• Um projeto para o Brasil

    Combater a desigualdade é construir um futuro onde todos tenham acesso às oportunidades básicas de vida.

    Escrevi neste mesmo espaço, há algumas semanas, um artigo intitulado Refundar as Instituições Brasileiras. O meu argumento nele foi o de que muitas de nossas instituições, que sustentam a ação do estado, têm os seus modelos de funcionamento datados de, pelo menos, o início da República. São organizações que estão presas a estruturas baseadas em um mundo que já não existe mais, ou está em extinção. São analógicas e marcadas por um autoritarismo centralizador que não funciona no mundo real.

    Usei como exemplos as nossas representações diplomáticas, concebidas antes mesmo dos transportes aéreos e da enorme facilidade de comunicação que temos hoje. Ocupam espaços elegantes e caros em muitas capitais glamourosas mundo afora,  mantêm uma estrutura de pessoal presa a modelos arcaicos e são, em geral, muito onerosas. Outras instituições necessitam também de aggiornamento, como as forças armadas. Aí o caso não é mais de tecnologia de gestão ou custo elevado – não me atrevo a dar opiniões sobre algo que desconheço inteiramente – mas de formação democrática de suas elites dirigentes.

    Uma sociedade contemporânea necessita de todos os seus quadros alinhados em valores comuns, respeitando os princípios da cidadania. Nenhum grupo social pode se considerar superior aos demais e querer, de tempos em tempos, chamar todos os poderes para si. Ninguém consultou a sociedade para saber se outorgamos aos militares poderes para nos representar e dizer, em determinado momento, que as coisas estão erradas e devem ser corrigidas. Isso é um princípio antigo que, se existiu, já não existe mais.

    Outro argumento que utilizei naquela oportunidade foi o de que, para alinharmos as instituições brasileiras em relação ao nosso futuro, deveríamos ter alguns objetivos nacionais. Minha opinião é que o fim das nossas terríveis desigualdades – já que somos um dos países mais desiguais do mundo, onde o abismo entre ricos e pobres é abissal – deve ser o motor das muitas mudanças que devemos fazer. Digo mais, nosso foco  imediato deveria ser acabar com a miséria de milhões de brasileiros.

    Como é natural após a publicação dos artigos, recebi vários comentários. Um deles, em especial, me chamou a atenção. Foi o que me fez o amigo de longa data Luiz Polese, político de mais de um mandato em Colatina e ex-secretário de estado no Espírito Santo. Ele escreveu: “acabar com a fome e a miséria dos brasileiros, na minha visão, passa por ampla discussão com real participação popular, para que todos conheçam todos os benefícios concedidos à elite brasileira (empresariado com forte lobby no congresso, classe política, forças armadas). Esses benefícios somam hoje mais de R$ 500 bilhões. Num planejamento de prazo dilatado em cinco anos para zeramento desses benefícios, CERTAMENTE acabaríamos com a fome a miséria e teríamos recursos para tocar políticas públicas prioritárias como educação, segurança, moradia popular, universalização de água e esgoto etc ”.

    Achei muito pertinente a ideia de fazermos uma discussão nacional profunda e verdadeira das fontes da nossa riqueza e de seu emprego, fora da pauta ideológica, pensando apenas que os brasileiros devem se apropriar dos recursos que a economia gera. Em vez da burocrática discussão da redução de gastos, discutiríamos quem fica com o que e por quê. Quanto deve ser distribuído nos mais altos salários e quanto deve ser usado para os serviços básicos da população.

    É claro que deve haver uma distribuição diferenciada de ganhos; que alguns, por sua capacidade, merecem ganhar mais do que outros; que os proprietários dos meios de produção devem ser remunerados; que os grandes empreendedores devem ter sua capacidade de correr riscos recompensada. Entretanto, não é sobre isso minha ideia. É sobre as benesses, as mercês concedidas a um pequeno grupo e as injustiças que se fazem com os pobres no Brasil.

  • Imprecisão como cultura

    A imprecisão, traço cultural brasileiro, reflete-se em comportamentos e na propagação de informações.

    Um dos traços mais marcantes da cultura brasileira é a imprecisão, ou, dizendo de outra forma, o jeito todo especial de lidar com o que precisa ser medido, metrificado. Lembro muito bem que certa vez, na França, fiquei espantado quando pedi a uma pessoa que vendia frutas que pegasse para mim uns três ou quatro tomates. A resposta foi: “- Mas são três ou são quatro?”

    Para um brasileiro o pedido é fácil de ser entendido: se escolhidos os maiores tomates, serão três; se os menores, quatro. É simples assim para nós. Quando um feirante nos atende bem, gentilmente, e diz que pesou um quilo bem pesado, como se houvesse a possibilidade de termos um quilo mal pesado, também achamos normal. Sabemos lidar bem com essas imprecisões que nos cercam. É uma espécie de código de conduta, de comportamento. Cada sociedade tem um desses mapas de navegação social.

    Outra coisa: os números das estatísticas nos dizem pouco, quando lidamos com eles. Não me refiro, obviamente, aos matemáticos ou aos que se dedicam aos fazeres mais exatos. Quanto à maioria, somos capazes de repetir números e cifras que não fazem sentido, sem prestar atenção, sem muito cuidado. Em tempos de redes sociais essa imprecisão – que é traço cultural – nos leva a compartilhar mensagens sem refletir sobre seu conteúdo. É claro que as fake news existem em todos os países do mundo. Sabe-se que os mais idosos, que são mais analógicos, podem passar adiante coisas absurdas em qualquer cultura. A nossa falta de cuidado com números e dados, porém,  facilita muito a propagação de informações imprecisas, exageradas ou simplesmente mentirosas.

    Há também entre nós uma clara tendência ao exagero. As formas de expressão verbal carregam isso, como quando se diz estar “morrendo de saudades de alguém”, ou “morrendo de fome”, ou ainda quando contamos a um grupo de amigos ou familiares que assistimos a um acidente de carro e dizemos que um deles “ficou destruído”. Na maioria das vezes o nível dos estragos não levou à destruição total do veículo.

    O que quero argumentar é que esses elementos pouco precisos ou exagerados – no fundo duas faces da mesma moeda – estão presentes em nosso cotidiano desde que nascemos e sequer nos damos conta deles. Isso faz com que naturalizemos elementos que parecem estranhos a quem não foi socializado como nós. Temos uma forma, no fundo, pouco exigente de lidar com a verdade, profícua em produzir fantasias.

    Em um mundo onde a velocidade da informação não nos permite pensar muito antes de tomar a decisão de aceitar ou não algo que nos chegou pelas redes sociais, esses elementos culturais ampliam a capacidade das falsas notícias contaminarem toda a sociedade. É claro que em quase todos os países existe hoje uma grande tendência em banalizar as informações. É uma armadilha perigosa na qual muitos caem. Esse mesmo fenômeno, entretanto, tem expressões diferentes nas várias sociedades do mundo.

    Já li que no Japão, historicamente, os cidadãos conferem a informação antes de passá-la adiante, por isso lá as fake news não prosperam tanto quanto em lugares onde as pessoas são menos exigentes com a verdade, como Brasil. Em tempos de redes sociais tendemos a reproduzir muita bobagem, coisas inverídicas ou simples fofoca. Ah! Já ia esquecendo, adoramos uma intriga, um comentário maldoso. Nós, brasileiros, rimos disso com facilidade. Outro traço cultural.

    Creio que estamos entrando em tempos difíceis, como já registrei em outro texto nesse mesmo espaço. Tempos em que os donos do poder no mundo digital têm muito pouco interesse em verdades e precisões, e o que temos visto nos últimos dias nos leva a pensar melhor no assunto. No Brasil os estragos tendem a ser bem maiores do que em outras sociedades. Pior para nós.

  • Tempos difíceis

    A engenharia do caos é um dos maiores desafios políticos do século XXI, onde as redes sociais alimentam ideologias extremistas e moldam o futuro das democracias.

    O início do século XX tem muito o que nos ensinar em termos políticos, afinal foi quando começaram a surgir os movimentos conservadores de massa na Europa. O mais denso deles foi o nazismo, na Alemanha, sob a direção de Adolf Hitler. Não menos importantes foram o fascismo na Itália, o salazarismo em Portugal e o franquismo na Espanha. Estou citando apenas alguns que chegaram ao poder em nações muito importantes. Outros tantos deram o tom que permitiu o avanço do nazismo, como na França, por exemplo. 

    Os partidos conservadores de massa surgiram e foram ganhando importância na cena política nos anos 1920 em países como França, Alemanha e Itália. Naquele momento não se poderia imaginar a importância que alcançariam, muito menos que viriam a produzir a Segunda Grande Guerra Mundial, de trágicas consequências, com enorme destruição e milhões de mortes.  

    Já o movimento conservador mais recente teve início sobretudo na década de 1980, basicamente nos mesmos países europeus. Depois do fim do império soviético, alguns países saídos da então chamada Cortina de Ferro, no Leste europeu, também construíram suas direitas em tons mais extremos, como a Hungria, a Polônia e a Romênia. Sem ir muito adiante nos exemplos, quero dizer claramente que já há algumas décadas o mundo está outra vez chocando o ovo da serpente como no início do século XX. 

    As coisas agora, porém, estão mais complicadas. No livro Os Engenheiros do Caos, Giuliano Da Empoli mostra como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio e medo com a finalidade de influenciar eleições. Os exemplos levantados pelo autor são contundentes: através das redes sociais, políticos inexpressivos, popularescos e com um certo ar histriônico vencem eleições importantes e, pouco a pouco, vão tomando de novo a cena política. Existe algo dos anos 1930 no ar, por mais estranho que isso possa parecer a alguns. 

    Creio que, no caso brasileiro, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 seja um exemplo de como a engenharia do caos, movida pelas poderosas redes sociais, criou o ambiente necessário para a eleição disruptiva que todos vimos. Estávamos pouco acostumados com a enchente de informações distorcidas que inundaram nossas vidas a partir de meros aparelhos de telefone celular e de computadores domésticos.  

    As ameaças, porém, foram potencializadas pela eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos da América em 2016, trazendo na garupa fenômenos   semelhantes que ocorreram em diversos países. A extrema direita passou então por enorme crescimento em termos globais. A cena política dos Estados Unidos influencia, por cópia e por articulações de interesses, inúmeros países mundo afora. Todos nós vimos isso acontecer, com o mundo caminhando na direção dos extremismos. Jair Bolsonaro só perdeu a eleição no Brasil em 2022 por suas fragilidades como ator político, mas a direita continua forte entre nós. 

    A nova chegada de Donald Trump ao poder em 2025 reafirma velhos temores: teremos tempos difíceis nos próximos anos. Suas espantosas declarações entre a eleição e a posse, além dos atos anunciados para o início de gestão, não deixam dúvidas sobre sua enorme capacidade destrutiva, seu potencial de espalhar o mal. Pior de tudo, convocou como conselheiros Elon Musk e Mark Zuckerberg, senhores das grandes redes sociais que nos invadem todo dia. 

    Trump vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para liberar o espaço de ação das redes sociais sem qualquer tipo de limite por parte dos governos e das sociedades nacionais. A falta de controle das redes é uma ameaça, pois nelas poderão transitar todo tipo de mensagens e notícias. As redes sociais são o lugar da política hoje, valem mais que partidos ou articulações governamentais, daí sua potência. As guerras contemporâneas nascem do ódio que as redes disseminam. Poucas coisas no mundo têm mais poder do que elas.  

    Com Donald Trump e seus aliados dominando a cena nos próximos anos, teremos certamente muitas ameaças em andamento. O mundo vai passar a caminhar com velocidade na direção que começou a ser traçada há quase quarenta anos. Serão tempos difíceis para aqueles que amam a democracia, a igualdade e a paz. 

  • Refundar as instituições brasileiras

    A reconstrução institucional deve focar no essencial: erradicar a pobreza e garantir o futuro da sociedade brasileira.

    A história institucional de um país se faz ao longo do tempo, se constrói enquanto a sua sociedade, como um todo, vai sendo também construída, edificada. As instituições falam entre si a língua silenciosa dos consensos elaborados no tempo histórico.  Quando observamos as instituições sociais que existem no Estados Unidos ou na França, por exemplo, vemos essas convergências de que estou falando e como o tempo – não nos esqueçamos de que tempo é criação – vai operando nelas. São também os seus imaginários sociais.

    O arcabouço institucional brasileiro também foi edificado e modificado através do tempo. As constituições, suas emendas e modificações surgidas de urgências e emergências vão dando, muitas vezes, o tom desse desenrolar histórico das soluções institucionais, cozidas pelas necessidades sociais. Assim foram elaborados, sob a direção de Vargas, nos anos 1930, dois arcabouços legais para implantar modelos de sociedade e de poder. A redemocratização pós Vargas teve também os seus modelos de gestão da sociedade consolidados na carta de 1946. Os militares que deram seu golpe em 1964 igualmente tiveram uma grande revisão da carta em 1967. Esse vasto número de constituições mostra uma sociedade cujo norte mudou muito, mostrando uma certa instabilidade.

    Nossas instituições atuais, em boa parte, foram redefinidas em 1988, através de uma constituição chamada de cidadã por seu principal condutor no legislativo, o admirável deputado federal por São Paulo Ulisses Guimarães, do antigo PMDB. Ele, como figura do centro do sistema político e partidário, costuro possibilidades à direita e à esquerda, dando assim forma negociada às nossas instituições. O arranjo possibilitou a vida democrática desde então, tornando-se a âncora das soluções que foram sendo criadas pelos legisladores. Foi uma obra de fôlego, com erros e acertos.

    Como o tempo é criação, creio que algumas novas necessidades nas nossas instituições estão claramente colocadas. Algumas delas, criadas por leis e normas, sequer alcançam o texto constitucional. O mais importante é discutir as condições da sociedade que permitem permanências ou exigem alterações. Quero começar meus poucos exemplos, que são apenas ilustrativos, com a estrutura nacional da representação diplomática, uma questão que creio ser global.

    No século XIX e início do século XX precisamos ter embaixadas e consulados em todos os países do mundo. Elas foram desenhadas em tempos em que não havia aviões; as viagens, muito longas, eram por navios. Depois dos aviões, as comunicações contemporâneas evoluíram a ponto de termos hoje uma rapidez impensável há 50 anos, e ainda estamos no início de todo esse processo. As estruturas das embaixadas oferecem serviços hoje desnecessários. Além do mais, sua manutenção é muito dispendiosa, algo sem sentido, já que estamos todos ligados em tempo real. Meu olhar pode ser até simplista, mas de fato precisamos repensar tudo isso, pois deveríamos ter foco urgente em acabar com a pobreza de milhões de brasileiros. Tudo que se afasta dessa meta deveria ser evitado e combatido. Eis a questão.

    Outro exemplo são as forças armadas. Quando as vemos envolvidas em tentativas de golpe, como ocorreu em 2022, percebemos logo que suas cúpulas se julgam como uma espécie de salvadoras da pátria, e me pergunto: quem lhes deu esse mandato? A resposta pode estar no passado, mas a vida da sociedade hoje se faz sobretudo pela capacidade de estar atenta ao futuro. Qual seria então o papel que a sociedade deseja para as forças armadas do país?

    Fico em poucos exemplos, pois não sou especialista em nenhum dos dois temas. Busco apenas chamar a atenção dos meus leitores e leitoras para a necessidade de a sociedade brasileira encontrar o seu caminho para discutir alguns de seus grandes exageros e focar no fim da desigualdade. Nosso sistema político e partidário se ocupa muito em discutir temas de fundo moral, como o uso do banheiro sem definição de gênero em escolas públicas, a pertinência da educação sexual nas escolas e outros mais. Os temas centrais de discussão do nosso futuro como sociedade, contudo, seguem esquecidos, como esses relativos ao tamanho do estado e dos serviços que ele deve nos prestar.

  • O bangue-bangue do café

    Um olhar crítico sobre a violência histórica e suas raízes na sociedade capixaba através da obra de Ezequiel Ronchi Neto.

    Tenho registrado, neste espaço, a importância dos escritores capixabas para analisar os nossos valores. Um deles é Ezequiel Ronchi Neto, um autor maiúsculo, dono de um texto forte, de uma escrita de estilo e, além disso, um grande contador de casos. Ele escolheu escrever contos, pequenas histórias de personagens que viviam na região do Espírito Santo conhecida como Contestado, localizada no Norte do estado. Essas histórias foram reunidas em um livro chamado Bangue Bangue do Café.

    Esses contos são especialmente importantes para a análise da sociologia do cotidiano capixaba, já que narram os pequenos eventos que traçaram o dia a dia de milhares de moradores da região, lá onde o autor viveu. São relatos impregnados do cheiro da realidade daquele lugar, nas importantes descrições do nosso universo caipira, daqueles tantos matutos que enterraram suas vidas em busca de prosperidade.

    As histórias de Bangue Bangue do Café são sobre personagens comuns do Contestado na metade do século XX, boa parte deles gente simples, do povo mesmo, com um foco  especial no município de Barra de São Francisco. Os colonos-meeiros e suas famílias, em grande maioria, eram envolvidos e subjugados por aquele clima de opressão, de violência, de privações materiais e, sobretudo, pelas péssimas condições de moradia.

    Mas os contos trazem também os donos do poder – para usar uma expressão consagrada pelo sociólogo Raimundo Faoro – ou seja: os fazendeiros; os grandes comerciantes, que também compravam e vendiam o café; as autoridades policiais e judiciárias e, para não esquecer, os proprietários de terra. Essa camada social não era formada por gente obrigatoriamente rica. Na verdade, o fator de coesão que os mantinha unidos centrava-se não apenas em suas posses, mas também na cultura da violência, na forma como eles lidavam com o mundo oprimido dos mais pobres.

    Pelo que se depreende da leitura de Bangue Bangue do Café, os poderosos estavam todos unidos pela mesma teia de relações imaginárias, na qual não havia qualquer noção de cidadania, de respeito aos direitos humanos, de justiça e nem de igualdade. Esses elementos eram ausentes, ou então apenas compreendidos de modo muito particular. Nesse universo, o papel das mulheres era visto como totalmente desprezível e sem valor. Assim demonstra uma das falas do personagem Camilão, um fazendeiro dos mais brutos, que encomendava mortes e fazia parte das elites da violência: “ – É…  mulher só serve para ser usada, ter filhos e ficar viúva, animal besta.”

    A região em que tudo acontece está inserida nos limites do Contestado, sobre a qual havia uma disputa de jurisdição entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Disso resultava grande confusão entre justiças e polícias, o que facilitava a fuga de criminosos de ambos os lados de um estado ou município para outro, gerando um verdadeiro trança-trança de bandidos. A região contestada era também zona de poucas cidades e muitas matas, o que facilitava a abundância de esconderijos. O pouco policiamento também ajudava no quadro do banditismo reinante. Ressalte-se o fato de que essa pouca polícia existente estava a serviço dos interesses dos maiores produtores e comerciantes de café. Na verdade, o destacamento policial punha-se a serviço do que poderíamos chamar de elites da violência.

    As forças da ordem não promoviam a justiça, nem reprimiam os crimes de forma imparcial. Bem ao contrário disso, tinham lado. Estavam ao lado do arbítrio e dos interesses do poder de uma forma geral e, de modo particular, contra os pequenos proprietários, os meeiros e suas famílias. Estavam em geral contra os miseráveis de qualquer origem, cor ou gênero. Só respeitavam os que tinham dinheiro, muito dinheiro. Tudo se expressava na presença ostensiva de homens armados, de assassinatos por pequenos ou grandes interesses, fossem para restaurar honra que se julgasse perdida ou mesmo por motivos fúteis. Desse modo atribuíam materialidade a um código de honra de inspiração caipira, de matutos. Tudo isso foi violentamente afetado pela erradicação dos cafezais, a partir de 1966, mas isso é uma história que temos que contar à parte.

    A obra de Ezequiel Ronchi mostra a forma dramática da vida no universo do café capixaba como um todo, no conjunto da nossa extensão geográfica. E não estamos falando somente sobre o passado, de algo que tenha ficado no tempo. Trata-se da construção histórica do presente, do legado de violência e desrespeito pelas dores de cada um, reduzidos que estavam – a maioria dos colonos e meeiros – a serem um simples joguete da exploração e da violência.

    Por isso, considerado o nosso passado, não deveria nos surpreender o número de assassinatos a que até hoje assistimos diariamente, assim como o machismo tóxico e covarde que mata mulheres, adolescentes e meninas. Nosso universo imaginário foi construído assim. A violência é nossa pior herança. É preciso, portanto, compreendê-la através da nossa história para combatê-la no presente.

  • Nós, os capixabas

    Construir um sentimento de pertencimento começa com o reconhecimento e a valorização de nossa história e cultura.

    Antes de sermos capixabas somos brasileiros, é óbvio. Cada brasileiro porta o Brasil dentro de si, gesticula, se alimenta, expressa-se verbalmente, ama e odeia a partir dos códigos culturais que aprendeu. Esses códigos formam em seu conjunto o imaginário social, que se organiza a partir de uma teia de significações densa e extensa. Nela se sobressaem a língua portuguesa falada do modo como nós a falamos, o cristianismo, a miscigenação pela qual passamos ao longo da história. Cito esses exemplos mais claros como elementos centrais, embora existam muitos outros, como a violência e o machismo.

    Nós, os capixabas, estamos para sempre mergulhados e inseridos nesse imaginário nacional brasileiro. Quanto a isso não existe discussão. O Brasil nos invade a todos nós. Entretanto, as culturas regionais no Brasil são muito fortes, basta vermos o exemplo dos gaúchos, dos mineiros, dos pernambucanos. Os capixabas, entretanto, não se dão conta, em boa parte do tempo, da força que tem o pertencimento a uma certa região deste país imenso. Muitas nações do mundo contemporâneo desenvolveram fortemente esse sentimento de nacionalismo, como franceses, italianos, argentinos ou russos – citando apenas países sobre os quais tenho um pouco mais de informação.

    Não é desse sentimento nacional, no entanto, que estou falando. Tento me referir ao regionalismo que existe em cada pequena ou grande região que os compõe, àqueles sentimentos particulares, mesmo que o caráter mais amplo da nação os una, sobretudo em momentos de crise. No caso brasileiro o mesmo raciocínio se aplica. Temos em cada estado federado uma visão muito especial e particular da nossa língua, da alimentação, das religiões populares. Alguns desses locais organizam tudo isso em narrativas próprias, muitas vezes cheias de adjetivos qualificativos, que promovem solidariedade e pertencimento.

    Minha questão chave é: por que boa parte dos capixabas, em boa parte do tempo, não opera da mesma forma? Por que não valorizam a natureza de nosso estado e os elementos mais fortes de nossa cultura? Uma hipótese que sempre me ocorreu é a de que nos conhecemos pouco. Nossa história sumiu das escolas em todos os níveis, acarretando que o interesse dos mais novos pela história de nossos antepassados seja cada vez menor.

    Acredito que a ausência de interesse pelo passado contamina o presente e nos faz compreender pouco aquilo que somos. Não estou querendo propor uma construção de ufanismo regional. Antes, proponho uma reflexão sobre quem somos nós. Tenho feito um esforço para tentar entender essas questões a partir da excelente literatura que aqui temos. Para tanto, escolhi alguns autores muito importantes para fazer um pequeno ensaio de sociologia do nosso cotidiano. Publiquei ao longo de 2024 alguns artigos neste mesmo espaço explorando a obra de alguns deles; quem me acompanha sabe disso.

    Muitos outros estudiosos, mais qualificados que eu, têm feito isso ao longo dos anos, e há muito tempo. Cito, como homenagem, Gabriel Bittencourt, que nos deixou recentemente, e nos ensinou muito de história econômica do Espírito Santo. O Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo vem publicando muitas dessas obras, em atitude louvável do ponto de vista da nossa memória. A área de história da nossa Universidade Federal também muito contribui nessa construção, afinal são dezenas de teses de doutorado e dissertações de mestrado produzias sobre o nosso estado.

    Entretanto, o esforço de alguns não elimina a preocupação de nos estudarmos tão pouco e não avançarmos na construção de uma memória coletiva mais densa e que nos valorize mais. Para citar apenas um exemplo, o ensino de nossa história, de nossas tradições, resta quase esquecido nas instituições de ensino em todos os níveis. Creio poder afirmar que o passado histórico do Espírito Santo resta esquecido ou desconhecido para a maioria de nós.

    Precisamos avançar na construção de um sentimento de pertencimento mais sólido de nosso território cultural, não apenas no nível do ensino e na produção de livros, mas sobretudo na valorização de nossos elementos. A situação privilegiada que hoje temos como gestão em comparação com outros estados é também uma construção coletiva, e isso precisa ser bem compreendido.

  • Militares na política

    Estamos todos acompanhando, através da mídia, à apuração, pela Polícia Federal, da tentativa de golpe de estado que tivemos no Brasil recentemente.

    Estamos todos acompanhando, através da mídia, à apuração, pela Polícia Federal, da tentativa de golpe de estado que tivemos no Brasil recentemente. São dezenas de militares envolvidos na trama. Os detalhes da construção do golpe são de um simplismo que beira o absurdo. Como esses militares manteriam a sociedade coesa em torno deles? Como seriam reconhecidos internacionalmente como representantes do conjunto da nação e dos seus múltiplos interesses? Tudo o que podemos supor é que precisariam impor-se pelo medo e por meio de estratégias totalmente ultrapassadas, como aqueles velhos tanques de guerra e outros carros blindados soltando fumaça que desfilaram em Brasília em 2021.

    O que, entretanto, me chama a atenção não é o fato de um pequeno número de pessoas tentar controlar um país rico e complexo, pois isso pode acontecer em qualquer lugar do mundo. Importante é o fato de um militar no Brasil achar que pode controlar a sociedade porque é mais correto, mais rígido e mais honesto do que os demais. Aliás, a questão de fundo é entender por que uma parte importante da sociedade apoia essa estratégia e até a defende, como temos visto.

    Isso é o que chamo de uma construção imaginária social, algo vivido como natural por um grande contingente de pessoas.  Importante compreender o processo que torna as forças armadas e seus integrantes uma espécie de poder moderador aos seus próprios olhos, legitimando atitudes golpistas. Vários são os fatores que tornaram possível essa construção social. O primeiro deles é que somos um país de histórico autoritário, já que nunca alcançamos atribuir a devida importância às decisões coletivas. Assim foi durante nossa fase colonial e mesmo na imperial, quando, mesmo havendo eleições e partidos, eles não podiam incorporar o conjunto das opiniões. A autoridade para conduzir a sociedade sempre foi para os poucos que concentram muito poder e o exercem de cima para baixo.

    Além de autoritários, temos também uma história social da violência. A imposição de regras por meio de mecanismos não somente autoritários, mas também violentos, sempre foi comum entre nós. Muitos conflitos graves no Brasil foram resolvidos assim, desde o uso da chibata contra os escravizados como por outras punições violentas que derramavam o sangue dos mais vulneráveis. Esses elementos sempre presentes nas “soluções” sociais para nossas crises acabaram por criar saídas que foram se tornando naturalizadas.

    Foi, certamente, a partir dessas significações imaginárias sociais que soluções políticas de força se construíram ao longo do tempo e desse modo atribuíram às forças armadas o papel de resolver impasses. Isso não é um padrão, foi apenas a solução brasileira. Quando as bases que sustentavam o Império se esgotaram, os militares deram o golpe de 15 de novembro de 1889. A quartelada que afastou um imperador querido dos seus compatriotas não parece ter sido um bom início republicano.  O natural seria vencer os impasses de um regime antigo e desgastado por um processo que deixasse aparecer a força das massas. Tanto essa presença militar foi desorganizadora durante a primeira república – entre 1889 e 1930 – que deixou sequelas graves no sistema político.

    Quando Getúlio Vargas, em 1930, afastou os políticos que detinham hegemonia na cena política, também o fez através de um golpe apoiado nas forças da ordem. Até o endurecimento do regime, em 1937, tinha os mesmos traços da forma como fora implantado. Não precisamos falar muito de 1964, quando mais um golpe afastou um governo eleito. Foram muitos atos de força em nossa República, que nem tão velha é.

    A quartelada que se tentou organizar para impedir a posse de Lula assenta-se nesse imaginário social de uma República sempre monitorada pela força das armas, pelas ameaças de morte, pelo poder dos militares. O mais grave, no entanto, não é esse retorno anacrônico, esse desejo de usar a força, mas o fato de ainda encontrar apoio entre a população.

    Creio ser muito perigoso o desejo de grupos sociais no Brasil de projetar soluções pelo uso da força. É exatamente por esse motivo que o imaginário democrático precisa ser sempre trabalhado entre nós, pois os desejos autoritários ainda pulsam e sempre encontrarão apoio entre os mais conservadores.

  • A violência policial

    A violência não é apenas um traço do passado, mas um desafio do presente que exige reflexão e ação coletiva.

    A violência é um dos traços mais marcantes do Brasil, desde sempre. Ela é a marca histórica de uma sociedade que foi fundada pelos portugueses a partir de relações assimétricas não só com indígenas e africanos escravizados, mas também com os estratos menos favorecidos dos que vieram da Europa.

    Fomos fundados naturalizando relações violentas entre todos os membros desta nossa sociedade em que a vingança foi sempre moeda de ajuste de contas, feita com sangue. No regime escravocrata, que reinou entre nós por mais de 300 anos, o açoite era forma de punição e de implantação do medo. Sem o domínio medo a escravidão não se sustentaria.

    A coesão social das elites sempre se fez com o cabo do chicote na mão. A naturalização da violência é uma marca muito perversa. Os poderosos, sentindo-se donos da lei,  entendiam poder usá-la quando quisessem e contra quem escolhessem. É claro que os mais vulneráveis sempre foram os principais objetos das punições desmedidas e também dos ódios gratuitos, das relações de classe as mais odiosas.

    Mesmo a modernização da nossa sociedade, trazida pelo republicanismo dos positivistas, pelo progresso material e das bases produtivas nacionais, foi feita com essa herança histórica. Basta observarmos como agiram os coronéis com a sua ideia de progresso e de melhoramentos, os verdadeiros agentes do capitalismo brasileiro. Mesmo que eles tenham marcado com seu estilo mais desenvolvimentista o enriquecimento trazido pelo café, pelo cacau, pela borracha, pela industrialização e os beneficiamentos por meio de novos serviços públicos, ainda assim eram figuras muito violentas.

    Cada um dos grandes coronéis da segunda metade do século XIX e do início do século XX, grandes proprietários de terra, com suas milícias privadas – seus pequenos exércitos – distribuía uma ordem e uma justiça que lhes eram muito particulares. Eles ainda portavam traços herdados da situação colonial. Muito tardiamente ainda permanecia entre nós essa naturalização da violência.

    Analisei em alguns artigos essas marcas em grandes autores da literatura capixaba. Em todos eles consta que as delegacias do interior eram lugares onde se distribuíam bordoadas, segundo critérios socais, em pretos, pobres, gente sem propriedade. Os pobres sempre foram os que sofreram no próprio pelo as dores dessa nossa tragédia social.

    A violência sempre se deu sobre os elos sociais mais frágeis, somente para lembrar a todos como se construíram as formas como vivemos a violência policial no Brasil. Assim, os fatos largamente noticiados sobre o que anda se passando na ação da Polícia Militar de São Paulo são comuns a todas as forças da ordem no Brasil. O crescimento recente de setores de extrema direita, sua defesa do porte de armas pelas pessoas comuns, seu suporte ao retorno de padrões ditatoriais de gestão do estado e do aparato policial, certamente agudizaram muita coisa, mas estão longe de ser a origem desses fatos. Claro que as palavras têm poder. Não se pode glorificar atos selvagens. Os gestos mal pensados dos atuais donos do poder nada têm de dignificante. Eles devem mesmo se desculpar perante a população, afinal seus atos ou omissões foram gatilhos para situações horríveis. Os dispositivos internos das Polícias Militares, feitos para beneficiar e proteger  os profissionais mais violentos, devem ser extintos.

    Entretanto, o mais grave de toda essa questão da violência policial, muito noticiada em São Paulo, é que os dirigentes não se desculpam em público dizendo exatamente o pensam, são desculpas de fachada. Todos conhecem bem suas posturas de defesa permanente e até celebração dos atos violentos, que infelizmente soam como música aos ouvidos de milhões de brasileiros. Isso é o que parece ser a questão mais densa das nossas heranças culturais, das nossas raízes imaginárias sociais. Como é que se instituiu uma sociedade na qual, independentemente de seu lugar social, as pessoas aprovam o uso indiscriminado da força contra meros suspeitos? Nessa sociedade, quem vive nas favelas e periferias é sempre tratado como se fosse bandido pelas autoridades da ordem.

    Está claro onde se localiza essa raiz, a origem desse fenômeno na nossa jornada histórica como sociedade, com a naturalização de padrões que nunca poderiam ser admitidos como naturais e na forma como essa realidade é vivida por grande parte dos brasileiros. A ação pedagógica de punir os atos violentos das forças da ordem não deveria dizer respeito somente aos dirigentes e policiais, embora eles sejam os atores sociais chave, mas sim a toda a sociedade, especialmente na parcela da população que aceita, apoia, justifica e naturaliza grandes barbáries.

  • Eles ainda estão aqui

    Filme “Ainda Estou Aqui” revive os horrores da ditadura e emociona o público ao narrar a história de Rubens Paiva.

    Assisti, há alguns dias, o extraordinário filme de Walter Salles Ainda Estou Aqui. Fiquei muito emocionado e entristecido, como quase todos os milhões de brasileiros que têm ido aos cinemas para mergulhar por algum tempo nos anos de chumbo que infelizmente vivemos no Brasil. O extraordinário texto de Marcelo Rubens Paiva, que é a base do roteiro, o desempenho dos atores, em especial o de Fernanda Torres, tudo nos leva ao despertar das nossas emoções.

    O que mais chama a atenção é o modo como o exército brasileiro foi capaz de sequestrar um bom pai e marido carinhoso, um político que fora cassado e que tentava reconstruir sua vida na iniciativa privada, na área de construção civil no Rio de Janeiro. Em seguida o exército levou Rubens Paiva como prisioneiro para dentro de uma de suas dependências para matá-lo, como foi anos depois comprovado. Mais do que isso, penso em como puderam levar sua esposa – na verdade já viúva, sem o saber, visto que os documentos oficiais atestaram a morte do prisioneiro 24 horas após o sequestro – para um lugar sórdido, de forma proposital, para que ela ouvisse os gritos de outros presos sendo torturados.

    Tudo ao que assistimos no filme é assustador, tanto que o público permanece em silêncio profundo e sai da sala da sessão com olhos vermelhos de chorar pelo que acabou de ver. Choramos, na verdade, os muitos mortos por aquele regime de horror, que enquanto produzia o chamado milagre econômico, enquanto ficava popular entre os setores médios da população, matava os seus críticos. Os que acompanharam as matérias recentes sobre o crescimento do crime organizado no Brasil viram que figuras como o Capitão Guimarães nasceram naquelas masmorras que mataram Rubens Paiva e torturaram psicologicamente a admirável Eunice Paiva.

    O filme não retrata só o passado, ele também trata do presente entre nós. Vimos agora, pelo indiciamento em processo da Polícia Federal que, no governo brasileiro que perdeu as eleições de 2022, houve um movimento pelo retorno dos governos como aqueles que mataram Rubens Paiva de forma covarde. Não apenas ele, mas milhares de outros opositores, em sua enorme maioria jovens. Mais do que isso, um  recente ex-governante do nosso país ameaçou interromper o processo democrático  inúmeras vezes, como quando desfilou com seus velhos tanques em Brasília.

    Certamente a anistia dada aos torturadores em 1979 foi um grande equívoco, um dos maiores erros na construção democrática brasileira dos anos recentes. Nenhuma violação como aquela que vimos em Ainda Estou Aqui foi investigada ou apurada, nenhum daqueles gorilas que faziam pingar sangue do corpo de inocentes teve seus atos trazidos a público para o julgamento da sociedade. Tanto que talvez aquele que tenha sido o mais brutal dos torturadores do regime militar, o coronel cujo nome não merece ser citado, foi homenageado pelo então deputado Jair Messias Bolsonaro ao votar pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Só isso já mereceria sua cassação, se os crimes cometidos pelo regime militar tivessem sido apurados pela justiça e o torturador homenageado houvesse sido devidamente condenado pelas  atrocidades que cometeu. Outro fato a ressaltar, como muito bem registrou o jornalista Vitor Vogas em artigo recente, que Marcelo Rubens Paiva relata que Jair Bolsonaro, quando deputado federal, literalmente cuspiu no busto erguido em memória de Rubens Paiva na Câmara dos Deputados, em Brasília.

    Um candidato a tirano tentar dar um golpe com a ajuda de um certo número de oficiais das forças armadas já é em si espantoso, mas o que me parece mais difícil de entender é como milhões de brasileiros ainda apoiam uma atitude como essa. É comum observarmos pessoas da nossa convivência, seja dos setores médios ou mesmo dos meios populares, ainda defenderem com vigor a volta dos governos ditatoriais ou, no mínimo, aprovarem os gestuais autoritários que dão passagem às narrativas pela suspensão do estado democrático.

    Para não irmos mais longe, basta lembrar das multidões que se aglomeravam diante dos quartéis pedindo que um golpe impedisse a posse do presidente eleito em 2022. Vindas de uma sociedade violenta como a brasileira e sujeitas às mentiras que circulam pelas redes sociais, muitas pessoas de bem cederam e cedem ao discurso fácil dos populistas de direita. O que me parece é que o pesadelo da família de Rubens Paiva não é um fato sobre o qual possamos ter certeza de que não voltará; não ainda. Talvez um passo importante seja a condenação, agora, para servir de lição, daqueles que querem articular o retorno do regime cruel que infelicitou a vida de tantos brasileiros.

  • Nossos extremismos.

    O impacto da violência e das redes sociais na radicalização política do atual cenário do Brasil.

    As notícias no campo da política nas últimas semanas estão tomadas pelo extremismo, por um certo número de atos violentos que até bem pouco tempo não eram comuns no Brasil. Antes pelo contrário, nossa sociologia sempre falou do homem cordial e do caráter mais alegre de nossa gente, de relações menos tensas na nossa sociedade. Nós sabemos que boa parte dessa cordialidade esconde nossa natureza hierarquizada, violenta e impregnada de um machismo tóxico. O coronelismo que marca nossa história política é prova concreta disso. No tempo dos coronéis os grupos armados que sustentavam o poder no interior do país eram muito comuns, assim como a pressão que eles exerciam sobre os mais vulneráveis. A troca ostensiva de votos por favores é outra dessas marcas.

    De fato, a violência sempre esteve bem presente na nossa política, mas não da forma como está instituída hoje. Estamos vivendo um momento diferente, em que passamos a conviver com práticas ligadas à divisão por ideologias e por grupos de lideranças. De modo contrário ao que historicamente sempre vimos, com as grandes disputas nos municípios ligadas às eleições, agora temos um processo mais permanente, que nos acompanha todos os dias e em todas as instâncias, atingindo um nível de radicalização muito alto.

    As notícias que nos chegam falam de um homem-bomba em Brasília – ao que eu saiba, o primeiro da história política brasileira – além da tentativa de assassinato do Presidente da República, de seu vice e do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Todos esses são fatos novos entre nós. Eu arrisco afirmar que na política a violência subiu de escala, passando a fazer parte do nosso cotidiano de forma diferente. Nem mesmo os golpistas de 1964 foram tão longe.

    Até alguns anos atrás havia disputas acirradas que dividiam famílias e cidades. No tempo dos velhos partidos – PSD, UDN, PTB e outros – cada reduto eleitoral tinha seus chefes políticos, que controlavam a vida e os cargos públicos. Quando os chefes disputavam as eleições os seus partidários ficavam inflamados, o que sempre gerava algum enfrentamento mais vigoroso.

    Passados esses momentos todos voltavam à antiga convivência, toleravam-se bem, mesmo que cada bolha buscasse seu espaço. O atual tempo das redes sociais, porém,  mudou tudo isso. Agora o relativo anonimato, a comunicação massiva, os grupos de whatsapp, nos quais todos se expressam de forma muito convicta, gerou uma possibilidade de conflito que antes não estava colocada. Creio que mereçam atenção especial as chamadas fake news, em bom português as mentiras mesmo. O mundo das redes sociais é o campo das intrigas, das maledicências e das provocações. Como é tudo muito novo, não há regras capazes de conter a mentirada que rapidamente se espalha.

    As pessoas mais velhas, que já se encontram fora do mundo do trabalho e das múltiplas ocupações do dia a dia, e portanto têm mais tempo disponível, são as mais vulneráveis. Como entraram tarde nesse novo universo digital, deixam-se levar pelas mais grosseiras montagens, divulgam farsas elementares julgando que estão contribuindo para uma revolução, para denúncias graves. Não se dão conta de que são um exército iludido de pessoas bem intencionados a serviço de uma ordem que não se sabe onde está.

    As redes sociais passaram a ser o lugar do extremismo político, onde milhões de analógicos divulgam o que não sabem se é verdade e sem nenhuma consequência. Desse modo, o universo das intrigas, que sempre fez parte das nossas vidas, passou a alcançar outra dimensão.

    O nosso mundo da fofoca e da violência ganhou a potência das redes sociais. Nesse mundo, os novos líderes – com destaque especial para os extremistas de uma nova direita –  desempenham um papel especial. Os horrores do machismo, de um patriotismo anacrônico, de patamares de linguagem chula e violenta viraram o playground dos avôs e das avós brasileiras. Dessa forma foi aos poucos se naturalizando uma violência verbal que antes não havia entre nós, pelo menos não nessas proporções. Os homens-bomba, aqueles que quebraram tudo no prédio do Supremo Tribunal Federal, aqueles que apoiam os que desejam matar o presidente, nascem todos nesse metaverso. São levados a pensar podem tudo.

    A defesa da liberdade de agressão marca a narrativa política dos novos tempos e dos velhos senhores e senhoras do nosso mundo social. Daí nascem desejos que pareciam sepultados, como o do retorno da ditadura militar, que terminam por se disseminar no seio das famílias mais conservadoras. Creio que isso está longe do fim. Somente com a disciplina nas redes sociais, com a criminalização do compartilhamento irresponsável de mentiras, esses ataques virtuais começarão a diminuir. Até lá precisaremos de muita paciência e diplomacia para lidar com esse novo universo virtual cheio de homens-bomba, de amigos e familiares com seus discursos inflamados e agressivos nas mensagens pelas redes sociais.