• 08 de janeiro: a inflexão na direita

    Por João Gualberto

    A coalisão que proporcionou a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018 sempre teve fortes contradições internas. Seus pilares de sustentação tem sido uma conjugação de evangélicos, ou melhor, cristãos conservadores. Afinal, existem muitos segmentos católicos, de pensamento muito parecido em termos de comportamento moral, liberais ligados ao mercado comandados por Paulo Guedes, empresários rurais ligados ao agronegócio, antipetistas organizados pelas ações da operação lava-jato, entre outros. 

    As contradições internas estão em vários lugares dessa coalisão, como por exemplo entre as mulheres evangélicas pobres, sobretudo as neopentecostais, que são moradoras da periferia, pobres e pretas, e os que divulgam o uso ostensivo de armas. Essa contradição existe até porque elas são as maiores vítimas das violências que as armas possibilitam. Aliás, de uma forma geral o universo feminino mais pobre sabe que mulher armada só na classe média alta. Clube de tiro é, via de regra, lazer de rico. Tiro para pobre é confusão.

    Arma gigante que foi atração da Marcha para Jesus realizada em Vitória no dia 23 de julho de 2022.

    A forte liderança que o ex-presidente exercia na coalisão toda a mantinha coesa e unida, foi assim nos quatro anos de seu governo. Provavelmente a coalisão permaneceria, caso Bolsonaro tivesse sido reeleito.  A vitória de Lula, entretanto, mudou essa situação. As várias vertentes internas sentiram de forma diferente o gosto amargo da derrota. Os mais democráticos entenderam que não havia mais muito a fazer, a não ser se organizar para fazer forte oposição ao novo governo e construir politicamente as próximas eleições para voltar ao poder.

    O mesmo não se deu a porção mais radical, aquela que se aproxima da extrema direita, que resolveu se organizar para viabilizar um golpe que traria de volta o ex-presidente. Esse sentimento de revanche deu ensejo a inúmeros acampamentos diante dos quartéis, dentre outras manifestações como a fechamento de estradas e ameaças de greve. Tudo isso acabou gerando os graves acontecimentos do dia 08 de janeiro em Brasília.

    Invasão ao Congresso Nacional orquestrada por bolsonaristas, no dia 08 de janeiro de 2023.

    Trabalho com a hipótese de que 08 de janeiro foi um ponto de inflexão na coalisão Bolsonarista, com uma forte tendência a redução da importância da liderança de Bolsonaro, e ao surgimento de pelos menos três movimentos políticos e partidários na direita brasileira. Os mais liberais em termos do mercado, privatistas, mas também conservador nos costumes. Esses têm como lideranças naturais políticos como os governadores Tarcísio Freitas, Ratinho Junior ou o Zema. Já são visíveis os movimentos de Zema para ocupar espaços vazios. O segundo movimento, mais próximo aos militares e um pouco menos liberal na economia e mais conservador nos costumes, teria como liderança provável o agora senador Mourão, homem duro, mas que sabe jogar na política, é senador eleito pelo Rio Grande do Sul e tem capacidade de liderar.

    Um terceiro bloco seria o dos radicais bolsonaristas que podem ou não contar com a liderança do Jair Bolsonaro, dependendo do seu desejo de voltar ao jogo político de fato e também às condições jurídicas desse retorno. Eles tendem a jogar de forma clara para inviabilizar o atual governo, enquanto os demais segmentos da direita podem se organizar para fazer oposição às esquerdas, mas participando de fóruns de debates e alianças ocasionais. Ou seja, sendo parte integrante do jogo político. Vamos acompanhar os fatos, para sabermos os movimentos reais.

    Artigo publicado originalmente no blog A vírgula, no dia 20 de janeiro de 2023.

  • Micro nacionalismo: paixão pelo seu lugar

    Por João Gualberto e Helio Gualberto Neto

    Os brasileiros não são, de uma forma geral, vinculados aos grandes símbolos nacionais. Salvo a Copa do Mundo, que diz mais  respeito a nossa relação com o futebol, e fenômenos políticos mais recentes, nunca foi uma marca da nossa sociedade o orgulho de ser brasileiro. Pelo contrário, Nelson Rodrigues consagrou a expressão “complexo de vira-latas” como uma forma dos brasileiros se colocarem de forma inferior ao resto do mundo. Diferentemente dos americanos, por exemplo, que se consideram uma nação vitoriosa, têm a prática de jurar a bandeira todos os dias nas escolas e tem como seus principais feriados datas como a independência e o dia do veterano de guerra. 

    Os franceses orgulham-se de serem os pais do mundo moderno, com a democracia, os partidos políticos, a liberdade de imprensa, a educação das massas e o conceito moderno de cidadania. Orgulhos que não desenvolvemos.

    Existe, entretanto uma dimensão importante entre nós brasileiros, o amor que desenvolvemos pelos lugares onde vivemos. Nossas cidades. Existe aqui aquilo que costumo chamar de micro nacionalismo. Um sentimento que também pode ser chamado de bairrismo. Nos muitos anos que atuamos analisando pesquisas de opinião, vimos isso inúmeras vezes. As pessoas se apegam aos símbolos de seus municípios, sejam eles pedras, lagoas, praias, edificações históricas.  Cada detalhe desse amor é supervalorizado. Comete enorme gafe quem chega a uma cidade com visitante e menospreza esse sentimento. Ganha pontos quem os promove, quem os valoriza.

    Foi em busca dessas emoções, amores e sentimentos que a Persona foi às ruas entrevistar os moradores dos quatro maiores municípios da Grande Vitória: Serra, Vila Velha, Cariacica e Vitória. E o que encontramos não só confirmou essa impressão, como tornou ela ainda mais clara.

    Convento da Penha, eleito pelos moradores de Vila Velha na pesquisa “Grande Vitória, Grandes Amores” como o ícone cultural da cidade.

    De Cariacica a Serra, passando por Vila Velha e a capital Vitória, a maioria absoluta dos moradores da Grande Vitória amam as cidades em que vivem. Seja por fatores naturais, como as belezas das suas cidade, pela qualidade de vida oferecida ou pelos afetos que se criam com vizinhos e pessoas próximas, a média das cidades da região metropolitana certamente merece destaque. 

    O estudo que a Persona desenvolveu, em parceria com o ESHoje, vai mostrar esses e diversos outros aspectos que ajudam a entender a relação das pessoas com seus municípios. O que gostam, o que não gostam e, só para ficar em um exemplo, se elas se mudariam para outro município da região metropolitana.

    É mais uma forma importante de nos conhecermos e nos valorizarmos. Em um período que o país ainda se encontra em alta temperatura após uma eleição que literalmente dividiu sua sociedade, o exercício de olhar para aquilo que temos de melhor e mais positivo, neste caso, o amor que temos pelo lugar que vivemos, é uma forma de buscarmos pontos em comum que nos valorizam como sociedade e talvez ajudem a afastar complexos que não contam de fato quem somos. E isso não é pouco. 

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 4 de janeiro de 2023.

  • A nova direita brasileira está diante de seu labirinto

    Por João Gualberto

    Tenho chamado a atenção, nos artigos que venho publicando, para o incrível crescimento da direita nas eleições de 2022 no Brasil, ampliando o crescimento que já houve em 2018. Foi uma verdadeira febre, inclusive em nosso estado. Sob esse manto ideológico se abriga uma coalisão de interesses bem extensos. Podemos dizer sem medo de errar que a direita não é um bloco, mas que todo o crescimento foi possibilitado pela liderança do ex-presidente Bolsonaro.

    Existem seguramente nesse leque político uma enorme variação de interesses. Podemos citar como exemplos, dentre outros, os evangélicos e sua defesa da família na concepção mais tradicional – as pessoas de bem, como se auto definem – os liberais muito preocupados com a redução do tamanho do estado na economia – os representantes do chamado mercado – e, tristemente, um conjunto de pessoas autoritárias que não aceita o resultado das urnas, e que se alimentam de uma incrível fábrica de mentiras que se instalou, impunemente, em nosso país. Sobretudo os mais velhos, os de cabeça branca analógicos, vivem em realidade paralela que o mundo das redes sociais, em especial do WhatsApp, criou. São os patriotas.

    Os patriotas, de fato uma fração radical da direita, elegeu como seu mito e não apenas seu líder político, o ex-presidente Bolsonaro, e insistem em articular um movimento para anular os resultados das eleições e trazer de volta o presidente derrotado. Querem uma intervenção militar, o retorno de uma ditadura e o fechamento das instituições democráticas. Mas, devemos lembrar que essa fração não expressa o conjunto daquilo que chamamos de direita, segundo os conceitos estabelecidos.

    Essa franja mais exaltada e de corte claramente autoritária tem asfixiado, em termos de imagem, outras tendências, igualmente importantes nesse conjunto eclético de valores. Esse subconjunto resolveu passar do seu universo paralelo a uma ação golpista no último domingo. Protagonizou cenas inacreditáveis em Brasília. Algo da ordem do impensável. Resultado, manchou todo o conjunto, e pode comprometer o seu futuro.

    Rastro de destruição deixado, no dia 8 de janeiro de 2023, pelos ditos “patriotas” em Brasília.

    A centro direita que se apoia no liberalismo econômico e mesmo nas bases de cristianismo conservador, precisa se diferenciar desse golpismo. Toda democracia moderna nasce do embate e dos conflitos das ideias de esquerda e também de direita. O Brasil que tem um governo de centro-esquerda também precisa do debate liberal das ideias, afinal a tensão é o motor a política. Não precisamos de um teatro carnavalizado. Precisamos de seriedade e compromisso com a realidade. Agora é hora de livrar-se a direita desse culto bolsonarista atrasado, e cultivar outro campo dos conceitos, como se faz modernamente nos países europeus, por exemplo. Avançar na batalha das ideias e esquecer o culto à porta dos quartéis.  Outras lideranças e narrativas se impõe. A nova direita brasileira está diante de seu labirinto. É preciso encontrar uma saída.

    Artigo publicado originalmente no Jornal A Gazeta, no dia 10 de janeiro de 2023.

  • Roberto DaMatta e a carnavalização da política

    Por João Gualberto

    Conheci pessoalmente o grande pensador brasileiro Roberto DaMatta quando fazia meu doutoramento em Paris, nos anos 1980. Na verdade, soube de sua presença na cidade para palestras sobre sua Teoria do Brasil, e o procurei para uma conversa. Essa conversa gerou outras, e acabou gerando uma amizade que já dura mais de 30 anos.

    Além da sólida amizade, trabalhamos juntos em um projeto para o DETRAN-ES sobre igualdade no trânsito. A partir dele fomos – Ricardo Pandolfi e eu – parceiros em um dos muitos livros:  Fé em Deus e Pé na Tábua: Como e por que o trânsito enlouquece no Brasil. O trabalho, no fundo, faz uma interpretação do impacto da cultura de uma sociedade que não é igualitária no dia a dia das cidades, a partir de um olhar antropológico alicerçado em vastas pesquisas conduzidas pela Futura em todo o nosso estado.

    Ao longo de todos esses anos, tenho utilizado dos conceitos damattianos, de sua vasta produção intelectual e do seu olhar muito denso dos elementos que nos tornam brasileiros, que fazem do brasil Brasil, nome de um de seus livros. Entre esses conceitos chaves, utilizei no meu livro A Invenção do Coronel: Raízes do Imaginário Político Brasileiro o de “carnavalização”.

    Festa de Carnaval.

    Através desse conceito, tento entender um dos processos mais profundos da nossa sociedade, a sua tendência a transformar em festas próprias do carnaval situações que não pertencem a esse período específico do ano. Por exemplo, a Copa do Mundo transforma-se em um grande carnaval nas ruas, com as suas músicas e suas fantasias, lembrando um vago patriotismo de ocasião e suas naturais tendências ao excesso nas bebidas, e na inversão da ordem natural da vida social.

    Quero lembrar que nossa política também é carnavalizada. Não era assim na velha república, nos tempos dos coronéis, onde tudo era muito formal. Um mundo masculino metido em terno e gravata, de comportados chapéus pretos. Mas, quando se instalou o populismo na Era Vargas, nos distantes anos 1940, e começou a inclusão das massas na política esse fenômeno apareceu. Para não irmos muito longe, houve um tempo em que os comícios viraram shows com artistas famosos. Eram os showmícios que atraíram multidões. Depois muito artistas, como Tiririca, foram eles mesmos para o campo eleitoral, e carnavalizaram suas aparições nos vídeos.

    Agora temos um outro momento desse mesmo fenômeno sociológico, um pouco mais denso, com um sentido mais cívico e mais profundo, além possuírem um corte claramente autoritário. São as manifestações da extrema direita brasileira. Elas já começaram antes das eleições de 2018, atravessaram os quatro anos da gestão Bolsonaro, atravessaram pontes de avenidas nesse período, e chegaram agora na frente de inúmeras instituições militares.

    Manifestação pró-Bolsonaro, realizada em 2022.

    Esse traço tão presente na cultura brasileira, as manifestações ruidosas e com pessoas vivendo fora de seu cotidiano, exibindo com vigor suas convicções de forma teatralizada veio para ficar. É a versão atual de um elemento estrutural na nossa cultura política. Viveremos com esses fatos por longos anos ainda.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 29 de dezembro de 2022.

  • Jorge Caldeira

    Por João Gualberto

    “Mauá: empresário do Império”, obra publicada pela primeira vez em 1995.

    Convidado por Jorge Caldeira fui a sua posse na Academia Brasileira de Letras no último dia 25. Uma festa e uma celebração da obra desse grande intelectual. Historiador produtivo tem uma extensa produção, onde é difícil saber qual a mais importante. Seguramente o mais conhecido de seus livros é “Mauá: um empresário do império”, no qual destaca o papel do grande empreendedor do século XIX e sua luta contra a incrível burocracia imperial brasileira e também contra a mentalidade escravocrata que dominava os círculos de poder de sua época.

    “O banqueiro do sertão”, publicado em 2006.

    O livro sobre José Bonifácio de Andrada e Silva, é de uma profundidade extraordinária e coloca luzes sobre os movimentos políticos e econômicos que produziram nossa independência, que tem muito mais densidade do que o simbólico grito do Ipiranga, que aliás só ganhou importância depois da pintura de Pedro Américo. O quadro é de 1888, portanto do fim do período imperial. Até então o gesto simbólico tinha pouca importância. O que importava mesmo como símbolo da independência na época era a coroação de Pedro I em 01 de dezembro de 1822. Lendo o que Caldeira pesquisou e escreveu sobre a vida de José Bonifácio podemos entender melhor como ele foi fundamental na construção do Brasil, da invenção da nossa nacionalidade.

    Outra obra fundamental é o “Banqueiro do Sertão”, onde ele narra o início do processo de descoberta do ouro no Brasil e os mecanismos de seu financiamento, aliás não só do ouro como também de todo o processo de interiorização das atividades produtivas na então colônia. Da leitura, a gente entende como faziam os bandeirantes para obter recursos para suas aventuras no sertão daqueles tempos. A trajetória do Padre Guilherme Pompeu de Almeida, é o fio condutor de uma história construída quase em forma de romance, onde fica destacado o empreendedorismo desses personagens. Jorge Caldeira destaca a formação do que ele chama do capitalismo Tupinambá, ou seja, a incrível articulação de culturas que nos produziu e que produziu nosso capitalismo. Isso não quer dizer que ele defenda que ouve igualdades nesse amalgama, antes pelo contrário ouve clara imposição da lógica cristã portuguesa.

    “História da riqueza no Brasil”, que teve sua primeira publicação em 2017.

    Finalmente, a “História da Riqueza no Brasil”, o mais recente dos três, é uma obra síntese de suas formulações, onde fica claro o caráter empreendedor de nossa sociedade, muito mais ampla do que costuma descrever nossa historiografia tradicional. Muito me inspiro em Jorge Caldeira para tentar entender o que se passou no Espírito Santo. Nossa trajetória também é de muito empreendedorismo, que fica claro na fase colonial pela produção nas fazendas jesuíticas desde o século XVI até o ciclo do café, a partir da segunda metade do século XIX.

    É falsa a afirmativa história de que fomos sacrificados pela coroa que estabeleceu a capitania do Espírito Santo como uma barreira verde entre o mar e as Minas Gerais. O ouro é importante – e põe importante nisso – no século XVIII. Portanto tivemos dois séculos de atividades econômicas antes da tal barreira verde. O ciclo teve seu auge nesse século. Logo depois chegariam ao Brasil as cortes portuguesas e começaríamos outro período. Portanto atribuir um certo marasmo colonial a um determinado período de um ciclo mais amplo é puro preconceito.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 30 de novembro de 2022.

  • O futuro da direita capixaba

    Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

    O Presidente Jair Bolsonaro foi muito bem votado no Espírito Santo, aqui ele teve 58% dos votos no segundo turno. Muito além da média nacional. Aliás, nas eleições de 2018, quando se elegeu, teve aqui 63% dos votos. Somos um estado onde a liderança de Bolsonaro é muito forte. Um estado bolsonarista, enfim.  Tão forte que elegeu seu aliado Magno Malta Senador da República, derrotando a experiente senadora Rose de Freitas, que teve o apoio do governador reeleito Renato Casagrande.

    Magno Malta, eleito novamente Senador pelo Espírito Santo nas eleições em 2022.

    No primeiro turno Bolsonaro teve 52% dos votos e ajudou a eleger aliados na bancada federal e na estadual. Gilvan da Federal, até então vereador no primeiro mandato em Vitória, foi o segundo mais votado para a câmara. A expressiva votação de personagens na nova direita capixaba na assembleia legislativa, como o Capitão Assunção, ficou muito acima do que esperava o mercado político, para ficar em dois exemplos marcantes.

    Em termos da eleição para o governo do estado, foi surpreendente a votação de Carlos Manato do PL, que fez campanha colada na de Bolsonaro, nos dois turnos. Só o fato de ter provocado um segundo turno já foi em si mesmo um grande feito. O governador em campanha e seus principais aliados como o prefeito de Cariacica Euclerio Sampaio fizeram uma inflexão a direita, sobretudo quando o governador faz notáveis esforços para captar eleitores de Bolsonaro. Essa inflexão a direita, produzirá modificações importantes no próximo governo Casagrande. Afinal terá que haver uma compensação em termos de formação de governo, alianças políticas e mesmo políticas públicas para essa fração de eleitores mais conservadores.

    Mas independente desse participação do tabuleiro político comandado por  Casagrande, o que já é um ganho em si, o que de mais orgânico a direita capixaba está pensando? É uma questão política e eleitoral importante, com desdobramentos na governabilidade e no relacionamento com a assembleia. Do ponto de vista eleitoral, o primeiro efeito desse posicionamento se verá nas eleições municipais do ano que vem. Bolsonaro venceu a eleição em 61 dos 78 municípios capixabas, terá certamente candidatos na maioria deles. A questão concreta é como se organizarão, como conseguirão manter a uma identidade da direita nos mesmos moldes de 2022. Esse elemento ainda não está claro.

    O que queremos argumentar é que a organização da nova direita em nosso estado foi feita a partir da forte liderança do presidente-candidato. Agora não sabemos como isso vai se dar. Da construção de rede de lideranças conservadoras depende em grande parte o seu sucesso eleitoral. Lideranças municipais normalmente se vinculam a lideranças estaduais. Essa construção da liderança estadual vai ser resolvida aos poucos. Ainda não sabemos o quanto os bem votados desse pleito jogarão esse jogo.

    Mas uma coisa é certa. Há uma enorme densidade na direita conservadora que se construiu entre os evangélicos. Achamos mesmo que o amalgama central de valores vem desse segmento de eleitores. Enquanto empresários estão normalmente preocupados com a agenda econômica do governo, os evangélicos em particular e os católicos conservadores de uma forma geral, buscam valores, buscam princípios que se encontram no plano moral.

    A Marcha Para Jesus realizada em Vitória (ES), neste ano, contou com a presença do Presidente Jair Bolsonaro e da Primeira-dama Michelle Bolsonaro.

    Pode ser até que os novos passos da nossa direita sejam dados no campo dos valores cristãos. Certamente eles são mais densos e permanentes do que os interesses que se articulam em torno do campo meramente eleitoral. Pensemos em um exemplo, a Igreja Cristão Maranata, nascida no Espírito Santo e muito influente aqui. Dela podem surgir muitas lideranças articuladas em termos de um discurso musculoso no campo moral. Será como uma célula de líderes. Todas as demais denominações podem fazer o mesmo. Ou seja, toda atenção dele ser dada a esse segmento.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 16 de novembro de 2022

  • A força do segundo turno

    Por João Gualberto

    As eleições em duas etapas foram introduzidas na vida política brasileira a partir de 1989, nas eleições protagonizadas por Fernando Collor e Lula no segundo turno. No caso brasileiro, para vencer na primeira rodada eleitoral é preciso ter metade mais um dos votos. Quando um candidato não consegue esse número no primeiro turno, os dois mais votados voltam as urnas.

    A lógica desse dispositivo eleitoral, é permitir que se construa uma maioria que não houve no primeiro turno, um leque mais amplo de apoio. No caso das eleições que se encerraram no domingo, o mesmo raciocínio pode se aplicar tanto ao caso nacional quanto ao caso capixaba. A campanha de Lula esperava sua vitória em 02 de outubro. Ela não veio com os recursos que foram utilizados, como a presença de Geraldo Alckmin no palanque. Foram para o segundo turno e agregaram mais forças políticas ao processo.

    Simone Tebet declarou apoio a Lula após o 1º turno.

    Simone Tebet foi o maior exemplo disso. Agregou muito a campanha. É uma das vencedoras de 2022 e sai maior do que entrou. Agora na transição, a escolha de Alckmin para coordenar politicamente e tecnicamente a sua gestão, mostra que o presidente eleito acena ao centro, acena ao mercado e as forças que não são de esquerda. Ou seja, o segundo turno consolidou a ideia de que não deve haver um governo de esquerda. O Brasil espera mais um momento de conciliação.

    No caso capixaba, a campanha do governador Renato Casagrande também esperava a vitória no primeiro turno. Era, aliás, o mais provável. Houve, entretanto, um crescimento vertiginoso da direita no Espírito Santo. Candidatos a assembleia e a câmara federal cuja eleição não era esperada, tiveram votação muito expressiva e foram verdadeiros fenômenos eleitorais. Essa febre da direita impactou a campanha e levou Carlos Manato ao segundo turno. Casagrande teve que ampliar suas bases para vencer o pleito.

    Renato Casagrande e Ricardo Ferraço, chapa vitoriosa na disputa para o governo do Espírito Santo em 2023.

    A maior evidência disso foi a participação do vice-governador eleito, Ricardo Ferraço, nos atos de campanha no segundo turno. Foi fundamental na vitória. A participação dos prefeitos Euclério Sampaio e Arnaldinho Borgo também foram fundamentais, isso para ficar em exemplos mais visíveis. Eles são de direita. Ou seja, campanha a vencedora acenou claramente para o campo conservador.

    Em suma, o crescimento do conservadorismo em nossa sociedade se desdobrou nas campanhas vencedoras. No caso específico do Espírito Santo, certamente o terceiro governo de Casagrande será mais amplo do que sua tradicional base no PSB, até para respeitar o resultado das urnas.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 2 de novembro de 2022.

  • A febre da direita

    Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

    Em toda eleição estão presentes elementos estruturais, desses que organizam e alimentam a política e fazem parte do imaginário social. Também estão presentes aqueles que podemos chamar de conjunturais. Esses últimos dizem respeito à conjuntura e ao contexto de cada processo eleitoral. No caso daqueles que nos estruturam estão a fragilidade da estrutura partidária, o caciquismo interno dos partidos, a imensa estrutura de favores que se forma para captar votos, a força do capital nos processos, a baixa presença feminina, dentre outros.

    Os conjunturais mudam dependendo do contexto próprio a cada processo. No caso de 2022, temos uma continuidade da polarização esquerda x direita, Lula x Bolsonaro iniciada em 2018 e aprofundada em 2022. Em 2018 foi uma polarização bem forte, mas em 2022 está sendo uma hiperpolarização. O surpreendente desempenho das forças da direita conservadora no primeiro turno, deram a elas uma presença determinante nesse momento eleitoral. A volatilidade que marca as eleições brasileiras não nos permite afirmar quem vai vencer o pleito nacional, mas será certamente uma reta final muito nervosa.

    Jair Bolsonaro, atual presidente e candidato à reeleição em 2022.

    Quanto à conjuntura estadual, o panorama também é muito revolto, porém a grande marca desse segundo turno capixaba é a ascensão ainda maior da direita. Foram vitoriosos no primeiro turno, sobretudo pela surpresa da produção da segunda volta das eleições, a eleição de Magno Malta como senador da república, além disso, pela expressiva votação de Gilvan da Federal, do Tenente Assis, do Capitão Assunção, do Serginho Meneguelli, dentre outros.

    A esquerda também foi vitoriosa com Helder Salomão. Jack Rocha surpreendeu a todos. Se a votação de Gilvan da Federal foi uma enorme surpresa, é sempre bom lembrar que Helder Salomão do PT foi o deputado federal mais votado do Espírito Santo. O eleitor puniu os que não ingressaram na polarização. O PSDB não conseguiu eleger um só deputado federal. Nomes como Sergio Majeski e Max Filho tiveram baixa votação.

    No fundo, nossa conjuntura não admite meios termos em 2022. Helder, Jack, João Coser, Camila Valadão são de esquerda. Manato, Magno Malta, Gilvan, Assunção, Assis são de direita. Será assim também no segundo turno. Aliás, será ainda mais forte no segundo turno. Esquerda e direita vão se enfrentar nacionalmente e regionalmente. Cremos que Bolsonaro e Manato crescerão no Espírito Santo. Difícil nesse momento dizer quanto, mas certamente crescerão. E qual será a reação do PSB local frente a isso? Vão abraçar a hiperpolarização e enfrentar a direita ou irão tentar evitar o enfrentamento?

    Carlos Manato, candidato ao Governo do Espírito Santo em 2022.

    A resposta não está dada. Não é fácil para Renato Casagrande colocar o Lula no seu palanque, dada a trajetória política de sua carreira e o posicionamento político do capixaba, que elegeu Bolsonaro no Espírito Santo. Longe de ser o comunista da propaganda da direita, o que será então Casagrande nesse segundo turno?

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 14 de outubro de 2022.

  • A direita no 2º turno capixaba

    Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

    Renato Casagrande e Carlos Manato.

    O segundo turno no Espírito Santo sempre esteve no nosso radar. Tanto é assim que no dia 31 de agosto último, publicamos aqui na coluna do ESHOJE um artigo intitulado de “O Segundo Turno Capixaba”. Nele, argumentamos que o surgimento de uma identidade coletiva de direita no Brasil tendia a aumentar em muito as definições de voto nesse segmento ideológico. E mais, que essa inflexão conservadora seria a grande marca do atual processo eleitoral. Agregamos ainda o fato de que parte considerável dessa direita conservadora está sendo formada pelo segmento evangélico, que vota segundo princípios bem rigorosos. Em artigos posteriores desenvolvemos mais a questão do voto evangélico e da sociologia de sua constituição. Esse eleitor engrossou as fileiras conservadoras.

    Lembramos que os brasileiros decidem seus votos cada vez mais tarde, e que esse voto tardio tenderia a aumentar o peso da direita entre os eleitos, já que ela vem sendo a força política mais organizada e coesa. É evidente que a direita se articula em torno do presidente Bolsonaro, e que ele seria o personagem central das eleições também entre os capixabas. 

    Porém, o fenômeno é muito mais denso do que a liderança de Jair Bolsonaro, e deve-se em grande parte graças à força das redes sociais. Aliás, o lugar da política, para esse público conservador, são as redes sociais, assim o mundo político é acessado através do seu celular. Esse eleitor organizado de forma conservadora, com muito acesso a informações e de decisão tardia seria o fator mais importante na reta final das eleições. Havia, portanto, muitos elementos que possibilitaram uma análise dos fatos.

    Crucial para mostrarmos a tendência do segundo turno capixaba é que as pesquisas a que tivemos acesso mostravam claramente um forte nível de indecisão para o voto ao governo do estado. O governador Renato Casagrande apesar de ter sido o líder das pesquisas por todo o tempo, nunca foi um campeão de votos incontestes. Ele é um personagem afável e simpático, faz um governo sem marcas de corrupção, com bom controle das finanças, mas não vinha encantando o seu público. Os brasileiros estão gostando dos discursos musculosos. Na pesquisa realizada pelo instituto Perfil e publicada aqui no ESHOJE no fim de agosto mostrou o governador com 33% das intenções estimuladas de votos, enquanto os seus concorrentes tinham somado 40% dos votos. Todos os sinais que podíamos captar mostravam que o segundo turno era uma possibilidade real.

    O fato novo e mais importante dos últimos dias da campanha é que não foi a soma dos concorrentes fragmentados de Casagrande que produziu o segundo turno. Foi o crescimento expressivo de Carlos Manato, na reta final, que determinou, de fato, o resultado. Essa força que catapultou Manato foi o bolsonarismo. Ele se transformou no candidato dos que votaram fechados no grupo conservador. Bolsonaro, Magno Malta, Manato e os parlamentares agregados a esse grupo. Foi essa a razão do crescimento de Gilvan da Federal e do Tenente Assis para a Câmara dos Deputados e do Capitão Assumção para a Assembleia Legislativa. Todos com expressiva votação. Como reação, a identidade da esquerda também se fortaleceu. Helder Salomão do PT foi o campeão de votos para deputado federal e João Coser e Camila Valadão também tiveram votações recordes.

    Agora começa a campanha do segundo turno. O começo beneficia muito o candidato Manato, pelo elemento surpresa de sua grande votação. Sai como vencedor da primeira rodada, embora o governador tenha tido mais votos. Não acreditamos que o segundo turno seja outra eleição, como gostam de dizer os brasileiros. Os elementos mais importantes já estão colocados na trajetória dos candidatos. Porém, o enfrentamento direto o tempo todo, com igual tempo de televisão é o diferencial. Desse embate nasce o vencedor. Renato Casagrande é muito experiente e racional, Manato mais impetuoso. Vamos esperar o início da campanha, a primeira semana de propaganda na televisão, no rádio, nas ruas e nas redes sociais para avaliar os movimentos dos candidatos nos próximos artigos. 

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 05 de outubro de 2022.

  • Os evangélicos e a renovação geracional

    Por João Gualberto e Ana Carolina Andrade

    Jovem evangélica.

    O presente artigo é o último de uma série que escrevemos, especialmente, para nossa coluna sobre o fenômeno evangélico no Brasil. Todos eles foram estruturados a partir de duas pesquisas sobre o comportamento político deste público em particular, realizadas pela Gualberto & Gualberto nos municípios da Grande Vitória sob a coordenação de Ana Carolina Andrade. A primeira, de caráter qualitativo, foi executada entre os meses de julho e dedicou-se à escuta, em longas entrevistas, de 50 lideranças, estudiosos, pastores e fieis de diferentes denominações e tradições evangélicas. Já a segunda, de caráter quantitativo, ouviu 812 evangélicos dos municípios de Vitória, Serra, Cariacica e Vila Velha entre o final de agosto e início de setembro.

    Tais pesquisas nos permitiram elucidar muitos elementos que compõem o imaginário evangélico brasileiro nesse início de século XXI. Sobretudo nos permitem afirmar,  sem medo de errar, que jornalistas, intelectuais e membros das elites brasileiras costumam ver esse segmento com muito preconceito. Os tratam como se fossem teleguiados e pessoas não dotadas de senso crítico e, ainda, tomam as figuras dos pastores midiáticos como se fossem e representassem a totalidade do “Povo de Deus”.

    Outra coisa que vimos de perto é que os setores evangélicos neopentecostais são formados por uma base popular, fortemente influenciada pela chamada “Teologia da Prosperidade”. Isso os torna muito ligados ao mundo do trabalho duro e que será recompensado por Deus, afastando-os da política de favores, que marca a tradição política brasileira. Hoje, estes setores estão mais próximos da direita pela aversão à corrupção, ao assistencialismo e, na pauta de costumes, pela defesa da família tradicional.

    O empreendedorismo, por sua vez, é a marca das igrejas de “Parede preta”, como Bola de Neve, Lagoinha, Batista Atitude, Missão Praia da Costa e outras. São igrejas voltadas para um público mais jovem e de classe média e classe média alta, materializam o desejo de prosperidade com ações concretas. Aqui o evangelho auxilia no processo de desenvolvimento individual e a relação com o enriquecimento é positiva, afinal, todos têm direito de desfrutar dos bens criados por Deus.

    O que queremos mostrar com esses achados é que os evangélicos estão ajudando o Brasil a encontrar um caminho de prosperidade em valores, baseados numa releitura da velha Reforma Protestante. São os caminhos da sociedade brasileira e que precisam ser melhor compreendidos e estudados.

    Hoje, queremos nos deter nas questões geracionais que dizem respeito a esse universo, uma vez que as novas gerações, em nossos estudos, parecem apontar para algumas mudanças. Se a face típica do evangélico já é feminina, negra e jovem, ao analisarmos, especificamente, os evangélicos de 16 a 24 anos, podemos vislumbrar alguns movimentos interessantes: estão mais “desigrejados”, é um público que frequentou menos outras religiões e têm posicionamentos – na política e nos costumes – menos conservadores.

    Na pesquisa quantitativa feita pela Gualberto & Gualberto na Grande Vitória, 13,6% dos 812 evangélicos entrevistados possuíam 16 a 24 anos. Deste total, 40,19% não é membro ou está congregado a nenhuma igreja, sendo que a média geral foi de 24% de “desigrejados”. Se 34,7% dos evangélicos já foram de alguma outra religião no decorrer da vida, este número cai para 17% quando se trata dos jovens entre 16 a 24 anos.

    Lula (PT) recebe orações de lideranças evangélicas.

    No que diz respeito aos posicionamentos, os jovens têm maior adesão à candidatura de Lula (PT) – 19,9% declararam voto nele na questão estimulada – e rejeição à candidatura de Jair Bolsonaro (PL), onde 21,22% disseram não votar nele de forma alguma. Além disso, são mais favoráveis a temas como a legalização das drogas – a concordância total ou parcial é de 7%, porém, nesta faixa etária este valor sobe para 15% – e a defesa dos direitos da população LGBTQIA+, das mulheres e dos negros (60,56%, frente a 52,1% do total geral).

    Esses indícios apontam para uma renovação geracional no meio evangélico, que poderá ocasionar, a longo prazo, modificações relevantes em termos de comportamento, costumes e também políticos. Compreender este contexto não é tarefa fácil, mas soma-se aos desafios do exercício de uma leitura sobre os evangélicos que se distancia de preconceitos, visões totalizantes e monolíticas.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 27 de setembro de 2022.