• Rumo ao centro na política

    Por João Gualberto

    Pelo que tenho acompanhado nos trabalhos políticos da Persona, empresa da qual sou um dos fundadores, e também nos noticiários nacional e internacional, existe hoje uma certa fadiga, por parte dos eleitores, quanto a posições mais extremadas nas cenas eleitorais. Para fortalecer meus argumentos lembro as recentes eleições europeias. Começo pelo Reino Unido, onde o partido trabalhista voltou ao poder depois de 14 anos de governos conservadores. Um dos líderes mais destacados do período que se encerra é o ex-premier Boris Johnson, que conduziu o país tendo como marca pessoal um estilo polêmico, com seus cabelos desgrenhados. Penso que ele foi como imagem a marca desse momento.

    O novo primeiro-ministro, Keir Starmer, ainda durante as eleições e mesmo nos primeiros tempos de governo, passou sempre a imagem de um líder sereno, moderado. Para tanto, seu grupo interno afastou, ao longo dos anos, aqueles que não compunham seu ideal de moderação. Com os trabalhistas a Inglaterra marchou para o centro. O mesmo se deu na eleição francesa. Apesar da vitória de um grupo mais à esquerda, a verdade é que a direita francesa fez grandes esforços de moderação em seu discurso. As teses mais ligadas ao comportamento foram abrandadas e restou do extremismo a caça aos imigrantes, em especial àqueles vindos do mundo árabe, os mais comuns na França. Paradoxalmente a esquerda fez o maior número de deputados, mas a direita mais extremada pode ser agora chamada de nacionalista. Mudou seu tom mais agressivo e ficou menos exagerada.

    Até mesmo o Irã, sobre cujo processo político não se ousou fazer muitas considerações, também marchou para a moderação. Creio que lá os lideres religiosos mais tradicionais viram a necessidade de conter as ações políticas mais repressivas. Todos se lembram do enorme número de mortes durante o período de manifestações da população contra as severas medidas de restrição à liberdade, sobretudo a feminina. O estopim foi a prisão, seguida de morte, de uma mulher que não teria se comportado segundo o rígido código de conduta implantado pelos aiatolás. Tanto o custo social interno quanto o de imagem externa devem ter levado a cúpula dirigente a emitir sinais de um pouco de tolerância. Mesmo que nisso haja algum teatro político, não é desprezível do ponto de vista da sociedade, pois descomprime o cotidiano.

    No caso brasileiro tenho observado uma redução de importância dos grandes porta-vozes da radicalização. É certo que a direita cresceu e se consolidou entre nós. O parlamento nunca legislou de forma tão conservadora nos costumes quanto agora.

    Boa parte dessa tendência se dá pelo interesse em agradar aos segmentos mais ligados à intolerância na questão dos costumes, em especial ao público evangélico. Entretanto, essa marcha em direção à direita não me parece tender a posições mais radicais neste momento, quando nos aproximamos das eleições.

    Vou explicar meu ponto de vista. Narrativas mais contundentes não me parecem ser as mais esperadas pelos eleitores em 2024. Para começar, mesmo que exista uma polarização natural dos eleitores entre conservadores e progressistas, entre direita e esquerda, entre lulistas e bolsonaristas, a dimensão da eleição municipal coloca o projeto de cidade no debate. Desse modo, não basta ao candidato estar alinhado a um líder nacional; é preciso também que ele mostre ao eleitor que está atento ao desejo de prosperidade de determinada localidade, articulando propostas aceitas pela maioria.

    Trata-se, portanto, de duas vertentes, na minha observação. A primeira é que os discursos mais musculosos estão cansando a população, ficaram banalizados e não surtem mais aqueles mesmos efeitos de 2018 e 2020 entre nós, como vimos também em outros países. É preciso mais moderação e mais conteúdo também, sobretudo na apresentação de projetos que façam sentido para o conjunto dos eleitores. Falo principalmente das disputas para prefeito. No caso dos vereadores pode-se ainda agradar somente a uma bolha, afinal as casas de lei são lugares onde se dá o debate das diferentes posições que existem na sociedade. É lá que se constroem os consensos para a normatização da vida coletiva, onde portanto cabem gestos mais extremados que visem a um certo segmento social.

    Para finalizar, creio que a tendência de cansaço perante os extremismos, que já foi observada em outros países, pode vir a acontecer também entre nós. Provavelmente, caminhamos para construir, em curto prazo, um país conservador, sim, porém ao que tudo indica com mais moderação do que vimos no passado recente.

  • Arcaísmo como projeto

    Por João Gualberto

    Li, mais uma vez recomendado pela professora Adriana Campos, o excelente livro Mercado Atlântico, Sociedade Agrária e Elite Mercantil em uma Sociedade Colonial Tardia – Rio de Janeiro 1790 e 1840, dos historiadores Manolo Florentino e João Fragoso. O longo título da obra já expressa bem o seu conteúdo, uma análise do que se passou entre as elites econômicas e seu projeto político no Rio de Janeiro, entre o fim do século XVIII e início do XIX. A província, afinal, transformara-se no epicentro do poder colonial em nossas terras. Muito do que foi analisado no trabalho presta-se à compreensão da dinâmica econômica e social do Brasil todo. Havia uma relação estreita entre os estamentos da nossa sociedade daqueles tempos. Os fenômenos regionais já guardavam relação entre si, desde a colônia, como muito bem prova a extensão territorial da exploração do pau-brasil, da cana-de-açúcar e o impacto abrangente da exploração do ouro, sobretudo nas Minas Gerais.

    O que os dois autores mostram, com toda clareza, é que o Brasil foi produzido socialmente a partir de um projeto marcado pelo que chamam de arcaísmo. No caso estudado ele expressa, para dizer de forma muito simplificada, uma junção entre as sociedades do Antigo Regime – como aquela que havia na França pré-revolucionária – e o escravismo moderno.

    Nas sociedades tradicionais, como as define Anthony Giddens, a aristocracia tinha um  regime de privilégios impensáveis para os nossos dias, segundo os quais até mesmo a justiça não se deveria fazer de forma igualitária. O justo era proteger os que tinham uma linhagem nobre. Um bom juiz português desse período deveria, antes de tudo, impedir que um fidalgo pudesse perder qualquer causa para um homem comum. A questão da justiça era não permitir que os privilégios fossem extirpados. A sua função central na velha ordem era a de fazer com que nada mudasse. Havia uma espécie de engessamento social, no qual também a religião católica, no nosso caso e em muitos outros, teve papel central, acentuadamente no Brasil, com a presença dos jesuítas, da inquisição e de seus terríveis e temidos tribunais. Os jesuítas eram de fato a ordem religiosa mais forte politicamente antes de sua expulsão, em 1759, por decisão do Marquês de Pombal, primeiro-ministro do governo lusitano. A ordem dos jesuítas tinha mais poder do que as demais e o exercia de forma inequívoca, sendo um dos pilares do arcaísmo brasileiro.

    Outra sustentação importante daquela velha ordem eram as visitas do Santo Oficio, como espaço de manutenção de coesão de princípios fundamentais da ética daqueles tempos. Os julgamentos feitos pelo tribunal, que asseguravam a manutenção de uma fé católica extrema e intocável, não distribuíam as penas de forma imparcial. Isso muito bem demonstra Ronaldo Vainfas em Trópico dos Pecados, sobretudo porque os fidalgos não poderiam ser alcançados pelas punições mais graves, que eram destinadas aos cristãos-novos e às pessoas comuns. As bases de funcionamento desigual das sociedades do Antigo Regime seriam ainda mais potencializadas entre nós pela presença de escravizados e indígenas, que sequer eram considerados pessoas, como as originárias do continente europeu. A desigualdade nesse caso era tão brutal com os grupos sociais mantidos pela pedagogia do medo – os escravizados, humilhados e massacrados pela ordem arcaica – que ampliavam enormemente as desigualdades inerentes ao arcaísmo histórico.

    No início do século XIX Brasil e Estados Unidos tinham economias de igual potência. No no final daquele século os EUA tinham sido alavancados para ocuparem um lugar importante em todo o mundo, ao passo que nós não conseguimos fazer o mesmo. Uma das razões foi o projeto arcaico das elites brasileiras e lusitanas. Nosso atraso social foi projetado para acontecer. Não foi obra do acaso. Foi escolha política mantida longamente através do tempo, como muito bem mostram Manolo Tolentino e João Fragoso.

    Para os autores, o arcaísmo tem, no bojo de seus projetos, duas vertentes principais: a primeira foi um processo econômico concentrador de riquezas no topo da hierarquia social, desde o início de nossa colonização. A segunda foi a manutenção de uma engenharia que se constituiu produzindo muita pobreza.

    Criamos também um imaginário social que naturalizou essa pobreza, eximindo as elites da responsabilidade de construir um processo que a eliminasse ou ao menos reduzisse suas dimensões. Mais do que naturalizar a vida das pessoas pobres, fizeram uso do mesmo tratamento para a sua criminalização.

    A resposta natural para qualquer ação dos desfavorecidos sempre foi a truculência policial, derivada da irresponsabilidade social de nossas elites. Creio, portanto, que ainda somos produtos desse imaginário perverso há tantos séculos construído e que ainda nos invade no presente, dando longa vida aos nossos impasses.

  • PEDRO  NUNES

    Este é o terceiro artigo que publico neste espaço e que trata da produção literária em nosso estado com um olhar analítico. Tento fazer uma espécie de sociologia do cotidiano capixaba. Já escrevi sobre Renato Pacheco, Getúlio Neves e neste texto analiso a obra de Pedro Nunes. É uma literatura pura, simples, direta, rica e desenhada com esmero. Não me parece um texto desses que se escrevem às pressas. É um autor dos detalhes, das palavras escolhidas uma a uma. 

    Pedro retrata o Espírito Santo rural em que ele viveu, no fim dos anos 1960 e início dos 1970. Digo rural mas devia dizer interiorano, ou das pequenas cidades do Sul do nosso estado. É quase antropológico, não pretende ser mais do que uma história bem contada sobre personagens que tangenciaram a sua vida. Aliás, nos bons autores, cada personagem é uma síntese das muitas vidas com as quais teve contato, mas com os exageros próprios da ficção. Sem esse tom ficcional, esse exagerar de atributos conhecidos, não se fazem bons romances, não se escrevem bons livros.

    Pedro Nunes mostra-se como o bom capixaba que é, nascido e criado em São José do Calçado, município que longe não fica do Caparaó e nem dos nossos limites com Minas Gerais e Rio de Janeiro. Uma pequena cidade pacata e de modesta vida social e cultural. Tanto que num dos contos, intitulado Minha primeira biblioteca, ou tributo a Maria, e que compõem o livro Na Livraria: diversas caligrafia ele conta sua experiência na única livraria que existia na cidade, que aliás fechou com poucos meses de vida, justamente por não ter vendido quase nada. 

    Nesse universo rural e da pequena Calçado escreveu A Tarde dos Porcos, Menino e Vilarejo e outras histórias. São livros que nos remetem ao universo das infâncias dos que nasceram naqueles tempos, em especial no Sul do Espírito Santo, mas também podendo ser generalizado para todo o nosso estado e mesmo para o Brasil desse mundo caipira, como diriam os sociólogos da USP de décadas atrás.

    São histórias de dentro da casa, da autoridade paterna temperada pelo tom amoroso da mãe, dos meninos da rua, das brincadeiras ora violentas ora ingênuas, da asfixiante presença das primas inacessíveis, do medo de assombrações. Esse era de fato o universo infantil perverso e ingênuo daquele mundo que vai morrendo. Tudo narrado de uma forma doce e, ao mesmo tempo, dura. Ingênua, mas cheia de maldades. Esse mundo em que Pedro Nunes viveu também era o meu mundo. Era o mundo da minha geração. Por isso falo de uma certa sociologia do cotidiano capixaba. No caso de Pedro Nunes, em algumas de suas obras, esse é o cotidiano das crianças, dentro de um universo muito especial. 

    Pedro e a capa da Vilarejo e outras histórias:
    sociologia do cotidiano e estilo ímpares da literatura capixaba.

    Outra dimensão da obra de Pedro Nunes é a dos que, digamos assim, deram errado. São moradores das periferias de Vitória, ou dos submundos da cidade grande, de uma forma genérica. Os contos reunidos em A Última Noite dão uma prova clara disso. Os personagens habitam um bairro que em tudo se assemelha à região de São Pedro, uma das mais pobres de Vitória na época retratada. São bêbados, prostitutas, desesperançados de uma forma geral, mulheres vítimas da vida. Aqui uma marca muito forte é a violência. Nesse mundo que a urbanização desumana criou entre nós, tudo é provisório, os afetos surgem misturados à perversidade ou mesmo à brutalidade.  São corpos cansados, violentados, perdidos, vidas vazias de significado. 

    Deixei por último Aninhanha, o livro mais surpreendente e mais inesperado dentre as obras de Pedro Nunes por mim lidas. Trata-se do relato de uma miserável criatura, que vive uma vida pobre e tosca. Abandonada ao nascer, foi criada pela personagem que dá nome ao livro. Uma catadora de coisas que sai toda manhã com seu carroção à procura de garrafas que vende no fim do dia. À noite recebe homens em sua palafita em troca de alguns dracmas. Uma pessoa solitária e com visíveis problemas cognitivos, que se embebeda com frequência. É uma história cujo dia a dia se repete. A grande mestria do livro está mesmo na construção linguística, na narrativa explosivamente monótona dessas vidas vazias.

    Os que foram expulsos do mundo caipira para as periferias da capital trazem consigo uma espécie de código de honra do matuto, como bem definiu Darcy Ribeiro. Nesse código de honra estão o machismo, a violência, nossos traços identitários mais fortes, mas também a fofoca – sobretudo a fofoca. Ela, sempre ela, no coração das nossas coisas, do nosso imaginário social. Essa maneira covarde de se enfrentar poucas vezes, de fato, frente a frente, mas de plantar maledicências pelas costas, um dos motores da nossa vida em sociedade.

  • REINVENÇÃO  COLETIVA

    João  Gualberto

    Escrevi anteriormente o artigo que chamei de Reinventar-se, publicado aqui mesmo neste espaço. Nele chamei a atenção para, a partir da observação da obra do sociólogo inglês Anthony Giddens, valorizarmos o tempo em que vivemos, afinal nele podemos, pela primeira vez na história da humanidade, planejar nossa própria existência e realizar mudanças em nós mesmos, para alcançar nossos desejos, como nunca antes foi visto. Mudamos de cidade, de país, a cor dos cabelos, as feições e mesmo assumimos nosso gênero, independentemente do sexo biológico. É claro que em determinados países a condição feminina ainda é muito dura para as mulheres, existe forte preconceito com os homossexuais, com as pessoas transgênero e ainda muitos outros elementos que restringem as liberdades individuais, mas os avanços são sensíveis em quase todo o mundo.

    Neste texto quero explorar um outro aspecto da alta modernidade, como a definiu também Giddens: a construção de novos atores coletivos. Por meio desse movimento passou a ser possível a muitos de nós mostrar-nos mais como somos verdadeiramente, e não como sempre aconteceu no mundo antigo. É só pensarmos na rigidez de uma aldeia medieval para materializarmos o que quero dizer. 

    Os atores coletivos contemporâneos a que me refiro são, diferentemente dos indivíduos, grupos sociais até então marginalizados ou tidos mesmo com inferiores pelas forças dominantes. Ao serem discriminadas, até mesmo por meios legais, as pessoas que compunham esses grupos tiveram suas existências massacradas.

    Na sociedade brasileira os indígenas, os povos originários, são um grande exemplo disso. Colonizados, catequisados de forma obrigatória, perderam toda a potência de sua cultura. Darcy Ribeiro em muitos de seus estudos mostra isso claramente. Um povo do qual retiraram a língua, seus costumes, sua cultura, indivíduos que se viram depois transformados no contingente dos mais pobres nos centros urbanos. Mais recentemente começamos a reconhecer toda a sua força e sua ancestralidade. É ainda um processo, temos ainda resistências, mas não resta dúvida de que há também um movimento que nasce desse povo injustiçado e tem adesões sociais importantes para reconhecer sua força, sua potência. Um ator coletivo que a nossa história massacrou e que agora vai ganhando novo espaço social. 

    Os movimentos sociais protagonizados por aqueles que são descendentes de ex escravizados e que buscam reagir aos preconceitos enraizados em nosso meio social  tem crescido em número e conseguido muitas conquistas importantes. O racismo é um dos maiores males de nossas sociedades, mas ele tem sido combatido por muitos, e os movimentos antirracistas têm obtido suas vitórias. Quero, entretanto, me fixar em um ponto: não há dúvida de que esse novo ator social está surgindo no Brasil desde as últimas décadas e protagoniza lutas por direitos e também por reconhecimento social. Quando imaginamos o Brasil dos anos 1950, por exemplo, e o comparamos ao que vemos hoje, não há dúvida de que esse grupo social importante se constituiu em meio a uma sociedade injusta, preconceituosa e desigual. Tudo se deve a seu próprio esforço por superação da situação que nossas elites dominantes criaram.

    Por fim há um outro grupo social, diferente dos dois já citados, mas que também encontrou um novo lugar no mundo, os chamados idosos, terceira idade, os mais velhos, enfim. Antes destinados ao silêncio dos lares e ao convívio restrito dos familiares, agora eles têm a seu favor o incrível avanço da medicina, que aliviou os sintomas de doenças, descobriu novos medicamentos que ampliaram enormemente a expectativa de vida e cirurgias quase milagrosas, se compararmos ao que era vivido há um século. O papel social da população idosa, entretanto, precisa ser melhor pensado. A experiência deve ser aliada ao empreendedorismo jovem para alcançar bons resultados em nossos dias.

    A autoridade que vinha com a experiência perdeu seu valor em nossos dias. As cabeças brancas, agora, têm que mostrar flexibilidade e capacidade de interagir com outros grupos sem imaginar que sua experiência possa resolver, por si só, problemas que são novos e que exigem novos processos, novas formas de comunicação. Talvez esse grupo deva se retirar da ação e caminhar mais para o nível dos aconselhamentos. Viver mais exige novas posturas, mas não há dúvida de que existe um novo sentido para a idade e mesmo esses novos atores sociais no mundo. 

    Enfim, diversos atores coletivos saíram das sombras e vieram viver suas vidas com mais autonomia, alegria e liberdade entre todos. Um dia faremos deste Brasil um lugar de convívio mais fraterno entre grupos sociais tão diversos e ao mesmo tempo tão complementares entre si.

  • Reinventar-se

    Por João Gualberto

    Nos muitos anos em que fui professor do curso de mestrado em administração da Universidade Federal do Espírito Santo estruturei muitas aulas, como também a orientação de dissertações, na vasta obra do sociólogo inglês Anthony Giddens. De modo especial, sempre estive muito atento ao seu conceito de modernidade, sobretudo quando ele o articula ao de autoidentidade. Isso porque nas sociedades tradicionais cada indivíduo tinha um papel social que era basicamente definido por seu lugar na estrutura da sociedade como um todo. Havia pouco lugar para modificações.

    Para pensarmos em alguns exemplos, basta imaginarmos alguém vivendo em uma aldeia medieval europeia e  seu universo existencial. Cada ação sua já estava prevista no código moral de seu meio. Impossível não ser cristão, caso em que ele poderia simplesmente ser queimado pela inquisição. Ademais, sua profissão já estava definida na lógica de sua família. Ninguém mudava de classe social, ninguém poderia romper com a estrutura que já estava colocada desde o dia em que nasceu.

    O mesmo se dava com o ser humano que vivia numa sociedade tribal, onde a mobilidade social nem existia, até porque, sem acumulação de bens, a diferenciação social era quase nula. Com as sociedades atuais tudo isso mudou. O que Giddens chama da alta modernidade, que são também os tempos da globalização, varreram muitas barreiras. Aliás, ele foi um dos primeiros intelectuais que trabalhou com a ideia de globalização e sua relação dialética com o local. Essa desconstrução de barreiras redefiniu as possibilidades de cada um de nós.

    Muitas vezes me espantam as transformações que vejo desde o mundo em que nasci até os tempos atuais. Estou, portanto, falando do meu presente e não de tempos imemoriais. Hoje as pessoas podem muito mais ser o que querem do que há menos de 60 anos. Penso nisso, por exemplo, quando vejo o magnífico mosteiro zen budista que Daiju San construiu no Morro da Vargem, no município de Aracruz. Ele, que nasceu Bitti e filho do prefeito de sua cidade, é hoje uma figura relevante no mundo religioso do qual participa. É um dos monges mais importantes do mundo. Reinventou-se como um novo ser, muito distante da criança que foi e do adulto que estaria fadado a se tornar.

    Não precisamos ir tão longe para expor o meu argumento, basta vermos a quantidade de pessoas que mudaram seus rostos, transformaram seu nariz ou suas orelhas, a cor de seus cabelos ou harmonizaram sua face de forma a transformarem-se em pessoas bem mais próximas de seu ideal de beleza. Tudo isso era impensável até bem recentemente, sem falar em opções mais radicais, como os que mudam para se adaptar a sua própria condição de gênero. Há também homens que se travestem como mulheres e vice-versa. Ou seja, na alta modernidade, qualquer um de nós pode muito mais facilmente transformar-se  na pessoa que deseja ser.

    É a primeira vez na história da humanidade em que essas transformações podem acontecer e cada um de nós pode ser aquele ou aquela que deseja ser. Há hoje, também pela primeira vez, uma espécie de planejamento estratégico de nossa própria existência, de nosso estar no mundo. A possiblidade de nos reinventarmos está, é claro, muito vinculada aos recursos financeiros que temos e ao mundo que nos cerca. Os mais pobres no Brasil, por exemplo, têm mais limitações do que os que me leem, que são em sua imensa maioria dos setores médios da população. Nos nossos setores sociais somos o que quisermos ser. Muitas vezes é preciso coragem, mas viver exige coragem, como muito bem profetizou Guimarães Rosa.

    Para finalizar meus exemplos, cito que os últimos presidentes do Brasil não nasceram em berços aristocráticos e nem são herdeiros de alguma família tradicional no poder. Do mesmo modo podemos mencionar os mais recentes governadores do nosso estado e  prefeitos da capital. Todos são pessoas que acreditaram em si mesmas e inventaram os seus destinos. Nunca antes houve essa possibilidade no mundo, a não ser com uma ou outra exceção. Creio ser esse, de fato, o maior ganho de viver nos tempos em que vivemos, apesar de tanta dor e opressão que ainda restam como marcas do passado distante ou da opressão atual.

  • O PCC e a política brasileira

    Por João Gualberto

    O sociólogo francês Daniel Pecaut  – de quem fui aluno no doutorado na França nos anos 1980 – é especialista na sociologia política latino-americana, e especial um bom analista da política e da sociedade na Colômbia, foco original de seus estudos. Desde a época em que com ele estudei o ouço anunciar os riscos do crescimento da criminalidade no nosso subcontinente, em especial aquela advinda do comércio internacional das drogas, com muito foco na cocaína.

    Aquelas preocupações, algo precoces para a época, se justificavam pelo início do refino às toneladas do produto. A partir da década de 1980 esse refino começou a ser feito em escala industrial pelo cartel de Medellín, sediado naquela cidade colombiana, mas que operava também na Bolívia, Peru, Honduras, Canadá e Estados Unidos, sob a direção mais visível de Pablo Escobar. Na verdade, porém, era formado por milhares de colaboradores.

    Segundo dados que se tornaram públicos, esse cartel, que operou até 1993, chegou a movimentar bilhões de dólares. A quantia parece exorbitante, e é. O negócio das drogas é um dos maiores do mundo e o mercado consumidor não para de crescer, localizado, sobretudo, nos países ricos da Europa e nos Estados Unidos do Norte. Ele também é expressivo em todos os segmentos de maior renda da maior parte dos países do mundo. O combate e as mortes se dão nas periferias, mas o mercado consumidor fica na classe média alta.

    Daniel Pecaut chamava a atenção em seus livros, em todas as suas intervenções públicas e também em sala de aula para o perigo que esse crescimento comercial absurdo portava para toda a sociedade latino-americana. Sua tese sempre foi a de que temos um sistema político ainda frágil e muito marcado pela corrupção. Para ele esse sistema permitiria o ingresso desse mundo do crime na arena política e também nos estratos mais próximos ao poder.

    O mundo do crime se organizou mais recentemente a partir desse fluxo gigantesco de dinheiro. O jornal O Globo trouxe recentemente uma série de reportagens sobre o PCC, que tem mais de 42 mil “agentes”, mil deles no exterior, e é o maior grupo do crime organizado no Brasil. Virou até uma referência internacional no comércio de drogas, segundo fontes como o Ministério Público paulista. Hoje é uma multinacional do crime organizado e eficiente, conquistando parceiros que permitem que opere em 24 países, podendo despachar drogas aos cinco continentes. Seu faturamento estimado é de US$ 1 bilhão por ano. Pelo menos 80% desse faturamento bilionário vem do tráfico internacional de entorpecentes.

    O PCC, segundo as reportagens de O Globo, foi formado em 31 de agosto de 1993, na Casa de Custódia de Taubaté, com o discurso de combater a opressão no sistema prisional e evitar novos massacres como o do Carandiru, ocorrido um ano antes. Naquele tempo, facções estruturadas como as atuais não existiam, eram apenas grupos isolados. Nas últimas duas décadas essa organização apostou as fichas no que viria a se tornar a sua maior fonte de renda. A partir desse fato reforçou sua hegemonia nos presídios paulistas e expandiu seus domínios para todo o território nacional. Sua última e mais ambiciosa investida foi fincar raízes na Europa e estruturar o tráfico para fora do Brasil. Estamos lidando com o que há de mais sofisticado no mundo do crime.

    Voltamos neste ponto às preocupações antigas de Daniel Pecaut, a fragilidade do sistema político de países como o nosso para blindar-se das investidas desses grupos. Para começar, essa montanha de dinheiro vinda do tráfico precisa ser legalizada – “lavar” o dinheiro, como se diz. Precisa migrar para uma atividade legal, como tem sido feito, segundo a imprensa, para setores como o dos transportes coletivos em São Paulo. Há evidências dessa presença em outros setores ligados ao poder. Em estados como o Rio de Janeiro, as organizações do chamado crime organizado já começam a invadir a vida política.

    Creio que não seja alarmismo imaginar que a política brasileira vai ser cada vez mais invadida, daqui para a frente, por esse tipo de atores sociais. Nada nos permite neste momento ser otimistas em relação a isso. Creio, portanto, que a sociedade precisa ficar atenta a essas questões. A extrema direita às vezes é despreparada para as responsabilidades que passou a ter no Brasil. A bancada evangélica também. Quando se pressiona o sistema prisional e o combate ao tráfico de forma simplesmente violenta, como temos feito, corremos o risco de estar expandindo o mundo das organizações criminosas. Elas fatalmente estão aumentando seu poder de corrupção, inclusive na política. O fim disso pode ser muito cruel para todos.

  • Getúlio Neves

    Por João Gualberto

    O Espírito Santo tem um sistema econômico que conversa com o mundo, que tem estatura e reconhecimento. Escrevi alguns artigos sobre o projeto de desenvolvimento industrial de nossas elites entre 1943 e 1974 mostrando a força das nossas ideias, e que nada do que nos aconteceu é obra do acaso. Entretanto, o mesmo não pode ser dito das questões que envolvem outras dimensões sociais capixabas, e aqui não falo de projetos governamentais; refiro-me antes à dimensão da vida na sociedade. Um bom exemplo disso é a nossa literatura, tão pouco conhecida.

    Ando pesquisando sobre como a literatura que fazemos porta uma certa sociologia do cotidiano, mostrando importantes elementos construtores do nosso imaginário social. A última pesquisa tratou de um dos gigantes do nosso pensamento, Renato Pacheco. Evidentemente existem vários excelentes autores, como Bernadete Lira, Francisco Aurélio Ribeiro, Pedro Nunes, Guilherme Santos Neves e muitos outros.

    Hoje, entretanto, quero lembrar de um autor que me parece igualmente importante nos estudos que venho fazendo, autor que deveria ser mais festejado, e talvez não o seja porque falta divulgação de sua obra. Não é por outra razão que autores como Getúlio Neves não têm o conhecimento que merecem entre os capixabas. Seu texto é leve, sua ficção histórica rica. Nos dois livros que analisei no meu trabalho, Memória Repartida e Às Margens do Rio Escuro, o Espírito Santo está sempre presente.

    O diálogo com os autores da terra também. Exemplo forte disso é o fato de o personagem principal de Às Margens do Rio Escuro ter descoberto a leitura de Renato Pacheco e por ela ter se apaixonado. Outro elemento forte é o diálogo com fatos relevantes da história local, como a presença muito marcante do coronelismo entre nós, presente no romance Memória Repartida.

    No caso de Getúlio Neves com Renato Pacheco o diálogo é radical. Ele não apenas cita o mais conhecido livro do grande mestre capixaba, como incorpora mesmo certos elementos de sua narrativa. Em Às Margens do Rio Escuro o narrador torna-se leitor de A Oferta e o Altar, conversa mesmo com alguns dos personagens, com memória dos fatos narrados por Renato que se passaram no fim dos anos 1950. No romance surge como amor do protagonista a neta de uma das principais figuras do livro seminal de Renato.

    O livro de Getúlio aproxima-se ainda da narrativa de outro livro do grande mestre capixaba, Reino não Conquistado, pelo entrelaçamento de filhos e netos presentes em um e no outro. É a sucessão familiar que dá densidade ao argumento que vai sendo apresentado ao leitor para que ele saiba por que o reino, afinal, não foi conquistado.

    Getúlio é um autor maior, seu diálogo tão bonito com Renato Pacheco mostra bem isso. Sua presença na literatura capixaba muito a enriquece. Sua forma de abordar a história local é rica, particular e interessante. Ele trata – tanto quanto Renato Pacheco, por exemplo – do nosso cotidiano.

    De modo particular está em Memória Repartida o provincianismo tardio, sempre presente. As fofocas – sempre elas – premiando a pequenez dos cotidianos das pequenas vilas, das pequenas pessoas. Não é preciso citar Renato Pacheco para estabelecermos o paralelo, a comparação. A futrica impera como forma de controle social, de julgar comportamentos, de afugentar o diferente e o novo. São dois livros deliciosos os de Getúlio, e quem não os leu está perdendo muito. Fica mais fácil entender o nosso estado através das lentes do historiador e romancista Getúlio Neves, arguto observador do que se passa e do que se passou por estas terras.

    Para finalizar, lembro que o autor tem uma série importante de obras ligadas ao seu fazer cotidiano como magistrado, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e doutor em história pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pertence ao coletivo de intelectuais daquela universidade e a um grupo de autores que muito tem valorizado o estudo e o ensino da nossa trajetória histórica, do nosso legado, das experiências ricas do nosso passado, muitas vezes expresso inclusive em tradições da cultura popular, que são tão bem retratadas em À Margem do Rio Escuro.

  • Brasil é a nova Roma

    Por João Gualberto

    Darcy Ribeiro, que foi senador da república pelo Rio de Janeiro, notável antropólogo e autor de obra genial, composta de muitos livros com foco nos elementos que nos constituíram, dizia:  O Brasil é a nova Roma. Com isso queria dizer que assim como Roma foi a síntese do mundo antigo, nós somos também uma espécie de síntese dos tempos em que vivemos.

    Quando digo “tempos em que vivemos”, estou querendo, sobretudo, dizer o somatório de fatos históricos que produziu uma sociedade tão especial nos trópicos como a nossa. Lembro, por exemplo, dos fartos quintais que havia nas cidades do interior na minha infância e da extraordinária quantidade de árvores frutíferas que tinham e que para aqui foram trazidas pelos europeus ao longo dos séculos. Abacate, caqui, coco, limão, manga, mamão, melancia, jaca e mexerica estão entre elas. Os velhos pomares brasileiros eram eles mesmos já uma síntese de muito do que havia no mundo. Muitas e muitas vieram da Índia.

    Natural que tivesse sido assim, afinal os agentes da colonização estavam sempre preocupados com a questão da alimentação no Novo Mundo. É provável também que, pelo fato de virem de terras mais frias, onde os frutos típicos dos climas quentes não prosperam, estivessem preocupados em tornarem a vida aqui mais abundantes em alimentos ricos e saborosos, fazendo bom proveito do clima tropical.

    A Nova Roma tem, evidentemente, outros componentes. A riqueza da cultura dos povos indígenas está entre elas. Nossa sociedade é extremamente rica de heranças e legados dos povos originários. O longo processo de europeização que até hoje experimentamos nos impede de reconhecer e louvar o quanto somos tributários das culturas aqui encontradas pelos europeus. Chamo a atenção, no contexto das heranças culturais, a extraordinária utilização das ervas medicinais, assim como os conhecimentos sobre a mata atlântica e tudo o mais que chegou até nós vindos de gente tão sábia.

    Arrancados a força, e com violência, de suas terras os escravizados africanos trouxeram de suas origens a tecnologia que impulsionou nossa agricultura, ou mesmo a exploração do ouro e das pedras preciosas, para ficar em dois exemplos. Eram eles, em grande parte, artesãos habilidosos, mineradores experientes, agricultores afeitos à produção em terras quentes. Muito sabiam de tudo isso, em muitos casos muito mais do que os portugueses, e não haveria o desenvolvimento em direção ao que hoje somos sem a participação do trabalhos dos africanos. Eles que foram tão humilhados, maltratados e explorados em todos os sentidos, formam uma base mais densas do nosso país.

    O século XIX conheceu outro momento de grande participação de outros povos, de outros mundos, na nossa construção nacional. A chegada da imigração italiana, germânica, japonesa e de outros grupos étnicos deu ao nosso caldeirão cultural novos ingredientes. Foram trabalhadores em grande massa para a agricultura, indústria, artesanias, serviços para o mundo urbano de uma forma geral. Junto com os seus saberes do mundo do trabalho vieram novos conhecimentos, como os culinários com as massas italianas. As bebidas que trouxeram, como as cervejas dos alemães, ampliaram a oferta até então centrada na boa e velha cachaça local e os vinhos da metrópole do período colonial. Esses povos, para além de seus trabalhos, enriqueceram de tal forma a nossa cultura em múltiplos aspectos que não seria a mesma sem a suas presenças.

    Por isso, quando Darcy Ribeiro nos lembra de que somos essa síntese histórica dos novos tempos que as navegações trouxeram, não podemos deixar de admirar o nosso povo, e nunca devemos aceitar as teses delirantes das supremacias raciais. Somos produto de um hibridismo cultural extraordinário, da fusão de muitos mundos. A compreensão de tudo isso e tolerância com o diferente deve ser o tom do Brasil e dos brasileiros.

  • Renato Pacheco

    Por João Gualberto

    Nesse ano de 2024 faz vinte que morreu Renato Pacheco. Conheço poucos intelectuais que tenham amado tão intensamente o Espírito Santo quanto ele. Foi juiz de direito, professor, historiador, folclorista, provavelmente o primeiro capixaba com mestrado em sociologia feito na USP do inicio dos anos 1950. Um homem com muitos talentos e atributos. Presidiu o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e fez dele a sua casa. Dirigiu também a Comissão Espírito-Santense de Folclore junto com o seu mestre Guilherme Santos Neves e Rogério Medeiros. Foi ainda membro da Academia Espírito-Santense de Letras. Muitos outros títulos e qualificações teve o Renato Pacheco, um gigante na inteligência capixaba.

    Quero tratar aqui da sua obra literária, fazendo um corte na sua extensa produção intelectual. Retirei de alguns de seus romances, onde acredito que ele faça uma espécie de sociologia do cotidiano capixaba, um argumento que vou expor. Li, particularmente interessado, A Oferta e o Altar, Reino não Conquistado, Pedra Menina e Vilão Farto. Eles são apenas uma pequena fração da extensa obra do professor Renato, mas dão em seu conjunto uma ideia clara da visão que teve da nossa vida social. Mas vou me deter aqui em apenas um deles, onde todo o conjunto já está anunciado.

    Julgo A Oferta e o Altar, publicado pela primeira vez em 1964, um livro seminal sobre o modo de vida capixaba. Analisando – entre outros elementos – a eleição de 1958 no município de Conceição da Barra, que na ficção ganha o nome de Ponta D’Areia, o autor nos faz um retrato do mundinho das pequenas cidades de seu tempo. Um retrato ácido, mas verdadeiro, duro, mas permanente. Creio que muitos daqueles elementos ainda estejam presentes no dia a dia cheio de intrigas e preconceitos que marcam o nosso imaginário social.

    No livro, uma das personagens centrais é Joaninha do Muxá, uma solteirona – como se dizia à época – frustrada, que controla a vida de todos, ou melhor, que organiza a maledicência generalizada do lugar. Falar mal da vida dos outros, controlar a sexualidade alheia é uma espécie de diversão perversa coletiva. Se isso faz mal a alguém, se destrói reputações, se condena pessoas inocentes, melhor ainda. O objetivo é esse mesmo. O fofoqueiro é um destruidor de vidas. Já que a sua vida vale pouco, porque dela nada faz, que, então, se dane o bem-estar coletivo.

    Na narrativa de Renato Pacheco vemos que o novo é perigoso para muitos, e até hoje, e não só nas pequenas localidades. Basta ver a desgraceira que fazem as chamadas fake news nas redes sociais. Na verdade, a intriga ganhou escala nos nossos tempos, mas já estava na alma dos pequenos e mesquinhos desde sempre. O lugar de onde brotam as maldades é o coração das pessoas. Assim pensava Renato Pacheco.

    A Oferta e o Altar também mostra um outro tipo de controle, o da violência. Ela tinha sede sobretudo na tosca polícia local, onde reinavam os que eram nomeados pelo poder político dos grandes coronéis, tanto locais quanto estaduais. A polícia, aliás, estava totalmente aliada ao imaginário coronelista que havia no local, não só do lado dos políticos, mas também dos mais favorecidos, dos privilegiados de uma forma geral.

    Todo o clima político da cidade girava em torno de uma política miúda em que afetos e amigos, de uma forma geral, eram divididos pelo alinhamento partidário. Mais uma vez vemos em A Oferta e o Altar a gênese dos nossos exageros nas definições partidárias. As paixões já comandavam o dia a dia da política, tudo era enquadrado a partir disso. Nos dias que correm temos a exacerbação desse padrão de comportamento. Esses exageros se alimentam de um imaginário instituído na nossa política pelo coronelismo, origem e razão invisível de muitas coisas que ocorrem nos dias atuais.

    Mas não é a análise sociológica o único mérito do grande mestre Renato Pacheco. Seu texto é limpo e direto. Seu livro, uma leitura deliciosa, cheio de situações que lembram a todos nós, tendo ou não morado em pequenas cidades brasileiras, fatos conhecidos, muito conhecidos.

    Não apenas o texto do grande mestre é uma alfinetada no nosso provincianismo – alfinetada que lhe custou o título de persona non grata no município de Conceição da Barra, mas também toda a sua extensa obra contém esse manifesto contra o jeito pequeno de fazer as coisas. Sua forma fecunda de desconstruir os entraves ao desenvolvimento pleno de nossas capacidades culturais. Foi com essa visão abrangente que participou da nossa vida cultural, deixando ricas reflexões que continuam sólidas mais de sessenta anos depois.

  • 23 de maio

    Por João Gualberto

    Como muito bem sabem os capixabas, no dia 23 de maio comemoramos a data que ficou conhecida como a Colonização do Solo Espírito-Santense. Ela diz respeito ao dia em que Vasco Fernandes Coutinho e um grupo de 60 homens desembarcaram na Capitania. Estavam a bordo da Caravela Glória. O Capitão-Mor havia recebido do Rei de Portugal, Dom João III, uma Carta de Doação e outros documentos dando plenos poderes para iniciar o processo da construção política e econômica do seu lote como uma parte da colônia vinculada ao Império Lusitano. Iniciava-se, assim, a nossa colonização como empreendimento fidalgo.

    O nosso donatário não era membro das cortes e muito menos um homem de grande cabedal. Era um fidalgo de província, um digno representante da pequena nobreza do reino. Tinha se destacado pelos seus serviços ao rei na expansão lusitana para as Índias. Participou de lutas importantes, em especial em Goa, contribuindo com bravura na consolidação dos planos estratégicos das elites portuguesas daquela época.

    O empreendimento fidalgo comandado na nossa Capitania por Vasco Fernandes Coutinho tinha um caráter muito claro de consolidação da fé católica no Novo Mundo. O cristianismo estava na origem de tudo, tanto que o Tratado de Tordesilhas que havia distribuído o Novo Mundo, ou seja, o continente americano, entre espanhóis e portugueses, era obra do Vaticano. Obra jamais aceita por ingleses, franceses e holandeses que passaram os séculos seguintes a tentar participar, mesmo pela força das armas e das invasões, das riquezas extraídas da América.

    O catolicismo fez parte do empreendimento fidalgo que depois foi aprofundado pelo caráter mais disciplinado e sistemático do jesuítico. Mas, fiquemos no que aconteceu no nosso território depois que os agentes da colonização aqui chegaram no dia 23 de maio de 1535. Eles eram poucos e tinham um espaço territorial enorme para conquistar. Queriam descobrir ouro e pedras preciosas. No nosso caso, havia a ideia de encontrar uma montanha de esmeraldas no Vale do Rio Doce. Muitas foram as entradas e expedições que avançaram pelo interior em busca dessas riquezas.

    Foram erguidos muitos templos para celebrar e expandir entre os povos originários a fé dos colonizadores. Ainda hoje temos como legado daqueles tempos a Igreja do Rosário e o Convento da Penha, em Vila Velha, e a Capela de Santa Luzia, na cidade alta. Edificações como o Forte de Piratininga, em Vila Velha ainda estão lá para mostrar a preocupação dos primeiros colonizadores com a segurança da Capitania. O passar dos séculos mostrou que, com base nos conceitos de ímpios e gentios, a fé católica se impôs, não sem violência.

    No século XVI, o que possibilitou a riqueza foi o cultivo da cana de açúcar e todas as atividades existentes na sua cadeia produtiva, com a utilização do trabalho indígena. Forçado, escravizado ou cristianizado eles foram sendo incorporados ao processo social comandado pelos agentes da colonização. Os portugueses raramente traziam suas esposas, e assim, as indígenas foram sendo, por muitos processos, nem todos aceitáveis, as mães desse Espírito Santo que nascia. Somos muito mais indígenas em hábitos culturais, culinários, linguísticos, do que a nossa história tradicional mostra. Na sequência histórica temos a incorporação dos africanos escravizados na Capitania como força de trabalho também forçado. Esse é o início da construção do nosso estado, da nossa cultura e da nossa identidade.

    Em razão da complexidade de todo esse longo processo de encontro de mundos diferentes, sob a direção com mão forte dos europeus, não podemos comemorar o 23 de maio de forma unilateral, festejando a chegada dos colonizadores portadores do progresso e das vantagens da civilização. Até porque, os agentes da colonização também foram, entre muitas outras coisas, os responsáveis pela introdução do trabalho escravizado. Havia os negros da terra, os indígenas, e os negros da África. Eram todos submetidos a uma tirania que lhes roubou a autonomia e a liberdade.

    Por outro lado, há um bom debate feito por professores da rede pública em Vila Velha, sobre a vitória que os indígenas obtiveram em muitas batalhas, sobre o seu protagonismo, afinal vencerem três grandes generais portugueses: Jorge de Menezes, Simão de Castelo Branco e Fernão de Sá. Esse último morreu na famosa batalha do Cricaré. Foi um encontro violento de culturas.

    Temos, eu creio, que ter consciência do que estamos de fato comemorando quando falamos em colonização. Sem nos aprofundarmos em todas as faces desse processo histórico estamos sujeitos a dar, à chegada dos colonizadores, um papel mais amplo do que o de iniciar algo que fugiria ao controle deles próprios. Eles não comandaram plenamente o processo que instituíram. Criaram, aqui, um encontro de mundos diferentes, ainda que muito desigual, que depois partiu em busca da sua própria trajetória. Devemos refletir mais nas múltiplas dimensões do mundo que o lusitano criou no Brasil. Usar essa data para pensarmos no que significa, hoje, ser capixaba, ser brasileiro ou brasileira.