• Banalidade do autoritarismo

    Por João Gualberto

    Em meu último artigo, fiz um breve comentário sobre o livro Como Salvar a Democracia de dois autores estadunidenses, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Eles analisam, basicamente, as ameaças que estão colocadas para a democracia em seu país. Na sólida argumentação que constroem, relembram movimentos do passado que, em suas épocas, também foram ameaças ao sistema democrático e se concretizaram no nazismo, no fascismo, no salazarismo e no franquismo, para citar as mais conhecidas entre nós.

    Atraiu, particularmente, a minha atenção, um movimento ocorrido na França, nos anos 1930, pela semelhança com acontecimentos recentes em nosso país. Narram, os autores, que na noite do dia 06 de fevereiro de 1934, dezenas de milhares de jovens raivosos – na maioria participantes de associações de veteranos ou de ligas de direita, que ostentavam nomes como Juventudes Patrióticas, Ação Francesa ou Cruz de Fogo – reuniram-se na Place de la Concorde/ Praça da Concórdia. 

    Os acontecimentos tomaram rumos inesperados. Houve queima de ônibus, e os manifestantes arremessaram objetos em direção à Assembleia Nacional. O violento ataque de 06 de fevereiro foi contido, mas produziu profundas marcas na política francesa. Os insurgentes afirmaram que eram patriotas heroicos que haviam tentado salvar a república da corrupção, do comunismo e da ausência de função pública. Eram mártires. Para eles, foi a polícia quem errou ao conter as manifestações.

    Quando o nazismo passou a ser uma ameaça a toda a Europa, esses mesmos grupos de extrema direita na França aderiram aos seus princípios autoritários. Quando o exército alemão invadiu aquele país, no início da Segunda Guerra Mundial, foram os membros de entidades, como a Juventude Patriótica, que colaboraram com os nazistas. Através deles, foi instituído um regime de colaboração com os invasores, na cidade de Vichy. 

    Mais do que isso, foram os que deram suporte à propaganda desse regime. Foram eles, os que mataram a democracia francesa, seis anos depois dos lamentáveis acontecimentos de 1934. Foram os seus líderes, os responsáveis pela entrega dos judeus, enviados aos milhares para a morte nos campos de concentração.

    As elites tradicionais têm a responsabilidade de liderar pelo exemplo e promover a estabilidade e o respeito mútuo na sociedade. Ao incitar grupos raivosos da chamada extrema-direita, elas correm o risco de desencadear ações violentas que fogem ao seu controle. A história da Europa nos lembra dos perigos desse tipo de colaboração, especialmente durante a ascensão do nazismo e do fascismo, quando grupos extremistas de direita encontraram terreno fértil para propagar suas agendas. É crucial aprender com esses eventos passados e trabalhar ativamente para evitar que tais situações se repitam no futuro.

    Essa colaboração foi construída durante décadas, e, sem ela, não teria havido a devastação que a guerra produziu. Os apoios nacionais de grupos de ultradireita foram fundamentais na construção de uma ordem que gerou a simpatia que fez Hitler e Mussolini avançarem. No fundo, esses grupos queriam que o nazismo triunfasse e seriam os apoiadores nacionais desses regimes.

    Por evidências históricas, como essa, é que devemos temer o crescimento de um patriotismo exacerbado, estribado em teses de intolerância e de exclusão dos adversários. Já que existe uma polarização inevitável no Brasil, que ela se dê no terreno da racionalidade política, a qual não admite que extremismos sobrevivam.

  • Salvar a democracia

    Imaginário autoritário entre os brasileiros é muito denso, é muito profundo, está muito enraizado
    por João Gualberto

    Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, os mesmos autores do excelente livro Como as Democracia Morrem, um best-seller global, escreveram outro que foi lançado no Brasil no ano passado, intitulado Como Salvar a Democracia.

    No livro recente, os dois professores de Harvard traçam um panorama das transformações que a democracia vem passando nos Estados Unidos. Eles analisam também, a perspectiva de mudanças que uma reação autoritária colocou. Essa reação autoritária, ameaça também os fundamentos do próprio sistema político. Ele estará no epicentro das eleições naquele país, agora em 2024.

    Para os autores, o modelo democrático estunidense garantiu a dominação de cristãos brancos durante dois séculos. Durante duzentos anos, ficaram no topo de todas as hierarquias econômicas, políticas e culturais do país. Isso começou a mudar de forma drástica no século XXI. As velhas hierarquias raciais estão sendo seriamente contestadas e o país começou a se tornar o que eles chamam de uma democracia multirracial.

    Os antigos donos do poder começaram a ter a sensação de que estavam perdendo o país. O lugar em que foram criados está sendo tomado deles. É essa sensação de perda é que vem empurrando uma grande base social para o extremismo, sobretudo no Partido Republicano.

    Para eles, a atual crise democrática nos Estados Unidos tem suas raízes numa reação contra a democracia multirracial. As mudanças estão sendo marcadas pela inserção política mais forte dos negros e de outros grupos antes afastados do poder. Foram muitos os direitos conquistados por esses grupos. São muitos também os atritos que a prolongada luta pela igualdade racial produziu. Comparando com a crise autoritária que também vivemos no Brasil hoje, ela tem para os autores diferenças importantes, a começar pela consolidação de inúmeros direitos produzidos pelas lutas raciais lá e aqui. Apesar de serem a maioria da população, os negros no Brasil estão longe de desfrutar dos mesmos direitos, proteções legais e oportunidades que os brancos.

    Por outro lado, a sociedade brasileira, marcada pelo coronelismo, tem profundos traços autoritários. Somos um país extremamente machista. Postos chave na cadeia de poder são sobretudo masculinos. Uma certa masculinidade tóxica acaba por tomar conta das organizações, da vida familiar e de todas as relações com a sociedade. Todas as questões de gênero têm muitas dificuldades em avançar entre nós.

    A cultura do desrespeito é muito forte também. Mais aqui do que lá. Desrespeito ao outro de uma forma geral, e especial com os mais fracos, com os pobres maneira geral. Em época de verão e férias, por exemplo, vemos isso no som alto as praias e lugares de entretenimento, sobretudo os públicos. Desrespeito aos idosos, aos portadores de necessidades especiais, àqueles que professam religiões que não sejam as nossas, de forma especial as de matriz africana.

    Temos muitas semelhanças sociais com os irmãos de norte da América. Tanto que o bolsonarismo como matriz autoritária avançou aqui, como avançou o apoio às ideias de Donald Trump lá. Temos também nossas diferenças. O imaginário autoritário entre os brasileiros é muito denso, é muito profundo, está muito enraizado. O fenômeno Bolsonaro foi produzido pelo que já estava instituído.

    Temos que reconhecer que não difícil que uma onda autoritária se implantasse entre nós. As pré-condições já estavam dadas. Todo o resto foi uma consequência dessas nossas raízes. Entretanto, a organização política para a manutenção de privilégios tão arcaicos na sociedade também não é fácil. Os próximos anos serão fundamentais na definição do tamanho de nossa capacidade de reduzir as injustiças, desigualdades e produzir a prosperidade para muitos no Brasil.

  • Polarização nas eleições municipais

    Por João Gualberto

    No início do ano de 2023 – logo nos primeiros meses dos novos governos e dos novos mandatos parlamentares – escrevi artigo onde afirmei que a polarização, que foi tão forte na eleição de 2022, tenderia a diminuir e ser menos intensa nas eleições municipais. Creio que não acertei na previsão. Antes, pelo contrário, o que vemos hoje é uma polarização que se enraíza, a partir das relações afetivas, sobretudo as que ocorrem junto às famílias. Os grupos de WhatsApp registram isso muito bem. 

    A sociedade brasileira adotou padrões de relacionamento extremados. Aliás, eles já existiam em outros países do mundo com forte presença da extrema direita. Nós somos muito influenciados, em especial, pelo que se passa nos Estados Unidos. De lá trouxemos para o Brasil as façanhas da era Trump. Assim, assistimos, mesmo agora, em tempos de festejar os encontros e os legados do afeto, muitos desencontros de amigos e famílias.

    No Brasil, tivemos por longas décadas, desde o início de 1980, um protagonismo enorme da esquerda no campo das iniciativas políticas e dos grandes movimentos da sociedade. São exemplos, as Diretas Já, a Redemocratização, a Constituição de 1988 e quase todas as políticas públicas que nos governaram nesse período. Esse protagonismo foi interrompido pela ascensão do bolsonarismo e da direita. Digamos que a cena ficou mais dividida. Em princípio, é bom e faz parte do jogo democrático. O que não é bom é a polarização afetiva que atinge nossas relações pessoais.

    Quanto às eleições municipais, elas costumam ser tocadas prioritariamente pelas necessidades locais. Isso significa que a zeladoria das cidades, as políticas locais de investimentos em infraestrutura, saúde ou educação ganham as pautas.  Obviamente que elas voltam a ter relevância para a conquista de votos. Entretanto, as razões, digamos, locais, dessa vez, terão um ajuste em função dessa grave polarização.

    Nas grandes cidades e capitais como São Paulo e Rio de Janeiro o impacto será muito maior. De forma inversa, em localidades muito pequenas essa influência pode ser mesmo muito menor. Existem ainda localidades que têm um bairrismo muito particular e que criam barreiras fortes para a polarização eleitoral que se aproxima. Não é um fenômeno mecânico, linear.  Ela vai nos afetar de forma distinta em diversas regiões. Mas, todos seremos, de uma ou de outra, afetados.

    Retomo, então, o início do meu raciocínio. Diferentemente de outros processos eleitorais nos municípios, teremos em 2024 eleições profundamente marcadas pela divisão esquerda x direita. Vou além. A direita está se preparando melhor para esse embate. Usa de forma escancarada os recursos da construção de uma certa verdade nas redes sociais e se organiza, hoje, melhor, de forma partidária. Por essas razões, deve avançar na conquista de prefeituras, projetando um ganho expressivo para as eleições nacionais e regionais em 2026, quando a polarização deverá ser exacerbada.

  • Serra: Eleições 2024

    Diferente de outros municípios: uma clara disputa já está colocada no maior colégio eleitoral do ES
    por João Gualberto

    São quatro os municípios que têm eleições em dois turnos no Espírito Santo. Portanto, são os colégios eleitorais mais importantes daqui. Na Grande Vitória forja-se boa parte das nossas elites políticas regionais. Nenhum dos governadores eleitos desde os anos 1940 teve qualquer mandato executivo no interior do Estado. São, sobretudo, produtos políticos dessa região. Importante, então, entender melhor o que se passa aqui.

    Abordei nos meus textos anteriores alguns elementos dos processos sucessórios em dois deles, Vitória e Cariacica. Hoje, tocarei no que deve ocorrer no município de Serra. O ciclo de gestões bem-sucedidas no município, foi iniciado em 1996 por Sérgio Vidigal. Ele teve duas eleições contínuas e em 2004 elegeu, por boa margem de votos, seu secretário de educação Audifax Barcelos, então, pouco conhecido.  De fato, ganhou três eleições consecutivas. Audifax também fez boa gestão em seu primeiro mandato, tanto que venceu mais duas eleições. Vidigal já está no quarto mandato. Os dois somam juntos 26 anos consecutivos de poder. É o recorde capixaba. Provavelmente a dupla mais longeva de nossa política, e mesmo do quadro brasileiro de sucessões municipais.

    Nas eleições desse ano, provavelmente, o atual prefeito será candidato à reeleição. É natural que seja. É o que tenho visto anunciado no noticiário político. Ao que parece, Audifax vai tentar reeditar a velha disputa de quase três décadas. Entretanto, seu desempenho nas eleições estaduais de 2020 acabaram por produzir um certo desgaste em seu capital político. Por outro lado, a equação de Audifax tem outra incógnita: sua inflexão à direita. Afinal, ainda não sabemos como o seu eleitorado vai entender o apoio que deu a Carlos Manato no segundo turno das eleições passadas. Manato foi candidato da direita bolsonarista, como bem sabemos. Esse é um fator novo.

    Por essas razões, não me parece evidente que a velha polarização venha a acontecer. Até porque, um novo ator vem ganhando impulso no processo, o deputado Pablo Muribeca. Ele tem pautado sua ação política pela lógica denuncista comum na direita. Essa lógica apelativa é muito potente para as redes sociais. Dá a ele, inclusive, um ar de ser mais de direita do que Audifax. Pode ocupar o lugar da polarização afetiva de que tenho tratado em meus textos. Mais ideológica, mais pautada em valores conservadores. Essa, que lida com razões que, às vezes, estão fora da política. Parece ter seduzido parte desse público mais reacionário. O bolsonarismo talvez encontre nele seu candidato.

    Pablo Muribeca e Sérgio Vidigal.

    Tudo vai depender da adesão que ele venha obter. Parte dos políticos da nova direita em nosso estado já parece estar atenta a esse fato. Mas eleição não é coisa para amadores, como tem registrado o próprio prefeito. A longa experiência de eleições de Vidigal terá seu peso, assim como as alianças que vem construindo ao longo de tempo. Vamos ver com quais armas Vidigal comparecerá ao campo de batalhas.

    Há, portanto, sinais de um novo embate. Só esse elemento já porta em si algo de novo na Serra. Os próximos lances vão definir melhor o que virá.

  • Eleições de 2024 em Cariacica

    Polarização não se desdobrará de forma mecânica em todas as localidades brasileiras. Cada uma delas tem suas especificidades
    João Gualberto

    Tenho chamado a atenção para a importância do fenômeno da polarização nas próximas eleições municipais. Creio que junto às enormes questões e demandas municipais ligadas à zeladoria das cidades, às políticas de educação, saúde, segurança, obras e infraestrutura, dentre outras, sempre presentes na cena política dos municípios, em 2024 haverá esse outro marco eleitoral.

    A polarização, entretanto, não se desdobrará de forma mecânica em todas as localidades brasileiras. Cada uma delas tem suas especificidades e, agora, elas se mostrarão presentes. Em São Paulo, por exemplo, o governo Lula jogará todas as suas fichas na eleição do Deputado Federal do PSOL Guilherme Boulos. A grande imprensa nacional tem noticiado que o próprio presidente tenta atrair a ex-prefeita e senadora por São Paulo, Marta Suplicy, de novo, para o PT, e para compor a chapa de Boulos.

    O ex-presidente Jair Bolsonaro está mais do que presente na política paulista, onde ajudou fortemente a eleger o atual governador Tarcísio de Freitas, e quer reeleger o atual prefeito. Passa grande parte do seu tempo dedicado a essa tarefa. Será uma guerra feroz, onde a polarização de que estou falando será o mote do processo. Tanto Lula quanto Bolsonaro apostam nisso e querem antecipar 2026.

    Na maioria das cidades, entretanto, o clima eleitoral vai depender das condições locais. Penso, hoje, em Cariacica, na Grande Vitória. Nela, a polarização já foi a principal razão de voto nas eleições de 2020. O segundo turno foi disputado pela ex-secretária de educação do governo de Helder Salomão no município, Célia Tavares, e pelo então deputado estadual Euclério Sampaio. Esse último Pastor da Igreja do Igreja do Evangelho Quadrangular. Ele sempre teve corte claramente conservador. Foi um deputado estadual alinhado com as teses da direita. Helder Salomão, o Deputado Federal mais votado do Espírito Santo nas eleições passadas, tem forte presença política no município que governou por dois mandatos. Foi um enfrentamento de polos, de bolhas.

    Tudo isso ficou muito claro. De um lado o conservadorismo de Euclério e de outro o petismo da Célia Tavares. Euclério venceu a eleição, como todos sabem.

    Com esse perfil vai disputar as eleições desse ano. Pelo que se anuncia terá novamente como principal adversária a mesma Célia Tavares do PT. Certamente, mesmo que não queiram, ambos vão reeditar a polarização. O quadro nacional vai se colocar em Cariacica. Caso realmente vença as eleições, Euclério Sampaio começa a se credenciar para disputar o podium conservador em nosso Estado.

    Ao contrário de Jair Bolsonaro que governou com base em narrativas negacionistas e com mais gestos do que políticas públicas, Euclério montou um governo aprovado nas pesquisas de opinião. Realiza obras em parceria com o governo Renato Casagrande, distante de suas raízes ideológicas. Sabe que precisa de entregas. A última foi a Orla de Cariacica. A isto, dá-se o nome de pragmatismo político. O prefeito, surpreendendo a todos, vestiu-se desse pragmatismo político. Um conservadorismo pragmático, para usar uma expressão condizente com o que vem tentando – um governo acima de desavenças locais.

    Como as eleições de 2024 portam, em grande medida, as de 2026, vamos ver como se comportam eleitoralmente os prefeitos claramente de direita como Pazolini, Euclério, Enivaldo dos Anjos, e como irão se cacifar para o próximo pleito estadual, e como encarnarão a polarização regional

    Euclério Sampaio, Prefeito de Cariacica eleito em 2020: administração pragmática. Foto: ESHOJE.
  • Crime e política

    Por João Gualberto

    Estamos assistindo ao crescimento da violência no Brasil. Espaços como as periferias das grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, estão completamente tomados por grupos extremamente organizados – todos eles a partir da violência – que dominam a cena. As populações que habitam esse espaço são permanentemente submetidas ao domínio dos contraventores, e de vários grupos de atores desse mundo. Nele se mata por muito pouco. 

    Os que dominam o tráfico de drogas, o jogo do bicho, os que participam das milícias armadas, os pistoleiros – muitas vezes às ordens de um dos lados da luta, são os chefões. A polícia militar costuma ter sua dose de culpa nesse ambiente violento. Suas intervenções agudizam o clima instalado. O Estado, na maioria das vezes, ausente. 

    O crescimento da violência organizada tem sido objeto de muitos estudos, eles nos chegam de várias formas. Chamo a atenção, aqui, para o podcast A República das Milícias organizado pelo estudioso do tema violência e pesquisador da USP Bruno Paes Manso, autor de livro do mesmo nome e de um outro igualmente importante chamado Fé e Fuzil: fé e religião no Brasil do século XXI. Um outro podcast, Os Pistoleiros assinado pelo jornalista Rafael Soares, também toca nos bastidores do crime organizado no Rio de Janeiro. A Globoplay tem duas séries importantes: Vale o Escrito e Doutor Castor. Ambas fazem radiografias dos grandes bicheiros cariocas, de sua paixão pelo carnaval e pelas escolas de samba. Esses quatro grandes trabalhos jornalísticos e de pesquisa sobre a vida cotidiana no Rio de Janeiro formam uma visão clara da dimensão a que chegou o crime organizado entre nós. 

    Ao contar a história dramática da organização da violência e do massacre do cidadão comum que vive nesses espaços urbanos, cuja ocupação se deu longe das regras do Estado, nos é mostrado um panorama muito atual do Brasil das grandes cidades.  As favelas e as regiões da periferia, surgiram através de grandes improvisações de políticas públicas e pela total negligência histórica das autoridades brasileiras pela vida dos mais pobres. Os autores, na verdade, contam muito do que se passa em todas as cidades brasileiras. 

    A primeira questão que eu me coloquei ao ver e ouvir esse conjunto rico de trabalhos foi sobre a origem da contravenção no Jogo do Bicho. Por que contravenção? Apostas feitas, sobretudo no mundo dos pobres, têm o mesmo perfil de tantos outros jogos bancados pelo próprio governo. Somente a corrupção e a montanha de dinheiro fácil que ele gera pode explicar sua colocação como contravenção. Hipocrisia de muitos com permissão oficial. Dessa montanha de dinheiro originam-se outras contravenções como as chamadas máquinas caça-níqueis. As guerras por seu controle ganham dimensões de massacres nas grandes cidades. Todas as séries acima citadas colocam em evidências personagens como Rogério Andrade ou Shana Garcia, as famílias poderosas desse universo e os seus grupos armados. Eles comandam e usam a mesma lógica das máfias internacionais.  

    Toda essa máquina de poder e dinheiro precisa da proteção do Estado para agir. As milícias cariocas operam em áreas muito mais amplas do que o controle de suas bases territoriais. Vão do contrabando ao tráfico de droga, de armas e outras transgressões e violações. Tudo isso só existe sob forte proteção de autoridades. Por isso, ajudam a eleger muitos parlamentares e cargos no executivo. Estão representados nas câmaras de vereadores e nas prefeituras, além de muitas assembleias, e também no plano nacional. 

    Creio que posso afirmar, sem medo de errar, que, daqui para frente, ninguém pode compreender o que tende a acontecer na política brasileira, sem entender o mundo do crime. As milícias e as contravenções já elegem inúmeros políticos em muitos Estados Federados. E, assim, aos poucos, estão cercando nossas instituições com o poder de muito dinheiro. 

  • A polarização afetiva

    Por João Gualberto

    Um dos fenômenos sociais mais importantes do mundo em que vivemos é a polarização. Ela se dá sobretudo no campo ideológico. Como a polarização é muito ligada às redes sociais, torna-se um fato global. Não está restrita à sociedade brasileira. A persistência da polarização depois da eleição de 2022, já foi objeto de um outro artigo meu. Quem esperava que nesse ano de 2023, ela fosse diminuir errou. Eu mesmo estou entre os que erraram. O que vemos, ao contrário, é a sua força em muitas instâncias da vida cotidiana. Agora ela ocupa espaços que antes nunca foram divididos, e nem havia competição por ideias.

    O tema é bem tratado no livro que acaba de chegar às livrarias: Biografia do Abismo: como a polarização divide famílias, desafia empresas e compromete o futuro do Brasil, Thomas Truman e Felipe Nunes, deram interessante entrevista ao jornal O Globo em sua edição do dia 02 de dezembro. Nela, eles definem as eleições de 2022 como a consolidação de um processo competição de identidades, que se expressam e se espremem em bolhas.  No decorrer do processo, cada bolha foi ficando mais parecida internamente e, ao mesmo tempo, mais diferente da outra.

    Foi sendo consolidada, na visão dos autores, uma grande Polarização Afetiva. Nela, cada um tem sempre razão e cada bolha quer ter direito a representar o Brasil. Cada um, só se sente confortável quando se relaciona com quem compartilha das mesmas paixões. Quem reenvia uma mensagem recebida não precisa nem acreditar nela, é muito mais sobre lealdade e participação dentro de um grupo. Parece mais torcida de times de futebol.

    Os autores chamam a atenção para o fato de que o que está agora em jogo não são mais decisões sobre economia, mas como cada um quer criar o seu filho, que música ouvir e que artistas quer acompanhar. Esse processo vai tornando-se de tal forma forte, que a chamada Polarização Afetiva vai calcificando as preferências políticas. Cada voto contém assim uma visão de mundo e o que cada um acha que é o certo. Esse processo será forte em 2024.

    Muito bem analisado, pelos autores, todos nós estamos vivendo esse processo. Os grupos de WhatsApp, as mesas dos bares e de muitas casas, antes divididas de forma natural, agora não comportam mais gente dos dois lados da polarização. A tolerância e foco na amizade e na alegria foram embora. O que temos visto são discussões, agressões verbais e afastamentos.

    Eu mesmo tenho notado que não consigo mais frequentar muitos grupos de amigos de longa data, por diferenças de opinião. Diferenças que, diga-se de passagem, sempre existiram. Não estamos mudando nossa visão de mundo. Sempre foram essas. O mundo ficou intolerante, mais difícil e dominado pela polarização. E mais, cada um quer lacrar em cima do outro. Sacanear como nas torcidas de futebol. Como se fôssemos todos e o tempo todo flamenguistas e vascaínos.

    Quanto mais intensa for a relação afetiva, mais a polarização se faz presente. É cada vez mais difícil, por exemplo, começar um namoro ou um relacionamento entre Lulistas e Bolsonaristas. Também não é fácil, para a maioria dos brasileiros, suportar suas próprias famílias ou a de amigos com visão política muito diferente da sua.

    Podemos até admitir que sempre houve isso. Não nessa intensidade e nem na proporção que a intolerância está tomando entre nós, tornando a vida mais chata, os amigos mais escassos e a sociedade bem pior.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 08 de dezembro de 2023.

  • A Argentina e a persistência da polarização

    Por João Gualberto

    A derrota de Jair Bolsonaro nas eleições do ano passado produziu, de imediato, acirramento da polarização que já havia caracterizado todo o processo eleitoral. Para tentar dar um golpe, a extrema direita organizou-se acampada na porta dos quartéis. Embora mantivesse um isolamento das ruas e poucas manifestações verbais, o então presidente comportou-se de forma a favorecer claramente esses movimentos com claros movimentos nos bastidores. 

    Quando essa massa, que se manteve mobilizada, ensaiou uma tomada, pouco viável, do poder, pela invasão que todos vimos em Brasília, a mobilização ficou comprometida O novo governo ganhou o apoio das instituições da sociedade, e a longa exposição do 08 de janeiro na mídia enfraqueceu os setores mais conversadores nas ruas. A ação do STF também provocou mais cautela. Até hoje, essa capacidade de mobilização não foi retomada. Um elo na corrente da polarização pelo lado conservador ficou fragilizado. 

    A estratégia mudou. Já fiz referência em outros textos ao fato que o PL, partido do casal Bolsonaro, estar se organizando a partir da força evangélica da ex-primeira-dama. Em estratégia inteligente o casal viaja junto, mas parecendo que não está em um mesmo movimento. Ela é a peça mais importante nesse momento. Mobiliza para grandes eventos, nos quais o marido aparece rapidamente. Entretanto fica na mesma cidade do evento, em encontros estratégicos com seus correligionários e construindo articulações para as eleições municipais. Michele também ajuda a filiar milhares de mulheres ao mesmo PL. Muito eficiente como manobra para fazer crescer o bolsonarismo nas bases. Boa estratégia. 

    Outro ponto importante é o modo como a direita trabalha a persistência da polarização política. Todas as oportunidades para chegar às redes sociais, sobretudo ao WhatsApp, com suas teses e artimanhas que são aproveitadas ao máximo. Foi assim nas eleições para os conselhos tutelares, no posicionamento quanto a Guerra Israel-Palestina e mais recentemente quanto a eleição na Argentina.   

    Vamos pensar na eleição de Javier Milei. Ele foi um candidato totalmente sintonizado com Jair Bolsonaro e seus métodos políticos em todo o primeiro turno. No segundo, fez uma aliança clara com a direita tradicional da Argentina, mas manteve o gestual do ex-presidente, sobretudo na imagem de distância com a política tradicional. Sua vitória foi surpreendente pela expressividade. Abriu mais de dez pontos com o rival peronista.  

    A vitória foi saudada pela direita brasileira com euforia, como se fosse sua. O sucesso argentino da copa do mundo foi comparado a eleição do novo presidente. Perdemos a copa e elegemos o 13, a mensagem circulou na internet, fazendo a comparação da política com o mundo do esporte. Caso a gestão Milei seja um sucesso e leve adiante suas teses ultra-liberais, o bolsonarismo tentará se apropriar desse fato para alimentar a polarização com as esquerdas no Brasil.    

    Assim, cada fato que não parecia fazer parte da polarização, acaba por acirrar o fenômeno político. A Guerra em Gaza, as eleições na Holanda, as eleições americanas, a indicação de Flávio Dino ao STF, ou as descobertas de fatos do passado de algum artista, como ocorreu com Caetano Veloso ou com Xuxa. Vale tudo. O fato é que as ruas estão vazias de manifestações, mas as redes sociais alimentam a polarização, que se acentua. Quem apostava, como eu, em tempos de mais paz perdeu a aposta. 

    Artigo publicado originalmente no portal ES360 no dia 03 de dezembro de 2023. 

  • Michelle Bolsonaro e o feminismo de direita

    Por João Gualberto

    A luta das mulheres que produziu o chamado feminismo sempre foi um ideal das esquerdas. Desde o final do século XIX, quando essa pauta ganhou muita importância nas lutas políticas, tem sido assim. Nos anos 1960, foi enorme a visibilidade das atitudes ligadas ao maio de 1968, seja nas ruas de Paris ou nas manifestações contra a Guerra do Vietnam, nos Estados Unidos. De luta em luta, e com a liberdade de escolhas que foram conquistadas, surge uma mulher mais emancipada e autônoma. Nas décadas que se seguiram, muitos outros elementos somaram-se às conquistas iniciais no mundo ocidental, até chegarmos a situação de construção da progressiva autonomia que temos hoje.

    Entretanto, algo de novo surge nesse mundo. É a organização das mulheres conservadoras ou das mulheres de direita. Há, sim, nesse movimento, um desejo de emancipação, de representação política, mas de outra ordem. Mais contido, mais tradicional, dentro das normas da família, como é concebida, sobretudo, no mundo cristão. Quem melhor espelha essa nova forma de expressão social é a ex-primeira-dama, Michele Bolsonaro. Dona de uma sensualidade recatada, casada com o estereótipo acabado do homem tradicional brasileiro, ela se comporta como uma líder ao seu estilo. 

    Michele Bolsonaro não tem um discurso claramente político, com os temas mais afeitos ao universo masculino. Antes, pelo contrário, tem viajado pelo país com um discurso leve, falando de temas mais afeitos às típicas mães de família brasileira e as esposas ligadas à fé cristã. Gosta de criticar a atual primeira-dama – aliás, alvo preferencial da direita brasileira – como forma de contrapor dois estilos. O estilo da ex-primeira-dama tem muitas defensoras e fãs entusiastas, que lotam seus eventos.

    Com a inelegibilidade de seu marido, Michele abriu um poderoso guarda-chuvas de proteção a toda a família Bolsonaro. Assumiu a presidência do PL Mulher, cargo remunerado criado especialmente para ela, e tem feito incansáveis viagens por todo o Brasil. Nelas, Jair Bolsonaro é presença constante, embora sempre de forma, digamos, periférica, quase casual. São aparições rápidas, com discursos de baixa intensidade agressiva, para não contrastar com a verdadeira dona do espetáculo.

    Na verdade, ela vem realizando milhares de afiliações de mulheres ao PL Brasil afora. Está criando uma rede de relacionamento partidário que certamente produzirá forte efeito eleitoral no próximo ano. Além disso, Jair Bolsonaro aproveita sua estadia em vários estados brasileiros para aprofundar contatos com pequenas e médias lideranças das igrejas evangélicas, de pré-candidatos aos governos e legislativos municipais, em 2024. A intenção, parece-me, ser a de agir o mais discretamente possível, evitando enfrentamentos e discursos cheios de ódio. Tudo precisa ter um tom mais leve, mais cristão. Creio que tem todas as chances de produzir bons resultados e muitos votos. Assim, sem que a maioria dos analistas preste muita atenção, a direita vai se organizando no mundo feminino. Nesse novo feminismo conservador, que, de quebra dá uma boa carona a nova estratégia de sobrevivência dos Bolsonaro. Michele poderá crescer nessa estratégia. 

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 27 de novembro de 2023.

  • Sérgio Rogério de Castro

    Por João Gualberto

    Encerrou recentemente seu ciclo de presença física entre nós, um profundo entusiasta das transformações sociais. Ele foi um dos fundadores do Movimento Empresarial Espírito Santo em Ação, presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo nos anos 1990 e também da Associação de Empresários de Serra, na já distante década de 1970, portanto, precursor dos movimentos de construção de representação empresarial entre nós.

    Homem de sucesso, foi fundador de uma empresa importante nacionalmente no setor de embalagens, a Fibrasa. Aliás, a primeira indústria a se instalar no Civit, o nosso centro industrial localizado em Serra.  A decisão continha riscos, afinal tudo lá estava apenas começando. Em tudo, um pioneiro, em tudo ousado, foi um dos maiores nomes do associativismo no Brasil. Foi também Senador Suplente de Ricardo Ferraço no PSDB, tendo assumido seu cargo de Senador da República. 

    Fundador da Escola de Associativismo, ele dedicou a vida a formar líderes, desde comunidades até lideranças que representam grandes indústrias. Seu foco sempre foi a construção de patamares mais elevados da representação política. Muito inovou na Findes quando a dirigiu no início dos anos 1990. Foi essa militância e importância política como gestor inovador, que o fez disputar a eleição do ano 2.000 da mesma instituição. Um ato de coragem. Foi massacrado pela máquina política que comandava o Espírito Santo, à época. Mas, suas ideias e lutas não morreram com a derrota. 

    Faço agora um depoimento pessoal. Foi no final de 1999 que conheci Sérgio Rogério. Havia sido professor do seu filho Léo de Castro no curso de administração da UFES. Léo sugeriu ao pai que fizesse um trabalho de pesquisa qualitativa e construção de um projeto próximo do desejo das suas bases para a Findes. Eu era sócio da Futura e a empresa fez o trabalho. Logo depois desse episódio, ele nos procurou mais uma vez, para trabalhar a ideia de que as elites empresariais precisavam construir um outro locus para a sua ação. Uma outra instituição. 

    A motivação era óbvia. Sérgio queria criar uma instância que pudesse ajudar o Espírito Santo a vencer o grave quadro de impasse político que estava instalado. Foi o mesmo quadro que levou a OAB a criar o Fórum Reage Espírito Santo, com forte adesão e nossas elites. Suas ideias foram trabalhadas nesse contexto, pelo núcleo de empresas responsáveis pela criação da nova instituição.

    Esse núcleo inicial deu forma às ideias levantadas por Sérgio Rogerio. Deu forma e a materializou. Isso foi há 20 anos. A instituição teve forte papel na reconstrução ética do nosso estado. Colaborou de forma transparente e positiva nos governos Paulo Hartung e Casagrande, na construção de uma nova agenda para o Espírito Santo. Fez isso através de vários planos e projetos. Ajudou a vencer aquele quadro lamentável em que estávamos. Construiu e alimentou capital político entre as lideranças empresariais.  

    Hoje, somos um estado muito bem situado no quadro brasileiro de governança responsável e sistema político equilibrado. Construímos um ciclo de progresso. Na sua origem temos o papel desbravador, corajoso e ético desse grande personagem de nossa história recente. Por tudo o que foi e significou para a minha geração, tenho muito orgulho de que minha vida tenha sido um dia enriquecida pela presença desse homem honrado que foi Sérgio Rogério de Castro. De poder ter tido a oportunidade de conviver com sua coragem e determinação. Ele partiu com sua missão cumprida e honrou a vida que teve.