• As duas asas do avião

    Existe uma máxima da política brasileira, que é muito repetida pelos políticos capixabas: nas eleições, para que um avião – um arranjo partidário – voe, é preciso que tenha duas asas. Uma delas fica à esquerda e outra à direita, obviamente. Isso quer dizer que os arranjos eleitorais de sucesso não devem estar sustentados por uma só asa do avião, por um só bloco de ideias e interesses.

    O governador Renato Casagrande, como político habilidoso que é, tem voado muito bem com seus aviões de duas asas. Basta lembrar como se comportou nas eleições de 2022. Iniciou o processo ao lado da candidatura de Lula, até porque, nacionalmente, o seu partido, o PSB, foi quem deu o vice-presidente Geraldo Alckmin. Ao lado, sim, mas de forma discreta. Já no segundo turno alguns de seus aliados como Arnaldinho Borgo, Euclério Sampaio e Enivaldo dos Anjos pediam votos para Bolsonaro e para Renato. Pronto. Aí estavam as duas asas de 2022: Lula e Bolsonaro. Conseguiu obter votos dos dois espectros eleitorais e saiu vitorioso de um embate difícil. Esquivou-se da enorme polarização do ano passado.

    Nas próximas eleições municipais de Vitória, parece que as duas asas do avião estão representadas pelas candidaturas de João Carlos Coser do PT e de Luiz Paulo Vellozo, do PSDB. Nenhuma delas representa posições extremas em seus partidos ou leque de alianças. Coser é um aliado histórico de Casagrande, tendo sido, inclusive, apoiado por ele no segundo turno das eleições de 2020. Seu atual mandato de deputado estadual é alinhado ao governo.

    Quanto a Luiz Paulo, ele ocupa um cargo importante na Secretaria de Desenvolvimento do governo, que é comandada pelo vice-governador Ricardo Ferraço. Não apenas. O partido de Ricardo, atualmente MDB, deverá fazer parte da coalizão que dará sustentação a Luiz Paulo. Além disso, o terceiro partido dessa mesma coalizão deve ser o União Brasil, cujo presidente é o secretário estadual de meio ambiente, Felipe Rigoni.  Ou seja, não há qualquer dúvida de que Luiz Paulo vem com a engenharia política do governo.

    Esses arranjos não significam que Renato Casagrande vá entrar de cabeça no processo. Acredito que não. Ele vai taxiar na pista do primeiro turno e seu avião particular só deve voar mesmo no segundo. Aí, as asas sustentarão uma aliança contra a reeleição do atual prefeito Pazolini. Derrotar o prefeito parece ser o objetivo estratégico do governador: apoia os dois aliados e ajuda a uni-los num provável segundo turno.

    Luiz Paulo e João Coser foram prefeitos de Vitória, cada um por dois mandatos, entre 1997 e 2012. Fizeram administrações muito bem avaliadas e não tem histórico de desavenças pessoais. Embora os partidos tivessem rivalidades históricas, naquele período – todos se lembram quem eram os principais animadores das disputas ideológicas do período – sempre mantiveram relações amistosas. São pessoas muito cordiais. Não apenas os dois líderes, mas também seus grupos políticos. No fundo, me parecem mais duas candidaturas de centro, ficando os extremos por conta do PSOL de Camila Valadão e do PL do Capitão Assunção. Mas, dessas duas candidaturas falarei em outro artigo.

    Nesse espectro político, a candidatura de centro de Pazolini terá dificuldades de ser mantida como tal. Parece ser mais uma candidatura mais à direita. Mas isso é uma tarefa das campanhas, que serão bem animadas, pois os candidatos são todos grandes craques da política local. Não será xadrez para principiantes.

    Artigo publicado originalmente no Jornal ES Hoje, no dia 08 de novembro de 2023.

  • Construir o futuro

    O Espírito Santo tem Capital Político. Todas as vezes que foi necessário, fomos capazes de resolver grandes impasses políticos. Muito expressivo foi o apoio ao governo Christiano Dias Lopes, iniciado em 1967, dado pela nossa Federação das Indústrias, presidida por Américo Buaiz, o seu criador. A FINDES elaborou os estudos e construiu todo o projeto do governo que se iniciava. O governo Christiano foi um momento importante na construção do Espírito Santo Moderno, cuja ação em prol do desenvolvimento, incluindo suas iniciativas, por exemplo, na articulação nacional pela construção das BR’s 101 e 262, que tiraram nosso estado do isolamento nacional. Houve, de fato, naquele momento um consenso das necessidades em nosso estado. Começamos a superar a tragédia social da erradicação de nossos cafezais, onde, até então, toda a economia capixaba estivera contida na cadeia produtiva do café. Nosso empresariado mostrou seu papel na construção da sociedade.

    Outro momento crucial foi no início dos anos 2.000, quando precisávamos vencer o quadro de corrupção endêmica que estava instalada. Diante da crise, mais uma vez os empresários estiveram presentes e foi criada uma nova instituição, o Movimento Empresarial Espírito Santo em Ação. A instituição deu suporte a ciclo de bons governos com ações em vários campos. Na verdade, muito colaborou no alinhamento institucional e na política de bons resultados em muitos setores da sociedade. Mas não foi apenas o ES em Ação, nosso capital político esteve presente na construção do Fórum Reage Espírito Santo articulado pela OAB-ES, que chegou a pedir intervenção federal no estado.

    Creio que nos acostumamos com esses governos responsáveis que os capixabas ajudaram as suas lideranças políticas a construir, em especial aos dois governadores desse ciclo: Paulo Hartung e Renato Casagrande. Mas todos os sistemas nascem, crescem e morrem. Esse ciclo não será para sempre. Importante pensar como devemos nos organizar para dar sustentabilidade a um modelo político que interessa a todos e que se mantenha.

    Temos assim um desafio novo: nunca mais deixar a desorganização tomar conta do estado, como aconteceu nos anos 1960, pela crise café ou nos anos 2.000, devido à crise ética. Organizar leva anos, desorganizar leva apenas meses. Esse é o nosso panorama político como manter as instituições alinhadas. Digo isso, porque o momento político e social tem muitas diferenças em relação a duas décadas atrás. Talvez seja preciso uma nova ousadia.

    A principal diferença se instituiu pela digitalização. Estamos vivendo em um mundo onde o poder está muito fragmentado. As grandes plantas industriais levaram suas instâncias decisórias para os grandes centros como São Paulo, e mesmo as políticas de relacionamento com as bases locais, com as comunidades, sofreram um certo esvaziamento, especialmente depois da pandemia.
    Importante lembrar que a renovação geracional que se faz, por exemplo, no mundo rural está fortemente ligada à internet. Redes sociais como o Instagram são, agora, o lugar das decisões de compra e de venda de muitos produtos e serviços. Esse novo mundo não tem mais centros locais. As novas gerações de empreendedores têm uma outra lógica política, mais a direita, em sua maioria e muito pouco ligada a territórios e instituições. Os negócios, mesmo pequenos, foram nacionalizados ou mesmo internacionalizados.

    De uma forma geral, os ideais conservadores tomaram conta da nossa sociedade. Esse é um outro fator. O alinhamento das pessoas agora se dá por grandes temas nacionais, como aconteceu por exemplo com as eleições para os conselhos tutelares e o alinhamento pró-Israel ou não, na guerra que se inicia e aprofunda em Gaza. Tudo se politiza no quadro da polarização direita e esquerda. É um outro diálogo.

    Nosso desafio, creio, é uma nova interlocução empresarial e social dentro desse novo quadro. Precisamos trazer esse novo mundo para a interlocução, ou a fragmentação da dinâmica econômica produzirá uma desarticulação enorme. Creio que o caminho está na construção de um novo desenho de formação de lideranças para o diálogo democrático e que garantam renovar o nosso capital político.

    Dou um exemplo: somos, hoje, um dos estados mais evangélicos do Brasil, se não formos o maior. A maioria desses evangélicos é neopentecostal. Gente, em sua maioria, definida com 3 pês: pobre, periférica e preta, é, também, um mundo vastamente feminino. Suas lideranças estão fragmentadas em muitas igrejas, mas unidas por princípios que advêm de valores familiares conservadores, pela busca da prosperidade e por uma certa negação do assistencialismo. É preciso uma articulação por princípios.

    Vou lembrar o próprio ES em Ação já tem uma semente do que estou falando, o projeto Líderes do Amanhã. Ele forma lideranças empresarias saídas da classe média alta ou dos filhos de empresários. Movimento muito importante, mas também é fundamental abrir um diálogo com lideranças de outros segmentos como os que renovam a agricultura, empreendem através de startups ou constroem coletivos urbanos que conversam com a juventude de todas as classes sociais, além dos evangélicos. Para uma sociedade em transformação, um novo modelo de construção de lideranças e um novo formato de construção do capital político.

    Artigo publicado originalmente no portal ES360 no dia 05 de novembro de 2023.

  • Direita e Esquerda no cotidiano da política

    A política brasileira – como de resto tem acontecido em todas as sociedades no mundo contemporâneo – mudou muito, nos últimos anos. O protagonismo social das esquerdas derreteu. Basta ver a força que tiveram os movimentos mais contestadores nas ruas em momentos como as Diretas já, no fim da ditadura, ou o impeachment de Collor, por exemplo, e comparar o papel que as direitas passaram a ter na condução dos movimentos de sociedade.

    Essa presença conservadora de massa é fortemente produzida nas redes sociais. Enquanto as esquerdas ficaram presas a modelos de fazer política, muito mais organizada por instituições do mundo presencial, como as universidades, as direitas foram, com força, para o mundo digital. Através dele, a gestão da política passou a ser exercida cotidianamente. A partir disso, muita coisa tem mudado.

    Muitos têm tentado entender melhor esse conjunto de fenômenos. O brilhante intelectual Sergio Denicoli nos ajuda nisso. Ele publica, entre as muitas atividades que desenvolve, semanalmente, um artigo no Estadão sobre temas da atualidade social e política. Costuma repousar suas análises nos dados da AP Exata Inteligência Digital, empresa que criou e dirige. Nessas matérias, ele tem trazido para os seus leitores observações muito interessantes.

    Uma delas, foi sobre o grande movimento das eleições nos Conselhos Tutelares, ocorrida no dia 1º de outubro, coisa nunca aconteceu antes. A presença física nas urnas foi antecedida por um pico de menções nas redes, acentuando a guerra cultural que vem sendo travada. Até porque as esquerdas também se movimentaram nesse espaço de discussão das políticas para as crianças. Em outro artigo, no mesmo espaço, Denicoli analisa as discussões que tem sido travadas na redes, em torno das consequências do ataque terrorista do Hamas e da reação do Governo israelense em Gaza.

    Ele registra que a direita se posicionou muito rapidamente do lado de Israel, buscando, inclusive, argumentos bíblicos para justificar suas posições e mostrar que a esquerda apoia a causa árabe, a qual não se importa com motivos religiosos e tem sido complacente com atos de terror. Enfim, temas que nunca interessaram ao grande público, agora fazem parte da vida cotidiana das pessoas e redefinem os campos da política e passam a interferir diretamente na vida de muitos.

    Esse enquadramento ideológico superficial às causas nacionais e internacionais, acaba definindo os temas da política no dia a dia. Arrasta muitos para novas posições frente a realidade. Mesmo que alimentados por uma máquina, onde qualquer narrativa vale como verdade, os brasileiros estão redefinindo seus campos acerca do que é o real, do que é o verdadeiro e do que é política. Quem não estiver atento a isso perde lugar na história.

    Artigo publicado originalmente no portal ES360 no dia 22 de outubro de 2023.

  • Violência Urbana

    Por João Gualberto

    Uma consequência muito interessante de tornarmos públicas nossas ideias, como eu faço nesses artigos, são as inteirações que isso possibilita. Dizendo de outra forma, receber críticas, elogios e sugestões nos ajudam na construção da caminhada intelectual, da construção de posições. Tenho grande prazer em discutir os textos publicamente.

    A mais importante interlocução que tenho nos últimos tempos é com o professor e intelectual Alexandre Caetano, e que me brinda com suas observações. Caetano é um importante observador da cena social e política capixaba e brasileira, com vasta cultura humanística. Temos conversado através do WhatsApp sobre muitos temas. Nos últimos dias, o tema foi a urbanização acelerada da Região Metropolitana da Grande Vitória. Venho tratando desse assunto, pela evidente associação que tem com o fenômeno evangélico neopentecostal na nossa região.

    No último artigo, associei o crescimento vertiginoso da Grande Vitória, a partir dos anos 1970, à erradicação dos cafezais capixabas. Creio, mesmo, que os fenômenos tenham estreita relação, mas Caetano lembra que existem outros fatores. Para ele, o fluxo populacional também veio de outros estados como Bahia e Minas Gerais, para trabalhar nas grandes obras das plantas industriais, e também com o boom da construção civil, a partir da década de 1980.

    Em nossas trocas de ideias ele afirmou: “A verticalização da Praia Costa e da Praia do Canto, a expansão de áreas como Jardim da Penha e Jardim Camburi, em Vitória; de Jardim Itapoã e Coqueiral de Itaparica, em Vila Velha; da região da Grande Laranjeiras, e outros conjuntos habitacionais, em Serra são fenômenos que estão muito distantes daqueles produzidos pela desocupação de mão de obra provocada pela erradicação dos cafezais”. Creio que essa ampliação das causas do nosso crescimento urbano agrega fatores explicativos, de fato, muito importantes ao tema que venho tratando.

    Quero, entretanto, aproveitar o ensejo de ter voltado ao assunto para fazer uma outra observação analítica. Venho afirmando que a explosão populacional, em nossa região provocou um deslocamento no mundo cristão, havendo enorme migração dos católicos para as várias denominações evangélicas presentes em nosso espaço, que caminham para serem majoritárias dentro de algum tempo.

    Entretanto, um outro fenômeno também está acontecendo, produto desse mesmo movimento, do crescimento urbano desenfreado e sem regras no Brasil: a explosão da violência. As estruturas de autoridade paterna, presentes no mundo rural não se reproduziram no espaço urbano. A degradação dos padrões de residência, a dificuldade de preservar valores familiares tradicionais, a oferta de oportunidades de sobrevivência com pequenas infrações que o mercado das drogas passou a oferecer de forma crescente, minou a coesão familiar, até então existente.

    A partir, sobretudo, dos anos 1980 e 1990, o tráfico das drogas ganhou cada vez mais a adesão da juventude dos bairros periféricos. O mercado das drogas no Brasil é curioso. Pelo noticiário, só tem oferta. A demanda majoritária está nos bairros da classe média e da classe média alta. A violência e as mortes estão concentradas na juventude pobre. É nos bairros mais carentes que se dão as ações mais duras da polícia. Os mais ricos que adquiriram o hábito de consumir drogas, estão isentos da selvageria que se instalou no mundo dos pobres. Drogam-se com poucas consequências policiais.

    Não quero me aprofundar agora nesse tema da violência, até porque ela é um dado estrutural da nossa sociedade, que merece ser analisada com profundidade. Quero apenas registrar que a ausência de políticas púbicas na produção das maiores cidades brasileiras foi e é lamentável, e que, tratar a violência com respostas armadas e ocupações permanentes, é mais um traço perverso desse mundo brasileiro, no qual estamos mergulhados. Tem profunda relação com o fenômeno religioso também.

    Artigo publicado originalmente no portal ES360 no dia 08 de outubro de 2023.

  • A eleição em Vitória

    Por João Gualberto

    Todos os que acompanham os bastidores das eleições municipais que serão realizadas no ano que vem, sabem que já existe forte movimentação dos pré-candidatos, seus partidos e grupos políticos. Normalmente os que estão em postos de poder falam que ainda é cedo para falar de eleições, que estão focados em seus mandatos. Na maioria das vezes é simples teatro. Pensam nelas o tempo todo, e se movimentam sempre levando em conta seus elementos. Os demais candidatos buscam visibilidade através de lançamento de pré-candidaturas, ações partidárias e presença nas mídias. Ações práticas para as suas existências. 

    No caso da nossa capital não é diferente. É forte a movimentação. Levantamento quantitativo feito pela Paraná Pesquisas e divulgado recentemente – que estão muito próximos de outra pesquisa, feita pelo instituto capixaba Perfil –  mostra um quadro com a presença do atual prefeito Pazolini, candatíssimo a reeleição, além do petista João Carlos Coser, que aparece em segundo, e as presenças marcantes do Capitão Assunção, Camila Valadão e o ex-prefeito Luiz Paulo Velozo. Tyago Hoffman ainda aparece discretamente. Todos estão em movimento e em busca de seus espaços políticos e eleitorais.

    Chama a atenção o reposicionamento do atual prefeito. Como vivo na capital, tenho acompanhado a ampliação dos investimentos que têm sido feitos. São muitas obras e todas com grande visibilidade. Todas têm cálculo eleitoral. Além disso, algumas medidas que atingiram os servidores municipais estão também certamente nesses cálculos. Um minucioso trabalho de acompanhamento dos prefeitos capixabas no instagram feito pela Persona – empresa que ajudo a dirigir – também mostra um reposicionamento de Pazolini. Resultado prático: cresceu nas intenções de voto das pesquisas.

    Outro elemento que a pesquisa revela é o impacto do ingresso da deputada estadual Camila Valadão na cena política da eleição. Suas intenções de voto sangram o ex-prefeito petista João Coser. A primeira impressão que esse movimento causa no mercado político é que as duas candidaturas juntas serão fortes. Uma aliança entre PT e PSOL poder surgir daí. Ou não. A jovem e combativa deputada pode querer testar seu nome e acumular capital político. Esse movimento terá grande impacto no quadro que estou analisando.

    Luiz Paulo, agora mais seguro no PSDB, onde dirige o diretório municipal de Vitória, é um grande player. Em 2020 não pode disputar a eleição municipal por desavenças partidárias no próprio PSDB. Aparecia nas pesquisas, entretanto, do mesmo tamanho de Coser. Em 2020 Coser disputou o segundo turno como o candidato do governador Renato Casagrande e tenho bom desempenho. Caso Luiz Paulo estivesse na disputa não sabemos como teria sido, nem como o governo do estado teria se posicionado. O fato concreto que agora mais ancorado partidariamente, ele é um forte ator no processo.

    O Capitão Assunção, presença forte nos setores militares da extrema direita, precisa dizer aos seus eleitores como será sua campanha para prefeito. Ela ancorou sua ascensão política na afirmação da pauta de costumes muito conservadora, uma das bases mais sólidas no bolsonarismo. Ele é o representante desses setores nas eleições de 2024 em Vitória. Veremos como será o seu comportamento. Certamente será relevante, vocaliza muitos sentimentos.

    Tyago Hoffman ensaia uma candidatura pelo PSB. Está ainda muito no começo. A maioria dos observadores da cena política, acredita que ele faz um balão de ensaio para ampliar sua importância no processo e ter peso na mesa das decisões. Essa é uma certeza que não devemos ter em políticas. A candidatura de Tyago poder ser para valer. Caso tenha o apoio declarado o governador Renato Casagrande e da cúpula do PSB, da qual ele é membro importante, vai fazer parte do time da série A das eleições. 

    Em resumo, vivemos uma espécie de ensaio geral. Muita coisa ainda vai acontecer. Os movimentos do governador Casagrande serão vitais. Quem viver verá. 

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 26 de setembro de 2023.

  • A trajetória social dos evangélicos no Brasil

    Por João Gualberto

    Desde o início do período colonial até a proclamação da república, no fim século XIX, os portugueses impuseram o catolicismo como religião de Estado no Brasil. Não era permitido professar nenhuma outra fé. Mesmo depois da independência, a situação continuou a mesma.

    No período monárquico, fomos igualmente sujeitos a mesma limitação no exercício religioso. Assim, nossos antepassados ficaram compulsoriamente vinculados a uma única religião, por vários séculos. A Santa inquisição aplicou sentença de suplícios horríveis a muitos que ousaram manifestar outras crenças, mantendo-se, assim, o controle sobre todos. Medo e fé na mesma medida.

    Para conseguir construir uma nação católica nas Américas, o esforço para catequizar os indígenas foi imenso. A despeito da estrutura cultural que havia nos habitantes do território colonizado, tornar-se cristão, nessa lógica perversa era uma imposição a todos.  A mesma fé compulsória era destinada aos povos vindos da África. Os escravizados – tanto indígenas quanto negros – eram batizados em uma igreja totalmente fora de seu universo cultural.

    O resultado desse processo social foi, entre muitos outros, um enorme sincretismo religioso. Os rituais e crenças dos não europeus sobreviveram, através de vários mecanismos, entre os quais, estão as religiões de matriz africana, sobretudo a Umbanda, tão forte entre nós, assim também os elementos do chamado folclore, de origem indígena. Muitos deles ainda estão presentes, sobretudo nas populações não urbanas.

    Somente no fim da monarquia houve certa aceitação de outras religiões cristãs. Afinal, o império fomentava a imigração europeia, e começaram a chegar os povos de cultura germânica, que eram em grande parte protestantes luteranos, como eram conhecidos na época. As práticas desses povos eram toleradas, embora seus templos não fossem bem aceitos. Nessa mesma época começaram a chegar também os missionários americanos.  Foram, inicialmente, presbiterianos, metodistas, congregacionais, anglicanos, batistas a aqui chegar em maior número.

    Como não podiam, logo no início, edificar templos, era comum que alugassem as salas mais amplas e de menor valor de mercado. Grandes salas no Rio de Janeiro tinham cadeiras onde todos podiam sentar-se em seus bancos confortáveis, ao contrário dos templos católicos. Além disso, os primeiros espaços dos cultos eram mais democráticos. Os mais ricos não tinham prioridade nos assentos. Tão mais popular eram os fiéis, que os seus críticos aristocráticos os chamavam de alfaiates letrados.

    Estou atraindo a atenção dos leitores para esses pontos, porque as várias denominações evangélicas, no caso brasileiro, foram mais populares desde a sua chegada ao Brasil. Quando a Assembleia de Deus chegou, nos primeiros anos do século XX, aprofundou-se essa tendência. As chamadas igrejas tradicionais acabaram captando setores ascendentes da classe média, e os amplos setores populares foram encontrar abrigo nas chamadas denominações pentecostais.

    Isso mostra, de forma breve, o movimento social dos evangélicos. Não por acaso, na urbanização acelerada dos anos 1960 e 1970, foram esses setores religiosos que mais cresceram. Tinham já suas raízes bem fincadas na realidade brasileira. No campo sociológico, nada acontece por acaso, assim como, as trajetórias têm suas bases em longos períodos de tempo.

    Ao avaliarem as posturas políticas dos evangélicos, muitos analistas críticos, às vezes se esquecem desses fenômenos de sociedade, e os atribuem à falta de informação dos setores populares ou a manipulação dos pastores. Elementos que estão em outro plano de compreensão. Certamente não é a ignorância das massas que explica a dimensão social e política dos evangélicos no Brasil.

    Artigo publicado originalmente no portal ES360 no dia 10 de setembro de 2023;

  • A força da periferia

    Por João Gualberto

    O processo histórico de construção da sociedade brasileira, transmitiu a todos nós legados importantes. Um dos mais fortes é a nossa cultura popular. Por razões óbvias, ela tem uma inspiração profundamente africana, embora o hibridismo com a cultura lusitana tenha sido extenso. A fusão das crenças originárias de povos africanos com o catolicismo é a maior prova. Daí, o sincretismo religioso.

    Várias tem sido as formas de negação dessas marcas tão importantes de nossa trajetória como sociedade. Há algumas décadas, tudo o que dizia respeito aos cultos de matriz africana era interditado ou fortemente discriminado. No auge da ditadura Vargas, nos anos 1930/40, muito terreiros foram fechados Brasil afora; mães e pais de santo ou mesmo os que acreditavam nesses rituais religiosos foram violentamente agredidos.

    O preconceito continua. A extrema direita brasileira, nos dias de hoje, por exemplo, ainda trata com forte discriminação todas as manifestações religiosas de matriz africana e nega todas as políticas compensatórias possíveis. Mais do que isso, exercita um negacionismo, sem fundamentação na realidade histórica.

    São contra todas as formas de tolerância. Insistem em construir novas “europas” entre nós, com uma tentativa de eliminar a densidade dos negros em nossa história. É evidente que os traços de africanidade estão presentes na cultura brasileira, de forma abrangente, seja na culinária, na língua, nos gestos, nas artes ou em qualquer instância social desejada. Todos esses traços são muito marcantes em nossa cultura artística.

    As periferias das grandes cidades brasileiras tiveram seu crescimento recente, sobretudo a partir dos anos 1960 e 1970, balizado por forte migração interna. Pessoas que até então viviam no campo deslocaram-se para alimentar o crescimento industrial e urbano de nossa sociedade. Contudo, não foram implementadas políticas sociais e urbanas para acolher esses milhões de brasileiros. O auge desse movimento deu-se durante os anos de chumbo dos governos militares. Época em que a lógica tecnocrática comandava a política.

    Os que viviam na zona rural vieram para as cidades, que cresciam em condições sub humanas. As periferias das grandes cidades passaram a ser o locus de uma nova forma de viver, quase sempre muito dura. Violenta, mas cheia de manifestações culturais. São produtos de nossas heranças profundas. Uma nova configuração de viver essa trajetória histórica de muitas dores, deu origem a uma nova forma de viver as artes. A cultura da periferia invadiu todos os palcos do Brasil, como já vinha fazendo em outros países do mundo.

    Esse novo fazer artístico, fortemente ancorado na nossa africanidade e nas nossas tradições populares, não consegue se proclamar politicamente com a mesma força que tem no tablado artístico. As esquerdas tradicionais no Brasil, ainda não entenderam a força política desses novos contornos de manifestação da alma de nosso povo, e continuam presas a velhas formas de expressão coletiva.

    Essa energia artística e política de nossa juventude que vive nas favelas e nas periferias de nossas cidades não me parece ter, hoje, produzido lideranças que estejam no grande jogo da política. É uma ausência que precisa ser resolvida. A presença dessa força organiza, a meu ver, os processos contemporâneos de produção de lutas e de pertencimento. São, como nominou o sociólogo Jailson de Souza e Silva, as bruxas e bruxos das cidades. São e serão atores muito relevantes no processo político brasileiro.

    Ainda hoje, estão sub representados em qualquer instância decisória de nossa sociedade. O combate ao racismo, o reconhecimento de nossas diversidades, as novas construções familiares, tudo pode ser melhor construído com a representação desses protagonistas. É uma forma mais democrática e contemporânea de produzirmos a transformação social que tanto sonhamos.

    Artigo publicado originalmente no portal ES360 no dia 27 de agosto de 2023.

  • O processo histórico de construção da sociedade brasileira, transmitiu a todos nós legados importantes. Um dos mais fortes é a nossa cultura popular. Por razões óbvias, ela tem uma inspiração profundamente africana, embora o hibridismo com a cultura lusitana tenha sido extenso. A fusão das crenças originárias de povos africanos com o catolicismo é a maior prova. Daí, o sincretismo religioso.

    Várias tem sido as formas de negação dessas marcas tão importantes de nossa trajetória como sociedade. Há algumas décadas, tudo o que dizia respeito aos cultos de matriz africana era interditado ou fortemente discriminado. No auge da ditadura Vargas, nos anos 1930/40, muito terreiros foram fechados Brasil afora; mães e pais de santo ou mesmo os que acreditavam nesses rituais religiosos foram violentamente agredidos.

    O preconceito continua. A extrema direita brasileira, nos dias de hoje, por exemplo, ainda trata com forte discriminação todas as manifestações religiosas de matriz africana e nega todas as políticas compensatórias possíveis. Mais do que isso, exercita um negacionismo, sem fundamentação na realidade histórica.

    São contra todas as formas de tolerância. Insistem em construir novas “europas” entre nós, com uma tentativa de eliminar a densidade dos negros em nossa história. É evidente que os traços de africanidade estão presentes na cultura brasileira, de forma abrangente, seja na culinária, na língua, nos gestos, nas artes ou em qualquer instância social desejada. Todos esses traços são muito marcantes em nossa cultura artística.

    As periferias das grandes cidades brasileiras tiveram seu crescimento recente, sobretudo a partir dos anos 1960 e 1970, balizado por forte migração interna. Pessoas que até então viviam no campo deslocaram-se para alimentar o crescimento industrial e urbano de nossa sociedade. Contudo, não foram implementadas políticas sociais e urbanas para acolher esses milhões de brasileiros. O auge desse movimento deu-se durante os anos de chumbo dos governos militares. Época em que a lógica tecnocrática comandava a política.

    Os que viviam na zona rural vieram para as cidades, que cresciam em condições sub humanas. As periferias das grandes cidades passaram a ser o locus de uma nova forma de viver, quase sempre muito dura. Violenta, mas cheia de manifestações culturais. São produtos de nossas heranças profundas. Uma nova configuração de viver essa trajetória histórica de muitas dores, deu origem a uma nova forma de viver as artes. A cultura da periferia invadiu todos os palcos do Brasil, como já vinha fazendo em outros países do mundo.

    Esse novo fazer artístico, fortemente ancorado na nossa africanidade e nas nossas tradições populares, não consegue se proclamar politicamente com a mesma força que tem no tablado artístico. As esquerdas tradicionais no Brasil, ainda não entenderam a força política desses novos contornos de manifestação da alma de nosso povo, e continuam presas a velhas formas de expressão coletiva.

    Essa energia artística e política de nossa juventude que vive nas favelas e nas periferias de nossas cidades não me parece ter, hoje, produzido lideranças que estejam no grande jogo da política. É uma ausência que precisa ser resolvida. A presença dessa força organiza, a meu ver, os processos contemporâneos de produção de lutas e de pertencimento. São, como nominou o sociólogo Jailson de Souza e Silva, as bruxas e bruxos das cidades. São e serão atores muito relevantes no processo político brasileiro.

    Ainda hoje, estão sub representados em qualquer instância decisória de nossa sociedade. O combate ao racismo, o reconhecimento de nossas diversidades, as novas construções familiares, tudo pode ser melhor construído com a representação desses protagonistas. É uma forma mais democrática e contemporânea de produzirmos a transformação social que tanto sonhamos.

    Artigo publicado originalmente no jornal ES Hoje no dia 27 de agosto de 2023.

  • A invenção da esquerda no Brasil

    Por João Gualberto

    A esquerda chegou ao Brasil no final do século XIX. Nesse primeiro momento, chama a atenção dos estudiosos a forte presença dos anarquistas, sobretudo entre os operários urbanos de origem espanhola e italianos, dentre outras nacionalidades. Essa presença foi definitiva na primeira grande greve brasileira, ocorrida em São Paulo, em 1917. Os grevistas pararam a cidade durante vários dias.

    Em 1922, com a criação do partido comunista, vai ganhando mais espaço entre o movimento operário, e mesmo entre intelectuais, essa corrente de pensamento. A partir dos anos 1930 e 1940, transforma-se no epicentro das grandes greves, como as ferroviárias – como a que aconteceu em Cachoeiro – e também dos trabalhadores ligados aos sistemas portuários. Eram as classes organizadas naquele momento. De fato, a esquerda brasileira que chega aos nossos dias nasce nesse momento e desses movimentos.

    Somente nos anos 1970 e 1980, surgirá um novo sindicalismo, que rompe com a hegemonia dos velhos sindicatos, nascidos nos primeiros períodos. Os sindicatos tradicionais haviam sido cooptados pelo poder, e eram pouco mais que organismos assistencialistas e de controle de pequenos clãs imutáveis. As greves no ABC paulista de 1978-1980, ocorridas no contexto da abertura política e no fim do período dos militares, marcam o ressurgimento do movimento trabalhista brasileiro. Surge, aqui, uma nova elite operária, cujo principal nome seria o de Lula. Muito importante nessa reconstrução foi a esquerda da igreja católica, assim como muitos intelectuais, artistas e formadores de opinião. 

    O Brasil clamava por uma abertura ampla, que atingia a todos desses públicos. Nesse momento, os conservadores que sustentavam o regime autoritário eram minoritários, tanto que, muitos setores empresariais estavam, também, participando desses movimentos. O modelo de desenvolvimento baseado em estatais e no controle de poucos grupos apresentava sinais de desgaste. O tempo cria, institui novas demandas e exige mudanças.

    O que estou argumentando aqui é que cada ciclo econômico, político e social tem as suas demandas e cria suas necessidades políticas. As necessidades que fizeram surgir o novo sindicalismo nos anos 1970, apoiado por setores da igreja católica e formadores de opinião estão em grande transformação. Os sindicatos, a grande imprensa e mesmo a igreja católica perderam potência. De outro lado, há novos atores no processo social que pedem passagem.

    As periferias vieram para o centro do processo. A velocidade dramática do crescimento urbano criou um novo mundo para milhões de brasileiros. Mundo de excluídos dos grandes investimentos nas cidades, sem equipamentos urbanos e com uma ação policial lamentável pela truculência que todos conhecem. Com as novas periferias, emergem, com força, as questões de combate ao racismo, as questões de gênero, de tolerância, para falar dos mais emblemáticos. Elas dizem respeito ao cotidiano nessas novas regiões urbanas. Por trás de tudo isso, a necessidade de construir novos patamares democráticos, de repensar os vínculos sociais.

    Experiências exitosas como o orçamento participativo, os inúmeros conselhos ligados às gestões municipais já não dão conta dessas novas construções sociais. Portanto, a reinvenção das esquerdas está colocada no mundo das coisas reais, das novas representações sociais do imaginário político brasileiro. É uma necessidade social que tem que ser compreendida e politizada.  A direita já entendeu isso, e tem atuado com sucesso em muitos países, inclusive no Brasil. 

    Artigo publicado originalmente no jornal A Gazeta no dia 12 de agosto de 2023.