• Nossos braços não são fracos

    A reconstrução identitária revela a força de um passado que molda o orgulho capixaba e inspira o futuro.

    A sociedade capixaba tem uma espécie de dívida histórica com ela mesma: não estuda o seu passado, não consegue elucidar bem a sua trajetória e nem a sua própria construção social. As lutas e conquistas dos nossos antepassados, os sacrifícios de muitas gerações são desprezados por simples falta de conhecimento. Pior que tudo isso é repetirmos velhos mitos  como consequência do desinteresse coletivo por nossa trajetória.

    Gaúchos, pernambucanos, mineiros e que os nasceram ou habitam outras regiões brasileiras constroem mitos positivos sobre si mesmos, enaltecem os feitos do passado e dão origem a um sentimento de pertencimento, de regionalismo que impulsiona a sociedade, ajuda na construção de um bom patamar de turismo, por exemplo. Nós, ao contrário, alimentamos mitos negativos para explicar uma falsa falta de identidade. Entre esses mitos está, por exemplo, que nossas matas serviram como uma espécie de barreira verde para o ouro das Minas Gerais, impedindo a entrada de visitantes indesejados e a saída clandestina do rico mineral. Isso é meia verdade, já que o período do ouro não durou toda a fase colonial, que teve seu auge circunscrito ao século XVIII.

    Outro desses mitos é que teria havido uma espécie de marasmo colonial, que transformou a Capitania do Espírito Santo em retardatária em relação às demais. Trata-se de ideias pouco estudadas, pouco esclarecidas e que precisam ser revistas com mais seriedade  e aprofundamento. Para nos contrapormos a essas teorias basta lembrar que, já a partir do século XVI, fomos sede de potentes empreendimentos agrícolas jesuíticos que deixaram como saldo arquitetônico as igrejas de Nossa Senhora das Neves, em Presidente Kennedy, a Basílica de São José de Anchieta, a dos Reis Magos, em Nova Almeida e a que agora se encontra em obras de restauração, em Araçatiba, além da sede do Colégio São Tiago, onde hoje está o Palácio Anchieta. Só atividades econômicas muito intensas poderiam ter proporcionado recursos para essas obras. De fato, tínhamos as maiores fazendas do litoral brasileiro, como a Muribeca, na fronteira com o Rio de Janeiro ou a de Araçatiba, em Viana.

    Isso sem falar em outro ciclo histórico, nas riquezas que o café trouxe, cultura que se consolidou na metade do século XIX e foi muito potente na primeira metade do século XX. Esse ciclo nos transformou no terceiro estado maior produtor do Brasil, enriqueceu os fazendeiros escravocratas no Sul do estado e deixou um rico patrimônio histórico na região Sul, onde se destacam os importantes sítios históricos de São Pedro de Itabapoana e Muqui. Esse patrimônio histórico também é subaproveitado no nosso turismo.

    Por falta de conhecimento elementar sobre a história do rico empreendedorismo que tivemos, pouco valorizamos esses e outros patrimônios materiais que temos como ativos turísticos importantes. Chamo a atenção desses elementos para afirmar que os nossos braços não são fracos, como costumamos cantar no hino do Espírito Santo. Não estou propondo modificações em sua letra, pois ela faz parte da história, tem as suas razões no tempo. Nossa missão é outra, é explicar para todos os capixabas que temos um passado do qual devemos nos orgulhar. Fincados nesse passado construiremos um futuro de muito desenvolvimento, distribuído com mais igualdade.

    Esses mitos, construídos em grande parte no alvorecer da república – no fim do século XIX e início do século XX – tiveram sua razão de ser. Os republicanos tinham afã de progresso. A extraordinária gestão de Muniz Freire à frente de nosso estado entre 1892-1896 e 1900-1904 mostra bem isso. Eles pretendiam crescer nos moldes positivistas, tinham pressa e ainda possuíam restos de uma luta ideológica com o passado imperial, portanto precisavam mostrar-se mais fortes politicamente. Mas isso acabou, são elementos que estão em nosso passado, são questões vencidas. A narrativa agora tem que ser outra.

    Precisamos virar esse jogo, esquecer esses mitos negativos que foram construídos no passado e usados por muitos dos que pretendiam fazer inflexões para o futuro. Isso é uma guerra que já foi vencida. Agora, para irmos mais longe, precisamos da narrativa do estado empreendedor e da construção de um imaginário social que transmita esse orgulho do passado, o orgulho de ser capixaba.

    Não se faz economia criativa, turismo e enraizamento da cultura no cotidiano da sociedade repetindo-se que não temos identidade, até porque esse é um falso sentimento. Afinal nossos braços são fortes, e é isso que importa.

  • Nacionalismos e protecionismos

    Análise traça paralelos entre o protecionismo histórico, marcado por substituição de importações e tarifas alfandegárias, e as recentes políticas de Trump.

    Quando estudamos a história econômica e empresarial brasileira, aprendemos que nossa industrialização foi bastante tardia. Enquanto a Europa já avançava na produção em massa de bens de consumo, através de indústrias, ainda estávamos imersos na economia agrícola, éramos grandes produtores de café. Nossa tímida era industrial só se iniciou no final do século XIX, com a produção têxtil e de outros itens de consumo menos sofisticados e com menor uso de tecnologia.

    Essa nascente indústria era voltada sobretudo para a produção que atendia aos setores com menor renda. Os mais abastados podiam consumir produtos elaborados em outros países, mais caros e sofisticados. Quando a Primeira Guerra Mundial impôs barreiras reais nos mares para a importação, nossas indústrias tiveram que se adaptar para atender a um mercado de classes com maior poder de consumo, ou para substituir peças de equipamentos que não poderiam ser comprados dos fornecedores estrangeiros habituais. Afinal, tínhamos que resolver as coisas por aqui mesmo.

    Assim, tivemos que começar um processo de substituição de importações de produtos que nunca havíamos fabricado. Os bens mais simples que se usam nas cozinhas das casas, como louças e talheres, por exemplo, eram produzidos aqui para as classes populares e comprados fora pelos mais ricos. Na impossibilidade de serem importados durante o conflito, produtores nacionais passaram a atender a demandas de outros setores sociais.

    Uma vez constituído esse processo como interesse econômico, começaram as pressões sobre o governo para que, com o fim do conflito mundial, houvesse condições para a continuidade da produção brasileira. Medidas governamentais foram tomadas, iniciaram-se as políticas públicas do processo da chamada substituição de importações. Grosso modo, eram formas de proteger os interesses da indústria nacional com tarifas que elevavam os preços da importação e assim viabilizavam a produção local.

    Em alguns casos era mesmo proibida a importação, como por longos anos ocorreu com algumas bebidas alcoólicas, entre elas o whisky e os vinhos, além de muitos outros produtos. Essas medidas restritivas ao consumo de produtos de outras nacionalidades permitiram que nossas empresas tivessem acesso a um mercado que não teriam em condições concorrenciais. De fato, elas cresceram e, protegendo a produção nacional, o Brasil construiu um parque industrial de grande porte.

    Entretanto, nem tudo foram vantagens. Escondidas pelo protecionismo e pelo nacionalismo dos governos, muitas empresas não desenvolveram inovações tecnológicas de importância. Acabamos tendo produtos mais caros do que os importados, e frequentemente com qualidade inferior. Esse estado de coisas só começou a ser superado no início os anos 1990, no governo Collor, quando Luiz Paulo Vellozo foi Secretário Nacional de Indústria e Comércio, órgão que corresponde hoje ao Ministério com as mesmas funções. Na ocasião, foi a secretaria sob o comando de Luiz Paulo que supervisionou esse processo.

    Nessa época teve início o salto para o processo de inovação e ganhos de produtividade que hoje se tornaram comuns no Brasil. Lembro aos leitores de tudo isso porque o governo Trump trouxe para a pauta política a questão do protecionismo, do nacionalismo produtivo, para justamente oferecer barreiras ao ingresso naquela economia de produtos com condições mais competitivas do que as produzidas localmente. Isso me parece um processo anacrônico, já muito usado no passado, mas que hoje é muito problemático.

    A brutal globalização da economia mundial criou cadeias produtivas integradas, e muito do que o consumidor hoje compra, na verdade, não tem mais uma nacionalidade específica. Um bom exemplo são os automóveis, cujas peças e partes integrantes são produzidas em muitos países diferentes. Não creio mais ser possível   haver uma política de restrição à aquisição de bens feitos em outras economias – como já foi feito no passado – sem penalizar brutalmente os consumidores.

    Os preços sobem, a inflação aumenta, uma guerra comercial se instala com severas consequências internacionais e o jogo diplomático tem que ser substituído por medidas de força. O resultado é um jogo difícil de ser controlado globalmente, ou seja, são medidas tomadas fora do contexto político em que possa ser controlado.

  • Hercílio, tantas vezes pirão

    Hercílio Pirão e seu restaurante simbolizam laços que a polarização política desfez, mas sua história inspira a esperança de que amizades e diálogo possam renascer das cinzas.

    Estávamos vivendo o início dos anos 2000, ou seja, começo do século XXI. Eu tinha uma rotina de todos os sábados: ao fim da manhã passava na Banca do Japonês, na Praia do Canto, para comprar o Jornal do Brasil. Amava ler a coluna de Danuza Leão, ela falava sobre um certo cotidiano charmoso dos sábados do Rio daquela época. Ia com minha primeira e querida neta, Júlia, pois para ela havia sempre uma publicação de interesse infantil. Ela não havia chegado ainda à idade das primeiras leituras. De lá seguíamos para um restaurante onde eu comia alguma coisa e tomava cerveja. Ela adorava saborear os pasteizinhos recheados com camarão, enquanto eu lia o jornal.

    Foi assim que avistei alguns amigos que frequentavam a varanda do Restaurante Pirão, também na Praia do Canto, e então conheci seu proprietário, o simpático Hercílio, que todos sempre chamaram de Pirão. Esse apelido ele ganhou ainda nos tempos de criança, quando trabalhava com seu pai no Restaurante São Pedro, na Praia do Suá. De lá saiu, com sua enorme carga de alegria e simpatia, que raramente o abandonavam, para montar o seu próprio restaurante, em 1982. Com Júlia passei dezenas de manhãs no Pirão, viramos frequentadores habituais, até que seus afazeres de adolescente a levaram para outros programas mais adequados à nova fase.

    Eu, entretanto, continuei a frequentar a animada mesa que chamávamos de diretoria, por brincadeira do Hercílio. E foi assim por quase duas décadas. Construí ali amizades sólidas, como as de Fabinho Nascimento, Paulo Erlarcher e delegado Júlio Cezar. Foram tardes e tardes de sábados e domingos. Comemorava-se de tudo lá: aniversários, chegadas e partidas. Como nós brasileiros gostamos, eram amizades festivas e batizadas por boas doses de deliciosas capivodkas. Vimos casamentos começarem e terminarem em conversas que estimulavam ou consolavam. Alegria era a marca sempre presente.

    No último dia 13 de março a dona morte, que um dia abraçará a todos nós, levou o nosso querido Pirão nos braços, no alto de seus 78 anos. Ele já não era mais o dono do restaurante, que lhe foi tirado de uma forma tão dura que nunca mais se recuperou do baque. Foi logo depois daquele ano de 2020, marcado pela pandemia do Corona Vírus, que tantas vidas levou e tantos negócios muito bem estabelecidos fez derreter. O grupo que ali se reunia, no entanto, foi marcado, mesmo antes do término daquela mesa dos fins de semana, por uma outra cicatriz de nossos tempos: a polarização afetiva.

    A mesma tempestade que trouxe a polarização política, que inventou discursos de ódio e uma certeza da razão em pessoas que sequer falavam em política até então – as quais nunca gastaram mais do que 5 minutos diários com essa questão – semeou ódios, desavenças e constrangimentos. Amizades foram abaladas porque os até então amigos viraram autoridades dogmáticas, uns contra os outros. Não chego a dizer que muitas uniões foram desfeitas por petismos e bolsonarismos, posto que talvez fossem mesmo acabar por outras e diversas circunstâncias. Nunca saberemos.

    Uma coisa, entretanto, é certa: a polarização política contaminou esses e outros grupos, ferindo-os de morte. Nenhuma amizade vale uma rivalidade política. Somente povos com a paixão exposta, como os brasileiros, com a sentimentalidade de nossa gente, se deixariam levar por razões tão pouco profundas para desfazer laços afetivos. Vários grupos de amigos e de famílias também foram vítimas desse tipo de comportamento, muitos foram contaminados até se tornarem insuportáveis.

    Parece que a polarização no campo da política tende a ficar menor daqui para a frente, com o ocaso natural dos dois maiores ícones de ambos lados, Lula e Bolsonaro. A mesma dama fria que abraçou nosso amigo Pirão também abraçará esses dois personagens privilegiados da cena política brasileira contemporânea. Antes, porém, ficarão senis, ou até mesmo esquecidos por seus milhões de adoradores. Enfim, deixarão em paz as velhas amizades que um dia morreram para defender vagas ideias ou comportamentos anacrônicos.

    O mesmo vento de bonança que um dia poderá trazer solução menos radical na política, dessa vez mais no eixo da compreensão, solidariedade e cooperação, talvez traga de novo a magia do entendimento, do amor e da amizade que sempre uniram essa sociedade tão extraordinária que todos nós construímos no Brasil, a despeito das enormes injustiças e desigualdades sociais.

    Vou retomar meus sentimentos sobre Hercílio Pirão para encerrar esta coluna em forma de homenagem e despedida. Quero para sempre ter na lembrança a boa pessoa que era, o exemplo de um ser humano especial, que, com sua alegria e simpatia, deixou todos que com ele conviveram um pouco melhores, mais leves. Foi um homem feliz, apesar das armadilhas que a vida lhe fez, dos sustos que a saúde lhe deu e das dores que, afinal, todos temos.

  • A realidade e seus contrários

    A nova ordem mundial em construção: entre a assertividade de Trump, o poderio chinês e a fragilidade das instituições globais, o futuro geopolético se desenha entre riscos e possíveis equilíbrios.

    A publicação regular de artigos semanais, como venho fazendo há alguns anos, possibilita a interlocução com os leitores sobre os temas abordados, facilitada pelos aplicativos de mensagens, como o WhatsApp. Muitos são os amigos com os quais perdemos a convivência diária. Um deles, amigo há muitos anos, – desde que almoçávamos, nos fins de semana, em um grupo sempre animado no Restaurante Pirão, na Praia do Canto – é Júlio César. Formávamos uma mesa animada,  “a diretoria”.

    Quando discutimos os meus artigos, nossas opiniões não obrigatoriamente convergem, mas sempre me enriquecem e colaboram na construção de novas abordagens. As conversas que tenho tido com ele e com outras pessoas que gostam do intercâmbio de informação estimulam as trocas de opiniões, sempre muito positivas.

    Em uma dessas conversas recentes dialogamos sobre o início do segundo governo de Donald Trump. Eu havia registrado minha perplexidade sobre a sua postura agressiva, como personalidade política e como o dirigente mais poderoso do mundo, em relação aos mecanismos e instituições que regulam as relações internacionais. O argumento que havia desenvolvido no artigo sobre o qual falávamos dizia respeito às reações às medidas tomadas por seu governo, que vão se organizando em todo o mundo. Ou seja, muito do que vai passar a acontecer não ocorrerá obrigatoriamente como foi pensado pelo presidente dos Estados Unidos, e nem poderia ser, já que cada governo tem a sua reação.

    Como dizia o filósofo político Cornelius Castoriadis, os atores não dominam os processos que iniciam, e assim vai sendo gerada uma nova ordem mundial, um novo arranjo de articulação das relações entre os países. Quando a primeira guerra mundial acabou, não se acreditava que fosse possível haver uma outra que envolvesse os países europeus. A segunda grande guerra mundial, porém, foi ainda mais avassaladora, envolveu um maior número de países em vários continentes e deixou mais de 60 milhões de mortos, além de uma devastação generalizada. Somente o lançamento das duas bombas atômicas sobre cidades japonesas já seria, em si mesmo, uma tragédia.

    Os grandes líderes e dirigentes do mundo que saiu da guerra, na segunda metade dos anos 1940, construíram instituições e normas que garantiram quase 80 anos de paz entre os países mais importantes do globo. No final dos anos 1980 falava-se do “fim da história”. Afirmava-se que o sistema democrático e liberal baniria as guerras e que o futuro das nações seria muito parecido. Entre as instituições que garantiram a paz estavam a ONU, a OTAN e um vasto número de acordos com base em noções de direito internacional que foram enraizados e praticados com naturalidade.

    Entretanto, essa estabilidade mostrou-se mais frágil do que parecia, pois ao longo do tempo algumas fontes de desiquilíbrio foram se instalando. Entre elas chama a atenção a força que a China adquiriu. O país é hoje uma espécie de fábrica de todo o mundo, com enormes reservas financeiras e uma capacidade de influenciar decisões que sequer seria sonhada quando segunda guerra mundial acabou. A China é um país totalmente imerso no capitalismo global, mas não se trata de uma democracia. É uma ditadura comandada por um rigoroso partido comunista. Essa direção autoritária pode impor aos chineses estilos de vida que dão enorme vantagem competitiva ao país, mesmo que à custa da liberdade individual de grande parte de sua enorme população,  gerando grande produção e baixo consumo.

    Esse novo entrante no ciclo privilegiado das grandes nações do planeta desequilibrou muito o jogo, mas não se trata apenas disso. Estou sendo muito simplista para dar uma visão mais genérica do que está acontecendo. É a busca por um novo arranjo internacional, que levou o eleitorado estadunidense a escolher Donald Trump como presidente, o qual já começou seu mandato embaralhando tudo. Dono de um estilo teatral, espalhafatoso e prepotente, ele faz ameaças às economias que representam qualquer risco à dominação que os Estados Unidos vinham exercendo há quase um século.

    Aqui é que entram os meus diálogos com Júlio César, nas consequências reais desse rearranjo das forças do planeta em torno de uma nova ordem internacional. Pode ser que nem todas sejam negativas. Um exemplo poderia ser a necessidade de a América Latina se organizar em torno do desejo de um grande número de países diferentes entre si. Outro seria a união dos vizinhos da Palestina, como o Egito e outros países do mudo árabe, para elaborarem uma alternativa de reconstrução da Faixa de Gaza, longe da proposta do resort de Trump. Pode-se ainda citar a expectativa de a Europa puxar uma nova organização de instituições que exclua os Estados Unidos.

    Acredito que existam as condições hoje para um confronto armado entre EUA e China, que passe a envolver também inúmeros países. Uma nova guerra mundial. Pode ser ainda que, dentro de uma perspectiva tensa e cheia de perigos, surja um novo equilíbrio. Só o futuro dirá.

  • Lideranças esgotadas

    Análise aponta que a polarização política, agravada pela desconexão com evangélicos e jovens, explica a erosão de apoio ao governo Lula e projeta cenário desafiador para 2026.

    emos visto, quase que diariamente, nos meios de comunicação, o crescimento do descontentamento dos brasileiros com o terceiro governo do presidente Lula. Grupos sociais como as mulheres e eleitores de territórios como os do Nordeste chamam a   atenção nas quedas nas pesquisas. Os níveis de descontentamento, entretanto, são generalizados, não são fenômenos de bolhas sociais. Trata-se de algo mais amplo.

    As especulações sobre as razões que levaram o governo quase à lona têm sido feitas com muita frequência e nos mostram pontos importantes do processo de erosão da sua popularidade. Entretanto, é importante chamar a atenção para alguns pontos fundamentais no quadro de dificuldades ora instalado, o qual fatalmente complicará a situação do governo frente à sua própria sucessão, em 2026.

    Em primeiro lugar, acredito que a maioria dos petistas não se deu conta de que foi mais Bolsonaro quem perdeu do que Lula quem ganhou a eleição de 2022. O ex-presidente teve crédito político ao organizar entorno de si o que podemos chamar de nova direita brasileira. Costurou com perfeição pontos concretos de insatisfação com o sistema vigente, agudizados pela incapacidade da então presidente Dilma Roussef para gerir a política.

    O mérito de Bolsonaro e seu grupo foi perceber a força de renovação conservadora que portam os evangélicos, até então desprezados pelos políticos tradicionais e por intelectuais de uma forma geral. Ouso dizer que o fator chave que dá densidade ao pensamento dessa direita que hoje temos no Brasil é o cristianismo conservador. A Argentina, por exemplo, que não tem a mesma potência política dos evangélicos, busca sustentar o governo de Milei nas forças econômicas e de mercado. Aqui a narrativa reacionária cumpriu um papel eleitoral definitivo.

    Essa nova direita venceu as eleições de 2018 comandada por Jair Bolsonaro e provocou uma disruptura totalmente inesperada, com derrotas importantes na maioria dos estados brasileiros. Entretanto, o governo que saiu das urnas nesse processo teve resultados muito ruins, com poucas entregas. Podemos dizer que Bolsonaro perdeu as eleições porque falou demais, tentou fazer muita graça e errou nos deboches da pandemia. Além disso, massacrou a cultura, as universidades e a ciência, de forma geral.

    Lula deu aos setores que perderam em função dos excessos e incompreensões de Bolsonaro uma esperança de superar o atraso que estava colocado: ameaças ao meio ambiente, aos povos indígenas e às comunidades quilombolas, por exemplo. Creio que boa parte dos eleitores de Lula em 2022 esqueceu, naquele momento, o antipetismo e foi às urnas para evitar um segundo governo Bolsonaro. Creio mesmo que  Bolsonaro perdeu por merecimento, ao passo que Lula ganhou jogando parado, impulsionado pelos erros do seu adversário e pela memória de seus feitos em governos anteriores.

    Vencer uma eleição e montar um governo, quando boa parte dos seus eleitores não tem mais encantamento com sua liderança, não é simples. Sem o magnetismo pessoal de outros tempos e sem adesões emocionais fortes, como gostam os brasileiros, o governo começou tentando montar velhas lógicas. Nada de muito novo apareceu, destacando-se a repetição de antigas lideranças que acompanham Lula há décadas. O atual governo precisava ter encontrado novos eixos de relação com a sociedade, mas ao que parece não os encontrou, daí o mau desempenho nas pesquisas.

    Vou ficar em dois exemplos: evangélicos e juventude. O governo do PT não encontrou meios de estabelecer uma relação qualificada com o mundo dos que antes chamávamos de crentes. Ficou na superfície, não trouxe nenhum quadro novo saído desses setores sociais e nem incluiu as demandas evangélicas nas políticas públicas. As suas redes de trabalhos sociais não foram beneficiadas, seus líderes também não. A prosperidade que desejam ficou nos discursos da direita.

    As juventudes, sobretudo as de periferia, mas também as dos setores médios, com sua arte inovadora, seu engajamento nas redes sociais, seus desejos de igualdade e liberdade, não são compreendidas pelo atual governo. Na pior das posturas, Lula não fala para os jovens mais conservadores evangélicos e nem para os mais ligados aos temas identitários da classe artística, dos coletivos urbanos ou do público universitário.

    O fato de ter vencido Bolsonaro ficou no passado. É preciso ir adiante no enfrentamento das velhas questões nacionais. O Brasil pode ter uma eleição presidencial no ano que vem sem as duas velhas raposas, e aí o novo se imporá. Parece ser esse o nosso caminho,  buscando benefícios para todos, longe das ideologias que não geram bons governos.

  • Capitalismo violência e progresso

    A construção do capitalismo no Brasil reflete uma articulação desigual entre o arcaico e o moderno, com os coronéis industriais como principais agentes dessa transformação

    As diferentes sociedades no mundo tiveram, cada uma delas, os seus agentes de promoção ao capitalismo, sobretudo no século XIX. Foram eles que ajudaram, de forma especial, a fazer a passagem dos antigos sistemas econômicos tradicionais para as formas automatizadas de produção.  Sendo um pouco simplista, posso afirmar que também impulsionaram a sociedade aos padrões modernos de consumo.

    No caso da maioria dos países europeus esses agentes foram os industriais, além dos trabalhadores em suas fábricas. Os primeiros livros que tratam dessa transformação econômica e social, como A Riqueza das Nações, de Adam Smith, escrito no século XVIII, ou mesmo o do pai administração moderna, Frederick Taylor, com o seu Princípios de Administração Científica, já no início do século XXdescrevem sob diferentes ângulos o mesmo processo de criação de novos valores sociais.

    Na gênese, Adam Smith faz as primeiras reflexões de que se tem notícia sobre a especialização no mundo do trabalho, citando o caso do aumento de produção que ela provocou em fábricas europeias do seu tempo. Creio que poderíamos chamar esse fenômeno de ganhos de produtividade, com o fracionamento do trabalho. Os trabalhadores especializados nas fábricas produziam muito mais do que os antigos artesãos das corporações de ofício medievais, essa era a tese.

    Quanto a Taylor, engenheiro nascido nos EUA, suas reflexões já foram produzidas em um sistema não só especializado, mas também automatizado pelas máquinas movidas a vapor ou, sobretudo, pela energia elétrica. Em ambos os casos, com perspectivas analíticas muito diversas, o que temos é o enaltecimento de um mundo novo, que foi surgindo com muita velocidade, sendo hoje hegemônico.

    Olhando esse movimento de um outro ângulo, Karl Marx, em O Capital, ou no Manifesto do Partido Comunista, escrito junto com Engels, concebeu uma teoria sobre o papel dos conflitos entre a classe operária e os detentores do capital.  Mostrou as perdas que os operários tiveram até então, concebendo os conflitos entre essas duas classes como o motor da história. Ou seja, Marx deduziu que devemos a esses conflitos os movimentos dos avanços sociais possíveis, portanto os operários deveriam insistir neles e se organizarem para as lutas que certamente viriam.

    No caso brasileiro, o que se passou foi bem diferente. Aqui não observamos os mesmos movimentos da sociedade construindo novos modos de produção. De forma diferente, foram os proprietários do capital agrícola e comercial que importaram novos equipamentos produtivos, iniciando outra etapa de produção, agora industrial. Foram os antigos usineiros, ou outros capitalistas nacionais, que importaram máquinas e tecnologias para a produção de açúcar, já no século XX, e esse é apenas um exemplo.

    Esses antigos usineiros, comerciantes de açúcar, eram os nossos velhos coronéis. Os homens poderosos do início do século XX no Brasil republicano eram coronéis na sua quase totalidade. Era o nome que as pessoas pobres e dependentes desses senhores davam a todos os que tinham alguma fortuna. Assim, os homens poderosos e relativamente ricos daquela época eram chamados de doutores, se o fossem, ou de coronéis. Eles foram os agentes de construção do nosso capitalismo moderno, ainda que tivessem muitas marcas dos potentados rurais descritos por Raymundo Faoro em Os Donos do Poder.

    Portavam o que os republicanos positivistas chamavam de progresso: as novas máquinas, os novos estilos de vida que a industrialização permitia, a vida urbana com luz elétrica, as ferrovias, o cinema e outras modernidades da época. O grande industrial de origem cearense Delmiro Gouveia construiu em 1911 em Alagoas uma fábrica de linhas com uma vila operária que possuía requintes urbanos, destacando-se na região. Farmácias, serviço médico, luz elétrica. Em tudo lembrava uma vila inglesa, menos em um detalhe: quem infringisse as normas, como trabalhar descalço ou não fazer uso regular dos serviços de saúde, era tratado no chicote.

    Em tudo Delmiro Gouveia expressou o coronel industrial que estou descrevendo, portador do progresso das novas técnicas produtivas consolidadas no século XX, mas ao mesmo tempo trazendo a marca indelével das elites brasileiras acostumadas a tratar o povo com brutalidade. Violência e progresso nas mesmas mãos, esse é a marca da construção do nosso capitalismo. O coronel foi o seu grande agente, talvez por isso o nosso imaginário da modernização una de forma tão cabal os velhos métodos de trabalho vindos da escravidão com as novas tecnologias industriais. Essa articulação desigual entre o arcaico e o moderno é marca da civilização brasileira, como muito bem vem registrando Roberto DaMatta ao longo de sua obra, que explica os dilemas da sociedade brasileira.

  • A reação às mudanças

     

    O início do século XX foi um período de muitas transições sociais em todas as sociedades ocidentais. Relatos sobre essas mudanças estão presentes no excelente livro de crônicas de João do Rio A Alma Encantadora das Ruas, que reúne seus textos publicados imprensa carioca no início do século XX. Ele que foi o cronista por excelência do Rio de Janeiro da Belle Epoque. Fica claro, na leitura, o impacto das transformações pelas quais o mundo ocidental passava. Não deve ter sido essa a intenção mais forte do autor, provavelmente foi fazer denúncias do desprezo das elites da época pela população pobre, e sem direito a cidadania. Também trata da força dessas pessoas que viviam longe das elites, abandonadas. As crônicas são de uma elegância que fazem sua leitura muito agradável, apesar do conteúdo forte.

    Entretanto, quando buscamos uma compreensão mais sociológica do que escreveu João do Rio, observamos o impacto enorme que trouxeram as mudanças das novas invenções no cotidiano das pessoas comuns. São a energia elétrica, o telegrafo, as locomotivas a vapor, o automóvel, o cinema e tantas outras. Ele aborda personagens de um mundo que ia morrendo como os veículos de tração animal e seus condutores, por exemplo.

    Deixando o Rio de Janeiro, e indo para o cenário europeu, podemos imaginar uma Paris com metrôs e os primeiros aviões experimentais, dos balões dirigíveis e dos aviões de Santos Dumont. O cotidiano das maiores cidades mudou enormemente e, tempos depois, veio o rádio que modernizou a comunicação e criou aquela música que chegava às multidões, como o samba de Noel Rosa no Brasil.

    Penso nisso para fazer um paralelo entre as modernidades do começo do século XX e as brutal reação que representou o nazismo nesse mundo em transformação. Não sei exatamente o peso do confronto entre modernização e atraso na construção dos enfrentamentos políticos nas diferentes sociedades europeias. Muitas viveram o crescimento e a ascensão da extrema direita:  Alemanha, Itália, Espanha ou Portugal. Enfim, o fato concreto é que essas diferenças de comportamentos e expectativas dentro das nações acabou levando a Segunda Guerra Mundial, conflito que matou milhões de pessoas, em praticamente todos os continentes. Não ouso afirmar que essas foram as principais razões da guerra, mas ela não existiria sem o ingrediente beligerante que já estava colocado.

    Hoje as mudanças são outras, mas temos que reconhecer que a complexidade das inovações trouxe também transformação nos nossos cotidianos. Para ficarmos em um exemplo forte, pensemos no movimento identitário, que já tem longa jornada em muitas e diferentes sociedades. Nos Estados Unidos, começou com as lutas do fim dos anos 1960 como o movimento negro ou a libertação das mulheres à submissão ao mundo masculino, dentre outros. Produziu heróis como Martin Luther King e foi muito absorvido pela ala mais à esquerda do Partido Democrata, e atualizou muito sua pauta de lutas. A gestão Obama, por razões raciais óbvias acirrou os conflitos. A reação republicana deu-se com a eleição de Donald Trump em 2016.

    O presidente Trump conduziu, em seu primeiro mandato, forte reação às essas políticas identitárias, mas também agregou a isso forte desilusão com o sonho dos cidadãos estadunidenses, vindo do pós-guerra, como a nação mais potente do mundo. Ela era capaz de distribuir bem-estar a maioria de seus habitantes.  A reação brutal organizada pelo novo presidente articula pelo menos essas duas instâncias. É muito enraizada no imaginário daquele povo.

    Todo processo de mudanças produz desconforto a quem estava bem instalado antes dele, como é o caso das nos Estados Unidos das elites ricas e brancas, sobretudo os homens e os de espírito mais conservador. É um sentimento até natural, mas que tende a se transformar em lutas internas importantes. Há um século, foram anos entre o nascimento da reação ao novo, o embate da Primeira Grande Guerra Mundial e a ascensão do nazismo e do fascismo. No mundo atual tudo é muito mais rápido, a dimensão digital também acentuará a velocidade os problemas advindos do surgimento de um movimento estruturado na reação às mudanças, hoje já instaladas também no terreno da economia como estamos vendo nas super taxações do governo Trump.

    Explodirão grandes conflitos entre nações do mundo, seus nacionalismos recém trazidos à tona, seus espíritos de reação às mudanças de comportamento e de valores morais, tendem a ser estopins poderosos a desentendimentos que podem se espalhar por muitos países, a começar pelo mundo árabe. Muito vai acontecer ainda este ano.

  • A República Brasileira

    O projeto político que Getúlio Vargas implantou no Brasil a partir do Golpe de Estado tentou desconstruir a imagem da nossa Primeira República.

    O projeto político que Getúlio Vargas implantou no Brasil a partir do Golpe de Estado que o levou ao poder tentou desconstruir, deliberadamente, a imagem da nossa Primeira República – aquela que governou o Brasil entre 1889 e 1930 – assim como negar seus avanços. Eles foram obtidos no processo de construção gradual de uma sociedade democrática nos moldes concebidos no século XIX, sobretudo na França e nos Estados Unidos. E esses avanços não foram poucos, afinal estávamos saindo de um regime monárquico centralizador, e acreditava-se em processos sociais mais participativos e na autonomia das elites regionais.

    O primeiro movimento dessa campanha para manchar a imagem republicana foi   denominar “República Velha” ao regime que o antecedeu, para, justamente, criar um sentimento negativo, com forte carga pejorativa. Como Vargas queria implantar um processo político percebido pelos brasileiros como novo, nada melhor do que todos pensarem que a república implantada em 1889 era, de fato, velha.

    Tanto isso é verdade que, no segundo golpe dado por Vargas, em 1937, com a implantação de uma ditadura, a denominação dada foi Estado Novo.  Aí é que se trabalhou como fundamento do novo modelo a pretensa falência da república liberal brasileira. Os formuladores do governo autoritário foram intelectuais como Oliveira Viana e Alberto Torres, que tentaram vincular o que consideravam atraso econômico e social brasileiro às políticas liberais das nossas oligarquias, sobretudo as cafeeiras do eixo Minas – São Paulo, a chamada república café com leite.

    Havia muito o que corrigir nas políticas dos coronéis que tomaram conta do poder a partir de 1889, isso não se discute. O viés elitista que a proclamação da República trouxe é inegável, como é igualmente inegável o fato deque pequenos grupos partidários também se apegaram muito ao poder. As oligarquias estaduais eram produzidas nas estruturas familiares dos governantes, e governos inteiros eram consolidados a partir desses critérios de clãs. Entretanto, não podemos esquecer que esse é o caminho mais do que natural de todos os governos.

    Os atores políticos se apegam aos regimes que ajudaram a implantar, criam grupos que se apropriam de muitas vantagens que o poder possibilita. Para não fazer distinção ideológica, basta ver o que aconteceu na União Soviética, nos governos da esquerda no Brasil ou ainda na Venezuela. Foi assim também com a nossa nascente República. Ela prestou grandes serviços ao nosso processo civilizatório, pois não podemos esquecer que eleições foram implantadas em todos os níveis de governo e queprocessos sociais foram atualizados. Tudo se iniciou com a vontade de renovação, de progresso e de participação política de jovens doutores positivistas e maçons, em grande parte.

    Eram os filhos dos coronéis da Guarda Nacional, os que detinham em seu tempo as estruturas do poder econômico nas mãos. Esses coronéis eram, em grande parte, fazendeiros, com especial atenção para os grandes plantadores de café. A geração dos homens ricos do império, os empresários, desejavam se livrar das amarras de um poder sem compreensão da dinâmica econômica que estava sendo implantada. Os jovens doutores, a geração de seus filhos e genros, buscavam canais de prosperidade dentro dos ditames da ciência, sobretudo a de inspiração positivista. A preocupação com a nossa educação mais inclusiva nasce aí.

    Essa foi a tradição que fundou a república, a renovação dos modos de fazer política e a atualização dos processos sociais, como educação e saúde. Os critérios da ciência, tão em voga no final do século XIX, foram o seu fundamento. Na tese da entropia, todo sistema social caminha para a morte ou para o inevitável envelhecimento. Assim foi com a Primeira República, assim também foi depois com a Era Vargas. Penso nisso para lembrar aos que me leem que não podemos ser muito severos com os sistemas que envelhecem, nem odiá-los por isso. Todos envelhecerão, mesmo os que parecem muito modernos hoje.

    A ideia de que estava tudo errado antes de nós não costuma ser boa conselheira. Ela pode conduzir a exageros que só nos causam transtornos, quando gera seus contrários na sociedade. Olho com muita cautela o que se passa hoje no terreno dos gestos teatrais que se espalhavam na política. Todos estarão velhos um dia, e muitos poderão não produzir resultados tão bons como a nossa República, que passou para a história como velha, mesmo tendo portado novidades importantes para o seu tempo.

  • A eleição presidencial de 2026

    As eleições presidenciais 2026 redefinem alianças: direita oscila entre trumpismo e novas figuras, enquanto a esquerda capitaliza discurso nacionalista. Cenário ainda em ebulição.

    Passadas as escolhas dos presidentes do Senado e da Câmara Federal, o movimento da política nacional começa a se dar, a partir de agora, em função das eleições nacionais do ano que vem, sobretudo as presidenciais, e seus desdobramentos regionais. É claro que vários fatos importantes vêm acontecendo desde o final do ano passado, mas é agora que eles se tornam mais explícitos e mais visíveis para todos.

    Novidades se apresentam mais claramente neste início de ano político. A primeira delas é internacional e decorre do alinhamento da direita brasileira com o novo presidente dos EUA, Donald Trump, e suas consequências para nossa política. A cúpula do bolsonarismo estava em peso em sua posse, demonstrando alinhamento, com exceção do próprio Bolsonaro, que não pôde viajar por imposição do STF. Produziu, entretanto, cenas cheias de emoções e sentimentos na despedida da esposa no aeroporto, onde quase chegou às lágrimas, para mostrar ao seu público o quanto lastimava não poder viajar. Bolsonarismo e trumpismo bebem na mesma fonte.

    A expectativa dos conservadores brasileiros é a de que a nova gestão vai produzir efeitos positivos na direita mundial, e consequentemente na brasileira, aumentando em especial o seu poder eleitoral. Entretanto, as medidas que Trump vem tomando parecem ter impacto não só positivos aqui, porque elas podem afetar os interesses brasileiros no campo econômico. Isso ainda não está totalmente claro, porque ainda não foram adotadas tais medidas, mas parece evidente que essa lógica de imposição da força através da taxação de produtos a serem importados do Brasil está por vir. Nada sinaliza que será diferente em o nosso país, diante do que já está acontecendo em outros. Daí a mudança de comportamento de algumas lideranças da nossa direita, pois esse tipo de ação protecionista pode afetar perigosamente setores gigantes da nossa economia, causando significativos transtornos regionais e setoriais.

    Como registrou com argúcia o estudioso das redes sociais Sérgio Denicoli em artigo publicado no Estadão recentemente, o bolsonarismo fez esforços para importar a estética do trumpismo. Isso pode acabar por criar uma imagem de subserviência a um projeto político estrangeiro, que vê o Brasil de forma inferiorizada e dependente. O patriotismo que era ostentado em verde-amarelo nas manifestações de rua da direita sai agora de cena para dar espaço a uma espécie de veneração a outro país que, por sua vez, nos prejudica. Esse é ponto.

    Analisa Denicoli que, curiosamente, a esquerda tem sabido capitalizar essa brecha, apresentando-se como defensora dos interesses do país. Assim preconiza a estampa do boné azul com a inscrição “O Brasil é dos brasileiros” usado por Lula, seus ministros e aliados, como forma de buscar aproximação com os moderados, que serão a força decisiva nas próximas eleições. Esse é um dos movimentos que afetarão a nossa política agora, por isso precisam ser acompanhados de perto.

    Existe também uma movimentação interna muito intensa na nossa direita, produto de outros fatores além desse, que parecem levar a um certo envelhecimento das lideranças muito próximas a Bolsonaro. É o que se deduz de uma pesquisa da Genial/Quaest publicada nos primeiros dias de fevereiro. Ela aponta para uma liderança esperada do presidente Lula na corrida eleitoral de 2026, mas também um surpreendente posicionamento tanto de Gustavo Lima como de Pablo Marçal que aparecem do mesmo tamanho do governador Tarcísio de Freitas ou do deputado Eduardo Bolsonaro. Isso mostra uma grande migração de votos do bolsonarismo tradicional para novas lideranças mais distantes das narrativas de sustentação de uma ditadura militar ou de atos de força. Crescem novos atores e outros mais antigos começam a reduzir sua força.

    Os brasileiros mais jovens não gostam do sistema político. São mesmo antissistema. Nesse ponto, parecem mais preocupados com seu próprio destino, com empreender, por exemplo, do que com gestões que remetem ao passado, a comportamentos masculinos tóxicos. Essa nova onda certamente vai emparedar as lideranças que saíram vitoriosas das eleições de 2018, envelhecendo muito rapidamente suas narrativas. A direita que parece que vai ganhar protagonismo tem Nikolas Ferreira e Pablo Marçal como ícones, além de um novo entrante, que é Gusttavo Lima. São ainda magmas de um vulcão em erupção que vão se cristalizar ao longo do processo, e podem produzir um presidente hoje inesperado.

  • Limites do poder

    A política espetáculo domina o cenário moderno, onde grandes discursos e encenações superam a busca por verdades concretas.

    O sociólogo alemão Max Weber afirmou em uma de suas obras clássicas, traduzida no Brasil com o nome de A Ciência e Política: duas vocações – na verdade, esse livro já teve outros nomes parecidos em muitas publicações ao longo de décadas – que existe uma forte diferença entre a prática da ciência e a da política. Para ele a ciência é o lugar da verdade, ao passo que a política é o lugar do convencimento, ou seja, a prática da arte da política distancia-se muito do lugar da verdade.

    As grandes carreiras políticas dos séculos XX e XXI, para nos atermos aos mais recentes, foram feitas sobre afirmativas não obrigatoriamente verdadeiras. São centenas de casos em que as promessas eleitorais se distanciam das entregas. Afirmo isso para generalizar a ideia de que existe, como dizíamos muito há alguns anos, uma política espetáculo, uma teatralização dos espaços de poder, a qual faz parte de seu jogo como um todo.

    Eletrizar as massas, convocar imensas multidões para amplos espaços públicos ou obter níveis altíssimos de audiência em programas de rádio e televisão, como se fazia no século XX, ou ter milhões de seguidores nas redes sociais, como se faz hoje, não são tarefas simples. Tanto é assim que muitos tentam e poucos conseguem. Somente pessoas com forte talento para as grandes encenações, para os grandes discursos e para um jogo permanente de tensões, cujas decisões alcançam extensas dimensões sociais, podem se aventurar com sucesso na política espetáculo.

    A banalização generalizada da civilização do espetáculo, como a definiu o grande escritor peruano Vargas Lhosa, produz uma grande vítima: a política, talvez mesmo a sua maior vítima. Espetacularizada, como ele mesmo alerta, a política torna-se escrava da autopromoção, da busca do marketing vazio pelos grandes atores sociais. Trocamos a busca de conteúdo pelas fofocas e frivolidades dos grandes políticos.

    Nesse mundo teatral estamos todos imersos, em quase todos os países, mesmo naqueles onde não se pratica a democracia. Os regimes de força, afinal, também se organizam a partir de grandes mentiras divulgadas todo o tempo, como muito bem nos mostrou o regime da Rússia durante a era soviética.

    Por outro lado, os que estão operando nesse teatro sabem que prometem mais do que podem cumprir, que os grandes lances da política são mais imagens do que materialização. No fundo, os que estão no topo das grandes instituições podem menos do que aparentam. Moisés Naim, ex-diretor executivo do Banco Mundial, em seu livro O Fim do Poder, analisa de forma densa e inteligente como o poder vem se fragmentando e como está se reconfigurando. Ele diz que no século XXI passou a existir um leque imenso de instituições que vão saindo do controle de atores tradicionais como governos, exércitos, empresas ou sindicatos e são compartilhados por novos e inesperados rivais na sociedade civil.

    Além disso, afirma que aqueles que controlam o poder deparam-se com restrições cada vez maiores ao que podem fazer com ele. Na verdade, o argumento de fundo é que o poder real do presidente de uma grande empresa ou mesmo dos presidentes das repúblicas vem diminuindo. Cada vez mais eles têm que ceder partes importantes do poder a inúmeras organizações da sociedade, das instituições nacionais e internacionais de controle e à opinião pública, de uma forma geral.

    Aqui é que as duas tendências se confrontam: o crescimento da dimensão teatral, a cultura política do espetáculo e a redução do poder centralizado e presidencialista. Promete-se cada vez mais a partir de grandes cenas espetaculares e tem-se cada vez menos capacidade real de entrega nos grandes ou pequenos governos. Os resultados desses choques de perspectivas são gestuais simbólicos espetacularizados, mas com pouca possibilidade de se efetivarem ao longo do tempo.

    Faço essas reflexões pensando nas grandes expectativas que o recém empossado Donald Trump dos Estados Unidos produziu no eleitorado do seu país, mas que não se aplicam só a ele. Creio que boa parte delas está destinada a morrer no próprio gesto, não chegarão a virar realidade concreta. Mesmo com o apoio eleitoral da massa de eleitores de seu país, essas ações serão dificultadas pela imensidão de atores que envolve cada uma delas, como a justiça, o parlamento e os países afetados pelas medidas. Mesmo assim, estou entre os que acreditam que as propostas que vingarem poderão causar danos reais ao mundo. No mais, é esperar para ver.