• A força da periferia

    Por João Gualberto

    O processo histórico de construção da sociedade brasileira, transmitiu a todos nós legados importantes. Um dos mais fortes é a nossa cultura popular. Por razões óbvias, ela tem uma inspiração profundamente africana, embora o hibridismo com a cultura lusitana tenha sido extenso. A fusão das crenças originárias de povos africanos com o catolicismo é a maior prova. Daí, o sincretismo religioso.

    Várias tem sido as formas de negação dessas marcas tão importantes de nossa trajetória como sociedade. Há algumas décadas, tudo o que dizia respeito aos cultos de matriz africana era interditado ou fortemente discriminado. No auge da ditadura Vargas, nos anos 1930/40, muito terreiros foram fechados Brasil afora; mães e pais de santo ou mesmo os que acreditavam nesses rituais religiosos foram violentamente agredidos.

    O preconceito continua. A extrema direita brasileira, nos dias de hoje, por exemplo, ainda trata com forte discriminação todas as manifestações religiosas de matriz africana e nega todas as políticas compensatórias possíveis. Mais do que isso, exercita um negacionismo, sem fundamentação na realidade histórica.

    São contra todas as formas de tolerância. Insistem em construir novas “europas” entre nós, com uma tentativa de eliminar a densidade dos negros em nossa história. É evidente que os traços de africanidade estão presentes na cultura brasileira, de forma abrangente, seja na culinária, na língua, nos gestos, nas artes ou em qualquer instância social desejada. Todos esses traços são muito marcantes em nossa cultura artística.

    As periferias das grandes cidades brasileiras tiveram seu crescimento recente, sobretudo a partir dos anos 1960 e 1970, balizado por forte migração interna. Pessoas que até então viviam no campo deslocaram-se para alimentar o crescimento industrial e urbano de nossa sociedade. Contudo, não foram implementadas políticas sociais e urbanas para acolher esses milhões de brasileiros. O auge desse movimento deu-se durante os anos de chumbo dos governos militares. Época em que a lógica tecnocrática comandava a política.

    Os que viviam na zona rural vieram para as cidades, que cresciam em condições sub humanas. As periferias das grandes cidades passaram a ser o locus de uma nova forma de viver, quase sempre muito dura. Violenta, mas cheia de manifestações culturais. São produtos de nossas heranças profundas. Uma nova configuração de viver essa trajetória histórica de muitas dores, deu origem a uma nova forma de viver as artes. A cultura da periferia invadiu todos os palcos do Brasil, como já vinha fazendo em outros países do mundo.

    Esse novo fazer artístico, fortemente ancorado na nossa africanidade e nas nossas tradições populares, não consegue se proclamar politicamente com a mesma força que tem no tablado artístico. As esquerdas tradicionais no Brasil, ainda não entenderam a força política desses novos contornos de manifestação da alma de nosso povo, e continuam presas a velhas formas de expressão coletiva.

    Essa energia artística e política de nossa juventude que vive nas favelas e nas periferias de nossas cidades não me parece ter, hoje, produzido lideranças que estejam no grande jogo da política. É uma ausência que precisa ser resolvida. A presença dessa força organiza, a meu ver, os processos contemporâneos de produção de lutas e de pertencimento. São, como nominou o sociólogo Jailson de Souza e Silva, as bruxas e bruxos das cidades. São e serão atores muito relevantes no processo político brasileiro.

    Ainda hoje, estão sub representados em qualquer instância decisória de nossa sociedade. O combate ao racismo, o reconhecimento de nossas diversidades, as novas construções familiares, tudo pode ser melhor construído com a representação desses protagonistas. É uma forma mais democrática e contemporânea de produzirmos a transformação social que tanto sonhamos.

    Artigo publicado originalmente no portal ES360 no dia 27 de agosto de 2023.

  • O processo histórico de construção da sociedade brasileira, transmitiu a todos nós legados importantes. Um dos mais fortes é a nossa cultura popular. Por razões óbvias, ela tem uma inspiração profundamente africana, embora o hibridismo com a cultura lusitana tenha sido extenso. A fusão das crenças originárias de povos africanos com o catolicismo é a maior prova. Daí, o sincretismo religioso.

    Várias tem sido as formas de negação dessas marcas tão importantes de nossa trajetória como sociedade. Há algumas décadas, tudo o que dizia respeito aos cultos de matriz africana era interditado ou fortemente discriminado. No auge da ditadura Vargas, nos anos 1930/40, muito terreiros foram fechados Brasil afora; mães e pais de santo ou mesmo os que acreditavam nesses rituais religiosos foram violentamente agredidos.

    O preconceito continua. A extrema direita brasileira, nos dias de hoje, por exemplo, ainda trata com forte discriminação todas as manifestações religiosas de matriz africana e nega todas as políticas compensatórias possíveis. Mais do que isso, exercita um negacionismo, sem fundamentação na realidade histórica.

    São contra todas as formas de tolerância. Insistem em construir novas “europas” entre nós, com uma tentativa de eliminar a densidade dos negros em nossa história. É evidente que os traços de africanidade estão presentes na cultura brasileira, de forma abrangente, seja na culinária, na língua, nos gestos, nas artes ou em qualquer instância social desejada. Todos esses traços são muito marcantes em nossa cultura artística.

    As periferias das grandes cidades brasileiras tiveram seu crescimento recente, sobretudo a partir dos anos 1960 e 1970, balizado por forte migração interna. Pessoas que até então viviam no campo deslocaram-se para alimentar o crescimento industrial e urbano de nossa sociedade. Contudo, não foram implementadas políticas sociais e urbanas para acolher esses milhões de brasileiros. O auge desse movimento deu-se durante os anos de chumbo dos governos militares. Época em que a lógica tecnocrática comandava a política.

    Os que viviam na zona rural vieram para as cidades, que cresciam em condições sub humanas. As periferias das grandes cidades passaram a ser o locus de uma nova forma de viver, quase sempre muito dura. Violenta, mas cheia de manifestações culturais. São produtos de nossas heranças profundas. Uma nova configuração de viver essa trajetória histórica de muitas dores, deu origem a uma nova forma de viver as artes. A cultura da periferia invadiu todos os palcos do Brasil, como já vinha fazendo em outros países do mundo.

    Esse novo fazer artístico, fortemente ancorado na nossa africanidade e nas nossas tradições populares, não consegue se proclamar politicamente com a mesma força que tem no tablado artístico. As esquerdas tradicionais no Brasil, ainda não entenderam a força política desses novos contornos de manifestação da alma de nosso povo, e continuam presas a velhas formas de expressão coletiva.

    Essa energia artística e política de nossa juventude que vive nas favelas e nas periferias de nossas cidades não me parece ter, hoje, produzido lideranças que estejam no grande jogo da política. É uma ausência que precisa ser resolvida. A presença dessa força organiza, a meu ver, os processos contemporâneos de produção de lutas e de pertencimento. São, como nominou o sociólogo Jailson de Souza e Silva, as bruxas e bruxos das cidades. São e serão atores muito relevantes no processo político brasileiro.

    Ainda hoje, estão sub representados em qualquer instância decisória de nossa sociedade. O combate ao racismo, o reconhecimento de nossas diversidades, as novas construções familiares, tudo pode ser melhor construído com a representação desses protagonistas. É uma forma mais democrática e contemporânea de produzirmos a transformação social que tanto sonhamos.

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 27 de agosto de 2023.

  • A invenção da esquerda no Brasil

    Por João Gualberto

    A esquerda chegou ao Brasil no final do século XIX. Nesse primeiro momento, chama a atenção dos estudiosos a forte presença dos anarquistas, sobretudo entre os operários urbanos de origem espanhola e italianos, dentre outras nacionalidades. Essa presença foi definitiva na primeira grande greve brasileira, ocorrida em São Paulo, em 1917. Os grevistas pararam a cidade durante vários dias.

    Em 1922, com a criação do partido comunista, vai ganhando mais espaço entre o movimento operário, e mesmo entre intelectuais, essa corrente de pensamento. A partir dos anos 1930 e 1940, transforma-se no epicentro das grandes greves, como as ferroviárias – como a que aconteceu em Cachoeiro – e também dos trabalhadores ligados aos sistemas portuários. Eram as classes organizadas naquele momento. De fato, a esquerda brasileira que chega aos nossos dias nasce nesse momento e desses movimentos.

    Somente nos anos 1970 e 1980, surgirá um novo sindicalismo, que rompe com a hegemonia dos velhos sindicatos, nascidos nos primeiros períodos. Os sindicatos tradicionais haviam sido cooptados pelo poder, e eram pouco mais que organismos assistencialistas e de controle de pequenos clãs imutáveis. As greves no ABC paulista de 1978-1980, ocorridas no contexto da abertura política e no fim do período dos militares, marcam o ressurgimento do movimento trabalhista brasileiro. Surge, aqui, uma nova elite operária, cujo principal nome seria o de Lula. Muito importante nessa reconstrução foi a esquerda da igreja católica, assim como muitos intelectuais, artistas e formadores de opinião. 

    O Brasil clamava por uma abertura ampla, que atingia a todos desses públicos. Nesse momento, os conservadores que sustentavam o regime autoritário eram minoritários, tanto que, muitos setores empresariais estavam, também, participando desses movimentos. O modelo de desenvolvimento baseado em estatais e no controle de poucos grupos apresentava sinais de desgaste. O tempo cria, institui novas demandas e exige mudanças.

    O que estou argumentando aqui é que cada ciclo econômico, político e social tem as suas demandas e cria suas necessidades políticas. As necessidades que fizeram surgir o novo sindicalismo nos anos 1970, apoiado por setores da igreja católica e formadores de opinião estão em grande transformação. Os sindicatos, a grande imprensa e mesmo a igreja católica perderam potência. De outro lado, há novos atores no processo social que pedem passagem.

    As periferias vieram para o centro do processo. A velocidade dramática do crescimento urbano criou um novo mundo para milhões de brasileiros. Mundo de excluídos dos grandes investimentos nas cidades, sem equipamentos urbanos e com uma ação policial lamentável pela truculência que todos conhecem. Com as novas periferias, emergem, com força, as questões de combate ao racismo, as questões de gênero, de tolerância, para falar dos mais emblemáticos. Elas dizem respeito ao cotidiano nessas novas regiões urbanas. Por trás de tudo isso, a necessidade de construir novos patamares democráticos, de repensar os vínculos sociais.

    Experiências exitosas como o orçamento participativo, os inúmeros conselhos ligados às gestões municipais já não dão conta dessas novas construções sociais. Portanto, a reinvenção das esquerdas está colocada no mundo das coisas reais, das novas representações sociais do imaginário político brasileiro. É uma necessidade social que tem que ser compreendida e politizada.  A direita já entendeu isso, e tem atuado com sucesso em muitos países, inclusive no Brasil. 

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 12 de agosto de 2023.

  • A centro-esquerda capixaba tem de se reinventar

    Por João Gualberto

    Tenho escrito de forma recorrente sobre o crescimento da direita no Brasil e no Espírito Santo. Ao analisar as últimas eleições, dei ênfase ao crescimento da chamada pauta de costumes dos evangélicos e dos militares na política. Os candidatos majoritários Carlos Manato e Magno Malta, foram sustentadores desses valores no mundo eleitoral capixaba, por exemplo.

    Mais recentemente escrevi sobre a inflexão para a centro-direita. Em termos regionais, na cola de um movimento nacional, foi se estruturando um bloco de poder sob a condução de partidos como o PP, Republicanos e setores do Podemos, dentre outros. Atores relevantes na bancada federal, na assembleia legislativa, nas prefeituras e câmaras municipais têm atuado nessa inflexão. As discussões da centro-direita, têm sido mais econômicas, nos afastando da pauta mais radical de costumes. 

    Entretanto, este é o meu olhar. Não é o único. Segundo informações, o deputado federal Evair de Melo, vice-presidente nacional do Progressistas acredita que a polarização não está vencida. Confia que mesmo no pleito de 2026 ela estará presente. Parte do princípio de que o Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso e interior de São Paulo são particularmente conservadores e, por isso, embora, neste momento manifestem-se discretamente, a polarização continua presente. Para ele, em 2026, ela deve aflorar.

    Nesse ambiente político, temos que pensar na posição da nossa centro-esquerda, nas disputas regionais e como ela vai enfrentar esse cenário, pois tem ao seu lado o governo nacional, sua máquina e suas políticas públicas. Lula foi o candidato do governador Renato Casagrande, mas com muita cautela. No segundo turno, Casagrande, com habilidade dividiu sua base entre lulistas e bolsonaristas. Na direita tiveram peso especial dos prefeitos Arnaldinho Borgo, Euclério Sampaio e Enivaldo dos Anjos. Funcionou eleitoralmente, mas a centro-esquerda, da qual o governador faz parte, saiu com problemas de identidade a serem resolvidos.

    Na polarização, o embate das candidaturas do PL e do PT, produziu o deputado federal mais votado, Helder Salomão. Igualmente tivemos a expressiva votação de deputados estaduais, como João Carlos Coser e Camila Valadão, do Psol. Também levou, no polo oposto, a votação espantosa para Gilvan da Federal e alguns estaduais da bancada dos lacradores, muito atrelados a lógica das redes sociais e as pautas de costumes. Reforçou o poder eleitoral de Bolsonaro, e também de Lula e dos antigos petistas capixabas. Na maioria, ex-prefeitos de longa tradição na política local.

    Como parto da ideia que a polarização deve ficar menor, boa parte da centro-esquerda capixaba, certamente terá que se reinventar. Precisa buscar novas raízes na sociedade e nos movimentos socais mais contemporâneos. Caso não se reposicione, vai envelhecendo com seus atores tradicionais e com a pequena capacidade de gerar novas lideranças. Muita coisa nova está acontecendo e novos atores estão entrando em cena. Mas, isso é assunto para outra coluna. 

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 29 de julho de 2023.

  • A nova direita brasileira (e capixaba) está se formando

    Por João Gualberto

    O capital político do ex-presidente Jair Bolsonaro entrou em combustão desde que tornou-se inelegível, por decisão do TSE. Seus movimentos, tentando impedir a aprovação da Reforma Tributária e a desavença com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ampliaram a velocidade do desgaste. Isso acabou isolando, nesse momento, o líder inconteste da direita brasileira, sobretudo de sua fração mais extrema.

    Temos agora uma fragmentação da coalizão que permitiu a eleição de Bolsonaro em 2018 e a sustentação do seu governo. O estilhaçamento dessa imensa massa de partidos, políticos e instituições certamente vai reconfigurar o processo de poder, tanto a nível nacional como local. Nacionalmente, a construção política realizada por Arthur Lira, Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad, na reforma tributária é uma demonstração do novo eixo de soluções políticas que se desenha. Aparentemente, estamos começando a superar a polarização que invadiu espaços públicos e privados nos últimos anos. Por inúmeros motivos e, por enquanto, é apenas uma tendência.

    Em nosso estado, outros elementos que influenciam a realidade estão sendo gestados. O fato do governador Renato Casagrande não poder ser candidato a reeleição, e o ex-governador Paulo Hartung ter se afastado da cena política pública capixaba, abre caminho a muitas possibilidades de arranjo. 

    Com a redução do extremismo, capitaneado por Bolsonaro, a chamada pauta de costumes perde força, diminuem as narrativas nascidas no Brasil Paralelo com Olavo de Carvalho e ganham espaço as questões mais objetivas e mais econômicas, como mostram as pautas surgidas com a reforma tributária. E com isso, a centro direita deve crescer.

    A centro esquerda tende a ficar sócia nos avanços que o governo Lula conseguir fazer. Assim, as placas teutônicas vão se movendo e novos arranjos tendem a surgir, inclusive regionalmente. São bastante evidentes os movimentos que estão fazendo a cúpula regional do PP – partido de Arthur Lira e Ciro Nogueira – sobretudo os deputados federais Da Vitória e Evair Melo. Também fazem parte dessa nova cena política, o presidente da assembleia legislativa Marcelo Santos e o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo, ambos do Podemos. Isso para ficar em alguns exemplos. Afinal, não existe vazio no poder. 

    Caso Casagrande seja, de fato, candidato ao Senado como se especula, o vice-governador Ricardo Ferraço, assumirá o governo. É candidato quase natural a reeleição, até para dar sustentação a candidatura do grupo político ao senado. Ferraço não é homem de esquerda. Assim, o espaço que será aberto nacionalmente por uma centro direita comandada por partidos como PP, PSD, Republicanos, Podemos, União Brasil, PSDB e outros aqui no Espírito Santo será disputado de forma intensa por políticos muito experientes. A narrativa que cada grupo encontrar para os nossos desafios, e a aliança que fizerem com a sociedade civil, será central nos próximos movimentos. 

    O projeto político capixaba, inaugurado no limiar do século XXI, pode ter sua primeira inflexão em 2026, ganhando uma densidade de centro direita mais clara, inclusive dentro do grupo político que hoje ocupa o Palácio Anchieta. A redução de importância da extrema direita, e a recuperação da importância da centro esquerda, situada em sentido antagônico ao da direita, é que dirão os destinos dos fragmentos do legado do ex-presidente, agora inelegível. Toda essa acomodação é que temos que acompanhar, para poder decifrar os destinos políticos do Espírito Santo.  

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 15 de julho de 2023.

  • Radicalizar a democracia: como resolver a desigualdade nos investimentos públicos?

    Por João Gualberto

    Não é tarefa simples julgar como a democracia funciona nas sociedades. Avaliar quais são os ganhos efetivos que a coletividade tem com a sua prática. Dizendo de outra forma, compreender como o dia a dia reflete padrões de solidariedade, cooperação e convivência com a diferença.  Como a diversidade é vivida e respeitada por todos. Entender também como são construídas as soluções e como são articuladas as diferenças e os processos de mudança, ou tentativa deles. 

    Sabemos que os comportamentos do coletivo social anônimo constroem o imaginário de um povo. Constroem também, a capacidade de sustentar uma democracia verdadeira. O processo mais convencional para avaliá-las são as eleições e o funcionamento dos partidos. Entretanto, é uma medida muito simples, quase superficial. As eleições devem ser o ponto de partida e não o ponto de chegada de um processo social. Caso um país não as realize, e as estruturas de poder sejam ocupadas pela tradição – como em muitos países do mundo árabe, por exemplo Afeganistão ou Arábia Saudita – são ditaduras. São locais onde as contradições são resolvidas de forma autoritária, excluindo muitos setores sociais. Não tem como pensar em democracia.  

    Nos países cujas estruturas de poder são renovadas periodicamente temos a possibilidade de pelo menos renovar as oligarquias e permitir que o desejo de mudança tenha algum papel.  O funcionamento denso da democracia passa por outras questões. Para ficar em um exemplo, o sociólogo Jailson Souza e Silva, um estudioso das periferias brasileiras e fundador de movimentos importantes no estudo desses espaços como o Observatório das Favelas, chama a atenção para a lógica das cidades brasileiras.

    Ele nos ensina que os investimentos públicos nas cidades são fatores de ampliação das desigualdades. As áreas onde moram as pessoas com maior renda e escolaridade – as nossas elites – têm obras e serviços com muito mais qualidade. O baixo investimento público no mundo dos mais pobres gera muitas dificuldades.  Poucas escolas, mau atendimento na área de saúde, urbanização precária, pouca segurança, são exemplos. A ação da polícia nesses espaços em busca do combate ao varejo do tráfico de drogas gera muita insegurança, muita violência, e tem tido poucos resultados. Uma democracia verdadeira e profunda precisa resolver a desigualdade nos investimentos públicos nas diversas áreas das cidades, o controle da violência do próprio estado. Não é possível que continuemos nessa lógica perversa. 

    Outro elemento é o papel das mulheres e dos negros, sobretudo os mais pobres. A sociedade brasileira tem como traços fundamentais o machismo e racismo.  O lugar dos pretos e das mulheres tem que ser buscado em um esforço permanente de superação das desigualdades de oportunidades. Basta ver de onde vem a cúpula do todos os três poderes em nível nacional ou regional para nos certificarmos disso. São os brancos mais ricos, sobretudo homens que se apropriam das oportunidades.

    Ou seja, praticar a democracia é lembrar dos grandes princípios das revoluções do Século XVIII, como a francesa e a haitiana, é muito mais do que realizar eleições, embora elas sejam também fundamentais como ponto de partida. Radicalizar a democracia é transformá-la em parte do nosso cotidiano.

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 01 de julho de 2023.

  • A cultura da compreensão

    Por João Gualberto e Helio Gualberto Neto

    A sociedade brasileira foi construída a partir da ausência de alteridade social e de desejo de justiça. As elites autoritárias, que fundaram nossas intuições imaginárias, foram tomadas pelo machismo, pelo ethos escravocrata e pela ausência de amor por seu povo. Afinal, éramos apenas uma colônia destinada a produzir lucros para os colonizadores. Muitas mudanças ocorreram no nosso país desde então, mas muitas marcas profundas de nossa trajetória ainda estão presentes no cotidiano. O imaginário social ficou marcado pela dimensão social-histórica. Cada um de nós está sujeito a essas questões mais coletivas do mundo em que vivemos.

    Mesmo no universo das instituições que operam a vida econômica, política e social, essa ausência de preocupação com o outro ainda está muito presente. A dimensão de relações com as pessoas é pouco comum. É hábito trabalhar com o universo macro através dos grandes projetos. Como os desafios ficam muito localizados nas instâncias, digamos, econômicas, os panoramas estratégicos costumam ser muito amplos e poucos conectados às demandas das pessoas, dos clientes, dos usuários, dos eleitores. Em qualquer contexto, entendê-las é sempre um exercício fundamental. Nossa sociedade quase nunca faz isso e as instituições de uma forma geral também não.

    A questão que nos parece fundamental em nossos ambientes organizacionais é criar, a partir de um grande entendimento estratégico, uma cultura permanente da compreensão e do  diálogo. Falta esse fundamento. Em outras palavras, não basta um olhar genérico, é preciso criar uma cultura de compreensão do ecossistema, como um todo, onde a instituição, liderança ou empresa opera. Falta a prática constante de diálogos estratégicos que auxiliam nas decisões mais importantes. Esse é o maior diferencial das intuições para transformar o comportamento das pessoas e, assim, transformar os seus próprios resultados e gerar os impactos desejados.

    Parece grande como tarefa para as intuições, lideranças e empresas. Mas o que precisamos são revoluções permanentes nas nossas vidas e em nossas ações concretas. O desafio é operar o cotidiano com um olhar estratégico, ter aprendizados internalizados por todos a partir das escutas feitas e agir de forma diferente, criando, assim, lideranças com capacidade de interagir. Isso não é pouco.

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 28 de junho de 2023.

  • Revolução Haitiana: uma história de enfrentamento do racismo

    Por João Gualberto

    As chamadas revoluções atlânticas – a independência americana, a revolução francesa e a revolução haitiana – são definidoras da construção da contemporaneidade. Foram, na verdade, a materialização das ideias iluministas. As estruturas sociais e históricas que sustentaram as aristocracias no poder no velho regime, vigente até então em todos os países do mundo, foram então desconstruídas. 

    No plano das ideias, isso se deu a partir do século XVII, mas sobretudo no século XVII. A transformação através das revoluções, de uma lógica que passou a respeitar a vontade popular e os princípios republicanos, ocorreu quase que ao mesmo tempo, na segunda metade do século XVIII.  Das três revoluções atlânticas a menos conhecido é a haitiana.

    Vale o registro de que todas elas tiveram influência para além das suas fronteiras nacionais, impactando a construção de um outro mundo, reconfigurando a noção de liberdade, de sujeito e de cidadania. Nelas, a ideia de revolução com a desconstrução da ordem que havia, vingou. Implantaram a noção claro de que o mundo não precisa ser regido por uma ordem social estática e criada por desejo divino.   

    Pensemos primeiro no que passou nos Estados Unidos entre 1776 e 1783. Lá, devido a sua construção democrática, a independência nacional foi também a independência dos indivíduos. A nova ordem foi baseada nos interesses das pessoas. Negou a ordem que estava implantada a despeito de todos. Legou ao mundo todo uma constituição baseada nos ideais liberais, o que não era pouco para o seu tempo, embora tenha colocado no poder elites escravistas que alienaram os escravizados de todo esse processo. Ainda assim, serviu de farol para muitas sociedades, alimentando outros processos revolucionários.

    A segunda revolução do atlântico foi a Revolução Francesa, marcada pela queda da bastilha em 1789, tida por muitos como a mais importante por sua capacidade de romper com o absolutismo, não apenas em seu país de origem, mas em toda a Europa. Atingiu em cheio a ordem social de todo o continente, enfraquecendo os regimes aristocráticos vigentes. Produziu a ideia da fraternidade, da igualdade, da liberdade, permitiu o surgimento da imprensa moderna. As duas revoluções de que falamos produziram as duas primeiras repúblicas com base democrática. O republicanismo é uma consequência direta delas. A revolução francesa foi tão importante, que marca o início do mundo contemporâneo. 

    A revolução haitiana, ocorrida entre 1791 e 1804, foi aquela que construiu a primeira república negra conduzida por ex-escravizados, ligados a ideia de universalização dos direitos humanos. A noção do humano construída pelas revoluções não deveria excluir os então escravizados, vítimas da diáspora africana. A convivência de escravização e repúblicas ficou problematizada. A resposta foi o ódio das grandes nações de todo o mundo. A grave situação social do Haiti até hoje é a resposta que foi encontrada.

    Na verdade, Napoleão conduziu o massacre do levante, que ousou pensar que os princípios do iluminismo eram mesmo universais. Até hoje a história da crença dos negros do Haiti de que a condição humana os incluía é um alerta para os limites sociais do republicanismo e do próprio iluminismo. Assombrou inclusive as elites escravagistas brasileiras. Por isso o silêncio, por isso o esquecimento. O grande líder desse movimento foi Toussaint Louverture, o grande jacobino negro, foi um notável estrategista. Nada sabemos dele. Em tempos de enfrentamento ao racismo, vale chamar a atenção para aqueles ousaram lutar por ideias que melhoraram a vida de muitos e que radicalizaram o iluminismo.

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 17 de junho de 2023.

  • Radicalizar a democracia

    Por João Gualberto e Maria Vitória Rodrigues

    A trajetória da sociedade brasileira não é propriamente democrática. Antes, somos um país que nasceu marcado pela forma cruel como os colonizadores europeus trouxeram para cá seus preconceitos e classificações sociais. O próprio sentido da colonização era o de conquistar os novos mundos e submeter os seus, até então, únicos moradores.

    Para tornar viável seu sentido de colonização e de submissão foi inventada uma nova forma de escravização. No mundo antigo já haviam escravizados, todos sabemos. Várias passagens bíblicas tratam do assunto – envolvendo até mesmo o povo hebreu – e registram que a escravização era consequência de guerras entre os povos. Essas guerras eram constantes, e as grandes obras da antiguidade foram todas construídas por esses povos subjugados.

    A nova escravização criada com os chamados “grandes descobrimentos”, que foram na verdade a anexação das terras de outros continentes pelos emergentes estados nacionais europeus, teve um caráter diferente. Ele se apoiou, no caso brasileiro especificamente, na submissão a trabalhos forçados e a maus tratos de uma forma muito ampla, de indígenas e povos africanos. Nossa construção nacional implicou na desconstrução da autonomia dos povos originários e também na chamada diáspora africana.

    Por esses mecanismos sociais de dominação, os africanos que chegaram ao Brasil foram submetidos a completa perda da sua liberdade e autonomia. Não eram tratados sequer como seres humanos dotados de alma, de vida espiritual, de vestígios de humanidade e respeito por suas culturas ancestrais. A mesma coisa se passou com os que aqui estavam. Também foram escravizados, humilhados e sujeitos a um ritmo de trabalho, que em nada dizia respeito aos seus costumes tradicionais.

    Estamos com isso dizendo que a construção dos primórdios de nossa construção como sociedade autônoma e democrática se deu em imensas condições de desigualdade. Os descendentes dos conquistadores acabaram por impor seus princípios organizativos e culturais. Isso é uma marca de nossa sociedade até hoje.

    As ameaças recentes que nossa democracia sofreu mostram que ela precisa de ser fortalecida. Seu fortalecimento só se dará quando amplos setores populares forem capazes de serem defensores de seus princípios. É preciso radicalizar nossos princípios democráticos. A maioria da população, justamente as descendentes desses povos excluídos durante séculos, não sentem os benefícios da democracia que temos. É fato que a vida do povo mudou pouco com o fim da ditadura para a maioria. Porém, continuamos a ter maus serviços prestados pelo estado, estando imersos em desigualdades, inclusive de tratamento social.

    Uma democracia brasileira só será forte se estiver enraizada em amplas bases sociais. Só será forte se for capaz de distribuir benefícios àqueles que vivem ainda excluídos nas regiões marginalizadas, onde o estado de direito democrático ainda não chegou. Onde milícias e a guerra do tráfico nos moldes em que está montada é uma ameaça constante à paz de todos. É por isso que é preciso radicalizar a democracia para torná-la forte e popular, permeando todos os territórios e proporcionando acesso a todos os seus benefícios.

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 09 de junho de 2023.

  • Junho de 2013: dez anos depois, as consequências das manifestações

    Por João Gualberto

    Todos os que viveram, de forma ativa ou não, as grandes manifestações que movimentaram o Brasil em 2013, bem se lembram da sua importância política e social. Delas derivaram um clima que levou ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, à amplitude da repercussão social da operação lava jato, à expansão da importância política das redes sociais que já vinham ocorrendo em todo o mundo. Finalmente, também implicaram na desqualificação da política tradicional e na eleição de Bolsonaro, e no crescimento da extrema direita entre nós. Paradoxal, mas verdadeiro.  

    Não estou querendo argumentar que as manifestações de junho de 2013 produziram tantas modificações na sociedade brasileira de forma mecânica e automática. A realidade e muito mais complexa do que isso. Os fenômenos interagem entre si. Vamos pensar nas redes sociais, sem as quais elas não teriam a importância que tiveram. Um exemplo: o facebook foi criado em 2004 e em 2012 chegou a 1 bilhão de usuários e a 2 bilhões de usuários 5 anos depois. Vou ficar nesse exemplo para fortalecer a ideia da força de uma nova mídia. Isso não havia até então. Uma força social jamais vista na história da humanidade.

    A imensa capacidade de convocação das redes sociais, permitiu antes do fenômeno brasileiro de 2013 que estou analisando, que o mundo conhecesse sua força na construção da Primavera Árabe em 2010. O movimento foi iniciado na Tunísia e depois chegou no Egito e se espalhou em inúmeros países da região, todos mergulhados na tirania e na enorme desigualdade social. Além disso, em 2011 tivemos o Ocupa Wall Street. Movimento parecido também ocorreu em Barcelona no mesmo período histórico. Todos com uma matriz muito parecida. Todos construídos fora do sistema político tradicional.

    Em 2013, no Brasil, as redes sociais dominaram a convocação. Foi nosso primeiro movimento de massas sem uma liderança evidente. Lembro bem que no caso de Vitória cerca de 100 mil pessoas participaram de uma imensa passeata que se iniciou em frente à UFES e foi até à praça do pedágio na terceira ponte. Sem um partido à sua frente, sem um líder montado em carro de som. Era um fenômeno de outra densidade e de outro teor político. Havia um anonimato que valorizava o cidadão comum, que tirava das lideranças políticas o valor e a força daquela ação.

    Quem se apropriou logo dessa nova tendência, dessa nova capacidade de convocação, foram lideranças que depois se organizaram na extrema direita brasileira. Esse movimento empoderou Bolsonaro. Seus filhos seguindo a receita de Steve Bennon, o grande articulador da ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, dominaram as redes sociais. Elas tornaram-se no lugar da direita alarmista. Elas tornaram-se o lugar de um tipo de contestação da ordem vigente até então inimaginável. 

    Meu argumento de fundo é o de que as manifestações de junho de 2013, vistas com 10 anos de recuo, foram o ponto de inflexão do nosso processo político. Transformaram o que estava latente, em realidade. Produziram um novo lugar na política. Sepultaram o velho naquele instante. A nova direita brasileira surgiu daí. Não existiria sem essa enorme manifestação de descontentamento. Implantou-se solidamente nas redes sociais e produziu um presidente em 2018. Hoje é uma força atuante no parlamento nacional, onde mostra um enorme poder, como podemos ver todos os dias. São também responsáveis por muitas gestões estaduais. São fortes e nada sinaliza para a perda de poder nos próximos anos.

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 03 de junho de 2023.