• A febre da direita

    Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

    Em toda eleição estão presentes elementos estruturais, desses que organizam e alimentam a política e fazem parte do imaginário social. Também estão presentes aqueles que podemos chamar de conjunturais. Esses últimos dizem respeito à conjuntura e ao contexto de cada processo eleitoral. No caso daqueles que nos estruturam estão a fragilidade da estrutura partidária, o caciquismo interno dos partidos, a imensa estrutura de favores que se forma para captar votos, a força do capital nos processos, a baixa presença feminina, dentre outros.

    Os conjunturais mudam dependendo do contexto próprio a cada processo. No caso de 2022, temos uma continuidade da polarização esquerda x direita, Lula x Bolsonaro iniciada em 2018 e aprofundada em 2022. Em 2018 foi uma polarização bem forte, mas em 2022 está sendo uma hiperpolarização. O surpreendente desempenho das forças da direita conservadora no primeiro turno, deram a elas uma presença determinante nesse momento eleitoral. A volatilidade que marca as eleições brasileiras não nos permite afirmar quem vai vencer o pleito nacional, mas será certamente uma reta final muito nervosa.

    Jair Bolsonaro, atual presidente e candidato à reeleição em 2022.

    Quanto à conjuntura estadual, o panorama também é muito revolto, porém a grande marca desse segundo turno capixaba é a ascensão ainda maior da direita. Foram vitoriosos no primeiro turno, sobretudo pela surpresa da produção da segunda volta das eleições, a eleição de Magno Malta como senador da república, além disso, pela expressiva votação de Gilvan da Federal, do Tenente Assis, do Capitão Assunção, do Serginho Meneguelli, dentre outros.

    A esquerda também foi vitoriosa com Helder Salomão. Jack Rocha surpreendeu a todos. Se a votação de Gilvan da Federal foi uma enorme surpresa, é sempre bom lembrar que Helder Salomão do PT foi o deputado federal mais votado do Espírito Santo. O eleitor puniu os que não ingressaram na polarização. O PSDB não conseguiu eleger um só deputado federal. Nomes como Sergio Majeski e Max Filho tiveram baixa votação.

    No fundo, nossa conjuntura não admite meios termos em 2022. Helder, Jack, João Coser, Camila Valadão são de esquerda. Manato, Magno Malta, Gilvan, Assunção, Assis são de direita. Será assim também no segundo turno. Aliás, será ainda mais forte no segundo turno. Esquerda e direita vão se enfrentar nacionalmente e regionalmente. Cremos que Bolsonaro e Manato crescerão no Espírito Santo. Difícil nesse momento dizer quanto, mas certamente crescerão. E qual será a reação do PSB local frente a isso? Vão abraçar a hiperpolarização e enfrentar a direita ou irão tentar evitar o enfrentamento?

    Carlos Manato, candidato ao Governo do Espírito Santo em 2022.

    A resposta não está dada. Não é fácil para Renato Casagrande colocar o Lula no seu palanque, dada a trajetória política de sua carreira e o posicionamento político do capixaba, que elegeu Bolsonaro no Espírito Santo. Longe de ser o comunista da propaganda da direita, o que será então Casagrande nesse segundo turno?

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 14 de outubro de 2022.

  • A direita no 2º turno capixaba

    Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

    Renato Casagrande e Carlos Manato.

    O segundo turno no Espírito Santo sempre esteve no nosso radar. Tanto é assim que no dia 31 de agosto último, publicamos aqui na coluna do ESHOJE um artigo intitulado de “O Segundo Turno Capixaba”. Nele, argumentamos que o surgimento de uma identidade coletiva de direita no Brasil tendia a aumentar em muito as definições de voto nesse segmento ideológico. E mais, que essa inflexão conservadora seria a grande marca do atual processo eleitoral. Agregamos ainda o fato de que parte considerável dessa direita conservadora está sendo formada pelo segmento evangélico, que vota segundo princípios bem rigorosos. Em artigos posteriores desenvolvemos mais a questão do voto evangélico e da sociologia de sua constituição. Esse eleitor engrossou as fileiras conservadoras.

    Lembramos que os brasileiros decidem seus votos cada vez mais tarde, e que esse voto tardio tenderia a aumentar o peso da direita entre os eleitos, já que ela vem sendo a força política mais organizada e coesa. É evidente que a direita se articula em torno do presidente Bolsonaro, e que ele seria o personagem central das eleições também entre os capixabas. 

    Porém, o fenômeno é muito mais denso do que a liderança de Jair Bolsonaro, e deve-se em grande parte graças à força das redes sociais. Aliás, o lugar da política, para esse público conservador, são as redes sociais, assim o mundo político é acessado através do seu celular. Esse eleitor organizado de forma conservadora, com muito acesso a informações e de decisão tardia seria o fator mais importante na reta final das eleições. Havia, portanto, muitos elementos que possibilitaram uma análise dos fatos.

    Crucial para mostrarmos a tendência do segundo turno capixaba é que as pesquisas a que tivemos acesso mostravam claramente um forte nível de indecisão para o voto ao governo do estado. O governador Renato Casagrande apesar de ter sido o líder das pesquisas por todo o tempo, nunca foi um campeão de votos incontestes. Ele é um personagem afável e simpático, faz um governo sem marcas de corrupção, com bom controle das finanças, mas não vinha encantando o seu público. Os brasileiros estão gostando dos discursos musculosos. Na pesquisa realizada pelo instituto Perfil e publicada aqui no ESHOJE no fim de agosto mostrou o governador com 33% das intenções estimuladas de votos, enquanto os seus concorrentes tinham somado 40% dos votos. Todos os sinais que podíamos captar mostravam que o segundo turno era uma possibilidade real.

    O fato novo e mais importante dos últimos dias da campanha é que não foi a soma dos concorrentes fragmentados de Casagrande que produziu o segundo turno. Foi o crescimento expressivo de Carlos Manato, na reta final, que determinou, de fato, o resultado. Essa força que catapultou Manato foi o bolsonarismo. Ele se transformou no candidato dos que votaram fechados no grupo conservador. Bolsonaro, Magno Malta, Manato e os parlamentares agregados a esse grupo. Foi essa a razão do crescimento de Gilvan da Federal e do Tenente Assis para a Câmara dos Deputados e do Capitão Assumção para a Assembleia Legislativa. Todos com expressiva votação. Como reação, a identidade da esquerda também se fortaleceu. Helder Salomão do PT foi o campeão de votos para deputado federal e João Coser e Camila Valadão também tiveram votações recordes.

    Agora começa a campanha do segundo turno. O começo beneficia muito o candidato Manato, pelo elemento surpresa de sua grande votação. Sai como vencedor da primeira rodada, embora o governador tenha tido mais votos. Não acreditamos que o segundo turno seja outra eleição, como gostam de dizer os brasileiros. Os elementos mais importantes já estão colocados na trajetória dos candidatos. Porém, o enfrentamento direto o tempo todo, com igual tempo de televisão é o diferencial. Desse embate nasce o vencedor. Renato Casagrande é muito experiente e racional, Manato mais impetuoso. Vamos esperar o início da campanha, a primeira semana de propaganda na televisão, no rádio, nas ruas e nas redes sociais para avaliar os movimentos dos candidatos nos próximos artigos. 

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 05 de outubro de 2022.

  • Os evangélicos e a renovação geracional

    Por João Gualberto e Ana Carolina Andrade

    Jovem evangélica.

    O presente artigo é o último de uma série que escrevemos, especialmente, para nossa coluna sobre o fenômeno evangélico no Brasil. Todos eles foram estruturados a partir de duas pesquisas sobre o comportamento político deste público em particular, realizadas pela Gualberto & Gualberto nos municípios da Grande Vitória sob a coordenação de Ana Carolina Andrade. A primeira, de caráter qualitativo, foi executada entre os meses de julho e dedicou-se à escuta, em longas entrevistas, de 50 lideranças, estudiosos, pastores e fieis de diferentes denominações e tradições evangélicas. Já a segunda, de caráter quantitativo, ouviu 812 evangélicos dos municípios de Vitória, Serra, Cariacica e Vila Velha entre o final de agosto e início de setembro.

    Tais pesquisas nos permitiram elucidar muitos elementos que compõem o imaginário evangélico brasileiro nesse início de século XXI. Sobretudo nos permitem afirmar,  sem medo de errar, que jornalistas, intelectuais e membros das elites brasileiras costumam ver esse segmento com muito preconceito. Os tratam como se fossem teleguiados e pessoas não dotadas de senso crítico e, ainda, tomam as figuras dos pastores midiáticos como se fossem e representassem a totalidade do “Povo de Deus”.

    Outra coisa que vimos de perto é que os setores evangélicos neopentecostais são formados por uma base popular, fortemente influenciada pela chamada “Teologia da Prosperidade”. Isso os torna muito ligados ao mundo do trabalho duro e que será recompensado por Deus, afastando-os da política de favores, que marca a tradição política brasileira. Hoje, estes setores estão mais próximos da direita pela aversão à corrupção, ao assistencialismo e, na pauta de costumes, pela defesa da família tradicional.

    O empreendedorismo, por sua vez, é a marca das igrejas de “Parede preta”, como Bola de Neve, Lagoinha, Batista Atitude, Missão Praia da Costa e outras. São igrejas voltadas para um público mais jovem e de classe média e classe média alta, materializam o desejo de prosperidade com ações concretas. Aqui o evangelho auxilia no processo de desenvolvimento individual e a relação com o enriquecimento é positiva, afinal, todos têm direito de desfrutar dos bens criados por Deus.

    O que queremos mostrar com esses achados é que os evangélicos estão ajudando o Brasil a encontrar um caminho de prosperidade em valores, baseados numa releitura da velha Reforma Protestante. São os caminhos da sociedade brasileira e que precisam ser melhor compreendidos e estudados.

    Hoje, queremos nos deter nas questões geracionais que dizem respeito a esse universo, uma vez que as novas gerações, em nossos estudos, parecem apontar para algumas mudanças. Se a face típica do evangélico já é feminina, negra e jovem, ao analisarmos, especificamente, os evangélicos de 16 a 24 anos, podemos vislumbrar alguns movimentos interessantes: estão mais “desigrejados”, é um público que frequentou menos outras religiões e têm posicionamentos – na política e nos costumes – menos conservadores.

    Na pesquisa quantitativa feita pela Gualberto & Gualberto na Grande Vitória, 13,6% dos 812 evangélicos entrevistados possuíam 16 a 24 anos. Deste total, 40,19% não é membro ou está congregado a nenhuma igreja, sendo que a média geral foi de 24% de “desigrejados”. Se 34,7% dos evangélicos já foram de alguma outra religião no decorrer da vida, este número cai para 17% quando se trata dos jovens entre 16 a 24 anos.

    Lula (PT) recebe orações de lideranças evangélicas.

    No que diz respeito aos posicionamentos, os jovens têm maior adesão à candidatura de Lula (PT) – 19,9% declararam voto nele na questão estimulada – e rejeição à candidatura de Jair Bolsonaro (PL), onde 21,22% disseram não votar nele de forma alguma. Além disso, são mais favoráveis a temas como a legalização das drogas – a concordância total ou parcial é de 7%, porém, nesta faixa etária este valor sobe para 15% – e a defesa dos direitos da população LGBTQIA+, das mulheres e dos negros (60,56%, frente a 52,1% do total geral).

    Esses indícios apontam para uma renovação geracional no meio evangélico, que poderá ocasionar, a longo prazo, modificações relevantes em termos de comportamento, costumes e também políticos. Compreender este contexto não é tarefa fácil, mas soma-se aos desafios do exercício de uma leitura sobre os evangélicos que se distancia de preconceitos, visões totalizantes e monolíticas.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 27 de setembro de 2022.

  • O empreendedor evangélico

    Por João Gualberto e Ana Carolina Andrade

    Esse é o terceiro de uma série de artigos que estamos escrevendo sobre a identidade evangélica no Brasil de nossos dias. No primeiro, chamamos a atenção para o fato de não podermos tratá-los como se fossem um só bloco, como se não houvessem muitas diferenças internas. O fato da maioria das denominações terem se unido na candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 não as torna bloco só o tempo todo, como aparece na leitura cotidiana da imprensa.

    Jair Bolsonaro, atual presidente do Brasil, segura uma Bíblia.

    No segundo dos artigos tratamos de como os chamados neopentecostais, entre os quais se destacam os fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus liderada pelo bispo Edir Macedo e as muitas denominações surgidas a partir dela como a Mundial do Poder de Deus ou a Igreja Internacional da Graça de Deus, abraçaram a chamada Teologia da Prosperidade e fizeram dela um elemento diferenciador no universo do cristianismo brasileiro. Igrejas de base muito popular, reúnem sobretudo moradores das periferias urbanas de todo o Brasil e divulgam além da fé em Cristo, a fé no crescimento individual de cada um dos membros. Ao realizarem a transformação da aceitação da pobreza natural no cristianismo tradicional brasileiro em luta pela melhoria de suas vidas, estão contribuindo para uma mudança importante na cultura brasileira. E isso não é pouco.

    No presente texto, queremos trazer um novo elemento para a reflexão dos nossos leitores. É que sobretudo no presente século XXI, a sociedade brasileira foi tomada por uma nova onda igrejas evangélicas. No primeiro texto, as chamamos de Igrejas da Parede Preta, porque tem uma arquitetura interna que valoriza o fundo dos altares com as cores escuras para facilitar a transmissão dos cultos pelo Youtube e outros canais das mídias sociais. São igrejas frequentadas sobretudo pela juventude de classe média e classe média alta urbana desse imenso Brasil. A Bola de Neve, a Batista Atitude, a Lagoinha, a Fonte de Vida, a Ser Amor ou a Missão da Praia da Costa são exemplos desse gênero de denominação presentes no Espírito Santo.

    Culto na Bola de Neve Church.

    Seus cultos são tomados por cantos de louvores com base na música “worship” e a estética como um todo de ambientes e frequentadores marcados pela modernidade, pela descontração e também pelo uma outra relação com a prosperidade. Evidentemente que esses elementos estão longe de esgotar as características desse universo. Estamos apenas chamando a atenção para alguns no contexto desse espaço. Mas, do ponto de vista da sua contribuição à cultura da prosperidade que também marca as igrejas de corte mais popular, o fato que mais nos chama a atenção é seu foco no empreendedorismo.

    Enquanto as igrejas mais tradicionais têm seu eixo central voltado para o reino dos céus e das atitudes que devemos ter para ser dignos dele, essas igrejas também se preocupam muito com o progresso material dos seus membros. Mais do que se preocupar, estimulam e orientam o empreendedorismo. Tratam todos como empreendedores natos e chamam a atenção que Deus colocou na terra bens e oportunidades que todos devem poder desfrutar. Todos têm o direito de desfrutar. Faz parte das habilidades que essas igrejas devem desenvolver nas pessoas, a preparação para se servir desses verdadeiros presentes que Deus nos oferece.

    Assim, em seu conjunto a, digamos, modernização do cristianismo tradicional as aproximou dos padrões norte-americanos da busca da vida próspera. Introduziu e aprofundou os elementos essenciais para a construção de uma sociedade afluente e que busca com mais determinação melhorar a vida familiar de todos. São novos padrões de comportamento coletivo que devem ser observados por todos, para não corrermos o risco de não entendermos o que se passa no Brasil e o que deve determinar nosso futuro como sociedade.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 21 de setembro de 2022.

  • Os evangélicos e a prosperidade

    Por João Gualberto e Ana Carolina Andrade

    Estamos nos dedicando a tentar elucidar o papel dos evangélicos na sociedade brasileira, dada a importância e densidade que o “povo de Deus” ganhou ao longo das últimas décadas. Povo de Deus esse que não entendemos, como muitos o fazem por puro e simples preconceito, como “manipulados” por seus pastores – midiáticos ou não – ou suas igrejas. A tese da manipulação não dá conta de explicar os enormes efeitos sobre a sociedade que o grupo tem tido.

    Culto na Igreja Universal do Reino de Deus.

    Aqui, defendemos a existência de uma identidade evangélica, construída a partir de vários princípios. Calcados nos preceitos bíblicos, eles compõem o que chamamos de “imaginário evangélico brasileiro”, onde a ideia da busca da prosperidade está inserida. Tais princípios englobam a excelência, o trabalho, a autoridade, o temor, a obediência e muitas outras coisas. São, em grande parte, conservadores e, como temos percebido, se estendem a um mundo do cristianismo que envolve também os católicos, ou boa parte deles.

    Existe, de fato, um cristianismo conservador no Brasil, que alimenta esse imaginário do qual estamos falando. O fenômeno do crescimento evangélico no Brasil – ponto de virem a ser maioria da população brasileira na próxima década – em nada se destoa das nossas bases cristãs históricas. São, na verdade, seu aggionarmento, sua atualização para o Brasil moderno.

    Mas, vamos ao tema de hoje. O crescimento exponencial das igrejas protestantes no Brasil que se deu a partir dos anos 1970. O enraizamento popular do cristianismo reformado se deu pelo chamado “neopentecostalismo”, a partir da Igreja Universal do Reino de Deus e da liderança inconteste do Bispo Edir Macedo. Dele surgiram outras denominações fortes nesse campo como a Mundial do Poder de Deus do Apóstolo Valdemiro Santiago, a Igreja Internacional da Graça de Deus sob a liderança de R. R. Soares, dentre muitas outras. São igrejas de base popular, frequentadas por pessoas pretas, pobres e moradoras das periferias miseráveis desse imenso Brasil. A maioria é feminina. Nesse universo as carências são brutais. Materiais, emocionais e educacionais. É uma massa que precisa ser ouvida, atendida, ter sua dor mitigada pela presença de Jesus em suas vidas e por suas bênçãos (espirituais e materiais).

    Apóstolo Valdemiro, fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus.

    Assim, as igrejas neopentecostais, que trabalham a ideia da prosperidade, se implantaram fortemente nesses setores sociais. A chamada Teologia da Prosperidade, que alguns até chamam de Pedagogia da Prosperidade, dada a intensidade e frequência dos ensinamentos nessa direção. Isso tem enorme importância na compreensão do sucesso e do crescimento dessas denominações entre os mais pobres no Brasil: se Deus é o dono do ouro e da prata qual a razão de nós, filhos e filhas dele, não os possuírem?

    Nós temos mesmo chamado esse fato social de enorme relevância da Reforma Protestante à Brasileira, ou de Reformas Protestante à Brasileira, e consideramos que a grande contribuição que dará a cultura brasileira a longo prazo será a ideia de que podemos vencer a pobreza, a miséria, as dificuldades do dia a dia pela nossa ação empreendedora, autônoma. Dessa forma, uma forma de servir a Deus é poder aproveitar todos os bens que a sua criação colocou à nossa disposição.

    Esses contingentes sociais refutam o assistencialismo governamental puro e simples. Querem vencer por seus esforços. Acreditam e buscam a prosperidade para suas famílias através do trabalho árduo e da bênção divina, do fato de serem bons cidadãos. Convenhamos, é uma enorme mudança de tons no nosso imaginário social a ideia da prosperidade que virá do trabalho duro.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 14 de setembro de 2022.

  • A identidade da direita brasileira

    Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

    Até as eleições de 2018, os brasileiros confundiam a política tradicional, sobretudo a fisiológica – aquela que é feita através de favores e assistencialismo – com direita. A imprensa considerava políticos como Paulo Maluf de direita, como sendo a expressão do nosso conservadorismo. Hoje esse conceito mudou. E mudou muito.

    Vários elementos estão presentes nessa trajetória de mudanças. Um dos mais relevantes, é o surgimento de uma extrema direita mundial, muito forte hoje na Europa. Isso impactou fortemente a nossa realidade eleitoral. Sobremaneira importante para isso foi a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, pelo caráter de impactar os brasileiros que tem a grande nação Norte-Americana. Trump passou a ser um modelo a ser seguido e admirado. É muito claro que o presidente Bolsonaro se alimenta muito nesse imaginário instituído nos Estados Unidos.

    Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos.

    Hoje existe no Brasil uma outra compreensão do que seja a direita, o pensamento conservador. Temos nas militâncias a noção clara de um pensamento conservador.  Ele tem forte base no cristianismo, sobretudo o evangélico, mas não apenas. Há um catolicismo brasileiro conservador e de direita que também é muito forte.

    Esses novos setores se enxergam como conservadores, e se orgulham disso. Ou seja, existe hoje um fato novo a ser levado em conta na política: um coletivo que se reconhece em princípios e que se identifica com eles. Podemos chamar esse novo elemento de Identidade Coletiva de Direita. É nesse coletivo identitário que a Nova Direita capta os seus votos hoje. A militância desses grupos se dá sobretudo nas redes sociais. A nova direita brasileira se expressa nas redes sociais e existe sobretudo nelas.

    O que dá coesão a esse segmento político, é o conjunto de princípios que devem ser respeitados e valorizados. Na verdade, a direita brasileira acredita que ela trouxe a essência da democracia para o jogo da política através das redes sociais e das manifestações públicas, pois criou o contraditório, a disputa no campo das ideias. Isso é visto por esse público como uma boa contribuição para o debate das ideias. Há uma busca frequente deste debate, até mesmo de forma ostensiva e sem dificuldades de mostrar certa agressividade.

    Nesse campo ideológico, há uma valorização da atividade política, ao contrário do distanciamento mais comum no restante da população. Quem proporcionou em grande parte a emergência social dessa lógica política, e fez isso com maestria em 2018 foi Jair Bolsonaro. O atual presidente conseguiu organizar em uma plataforma eleitoral o que estava disperso em mentes isoladas. Para isso construiu uma coalizão que teve no mundo das armas, nos evangélicos e no agronegócio fortes bases. A manutenção dessa coalizão tem sido um grande desafio para a liderança de Bolsonaro na direita conservadora. Tem lhe custado um exercício permanente de superexposição e pode produzir algum cansaço.

    Jair Bolsonaro, então Deputado Federal, protestando contra o “kit gay”.

    Nesse contingente que tem uma identidade clara, o que mais conta é a pauta conservadora dos costumes, cujo grande pilar é o conceito muito tradicional da família. Para sustentar esse princípio de defesa da família é importante o combate as seguintes pautas: aborto, “ativismo gay”, educação sexual nas escolas, as questões de gênero e que tem nexo nessas significações imaginárias sociais.

    Para entendermos a força e a resiliência da campanha de reeleição do Presidente Bolsonaro, que resiste aos erros de marketing do agora candidato, é fundamental compreendermos a magnitude desse processo e da importância da construção mitológica. Ela une todas as tendências internas na direita, embora esbarre fortemente nas mulheres, sobretudo nas mulheres pobres evangélicas. Esses são os paradoxos dessa coalizão conservadora, impensável décadas atrás, mas o motor político do Brasil que estamos construindo.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 07 de setembro de 2022.

  • Os evangélicos não são um bloco

    Por João Gualberto e Ana Carolina Andrade

    Os jornalistas políticos brasileiros, e mesmo os intelectuais de nossa academia, costumam cometer um equívoco comum ao julgar que os evangélicos formam um conjunto compacto e que tomam decisões como a do voto em bloco. Nada mais falso. Na verdade, existem importantes frações internas no segmento e, no que diz respeito à política e ao voto, isso é muito claro: Paul Freston, sociólogo especializado no estudo da sociologia das igrejas evangélicas brasileiras, já afirmava que os evangélicos não votam em bloco desde os anos 1990.

    A Igreja Batista de Santa Barbara, fundada em 11 de setembro de 1871, com cerca de trinta membros, foi a primeira igreja Batista do Brasil.

    Para que todos possam entender o que estamos querendo dizer, e para que compreendam a raiz de nossos estudos, precisamos elucidar como se organiza o “Povo de Deus”. Em primeiro lugar vamos pensar no segmento “evangélico tradicional”, que diz respeito às igrejas como a Batista, Presbiteriana, Adventista, Luterana, Anglicana, dentre outras. Elas têm origem no protestantismo histórico, na ruptura com a Igreja Católica. Tais igrejas chegaram ao Brasil no século XIX e, de acordo com Juliano Spyer – autor do festejado livro “O Povo de Deus” – possuem um público “intelectualizado e discreto”.

    Gunnar Vingren e Daniel Berg, pioneiros da Assembleia de Deus no Brasil.

    Os “pentecostais”, por sua vez, chegaram ao país no início do século XX, por meio da Congregação Cristã e da Assembleia de Deus. Tiveram aderência das classes populares e grande crescimento nas periferias. Diferem-se dos tradicionais pela crença na manifestação dos dons espirituais, como a cura, os milagres, as línguas estranhas, entre outros.

    Já o “neopentecostalismo” chega ao país por volta dos anos 1970, através da igreja Universal do Reino de Deus. Nascido nos Estados Unidos, une as características do pentecostalismo com a teologia da prosperidade, onde os fiéis são fortemente estimulados a adotarem uma postura empreendedora na vida. O fenômeno pentecostal e neopentecostal, para os mais curiosos, é brilhantemente explicado pelo Doutor em Sociologia Brand Arenari no episódio 11 – nomeado “O Pentecostalismo à luz da Sociologia” – no podcast “Intelecto geral”, disponível nas plataformas de áudio.

    Culto no Templo de Salomão da Igreja Universal do Reino de Deus.

    Aqui acrescentamos um novo segmento: as igrejas de “parede preta”. Trata-se de um movimento ainda mais recente, também importado dos Estados Unidos. São tradições pentecostais que adotaram estéticas e práticas mais contemporâneas, como uma linguagem mais atual, incorporação da cultura “pop”, condução dos cultos em formato “worship” – que é um padrão de liturgia norte americano -, e uma maior liberdade doutrinária quanto às vestimentas, tatuagens, piercings, e outros sinais externos de modernidade. Tais igrejas costumam ter como público alvo adolescentes e jovens de classe média e classe média alta, sendo alguns exemplos: Bola de Neve, Hillsong, Missão, Atitude, Ser Amor e Lagoinha.

    Primeiro culto da Hillsong Church em São Paulo (2016). A Hillsong Church é um dos maiores expoentes do estilo worship de adoração.

    Ainda, não podemos deixar de lembrar dos “desigrejados”, isto é, aqueles que mantêm a identidade evangélica, contudo, não estão congregados em nenhuma denominação. Praticam a fé, mas não precisam de um templo para tal.

    Esse conjunto amplo de denominações evangélicas tem como diferenciação algumas características chave. A primeira delas é de classe. As tradicionais e as pentecostais pouco se diferenciam da constelação de classes sociais que compõem o catolicismo. Já as neopentecostais são claramente mais populares e, hoje, são a imensa maioria dos evangélicos. O perfil de seus seguidores é o de uma mulher preta, da periferia e pobre. O corte que mais diferencia as igrejas de parede preta é o geracional: a renovação das tradicionais e das pentecostais acabou atraindo uma juventude mais descontraída e menos vinculada às tradições eclesiásticas.

    Nesse universo, não dá para pensar em bloco. Sobretudo, não dá para pensar a polarização das eleições presidenciais com um olhar monolítico. Os elementos da complexidade evangélica brasileira se farão presentes. O corte de classe, de geração e de olhar sobre a política e o mundo estarão presentes. São fenômenos de sociedade muito superiores ao desejo das elites religiosas, dos pastores e das cúpulas eclesiásticas.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 19 de agosto de 2022.

  •   LIÇÕES DO EMPREENDEDORISMO CAPIXABA 

    João Gualberto e Hélio Gualberto

    As sociedades que vivemos cristalizam seus valores por meio de símbolos. Mais do que isso, quando não fazem essa passagem, elas correm o risco de terem interpretações erradas das suas próprias histórias e perderem elementos importantes da sua identidade. 

    O empreendedorismo capixaba é assim. Muito antes de se tornar um assunto atrativo para os mais jovens, o Espírito Santo mostrou extraordinária capacidade empreendedora, sobretudo de sua trajetória histórica, muitas vezes não reconhecida pela maioria de nós. 

    Para expor esse ponto de vista aos leitores, vamos dividir essa capacidade empreendedora em 3 momentos: 

    O primeiro momento empreendedor:  a chegada dos jesuítas 

    Todos sabemos que o processo de colonização é um ato de forte agressão às populações nativas, aos povos originários. Com os portugueses não foi diferente. Nunca levaram os indígenas em conta no seu projeto. Seriam cristianizados e trabalhariam em regime de servidão. Na verdade, foram massivamente escravizados desde os primeiros tempos da colonização. Mas não existiria o Império Lusitano sem a presença da Companhia de Jesus, dos jesuítas. Foi o braço religioso do projeto, uma tendência da Igreja Católica de vencer a vida monástica medieval, uma ordem mais ativa no mundo, sobretudo na missão de conquista das novas terras e da conversão dos ímpios. 

    Os jesuítas chegaram ao Espírito Santo na metade do século XVI e construíram aqui seu colégio, como faziam em todas as suas províncias. A edificação onde se situa hoje o Palácio Anchieta foi a sede do seminário dos jesuítas. Quando então foram expulsos em 1759, passou a ser a sede do poder na então Colônia, o Palácio Governamental. Função que nunca mais deixou de exercer. Foi durante muitos séculos a maior e mais importante edificação civil do nosso estado. 

    Para manter os alunos que estudavam no colégio, os jesuítas mantiveram aqui várias fazendas importantes. A Muribeca onde é hoje o município de Presidente Kennedy, a Araçatiba em Viana e a Itapoca em Carapina na Serra, são sempre citadas. As duas primeiras eram enormes e muito produtivas. Foram consideradas pelos historiadores as maiores fazendas do litoral brasileiro no século XVI. Dedicavam-se à pesca, à criação de gado, ao plantio da cana de açúcar. Produziram tanto excedente econômico que deixaram um extenso patrimônio arquitetônico, igrejas importantes. 

    A mais importante das igrejas, hoje, é o Santuário Nacional de São José de Anchieta, recentemente restaurado e transformado em importante museu. Ele evidencia a potência de nosso passado colonial, a força dos jesuítas. A Igreja dos Reis Magos em Nova Almeida, na Serra, e a igreja de Nossa Senhora da Ajuda em Araçatiba passam pelo mesmo processo. 

    Igreja dos Reis Magos em Nova Almeida, Serra / Foto: Elisa Machado Taveira

    Com a produtividade que havia naquele período de nossa colonização pelos europeus, só mesmo grandes propriedades, muito bem exploradas economicamente, tinham o poder de gerar tantas riquezas. Eram milhares de cabeças de gado, enorme quantidade de pés de cana e ainda uma multidão de trabalhadores, boa parte escravizados. Essa é a maior marca do empreendedorismo histórico capixaba no período colonial. 

    Segundo momento: O Café e o Brasil Império 

    Durante as primeiras décadas do século XIX, nosso primeiro momento como uma nação independente. A grande força empreendedora capixaba é o café. 

    Tocadas pela presença dos imigrantes europeus, sobretudo os italianos, e por esse motivo, sem uma intensa passagem pelo abjeto sistema da escravidão. A produção de café no Espírito Santo dominou nossa agricultura. Espalhou-se por todo o Vale do Rio Itapemirim e do Itabapoana e deram origem a um período de construção do sul do estado como está hoje. 

    Panorâmica da comunidade de Prosperidade, Vargem Alta (ES) por volta da década de 1940. Foto: Arquivo Público do Estado do ES

    O fato é que entramos no período republicano com um estado comparável aos grandes estados brasileiros como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. O café era nossa grande riqueza, Cachoeiro do Itapemirim a cidade polo de toda essa região. Ferrovias, luz elétrica, cinemas, hábitos sofisticados das elites e dos coronéis, fizeram do Espírito Santo um estado importante, apesar de sua diminuta dimensão geográfica. Isso sem contar com a força das colônias de imigrantes da região central, também grandes produtores de café. A pequena propriedade de italianos e alemães faz parte desse grande passado empreendedor do qual muito deveríamos nos orgulhar. 

    Estávamos naquele tempo, à altura do desenvolvimento brasileiro à época, inclusive do ponto de vista da produção das elites, como atestam os governos republicanos de Jerônimo Monteiro e Florentino Avidos, por exemplo. O fim do ciclo do café, na segunda metade do século XX, foi muito tenso. Houve a erradicação dos cafezais, nossa única riqueza. Entramos então no período dos militares. 

    Terceiro momento: A industrialização e a passagem para a modernidade 

    Os governos do Christiano Dias Lopes e Arthur Gerhardt Santos iniciaram nosso processo de industrialização. O primeiro com uma proposta agroindustrial, de agregar valor as cadeias produtivas agrícolas. Daí surgiram projetos como a Realcafé Solúvel e tantos outros. Também foi criado o Civit, que atraiu inúmeras empresas a partir de uma política de incentivos fiscais bem construída. Tivemos bons governos e criamos uma boa ambiência de negócios para a época. 

    Francisco Lacerda de Aguiar (Chiquinho) Retrato Oficial como Governador do ES

    Depois vieram os chamados grandes projetos que eram a CST, a Samarco, a Aracruz Celulose e as operações da Vale pelo Porto de Tubarão. Eles criaram importante cadeia produtiva metal mecânica, que é hoje o coração de nossa economia. 

    Estamos aqui falando de história. Da força de nosso passado empreendedor. Mas, não temos apenas glórias do passado a festejar. Continuamos sendo um centro empreendedor. 

    Vivemos um tempo em que empreender está em alta. Frente a um século XXI de grandes transformações como o uso da tecnologia, a consciência verde, o fim das fronteiras e quando ser dono de um negócio tornou-se viável mesmo sem contar com uma estrutura física ou funcionários. 

    Aqueles que foram jovens entre os anos 1950 e 1980, escutaram pelo menos uma vez em suas vidas aquele conselho dos parentes ou amigos preocupados que diziam para “arrumar um emprego no Banco do Brasil”. As gerações que cresceram entre os anos 1990 e 2000 viram a fase dos concursos públicos explodirem. Hoje, já não se pensa mais assim. 

    Por isso, passa a ser fundamental tornar nossos argumentos mais acessíveis à compreensão de todos, mesmo aqueles que não tiveram a oportunidade de estudar a nossa história, aliás a grande maioria. Afinal, acreditamos que esses momentos marcantes são provas inequívocas de nosso argumento. E mais do que isso, de que o empreendedorismo é um dos pilares da identidade regional do capixaba. 

  • OS CICLOS CAPIXABAS DE PODER

    Aqueles que observam a história, para compreender os processos políticos e elucidar o futuro, sabem que, tanto na economia quanto na sociedade, é possível compreender os processos históricos, com suas ascensões e declínios, por meio de ciclos. 

    Um ciclo é uma sequência de etapas que se sucedem e se complementam. E em uma sociedade democrática, não é exagero dizer que esse início se traduz em uma necessidade e, consequentemente, naquela que é uma das mais poderosas ideias-força da democracia: o sentimento de mudança. 

    Foi a vontade de mudar que fez a Europa derrubar as monarquias.

    Foi o sentimento de transformação que moveu as primeiras lutas operárias que atravessaram toda a modernidade.

    Não haveria abertura no Brasil se, nos anos 1980, não houvesse consolidado um desejo de romper com o que estava instituído, para avançar para um novo momento. Uma outra vida. 

    No Espírito Santo não é diferente. Mais do que isso, o caso capixaba pode ser um exemplo didático de como os ciclos políticos tem início, meio e fim. 

    Para ficarmos no exemplo dos capixabas, em 1947, logo após o fim da ditadura varguista, o Estado elegeu como governador um jovem filho de suas oligarquias, Carlos Lindenberg. Depois, seu grupo político elegeu Jones dos Santos Neves. A oposição elegeu Francisco Lacerda de Aguiar, mas, na sequência, voltou o Dr. Carlos e depois seu sucessor, Francisco Lacerda, o Chiquinho

    Nesses cinco mandatos, três deles – os dois de Carlos e o de Jones – tiveram uma grande ideia-força: a industrialização do Espírito Santo, então um Estado agrícola e dependentes quase que exclusivamente do café.  

    Encerrado pelo golpe de 1964, esse ciclo – capitaneado pelo projeto jonista, com foco na industrialização – foi implantado pelos governos que lhe sucederam. Christiano Dias Lopes e sua enorme perseverança, Arthrur Gehardt e sua inflexão para os grandes projetos industriais da época, que deram origem às atuais Vale, ArcelorMittal, Samarco e a Suzano. 

    Esse ciclo se encerrou com quatro governos ao todo. Além de Christiano e Arthur, tivemos ainda os de Elcio Alvares e Eurico Rezende. A menor duração se deu graças a causas nacionais, não por motivações locais. Os militares voltaram com a prática das eleições estaduais.

    Pensando no ciclo que se iniciou em 1982, o primeiro depois da ditadura militar, coube ao jovem Gerson Camata o papel do líder que aproximou o mundo urbano do rural e que abriu o jogo da participação da sociedade nos governos. Com o slogan “Vamos governar juntos”, Camata abriu caminho para sucessores naturais, como seu secretários José Morais, Max Mauro e Albuíno Azeredo (este, secretário de Max). E mesmo que sucedido por dois atores políticos que não estão diretamente ligados ao seu trabalho (Vitor Buaiz e José Ignácio Ferreira), é possível compreender estes dois últimos como fenômenos do mesmo processo democrático: o de um Espírito Santo que aos poucos transitava da organização social em torno do poder dos coronéis, das oligarquias e da terra, para um Estado industrializado conectado ao um novo tempo. O tempo da democracia.

    Acontece que essa mesma fase também deixou marcas profundamente negativas para os capixabas. Entre elas, a perda do controle das contas públicas e o aviltamento das instituições. 

    Assim chegamos à virada do Século XXI. Com a árdua tarefa de resgatar a credibilidade dos poderes do Estado, Paulo Hartung foi eleito em 2002, há exatamente 20 anos. Depois de dois períodos de governo, foi substituído por Renato Casagrande. Os dois se revezaram mais uma vez cada um, até hoje. São ao todo cinco mandatos e 20 anos de poder. 

    A esse exercício de observar que, durante os últimos 80 anos da vida política do Espírito Santo, vivenciamos ciclos de, em média, 20 anos, acrescentamos que, como é comum nos processos históricos, cada um dos ciclos tem tarefas que nascem nos momentos anteriores, de boa e de má qualidade. E em todos os casos, as lideranças que participaram do ciclo subsequente, de alguma forma, estavam incluídas no processo anterior. Ou seja, mesmo que o processo de sucessão se construa traduzindo novas necessidades e mudanças, a história nos ensina que o protagonismo político é consequência do amadurecimento de seus atores. Nem sempre de rupturas profundas. 

    E por que lembramos de tudo isso? Porque temos neste ano eleições. O Espírito Santo, após cinco mandatos e com seu padronizado ciclo de 20 anos, com dois governadores que surgem de um mesmo grupo, vai compreender, nos próximos meses, o quanto entende que tem que se transformar. 

    Essa fase pode se estender por mais um período, e terminar em 2026 caso Renato Casagrande se reeleja. Mas, a partir da observação da história, temos um ciclo que vai se aproximando do fim. 

    Cabe às lideranças que participaram desse ciclo, não como seus protagonistas – tanto na política quanto na sociedade –, construir um novo projeto com suas tarefas e ações para um mundo em rápidas transformações. 

    Portanto, à medida que as eleições se aproximam, saberemos qual é o desejo mais profundo da sociedade capixaba hoje: um novo projeto, que dê passagem a um novo jeito de fazer política e compreender o novo mundo que estamos criando. Ou, adiar essa mudança até outro momento em que, de fato, se consolidará a ideia de que, na política, estamos sempre presenciando ciclos de começo, meio e recomeço. 

    João Gualberto
    blogjoaogualberto.com.br

    Em tempo: complemento a leitura com os vídeos da série Gota de História, no canal do Youtube Saber Capixaba, em que falo sobre alguns dos principais personagens da história recente e dos ciclos de poder do Espírito Santo. Basta clicar nos nomes para assistir.

  • A COALIZÃO BOLSONARISTA

    Idelber Avelar escreveu um excelente livro chamado Eles em Nós: retórica e antagonismo político no Brasil no século XXI.  Nele, o autor descreve, entre outros assuntos, a gestão dos antagonismos no processo político brasileiro. Traça uma genealogia do Brasil Grande como hipérbole desenvolvimentista de Geisel a Roussef. Sua base metodológica é a análise do discurso. Lida de forma brilhante com essa dimensão e consegue nos ajudar a elucidar uma pergunta que se faze milhões de brasileiros e milhares de pesquisadores: como teve lugar isso que nos aconteceu em 2018?

    Para responder a essa questão ele traça uma longa trajetória histórica que já se inicia na Era Vargas, se aprofunda no governo dos militares, chega ao Lulismo e termina com a ascensão inesperada para quase todos, inclusive os partidários desse extenso leque ideológico, do Presidente Bolsonaro. Para ele trata-se de uma coalizão, um bloco, um mosaico, que se constitui a partir de elementos heterogêneos e que veio expressar algo que se gestava como demanda para uma parcela da população brasileira. 

    O bolsonarismo surge como expressão (distorcida e ideologizada, mas expressão) da incapacidade de o sistema político brasileiro representar satisfatoriamente o antagonismo.  Incontáveis antagonismos pediram representação no sistema político brasileiro ao longo das últimas décadas, sem sucesso. A coalizão que expressa esses antagonismos que o sistema político fracassou ao representar chama-se bolsonarismo …

    … O fascismo bolsonaristas, por uma conjunção contingente de fatores, passou a expressar uma rebelião de todos os normalmente chamados de “eles”, legitimando-se como rebelião plebeia do eles. (p.238)

    Para Avelar a saída para evitar o puro catálogo de tipos que poderia explicar o surgimento desse polo de poder inesperado, é observar os grandes blocos político-discursivos que tornaram essa coalizão possível. O autor divide em blocos: do boi, a bala e da bíblia que são os mais tradicionais. Eles os chama de partidos, até para mostrar a obsolescência a que eles expuseram os partidos tradicionais.

    O Partido do Boi e o Partido Teocrata

    Para Avelar na coalizão bolsonarista houve, em primeiro lugar, o Partido do Boi. Foram os mais fundacionais cronologicamente. Ainda pelos idos de 2012-13, Jair já era um deputado de trânsito no agronegócio, mesmo que não tivesse grande desempenho parlamentar e nem fosse importante formador de opinião no Congresso Nacional.

    Paulista-carioca de masculinidade caipira fake, homofóbica, anti-indigena e antiambiental, Bolsonoro sempre cultivou uma estética Barretos, de rodeio, que o tornou de fácil adoção por sojicultores do Mato Grosso e de Tocantins, pecuaristas de Mato Grosso do Sul, cafeicultores de Minas Gerais, vinicultores do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Foram os primeiros a apostar, inclusive porque o armamento é uma questão decisiva e mobilizadora para o setor … Especialmente pelo Brasil Central (MS, MT, TO, GO, Triângulo de MG, Oeste de SP). O tsunami antipetista foi avassalador. (p.240)

    Assim, um setor importante do agronegócio se aliou a Bolsonaro por interesses econômicos, já que percebeu todo o cedo o plano de rédeas soltas. Outro setor foi parte da insurgência que Avelar chama de cultural, plebeia e sertaneja do Brasil Profundo, que sentou raízes do Paraná ao interior de São Paulo, a Minas Gerais, ao Centro-Oeste. 

    O Partido do Boi mantém, uma relação umbilical com a bancada da bala, que o autor chama atenção que na coalizão bolsonarista encontrou sua morada privilegiada no que ele chama de Partido da Polimilicia. Existe, também, o Partido Teocrata, como ele prefere chamar a bancada evangélica. Isso porque nem todos os evangélicos compõem o bloco teocrata e também porque há católicos no seu interior, apesar de serem em menor número do que as correntes pentecostais e neopentecostais. 

    É preciso somar a tudo isso o avanço da teologia da prosperidade e do empreendedorismo popular evangélico, como já vimos na obra de Juliano Spyer, durante a bonança do boom das commodities do lulismo e temos todo um universo da sociabilidade de milhões de brasileiros do qual a esquerda dificilmente teve notícia durante anos.

    Carece de fundamentação antropológica a premissa (silenciosamente manejada em boa parte do ensaísmo de esquerda sobre o país) de que o universo dos sujeitos evangélicos seria caracterizado por maior propensão a ser “manipulado”, “iludido” ou “enganado” por suas lideranças do que é o caso em qualquer instituição da sociedade civil, do sindicato ao clube de futebol.

    Em uma dinâmica em que todas as pontes possíveis com o universo evangélico haviam ficado a cargo das negociatas, a sociabilidade que se gestou ali terminou sendo moinho para o projeto teocrata, que abraçou decisivamente a coalização bolsonarista.

    Partido da Ordem e o Partido do Mercado

    Para Avelar tão decisivo para a coalizão bolsonarista como o Partido do Boi e o Partido Teocrata, foi o partido da ordem. Juízes, procuradores, delegados, policiais, ex-policiais, miliciano e militares de baixa patente foram elementos centrais na conformação da coalização que chegou ao poder em 2018. Seu slogan foi “matar bandidos” e a tônica deles no processo era a repressão ao crime. Havia dentro dessa coalização papel destacado para o que o autor chama do Partido da Lava Jato, que sabem usar os talheres e citam autores estrangeiros. Na verdade, esse é o berço do bolsonarismo, sobretudo as milícias cariocas que lançaram Jair Bolsonaro em sua aventura. Geograficamente, o Rio de Janeiro é o berço do bolsonarismo. 

    Dessas duas metades do Partido da Ordem, a Polimilícia e a Lava Jato, a primeira foi uma espécie de núcleo fundante do bolsonarismo, antes mesmo que ele existisse como polo de poder. 

    O partido do Boi foi o primeiro grande bloco a apostar no bolsonarismo e Partido Teocrata deu-lhe penetração massiva e popular, a ala polimiliciana do Partido d Ordem forneceu-lhe uma espécie de núcleo leninista fundacional e a ala lavajatista do mesmo partido trouxe as credenciais antipetistas que passaram a ser necessárias no Brasil pós-estelionato eleitoral de 2014-15. (p.253)

    O Partido do Mercado se expressou em um único individuo, Paulo Guedes. Foi ele que viabilizou a alternativa eleitoral de Bolsonaro. Sem ele o bolsonarismo não se constituiria. É o ultraliberal que casou por conveniência com Jair Bolsonaro. Ele era uma espécie de cola que juntou os quatro partidos que compõem a coalização que chegou ao poder.

    O Partido dos Trolls

    Há um outro universo a ser considerado, o Partido dos Trolls. O bolsonarismo seria incompreensível sem atenção a uma modulação particular, própria da internet, que Avelar chama da linguagem da trollabem. Na verdade, são as centenas de mensagens que todos recebemos todo dia, sobretudo pelos grupos de whatshap e que fogem do campo da verdade. Elas ajudam a explicar a ascensão de Bolsonaro.

    Essas publicações nas redes sociais desconsideram a diferença entre verdade, hipótese não fundamentada e a pura invenção. Há sempre uma ambiguidade acerca da seriedade ou não do enunciado. Esse conjunto garante a denegação automática, caso o enunciado seja questionado ou desmentido. O humor necessário a manter a atenção do leitor ou espectador do mundo volátil das redes sociais.  A operação troll ocorre nesse registro no qual a verdade e a mentira estão sempre mescladas e confundidas. 

    Na medida em que a coalizão se formava, iam se congregando em torno do bolsonarismo os atores da internet pelos quais ele depois ficaria conhecido: as contas de Twitter e Facebok alinhadas com os perfis dos filhos de Bolsonaro e os alunos de Olavo de Carvalho, marcados por uma combinação peculiar de fundamentalismo cristão, anticomunismo e concepção conspiratória de política, os terraplanistas, os monarquistas iam formando os quadros do movimento que levou Bolsonaro ao poder. Todos contra o que costumam chamar de hegemonia cultural da esquerda e a chamada por eles de hegemonia marxista.

    Quando os cursos de Olavo de Carvalho chamaram a atenção de Carlos Bolsonaro, já era nítido que se cozinhava ali uma grande escola de ressentimento. Mais do que Lula, o olavismo crescia ressentindo-se de Fernando Henrique Cardoso. O dandy poliglota e refinado representava mais dos ressentimentos entre os que cresceram sem saber usar os talheres.

    Para finalizar essa apresentação aos meus leitores do olhar arguto de Idelber Avelar, sei que nem todos concordarão com toda a construção conceitual do autor. Entretanto suas análises são muito pertinentes e merecem ser lidas por todos os que se interessam pelo assunto.