• O amor em nossas vidas

    Por João Gualberto e Helio Gualberto Neto

    Há alguns anos atrás, uma rede de noticias perguntou ao antropólogo Roberto DaMatta sobre suas expectativas para um ano que se aproximava. Ele deu uma resposta curiosa, que me chamou atenção: disse que esperava amor na sua vida e saúde na sua família. 

    Enquanto nas mesmas circunstancias  especialistas falavam da inflação, dos riscos da política nacional e assuntos sérios assim. No fundo, ninguém mata ou morre por causa desses grandes distúrbios nacionais. Ninguém perde o sono ou a fome por eles. O que nos mobiliza são nossas tragédias e alegrias pessoais. Um amor perdido, a traição da mulher ou do homem de seus sonhos, um casamento desfeito, um filho perdido para as drogas, não poder saciar a fome dos filhos. 

    Cito de memória, e como já fazem muitos anos, posso não estar sendo preciso, mas o sentido é exatamente esse.

    Poderíamos levar em conta também os escritos de Nelson Rodrigues, esse escritor maravilhoso e que marcou época com seus personagens envolvidos em dramas e tramas suburbanos e cheios de erotismo e paixão. Dizia que só se morre de amor na Zona Norte, referindo-se ao Rio de Janeiro de seus tempos. Esse sofrimento que só o amor não correspondido pode dar, e que ele descreveu e explorou com maestria.

    Foi com este inspiração que desenvolvemos nosso estudo para compreender o quanto os capixabas, moradores da região metropolitana do ES, amam suas cidades.  Os resultados, aqui apresentados aqui no ES Hoje, naturalmente também buscaram a avaliação de elementos da economia, mobilidade urbana e oferta de serviços, entre outros mais racionais. Mas assim como na vida, eles são fios de uma noção que se coloca na vida das pessoas não por meio do racional. Mas daquilo que se passa no coração. 

    Pôr do sol no Morro do Moreno.

    O que vimos foi a força do amor dos habitantes da Grande Vitória por suas cidades. Em nossas trajetórias como profissionais de ciências sociais, pesquisa e comunicação, essa ideia é sempre presente. Ao dialogarmos com as pessoas sobre o tema das cidades, nosso grande exemplo, observamos que muito mais do que elementos racionais e objetivos, nossas conversas sempre destacaram a relação das pessoas com os lugares em que vivem. Os amigos, a família, o acolhimento de vizinhos, a admiração pelos lugares e aquilo que a cidade oferece. São esses os elementos que dão significado àquilo que entendemos como cidade. O amor. 

    Uma analogia para que a gente não esqueça do aspecto humano, de olhares como o do grande professor DaMatta e dos sentimentos das pessoas em todas as coisas que fazemos em nossas vidas. Pois da gestão de uma empresa à complexa administração de uma cidade, muitas vezes o que vemos do outro lado desta relação são organizações em busca de indicadores sólidos e racionais. Mas no fim das contas, são as pessoas e suas histórias que vão tornar tudo isso, que é da ordem do racional, em amor. Talvez a única coisa que interesse.

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 15 de fevereiro de 2023.

  • A revolução dos idosos

    Por João Gualberto

    A imprensa brasileira e as redes sociais todas chamaram muito a atenção para a forte presença de pessoas mais velhas nos acampamentos que foram mantidos diante dos quartéis do exército entre o fim das eleições e o fatídico dia 08 de janeiro. Não por acaso, foi a única vez há história mais recente do mundo em que a revolta vem dos mais velhos

    Entretanto, esse fenômeno da participação política recente de pessoas mais velhas na cena política é muito mais amplo do que o das manifestações em si mesmo. Diz respeito ao tecido social com que se construiu a direita em todo o mundo, a partir dos primeiros anos do século XXI. A comunicação digital foi ganhando muito força, até dominarem quase que com exclusividade o processo de formação de opinião. A produção das informações que alimentam a produção de opiniões e a construção das ideologias migrou para as redes sociais.

    Elas passaram a ser o lugar da política, em especial o lugar de expressão das novas direitas que foram surgindo no mundo globalizado. Desde a primavera de abril de 2011, as grandes manifestações brasileiras de 2013 até as eleições brasileiras e americanas de 2016 e 2018, tudo passou a acontecer a partir dos espaços digitais. Não podemos esquecer o Brexit.

    Manifestantes na Praça Tahrir, Cairo, no dia 1 de fevereiro de 2011. Fonte: IstoÉ.

    Esse é o ponto de partida. O lugar da política são as redes sociais, é nelas que tudo acontece. Toda uma estratégia ousada foi montada pelos grandes formuladores das novas direitas globais, como o americano Steve Bannon. Nessa estratégia de construção da desinformação de forma metódica e sistemática, quanto mais analógica for a pessoa, mas visada ela é. Existem obviamente dentro das novas direitas muitos jovens, isso é inegável. 

    Mas o foco mais intenso da conversão para um ideário conservador, seu centro vital, são, sem dúvida, os mais velhos. Não são capazes de reconhecer montagens mais grosseiras e caem nas fake News com bastante boa fé, ingenuidade mesmo. Assim, foi montada uma estratégia perversa de converter os valores naturalmente mais conservadores dos mais velhos em ideais de manutenção de práticas sociais que estão esgotadas. O retorno a um passado que os encanta é a tônica do processo.

    No caso brasileiro, fala alto a ordem que os militares poderiam garantir com um retorno de um regime forte, garantidor de segurança contra os perigos do mundo. A globalização que rouba empregos no ocidente é sintetizada no tal globalismo, no comunismo e mesmo marxismo cultural. Há demônios soltos e somente a força da ordem, uma tirania dos seres humanos do bem, daria cabo desses inimigos terríveis. Os mais velhos é que entendem desse passado idílico, logo ganham grande espaço nesse retorno aos tempos de ouro. 

    Bolsonaristas caminham do acampamento do QG do Exército até a Praça dos Três Poderes no dia 08 de janeiro de 2023. Fonte: Sergio Lima/Poder360.

    Esse novo formato de política feita pelos cabeça brancas analógicos, dependentes das redes de WhatsApp como única fonte de informação, extremamente crentes em suas verdades precárias é que movimentou com densidade – embora não com exclusividade – os movimentos mais radicais brasileiros dos últimos quatro anos. Esse contingente está aí, só crê nos seus celulares e naquilo que fortalece seus princípios. É um nó para desatarmos na construção de uma sociedade mais justa e igualitária, baseada em valores democráticos.

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 11 de fevereiro de 2023.

  • Moqueca, Convento e identidade

    Por João Gualberto e Helio Gualberto Neto

    A moqueca, o convento da Penha, belezas naturais como o Moxuara, o Mestre Álvaro, o Penedo e o Morro do Moreno. As praias, os acordes de Mauricio de Oliveira e até o cantor Silva. Muitos foram os ícones culturais – cultura aqui entendida em seu sentido mais amplo – citados pelos moradores da Grande Vitória no estudo que a Persona realizou para o ES HOJE. 

    A pergunta sobre quais são os ícones culturais de cada uma das cidades evidenciou o quanto nossa conexão com os territórios é complexa, pois é resultado de uma grande teia de relações imaginárias sociais e de suas profundas significações em nossas vidas.

    Também evidenciou que tangibilizar sentimentos, ideias e valores que dizem respeito a algo que é subjetivo e particular não é uma tarefa simples. Mas, o que as respostas obtidas mostram sobre a relação das pessoas com seu ambiente de vivência social? 

    Os elementos citados no início do texto, diversos, imprecisos, variados e até peculiares mostram isso. Entre as quatro cidades, apenas Vila Velha tem um ícone cultural consolidado: o Convento da Penha, com mais de 54% de citações entre os moradores da cidade. Em Cariacica e Serra, a maioria das pessoas responderam que não sabiam qual era o maior ícone da cidade. E os moradores de Vitória, além de elegerem a moqueca, um ícone cultural de todo o Estado, também falam com frequência do Convento.

    Moqueca capixaba, prato típico do Espírito Santo. Fonte: Secretaria de Turismo do Espírito Santo (SETUR).

    O conhecimento dos moradores sobre a história de suas cidades também é muito pequeno: todos os municípios, com exceção de Vila Velha, ficaram com índice negativo na metodologia utilizada para o estudo, ou seja, de -15.37%  no NPS (Net Promoter Score) da Grande Vitória . 

    A partir do estudo, não é exagero dizer que os moradores da Grande Vitória conhecem pouco seus ícones culturais, como parece ser o caso dos capixabas de uma forma geral. Parece nos faltar esses grandes ícones. Ou, ainda, reconhecer melhor nossa história e símbolos culturais. Celebrar o Congo ou o Ticumbi, por exemplo, dar valor a uma das trajetórias mais antigas do Brasil com a presença de indígenas, jesuítas e europeus, desde os portugueses chegados no século XVI até italianos, poloneses e germânicos vindos mais recentemente. Valorizando sim as belezas naturais, como parece bem razoável. Mas também a culinária, a música e o potencial turístico. Em síntese, levar nossa identidade regional em conta. 

    Ticumbi de Itaúnas. Fonte: Folha Vitória.

    Podemos dizer, ainda, que dialogar com a população da Grande Vitória mostra que podemos e devemos investir muito mais na ideia de dotar nossas principais cidades de sentido e significado simbólico, dando a elas, por meio da dimensão do “placemaking” (que poderia ser traduzido do inglês como construção do lugar), um lugar imaginário na cultura. E, consequentemente, enaltecendo elementos que atraem e encantam moradores e visitantes. 

    Em suma, dialogar com a cidade nos ajuda a perceber a necessidade de reconhecer e construir novos olhares para nossa cultura. Pois mesmo que não existam respostas fáceis, revisitar e ressignificar nossas próprias identidades é possível e desejável. 

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje, no dia 02 de fevereiro de 2023.

  • 08 de janeiro: a inflexão na direita

    Por João Gualberto

    A coalisão que proporcionou a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018 sempre teve fortes contradições internas. Seus pilares de sustentação tem sido uma conjugação de evangélicos, ou melhor, cristãos conservadores. Afinal, existem muitos segmentos católicos, de pensamento muito parecido em termos de comportamento moral, liberais ligados ao mercado comandados por Paulo Guedes, empresários rurais ligados ao agronegócio, antipetistas organizados pelas ações da operação lava-jato, entre outros. 

    As contradições internas estão em vários lugares dessa coalisão, como por exemplo entre as mulheres evangélicas pobres, sobretudo as neopentecostais, que são moradoras da periferia, pobres e pretas, e os que divulgam o uso ostensivo de armas. Essa contradição existe até porque elas são as maiores vítimas das violências que as armas possibilitam. Aliás, de uma forma geral o universo feminino mais pobre sabe que mulher armada só na classe média alta. Clube de tiro é, via de regra, lazer de rico. Tiro para pobre é confusão.

    Arma gigante que foi atração da Marcha para Jesus realizada em Vitória no dia 23 de julho de 2022.

    A forte liderança que o ex-presidente exercia na coalisão toda a mantinha coesa e unida, foi assim nos quatro anos de seu governo. Provavelmente a coalisão permaneceria, caso Bolsonaro tivesse sido reeleito.  A vitória de Lula, entretanto, mudou essa situação. As várias vertentes internas sentiram de forma diferente o gosto amargo da derrota. Os mais democráticos entenderam que não havia mais muito a fazer, a não ser se organizar para fazer forte oposição ao novo governo e construir politicamente as próximas eleições para voltar ao poder.

    O mesmo não se deu a porção mais radical, aquela que se aproxima da extrema direita, que resolveu se organizar para viabilizar um golpe que traria de volta o ex-presidente. Esse sentimento de revanche deu ensejo a inúmeros acampamentos diante dos quartéis, dentre outras manifestações como a fechamento de estradas e ameaças de greve. Tudo isso acabou gerando os graves acontecimentos do dia 08 de janeiro em Brasília.

    Invasão ao Congresso Nacional orquestrada por bolsonaristas, no dia 08 de janeiro de 2023.

    Trabalho com a hipótese de que 08 de janeiro foi um ponto de inflexão na coalisão Bolsonarista, com uma forte tendência a redução da importância da liderança de Bolsonaro, e ao surgimento de pelos menos três movimentos políticos e partidários na direita brasileira. Os mais liberais em termos do mercado, privatistas, mas também conservador nos costumes. Esses têm como lideranças naturais políticos como os governadores Tarcísio Freitas, Ratinho Junior ou o Zema. Já são visíveis os movimentos de Zema para ocupar espaços vazios. O segundo movimento, mais próximo aos militares e um pouco menos liberal na economia e mais conservador nos costumes, teria como liderança provável o agora senador Mourão, homem duro, mas que sabe jogar na política, é senador eleito pelo Rio Grande do Sul e tem capacidade de liderar.

    Um terceiro bloco seria o dos radicais bolsonaristas que podem ou não contar com a liderança do Jair Bolsonaro, dependendo do seu desejo de voltar ao jogo político de fato e também às condições jurídicas desse retorno. Eles tendem a jogar de forma clara para inviabilizar o atual governo, enquanto os demais segmentos da direita podem se organizar para fazer oposição às esquerdas, mas participando de fóruns de debates e alianças ocasionais. Ou seja, sendo parte integrante do jogo político. Vamos acompanhar os fatos, para sabermos os movimentos reais.

    Artigo publicado originalmente no blog A vírgula, no dia 20 de janeiro de 2023.

  • Micro nacionalismo: paixão pelo seu lugar

    Por João Gualberto e Helio Gualberto Neto

    Os brasileiros não são, de uma forma geral, vinculados aos grandes símbolos nacionais. Salvo a Copa do Mundo, que diz mais  respeito a nossa relação com o futebol, e fenômenos políticos mais recentes, nunca foi uma marca da nossa sociedade o orgulho de ser brasileiro. Pelo contrário, Nelson Rodrigues consagrou a expressão “complexo de vira-latas” como uma forma dos brasileiros se colocarem de forma inferior ao resto do mundo. Diferentemente dos americanos, por exemplo, que se consideram uma nação vitoriosa, têm a prática de jurar a bandeira todos os dias nas escolas e tem como seus principais feriados datas como a independência e o dia do veterano de guerra. 

    Os franceses orgulham-se de serem os pais do mundo moderno, com a democracia, os partidos políticos, a liberdade de imprensa, a educação das massas e o conceito moderno de cidadania. Orgulhos que não desenvolvemos.

    Existe, entretanto uma dimensão importante entre nós brasileiros, o amor que desenvolvemos pelos lugares onde vivemos. Nossas cidades. Existe aqui aquilo que costumo chamar de micro nacionalismo. Um sentimento que também pode ser chamado de bairrismo. Nos muitos anos que atuamos analisando pesquisas de opinião, vimos isso inúmeras vezes. As pessoas se apegam aos símbolos de seus municípios, sejam eles pedras, lagoas, praias, edificações históricas.  Cada detalhe desse amor é supervalorizado. Comete enorme gafe quem chega a uma cidade com visitante e menospreza esse sentimento. Ganha pontos quem os promove, quem os valoriza.

    Foi em busca dessas emoções, amores e sentimentos que a Persona foi às ruas entrevistar os moradores dos quatro maiores municípios da Grande Vitória: Serra, Vila Velha, Cariacica e Vitória. E o que encontramos não só confirmou essa impressão, como tornou ela ainda mais clara.

    Convento da Penha, eleito pelos moradores de Vila Velha na pesquisa “Grande Vitória, Grandes Amores” como o ícone cultural da cidade.

    De Cariacica a Serra, passando por Vila Velha e a capital Vitória, a maioria absoluta dos moradores da Grande Vitória amam as cidades em que vivem. Seja por fatores naturais, como as belezas das suas cidade, pela qualidade de vida oferecida ou pelos afetos que se criam com vizinhos e pessoas próximas, a média das cidades da região metropolitana certamente merece destaque. 

    O estudo que a Persona desenvolveu, em parceria com o ESHoje, vai mostrar esses e diversos outros aspectos que ajudam a entender a relação das pessoas com seus municípios. O que gostam, o que não gostam e, só para ficar em um exemplo, se elas se mudariam para outro município da região metropolitana.

    É mais uma forma importante de nos conhecermos e nos valorizarmos. Em um período que o país ainda se encontra em alta temperatura após uma eleição que literalmente dividiu sua sociedade, o exercício de olhar para aquilo que temos de melhor e mais positivo, neste caso, o amor que temos pelo lugar que vivemos, é uma forma de buscarmos pontos em comum que nos valorizam como sociedade e talvez ajudem a afastar complexos que não contam de fato quem somos. E isso não é pouco. 

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 4 de janeiro de 2023.

  • A nova direita brasileira está diante de seu labirinto

    Por João Gualberto

    Tenho chamado a atenção, nos artigos que venho publicando, para o incrível crescimento da direita nas eleições de 2022 no Brasil, ampliando o crescimento que já houve em 2018. Foi uma verdadeira febre, inclusive em nosso estado. Sob esse manto ideológico se abriga uma coalisão de interesses bem extensos. Podemos dizer sem medo de errar que a direita não é um bloco, mas que todo o crescimento foi possibilitado pela liderança do ex-presidente Bolsonaro.

    Existem seguramente nesse leque político uma enorme variação de interesses. Podemos citar como exemplos, dentre outros, os evangélicos e sua defesa da família na concepção mais tradicional – as pessoas de bem, como se auto definem – os liberais muito preocupados com a redução do tamanho do estado na economia – os representantes do chamado mercado – e, tristemente, um conjunto de pessoas autoritárias que não aceita o resultado das urnas, e que se alimentam de uma incrível fábrica de mentiras que se instalou, impunemente, em nosso país. Sobretudo os mais velhos, os de cabeça branca analógicos, vivem em realidade paralela que o mundo das redes sociais, em especial do WhatsApp, criou. São os patriotas.

    Os patriotas, de fato uma fração radical da direita, elegeu como seu mito e não apenas seu líder político, o ex-presidente Bolsonaro, e insistem em articular um movimento para anular os resultados das eleições e trazer de volta o presidente derrotado. Querem uma intervenção militar, o retorno de uma ditadura e o fechamento das instituições democráticas. Mas, devemos lembrar que essa fração não expressa o conjunto daquilo que chamamos de direita, segundo os conceitos estabelecidos.

    Essa franja mais exaltada e de corte claramente autoritária tem asfixiado, em termos de imagem, outras tendências, igualmente importantes nesse conjunto eclético de valores. Esse subconjunto resolveu passar do seu universo paralelo a uma ação golpista no último domingo. Protagonizou cenas inacreditáveis em Brasília. Algo da ordem do impensável. Resultado, manchou todo o conjunto, e pode comprometer o seu futuro.

    Rastro de destruição deixado, no dia 8 de janeiro de 2023, pelos ditos “patriotas” em Brasília.

    A centro direita que se apoia no liberalismo econômico e mesmo nas bases de cristianismo conservador, precisa se diferenciar desse golpismo. Toda democracia moderna nasce do embate e dos conflitos das ideias de esquerda e também de direita. O Brasil que tem um governo de centro-esquerda também precisa do debate liberal das ideias, afinal a tensão é o motor a política. Não precisamos de um teatro carnavalizado. Precisamos de seriedade e compromisso com a realidade. Agora é hora de livrar-se a direita desse culto bolsonarista atrasado, e cultivar outro campo dos conceitos, como se faz modernamente nos países europeus, por exemplo. Avançar na batalha das ideias e esquecer o culto à porta dos quartéis.  Outras lideranças e narrativas se impõe. A nova direita brasileira está diante de seu labirinto. É preciso encontrar uma saída.

    Artigo publicado originalmente no Jornal A Gazeta, no dia 10 de janeiro de 2023.

  • Roberto DaMatta e a carnavalização da política

    Por João Gualberto

    Conheci pessoalmente o grande pensador brasileiro Roberto DaMatta quando fazia meu doutoramento em Paris, nos anos 1980. Na verdade, soube de sua presença na cidade para palestras sobre sua Teoria do Brasil, e o procurei para uma conversa. Essa conversa gerou outras, e acabou gerando uma amizade que já dura mais de 30 anos.

    Além da sólida amizade, trabalhamos juntos em um projeto para o DETRAN-ES sobre igualdade no trânsito. A partir dele fomos – Ricardo Pandolfi e eu – parceiros em um dos muitos livros:  Fé em Deus e Pé na Tábua: Como e por que o trânsito enlouquece no Brasil. O trabalho, no fundo, faz uma interpretação do impacto da cultura de uma sociedade que não é igualitária no dia a dia das cidades, a partir de um olhar antropológico alicerçado em vastas pesquisas conduzidas pela Futura em todo o nosso estado.

    Ao longo de todos esses anos, tenho utilizado dos conceitos damattianos, de sua vasta produção intelectual e do seu olhar muito denso dos elementos que nos tornam brasileiros, que fazem do brasil Brasil, nome de um de seus livros. Entre esses conceitos chaves, utilizei no meu livro A Invenção do Coronel: Raízes do Imaginário Político Brasileiro o de “carnavalização”.

    Festa de Carnaval.

    Através desse conceito, tento entender um dos processos mais profundos da nossa sociedade, a sua tendência a transformar em festas próprias do carnaval situações que não pertencem a esse período específico do ano. Por exemplo, a Copa do Mundo transforma-se em um grande carnaval nas ruas, com as suas músicas e suas fantasias, lembrando um vago patriotismo de ocasião e suas naturais tendências ao excesso nas bebidas, e na inversão da ordem natural da vida social.

    Quero lembrar que nossa política também é carnavalizada. Não era assim na velha república, nos tempos dos coronéis, onde tudo era muito formal. Um mundo masculino metido em terno e gravata, de comportados chapéus pretos. Mas, quando se instalou o populismo na Era Vargas, nos distantes anos 1940, e começou a inclusão das massas na política esse fenômeno apareceu. Para não irmos muito longe, houve um tempo em que os comícios viraram shows com artistas famosos. Eram os showmícios que atraíram multidões. Depois muito artistas, como Tiririca, foram eles mesmos para o campo eleitoral, e carnavalizaram suas aparições nos vídeos.

    Agora temos um outro momento desse mesmo fenômeno sociológico, um pouco mais denso, com um sentido mais cívico e mais profundo, além possuírem um corte claramente autoritário. São as manifestações da extrema direita brasileira. Elas já começaram antes das eleições de 2018, atravessaram os quatro anos da gestão Bolsonaro, atravessaram pontes de avenidas nesse período, e chegaram agora na frente de inúmeras instituições militares.

    Manifestação pró-Bolsonaro, realizada em 2022.

    Esse traço tão presente na cultura brasileira, as manifestações ruidosas e com pessoas vivendo fora de seu cotidiano, exibindo com vigor suas convicções de forma teatralizada veio para ficar. É a versão atual de um elemento estrutural na nossa cultura política. Viveremos com esses fatos por longos anos ainda.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 29 de dezembro de 2022.

  • Jorge Caldeira

    Por João Gualberto

    “Mauá: empresário do Império”, obra publicada pela primeira vez em 1995.

    Convidado por Jorge Caldeira fui a sua posse na Academia Brasileira de Letras no último dia 25. Uma festa e uma celebração da obra desse grande intelectual. Historiador produtivo tem uma extensa produção, onde é difícil saber qual a mais importante. Seguramente o mais conhecido de seus livros é “Mauá: um empresário do império”, no qual destaca o papel do grande empreendedor do século XIX e sua luta contra a incrível burocracia imperial brasileira e também contra a mentalidade escravocrata que dominava os círculos de poder de sua época.

    “O banqueiro do sertão”, publicado em 2006.

    O livro sobre José Bonifácio de Andrada e Silva, é de uma profundidade extraordinária e coloca luzes sobre os movimentos políticos e econômicos que produziram nossa independência, que tem muito mais densidade do que o simbólico grito do Ipiranga, que aliás só ganhou importância depois da pintura de Pedro Américo. O quadro é de 1888, portanto do fim do período imperial. Até então o gesto simbólico tinha pouca importância. O que importava mesmo como símbolo da independência na época era a coroação de Pedro I em 01 de dezembro de 1822. Lendo o que Caldeira pesquisou e escreveu sobre a vida de José Bonifácio podemos entender melhor como ele foi fundamental na construção do Brasil, da invenção da nossa nacionalidade.

    Outra obra fundamental é o “Banqueiro do Sertão”, onde ele narra o início do processo de descoberta do ouro no Brasil e os mecanismos de seu financiamento, aliás não só do ouro como também de todo o processo de interiorização das atividades produtivas na então colônia. Da leitura, a gente entende como faziam os bandeirantes para obter recursos para suas aventuras no sertão daqueles tempos. A trajetória do Padre Guilherme Pompeu de Almeida, é o fio condutor de uma história construída quase em forma de romance, onde fica destacado o empreendedorismo desses personagens. Jorge Caldeira destaca a formação do que ele chama do capitalismo Tupinambá, ou seja, a incrível articulação de culturas que nos produziu e que produziu nosso capitalismo. Isso não quer dizer que ele defenda que ouve igualdades nesse amalgama, antes pelo contrário ouve clara imposição da lógica cristã portuguesa.

    “História da riqueza no Brasil”, que teve sua primeira publicação em 2017.

    Finalmente, a “História da Riqueza no Brasil”, o mais recente dos três, é uma obra síntese de suas formulações, onde fica claro o caráter empreendedor de nossa sociedade, muito mais ampla do que costuma descrever nossa historiografia tradicional. Muito me inspiro em Jorge Caldeira para tentar entender o que se passou no Espírito Santo. Nossa trajetória também é de muito empreendedorismo, que fica claro na fase colonial pela produção nas fazendas jesuíticas desde o século XVI até o ciclo do café, a partir da segunda metade do século XIX.

    É falsa a afirmativa história de que fomos sacrificados pela coroa que estabeleceu a capitania do Espírito Santo como uma barreira verde entre o mar e as Minas Gerais. O ouro é importante – e põe importante nisso – no século XVIII. Portanto tivemos dois séculos de atividades econômicas antes da tal barreira verde. O ciclo teve seu auge nesse século. Logo depois chegariam ao Brasil as cortes portuguesas e começaríamos outro período. Portanto atribuir um certo marasmo colonial a um determinado período de um ciclo mais amplo é puro preconceito.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 30 de novembro de 2022.

  • O futuro da direita capixaba

    Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

    O Presidente Jair Bolsonaro foi muito bem votado no Espírito Santo, aqui ele teve 58% dos votos no segundo turno. Muito além da média nacional. Aliás, nas eleições de 2018, quando se elegeu, teve aqui 63% dos votos. Somos um estado onde a liderança de Bolsonaro é muito forte. Um estado bolsonarista, enfim.  Tão forte que elegeu seu aliado Magno Malta Senador da República, derrotando a experiente senadora Rose de Freitas, que teve o apoio do governador reeleito Renato Casagrande.

    Magno Malta, eleito novamente Senador pelo Espírito Santo nas eleições em 2022.

    No primeiro turno Bolsonaro teve 52% dos votos e ajudou a eleger aliados na bancada federal e na estadual. Gilvan da Federal, até então vereador no primeiro mandato em Vitória, foi o segundo mais votado para a câmara. A expressiva votação de personagens na nova direita capixaba na assembleia legislativa, como o Capitão Assunção, ficou muito acima do que esperava o mercado político, para ficar em dois exemplos marcantes.

    Em termos da eleição para o governo do estado, foi surpreendente a votação de Carlos Manato do PL, que fez campanha colada na de Bolsonaro, nos dois turnos. Só o fato de ter provocado um segundo turno já foi em si mesmo um grande feito. O governador em campanha e seus principais aliados como o prefeito de Cariacica Euclerio Sampaio fizeram uma inflexão a direita, sobretudo quando o governador faz notáveis esforços para captar eleitores de Bolsonaro. Essa inflexão a direita, produzirá modificações importantes no próximo governo Casagrande. Afinal terá que haver uma compensação em termos de formação de governo, alianças políticas e mesmo políticas públicas para essa fração de eleitores mais conservadores.

    Mas independente desse participação do tabuleiro político comandado por  Casagrande, o que já é um ganho em si, o que de mais orgânico a direita capixaba está pensando? É uma questão política e eleitoral importante, com desdobramentos na governabilidade e no relacionamento com a assembleia. Do ponto de vista eleitoral, o primeiro efeito desse posicionamento se verá nas eleições municipais do ano que vem. Bolsonaro venceu a eleição em 61 dos 78 municípios capixabas, terá certamente candidatos na maioria deles. A questão concreta é como se organizarão, como conseguirão manter a uma identidade da direita nos mesmos moldes de 2022. Esse elemento ainda não está claro.

    O que queremos argumentar é que a organização da nova direita em nosso estado foi feita a partir da forte liderança do presidente-candidato. Agora não sabemos como isso vai se dar. Da construção de rede de lideranças conservadoras depende em grande parte o seu sucesso eleitoral. Lideranças municipais normalmente se vinculam a lideranças estaduais. Essa construção da liderança estadual vai ser resolvida aos poucos. Ainda não sabemos o quanto os bem votados desse pleito jogarão esse jogo.

    Mas uma coisa é certa. Há uma enorme densidade na direita conservadora que se construiu entre os evangélicos. Achamos mesmo que o amalgama central de valores vem desse segmento de eleitores. Enquanto empresários estão normalmente preocupados com a agenda econômica do governo, os evangélicos em particular e os católicos conservadores de uma forma geral, buscam valores, buscam princípios que se encontram no plano moral.

    A Marcha Para Jesus realizada em Vitória (ES), neste ano, contou com a presença do Presidente Jair Bolsonaro e da Primeira-dama Michelle Bolsonaro.

    Pode ser até que os novos passos da nossa direita sejam dados no campo dos valores cristãos. Certamente eles são mais densos e permanentes do que os interesses que se articulam em torno do campo meramente eleitoral. Pensemos em um exemplo, a Igreja Cristão Maranata, nascida no Espírito Santo e muito influente aqui. Dela podem surgir muitas lideranças articuladas em termos de um discurso musculoso no campo moral. Será como uma célula de líderes. Todas as demais denominações podem fazer o mesmo. Ou seja, toda atenção dele ser dada a esse segmento.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 16 de novembro de 2022

  • A força do segundo turno

    Por João Gualberto

    As eleições em duas etapas foram introduzidas na vida política brasileira a partir de 1989, nas eleições protagonizadas por Fernando Collor e Lula no segundo turno. No caso brasileiro, para vencer na primeira rodada eleitoral é preciso ter metade mais um dos votos. Quando um candidato não consegue esse número no primeiro turno, os dois mais votados voltam as urnas.

    A lógica desse dispositivo eleitoral, é permitir que se construa uma maioria que não houve no primeiro turno, um leque mais amplo de apoio. No caso das eleições que se encerraram no domingo, o mesmo raciocínio pode se aplicar tanto ao caso nacional quanto ao caso capixaba. A campanha de Lula esperava sua vitória em 02 de outubro. Ela não veio com os recursos que foram utilizados, como a presença de Geraldo Alckmin no palanque. Foram para o segundo turno e agregaram mais forças políticas ao processo.

    Simone Tebet declarou apoio a Lula após o 1º turno.

    Simone Tebet foi o maior exemplo disso. Agregou muito a campanha. É uma das vencedoras de 2022 e sai maior do que entrou. Agora na transição, a escolha de Alckmin para coordenar politicamente e tecnicamente a sua gestão, mostra que o presidente eleito acena ao centro, acena ao mercado e as forças que não são de esquerda. Ou seja, o segundo turno consolidou a ideia de que não deve haver um governo de esquerda. O Brasil espera mais um momento de conciliação.

    No caso capixaba, a campanha do governador Renato Casagrande também esperava a vitória no primeiro turno. Era, aliás, o mais provável. Houve, entretanto, um crescimento vertiginoso da direita no Espírito Santo. Candidatos a assembleia e a câmara federal cuja eleição não era esperada, tiveram votação muito expressiva e foram verdadeiros fenômenos eleitorais. Essa febre da direita impactou a campanha e levou Carlos Manato ao segundo turno. Casagrande teve que ampliar suas bases para vencer o pleito.

    Renato Casagrande e Ricardo Ferraço, chapa vitoriosa na disputa para o governo do Espírito Santo em 2023.

    A maior evidência disso foi a participação do vice-governador eleito, Ricardo Ferraço, nos atos de campanha no segundo turno. Foi fundamental na vitória. A participação dos prefeitos Euclério Sampaio e Arnaldinho Borgo também foram fundamentais, isso para ficar em exemplos mais visíveis. Eles são de direita. Ou seja, campanha a vencedora acenou claramente para o campo conservador.

    Em suma, o crescimento do conservadorismo em nossa sociedade se desdobrou nas campanhas vencedoras. No caso específico do Espírito Santo, certamente o terceiro governo de Casagrande será mais amplo do que sua tradicional base no PSB, até para respeitar o resultado das urnas.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 2 de novembro de 2022.