• A realidade e seus contrários

    A nova ordem mundial em construção: entre a assertividade de Trump, o poderio chinês e a fragilidade das instituições globais, o futuro geopolético se desenha entre riscos e possíveis equilíbrios.

    A publicação regular de artigos semanais, como venho fazendo há alguns anos, possibilita a interlocução com os leitores sobre os temas abordados, facilitada pelos aplicativos de mensagens, como o WhatsApp. Muitos são os amigos com os quais perdemos a convivência diária. Um deles, amigo há muitos anos, – desde que almoçávamos, nos fins de semana, em um grupo sempre animado no Restaurante Pirão, na Praia do Canto – é Júlio César. Formávamos uma mesa animada,  “a diretoria”.

    Quando discutimos os meus artigos, nossas opiniões não obrigatoriamente convergem, mas sempre me enriquecem e colaboram na construção de novas abordagens. As conversas que tenho tido com ele e com outras pessoas que gostam do intercâmbio de informação estimulam as trocas de opiniões, sempre muito positivas.

    Em uma dessas conversas recentes dialogamos sobre o início do segundo governo de Donald Trump. Eu havia registrado minha perplexidade sobre a sua postura agressiva, como personalidade política e como o dirigente mais poderoso do mundo, em relação aos mecanismos e instituições que regulam as relações internacionais. O argumento que havia desenvolvido no artigo sobre o qual falávamos dizia respeito às reações às medidas tomadas por seu governo, que vão se organizando em todo o mundo. Ou seja, muito do que vai passar a acontecer não ocorrerá obrigatoriamente como foi pensado pelo presidente dos Estados Unidos, e nem poderia ser, já que cada governo tem a sua reação.

    Como dizia o filósofo político Cornelius Castoriadis, os atores não dominam os processos que iniciam, e assim vai sendo gerada uma nova ordem mundial, um novo arranjo de articulação das relações entre os países. Quando a primeira guerra mundial acabou, não se acreditava que fosse possível haver uma outra que envolvesse os países europeus. A segunda grande guerra mundial, porém, foi ainda mais avassaladora, envolveu um maior número de países em vários continentes e deixou mais de 60 milhões de mortos, além de uma devastação generalizada. Somente o lançamento das duas bombas atômicas sobre cidades japonesas já seria, em si mesmo, uma tragédia.

    Os grandes líderes e dirigentes do mundo que saiu da guerra, na segunda metade dos anos 1940, construíram instituições e normas que garantiram quase 80 anos de paz entre os países mais importantes do globo. No final dos anos 1980 falava-se do “fim da história”. Afirmava-se que o sistema democrático e liberal baniria as guerras e que o futuro das nações seria muito parecido. Entre as instituições que garantiram a paz estavam a ONU, a OTAN e um vasto número de acordos com base em noções de direito internacional que foram enraizados e praticados com naturalidade.

    Entretanto, essa estabilidade mostrou-se mais frágil do que parecia, pois ao longo do tempo algumas fontes de desiquilíbrio foram se instalando. Entre elas chama a atenção a força que a China adquiriu. O país é hoje uma espécie de fábrica de todo o mundo, com enormes reservas financeiras e uma capacidade de influenciar decisões que sequer seria sonhada quando segunda guerra mundial acabou. A China é um país totalmente imerso no capitalismo global, mas não se trata de uma democracia. É uma ditadura comandada por um rigoroso partido comunista. Essa direção autoritária pode impor aos chineses estilos de vida que dão enorme vantagem competitiva ao país, mesmo que à custa da liberdade individual de grande parte de sua enorme população,  gerando grande produção e baixo consumo.

    Esse novo entrante no ciclo privilegiado das grandes nações do planeta desequilibrou muito o jogo, mas não se trata apenas disso. Estou sendo muito simplista para dar uma visão mais genérica do que está acontecendo. É a busca por um novo arranjo internacional, que levou o eleitorado estadunidense a escolher Donald Trump como presidente, o qual já começou seu mandato embaralhando tudo. Dono de um estilo teatral, espalhafatoso e prepotente, ele faz ameaças às economias que representam qualquer risco à dominação que os Estados Unidos vinham exercendo há quase um século.

    Aqui é que entram os meus diálogos com Júlio César, nas consequências reais desse rearranjo das forças do planeta em torno de uma nova ordem internacional. Pode ser que nem todas sejam negativas. Um exemplo poderia ser a necessidade de a América Latina se organizar em torno do desejo de um grande número de países diferentes entre si. Outro seria a união dos vizinhos da Palestina, como o Egito e outros países do mudo árabe, para elaborarem uma alternativa de reconstrução da Faixa de Gaza, longe da proposta do resort de Trump. Pode-se ainda citar a expectativa de a Europa puxar uma nova organização de instituições que exclua os Estados Unidos.

    Acredito que existam as condições hoje para um confronto armado entre EUA e China, que passe a envolver também inúmeros países. Uma nova guerra mundial. Pode ser ainda que, dentro de uma perspectiva tensa e cheia de perigos, surja um novo equilíbrio. Só o futuro dirá.

  • Lideranças esgotadas

    Análise aponta que a polarização política, agravada pela desconexão com evangélicos e jovens, explica a erosão de apoio ao governo Lula e projeta cenário desafiador para 2026.

    emos visto, quase que diariamente, nos meios de comunicação, o crescimento do descontentamento dos brasileiros com o terceiro governo do presidente Lula. Grupos sociais como as mulheres e eleitores de territórios como os do Nordeste chamam a   atenção nas quedas nas pesquisas. Os níveis de descontentamento, entretanto, são generalizados, não são fenômenos de bolhas sociais. Trata-se de algo mais amplo.

    As especulações sobre as razões que levaram o governo quase à lona têm sido feitas com muita frequência e nos mostram pontos importantes do processo de erosão da sua popularidade. Entretanto, é importante chamar a atenção para alguns pontos fundamentais no quadro de dificuldades ora instalado, o qual fatalmente complicará a situação do governo frente à sua própria sucessão, em 2026.

    Em primeiro lugar, acredito que a maioria dos petistas não se deu conta de que foi mais Bolsonaro quem perdeu do que Lula quem ganhou a eleição de 2022. O ex-presidente teve crédito político ao organizar entorno de si o que podemos chamar de nova direita brasileira. Costurou com perfeição pontos concretos de insatisfação com o sistema vigente, agudizados pela incapacidade da então presidente Dilma Roussef para gerir a política.

    O mérito de Bolsonaro e seu grupo foi perceber a força de renovação conservadora que portam os evangélicos, até então desprezados pelos políticos tradicionais e por intelectuais de uma forma geral. Ouso dizer que o fator chave que dá densidade ao pensamento dessa direita que hoje temos no Brasil é o cristianismo conservador. A Argentina, por exemplo, que não tem a mesma potência política dos evangélicos, busca sustentar o governo de Milei nas forças econômicas e de mercado. Aqui a narrativa reacionária cumpriu um papel eleitoral definitivo.

    Essa nova direita venceu as eleições de 2018 comandada por Jair Bolsonaro e provocou uma disruptura totalmente inesperada, com derrotas importantes na maioria dos estados brasileiros. Entretanto, o governo que saiu das urnas nesse processo teve resultados muito ruins, com poucas entregas. Podemos dizer que Bolsonaro perdeu as eleições porque falou demais, tentou fazer muita graça e errou nos deboches da pandemia. Além disso, massacrou a cultura, as universidades e a ciência, de forma geral.

    Lula deu aos setores que perderam em função dos excessos e incompreensões de Bolsonaro uma esperança de superar o atraso que estava colocado: ameaças ao meio ambiente, aos povos indígenas e às comunidades quilombolas, por exemplo. Creio que boa parte dos eleitores de Lula em 2022 esqueceu, naquele momento, o antipetismo e foi às urnas para evitar um segundo governo Bolsonaro. Creio mesmo que  Bolsonaro perdeu por merecimento, ao passo que Lula ganhou jogando parado, impulsionado pelos erros do seu adversário e pela memória de seus feitos em governos anteriores.

    Vencer uma eleição e montar um governo, quando boa parte dos seus eleitores não tem mais encantamento com sua liderança, não é simples. Sem o magnetismo pessoal de outros tempos e sem adesões emocionais fortes, como gostam os brasileiros, o governo começou tentando montar velhas lógicas. Nada de muito novo apareceu, destacando-se a repetição de antigas lideranças que acompanham Lula há décadas. O atual governo precisava ter encontrado novos eixos de relação com a sociedade, mas ao que parece não os encontrou, daí o mau desempenho nas pesquisas.

    Vou ficar em dois exemplos: evangélicos e juventude. O governo do PT não encontrou meios de estabelecer uma relação qualificada com o mundo dos que antes chamávamos de crentes. Ficou na superfície, não trouxe nenhum quadro novo saído desses setores sociais e nem incluiu as demandas evangélicas nas políticas públicas. As suas redes de trabalhos sociais não foram beneficiadas, seus líderes também não. A prosperidade que desejam ficou nos discursos da direita.

    As juventudes, sobretudo as de periferia, mas também as dos setores médios, com sua arte inovadora, seu engajamento nas redes sociais, seus desejos de igualdade e liberdade, não são compreendidas pelo atual governo. Na pior das posturas, Lula não fala para os jovens mais conservadores evangélicos e nem para os mais ligados aos temas identitários da classe artística, dos coletivos urbanos ou do público universitário.

    O fato de ter vencido Bolsonaro ficou no passado. É preciso ir adiante no enfrentamento das velhas questões nacionais. O Brasil pode ter uma eleição presidencial no ano que vem sem as duas velhas raposas, e aí o novo se imporá. Parece ser esse o nosso caminho,  buscando benefícios para todos, longe das ideologias que não geram bons governos.

  • Capitalismo violência e progresso

    A construção do capitalismo no Brasil reflete uma articulação desigual entre o arcaico e o moderno, com os coronéis industriais como principais agentes dessa transformação

    As diferentes sociedades no mundo tiveram, cada uma delas, os seus agentes de promoção ao capitalismo, sobretudo no século XIX. Foram eles que ajudaram, de forma especial, a fazer a passagem dos antigos sistemas econômicos tradicionais para as formas automatizadas de produção.  Sendo um pouco simplista, posso afirmar que também impulsionaram a sociedade aos padrões modernos de consumo.

    No caso da maioria dos países europeus esses agentes foram os industriais, além dos trabalhadores em suas fábricas. Os primeiros livros que tratam dessa transformação econômica e social, como A Riqueza das Nações, de Adam Smith, escrito no século XVIII, ou mesmo o do pai administração moderna, Frederick Taylor, com o seu Princípios de Administração Científica, já no início do século XXdescrevem sob diferentes ângulos o mesmo processo de criação de novos valores sociais.

    Na gênese, Adam Smith faz as primeiras reflexões de que se tem notícia sobre a especialização no mundo do trabalho, citando o caso do aumento de produção que ela provocou em fábricas europeias do seu tempo. Creio que poderíamos chamar esse fenômeno de ganhos de produtividade, com o fracionamento do trabalho. Os trabalhadores especializados nas fábricas produziam muito mais do que os antigos artesãos das corporações de ofício medievais, essa era a tese.

    Quanto a Taylor, engenheiro nascido nos EUA, suas reflexões já foram produzidas em um sistema não só especializado, mas também automatizado pelas máquinas movidas a vapor ou, sobretudo, pela energia elétrica. Em ambos os casos, com perspectivas analíticas muito diversas, o que temos é o enaltecimento de um mundo novo, que foi surgindo com muita velocidade, sendo hoje hegemônico.

    Olhando esse movimento de um outro ângulo, Karl Marx, em O Capital, ou no Manifesto do Partido Comunista, escrito junto com Engels, concebeu uma teoria sobre o papel dos conflitos entre a classe operária e os detentores do capital.  Mostrou as perdas que os operários tiveram até então, concebendo os conflitos entre essas duas classes como o motor da história. Ou seja, Marx deduziu que devemos a esses conflitos os movimentos dos avanços sociais possíveis, portanto os operários deveriam insistir neles e se organizarem para as lutas que certamente viriam.

    No caso brasileiro, o que se passou foi bem diferente. Aqui não observamos os mesmos movimentos da sociedade construindo novos modos de produção. De forma diferente, foram os proprietários do capital agrícola e comercial que importaram novos equipamentos produtivos, iniciando outra etapa de produção, agora industrial. Foram os antigos usineiros, ou outros capitalistas nacionais, que importaram máquinas e tecnologias para a produção de açúcar, já no século XX, e esse é apenas um exemplo.

    Esses antigos usineiros, comerciantes de açúcar, eram os nossos velhos coronéis. Os homens poderosos do início do século XX no Brasil republicano eram coronéis na sua quase totalidade. Era o nome que as pessoas pobres e dependentes desses senhores davam a todos os que tinham alguma fortuna. Assim, os homens poderosos e relativamente ricos daquela época eram chamados de doutores, se o fossem, ou de coronéis. Eles foram os agentes de construção do nosso capitalismo moderno, ainda que tivessem muitas marcas dos potentados rurais descritos por Raymundo Faoro em Os Donos do Poder.

    Portavam o que os republicanos positivistas chamavam de progresso: as novas máquinas, os novos estilos de vida que a industrialização permitia, a vida urbana com luz elétrica, as ferrovias, o cinema e outras modernidades da época. O grande industrial de origem cearense Delmiro Gouveia construiu em 1911 em Alagoas uma fábrica de linhas com uma vila operária que possuía requintes urbanos, destacando-se na região. Farmácias, serviço médico, luz elétrica. Em tudo lembrava uma vila inglesa, menos em um detalhe: quem infringisse as normas, como trabalhar descalço ou não fazer uso regular dos serviços de saúde, era tratado no chicote.

    Em tudo Delmiro Gouveia expressou o coronel industrial que estou descrevendo, portador do progresso das novas técnicas produtivas consolidadas no século XX, mas ao mesmo tempo trazendo a marca indelével das elites brasileiras acostumadas a tratar o povo com brutalidade. Violência e progresso nas mesmas mãos, esse é a marca da construção do nosso capitalismo. O coronel foi o seu grande agente, talvez por isso o nosso imaginário da modernização una de forma tão cabal os velhos métodos de trabalho vindos da escravidão com as novas tecnologias industriais. Essa articulação desigual entre o arcaico e o moderno é marca da civilização brasileira, como muito bem vem registrando Roberto DaMatta ao longo de sua obra, que explica os dilemas da sociedade brasileira.

  • A reação às mudanças

     

    O início do século XX foi um período de muitas transições sociais em todas as sociedades ocidentais. Relatos sobre essas mudanças estão presentes no excelente livro de crônicas de João do Rio A Alma Encantadora das Ruas, que reúne seus textos publicados imprensa carioca no início do século XX. Ele que foi o cronista por excelência do Rio de Janeiro da Belle Epoque. Fica claro, na leitura, o impacto das transformações pelas quais o mundo ocidental passava. Não deve ter sido essa a intenção mais forte do autor, provavelmente foi fazer denúncias do desprezo das elites da época pela população pobre, e sem direito a cidadania. Também trata da força dessas pessoas que viviam longe das elites, abandonadas. As crônicas são de uma elegância que fazem sua leitura muito agradável, apesar do conteúdo forte.

    Entretanto, quando buscamos uma compreensão mais sociológica do que escreveu João do Rio, observamos o impacto enorme que trouxeram as mudanças das novas invenções no cotidiano das pessoas comuns. São a energia elétrica, o telegrafo, as locomotivas a vapor, o automóvel, o cinema e tantas outras. Ele aborda personagens de um mundo que ia morrendo como os veículos de tração animal e seus condutores, por exemplo.

    Deixando o Rio de Janeiro, e indo para o cenário europeu, podemos imaginar uma Paris com metrôs e os primeiros aviões experimentais, dos balões dirigíveis e dos aviões de Santos Dumont. O cotidiano das maiores cidades mudou enormemente e, tempos depois, veio o rádio que modernizou a comunicação e criou aquela música que chegava às multidões, como o samba de Noel Rosa no Brasil.

    Penso nisso para fazer um paralelo entre as modernidades do começo do século XX e as brutal reação que representou o nazismo nesse mundo em transformação. Não sei exatamente o peso do confronto entre modernização e atraso na construção dos enfrentamentos políticos nas diferentes sociedades europeias. Muitas viveram o crescimento e a ascensão da extrema direita:  Alemanha, Itália, Espanha ou Portugal. Enfim, o fato concreto é que essas diferenças de comportamentos e expectativas dentro das nações acabou levando a Segunda Guerra Mundial, conflito que matou milhões de pessoas, em praticamente todos os continentes. Não ouso afirmar que essas foram as principais razões da guerra, mas ela não existiria sem o ingrediente beligerante que já estava colocado.

    Hoje as mudanças são outras, mas temos que reconhecer que a complexidade das inovações trouxe também transformação nos nossos cotidianos. Para ficarmos em um exemplo forte, pensemos no movimento identitário, que já tem longa jornada em muitas e diferentes sociedades. Nos Estados Unidos, começou com as lutas do fim dos anos 1960 como o movimento negro ou a libertação das mulheres à submissão ao mundo masculino, dentre outros. Produziu heróis como Martin Luther King e foi muito absorvido pela ala mais à esquerda do Partido Democrata, e atualizou muito sua pauta de lutas. A gestão Obama, por razões raciais óbvias acirrou os conflitos. A reação republicana deu-se com a eleição de Donald Trump em 2016.

    O presidente Trump conduziu, em seu primeiro mandato, forte reação às essas políticas identitárias, mas também agregou a isso forte desilusão com o sonho dos cidadãos estadunidenses, vindo do pós-guerra, como a nação mais potente do mundo. Ela era capaz de distribuir bem-estar a maioria de seus habitantes.  A reação brutal organizada pelo novo presidente articula pelo menos essas duas instâncias. É muito enraizada no imaginário daquele povo.

    Todo processo de mudanças produz desconforto a quem estava bem instalado antes dele, como é o caso das nos Estados Unidos das elites ricas e brancas, sobretudo os homens e os de espírito mais conservador. É um sentimento até natural, mas que tende a se transformar em lutas internas importantes. Há um século, foram anos entre o nascimento da reação ao novo, o embate da Primeira Grande Guerra Mundial e a ascensão do nazismo e do fascismo. No mundo atual tudo é muito mais rápido, a dimensão digital também acentuará a velocidade os problemas advindos do surgimento de um movimento estruturado na reação às mudanças, hoje já instaladas também no terreno da economia como estamos vendo nas super taxações do governo Trump.

    Explodirão grandes conflitos entre nações do mundo, seus nacionalismos recém trazidos à tona, seus espíritos de reação às mudanças de comportamento e de valores morais, tendem a ser estopins poderosos a desentendimentos que podem se espalhar por muitos países, a começar pelo mundo árabe. Muito vai acontecer ainda este ano.

  • A República Brasileira

    O projeto político que Getúlio Vargas implantou no Brasil a partir do Golpe de Estado tentou desconstruir a imagem da nossa Primeira República.

    O projeto político que Getúlio Vargas implantou no Brasil a partir do Golpe de Estado que o levou ao poder tentou desconstruir, deliberadamente, a imagem da nossa Primeira República – aquela que governou o Brasil entre 1889 e 1930 – assim como negar seus avanços. Eles foram obtidos no processo de construção gradual de uma sociedade democrática nos moldes concebidos no século XIX, sobretudo na França e nos Estados Unidos. E esses avanços não foram poucos, afinal estávamos saindo de um regime monárquico centralizador, e acreditava-se em processos sociais mais participativos e na autonomia das elites regionais.

    O primeiro movimento dessa campanha para manchar a imagem republicana foi   denominar “República Velha” ao regime que o antecedeu, para, justamente, criar um sentimento negativo, com forte carga pejorativa. Como Vargas queria implantar um processo político percebido pelos brasileiros como novo, nada melhor do que todos pensarem que a república implantada em 1889 era, de fato, velha.

    Tanto isso é verdade que, no segundo golpe dado por Vargas, em 1937, com a implantação de uma ditadura, a denominação dada foi Estado Novo.  Aí é que se trabalhou como fundamento do novo modelo a pretensa falência da república liberal brasileira. Os formuladores do governo autoritário foram intelectuais como Oliveira Viana e Alberto Torres, que tentaram vincular o que consideravam atraso econômico e social brasileiro às políticas liberais das nossas oligarquias, sobretudo as cafeeiras do eixo Minas – São Paulo, a chamada república café com leite.

    Havia muito o que corrigir nas políticas dos coronéis que tomaram conta do poder a partir de 1889, isso não se discute. O viés elitista que a proclamação da República trouxe é inegável, como é igualmente inegável o fato deque pequenos grupos partidários também se apegaram muito ao poder. As oligarquias estaduais eram produzidas nas estruturas familiares dos governantes, e governos inteiros eram consolidados a partir desses critérios de clãs. Entretanto, não podemos esquecer que esse é o caminho mais do que natural de todos os governos.

    Os atores políticos se apegam aos regimes que ajudaram a implantar, criam grupos que se apropriam de muitas vantagens que o poder possibilita. Para não fazer distinção ideológica, basta ver o que aconteceu na União Soviética, nos governos da esquerda no Brasil ou ainda na Venezuela. Foi assim também com a nossa nascente República. Ela prestou grandes serviços ao nosso processo civilizatório, pois não podemos esquecer que eleições foram implantadas em todos os níveis de governo e queprocessos sociais foram atualizados. Tudo se iniciou com a vontade de renovação, de progresso e de participação política de jovens doutores positivistas e maçons, em grande parte.

    Eram os filhos dos coronéis da Guarda Nacional, os que detinham em seu tempo as estruturas do poder econômico nas mãos. Esses coronéis eram, em grande parte, fazendeiros, com especial atenção para os grandes plantadores de café. A geração dos homens ricos do império, os empresários, desejavam se livrar das amarras de um poder sem compreensão da dinâmica econômica que estava sendo implantada. Os jovens doutores, a geração de seus filhos e genros, buscavam canais de prosperidade dentro dos ditames da ciência, sobretudo a de inspiração positivista. A preocupação com a nossa educação mais inclusiva nasce aí.

    Essa foi a tradição que fundou a república, a renovação dos modos de fazer política e a atualização dos processos sociais, como educação e saúde. Os critérios da ciência, tão em voga no final do século XIX, foram o seu fundamento. Na tese da entropia, todo sistema social caminha para a morte ou para o inevitável envelhecimento. Assim foi com a Primeira República, assim também foi depois com a Era Vargas. Penso nisso para lembrar aos que me leem que não podemos ser muito severos com os sistemas que envelhecem, nem odiá-los por isso. Todos envelhecerão, mesmo os que parecem muito modernos hoje.

    A ideia de que estava tudo errado antes de nós não costuma ser boa conselheira. Ela pode conduzir a exageros que só nos causam transtornos, quando gera seus contrários na sociedade. Olho com muita cautela o que se passa hoje no terreno dos gestos teatrais que se espalhavam na política. Todos estarão velhos um dia, e muitos poderão não produzir resultados tão bons como a nossa República, que passou para a história como velha, mesmo tendo portado novidades importantes para o seu tempo.

  • A eleição presidencial de 2026

    As eleições presidenciais 2026 redefinem alianças: direita oscila entre trumpismo e novas figuras, enquanto a esquerda capitaliza discurso nacionalista. Cenário ainda em ebulição.

    Passadas as escolhas dos presidentes do Senado e da Câmara Federal, o movimento da política nacional começa a se dar, a partir de agora, em função das eleições nacionais do ano que vem, sobretudo as presidenciais, e seus desdobramentos regionais. É claro que vários fatos importantes vêm acontecendo desde o final do ano passado, mas é agora que eles se tornam mais explícitos e mais visíveis para todos.

    Novidades se apresentam mais claramente neste início de ano político. A primeira delas é internacional e decorre do alinhamento da direita brasileira com o novo presidente dos EUA, Donald Trump, e suas consequências para nossa política. A cúpula do bolsonarismo estava em peso em sua posse, demonstrando alinhamento, com exceção do próprio Bolsonaro, que não pôde viajar por imposição do STF. Produziu, entretanto, cenas cheias de emoções e sentimentos na despedida da esposa no aeroporto, onde quase chegou às lágrimas, para mostrar ao seu público o quanto lastimava não poder viajar. Bolsonarismo e trumpismo bebem na mesma fonte.

    A expectativa dos conservadores brasileiros é a de que a nova gestão vai produzir efeitos positivos na direita mundial, e consequentemente na brasileira, aumentando em especial o seu poder eleitoral. Entretanto, as medidas que Trump vem tomando parecem ter impacto não só positivos aqui, porque elas podem afetar os interesses brasileiros no campo econômico. Isso ainda não está totalmente claro, porque ainda não foram adotadas tais medidas, mas parece evidente que essa lógica de imposição da força através da taxação de produtos a serem importados do Brasil está por vir. Nada sinaliza que será diferente em o nosso país, diante do que já está acontecendo em outros. Daí a mudança de comportamento de algumas lideranças da nossa direita, pois esse tipo de ação protecionista pode afetar perigosamente setores gigantes da nossa economia, causando significativos transtornos regionais e setoriais.

    Como registrou com argúcia o estudioso das redes sociais Sérgio Denicoli em artigo publicado no Estadão recentemente, o bolsonarismo fez esforços para importar a estética do trumpismo. Isso pode acabar por criar uma imagem de subserviência a um projeto político estrangeiro, que vê o Brasil de forma inferiorizada e dependente. O patriotismo que era ostentado em verde-amarelo nas manifestações de rua da direita sai agora de cena para dar espaço a uma espécie de veneração a outro país que, por sua vez, nos prejudica. Esse é ponto.

    Analisa Denicoli que, curiosamente, a esquerda tem sabido capitalizar essa brecha, apresentando-se como defensora dos interesses do país. Assim preconiza a estampa do boné azul com a inscrição “O Brasil é dos brasileiros” usado por Lula, seus ministros e aliados, como forma de buscar aproximação com os moderados, que serão a força decisiva nas próximas eleições. Esse é um dos movimentos que afetarão a nossa política agora, por isso precisam ser acompanhados de perto.

    Existe também uma movimentação interna muito intensa na nossa direita, produto de outros fatores além desse, que parecem levar a um certo envelhecimento das lideranças muito próximas a Bolsonaro. É o que se deduz de uma pesquisa da Genial/Quaest publicada nos primeiros dias de fevereiro. Ela aponta para uma liderança esperada do presidente Lula na corrida eleitoral de 2026, mas também um surpreendente posicionamento tanto de Gustavo Lima como de Pablo Marçal que aparecem do mesmo tamanho do governador Tarcísio de Freitas ou do deputado Eduardo Bolsonaro. Isso mostra uma grande migração de votos do bolsonarismo tradicional para novas lideranças mais distantes das narrativas de sustentação de uma ditadura militar ou de atos de força. Crescem novos atores e outros mais antigos começam a reduzir sua força.

    Os brasileiros mais jovens não gostam do sistema político. São mesmo antissistema. Nesse ponto, parecem mais preocupados com seu próprio destino, com empreender, por exemplo, do que com gestões que remetem ao passado, a comportamentos masculinos tóxicos. Essa nova onda certamente vai emparedar as lideranças que saíram vitoriosas das eleições de 2018, envelhecendo muito rapidamente suas narrativas. A direita que parece que vai ganhar protagonismo tem Nikolas Ferreira e Pablo Marçal como ícones, além de um novo entrante, que é Gusttavo Lima. São ainda magmas de um vulcão em erupção que vão se cristalizar ao longo do processo, e podem produzir um presidente hoje inesperado.

  • Limites do poder

    A política espetáculo domina o cenário moderno, onde grandes discursos e encenações superam a busca por verdades concretas.

    O sociólogo alemão Max Weber afirmou em uma de suas obras clássicas, traduzida no Brasil com o nome de A Ciência e Política: duas vocações – na verdade, esse livro já teve outros nomes parecidos em muitas publicações ao longo de décadas – que existe uma forte diferença entre a prática da ciência e a da política. Para ele a ciência é o lugar da verdade, ao passo que a política é o lugar do convencimento, ou seja, a prática da arte da política distancia-se muito do lugar da verdade.

    As grandes carreiras políticas dos séculos XX e XXI, para nos atermos aos mais recentes, foram feitas sobre afirmativas não obrigatoriamente verdadeiras. São centenas de casos em que as promessas eleitorais se distanciam das entregas. Afirmo isso para generalizar a ideia de que existe, como dizíamos muito há alguns anos, uma política espetáculo, uma teatralização dos espaços de poder, a qual faz parte de seu jogo como um todo.

    Eletrizar as massas, convocar imensas multidões para amplos espaços públicos ou obter níveis altíssimos de audiência em programas de rádio e televisão, como se fazia no século XX, ou ter milhões de seguidores nas redes sociais, como se faz hoje, não são tarefas simples. Tanto é assim que muitos tentam e poucos conseguem. Somente pessoas com forte talento para as grandes encenações, para os grandes discursos e para um jogo permanente de tensões, cujas decisões alcançam extensas dimensões sociais, podem se aventurar com sucesso na política espetáculo.

    A banalização generalizada da civilização do espetáculo, como a definiu o grande escritor peruano Vargas Lhosa, produz uma grande vítima: a política, talvez mesmo a sua maior vítima. Espetacularizada, como ele mesmo alerta, a política torna-se escrava da autopromoção, da busca do marketing vazio pelos grandes atores sociais. Trocamos a busca de conteúdo pelas fofocas e frivolidades dos grandes políticos.

    Nesse mundo teatral estamos todos imersos, em quase todos os países, mesmo naqueles onde não se pratica a democracia. Os regimes de força, afinal, também se organizam a partir de grandes mentiras divulgadas todo o tempo, como muito bem nos mostrou o regime da Rússia durante a era soviética.

    Por outro lado, os que estão operando nesse teatro sabem que prometem mais do que podem cumprir, que os grandes lances da política são mais imagens do que materialização. No fundo, os que estão no topo das grandes instituições podem menos do que aparentam. Moisés Naim, ex-diretor executivo do Banco Mundial, em seu livro O Fim do Poder, analisa de forma densa e inteligente como o poder vem se fragmentando e como está se reconfigurando. Ele diz que no século XXI passou a existir um leque imenso de instituições que vão saindo do controle de atores tradicionais como governos, exércitos, empresas ou sindicatos e são compartilhados por novos e inesperados rivais na sociedade civil.

    Além disso, afirma que aqueles que controlam o poder deparam-se com restrições cada vez maiores ao que podem fazer com ele. Na verdade, o argumento de fundo é que o poder real do presidente de uma grande empresa ou mesmo dos presidentes das repúblicas vem diminuindo. Cada vez mais eles têm que ceder partes importantes do poder a inúmeras organizações da sociedade, das instituições nacionais e internacionais de controle e à opinião pública, de uma forma geral.

    Aqui é que as duas tendências se confrontam: o crescimento da dimensão teatral, a cultura política do espetáculo e a redução do poder centralizado e presidencialista. Promete-se cada vez mais a partir de grandes cenas espetaculares e tem-se cada vez menos capacidade real de entrega nos grandes ou pequenos governos. Os resultados desses choques de perspectivas são gestuais simbólicos espetacularizados, mas com pouca possibilidade de se efetivarem ao longo do tempo.

    Faço essas reflexões pensando nas grandes expectativas que o recém empossado Donald Trump dos Estados Unidos produziu no eleitorado do seu país, mas que não se aplicam só a ele. Creio que boa parte delas está destinada a morrer no próprio gesto, não chegarão a virar realidade concreta. Mesmo com o apoio eleitoral da massa de eleitores de seu país, essas ações serão dificultadas pela imensidão de atores que envolve cada uma delas, como a justiça, o parlamento e os países afetados pelas medidas. Mesmo assim, estou entre os que acreditam que as propostas que vingarem poderão causar danos reais ao mundo. No mais, é esperar para ver.

  • Um projeto para o Brasil

    Combater a desigualdade é construir um futuro onde todos tenham acesso às oportunidades básicas de vida.

    Escrevi neste mesmo espaço, há algumas semanas, um artigo intitulado Refundar as Instituições Brasileiras. O meu argumento nele foi o de que muitas de nossas instituições, que sustentam a ação do estado, têm os seus modelos de funcionamento datados de, pelo menos, o início da República. São organizações que estão presas a estruturas baseadas em um mundo que já não existe mais, ou está em extinção. São analógicas e marcadas por um autoritarismo centralizador que não funciona no mundo real.

    Usei como exemplos as nossas representações diplomáticas, concebidas antes mesmo dos transportes aéreos e da enorme facilidade de comunicação que temos hoje. Ocupam espaços elegantes e caros em muitas capitais glamourosas mundo afora,  mantêm uma estrutura de pessoal presa a modelos arcaicos e são, em geral, muito onerosas. Outras instituições necessitam também de aggiornamento, como as forças armadas. Aí o caso não é mais de tecnologia de gestão ou custo elevado – não me atrevo a dar opiniões sobre algo que desconheço inteiramente – mas de formação democrática de suas elites dirigentes.

    Uma sociedade contemporânea necessita de todos os seus quadros alinhados em valores comuns, respeitando os princípios da cidadania. Nenhum grupo social pode se considerar superior aos demais e querer, de tempos em tempos, chamar todos os poderes para si. Ninguém consultou a sociedade para saber se outorgamos aos militares poderes para nos representar e dizer, em determinado momento, que as coisas estão erradas e devem ser corrigidas. Isso é um princípio antigo que, se existiu, já não existe mais.

    Outro argumento que utilizei naquela oportunidade foi o de que, para alinharmos as instituições brasileiras em relação ao nosso futuro, deveríamos ter alguns objetivos nacionais. Minha opinião é que o fim das nossas terríveis desigualdades – já que somos um dos países mais desiguais do mundo, onde o abismo entre ricos e pobres é abissal – deve ser o motor das muitas mudanças que devemos fazer. Digo mais, nosso foco  imediato deveria ser acabar com a miséria de milhões de brasileiros.

    Como é natural após a publicação dos artigos, recebi vários comentários. Um deles, em especial, me chamou a atenção. Foi o que me fez o amigo de longa data Luiz Polese, político de mais de um mandato em Colatina e ex-secretário de estado no Espírito Santo. Ele escreveu: “acabar com a fome e a miséria dos brasileiros, na minha visão, passa por ampla discussão com real participação popular, para que todos conheçam todos os benefícios concedidos à elite brasileira (empresariado com forte lobby no congresso, classe política, forças armadas). Esses benefícios somam hoje mais de R$ 500 bilhões. Num planejamento de prazo dilatado em cinco anos para zeramento desses benefícios, CERTAMENTE acabaríamos com a fome a miséria e teríamos recursos para tocar políticas públicas prioritárias como educação, segurança, moradia popular, universalização de água e esgoto etc ”.

    Achei muito pertinente a ideia de fazermos uma discussão nacional profunda e verdadeira das fontes da nossa riqueza e de seu emprego, fora da pauta ideológica, pensando apenas que os brasileiros devem se apropriar dos recursos que a economia gera. Em vez da burocrática discussão da redução de gastos, discutiríamos quem fica com o que e por quê. Quanto deve ser distribuído nos mais altos salários e quanto deve ser usado para os serviços básicos da população.

    É claro que deve haver uma distribuição diferenciada de ganhos; que alguns, por sua capacidade, merecem ganhar mais do que outros; que os proprietários dos meios de produção devem ser remunerados; que os grandes empreendedores devem ter sua capacidade de correr riscos recompensada. Entretanto, não é sobre isso minha ideia. É sobre as benesses, as mercês concedidas a um pequeno grupo e as injustiças que se fazem com os pobres no Brasil.

  • Imprecisão como cultura

    A imprecisão, traço cultural brasileiro, reflete-se em comportamentos e na propagação de informações.

    Um dos traços mais marcantes da cultura brasileira é a imprecisão, ou, dizendo de outra forma, o jeito todo especial de lidar com o que precisa ser medido, metrificado. Lembro muito bem que certa vez, na França, fiquei espantado quando pedi a uma pessoa que vendia frutas que pegasse para mim uns três ou quatro tomates. A resposta foi: “- Mas são três ou são quatro?”

    Para um brasileiro o pedido é fácil de ser entendido: se escolhidos os maiores tomates, serão três; se os menores, quatro. É simples assim para nós. Quando um feirante nos atende bem, gentilmente, e diz que pesou um quilo bem pesado, como se houvesse a possibilidade de termos um quilo mal pesado, também achamos normal. Sabemos lidar bem com essas imprecisões que nos cercam. É uma espécie de código de conduta, de comportamento. Cada sociedade tem um desses mapas de navegação social.

    Outra coisa: os números das estatísticas nos dizem pouco, quando lidamos com eles. Não me refiro, obviamente, aos matemáticos ou aos que se dedicam aos fazeres mais exatos. Quanto à maioria, somos capazes de repetir números e cifras que não fazem sentido, sem prestar atenção, sem muito cuidado. Em tempos de redes sociais essa imprecisão – que é traço cultural – nos leva a compartilhar mensagens sem refletir sobre seu conteúdo. É claro que as fake news existem em todos os países do mundo. Sabe-se que os mais idosos, que são mais analógicos, podem passar adiante coisas absurdas em qualquer cultura. A nossa falta de cuidado com números e dados, porém,  facilita muito a propagação de informações imprecisas, exageradas ou simplesmente mentirosas.

    Há também entre nós uma clara tendência ao exagero. As formas de expressão verbal carregam isso, como quando se diz estar “morrendo de saudades de alguém”, ou “morrendo de fome”, ou ainda quando contamos a um grupo de amigos ou familiares que assistimos a um acidente de carro e dizemos que um deles “ficou destruído”. Na maioria das vezes o nível dos estragos não levou à destruição total do veículo.

    O que quero argumentar é que esses elementos pouco precisos ou exagerados – no fundo duas faces da mesma moeda – estão presentes em nosso cotidiano desde que nascemos e sequer nos damos conta deles. Isso faz com que naturalizemos elementos que parecem estranhos a quem não foi socializado como nós. Temos uma forma, no fundo, pouco exigente de lidar com a verdade, profícua em produzir fantasias.

    Em um mundo onde a velocidade da informação não nos permite pensar muito antes de tomar a decisão de aceitar ou não algo que nos chegou pelas redes sociais, esses elementos culturais ampliam a capacidade das falsas notícias contaminarem toda a sociedade. É claro que em quase todos os países existe hoje uma grande tendência em banalizar as informações. É uma armadilha perigosa na qual muitos caem. Esse mesmo fenômeno, entretanto, tem expressões diferentes nas várias sociedades do mundo.

    Já li que no Japão, historicamente, os cidadãos conferem a informação antes de passá-la adiante, por isso lá as fake news não prosperam tanto quanto em lugares onde as pessoas são menos exigentes com a verdade, como Brasil. Em tempos de redes sociais tendemos a reproduzir muita bobagem, coisas inverídicas ou simples fofoca. Ah! Já ia esquecendo, adoramos uma intriga, um comentário maldoso. Nós, brasileiros, rimos disso com facilidade. Outro traço cultural.

    Creio que estamos entrando em tempos difíceis, como já registrei em outro texto nesse mesmo espaço. Tempos em que os donos do poder no mundo digital têm muito pouco interesse em verdades e precisões, e o que temos visto nos últimos dias nos leva a pensar melhor no assunto. No Brasil os estragos tendem a ser bem maiores do que em outras sociedades. Pior para nós.

  • Tempos difíceis

    A engenharia do caos é um dos maiores desafios políticos do século XXI, onde as redes sociais alimentam ideologias extremistas e moldam o futuro das democracias.

    O início do século XX tem muito o que nos ensinar em termos políticos, afinal foi quando começaram a surgir os movimentos conservadores de massa na Europa. O mais denso deles foi o nazismo, na Alemanha, sob a direção de Adolf Hitler. Não menos importantes foram o fascismo na Itália, o salazarismo em Portugal e o franquismo na Espanha. Estou citando apenas alguns que chegaram ao poder em nações muito importantes. Outros tantos deram o tom que permitiu o avanço do nazismo, como na França, por exemplo. 

    Os partidos conservadores de massa surgiram e foram ganhando importância na cena política nos anos 1920 em países como França, Alemanha e Itália. Naquele momento não se poderia imaginar a importância que alcançariam, muito menos que viriam a produzir a Segunda Grande Guerra Mundial, de trágicas consequências, com enorme destruição e milhões de mortes.  

    Já o movimento conservador mais recente teve início sobretudo na década de 1980, basicamente nos mesmos países europeus. Depois do fim do império soviético, alguns países saídos da então chamada Cortina de Ferro, no Leste europeu, também construíram suas direitas em tons mais extremos, como a Hungria, a Polônia e a Romênia. Sem ir muito adiante nos exemplos, quero dizer claramente que já há algumas décadas o mundo está outra vez chocando o ovo da serpente como no início do século XX. 

    As coisas agora, porém, estão mais complicadas. No livro Os Engenheiros do Caos, Giuliano Da Empoli mostra como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio e medo com a finalidade de influenciar eleições. Os exemplos levantados pelo autor são contundentes: através das redes sociais, políticos inexpressivos, popularescos e com um certo ar histriônico vencem eleições importantes e, pouco a pouco, vão tomando de novo a cena política. Existe algo dos anos 1930 no ar, por mais estranho que isso possa parecer a alguns. 

    Creio que, no caso brasileiro, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 seja um exemplo de como a engenharia do caos, movida pelas poderosas redes sociais, criou o ambiente necessário para a eleição disruptiva que todos vimos. Estávamos pouco acostumados com a enchente de informações distorcidas que inundaram nossas vidas a partir de meros aparelhos de telefone celular e de computadores domésticos.  

    As ameaças, porém, foram potencializadas pela eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos da América em 2016, trazendo na garupa fenômenos   semelhantes que ocorreram em diversos países. A extrema direita passou então por enorme crescimento em termos globais. A cena política dos Estados Unidos influencia, por cópia e por articulações de interesses, inúmeros países mundo afora. Todos nós vimos isso acontecer, com o mundo caminhando na direção dos extremismos. Jair Bolsonaro só perdeu a eleição no Brasil em 2022 por suas fragilidades como ator político, mas a direita continua forte entre nós. 

    A nova chegada de Donald Trump ao poder em 2025 reafirma velhos temores: teremos tempos difíceis nos próximos anos. Suas espantosas declarações entre a eleição e a posse, além dos atos anunciados para o início de gestão, não deixam dúvidas sobre sua enorme capacidade destrutiva, seu potencial de espalhar o mal. Pior de tudo, convocou como conselheiros Elon Musk e Mark Zuckerberg, senhores das grandes redes sociais que nos invadem todo dia. 

    Trump vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para liberar o espaço de ação das redes sociais sem qualquer tipo de limite por parte dos governos e das sociedades nacionais. A falta de controle das redes é uma ameaça, pois nelas poderão transitar todo tipo de mensagens e notícias. As redes sociais são o lugar da política hoje, valem mais que partidos ou articulações governamentais, daí sua potência. As guerras contemporâneas nascem do ódio que as redes disseminam. Poucas coisas no mundo têm mais poder do que elas.  

    Com Donald Trump e seus aliados dominando a cena nos próximos anos, teremos certamente muitas ameaças em andamento. O mundo vai passar a caminhar com velocidade na direção que começou a ser traçada há quase quarenta anos. Serão tempos difíceis para aqueles que amam a democracia, a igualdade e a paz.