começou a se tornar o que eles chamam de uma democracia multirracial.

    Os antigos donos do poder começaram a ter a sensação de que estavam perdendo o país. O lugar em que foram criados está sendo tomado deles. É essa sensação de perda é que vem empurrando uma grande base social para o extremismo, sobretudo no Partido Republicano.

    Para eles, a atual crise democrática nos Estados Unidos tem suas raízes numa reação contra a democracia multirracial. As mudanças estão sendo marcadas pela inserção política mais forte dos negros e de outros grupos antes afastados do poder. Foram muitos os direitos conquistados por esses grupos. São muitos também os atritos que a prolongada luta pela igualdade racial produziu. Comparando com a crise autoritária que também vivemos no Brasil hoje, ela tem para os autores diferenças importantes, a começar pela consolidação de inúmeros direitos produzidos pelas lutas raciais lá e aqui. Apesar de serem a maioria da população, os negros no Brasil estão longe de desfrutar dos mesmos direitos, proteções legais e oportunidades que os brancos.

    Por outro lado, a sociedade brasileira, marcada pelo coronelismo, tem profundos traços autoritários. Somos um país extremamente machista. Postos chave na cadeia de poder são sobretudo masculinos. Uma certa masculinidade tóxica acaba por tomar conta das organizações, da vida familiar e de todas as relações com a sociedade. Todas as questões de gênero têm muitas dificuldades em avançar entre nós.

    A cultura do desrespeito é muito forte também. Mais aqui do que lá. Desrespeito ao outro de uma forma geral, e especial com os mais fracos, com os pobres maneira geral. Em época de verão e férias, por exemplo, vemos isso no som alto as praias e lugares de entretenimento, sobretudo os públicos. Desrespeito aos idosos, aos portadores de necessidades especiais, àqueles que professam religiões que não sejam as nossas, de forma especial as de matriz africana.

    Temos muitas semelhanças sociais com os irmãos de norte da América. Tanto que o bolsonarismo como matriz autoritária avançou aqui, como avançou o apoio às ideias de Donald Trump lá. Temos também nossas diferenças. O imaginário autoritário entre os brasileiros é muito denso, é muito profundo, está muito enraizado. O fenômeno Bolsonaro foi produzido pelo que já estava instituído.

    Temos que reconhecer que não difícil que uma onda autoritária se implantasse entre nós. As pré-condições já estavam dadas. Todo o resto foi uma consequência dessas nossas raízes. Entretanto, a organização política para a manutenção de privilégios tão arcaicos na sociedade também não é fácil. Os próximos anos serão fundamentais na definição do tamanho de nossa capacidade de reduzir as injustiças, desigualdades e produzir a prosperidade para muitos no Brasil.

  • Polarização nas eleições municipais

    Por João Gualberto

    No início do ano de 2023 – logo nos primeiros meses dos novos governos e dos novos mandatos parlamentares – escrevi artigo onde afirmei que a polarização, que foi tão forte na eleição de 2022, tenderia a diminuir e ser menos intensa nas eleições municipais. Creio que não acertei na previsão. Antes, pelo contrário, o que vemos hoje é uma polarização que se enraíza, a partir das relações afetivas, sobretudo as que ocorrem junto às famílias. Os grupos de WhatsApp registram isso muito bem. 

    A sociedade brasileira adotou padrões de relacionamento extremados. Aliás, eles já existiam em outros países do mundo com forte presença da extrema direita. Nós somos muito influenciados, em especial, pelo que se passa nos Estados Unidos. De lá trouxemos para o Brasil as façanhas da era Trump. Assim, assistimos, mesmo agora, em tempos de festejar os encontros e os legados do afeto, muitos desencontros de amigos e famílias.

    No Brasil, tivemos por longas décadas, desde o início de 1980, um protagonismo enorme da esquerda no campo das iniciativas políticas e dos grandes movimentos da sociedade. São exemplos, as Diretas Já, a Redemocratização, a Constituição de 1988 e quase todas as políticas públicas que nos governaram nesse período. Esse protagonismo foi interrompido pela ascensão do bolsonarismo e da direita. Digamos que a cena ficou mais dividida. Em princípio, é bom e faz parte do jogo democrático. O que não é bom é a polarização afetiva que atinge nossas relações pessoais.

    Quanto às eleições municipais, elas costumam ser tocadas prioritariamente pelas necessidades locais. Isso significa que a zeladoria das cidades, as políticas locais de investimentos em infraestrutura, saúde ou educação ganham as pautas.  Obviamente que elas voltam a ter relevância para a conquista de votos. Entretanto, as razões, digamos, locais, dessa vez, terão um ajuste em função dessa grave polarização.

    Nas grandes cidades e capitais como São Paulo e Rio de Janeiro o impacto será muito maior. De forma inversa, em localidades muito pequenas essa influência pode ser mesmo muito menor. Existem ainda localidades que têm um bairrismo muito particular e que criam barreiras fortes para a polarização eleitoral que se aproxima. Não é um fenômeno mecânico, linear.  Ela vai nos afetar de forma distinta em diversas regiões. Mas, todos seremos, de uma ou de outra, afetados.

    Retomo, então, o início do meu raciocínio. Diferentemente de outros processos eleitorais nos municípios, teremos em 2024 eleições profundamente marcadas pela divisão esquerda x direita. Vou além. A direita está se preparando melhor para esse embate. Usa de forma escancarada os recursos da construção de uma certa verdade nas redes sociais e se organiza, hoje, melhor, de forma partidária. Por essas razões, deve avançar na conquista de prefeituras, projetando um ganho expressivo para as eleições nacionais e regionais em 2026, quando a polarização deverá ser exacerbada.

  • Serra: Eleições 2024

    Diferente de outros municípios: uma clara disputa já está colocada no maior colégio eleitoral do ES
    por João Gualberto

    São quatro os municípios que têm eleições em dois turnos no Espírito Santo. Portanto, são os colégios eleitorais mais importantes daqui. Na Grande Vitória forja-se boa parte das nossas elites políticas regionais. Nenhum dos governadores eleitos desde os anos 1940 teve qualquer mandato executivo no interior do Estado. São, sobretudo, produtos políticos dessa região. Importante, então, entender melhor o que se passa aqui.

    Abordei nos meus textos anteriores alguns elementos dos processos sucessórios em dois deles, Vitória e Cariacica. Hoje, tocarei no que deve ocorrer no município de Serra. O ciclo de gestões bem-sucedidas no município, foi iniciado em 1996 por Sérgio Vidigal. Ele teve duas eleições contínuas e em 2004 elegeu, por boa margem de votos, seu secretário de educação Audifax Barcelos, então, pouco conhecido.  De fato, ganhou três eleições consecutivas. Audifax também fez boa gestão em seu primeiro mandato, tanto que venceu mais duas eleições. Vidigal já está no quarto mandato. Os dois somam juntos 26 anos consecutivos de poder. É o recorde capixaba. Provavelmente a dupla mais longeva de nossa política, e mesmo do quadro brasileiro de sucessões municipais.

    Nas eleições desse ano, provavelmente, o atual prefeito será candidato à reeleição. É natural que seja. É o que tenho visto anunciado no noticiário político. Ao que parece, Audifax vai tentar reeditar a velha disputa de quase três décadas. Entretanto, seu desempenho nas eleições estaduais de 2020 acabaram por produzir um certo desgaste em seu capital político. Por outro lado, a equação de Audifax tem outra incógnita: sua inflexão à direita. Afinal, ainda não sabemos como o seu eleitorado vai entender o apoio que deu a Carlos Manato no segundo turno das eleições passadas. Manato foi candidato da direita bolsonarista, como bem sabemos. Esse é um fator novo.

    Por essas razões, não me parece evidente que a velha polarização venha a acontecer. Até porque, um novo ator vem ganhando impulso no processo, o deputado Pablo Muribeca. Ele tem pautado sua ação política pela lógica denuncista comum na direita. Essa lógica apelativa é muito potente para as redes sociais. Dá a ele, inclusive, um ar de ser mais de direita do que Audifax. Pode ocupar o lugar da polarização afetiva de que tenho tratado em meus textos. Mais ideológica, mais pautada em valores conservadores. Essa, que lida com razões que, às vezes, estão fora da política. Parece ter seduzido parte desse público mais reacionário. O bolsonarismo talvez encontre nele seu candidato.

    Pablo Muribeca e Sérgio Vidigal.

    Tudo vai depender da adesão que ele venha obter. Parte dos políticos da nova direita em nosso estado já parece estar atenta a esse fato. Mas eleição não é coisa para amadores, como tem registrado o próprio prefeito. A longa experiência de eleições de Vidigal terá seu peso, assim como as alianças que vem construindo ao longo de tempo. Vamos ver com quais armas Vidigal comparecerá ao campo de batalhas.

    Há, portanto, sinais de um novo embate. Só esse elemento já porta em si algo de novo na Serra. Os próximos lances vão definir melhor o que virá.

  • Eleições de 2024 em Cariacica

    Polarização não se desdobrará de forma mecânica em todas as localidades brasileiras. Cada uma delas tem suas especificidades
    João Gualberto

    Tenho chamado a atenção para a importância do fenômeno da polarização nas próximas eleições municipais. Creio que junto às enormes questões e demandas municipais ligadas à zeladoria das cidades, às políticas de educação, saúde, segurança, obras e infraestrutura, dentre outras, sempre presentes na cena política dos municípios, em 2024 haverá esse outro marco eleitoral.

    A polarização, entretanto, não se desdobrará de forma mecânica em todas as localidades brasileiras. Cada uma delas tem suas especificidades e, agora, elas se mostrarão presentes. Em São Paulo, por exemplo, o governo Lula jogará todas as suas fichas na eleição do Deputado Federal do PSOL Guilherme Boulos. A grande imprensa nacional tem noticiado que o próprio presidente tenta atrair a ex-prefeita e senadora por São Paulo, Marta Suplicy, de novo, para o PT, e para compor a chapa de Boulos.

    O ex-presidente Jair Bolsonaro está mais do que presente na política paulista, onde ajudou fortemente a eleger o atual governador Tarcísio de Freitas, e quer reeleger o atual prefeito. Passa grande parte do seu tempo dedicado a essa tarefa. Será uma guerra feroz, onde a polarização de que estou falando será o mote do processo. Tanto Lula quanto Bolsonaro apostam nisso e querem antecipar 2026.

    Na maioria das cidades, entretanto, o clima eleitoral vai depender das condições locais. Penso, hoje, em Cariacica, na Grande Vitória. Nela, a polarização já foi a principal razão de voto nas eleições de 2020. O segundo turno foi disputado pela ex-secretária de educação do governo de Helder Salomão no município, Célia Tavares, e pelo então deputado estadual Euclério Sampaio. Esse último Pastor da Igreja do Igreja do Evangelho Quadrangular. Ele sempre teve corte claramente conservador. Foi um deputado estadual alinhado com as teses da direita. Helder Salomão, o Deputado Federal mais votado do Espírito Santo nas eleições passadas, tem forte presença política no município que governou por dois mandatos. Foi um enfrentamento de polos, de bolhas.

    Tudo isso ficou muito claro. De um lado o conservadorismo de Euclério e de outro o petismo da Célia Tavares. Euclério venceu a eleição, como todos sabem.

    Com esse perfil vai disputar as eleições desse ano. Pelo que se anuncia terá novamente como principal adversária a mesma Célia Tavares do PT. Certamente, mesmo que não queiram, ambos vão reeditar a polarização. O quadro nacional vai se colocar em Cariacica. Caso realmente vença as eleições, Euclério Sampaio começa a se credenciar para disputar o podium conservador em nosso Estado.

    Ao contrário de Jair Bolsonaro que governou com base em narrativas negacionistas e com mais gestos do que políticas públicas, Euclério montou um governo aprovado nas pesquisas de opinião. Realiza obras em parceria com o governo Renato Casagrande, distante de suas raízes ideológicas. Sabe que precisa de entregas. A última foi a Orla de Cariacica. A isto, dá-se o nome de pragmatismo político. O prefeito, surpreendendo a todos, vestiu-se desse pragmatismo político. Um conservadorismo pragmático, para usar uma expressão condizente com o que vem tentando – um governo acima de desavenças locais.

    Como as eleições de 2024 portam, em grande medida, as de 2026, vamos ver como se comportam eleitoralmente os prefeitos claramente de direita como Pazolini, Euclério, Enivaldo dos Anjos, e como irão se cacifar para o próximo pleito estadual, e como encarnarão a polarização regional

    Euclério Sampaio, Prefeito de Cariacica eleito em 2020: administração pragmática. Foto: ESHOJE.
  • Crime e política

    Por João Gualberto

    Estamos assistindo ao crescimento da violência no Brasil. Espaços como as periferias das grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, estão completamente tomados por grupos extremamente organizados – todos eles a partir da violência – que dominam a cena. As populações que habitam esse espaço são permanentemente submetidas ao domínio dos contraventores, e de vários grupos de atores desse mundo. Nele se mata por muito pouco. 

    Os que dominam o tráfico de drogas, o jogo do bicho, os que participam das milícias armadas, os pistoleiros – muitas vezes às ordens de um dos lados da luta, são os chefões. A polícia militar costuma ter sua dose de culpa nesse ambiente violento. Suas intervenções agudizam o clima instalado. O Estado, na maioria das vezes, ausente. 

    O crescimento da violência organizada tem sido objeto de muitos estudos, eles nos chegam de várias formas. Chamo a atenção, aqui, para o podcast A República das Milícias organizado pelo estudioso do tema violência e pesquisador da USP Bruno Paes Manso, autor de livro do mesmo nome e de um outro igualmente importante chamado Fé e Fuzil: fé e religião no Brasil do século XXI. Um outro podcast, Os Pistoleiros assinado pelo jornalista Rafael Soares, também toca nos bastidores do crime organizado no Rio de Janeiro. A Globoplay tem duas séries importantes: Vale o Escrito e Doutor Castor. Ambas fazem radiografias dos grandes bicheiros cariocas, de sua paixão pelo carnaval e pelas escolas de samba. Esses quatro grandes trabalhos jornalísticos e de pesquisa sobre a vida cotidiana no Rio de Janeiro formam uma visão clara da dimensão a que chegou o crime organizado entre nós. 

    Ao contar a história dramática da organização da violência e do massacre do cidadão comum que vive nesses espaços urbanos, cuja ocupação se deu longe das regras do Estado, nos é mostrado um panorama muito atual do Brasil das grandes cidades.  As favelas e as regiões da periferia, surgiram através de grandes improvisações de políticas públicas e pela total negligência histórica das autoridades brasileiras pela vida dos mais pobres. Os autores, na verdade, contam muito do que se passa em todas as cidades brasileiras. 

    A primeira questão que eu me coloquei ao ver e ouvir esse conjunto rico de trabalhos foi sobre a origem da contravenção no Jogo do Bicho. Por que contravenção? Apostas feitas, sobretudo no mundo dos pobres, têm o mesmo perfil de tantos outros jogos bancados pelo próprio governo. Somente a corrupção e a montanha de dinheiro fácil que ele gera pode explicar sua colocação como contravenção. Hipocrisia de muitos com permissão oficial. Dessa montanha de dinheiro originam-se outras contravenções como as chamadas máquinas caça-níqueis. As guerras por seu controle ganham dimensões de massacres nas grandes cidades. Todas as séries acima citadas colocam em evidências personagens como Rogério Andrade ou Shana Garcia, as famílias poderosas desse universo e os seus grupos armados. Eles comandam e usam a mesma lógica das máfias internacionais.  

    Toda essa máquina de poder e dinheiro precisa da proteção do Estado para agir. As milícias cariocas operam em áreas muito mais amplas do que o controle de suas bases territoriais. Vão do contrabando ao tráfico de droga, de armas e outras transgressões e violações. Tudo isso só existe sob forte proteção de autoridades. Por isso, ajudam a eleger muitos parlamentares e cargos no executivo. Estão representados nas câmaras de vereadores e nas prefeituras, além de muitas assembleias, e também no plano nacional. 

    Creio que posso afirmar, sem medo de errar, que, daqui para frente, ninguém pode compreender o que tende a acontecer na política brasileira, sem entender o mundo do crime. As milícias e as contravenções já elegem inúmeros políticos em muitos Estados Federados. E, assim, aos poucos, estão cercando nossas instituições com o poder de muito dinheiro. 

  • A polarização afetiva

    Por João Gualberto

    Um dos fenômenos sociais mais importantes do mundo em que vivemos é a polarização. Ela se dá sobretudo no campo ideológico. Como a polarização é muito ligada às redes sociais, torna-se um fato global. Não está restrita à sociedade brasileira. A persistência da polarização depois da eleição de 2022, já foi objeto de um outro artigo meu. Quem esperava que nesse ano de 2023, ela fosse diminuir errou. Eu mesmo estou entre os que erraram. O que vemos, ao contrário, é a sua força em muitas instâncias da vida cotidiana. Agora ela ocupa espaços que antes nunca foram divididos, e nem havia competição por ideias.

    O tema é bem tratado no livro que acaba de chegar às livrarias: Biografia do Abismo: como a polarização divide famílias, desafia empresas e compromete o futuro do Brasil, Thomas Truman e Felipe Nunes, deram interessante entrevista ao jornal O Globo em sua edição do dia 02 de dezembro. Nela, eles definem as eleições de 2022 como a consolidação de um processo competição de identidades, que se expressam e se espremem em bolhas.  No decorrer do processo, cada bolha foi ficando mais parecida internamente e, ao mesmo tempo, mais diferente da outra.

    Foi sendo consolidada, na visão dos autores, uma grande Polarização Afetiva. Nela, cada um tem sempre razão e cada bolha quer ter direito a representar o Brasil. Cada um, só se sente confortável quando se relaciona com quem compartilha das mesmas paixões. Quem reenvia uma mensagem recebida não precisa nem acreditar nela, é muito mais sobre lealdade e participação dentro de um grupo. Parece mais torcida de times de futebol.

    Os autores chamam a atenção para o fato de que o que está agora em jogo não são mais decisões sobre economia, mas como cada um quer criar o seu filho, que música ouvir e que artistas quer acompanhar. Esse processo vai tornando-se de tal forma forte, que a chamada Polarização Afetiva vai calcificando as preferências políticas. Cada voto contém assim uma visão de mundo e o que cada um acha que é o certo. Esse processo será forte em 2024.

    Muito bem analisado, pelos autores, todos nós estamos vivendo esse processo. Os grupos de WhatsApp, as mesas dos bares e de muitas casas, antes divididas de forma natural, agora não comportam mais gente dos dois lados da polarização. A tolerância e foco na amizade e na alegria foram embora. O que temos visto são discussões, agressões verbais e afastamentos.

    Eu mesmo tenho notado que não consigo mais frequentar muitos grupos de amigos de longa data, por diferenças de opinião. Diferenças que, diga-se de passagem, sempre existiram. Não estamos mudando nossa visão de mundo. Sempre foram essas. O mundo ficou intolerante, mais difícil e dominado pela polarização. E mais, cada um quer lacrar em cima do outro. Sacanear como nas torcidas de futebol. Como se fôssemos todos e o tempo todo flamenguistas e vascaínos.

    Quanto mais intensa for a relação afetiva, mais a polarização se faz presente. É cada vez mais difícil, por exemplo, começar um namoro ou um relacionamento entre Lulistas e Bolsonaristas. Também não é fácil, para a maioria dos brasileiros, suportar suas próprias famílias ou a de amigos com visão política muito diferente da sua.

    Podemos até admitir que sempre houve isso. Não nessa intensidade e nem na proporção que a intolerância está tomando entre nós, tornando a vida mais chata, os amigos mais escassos e a sociedade bem pior.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 08 de dezembro de 2023.