• O varguismo capixaba

    Por João Gualberto

    Getúlio Vargas chegou ao poder em outubro de 1930. No Espírito Santo, nomeou como primeiro interventor João Punaro Bley, que conduziu nosso estado por longos treze anos. Aprendeu a se equilibrar no jogo de poder. Foi o dirigente mais longevo de nossa história política. Governou até 1943, quando foi substituído por Jones dos Santos Neves. inclusive, o criador do nosso Banco de Crédito Agrícola, que seria transformado no Banestes no governo de Christiano Dias Lopes, nos anos 1960.

    Esse movimento de substituição de Bley por Jones ocorreu quando Vargas se articulava para sobreviver em uma nova fase política, quando seu período ditatorial já dava mostras de esgotamento. O novo governo foi o responsável por muitos avanços econômicos.

    João Punaro Bley denominado pelo historiador Fernando Achiamé como “nosso pequeno Vargas”, foi o artífice de nossa transição. Aplicou em nosso território os mesmos princípios da modernização conservadora de Vargas. Quando ele fez sua inflexão trabalhista e ampliou o assistencialismo do Estado, inventou, para ancorar essa ação, a figura da Primeira Dama, que, até então, não havia no Brasil.

    Dona Alzira Vargas, foi a primeira a exercer esse papel. Sobre ela recaíram as políticas assistencialistas públicas. Da mesma forma, sobre Dona Alzira Bley recaíram as principais ações assistencialistas aqui no Espírito Santo. As cestas de natal distribuídas aos pobres é um exemplo clássico desse olhar. Um sinal de que o governo não podia ser apenas uma ação entre os proprietários de terras, tinha que ter um aceno para o mundo dos pobres. Claro que havia um projeto hierárquico entre as classes no trabalhismo varguista trazido ao Espírito Santo.

    Outro elemento desse processo foi a construção, em parceria com o clube de futebol Rio Branco, daquele que seria um dos maiores estádios do Brasil em sua época, o Governador Bley, em Jucutuquara. Esse estádio serviria para abrigar as partidas do esporte que começava a ser o mais popular no Brasil, mas também para as grandes manifestações cívicas de que tanto gostava o regime de Vargas. Sua utilização em Vitória equivalia ao que o Estádio São Januário representava na capital da república.

    Em seu longo governo, João Punaro Bley fez muitas obras importantes em nosso estado. Construiu a Escola Técnica de Vitória, a Escola Agrícola de Santa Tereza, a Faculdade de Farmácia de Vitória, a Faculdade de Direito, entre outras obras no campo da educação. É dele também a construção da Hospital dos Servidores Públicos de Vitória, mostrando que saúde e educação eram importantes em seu governo. Fez também intervenções urbanas em Vitória.

    A conclusão de obras do Porto de Vitória e o início das operações de exportação de minério de ferro foram obras que também marcaram a sua gestão, do ponto de vista econômico. O café continuava sendo o principal pilar da economia capixaba. Mas esses primeiros passos foram muito importantes na caminhada do desenvolvimento inserindo por base a diversificação econômica.

    Entretanto, foi a curta interventoria de Jones dos Santos Neves, de 1943 a 1945,o ponto de inflexão em nossa história política e econômica, até porque Jones era um quadro político muito preparado intelectualmente. Jones sempre esteve muito preocupado com a nossa industrialização. A excessiva dependência da economia cafeeira, já dava sinais de desgaste e exaustão, naquele momento.

    Para enfrentar os novos tempos eram necessários modernos instrumentos de gestão. Seria preciso ter um aparelho de estado capaz de dar conta dos novos desafios ao desenvolvimento econômico e social. No plano da gestão, tivemos a criação do DSP – Departamento do Serviço Público – nos mesmos moldes do DASP do governo federal. Na verdade, logo nos primeiros meses de seu mandato, Jones mudou o organograma do governo, criando secretarias e departamentos. Inovou, de forma geral, os processos de gestão. No dia em que foi publicada a nova estrutura organizacional do governo, alterou vários processos de gestão de pessoas, inclusive referentes a nomeação e remoção de professoras, sempre um elemento da política de favores políticos.

    Devemos a ele, também, outro importante elemento da racionalização das ações do governo, O Plano de Obras e Equipamentos, através do qual ele organizou as intervenções que o estado faria em seu período de governo, mostrando como a modernização das ações do estado eram importantes na sua visão. Na verdade, Jones foi o responsável por um grande salto em nossa governança pública de modernização das funções do estado. Era muito moderno para a sua época.

    Podemos dizer, sem medo de errar, que a Era Vargas fez uma ponte, uma transição, entre o velho coronelismo da primeira república e o início das tentativas de desenvolvimento industrial. Teve um papel fundamental na história econômica do Brasil e do Espírito Santo, apesar do atraso político que também portou. Afinal, na história, nada é de todo bom ou de todo mal. Tudo tem uma balança que comporta vários pesos.

  • O Brasil e as drogas

    Por João Gualberto

    Um projeto de lei ainda em discussão na Câmara dos Deputados e uma nova interpretação do Supremo Tribunal Federal sobre o porte das chamadas drogas leves tem despertado a atenção da opinião pública brasileira. Com isso, o tema voltou a ser discutido de forma mais intensa. Ele tem estado presente em todas as mídias sociais. Uma pesquisa do Instituto Datafolha publicada há alguns dias mostra esse interesse. Apresenta também o crescimento da reprovação ao uso da maconha. Aliás, todos sabemos que estamos passando por uma inflexão política à direita. O fato desse tipo de tema ter ganho mais repercussão no momento, reflete a nossa, sempre presente, polarização ideológica. Como em tudo o que ocorre hoje no Brasil.

    Nas eleições de 2022 elegemos parlamentos muito mais conservadores em nível nacional e nos vários Estados da Federação. A liderança do ex-presidente Jair Bolsonaro permitiu a criação de um novo estatuto, tanto para o pensamento conservador quanto para o reacionário no Brasil. Mais do que isso, os reuniu em uma coalisão com grande capacidade de entrega de modificações legais acerca de costumes. Por isso fervilham diariamente nas casas de leis novos projetos com esse corte mais conservador. Estamos revendo muito da nossa legislação para atender às essas novas demandas sociais.

    Essas prisões não se dão na classe média e na classe média alta. Elas se dão no meio mais pobre, sobretudo nos bairros periféricos das grandes cidades. Um dos maiores sintomas de nossa desigualdade e hierarquização social – como mostra o antropólogo Roberto da Matta como elemento central do mundo brasileiro – são nossas cadeias. Mas não apenas. São também as mortes violentas na periferia das grandes cidades.

    Certamente, em sua grande maioria, meus leitores pertencem aos extratos médios da sociedade. Em nossos meios não existem assassinatos ou prisões pelo consumo ou porte de drogas. Entretanto, o consumo permeia nossas classes sociais, que são as que têm capacidade de compra. O enorme volume de dinheiro que o comércio ilícito de drogas, consome vem de pessoas que vivem em bairros da Grande Vitória, como Praia do Canto, Mata da Praia, Jardim da Penha ou Praia da Costa. As mortes estão em Santa Rita, Morro de São Benedito ou Flexal. As prisões também.

    Lembro-me muito bem de um artigo publicado na Folha de São Paulo nos anos 1990 por Cesar Maia, que foi Secretário da Fazenda de Brizola em seu primeiro governo, nos anos 1980, depois deputado federal e prefeito do Rio de Janeiro. Nele, Maia afirmou que Brizola fez um acordo durante a eleição com os contraventores nas favelas do Rio de Janeiro, em sua maioria bicheiros. Naqueles anos iniciais da década 1980, a Colômbia começou a produzir cocaína em grandes toneladas. O Rio de Janeiro passou tanto a ser corredor de exportação para os Estados Unidos, quanto um grande centro consumidor da droga. Assim, o acordo feito com bicheiros foi cumprido por traficantes. Mudou tudo. O tráfico avançou, tomou conta da juventude dos morros e dos compradores ricos da zona sul. Mas só nas favelas a morte foi ampliada de forma implacável.

    Meu argumento nesse artigo é que a ampliação das penas vai encher as prisões de pobres, sobretudo jovens pretos. Os consumidores estarão fora dessa sanha punitiva. As prisões são o campo de recrutamento de novos bandidos para o PCC e para os demais grupos que controlam em massa os presídios brasileiros. Vai ampliar de tal forma essas universidades do crime, que um dia poderemos estar mais próximos de El Salvador do que estão imaginando os nossos legisladores. Mas, creio que esse fenômeno do crescimento do poder do crime através da explosão dos presídios é inexorável. Faz parte do que quer boa parte dos brasileiros, sem compreender perfeitamente a extensão do que está sendo proposto.

    A classe política, sobretudo, não faz essas contas e enche as mídias sociais desse clamor punitivo que pode nos transformar em um imenso El Salvador.

  • Biografia do abismo

    Por João Gualberto

    O nome do artigo de hoje, tomo emprestado do excelente livro escrito por Felipe Nunes e Thomas Trauman e publicado recentemente. O subtítulo da obra é: como a polarização divide famílias, desafia empresas e compromete o futuro do Brasil. Os autores já colocam desde o título, a sua visão da profundidade e perversidade, acerca do que se passa politicamente hoje, no Brasil e no mundo.

    Em “Biografia do Abismo”, eles tratam do que chamam de calcificação da polarização nos nossos tempos. Polarização já é, em si mesmo, um conceito que mostra o nível de inflexibilidade que o fenômeno político alcançou. O pensamento ideológico é agora pronto e acabado desde o início e enquadra tudo, da política aos afetos. Esta abordagem ganhou muitos comentários nos últimos meses. Eu mesmo tratei disso anteriormente.

    Boa parte das reflexões realizadas ao longo da obra surgem da utilização intensa de pesquisas de comportamento e opinião feitas pela Quaest, da qual Felipe Nunes é sócio-fundador. Eles trabalham com uma bateria enorme de dados quantitativos, e também de dezenas de rodadas dos chamados grupo de discussão. Dados, portanto, chamados de qualitativos. Neles, os eleitores são convidados a discutir temas propostos, no caso específico, os processos eleitorais.  O livro não se organiza a partir de achismos, mas sim de uma base científica de dados. Há os que não acreditam. A esses, sugiro não prosseguirem na leitura do artigo.

    Embora as duas lideranças carismáticas de Lula e Bolsonaro reforcem muito a polarização, não existe a chance de acreditar que a ausência de um dos dois líderes nas próximas eleições nos devolva uma situação menos tensa. No caso das eleições municipais, eles funcionarão como cabos eleitorais. Será ingênuo não pensar assim. Existe o que os autores do livro ao qual estou me referindo chamam de um estado de enrijecimento das paixões, o que obrigatoriamente transformará o pleito em um lugar de disputas ideológicas. Mas isso não implica que os resultados eleitorais sejam predeterminados pelas opções esquerda e direita. É mais sofisticado do que isso.

    As identidades que se associaram ao lulismo e ao bolsonarismo são gigantes, dizem os autores de Biografia do Abismo. Permitem alto potencial de votos para os que se alinharem aos seus perfis. Por conta disso, os dois movimentos são tão grandes que os resultados tendem a ser definidos por grupos pequenos, sobretudo nas cidades que tenham eleições em dois turnos.

    Esses grupos pequenos podem se abster de participar da polarização, ou podem optar por um dos lados. A balança eleitoral seria assim definida por pequena margem de votos, como foi em 2022. Esse país enrijecido só nos dá uma pista: as eleições tendem a ser cada vez mais apertadas, e os resultados muito imprevisíveis. Quem ganhar, ganhará por pouco e por motivos que podem parecer pouco importantes, como o desempenho em um debate ou um apoio visto pelos eleitores como equivocado e de última hora.

    Nas últimas eleições estaduais no Espírito Santo vimos isso. O sistema político acreditava na vitória de Renato Casagrande no primeiro turno. Não houve. Depois, no segundo turno, um improvável Carlos Manato teve 47% dos votos válidos. Muito mais pela força do número 22 da chapa de Bolsonaro, do que pela trajetória política do candidato. Mesmo o senador Magno Malta teve menos de 4% de diferença da segunda colocada, Rose de Freitas. Foram vitórias com pequenas margens no Espírito Santo, mostrando que a tese dos autores não é desprezível.  Deve ser considerada. Para mim, o fenômeno vai ser repetir esse ano.

  • Coronelismo capixaba

    Por João Gualberto

    Tenho trabalhado a ideia de que os capixabas são muito empreendedores. Abordei aqui as evidências disso em nossa fase colonial, sobretudo nas fazendas jesuíticas que eram muito prósperas. Não existe qualquer razão concreta para afirmarmos que houve um marasmo colonial, como fazem alguns autores. Tão pouco podemos dizer que uma barreira verde entre a costa do Espírito Santo e as Minas Gerais foi motivo de não nos desenvolvermos. São mitos. Não se sustentam nos fatos.

    Quero lembrar outro dado que mostra como o Espírito Santo tem, em sua trajetória histórica, elementos que evidenciam os papéis importantes que tivemos no contexto brasileiro. No século XIX fizemos a passagem para a produção daquele que seria o grande responsável pela transformação da economia brasileira: o café. Vamos para uma breve contextualização. Com a independência, o novo país ganha maior dinâmica econômica e social. Aliás, desde a chegada da Família Real em 1808, a então colônia vislumbra novos momentos de crescimento econômico. O Espírito Santo, talvez por sua proximidade com a sede do vice-reinado, no Rio de Janeiro, recebe o plantio de seus primeiros pés de café antes ainda do país tornar-se independente.

    Logo nos anos 1810 plantamos aqui os primeiros pés de café.  Nesse momento, a história do nosso estado entra em uma nova fase. Primeiro, assistiríamos à implantação das grandes fazendas escravocratas no Sul, gerando muita riqueza no Vale do Itapemirim. Cachoeiro de Itapemirim, como cidade polo desse processo, transforma-se no lugar do progresso: ferrovias, bondes, luz elétrica, cinemas, enfim todos os ícones da modernidade no início da era republicana. Mais tarde o café chegaria a todo o estado.

    A estrutura política que deu sustentação a esse processo foi a do coronelismo. O novo personagem é o coronel republicano. A Fazenda Monte Líbano em Cachoeiro foi o berço do poder nessa época. Fez três presidentes, hoje governadores, do Estado: os irmãos Jerônimo e Bernardino Monteiro, e o cunhado de ambos Florentino Avidos. A república dos coronéis se implantaria entre nós com nuances de atraso e modernidade. Ela conduziria, entretanto, o Espírito Santo a outros patamares econômicos, políticos e sociais.

    Como o terceiro maior produtor brasileiro de café, tivemos potência para construir ao tempo da política dos coronéis uma elite dirigente equiparada às dos grandes estados brasileiros. Para ficarmos com alguns nomes, lembremos de Jerônimo Monteiro ou de Florentino Avidos. Criamos uma identidade republicana forte nos moldes da primeira república, muito elitista, mas também muito vinculada aos ideais de progresso.

    Tenho estudado os coronéis desde os anos 1980, quando comecei a escrever minha tese de doutorado. Ela acabou se transformando em livro com o nome A Invenção do Coronel: raízes do imaginário político brasileiro, editado pela EDUFES. Nele, afirmo que os coronéis representaram violência e progresso. Violência porque portavam todo o imaginário social brasileiro de machismo, nepotismo e dominação sobre os mais fracos. Progresso porque foram a face possível do capitalismo brasileiro. No caso do Espírito Santo, deram sustentação a uma república cheia de fraudes e falcatruas, mas trouxeram as inovações que o início do século XX tanto propagava.

    Personagem político ambíguo, como convém às elites brasileiras, o coronel capixaba em nada ficava devendo aos demais de todo o Brasil. Em mais uma volta da história, estávamos emparelhados ao que se passava no restante do Brasil. Foram os responsáveis pelos avanços que tivemos em relação ao desprezo que o império teve para questões como educação e saúde dos brasileiros. Eram empreendedores e campeões dos melhoramentos urbanos, como bem lembrou Vitor Nunes Leal em Coronelismo, Enxada e Voto. Suas eleições dependiam das melhorias que faziam. Assim moveram nossa história.

  • A origem do capixaba

    Por João Gualberto

    Uma observação inicial. As viagens marítimas ligadas às grandes descobertas estão intimamente ligadas à Ordem de Cristo, da qual Pedro Alvares Cabral foi um grande personagem. Assim, a chamada descoberta do Brasil tinha um caráter religioso vinculado ao imaginário das Cruzadas. A Ordem de Cristo organizou a Expedição de Pedro Álvares Cabral. A sua cruz ornava todas as caravelas portuguesas. A ideia central seria catequizar os supostos ímpios, os indígenas. A intenção era universalizar o cristianismo e o catolicismo, num mundo onde já havia a ameaça da Reforma Protestante.

    Outro dado. Quando os colonizadores portugueses chegaram ao solo capixaba – como de resto quanto ao que viria a ser o país onde hoje vivemos – eles certamente não tinham como objetivo criar uma sociedade autônoma. Antes, pelo contrário, trouxeram todo o aparato legal para a executar a gestão da Capitania do Espírito Santo. Uma normatização que utilizaram em toda a colônia. Nenhuma preocupação com os povos originários que aqui viviam. Usando uma expressão consagrada por Raimundo Faoro em Os Donos do Poder: “no Brasil o Estado existiu antes da sociedade”, já que tudo veio pronto nas caravelas. Estado e religião no Brasil não foram produtos da sociedade, mas imposição do colonizador, a partir de sua experiência europeia.

    O Estado português que se instalou na Capitania, tinha nas figuras do Donatário e o do Capitão Mor, as peças centrais do jogo de poder. Como as Capitanias eram organizações que operavam no nível público, aplicando a lei, e no nível privado, gerindo a produção econômica, realmente tinham um poder muito grande. Um poder total sobre os indivíduos. Esse poder era ainda ampliado pela distância da metrópole.  Ou seja, os que tinham poder, podiam mandar na nova ordem. Eles faziam o que bem entendiam.

    Acerca dos indígenas, nos primeiros séculos de colonização, o ideal lusitano era muito claro: torná-los cristãos e submetê-los ao regime de trabalho que tornasse a vida econômica viável. Os nativos não tinham poder de escolha.

    Os indígenas também foram barbaramente escravizados. Tanto é assim que era comum chamá-los de negros, nos escritos daquela época. A utilização do termo para os habitantes da terra era sintoma claro da sua condição de subordinação. Tão grande era o papel da escravidão indígena, que o historiador colonial Jorge Caldeira registra, em sua obra, que desde a fundação da cidade de São Paulo, o principal negócio dos portugueses era a venda de indígenas escravizados da região. Foram centenas de expedições com o objetivo de capturar homens e mulheres para o trabalho servil. Os prostíbulos europeus ficaram cheios de jovens indígenas brasileiras, submetidas a todo tipo de selvageria sexual.

    Nesse contexto, muito importante foi a obra da Companhia de Jesus, em uma espécie de mediação social, não só na catequese, mas também na educação dos brasileiros. Os primeiros jesuítas chegaram ao Espírito Santo no primeiro século da colonização e criaram, ainda na metade do século XVI, o Colégio São Tiago. Ficava onde está hoje o Palácio Anchieta. Para sustentar economicamente os alunos do colégio, eles criaram um grande conjunto de fazendas. A de São João de Carapina, Muribeca, na fronteira com o que é, hoje o estado do Rio de Janeiro, que chegou a ter 2.000 cabeças de gado, Araçatiba no atual município de Viana, são exemplos. Essas foram as maiores fazendas do litoral brasileiro no primeiro século da colonização. São elas um exemplo claro de que o tal marasmo colonial de que trata uma certa história do Espírito Santo é um mito. Contextualizando: Fomos prósperos e empreendedores no início da colonização.

    O papel dos jesuítas também é muito importante na conjuntura do surgimento de nossa identidade regional. Isso porque eles estavam muito preocupados em doutrinar os indígenas. Mais importante do que obtê-los como mão de obra, era tê-los no rebanho cristão. Ao catequizar os indígenas, eles estavam, de fato, tornando-os capazes de viver no mundo ocidental. Aptos a participarem do processo de dominação que era, no fundo o ideal lusitano.

    Não podemos esquecer que para realizarem a catequização, os inacianos mergulharam no mundo das matas. Aprenderam a sobreviver e conhecer bichos, insetos, ervas. Identificaram novas formas de alimentação e de curar doenças. Um século depois de terem desembarcado no Brasil, não seriam os mesmos.

    O grande arqueólogo Henriques Valadares em seus estudos profundos sobre o tema, acredita que a fusão entre indígenas, africanos e portugueses tenha produzido os primeiros capixabas na metade do século XVII. Esse novo ser que habitava, sobretudo o litoral do Espírito Santo, não era mais europeu e nem indígena. Era capixaba. Dotado de uma identidade própria e que resiste aos séculos de uma vizinhança forte com baianos, cariocas, fluminenses e mineiros. Sua identidade está mais alimentada nos saberes e falares indígenas do que a maioria de nós supõe. Quero com isso dizer que temos mais raízes nos povos originários do que a maioria de nós conhece.

  • Evangélicos e eleições

    Por João Gualberto

    O surgimento do movimento político dos evangélicos no Brasil, é um fenômeno que se acentuou de forma muito clara desde os anos 1990. A partir dessa época, o crescimento foi exponencial, ano a ano. Como sempre acontece na política, esses movimentos vão invadindo os campos do poder de forma gradual. No caso brasileiro, a primeira grande manifestação eleitoral da presença dos evangélicos na política se deu nas eleições de 2002.

    Naquele ano, Garotinho foi candidato a presidente da república. Foi a primeira eleição de Lula, que disputou o segundo turno contra José Serra. Os resultados do primeiro turno, entretanto, mostraram o candidato Antony Garotinho, na época no PSB, com 18% dos votos. O político fluminense fez uma campanha fundamentalmente voltada para o eleitor evangélico. Como consequência desse bom desempenho nas urnas, a bancada puxada pelo candidato majoritário cresceu enormemente. Até então, eram os católicos que sustentavam as pautas de valores morais. A alta hierarquia da igreja sempre defendeu teses conservadoras. Foram eles os responsáveis, por exemplo, pelo fechamento dos casinos no governo do General Dutra no final dos anos 1940.

    A presença católica era mais ampla do que uma bancada. Padres, Bispos e Cardeais sempre foram muitos atuantes no jogo de poder da sociedade. A força política católica era maior do que o número de candidatos que era capaz de eleger. Afinal, a igreja católica antecede ao estado no Brasil, veio nas caravelas. Com os evangélicos não seria diferente. Era preciso que o contingente de adeptos às religiões derivadas da reforma fosse capaz de mostrar de fato sua força na sociedade. E isso aconteceu. Foi justamente a partir daí que passaram a ser muito importantes.

    No Espírito Santo, foi eleito nesse movimento o Senador Magno Malta e no Rio de Janeiro, terra do candidato Garotinho, o eleito foi o Bispo Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus. Crivella é sobrinho do fundador daquela denominação, Edir Macedo. Começa aí o processo de ocupação de espaços no congresso nacional. Foram 07 os deputados estaduais eleitos nesse período, entre eles o Pastor Robson Vaillant da Universal do Reino de Deus. Prova inequívoca da forte presença das igrejas na eleição. Robson Vaillant foi reeleito em 2006. Nos vários municípios os vereadores vinculados a essa mesma base, iniciaram um movimento de defesa do que consideram seus direitos.

    Foi nesse mesmo movimento cristão conservador que o atual prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio se inseriu desde o início, como membro atuante a Igreja do Evangelho Quadrangular. Teve cinco mandatos consecutivos como deputado estadual. Sempre marcou sua presença na assembleia legislativa por uma ação conservadora e de direita.

    Faço esse registro – o da passagem do legislativo estadual para a gestão de um município importante, o terceiro maior colégio eleitoral capixaba –  como uma marca do crescimento da presença evangélica no campo da política. Como ele sempre esteve vinculado à igreja e as suas teses morais, expressa o crescimento de importância política do pensamento conservador entre nós. Afinal somos considerados um dos estados mais evangélicos do Brasil.

    Cabe ainda uma observação, como o catolicismo também está fazendo uma inflexão conservadora com a forte presença de movimentos como a canção nova, o pai eterno, a renovação carismática, dentre outros, a presença das teses morais típicas desses segmentos tem também uma força muito grande entre os capixabas. Não será fácil para a esquerda se colocar com a força de antes nos nossos processos eleitorais. É preciso de um esforço de se reinventar, como já venho assinalando em outros textos.

  • Cidadania evangélica

    Por João Gualberto

    A ideia desse texto é a de tentar elucidar – ao menos parcialmente –  a adesão, em larga escala, de setores populares e da pequena classe média, digamos assim, aos movimentos de direita e conservadores no Brasil. O argumento aqui utilizado é o de que essa adesão se dá, em parte, pela busca da inclusão na sociedade, pela via da prosperidade. Esse é um caminho proposto pelas igrejas surgidas na Reforma Protestante, há muitos séculos, forte base dos movimentos conservadores, e amplificada pelo neopentecostalismo com a teologia da prosperidade.

    A motivação conservadora, aliada à pauta da prosperidade familiar, estaria assim na base da ascensão ao consumo de bens e serviços, mesmo os básicos como educação e saúde. O acesso a esses elementos da cidadania, que o estado não é capaz de dar, só é possível para os brasileiros com capacidade de compra.

    Retornemos ao passado para entendermos o trajeto histórico de tudo isso. No Brasil, nunca construímos uma verdadeira cidadania como fizeram outras sociedades. O conceito social de cidadão, oriundo da revolução francesa, nunca chegou, de fato, entre nós. Temos razões históricas que explicam esse fato. Para começar, nunca podemos esquecer de dois elementos fundamentais presentes em nosso processo de colonização pelo mundo europeu: o catolicismo conservador e o papel da escravidão.

    Em primeiro lugar, devemos lembrar que a chegada do colonizador a nosso país é da mesma época da Reforma Protestante. Somos produto da chamada contrarreforma, que acentuou, na igreja católica, os elementos tão criticados por Lutero e por Calvino. Os europeus que atravessaram o Atlântico trouxeram consigo um catolicismo impregnado pelas chamas do Santo Ofício.

    A Inquisição formou mentes e corações. Somos, desde sempre, uma sociedade marcada pelo imaginário de um cristianismo duro. Era religião oficial, obrigatória e bancada pelo Estado. Governo e igreja eram dois braços do mesmo corpo. Dois membros que asfixiavam qualquer proposta de autonomia vinda da sociedade. Não tivemos a possibilidade de criar, nesse período histórico, instituições que dessem suporte a um avanço intelectual, educacional ou que apreciasse qualquer vestígio de liberdade. Não tivemos os berços de uma cidadania plena.

    Além disso, éramos – e em grande parte ainda somos – uma sociedade altamente hierarquizada, tendo como base o que as elites dominantes chamavam de elemento servil: o trabalho desumano e desumanizante dos escravizados. Primeiro, foram os indígenas e depois os africanos – em boa parte do tempo, os dois. Enquanto os restos do regime aristocrata lusitano formavam as elites proprietárias e dirigentes, os trabalhadores eram a base da pirâmide sem quaisquer direitos. O povo brasileiro se constituiu assim, nesse imaginário social equivocado da desigualdade natural e naturalizada. Não deve, portanto, nos surpreender o fato de que a herança do período colonial foi uma cidadania de meia-tigela. Um país hierarquizado, feito de poucos que podem muito e muitos que nada podem.

    Do ponto de vista das bases materiais para essa hierarquização, foi a concentração da estrutura das propriedades agrícolas que tornou isso possível. Materializou a desigualdade. O latifúndio foi a base da agricultura colonial e permaneceu no Império. As grandes fases da economia agrícola brasileira como a do café, borracha, cana-de-açúcar ou cacau, foram esses latifúndios concentradores de terras e riquezas. Ampliaram desigualdade e não produziram cidadania.

    A escravidão em si é uma tragédia. A chamada escravidão moderna construída pela diáspora africana é uma das maiores crueldades já existentes na história do mundo. Suas marcas estão por todo o lado no Brasil. Basta lembrar o racismo. Além de obrigarem a todos o trabalho sem dignidade, sem renda, sem condições mínimas de saúde, ainda criaram a ideia de que os escravizados eram inferiores – que pertenciam a uma raça, conceito em si equivocado, merecedora de chibatadas e torturas.

    O racismo ainda hoje existente é uma herança da construção da nossa sociedade. Exilou os trabalhadores em um lugar de sub cidadãos. Mesmo hoje ele está presente entre nós. Mas não é o único elemento da formatação dessa nossa cidadania de meia-tigela. O machismo também exila as mulheres a um espaço muito restrito. Historicamente não tiveram outro lugar que não fosse o de mães e esposas. O espaço público sempre foi privilégio masculino.

    Fiquemos nesses elementos. Hoje, entretanto, há uma luta clara para vencer essa distância entre quem pode e quem não pode. A religião pode ser uma delas. Quando uma pessoa opta, por exemplo, pela religiosidade, cuja base é a ideia de prosperidade, de que o seu Deus colocou os recursos no mundo para serem usados por todos, está dando uma resposta a essa asfixia histórica e a incapacidade do Estado em prover esses serviços. Concretamente, dentro do marco conservador e de direita, em muitos casos, a busca de igualdade está na base da ideia da prosperidade. É uma espécie de Reforma Protestante à brasileira o que estamos vendo.

    Um cidadão consumidor pode estar surgindo em meio a um certo paradoxo do raciocínio ideológico tradicional. Há muito que o pensamento racional, nos modelos convencionais de uma ciência clássica, deixou de dar respostas às nossas questões sociais. Isso pode explicar muita coisa.

  • Atacar a polarização

    Por João Gualberto

    Tenho escrito com certa frequência sobre os riscos que a extrema-direita pode causar à instável democracia em nosso país. A soberania popular e a democracia são plantinhas que devem ser regadas todo dia, e que pode correr o risco de, ao ser submetida ao sol intenso, por longo tempo, murchar. Quando escrevo, tento não confundir extrema direita com os conservadores. São personagens diferentes. Os conservadores são os que preservam tradições e são, normalmente, contra os avanços sociais. Os reacionários querem promover o retrocesso e querem eliminar os que não concordam com eles. Representam a extrema-direita.

    Antes de querer conservar o legado do passado, a extrema-direita pretende promover mudanças e retrocessos para que suas ideias prevaleçam – como muito bem demonstraram os nazistas no início do nosso século. Os que promoveram o quebra-quebra em Brasília, no dia 08 de janeiro do ano passado são, certamente, extremistas. Não são a direita convencional do nosso país. Não é tradição do Brasil essa direita extremada e massificada, exceto no alinhamento que os integralistas fizeram ao nazi-fascismo nos, já distantes, anos 1930.

    Por quase um século fomos um país que, mesmo durante o período do governo militar, não teve práticas políticas de massa da direita. O apoio a ideias que agora absorvemos de um internacionalismo populista como o liderado por Donald Trump é algo diferente. Produto da enorme divulgação que permitem hoje as redes sociais. No contexto histórico político brasileiro, causa espanto, em boa parte da opinião pública, o surgimento dessa corrente que hoje amalgama o pensamento que dá, com excessiva facilidade, passagem e permissão ao ódio. De onde está surgindo esse sentimento, nos perguntamos com frequência. Proponho alguns motivos que me parecem relevantes.

    O primeiro deles, nasce da forma quase agressiva com que setores importantes do pensamento brasileiro trouxe à tona o chamado identitarismo, nos mesmos moldes do partido democrata americano. As lutas de classe, deram lugar aos combates de frações da sociedade e de suas bandeiras. As questões raciais, de gênero e outra auferiram grande destaque e têm promovido mudanças sociais. Entretanto, os excessos identitários assustam os mais tradicionais. Os evangélicos e cristãos conservadores são um bom exemplo. Espantados com os temas mais ousados, eles correm para o outro lado do espectro político. Embarcam na lógica das redes sociais alimentadas por pensamentos como os de Olavo de Carvalho e outros. Tornam-se extremistas.

    Outro motivo relevante, sobretudo no mundo do agronegócio, é a forma com que os conflitos da terra têm sido tratados por algumas autoridades.  Tudo aquilo que não está claramente colocado nas leis e nas normas, aceitas pela maioria, em uma sociedade, pode causar grandes transtornos. As chamadas invasões provocam revolta nos proprietários rurais. Quando o direito elementar á propriedade está em risco, é fácil incendiar esse setor social. É justamente o que tem acontecido nos últimos anos. Não são apenas as invasões, existem muitos outros elementos nessa combustão. Quero apenas atrair a atenção para um outro fator que tem levado a expansão e a radicalização de muitos. O mundo rural, o terreno do agronegócio virou lugar de expansão do pensamento autoritário. É fácil implantar o medo onde há muita insegurança.

    Podíamos citar ainda outras, mas creio que essas bastam para dar ao leitor clara ideia daquilo que desejo evidenciar. O ódio que alimenta a extrema-direita nasce de processos sociais muito concretos. Toda essa onda, que causa estranheza, não nasceu do nada. Não é um sentimento aleatório, o que os brasileiros desenvolveram. É produto da fragilidade de nossas instituições democráticas, da falta de leitura política de alguns extremados e do espírito conservador da sociedade que vem sendo instigado.

    Precisamos ter equilíbrio e buscar intervir na polarização com racionalidade política. Precisamos de sensatez na cena política. Para dar um basta nessa polarização afetiva, é preciso muita força de vontade coletiva.

  • A organização do prazer

    Por João Gualberto

    Uma das marcas da sociedade brasileira, é a grande dificuldade em organizar os espaços e as suas atividades coletivas. Não temos como característica a ordem, como os alemães ou ingleses, por exemplo. Afinal, somos filhos de povos ibéricos, tradicionalmente menos ligados a esse tipo de questão. Nem mesmo os órgãos públicos conseguem planejar suas intervenções na maioria das cidades. As prefeituras asfaltam, as companhias de águas e esgoto escavam crateras nos dias seguintes. Conserta-se, e logo depois vem outra empresa e perfura novamente. Dei apenas uma amostra do que vivemos em nosso dia-a-dia.

    Além disso, estamos às voltas com atrasos nos horários, calendários e cronogramas que raramente são cumpridos. Paradoxalmente, temos uma grande organização em outro gênero de eventos, como o das escolas de samba no carnaval. Trato, em especial, das escolas do maior carnaval brasileiro em que elas estão presentes, no Rio de Janeiro, mas avalio, também, Vitória. Aqui, na capital, desde que, o então prefeito Luiz Paulo Vellozo instituiu a antecipação do desfile das escolas de samba para uma semana antes da data oficial do carnaval, esse evento só tem crescido e melhorado.

    Sempre fiquei intrigado esse elemento da nossa cultura. Na Marquês de Sapucaí temos um espetáculo que é um dos maiores eventos turísticos do mundo. Há contradição entre a desordem nas atividades mais simples do nosso cotidiano – como os horários das reuniões ou o início dos eventos sociais – e a complexa organização dos desfiles, onde tudo funciona com perfeição. Não deve ser simples colocar todo aquele aparato de enormes carros alegóricos, milhares de pessoas, ou a bateria, na avenida. E tudo conduzido de forma cronometrada, dentro de princípios bem rigorosos de organização.

    Não quero avançar na análise do carnaval como festa popular, o que já foi feito, aliás de forma magistral, pelo antropólogo Roberto DaMatta em seu clássico “Carnavais, Malandros e Heróis”. Quero apenas me aventurar, numa tentativa de explicar a organização das escolas de samba. Acredito que um caminho explicativo é a importância que o desfile tem na vida de cada um dos envolvidos. O desfile é uma obra coletiva, importante para todas as milhares de pessoas partícipes do processo. É preciso ter ações integradas, sem as quais o evento fica inviável.

    É impossível pensar em um desfile desses, organizado de forma autoritária. Os sorrisos e a graça seriam destruídos pelo peso das tarefas de cada um. O sucesso do empreendimento pode tentar ser explicado pelo caráter coletivo e democrático de sua organização, e pela espontaneidade das participações. Conta, também, a importância pessoal e social que o evento tem na vida de todos.

    Muitos de nós conhecemos a história do trabalho e também das instituições sociais brasileiras. Elas nasceram imersas em um imaginário social autoritário e excludente. No início, pelo trabalho forçado dos escravizados. Pela forma tardia, e também imperiosa como as leis que garantiram o trabalho livre foram construídas. Depois, a incrível mania que tem as nossas elites de importar modelos de outras sociedades, sobretudo a norte-americana e a europeia.

    O contraste entre as duas formas de organizar o mundo: uma pela motivação e pelo prazer da colaboração coletiva e, a outra, pelo autoritarismo centralizador que elimina a importância de cada pessoa nos processos, é uma dica para avaliar o caso de sucesso de organização do nosso carnaval, imerso no prazer. Não é o único evento bem sucedido, apenas o mais visível. Vejo muito disso nos coletivos juvenis, nas celebrações da cultura popular e em muitos espaços onde está ausente – por puro desinteresse, o poder público.

    Enquanto não avançarmos nessa discussão estaremos fadados a ser um país menor do que poderia ser.

  • O cristianismo conservador

    Por João Gualberto

    Nós, no Brasil, de uma forma geral, temos utilizado de forma abusiva o termo Evangélico. Ele tem sido usado para denominar um contingente de pessoas que se comporta de forma conservadora na religião, na sociedade. Temos utilizado também, na mesma direção, a expressão “bancada evangélica” para tratar de vereadores, deputados e senadores que agem, nos parlamentos, na defesa de normas e leis que se apoiam em princípios morais rigorosos e até mesmo fundamentalistas. Tais princípios, no entanto, me parecem comuns às igrejas cristãs de uma forma geral, e ao catolicismo, inclusive. Vou explicar.

    Desde o início desse século XXI, a representação dos interesses mais conservadores tem sido confundida com as teses e práticas morais das igrejas evangélicas, de forma especial as chamadas neopentecostais como Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Evangelho Quadrangular, Renascer em Cristo, Igreja Mundial do Poder de Deus e muitas denominações nascidas da Assembleia de Deus, para citar apenas algumas. Na verdade, todas as igrejas até aqui citadas são mesmo conservadoras. Elas não evitam o adjetivo. O que me parece, entretanto, digno de nota, é que o cristianismo brasileiro foi, na maior parte de tempo e na maior parte dos lugares, de corte também muito conservador e não somente os evangélicos.

    Vamos pensar um pouco na história. Quando os europeus atravessaram o Oceano Atlântico, no século XVI, para colonizar a América, estavam ainda imersos na ordem social medieval. Os portugueses que para aqui vieram praticavam um catolicismo totalmente imerso na ideia de cristandade. Como muito bem me explicou em conversa culta e agradável o professor Edebrande Cavalieri, Doutor em Ciências da Religião, vinham com a ideia de que as religiões que aqui encontrassem e praticadas pelos indígenas deveriam ser combatidas. A única fé aceita seria aquela praticada e ensinada pela igreja católica. Ela excluía as novas práticas trazidas pela Reforma Protestante, a fé judaica, e também as crenças que tinham os escravizados trazidos da África.

    O catolicismo era religião oficial, obrigatória e organizada pelo Estado Português. O fim da fase colonial nada mudou na organização religiosa, já que o império brasileiro manteve a religião de estado e o culto obrigatório do catolicismo. As funções civis de registro de nascimentos, casamentos e mortes também eram privativas da Igreja Católica, no jovem país que se tornara independente. Foi assim, até o advento da república, já no fim daquele século.

    Nossas práticas religiosas cristãs, desde sempre estiveram muito mais vinculadas aos patamares conservadores e fortemente ligadas ao poder e ao estado. Não é por acaso que ainda no início do século, o Cristo Redentor já guardava e protegia a capital da nossa república e várias cidades do interior do Brasil.

    Crédito: dislentev

    A Ação Integralista Brasileira, uma espécie de fascismo tropical, cresceu no Brasil dos anos 1930, fortemente ligada à igreja católica. Os padres de milhares de paróquias brasileiras eram os maiores cabos eleitorais do partido de direita e conservador que era dirigido por Plínio Salgado. Essa é apenas uma evidência do que estou tentando argumentar. Temos outras, como as marchas com Deus pela Pátria e pela Família, que deu sustentação ao movimento militar de 1964, é outra evidência do que estou expondo.

    Acho que não preciso ir mais longe. O cristianismo brasileiro é majoritariamente conservador. Atribuir todo conservadorismo cristão aos evangélicos é um erro que eu mesmo já cometi. A representação desse cristianismo conservador não pode ser atribuída somente aos evangélicos. Não acredito que os católicos tentem discordo do conservadorismo da maioria dos fiéis.