• Getúlio Neves

    Por João Gualberto

    O Espírito Santo tem um sistema econômico que conversa com o mundo, que tem estatura e reconhecimento. Escrevi alguns artigos sobre o projeto de desenvolvimento industrial de nossas elites entre 1943 e 1974 mostrando a força das nossas ideias, e que nada do que nos aconteceu é obra do acaso. Entretanto, o mesmo não pode ser dito das questões que envolvem outras dimensões sociais capixabas, e aqui não falo de projetos governamentais; refiro-me antes à dimensão da vida na sociedade. Um bom exemplo disso é a nossa literatura, tão pouco conhecida.

    Ando pesquisando sobre como a literatura que fazemos porta uma certa sociologia do cotidiano, mostrando importantes elementos construtores do nosso imaginário social. A última pesquisa tratou de um dos gigantes do nosso pensamento, Renato Pacheco. Evidentemente existem vários excelentes autores, como Bernadete Lira, Francisco Aurélio Ribeiro, Pedro Nunes, Guilherme Santos Neves e muitos outros.

    Hoje, entretanto, quero lembrar de um autor que me parece igualmente importante nos estudos que venho fazendo, autor que deveria ser mais festejado, e talvez não o seja porque falta divulgação de sua obra. Não é por outra razão que autores como Getúlio Neves não têm o conhecimento que merecem entre os capixabas. Seu texto é leve, sua ficção histórica rica. Nos dois livros que analisei no meu trabalho, Memória Repartida e Às Margens do Rio Escuro, o Espírito Santo está sempre presente.

    O diálogo com os autores da terra também. Exemplo forte disso é o fato de o personagem principal de Às Margens do Rio Escuro ter descoberto a leitura de Renato Pacheco e por ela ter se apaixonado. Outro elemento forte é o diálogo com fatos relevantes da história local, como a presença muito marcante do coronelismo entre nós, presente no romance Memória Repartida.

    No caso de Getúlio Neves com Renato Pacheco o diálogo é radical. Ele não apenas cita o mais conhecido livro do grande mestre capixaba, como incorpora mesmo certos elementos de sua narrativa. Em Às Margens do Rio Escuro o narrador torna-se leitor de A Oferta e o Altar, conversa mesmo com alguns dos personagens, com memória dos fatos narrados por Renato que se passaram no fim dos anos 1950. No romance surge como amor do protagonista a neta de uma das principais figuras do livro seminal de Renato.

    O livro de Getúlio aproxima-se ainda da narrativa de outro livro do grande mestre capixaba, Reino não Conquistado, pelo entrelaçamento de filhos e netos presentes em um e no outro. É a sucessão familiar que dá densidade ao argumento que vai sendo apresentado ao leitor para que ele saiba por que o reino, afinal, não foi conquistado.

    Getúlio é um autor maior, seu diálogo tão bonito com Renato Pacheco mostra bem isso. Sua presença na literatura capixaba muito a enriquece. Sua forma de abordar a história local é rica, particular e interessante. Ele trata – tanto quanto Renato Pacheco, por exemplo – do nosso cotidiano.

    De modo particular está em Memória Repartida o provincianismo tardio, sempre presente. As fofocas – sempre elas – premiando a pequenez dos cotidianos das pequenas vilas, das pequenas pessoas. Não é preciso citar Renato Pacheco para estabelecermos o paralelo, a comparação. A futrica impera como forma de controle social, de julgar comportamentos, de afugentar o diferente e o novo. São dois livros deliciosos os de Getúlio, e quem não os leu está perdendo muito. Fica mais fácil entender o nosso estado através das lentes do historiador e romancista Getúlio Neves, arguto observador do que se passa e do que se passou por estas terras.

    Para finalizar, lembro que o autor tem uma série importante de obras ligadas ao seu fazer cotidiano como magistrado, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e doutor em história pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pertence ao coletivo de intelectuais daquela universidade e a um grupo de autores que muito tem valorizado o estudo e o ensino da nossa trajetória histórica, do nosso legado, das experiências ricas do nosso passado, muitas vezes expresso inclusive em tradições da cultura popular, que são tão bem retratadas em À Margem do Rio Escuro.

  • Brasil é a nova Roma

    Por João Gualberto

    Darcy Ribeiro, que foi senador da república pelo Rio de Janeiro, notável antropólogo e autor de obra genial, composta de muitos livros com foco nos elementos que nos constituíram, dizia:  O Brasil é a nova Roma. Com isso queria dizer que assim como Roma foi a síntese do mundo antigo, nós somos também uma espécie de síntese dos tempos em que vivemos.

    Quando digo “tempos em que vivemos”, estou querendo, sobretudo, dizer o somatório de fatos históricos que produziu uma sociedade tão especial nos trópicos como a nossa. Lembro, por exemplo, dos fartos quintais que havia nas cidades do interior na minha infância e da extraordinária quantidade de árvores frutíferas que tinham e que para aqui foram trazidas pelos europeus ao longo dos séculos. Abacate, caqui, coco, limão, manga, mamão, melancia, jaca e mexerica estão entre elas. Os velhos pomares brasileiros eram eles mesmos já uma síntese de muito do que havia no mundo. Muitas e muitas vieram da Índia.

    Natural que tivesse sido assim, afinal os agentes da colonização estavam sempre preocupados com a questão da alimentação no Novo Mundo. É provável também que, pelo fato de virem de terras mais frias, onde os frutos típicos dos climas quentes não prosperam, estivessem preocupados em tornarem a vida aqui mais abundantes em alimentos ricos e saborosos, fazendo bom proveito do clima tropical.

    A Nova Roma tem, evidentemente, outros componentes. A riqueza da cultura dos povos indígenas está entre elas. Nossa sociedade é extremamente rica de heranças e legados dos povos originários. O longo processo de europeização que até hoje experimentamos nos impede de reconhecer e louvar o quanto somos tributários das culturas aqui encontradas pelos europeus. Chamo a atenção, no contexto das heranças culturais, a extraordinária utilização das ervas medicinais, assim como os conhecimentos sobre a mata atlântica e tudo o mais que chegou até nós vindos de gente tão sábia.

    Arrancados a força, e com violência, de suas terras os escravizados africanos trouxeram de suas origens a tecnologia que impulsionou nossa agricultura, ou mesmo a exploração do ouro e das pedras preciosas, para ficar em dois exemplos. Eram eles, em grande parte, artesãos habilidosos, mineradores experientes, agricultores afeitos à produção em terras quentes. Muito sabiam de tudo isso, em muitos casos muito mais do que os portugueses, e não haveria o desenvolvimento em direção ao que hoje somos sem a participação do trabalhos dos africanos. Eles que foram tão humilhados, maltratados e explorados em todos os sentidos, formam uma base mais densas do nosso país.

    O século XIX conheceu outro momento de grande participação de outros povos, de outros mundos, na nossa construção nacional. A chegada da imigração italiana, germânica, japonesa e de outros grupos étnicos deu ao nosso caldeirão cultural novos ingredientes. Foram trabalhadores em grande massa para a agricultura, indústria, artesanias, serviços para o mundo urbano de uma forma geral. Junto com os seus saberes do mundo do trabalho vieram novos conhecimentos, como os culinários com as massas italianas. As bebidas que trouxeram, como as cervejas dos alemães, ampliaram a oferta até então centrada na boa e velha cachaça local e os vinhos da metrópole do período colonial. Esses povos, para além de seus trabalhos, enriqueceram de tal forma a nossa cultura em múltiplos aspectos que não seria a mesma sem a suas presenças.

    Por isso, quando Darcy Ribeiro nos lembra de que somos essa síntese histórica dos novos tempos que as navegações trouxeram, não podemos deixar de admirar o nosso povo, e nunca devemos aceitar as teses delirantes das supremacias raciais. Somos produto de um hibridismo cultural extraordinário, da fusão de muitos mundos. A compreensão de tudo isso e tolerância com o diferente deve ser o tom do Brasil e dos brasileiros.

  • Renato Pacheco

    Por João Gualberto

    Nesse ano de 2024 faz vinte que morreu Renato Pacheco. Conheço poucos intelectuais que tenham amado tão intensamente o Espírito Santo quanto ele. Foi juiz de direito, professor, historiador, folclorista, provavelmente o primeiro capixaba com mestrado em sociologia feito na USP do inicio dos anos 1950. Um homem com muitos talentos e atributos. Presidiu o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e fez dele a sua casa. Dirigiu também a Comissão Espírito-Santense de Folclore junto com o seu mestre Guilherme Santos Neves e Rogério Medeiros. Foi ainda membro da Academia Espírito-Santense de Letras. Muitos outros títulos e qualificações teve o Renato Pacheco, um gigante na inteligência capixaba.

    Quero tratar aqui da sua obra literária, fazendo um corte na sua extensa produção intelectual. Retirei de alguns de seus romances, onde acredito que ele faça uma espécie de sociologia do cotidiano capixaba, um argumento que vou expor. Li, particularmente interessado, A Oferta e o Altar, Reino não Conquistado, Pedra Menina e Vilão Farto. Eles são apenas uma pequena fração da extensa obra do professor Renato, mas dão em seu conjunto uma ideia clara da visão que teve da nossa vida social. Mas vou me deter aqui em apenas um deles, onde todo o conjunto já está anunciado.

    Julgo A Oferta e o Altar, publicado pela primeira vez em 1964, um livro seminal sobre o modo de vida capixaba. Analisando – entre outros elementos – a eleição de 1958 no município de Conceição da Barra, que na ficção ganha o nome de Ponta D’Areia, o autor nos faz um retrato do mundinho das pequenas cidades de seu tempo. Um retrato ácido, mas verdadeiro, duro, mas permanente. Creio que muitos daqueles elementos ainda estejam presentes no dia a dia cheio de intrigas e preconceitos que marcam o nosso imaginário social.

    No livro, uma das personagens centrais é Joaninha do Muxá, uma solteirona – como se dizia à época – frustrada, que controla a vida de todos, ou melhor, que organiza a maledicência generalizada do lugar. Falar mal da vida dos outros, controlar a sexualidade alheia é uma espécie de diversão perversa coletiva. Se isso faz mal a alguém, se destrói reputações, se condena pessoas inocentes, melhor ainda. O objetivo é esse mesmo. O fofoqueiro é um destruidor de vidas. Já que a sua vida vale pouco, porque dela nada faz, que, então, se dane o bem-estar coletivo.

    Na narrativa de Renato Pacheco vemos que o novo é perigoso para muitos, e até hoje, e não só nas pequenas localidades. Basta ver a desgraceira que fazem as chamadas fake news nas redes sociais. Na verdade, a intriga ganhou escala nos nossos tempos, mas já estava na alma dos pequenos e mesquinhos desde sempre. O lugar de onde brotam as maldades é o coração das pessoas. Assim pensava Renato Pacheco.

    A Oferta e o Altar também mostra um outro tipo de controle, o da violência. Ela tinha sede sobretudo na tosca polícia local, onde reinavam os que eram nomeados pelo poder político dos grandes coronéis, tanto locais quanto estaduais. A polícia, aliás, estava totalmente aliada ao imaginário coronelista que havia no local, não só do lado dos políticos, mas também dos mais favorecidos, dos privilegiados de uma forma geral.

    Todo o clima político da cidade girava em torno de uma política miúda em que afetos e amigos, de uma forma geral, eram divididos pelo alinhamento partidário. Mais uma vez vemos em A Oferta e o Altar a gênese dos nossos exageros nas definições partidárias. As paixões já comandavam o dia a dia da política, tudo era enquadrado a partir disso. Nos dias que correm temos a exacerbação desse padrão de comportamento. Esses exageros se alimentam de um imaginário instituído na nossa política pelo coronelismo, origem e razão invisível de muitas coisas que ocorrem nos dias atuais.

    Mas não é a análise sociológica o único mérito do grande mestre Renato Pacheco. Seu texto é limpo e direto. Seu livro, uma leitura deliciosa, cheio de situações que lembram a todos nós, tendo ou não morado em pequenas cidades brasileiras, fatos conhecidos, muito conhecidos.

    Não apenas o texto do grande mestre é uma alfinetada no nosso provincianismo – alfinetada que lhe custou o título de persona non grata no município de Conceição da Barra, mas também toda a sua extensa obra contém esse manifesto contra o jeito pequeno de fazer as coisas. Sua forma fecunda de desconstruir os entraves ao desenvolvimento pleno de nossas capacidades culturais. Foi com essa visão abrangente que participou da nossa vida cultural, deixando ricas reflexões que continuam sólidas mais de sessenta anos depois.

  • 23 de maio

    Por João Gualberto

    Como muito bem sabem os capixabas, no dia 23 de maio comemoramos a data que ficou conhecida como a Colonização do Solo Espírito-Santense. Ela diz respeito ao dia em que Vasco Fernandes Coutinho e um grupo de 60 homens desembarcaram na Capitania. Estavam a bordo da Caravela Glória. O Capitão-Mor havia recebido do Rei de Portugal, Dom João III, uma Carta de Doação e outros documentos dando plenos poderes para iniciar o processo da construção política e econômica do seu lote como uma parte da colônia vinculada ao Império Lusitano. Iniciava-se, assim, a nossa colonização como empreendimento fidalgo.

    O nosso donatário não era membro das cortes e muito menos um homem de grande cabedal. Era um fidalgo de província, um digno representante da pequena nobreza do reino. Tinha se destacado pelos seus serviços ao rei na expansão lusitana para as Índias. Participou de lutas importantes, em especial em Goa, contribuindo com bravura na consolidação dos planos estratégicos das elites portuguesas daquela época.

    O empreendimento fidalgo comandado na nossa Capitania por Vasco Fernandes Coutinho tinha um caráter muito claro de consolidação da fé católica no Novo Mundo. O cristianismo estava na origem de tudo, tanto que o Tratado de Tordesilhas que havia distribuído o Novo Mundo, ou seja, o continente americano, entre espanhóis e portugueses, era obra do Vaticano. Obra jamais aceita por ingleses, franceses e holandeses que passaram os séculos seguintes a tentar participar, mesmo pela força das armas e das invasões, das riquezas extraídas da América.

    O catolicismo fez parte do empreendimento fidalgo que depois foi aprofundado pelo caráter mais disciplinado e sistemático do jesuítico. Mas, fiquemos no que aconteceu no nosso território depois que os agentes da colonização aqui chegaram no dia 23 de maio de 1535. Eles eram poucos e tinham um espaço territorial enorme para conquistar. Queriam descobrir ouro e pedras preciosas. No nosso caso, havia a ideia de encontrar uma montanha de esmeraldas no Vale do Rio Doce. Muitas foram as entradas e expedições que avançaram pelo interior em busca dessas riquezas.

    Foram erguidos muitos templos para celebrar e expandir entre os povos originários a fé dos colonizadores. Ainda hoje temos como legado daqueles tempos a Igreja do Rosário e o Convento da Penha, em Vila Velha, e a Capela de Santa Luzia, na cidade alta. Edificações como o Forte de Piratininga, em Vila Velha ainda estão lá para mostrar a preocupação dos primeiros colonizadores com a segurança da Capitania. O passar dos séculos mostrou que, com base nos conceitos de ímpios e gentios, a fé católica se impôs, não sem violência.

    No século XVI, o que possibilitou a riqueza foi o cultivo da cana de açúcar e todas as atividades existentes na sua cadeia produtiva, com a utilização do trabalho indígena. Forçado, escravizado ou cristianizado eles foram sendo incorporados ao processo social comandado pelos agentes da colonização. Os portugueses raramente traziam suas esposas, e assim, as indígenas foram sendo, por muitos processos, nem todos aceitáveis, as mães desse Espírito Santo que nascia. Somos muito mais indígenas em hábitos culturais, culinários, linguísticos, do que a nossa história tradicional mostra. Na sequência histórica temos a incorporação dos africanos escravizados na Capitania como força de trabalho também forçado. Esse é o início da construção do nosso estado, da nossa cultura e da nossa identidade.

    Em razão da complexidade de todo esse longo processo de encontro de mundos diferentes, sob a direção com mão forte dos europeus, não podemos comemorar o 23 de maio de forma unilateral, festejando a chegada dos colonizadores portadores do progresso e das vantagens da civilização. Até porque, os agentes da colonização também foram, entre muitas outras coisas, os responsáveis pela introdução do trabalho escravizado. Havia os negros da terra, os indígenas, e os negros da África. Eram todos submetidos a uma tirania que lhes roubou a autonomia e a liberdade.

    Por outro lado, há um bom debate feito por professores da rede pública em Vila Velha, sobre a vitória que os indígenas obtiveram em muitas batalhas, sobre o seu protagonismo, afinal vencerem três grandes generais portugueses: Jorge de Menezes, Simão de Castelo Branco e Fernão de Sá. Esse último morreu na famosa batalha do Cricaré. Foi um encontro violento de culturas.

    Temos, eu creio, que ter consciência do que estamos de fato comemorando quando falamos em colonização. Sem nos aprofundarmos em todas as faces desse processo histórico estamos sujeitos a dar, à chegada dos colonizadores, um papel mais amplo do que o de iniciar algo que fugiria ao controle deles próprios. Eles não comandaram plenamente o processo que instituíram. Criaram, aqui, um encontro de mundos diferentes, ainda que muito desigual, que depois partiu em busca da sua própria trajetória. Devemos refletir mais nas múltiplas dimensões do mundo que o lusitano criou no Brasil. Usar essa data para pensarmos no que significa, hoje, ser capixaba, ser brasileiro ou brasileira.

  • Poder local no Brasil

    Por João Gualberto

    Tenho me dedicado a estudar e tentar compreender o passado capixaba mais distante, entender nossas origens desde os tempos pré Vasco Fernandes Coutinho. Essa aventura histórica inclui saber o que se passava tanto com os povos originários na futura Capitania do Espírito Santo, quanto nas origens lusitanas da construção de seu império do Novo Mundo, ou seja, a trajetória que resultou nas grandes navegações oceânicas do mundo ibérico.

    As professoras e doutoras em história Adriana Campos e Katia Motta têm sido minhas orientadoras nas leituras necessárias. Delas tenho tido generosas contribuições nesse campo. Entretanto, elas não são responsáveis pelos eventuais deslizes que eu venha a cometer nas interpretações e análises. Dessa orientação veio a leitura recente que fiz do livro A Capitania do Espírito Santo e Seus Engenhos de Açúcar (1535-1700): A Presença dos Cristãos-novos de José Gonçalves Salvador, renomado estudioso de nossa trajetória histórica. É um livro excepcional por seu conteúdo. Embora não contenha muitas páginas é de uma riqueza absoluta em informações preciosas.

    O livro traça o perfil do início do nosso processo de construção como sociedade, e aborda o povoamento da capitania, as nossas primeiras etapas da organização político-administrativa, a economia colonial. O conjunto do trabalho é uma leitura que dá informações importantes para compreendermos os pilares do processo de construção da nossa identidade regional.

    Entretanto, meu objetivo primeiro foi entender a construção do poder local no Espírito Santo, ou seja, como as comunidades coloniais organizaram o processo de governança no Brasil e no Espírito Santo. Mais do que isso, como espaços territoriais tão distantes da Corte puderam sobreviver e construir autonomias e manter comunidades coesas.

    A resposta Golçaves Salvador nos dá: foram as câmaras municipais. É dele a transcrição abaixo:

    Importa lembrar que as Câmaras Municipais desempenharam funções de suma valia na vida das Capitanias desde a instalação do regime. Onde quer que houvesse um núcleo de povoamento, dali os moradores organizavam sem demora a entidade. Tratava-se de velha tradição entre os portugueses que davam o título de “Conselhos”. Eram representações de cada comunidade. Constituíam a voz dos habitantes locais, dos quais também recebiam autoridade para agir em seu nome, e isto significa que deviam ser pessoas responsáveis, gozar de certos direitos e saberem zelar pelo bem comum.  (op. cit. p. 54).

    As câmaras tinham alcance sobre tudo o que afetasse os moradores de uma cidade. As relações entre si e com a própria câmara. Isso significava declarar guerra aos indígenas, se fosse necessário, e firmar a paz ou estabelecer acordos. Na descrição do autor, assemelhava-se em tudo a uma pequena república. Essas pequenas repúblicas existiram, de fato, até o Brasil monárquico. Era esse o conceito de república naqueles tempos. Era assim que os antigos se referiam a república de São Paulo, de Salvador, de Recife ou de Vitória.

    Certos requisitos eram necessários às pessoas que fossem ocupar os cargos nas Câmaras Municipais. Deveriam morar no próprio local, ser eleito pelos demais moradores e estar disposto à defesa da comuna. O autor nos explica ainda que cada representante da comunidade deveria ser o que um “homem bom”, ou seja, de passado limpo, benquisto e com projeção, ser nobre de caráter, ser descendente de pais e avós nascidos no mesmo local. Havia, entretanto, uma condição muito especial: a limpeza do sangue.

    Por limpeza de sangue entendia-se não ser hebreu, mouro, negro ou de ofício manual. O que de fato se pretendia era uma sociedade dominante sem a presença do que se imaginava ser o sangue impuro, aqueles que não mereciam a herança colonial. Além da exclusão dos povos que eram julgados inferiores ou perigosos, havia o preconceito nesses tempos aos ofícios artesanais, que era extenso. A sociedade que os agentes da colonização desejavam era distante do mundo do trabalho duro. Essa nova sociedade seria governada pela pequena nobreza que ia surgindo na colônia.

    Na verdade, não havia muito como se exigir a tal limpeza apurada de sangue, por isso mesmo ela era pouco exigida, ou mesmo esquecida, sobretudo para os filhos dos portugueses e seus descentes com as indígenas. No entanto, o princípio de uma certa fidalguia da colônia era mantido, embora se organizasse por princípios étnicos mais amplos do que na metrópole. No exercício de suas funções as Câmaras muitas vezes podiam ser superiores, em termos de poder, ao governo da Capitania, desde que fosse fiel aos princípios do reino e do rei. Tinham, então, vasta autonomia local para decidir sobre a vida das comunidades.

    Quando a vida econômica foi adensando tivemos o surgimento dos coronéis, os homens ricos do campo. Mas isso cabe em outro artigo. Neste, quero deixar claro que foram as Câmaras de Vereadores as primeiras instituições políticas do Brasil. Seu poder era extenso e não teríamos mantido a unidade territorial se elas não existissem. O Poder Local é a base mais extensa do sistema político brasileiro.

  • Violência brasileira

    Por João Gualberto

    Juliana Sabino Simonato, na sua tese de doutoramento em história pela Universidade Federal de Minas Gerais faz profunda reflexão sobre a escravidão no Espírito Santo entre 1580 e 1640, período em que Portugal e Espanha foram administrados por um só rei através dos tempos. Eles foram os Felipes. É um trabalho baseado em muitas e muitas pesquisas, em fontes nem sempre simples de serem encontradas, o que foi produto certamente de dedicação e empenho.

    Em sua obra, a historiadora deixa claro que a escravidão fez parte de toda a lógica de construção do mundo ibérico na América, tanto que as normas que a disciplinaram foram constituídas antes mesmo da prática cotidiana do trabalho cativo em terras brasileiras e capixabas, que é o território do qual Juliana Simonato se ocupa. Escravidão de indígenas e africanos, de negros e de negros da terra, como a estudiosa tão bem descreve.

    A típica sociedade do antigo regime, hierarquizada, elitista, aristocrática, foi transportada para o mundo que o português criou nos trópicos, com o agravante do trabalho forçado dos seres humanos em cativeiro, subjugados, humilhados. O catolicismo medieval praticado pelos agentes da colonização dava densidade ideológica às praticas atrozes que os castigos operavam nos escravizados da colônia.

    Tudo isso não é apenas história. É um legado importante para o imaginário social brasileiro dos dias atuais. Nossa violência policial não nasce de corporações despreparadas. Antes, pelo contrário, é produto de uma história social onde as relações de poder entre pobres e ricos sempre teve a violência, o castigo, a chibata, como panos de fundo. Não creio mesmo que se queira, com essas atitudes policiais de invasão de periferias muito mais do que castigar, punir.

    Não temos no Brasil uma política de segurança. Nossa sociedade como um todo nunca teve um projeto que incluísse questões como educação, saúde, lazer ou cultura como bases para uma ação de redução das prisões, das mortes violentas ou do crescimento das atividades ilícitas no mundo os pobres. Dado ao caráter hierarquizado da sociedade em que temos, a existência de super cidadãos que tudo podem – como tão bem estuda Roberto DaMatta – e a uma maioria que vive à margem desses benefícios da sociedade desigual que construímos no Brasil, os personagens pobres são submetidos a essas humilhações diárias.

    Não será simples superarmos tudo isso, mas todos sabemos que manter a lógica da punição nas periferias não construirá um país melhor. O que estamos assistindo nesse momento, como muito bem registrou Sérgio Denicoli em um de seus últimos artigos em O Estado de São Paulo, é a expansão sem limites dos grupos que organizam o mundo do crime como o PCC, o Comando Vermelho e outros. Eles vão chegando perigosamente à gestão de instituições importantes do mundo público e privado – e não apenas no Rio de Janeiro ou em São Paulo – vão avançando para a esfera política com voracidade.

    Como costumo chamar a atenção em meus escritos, a construção de nosso imaginário social é obra de séculos. Ele legitima ações que são uma ameaça ao presente e ao futuro. Para repensar nossas políticas públicas de segurança precisamos estar atentos à construção de uma cidadania plena, igualitária e que leve em consideração o respeito aos mais desprotegidos. Precisamos superar as heranças desse passado que insiste em estar presente.

  • Élcio Alvares

    Por João Gualberto

    No século XIX o café tornou-se a grande riqueza capixaba. A região Sul do nosso estado foi a que mais se beneficiou do progresso que o produto trouxe. O Vale do Rio Itapemirim transformou-se no local privilegiado da produção cafeeira. Havia também o plantio em outros lugares, mas estava no Sul a maior parte das grandes fazendas. São Pedro de Itabapoana no vale daquele rio, Alegre, Cachoeiro do Itapemirim, Castelo foram municípios que cresceram muito.

    O progresso do café trouxe ferrovias, luz elétrica, estradas, telégrafo e tudo o mais que podia significar melhorias no final do século XIX e inicio do século XX. A cidade polo de todo esse processo foi Cachoeiro de Itapemirim. Ela acabou por tornar-se a cidade mais moderna do nosso estado, a mais importante também. Era a capital econômica do Espírito Santo, muito mais potente do que Vitória, a capital administrativa. Todos os sinais visíveis do progresso estavam lá.

    Com a erradicação abrupta dos cafezais, através de uma política pública socialmente irresponsável, sobretudo a partir dos anos 1960, tivemos o inicio do esvaziamento econômico do Sul. Nesse momento os chamados grandes projetos – sobre os quais tenho escrito ultimamente nessa coluna – começaram a ser a nossa pauta de desenvolvimento. Passaram a ocupar na economia, também no imaginário capixaba, um lugar que fora antes o do café.

    Foi no governo de Arthur Gerhardt, no início dos anos 1970, como já registrei, que essa pauta desenvolvimentista estava claramente colocada na ordem do dia. As inaugurações das plantas industriais da Companhia Siderúrgica de Tubarão, da fábrica da Aracruz Celulose, da Samarco, e a consolidação da importância do Porto de Tubarão transferiram o centro dinâmico da economia capixaba para a região metropolitana de Vitória, que seria a partir daí o local do desenvolvimento. A cabeça das cadeias produtivas do setor metal mecânico que revigoraram a produção de empregos e riquezas tinham se instalado, o progresso tinha mudado de lugar.

    Nesse momento, chegou ao governo estadual o então deputado federal Élcio Alvares. Ele iniciou seu período de gestão em 1975.  Advogado de renome e hábil articulador político, era até então afastado do processo de formulação técnica que levou ao nosso desenvolvimento industrial. Seu governo, entretanto, herdou um estado muito modificado, e ele consolidou em termos de projetos urbanos uma das faces mais relevantes das mudanças, a nossa Região Metropolitana.

    Muitos foram os seus feitos nessa área. Aquele que mais marca os capixabas certamente o início da construção da chamada Terceira Ponte, ligando de forma definitiva Vitória a Vila Velha. A obra foi inaugurada somente na gestão de Max Mauro em 1989. Mas devemos muito dela a Élcio. A ponte mudou a feição das duas cidades. O transporte aquaviário, obra sua, inaugurada ainda no seu governo, também teve um papel importante nessa integração entre as duas cidades. Eu mesmo muito utilizei as barcas nesse período para me descolar de Vila Velha ao centro de Vitória.

    Não menos importante foram os aterros urbanos dando origem as avenidas que ligaram o bairro de Bento Ferreira à Praia de Camburi. A cidade ganhou do mar espaços muito importantes. Essas vias urbanas consolidaram a mudança de importância da zona norte da capital, a partir daí o centro urbano mais importante da capital. Não se esgotam aí a importância dessa visão metropolização da região da Grande Vitória, muitas outras obras tiveram lugar, como a rodoviária, as melhorias no abastecimento de água para os vários municípios, por exemplo. A rodovia do sol, inaugurada naquele período, ligou a região ao principal balneário da classe média da capital: Guarapari.

    Depois dele, até pelo crescimento populacional, tínhamos uma região metropolitana que começou a se pensar de forma integrada. O Instituto Jones dos Santos Neves, principalmente através da formulação do economista Arlindo Villaschi, deu a densidade técnica para essas ações políticas. A BR 101 integrou Cariacica e Serra a Vitória de uma vez por todas. Viva Velha e Vitória se transformaram em região conturbada. As medidas aqui listadas foram muitos oportunas e de fato se inscrevem entre as visões de progresso que marcaram essa geração de capixabas.

  • Arthur Gerhardt

    Esse é o último artigo de uma série que escrevi sobre o processo de desenvolvimento industrial do Espírito Santo, que nos tirou de um estado totalmente voltado para a produção de café de baixa qualidade e pouca produtividade e nos trouxe ao quadro que temos hoje. Tudo começou em 1943 com a interventoria de Jones dos Santos Neves, e estava basicamente concluído no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980. Nesse longo trajeto, muitos foram os atores sociais que contribuíram para o seu sucesso. Muitas atividades, longe dos governos também contribuíram para o bom desfecho.

    Minha tentativa é a de mostrar que houve um projeto construído pelas elites capixabas. Obviamente que a vida social não é só traçada pelas elites, mas elas, quando se afastam da busca de caminhos coletivos, costumam botar tudo a perder. Coisa, aliás, que os capixabas sabem muito bem. Não desconheço que exista toda a sociedade e ainda o chamado capital social. Disso tratarei na sequência, mas exigirão outros artigos sobre esse tema específico.

    Voltando à minha narrativa, em 1971, Christiano Dias Lopes deixou o poder e foi substituído por Arthur Gehrardt. Ele sempre foi técnico muito respeitado e voltado para o nosso processo de desenvolvimento. Foi um de seus principais formuladores. Engenheiro com mestrado nos Estados Unidos – o único de sua época – é homem culto e aplicado. Participou, desde os primeiros movimentos das equipes da Federação das Indústrias, das suas comissões técnicas e dos estudos que lá foram produzidos. Além de técnico, foi bom operador político, visto que, como secretário do governo de transição de Rubens Rangel em 1966, foi responsável pela montagem do secretariado.

    Na gestão de Christiano, foi presidente do Bandes, portanto, envolvido de perto na gestão do desenvolvimento e da captação de empresas. Quando chegou ao governo, Arthur se tornaria um dos governadores mais próximos ao poderoso ministro da fazenda, Antônio Delfim Neto, detentor de muito poder no ciclo dos militares. Através dele, chegou mais próximo dos centros decisórios da época. Fez, sobretudo, uma excelente diplomacia de seu próprio governo e também dos projetos que já estavam prontos e precisavam ser viabilizados. Conseguiu com o apoio do presidente do BNDES, Marcus Viana, e do presidente do Banco Central, Ernane Galvêas, captar os investimentos que mudaram a face do Espírito Santo. Fez um jogo de mestre, aproveitando as oportunidades que estavam colocadas.

    Entre elas estava o fato da Vale já ter terminado em 1966 a construção do Porto de Tubarão. Ele daria suporte à construção de toda uma cadeia produtiva ligada ao setor metal mecânico. Assim, foram captadas a planta da Companhia Siderúrgica de Tubarão, da Aracruz Celulose e da Samarco. Na época, eram denominados “Os Grandes Projetos”. Estavam todos, umbilicalmente ligados a Cia. Vale do Doce, sobretudo pelo papel central do Porto de Tubarão em todo esse movimento de transformação no Espírito Santo. A professora Marta Zorzal e Silva, em sua brilhante obra intelectual trabalha muito bem esses elementos.

    O Espírito Santo fez uma inflexão para os negócios globais no Governo Arthur Gehardt, com forte aporte de recursos do BNDES. Foi um grande salto. A dupla Arthur-Christiano fez uma obra de gigantes. Embora tenham rompido politicamente, concluíram o projeto jonista. Aliás, o plano de governo que a aliança PSD-PTB fez para disputar com Jones dos Santos Neves, as eleições de 1962 já previa muita coisa, inclusive o banco de desenvolvimento para gerir esse aspecto do governo e a Companhia Siderúrgica de Tubarão, pedra de toque na construção industrial que se pretendia.

    Tudo isso era produto, não apenas da inteligência e sagacidade do ex-governador, que disputava, de novo, o governo, mas também da contribuição de toda uma geração de capixabas. Era também a fusão da ideia dos empresários na FINDES com a dos políticos do governo estadual. A nossa marca governamental, nesse ciclo, foram as gestões articuladas e empreendedoras. Elas criaram as bases do Espírito Santo moderno. O resultado: o estado onde a indústria tem o maior peso no PIB de todo o Brasil, que equivale a 38% dele.

  • Cristiano Dias Lopes

    Em 1964, houve o Golpe Militar e a interrupção do processo democrático brasileiro. No Espírito Santo, o governador Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho, eleito em 1962, foi forçado a renunciar, depois de longo processo na Assembleia Legislativa. Em seu lugar assumiu o seu vice Rubens Rangel.

    O novo governador entendeu o seu contexto e as modificações que estavam por vir, e transformou o seu curto governo, até 1967, em uma espécie de transição para os novos tempos. Nomeou um dos mais destacados técnicos do seu tempo, Arthur Carlos Gerhardt Santos, como secretário de Planejamento, acumulando a secretaria de Viação e Obras Públicas. Dr. Arthur foi o artífice da nova equipe que contaria com os quadros envolvidos no processo de construção do projeto de desenvolvimento do PSD e da FINDES.

    O Dr. Arthur não vinha do sistema político. Ele próprio não tinha vida partidária, mas é filho de Otaviano Santos, deputado estadual por quatro mandatos, sempre pelo partido de Jones e de Carlos, o Partido Social Democrático. Em agosto de 1966 já era público que Christiano Dias Lopes seria o próximo governador, e sua aliança com Rubens Rangel já estava colocada.

    Foi de Christiano a iniciativa de levar o governador Rubens Rangel a pedir à Federação das Indústrias, a FINDES, um Diagnóstico do Desenvolvimento do Espírito Santo. Antes mesmo da sua posse, o INED – Instituto para o Desenvolvimento Social e Econômico, já tinha entregue o diagnóstico pedido. Foram os responsáveis pelo documento: José Arthur Rios e João Paulo de Almeida Magalhães, dois dos mais prestigiados economistas brasileiros daquela época. Assim, tínhamos um plano forte e bem feito, avalizado por dois grandes economistas de renome nacional. Um grande diferencial.

    Os militares eram menos permeáveis ao jogo da política e seu varejo inevitável. Christiano tinha nas mãos um projeto que era o produto do esforço de sua geração, como temos registrado. Ele próprio havia sido chefe de gabinete de Jones dos Santos Neves, em seu governo iniciado em 1951. Como deputado estadual, foi líder do Governo Lindenberg, depois presidente da Assembleia Legislativa. Conhecia muito bem cada ação que defendia. Esse foi o ponto forte de seu governo: materializar em projetos as necessidades do desenvolvimento capixaba.

    Quando os militares começaram a avançar com a sua modernização conservadora, o Espírito Santo tinha um projeto próprio para dialogar com o novo poder instituído. Esse foi nosso ponto forte. O governo estadual pleiteou com suporte técnico, obras como a BR-101, BR-259, BR-482 e a BR 262, sem as quais continuaríamos isolados do mercado nacional. O Plano Rodoviário Estadual, o chamado Projeto Espinha de Peixe, ligava os municípios do interior às BR’s, possibilitando o transporte de pessoas e mercadorias; criando uma articulação, até então, inexistente.

    Logo no primeiro ano de governo, muitas medidas estruturantes foram tomadas no campo dos mecanismos de gestão. Tudo estava por ser construído. A Lei estadual 2296 de 1967 deu forma gerencial ao governo. Ao final, tínhamos a Fundação Cultural, a Fundação Hospitalar, a Cesan, O Banestes, a Codes (depois Bandes), a Condusa, a Copesa, a Emcatur, e todo o sistema financeiro, a Escelsa, a Suppin, o Civit e empresas ligadas a secretaria de agricultura. Enfim, uma reforma administrativa de verdade. Ouso dizer que a máquina pública que opera no estado, até hoje, foi criada nesse governo. Nada de relevante foi feito depois disso.

    A estratégia básica do desenvolvimento deu-se através dos incentivos fiscais e fundos públicos como o Fundes, o Fundap, o DL 880. A Codes, depois Bandes, foi o órgão gestor de todo esse processo. As ideias foram articuladas através dos chamados Simpósios de Desenvolvimento do Espírito Santo. O primeiro deles foi realizado em julho de 1967. Um outro foi realizado no ano seguinte. Esses eventos constituíram-se em momentos decisivos para a história recente do Espírito Santo.

    Christiano trabalhava a ideia de industrializar o estado juntamente com a diversificação agrícola, até porque seu governo convivera com a erradicação dos cafezais. Seria o que ele chamou de agroindústria. A produção de café solúvel com a Realcafé e tantas outras como forma de agregar valor à produção agrícola.

    Difícil dizer qual foi o maior legado do Governo Christiano, tamanho foi o volume de feitos e obras. Deixou o Espírito Santo organizado para o desenvolvimento que se acentuaria na sequência, deixou dispositivos fiscais que possibilitariam uma industrialização, até então, apenas sonhada. Foi o líder de uma geração que chegou ao poder com os militares, porém o que se fez no Espírito Santo não foi obra da generosidade do governo nacional.

    Nossa industrialização foi o produto das lutas das elites locais e da capacidade de articulação do nosso sistema político, que incluía a participação dos empresários. Duro nas relações políticas, foi implacável com os que insistiam na pequena política. Christiano trabalhava dias e noites no seu projeto. Fez um governo de muito trabalho e muito sucesso. Um grande estadista a serviço de seu estado.

  • Rumo à industrialização

    Por João Gualberto

    Depois da queda de Getúlio Vargas em 1945, foram criados os partidos que fariam a nossa redemocratização. Um deles, PSD – Partido Social Democrático, de corte conservador e ligado às elites do campo no Espírito Santo, foi entregue a gestão de Jones dos Santos Neves e Carlos Lindenberg. Na primeira eleição que disputaram em 1947 Carlos foi eleito governador do estado e Jones senador da república. Eles iniciariam um ciclo de poder, onde o PSD comandaria o processo de desenvolvimento local. Nesse período, iniciaríamos nossos esforços industrializantes.

    Dr. Carlos fez um primeiro governo em moldes mais tradicionais, com apoio a cafeicultura e organizando o governo para o comando partidário que exercia. Jones, no senado do Rio de Janeiro participou da comissão de economia e discutiu os temas mais relevantes daquele momento nacional. Em 1951, Jones assumiu o governo do estado e iniciou efetivamente nossos movimentos de industrialização.

    Dando sequência às ações do governo de Dr. Carlos, Jones dos Santos Neves ampliou a lógica de seus governos técnicos. Ele deu muita racionalidade ao governo. A construção do Plano de Valorização Econômica do Espírito Santo, tido por muitos estudiosos como o primeiro planejamento estadual feito em nosso país, é um dos marcos mais importantes do seu período administrativo.

    Entre as muitas obras que o Governo Jones planejou e executou, está a construção daquele que seria um dos precursores dos conjuntos habitacionais, construído pelo IBES – Instituto do Bem-Estar Social, no município de Vila Velha. Esse conjunto deu origem a um bairro e a ocupação habitacional de extensa região, através de vários outros bairros. Por seu pioneirismo em termos nacionais e pelo impacto social e urbano que causou, é um dos maiores marcos daquele período.

    Esse governo deu origem a um projeto econômico que viria ser denominado de “projeto jonista”. Muitas obras executadas visavam a dotar o Espírito Santo dos elementos essenciais para a industrialização. Vencer a carência de energia elétrica era um deles. Foi construída a Usina Hidrelétrica de Rio Bonito, em Santa Leopoldina. Esse era um projeto cujas bases estavam contidas em seu plano de desenvolvimento e que queria nos afastar da total dependência do café. É dele a frase: “Os ramos dos cafeeiros já são frágeis demais para sustentar o peso crescente da economia espírito-santense”.

    Em 1954, o PSD – que teve uma visão mais técnica e voltada para as elites e que vinha enfraquecendo os vínculos com a base urbana e a pequena classe média que se formava – perdeu o governo para uma coligação partidária comandada por Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho, que pouco agregou ao processo de industrialização que estava começando.

    Em 1958, findo o governo de Chiquinho e sem que seu grupo político tivesse conseguido seguir no poder, Carlos Lindenberg volta a governar. Montou sua base para industrializar o nosso estado. Nasce, nesse momento, de forma mais clara, o projeto de desenvolvimento para o Espírito Santo que iria se consolidar nos governos militares.

    Nesse contexto, a aproximação com a Federação das Indústrias do Espírito Santo, a FINDES, presidida pelo entusiasta por esse projeto Américo Buaiz, seria fundamental. Ele mesmo havia criado a Federação do Comércio em 1954, e já havia mostrado seu perfil de liderança.

    A FINDES foi criada em 1958, a partir do esforço do pequeno empresariado e técnicos de nosso estado, que lutaram por nossa industrialização. Ela foi para a ação. No ano de 1959, foi criado um conselho técnico formado por: Eliezer Batista, Alberto Stange, Arthur Carlos Gerhardt Santos, Humberto Pinheiro de Vasconcellos, Aloisio Simões, Jorge Faria Santos e Bolívar de Abreu. Sua principal função seria a de estabelecer diretrizes para as nossas indústrias. Ele dotou de racionalidade as ações da federação na busca de um modelo mais moderno para o desenvolvimento do estado.

    O papel dos empresários seria fundamental em toda a ação que se seguiu ao longo dos anos e que seria um dos grandes diferenciais capixabas. Transformou-se em um ativo político fundamental em tudo o que diz respeito às relações entre empresas e governos e entre empresas e sociedade. Foi criado no governo também, um conselho de desenvolvimento econômico, mostrando a sintonia entre os agentes sociais do desenvolvimento, e que passou a ser pauta central do governo, sobretudo depois que as finanças foram sanadas.

    Grande parte desse projeto foi consolidado no projeto que Jones dos Santos Neves articulou, para disputar o governo em 1962. Perdeu para Chiquinho, que governaria até 1966. Com a ascensão dos militares ele renunciou sob forte pressão. Tudo o que se seguiu nos governos foi fortemente marcado pela agenda que havia construído ao longo de mais duas décadas. Essa é uma marca capixaba: a construção de seu desenvolvimento foi efetivada por atores políticos locais muito relevantes.