• Empresários e relações democráticas

    Empresas do século XXI precisam conquistar a licença social para operar, articulando-se com comunidades, governos e o meio ambiente por meio de relações democráticas.

    Quando lemos um velho romance de Jorge Amado, como Capitães da Areia, por exemplo, publicado pela primeira vez em 1937, temos um retrato terrível dos antigos patrões, sempre malvados e mesquinhos. A mesma impressão nos despertam os filmes do diretor francês Jean Renoir, que são, aliás, da mesma época.

    Obviamente, no caso da expressão desses dois artistas, trata-se de ficção e, mais ainda, de leituras muito críticas do universo relacional do capitalismo liberal daquela época. Foram, ambos, homens de esquerda, ligados às teses comunistas que eram muito populares então. Bom registrar, entretanto, que eles não estavam muito longe da verdade. As empresas no início do século XX tinham uma baixa relação com os sistemas social e natural que as cercavam. Muitas foram, de fato, predadoras.

    Ocorre que, entre os quase 100 anos que separam as críticas contundentes que se faziam à ganância dos empresários, naquela época, e os dias atuais, muita coisa mudou. O mesmo se pode dizer das preocupações que cercam as decisões governamentais. Houve época no Espírito Santo – sobretudo pelo enorme esforço necessário para nos industrializarmos – em que o mais importante era atrair novos negócios, criar empregos e tirar a economia da estagnação. Questões ligadas ao meio ambiente, por exemplo, eram subestimadas.

    A sociedade, porém, se movimentou muito. Novos direitos foram reivindicados e conquistados pelos cidadãos e suas representações coletivas. Mais do que isso, novos patamares de consciência de seus lugares e responsabilidades no mundo foram tomando conta de toda a sociedade, inclusive de suas elites econômicas e políticas.

    A soma desses fatores mudou a equação social. Tanto do lado dos empreendedores, quanto do próprio governo, níveis mais altos de exigências foram estabelecidos quando a sociedade passou a exigir mais responsabilidade social das novas plantas de negócios, fossem do setor agrícola, extrativista mineral, de logística ou industrial. Desse modo surgiram novos protocolos de articulação entre empresas, estado e sociedade civil.

    Como consequência das mudanças na sociedade, as empresas, neste início de século XXI, necessitam da Licença Social para Operar. Isso significa que devem medir as consequências de sua ação no meio ambiente em que atuam, mas não apenas isso. É preciso que as comunidades que as cercam conheçam e aprovem as intervenções que serão feitas nos ambientes social, político e natural, que são patrimônio e ativo de todos, afinal ninguém é dono da natureza.

    Não se pode mais interferir na lógica de funcionamento de uma determinada comunidade sem ouvi-la, e sem, sobretudo, levar em conta as demandas surgidas nos processos técnicos de escuta estabelecidos. Para isso deve haver o emprego de certas técnicas, certas expertises de consultores que ajudem as empresas e os governos a se articularem em entre si.

    O importante é estabelecer diálogo com as comunidades, autoridades e organizações relevantes da região atingida, visando a construir uma espécie de aliança por meio da qual todos possam usufruir dos benefícios, e assim ajudarem a própria empresa a obter apoio governamental ao seu projeto. Essa é uma forma de obter licença social e engajamento no projeto. Ao mesmo tempo, as autoridades poderiam ter certeza de estar atendendo a toda uma região e seus múltiplos interesses, e não apenas ao desejo de um grupo empresarial.

    Esse é o aprendizado da implantação de novos negócios nas últimas décadas. A capacidade de construir juntos o desenvolvimento. A compreensão de que nenhuma empresa é simplesmente implantada num determinado sítio territorial e social. Ela é, antes, produzida e produtora de uma nova cultura, da circulação de mais dinheiro, da geração de mais postos de trabalho, mas também de impactos que devem ser levados em conta, analisados e compreendidos por todos.

    As pessoas que compõem uma determinada sociedade querem prosperidade, estão dispostas a abrir mão de certas comodidades se compreenderem a extensão do que está sendo proposto. Também precisam conhecer os cuidados técnicos que serão tomados pelos responsáveis pelo novo empreendimento.

    No fundo, voltamos à ideia do contrato social de Rosseau, em que as partes contratam entre si as condições da convivência social, seus custos e benefícios. É disso que se trata quando falamos de Licença Social para Operar: criar bases claras e compreensíveis de um contrato social com benefícios para todos. Obviamente, temos muito a evoluir. Entender o quanto as organizações podem dialogar com o seu entorno, por meio de relações e trocas positivas, é fundamental para continuar neste caminho.

  • Individualistas na Suécia, devotos no Brasil

    Famílias menores e menos influentes deram lugar ao avanço do Estado, que assumiu funções sociais antes reservadas ao núcleo familiar tradicional.

    Escrevi, há algumas semanas, artigos sobre o individualismo nas sociedades atuais. Falei sobre a redução do tamanho das famílias e das consequências disso no mundo em que vivemos, já que no chamado velho regime viviam às vezes dezenas de pessoas sob o mesmo teto. As famílias foram diminuindo, sobretudo a partir do século XX, até chegarem ao formato atual de um ou dois filhos, na maioria dos lares. A tendência é serem cada vez menores, até mesmo em países como o Brasil, reduzindo-se inclusive nas formações familiares entre as camadas menos favorecidas. Nossos censos populacionais mais recentes mostram claramente isso.

    Esse longo processo de redução do tamanho numérico das famílias foi acompanhado pela queda de sua importância na socialização, educação e colocação dos filhos no mundo. Também diminuiu seu poder de influência nas inserções na sociedade através do trabalho, afinal, antes do processo de massificação da alfabetização, eram as famílias que transmitiam entre si os saberes e fazeres instituídos. Muitos filhos tinham a ocupação do pai, em um sistema hierarquizado e inflexível.

    Mas, felizmente, essa realidade mudou. Hoje não se resolve a vida só pelo sangue que corre nas veias, pela tradição e suas heranças simbólicas. As coisas ficaram mais complexas. A sociedade produziu novas significações imaginárias sociais e passou a afastar-se do modelo patriarcal tradicional, criando novos núcleos familiares e ressignificando o próprio conceito de família. Por outro lado, elas passaram a dividir com instituições estatais a responsabilidade sobre o futuro das novas gerações, o que inclui a educação, o cuidado com a saúde e a proteção social. Assim, as famílias também passaram a compartilhar seu papel com outras instituições, como a escola, os hospitais e os lares para idosos, para citar alguns exemplos. A tendência nas sociedades mais avançadas, em termos de distribuição de benefícios, é que esses se tornem mais igualitários.

    Em outro texto, falei da experiência radical do individualismo na Suécia, onde a proteção do direito de ser independente, em qualquer relação amorosa, levou o Estado a criar mecanismos que garantem a redução ainda maior da importância das famílias. Um exemplo claro disso é que a inseminação artificial quase anônima é garantida por políticas públicas. Sem a figura física do pai, temos um núcleo familiar formado pelas mães e seus filhos. É importante ressaltar que não se trata, nem de longe, das famílias dirigidas por mulheres no Brasil, mas sim do enfraquecimento simbólico da família na sustentação das novas gerações — fenômeno agravado pelo incentivo do Estado sueco ao afastamento dos filhos de seus núcleos familiares.

    Segundo Tony Judt, o planejamento da sociedade pelo Estado tornou-se prática recorrente no pós-guerra, aproximando socialistas e liberais na defesa de políticas públicas robustas. Esses Estados, sobretudo na Europa Ocidental, não buscavam revolucionar as relações sociais nem instaurar regimes socialistas ou totalitários; ao contrário, pretendiam preservar a ordem existente, utilizando o controle das altas esferas da economia para garantir estabilidade. Nesse contexto, medidas como a taxação progressiva de renda e o fortalecimento da meritocracia — com ampliação do acesso à educação e incentivos à mobilidade social — tornaram-se centrais para promover maior equidade e bem-estar. O objetivo era suprir as falhas do mercado e produzir resultados que este, por si só, não alcançaria. Com o tempo, especialmente uma ou duas gerações após o fim da guerra, consolidou-se a percepção de que a regulação econômica em múltiplos níveis era não apenas viável, mas desejável para sustentar o pacto social emergente.

    Ao analisarmos a radicalidade do modelo sueco, marcado por intensa intervenção estatal na formação do individualismo, deparamo-nos com a força da ideia central do pós-guerra: fortalecer o Estado para, durante o conflito, proteger a sociedade e, no período subsequente, reconstruí-la. Esse paradigma ampliou progressivamente o alcance da intervenção estatal, que passou a ocupar espaços antes reservados às redes sociais e familiares na configuração das individualidades. O resultado foi a redução do protagonismo da sociedade civil na construção de valores e identidades, deslocando-o para políticas e estruturas estatais cada vez mais abrangentes.

    Em síntese, a trajetória histórica analisada revela como o Estado, outrora visto como intruso no âmbito familiar, assumiu papel central na configuração das individualidades e na provisão de bem-estar social, especialmente nos modelos europeus do pós-guerra. A experiência sueca ilustra o extremo dessa lógica: a intervenção estatal não apenas substituiu as redes tradicionais de sociabilidade, mas também moldou novas concepções de família, cada vez menores e mais autônomas.

  • Crônica do amor desperdiçado

    Tenho insistido, nos meus artigos, que se faz no Espírito Santo literatura da mais alta qualidade. Volto sempre ao mesmo argumento, porque sinto, entre nossos formadores de opinião, certo afastamento da produção literária capixaba. Creio mesmo que tal fato ocorra pelo distanciamento dessas pessoas da linguagem artística literária como um todo, e não apenas da que se produz em nosso estado. Seguramente, leem pouco os grandes autores nacionais e internacionais, sejam romancistas, poetas ou cronistas. É um distanciamento amplo, produto de uma visão muito técnica da vida, que acaba por acarretar certo desconhecimento dos valores culturais e humanistas mais abrangentes. 

    Some-se a isso o preconceito com aquilo que é produzido em nosso estado, que vai de  uma camisa a um romance, de um filme a uma peça de teatro. Fomos socializados com baixíssimo sentido de pertencimento a esta nossa terra, com um capixabismo ainda fraco e tardio. Assim, por uma série de razões, os ficcionistas locais atingem um público muito menor do que merecem. Temos autores de porte nacional pouco lidos, como Renato Pacheco, Luiz Guilherme Santos Neves, Reinaldo Santos Neves, Getúlio Neves, Adilson Vilaça, Francisco Aurélio Ribeiro e Rubem Braga, para ficar apenas nos autores sobre os quais tenho escrito mais recentemente. De fato, há dezenas de outras e outros tão importantes quanto estes.

    Fiz essa pequena introdução para chegar ao meu tema de hoje: o livro Crônica do Amor Desperdiçado, de Pedro J. Nunes – escrito assim mesmo, com esse “J.” que deve ser de José, mas ele gosta de usar somente o jota; então, nem José e nem sem jota – coisas do Pedro. É um texto não muito longo que descreve um amor complicado, desperdiçado, como ele deixa claro no título. Além de desperdiçado é um amor interessado, interesseiro e manipulado até o limite da quase exaustão. Ele conduz o leitor maravilhosamente por esse labirinto apaixonado, desde o dia em que o narrador conhece o objeto de sua paixão até o desfecho, desde a tensão amorosa máxima até o desperdício de tanto sentimento. 

    O título me fez lembrar um pequeno e extraordinário trabalho de Reinaldo Santos Neves, Muito Soneto Para Nada, que também trata de uma paixão, digamos, desperdiçada e descrita por outro grande autor capixaba. Aliás, alguns outros elementos me levam a crer que Reinaldo tenha sido uma referência muito presente neste texto de Pedro J. Nunes.

    Para começar, como muitos personagens centrais em toda a obra de Reinaldo, o narrador de Crônica do Amor Desperdiçado é professor da Universidade Federal do Espírito Santo, no curso de Letras, ou seja, um intelectual ligado ao mundo da literatura. É esse lugar que lhe permite teorizar sobre autores de uma forma geral, dando ao texto elegância e profundidade, além de ambientar muitas ações no Campus da Ufes, como Reinaldo. Há mesmo um anexo sobre os amores de Dostoiévski, no fim do livro, que dialoga magistralmente com a história.

    Li um comentário sobre o livro do qual estou tratando feito por outro craque, Francisco Aurélio Ribeiro, o qual, embora feito em grupo de amigos da literatura, tomo a liberdade de transcrever: “Li o livro do Pedro, obra cheia de intertextos e de metalinguagem. Uma delícia para os amantes da literatura e uma aula de como escrever um romance”. Cito porque concordo com Francisco Aurélio e julgo que ele tem mais autoridade do que eu para fazer um elogio dessa ordem. 

    Pedro faz claramente, como já citado, homenagens a dois grandes autores: Reinaldo Santos Neves e Dostoiévski, leituras favoritas do autor, intelectuais que ele muito respeita. Tanto é assim que, além do campus da Ufes, sempre presente na obra de Reinaldo, há também a vila de Manguinhos, tão festejada em A Ceia Dominicana: Romance Neolatino, obra em que existe um (des)encontro entre o narrador e sua musa, ela também uma personagem típica das mulheres de Reinaldo.  

    Por tudo isso e muito mais, o livro de Pedro J. Nunes é leitura recomendada para quem deseja conhecer a boa literatura brasileira, com um olhar denso e complexo sobre o universo feminino.

  • Os empresários e a política

    Há quase um século, quando Getúlio Vargas conduziu o seu vitorioso movimento pelo fim da Primeira República, ele precisava se apoiar em novos atores políticos na sociedade. Um dos grupos que deram suporte ao Governo Vargas, em seu início, foi o dos comerciantes organizados em associações comerciais, afinal elas eram as mais legítimas representantes dos interesses dos empresários, naquela época.

    Carlos Lindenberg, que depois seria governador do nosso estado e senador da república, era então o presidente da Associação Comercial de Vitória. Foi essa instituição que, sob sua liderança, deu sustentação política ao novo governo entre os empresários do Espírito Santo. O comércio, afinal, era o grande pilar da economia urbana em nosso estado, como praticamente em todo o país. Esse apoio foi fundamental para o novo governo, que iria pôr fim à república dos coronéis. 

    Um bom retrato do papel histórico dos empresários, reunidos em suas associações comerciais, foi dado, na ficção, por Jorge Amado. Em seu romance Gabriela, Cravo e Canela, mostrou como o personagem Mundinho Falcão, um jovem empresário idealista, operou os ideais de progresso de Ilhéus através desse tipo de associação, na mesma época. Assim também foi feito pelos empresários capixabas, por meio da Associação Comercial de Vitória, quando colaboraram para o enraizamento dos interesses modernizantes da Era Vargas.

    Carlos Lindenberg – da Associação Comercial de Vitória ao governo

    Na segunda metade do século XX foi a vez da atuação da Federação das Indústrias, a Findes, criada pelo dinâmico Américo Buaiz, em 1958, o mesmo criador da Federação do Comércio, em 1954. A Federação das Indústrias foi celeiro de novas ideias, produziu inúmeros debates e discussões em torno da nossa industrialização. O tema era urgente e importante, pois estávamos passando pela equivocada erradicação dos cafezais, a qual desorganizou totalmente a economia capixaba. Era preciso ir ao encontro da modernidade e de novos patamares econômicos.

    Não foi pouco o que fez a Findes pelo nosso estado na segunda metade dos anos 1960. Para ficar apenas no exemplo mais contundente, essa Federação contratou, com uma empresa de consultoria de renome nacional, o nosso plano de desenvolvimento e o ofereceu, sem custos, para o então governador Christiano Dias Lopes, já que o governo estadual não dispunha de recursos para tal contratação.

    Seguir esse plano com rigor e disciplina foi uma das chaves do sucesso do novo governo estadual. Tanto nos anos 1930 quanto nos anos 1960 os empreendedores capixabas, reunidos em suas associações representativas, deram enorme contribuição ao nosso processo de desenvolvimento. 

    Quero com isso dizer que todas as vezes em que nossa economia e a nossa política estiveram ameaçadas, os empresários mostraram que têm capital social e colocaram suas forças a serviço do Espírito Santo. Foi assim também no início do século XXI, quando mais uma vez nuvens sombrias pairavam em nossos céus e muitos setores sociais organizaram-se em defesa dos interesses coletivos ameaçados.  Surgiu então o movimento empresarial Espírito Santo em Ação.

    Também o ES em Ação deu sua contribuição à normalização do funcionamento de nossas instituições e muito tem colaborado na construção de uma sociedade com maior capacidade de gestão de seus recursos, para o bem de todos. Mais uma vez os capixabas demonstraram possuir capital social e souberam se organizar coletivamente para vencer as dificuldades, construindo a prosperidade. Ao longo de quase 20 anos, vêm contribuindo política e financeiramente para a construção de planos de desenvolvimento, como o Espírito Santo 500 anos, recentemente entregue à população. 

    Temos dado exemplos ao Brasil, sobretudo com o mencionado Plano da Findes dos anos 1960 – o primeiro plano de desenvolvimento brasileiro construído pelo setor privado para o universo público – e mais recentemente os três que foram realizados com a participação do ES em Ação, além daqueles dos governos estaduais. A instituição, desse modo, mostra que sua atuação independe de disputas partidárias e querelas políticas. 

    Agora, quando se aproximam as eleições de 2026, mais uma vez torna-se necessário colaborar com o sistema político na escolha de novos caminhos, de novas lideranças capazes de levar adiante o progresso que nos foi proporcionado nos seis últimos governos estaduais por meio de seus líderes, sejam do poder executivo, sejam do poder legislativo.  É preciso estar atento em tempos de calmaria, para evitar as tormentas.

  • Parlamentarismo à brasileira

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    As culturas nacionais constroem grandes redes simbólicas e muitas significações, que  chamo de imaginárias.

    A sociedade brasileira tem uma questão mal resolvida quando cria novas instituições: nossas elites copiam com frequência os modelos de outros países, onde funcionam bem. Foram exemplos disso a França e os Estados Unidos, nos quais nos inspiramos para construir nossos modelos republicanos no final do século XIX, mas esses não são os únicos exemplos.

    A grande questão que ficou para o futuro é que não temos nem franceses e nem estadunidenses para honrar tais modelos políticos; o que temos somos nós, brasileiros, imersos em outra cultura. Não que sejamos moralmente inferiores ou incapazes de absorver modelos mais elaborados, mas as instituições que vingam em uma sociedade têm que fazer sentido para ela, precisam estar ligadas à sua teia de significações imaginárias sociais.

    As culturas nacionais constroem grandes redes simbólicas e muitas significações, que  chamo de imaginárias. Essas redes simbólicas e imaginárias é que dão potência, ou não, ao desejo conceitual do legislador republicano de primeira hora. Exemplo claro disso é o federalismo, construído no início de nossa república. Não que fosse um ideal somente republicano; Feijó já pensava em um federalismo monárquico, que nunca se efetivou.

    O federalismo foi uma das grandes molas da democracia que vingou nos EUA, desde o início de o início de sua trajetória como nação independente. Já aqui virou, sobretudo, uma estratégia de legitimação do poder das oligarquias regionais, que estavam ávidas pelo poder no fim do império. Seria um despropósito dizer que ele se resume a isso, mas também não seria correto dizer que a afirmação política dos coronéis – autoritária, elitista e apoiada na tese da incapacidade política das massas – não passou pela distorção do sentido original da ideia.

    Outro exemplo de uma instituição transposta das democracias mais inclusivas do que a nossa nascente experiência como nação foram os partidos políticos. Os estadunidenses criaram, ainda no século XIX, os movimentos que levaram tanto o Partido Republicano quanto o Partido Democrata a ter fortes raízes populares, como também aconteceu em outras nações. As grandes convenções com participação em massa de eleitores são antigas e marcam a força daquela democracia, afinal trata-se do único país ocidental em que nunca houve uma ditadura. Mesmo as loucuras de Trump passaram pelo processo eleitoral e têm aprovação em seu país, e precisam dessa aprovação para continuar. Nesse caso, trata-se mais de um problema de sociedade do que de um desejo de tirania isolado. Mais isso é uma outra discussão.

    Nosso legislativo sofre da mesma enfermidade, pois expressa o desejo das elites, refletindo mais um olhar intelectualizado sobre a política do que propriamente um desejo do eleitorado. Victor Nunes Leal, no seu clássico Coronelismo, Enxada e Voto, nos ensina que o eleitor da roça, em dias de votação, faz festa, tem transporte gratuito, recebe alimentação e presentes variados, como pares de botas ou, mais recentemente, panelas de pressão. As pessoas mais pobres, historicamente, não têm uma relação orgânica com o voto. Muito disso ainda acontece até hoje, como sabemos todos.

    Essa baixa relação com o voto faz com quem muitas demandas do parlamento não expressem demandas coletivas. Uma vez eleitos, deputados federais e senadores não se sentem obrigados a prestar contas de suas ações a seus eleitores. A ideia de representação desaparece ao longo do mandato, restando a origem territorial do parlamentar. Não se costuma respeitar o que pensa o eleitor sobre aquela ação específica.

    Essa ideia do descasamento entre as demandas populares e a ação parlamentar veio à mente agora, em função da clara crise que vivemos entre o executivo e o congresso nacional. Não quero colocar a culpa no congresso, pois seria preciso ser mais longo e mais crítico para um julgamento mais correto. Quero apenas chamar a atenção para o descolamento do contexto das necessidades nacionais e do desejo dos eleitores  em tudo isso.

    Sentindo a fragilidade do Governo Lula e sua incapacidade de estabelecer conexões com o novo mundo que está sendo criado em nosso tempo, o congresso viu-se em condições de ditar, por si mesmo, os desejos nacionais. Só que faz isso a partir de uma enorme fragmentação política, baseada dos anseios de cada parlamentar, sem uma visão clara do conjunto da sociedade brasileira.

    O chamado presidencialismo de coalizão está ferido de morte. O que vemos hoje são presidentes fracos. Não podemos esquecer que Bolsonaro também estava refém do congresso, um congresso forte e sem pauta, a não ser a defesa de interesses – nem sempre republicanos – dos nossos legisladores.  A crise política precisa ser resolvida.

  • Teoria da solidão

    Quando o Estado regula até os vínculos afetivos, a solidão deixa de ser apenas um sentimento e se transforma em política.

    Escrevi há algumas semanas neste mesmo espaço um texto sobre a solidão em nossos tempos. Na verdade, minha intenção foi mostrar que existe atualmente uma apropriação da solidão pelas redes sociais. Citei, inclusive, que há uma “economia da solidão”, a qual opera oferecendo produtos e serviços que vão desde encontros e pornografia até a terapia realizada pela Inteligência Artificial. Não quero igualar essas coisas, apenas lembrar que elas existem.

    Recebi alguns comentários muito interessantes, como é de hábito, mas um deles foi feito por Nathalia Alves, pessoa de sólida formação intelectual e amiga querida que, de certa forma, ajudei a criar, e por quem nutro admiração e respeito. Ela indicou um documentário sueco de 2015 dirigido por Erick Gandini, que oferece um olhar crítico sobre as ideias e práticas do que poderíamos chamar de “individualismo estatal”. Isso porque, segundo os críticos, a maioria dos benefícios oferecidos pelo governo no que tem sido chamado de Estado Sueco do Bem-Estar Social está ligado a cada indivíduo e não em famílias, como ocorre em outros países do mundo. Em sueco, essa ideologia é chamada de “individualismo estatista”.

    O documentário mostra como a sociedade sueca criou um manifesto público sobre a independência de todos frente a todos, inclusive entre pais e filhos e vice-versa. Nesse contexto, o estado assume essa função reguladora. Como consequência existem, entre outras, políticas públicas de incentivo à concepção das mulheres por meio da inseminação artificial, o que faz com que a função paterna se altere inteiramente. Sem saber a origem familiar do doador masculino, as crianças são criadas somente pela mãe. Os vínculos familiares são muito mais restritos. É uma forma de fortalecer essa política pública.

    Além disso, o estado pode disciplinar os que queiram – na visão sueca – exceder seus direitos. A ideia central é criar indivíduos independentes e livres de uma autoridade que, no nosso mundo latino, atribuímos ao amor, embora seja uma ideia sobre a qual precisamos nos aprofundar. Aquela mãe cuidadora e centralizadora de amor e controle, que Woody Allen gosta de explorar de forma exagerada em seus filmes, tende a ficar totalmente ausente nesse tipo de sociedade, tanto para o bem quanto para o mal.

    É importante esclarecer que estou me atendo ao texto do documentário, sem conhecer outros olhares. Por meio dele, infere-se que o manifesto que instituiu esse comportamento por parte do estado, desde de 1972, acabou por radicalizar o individualismo sueco. Não que ele não exista em outras sociedades. Antes, pelo contrário, nos países europeus e nas sociedades mais ricas e cultivadas do mundo, a tendência ao individualismo é muito clara. O papel das famílias nas sociedades tradicionais entrou em colapso no mundo atual. As moradas com uma só pessoa tornaram-se muito numerosas.

    Enfim, o que parece importante notar no exemplo que estou trazendo é o radicalismo como política pública, enfraquecendo a vida social mais espontânea. Segundo Gandini, o resultado prático é que muitas e muitas pessoas idosas que vivem sozinhas, apartadas de vínculos sociais mais densos, terminam a vida muito solitárias. São frequentes as mortes dos mais velhos que não são nem mesmo percebidas. Nesses casos, um serviço importante que existe é o de recolher os restos mortais dessas pessoas. São frequentes os casos que duram até dois anos para serem executados. Ninguém percebe essas mortes, o que mostra que a solidão era a mais intensa possível.

    O que me parece mais importante, do ponto de vista das análises que venho fazendo da vida em nossos tempos, é como esse caminho radical está presente mesmo nos setores sociais mais privilegiados das grandes cidades, inclusive as brasileiras. As famílias muito ampliadas que havia nos séculos que antecedem ao nosso estão mesmo desaparecendo. Os velhos coronéis e sua parentela, que costumavam mandar em todo um território, vão mesmo ficando para trás.

    A tendência normal hoje é o individualismo. Ele de fato trouxe um nível de liberdade individual extraordinário, o que é muito bom, mas isolou cada um em si mesmo, dificultando a espontaneidade do amor. É claro que o amor é uma instituição imaginária social, que é vivida de forma diferente em cada sociedade específica.

    Para nós, brasileiros, é muito difícil entender essa Teoria Sueca do Amor, onde ele é fortemente ligado à ideia de dependência. Vamos admitir que, de alguma forma, ele realmente o é. Os homens, sobretudo, gostam de forçar esses vínculos em suas relações. Mas, convenhamos, a paixão é um momento em que os amorosos se fundem. Penso ser difícil que o amor sobreviva, do modo como o conhecemos, frente a um individualismo regulado pelo estado.

  • Bolsonaro em 2026

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    Apesar da popularidade, Bolsonaro enfraquece sua chance de retorno ao poder com decisões equivocadas e falta de leitura do cenário político.

    Eu sempre insisto na ideia de que o grande papel político de Bolsonaro foi cumprido em 2018, quando ele conseguiu reunir a direita brasileira, elegendo-se presidente da república e produzindo, com a eleição, inúmeros aliados. Seu governo, no entanto, não foi bem sucedido, cometendo erros primários. Em decorrência de sua má gestão acabou por se tornar o primeiro presidente brasileiro que não conseguiu se reeleger. Havia sinais claros de que a forma como a pandemia foi enfrentada criou grandes problemas para o governo, mas ele insistiu em tratar de forma debochada e inadequada as graves consequências da Covid – isso para dizer apenas o mais óbvio.

    Perdeu a eleição por pequena margem de votos. Mais uma vez não entendeu os sinais que vinham das ruas, e investiu em manobras escusas para minar os resultados eleitorais. São imensas as evidências de que ele incentivou esquemas para continuar no poder. Desde os discursos veementes – na verdade quase beirando a histeria – contra o judiciário, até os elogios claros à ditadura brasileira e mesmo aos abomináveis atos de exceção dos militares em seus períodos de governo, como o AI5, levantando na parcela da população que o apoia o desejo por um governo de inspiração militar.

    O momento mais tenso dessas manobras foi o incentivo que deu aos acampamentos que tentavam impedir a posse de Lula e acabaram por preparar os atos violentos do 8 de janeiro de 2023. Ao acompanhar pela mídia os depoimentos dos militares e civis envolvidos naquela teia de comportamentos claramente golpistas, percebe-se que faz todo o sentido imaginar que o ex-presidente Bolsonaro estava imerso naquele universo.

    Uma coisa foi elogiar o único torturador oficialmente reconhecido das forças da ordem no Brasil, durante a sessão do impeachment de Dilma Roussef, chamando a atenção para esse personagem abominável, ainda bastante desconhecido do eleitorado brasileiro. Outra muito diferente foi manter esse mesmo discurso, que afastou seus apoiadores menos radicais. Governo tem que ter entrega, nenhum governo se mantém somente pela ideologia. Os sinais do cansaço estavam evidentes.

    Como lembrou o grande analista das mídias sociais Sérgio Denicoli, em um de seus textos em O Estado de São Paulo, a guerra cultural está em baixa, as pessoas agora estão focadas nas contas. “Se Bolsonaro tivesse reconhecido a vitória de Lula, seria provavelmente presidente de novo. Não soube ler os sinais”. De fato, por não ler os sinais de forma adequada perdeu a eleição. Posteriormente, por não compreender os seus erros, mais uma vez jogou fora a oportunidade de se eleger em 2026.

    O fato de não sair vencedor nas eleições em 2022, apesar da popularidade, do estilo carismático e de ter na mão a máquina do governo jogou também pela janela as chances de voltar ao poder em 2026, ao não aceitar a vitória do opositor. Digo isso porque são evidentes os enormes equívocos políticos do governo do PT, mas, mesmo assim, os permanentes erros de Bolsonaro podem derrotar a direita mais uma vez.

    Resta claro, pelas pesquisas de opinião, que o presidente Lula faz um governo afastado das demandas atuais da sociedade. É um dirigente analógico e distante das novas formas de comunicação que a sociedade exige. Insiste nos discursos para claques de centenas de pessoas arrebanhadas por prefeitos, pelos métodos tradicionais, enquanto seus adversários nadam de braçada nas redes sociais, com milhões de seguidores.

    Resta claro, pelas pesquisas de opinião, que o presidente Lula faz um governo afastado das demandas atuais da sociedade. É um dirigente analógico e distante das novas formas de comunicação que a sociedade exige. Insiste nos discursos para claques de centenas de pessoas arrebanhadas por prefeitos, pelos métodos tradicionais, enquanto seus adversários nadam de braçada nas redes sociais, com milhões de seguidores.

    Fenômenos de comunicação como Nikolas Ferreira não são compreendidos pela nossa velha esquerda. Na guerra pela comunicação, a direita usa canhões e a esquerda ainda usa suas velhas espingardas. O resultado é um governo nacional capenga em termos de popularidade, como temos hoje. Somente mais um erro de Bolsonaro produziria uma vitória de Lula: seria tentar impor como candidato a presidente alguém de sua família, como a sua mulher, Michele, ou um de seus quatro filhos que estão na política partidária. O preferido entre os irmãos parece ser o deputado federal Eduardo Bolsonaro – outro equivocado -, atualmente residindo nos Estados Unidos.

    O fracionamento da direita pode colocar Lula no segundo turno contra um candidato fraco eleitoralmente, facilitando sua vitória. Ou seja, Bolsonaro levou a direita à derrota em 2022 por falta de compreensão de seu papel, depois enterrou sua chance de voltar ao poder por incentivar um golpe de estado totalmente fora de lugar. Agora, caso não apoie um candidato forte, poderá levar seu campo político a uma nova derrota.

    Bolsonaro ainda é muito forte politicamente, mas não o suficiente para eleger um membro de sua família. Se não estiver atento aos sinais que o eleitorado manda a toda hora, vai sair da política pela porta dos fundos.

  • Os evangélicos e o censo de 2022

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    https://on.soundcloud.com/9F0Fe3PdABNEVQbvke

    O Censo de 2022 revela o impacto dos evangélicos na formação do eleitorado conservador e nas disputas de valores no país.

    Recentemente foram publicados os números do Censo de 2022. Faço aqui uma breve análise quanto aos dados apurados com relação aos evangélicos no Brasil. Já tratei do tema em artigos anteriores, com ênfase especial para o caso capixaba. No fundo, ninguém entende mais o Brasil sem levar em conta o mundo evangélico. Só mesmo a miopia dos setores médios e intelectualizados para menosprezar o papel desse segmento em nossa sociedade. Achar que são apenas pastores desonestos e uma população idiotizada é puro fruto de preconceito.

    Alguns elementos devem ser levados em conta. O primeiro é o fabuloso crescimento do segmento desde os primeiros anos do século XXI. Não que o crescimento anterior fosse menos importante, mas a velocidade foi extraordinária nos anos 2000. Afirmava-se mesmo que, na década seguinte, os evangélicos já seriam maioria dentre os brasileiros.

    Outro elemento importante é, do ponto de vista eleitoral, a forma como constroem seus votos. Poucos são os eleitores coletivos no Brasil. Um católico, por exemplo, tem razões de voto mais pulverizadas. Costuma entrar na cabine eleitoral e decidir em quem votar com base em razões que podem ser territoriais, ideológicas ou mesmo por relações de amizade. Os evangélicos, ao contrário, votam por princípios e comportamentos partilhados por todo o grupo. Construíram uma lógica eleitoral que poucos possuem no Brasil e ocuparam de uma vez o espaço do voto conservador, que já foi católico.

    Os embates sobre o aborto, os temas ligados ao divórcio e a questões de gênero passaram da esfera do catolicismo para o mundo evangélico. Em torno desses temas, lideranças importantes como Silas Malafaia, RR Soares, Edir Macedo ou Valdemiro Santiago passaram a exercer um papel fundamental de mobilização do conjunto dos fiéis. Os grandes embates da mídia, nos temas de comportamento, passaram a ter o peso e a influência dessas lideranças.

    Uma grande sacada de Jair Bolsonaro, candidato à presidência em 2018, foi organizar e articular esse grande contingente de eleitores a partir de seus comportamentos mais conservadores, em termos morais. Esse foi o maior diferencial de Bolsonaro naquela eleição, além de constituir um legado seu ao processo político brasileiro: o protagonismo dos evangélicos. Basta ver que a Marcha para Jesus já existia desde os anos 1990, mas ele foi o único presidente da república que a prestigiou, comparecendo a todas. Casado com uma evangélica, batizou-se em águas. Ou seja, politizou seu comportamento, valorizou o povo de Deus e assim abarcou um enorme contingente para a arena eleitoral jogando a seu favor.

    Com base nessas observações, a Persona – empresa que dirijo junto a Hélio Gualberto e Maria Vitória – fez investigações profundas de ordem quantitativa e qualitativa, entrevistando centenas de evangélicos na Grande Vitória, além de dezenas de formadores de opinião do setor em todo o Espírito Santo. Os resultados só fortaleceram a ideia de que os evangélicos são mesmo um grupo que vota baseado em princípios fundamentalmente ligados à questão das famílias, o epicentro de sua opção diante da vida. Eles as sentem ameaçadas pela brutalidade da recente urbanização brasileira, pelos perigos da rua onde moram: prostituição, tráfico de drogas, violência. Não nos esqueçamos de que são majoritariamente pobres, pretos, mulheres e periféricos. O mundo brasileiro não é fácil para essa população. A família costuma ser o único ponto de refúgio nesse estado de coisas em que só os ricos e as classes médias têm direito a privilégios. Isso ajuda muito a definir seus votos.

    Entretanto, mesmo com tudo isso, seu crescimento desacelerou nos últimos anos, segundo o censo divulgado. A questão que se coloca, portanto, é: por que isso está acontecendo? Arrisco dizer que os mesmos fatores que produziram o crescimento acelerado podem estar contribuindo para reduzir a velocidade do processo. A politização parece que passou do ponto, as manifestações a favor de Jair Bolsonaro, organizadas pelos grandes líderes religiosos, não dizem mais respeito aos princípios do cristianismo conservador. São temas da velha politicagem brasileira, mais afeitas à sobrevivência do ex-presidente do que aos reais motivos que movem a massa.

    As bases da igreja católica também se locomoveram em direção ao movimento conservador. Não falo aqui das cúpulas do vaticano nem dos vários países de base católica: falo mais das pequenas comunidades, das paróquias, das práticas cotidianas dos religiosos. As diferenças entre evangélicos e católicos parecem estar diminuindo. O dia a dia dos católicos aproximou-os das bandeiras mais conservadoras no plano moral.

    Enfim, eis aí um pouco do que talvez possa explicar a desaceleração que o Censo de 2022 mostra: 26,9% da população brasileira é evangélica, um percentual expressivo, mas longe do majoritário.

  • A capitania austral

    Clique no link abaixo caso queira ouvir esse artigo no formato podcast: https://on.soundcloud.com/xzuEUvbS2TEI5pVazK

    Pesquisas recentes revelam que a capitania austral, hoje Espírito Santo, já ocupava papel estratégico nos planos da monarquia portuguesa no fim do período colonial.

    A primeira vez que ouvi a expressão Capitania Austral foi assistindo a uma palestra da professora Adriana Campos, no Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, não faz muito tempo. Ela explicou do interesse das autoridades portuguesas em transformar a nossa capitania no centro nervoso do processo econômico brasileiro, no fim do período colonial. Isso mostra que a Capitania já era observada como elemento do projeto de futuro do império lusitano. Essa afirmativa causou surpresa, porque aprendemos que fomos o espaço do atraso e do marasmo, usados apenas para atenuar o risco de contrabandos e invasões em direção às Minas Gerais.

    Existe de fato uma convicção de que, durante todo o período colonial e imperial, fomos um território de pouca expressão e que disso resultou um enorme atraso em relação ao resto do Brasil. Evidentemente trata-se de constatações que não colaboram para a existência de uma autoestima acentuada por parte dos capixabas, já que aprendemos a olhar para o passado de forma desconfiada, mediante nossa suposta  pouca relevância histórica.

    Ocorre que as evidências das pesquisas históricas mais recentes apontam em outra direção. Prova disso é que, em capítulo de um livro ainda inédito a que tive acesso, há uma excelente reflexão da mesma pesquisadora e professora da Ufes, Adriana Campos – sempre na vanguarda – com o título Circuitos de poder e ocupação territorial: concessões e confirmações de cartas de sesmarias no Espírito Santo (1814-1831), em que ela toca no assunto de maneira muito profunda.

    O texto analisa o processo de concessão e confirmação de sesmarias (cartas de doação de terras) na capitania do Espírito Santo o início do século XIX, entre o fim do período colonial e o início da nossa independência, com foco nos registros de demarcação e posse relacionados à titulação fundiária no Brasil. Com base em manuscritos do Arquivo Nacional e do Arquivo Público do Espírito Santo, o estudo combina análise diplomática de documentos, usando metodologia histórica bastante atual e sofisticada.

    Dentre as inúmeras revelações históricas da maior importância para nós, capixabas, está uma que me chamou a atenção, quando a autora afirma que: a política de ocupação do Espírito Santo não começou abruptamente no período joanino, mas foi um processo gradual. Antes marginalizada pelas restrições administrativas para evitar o contrabando de ouro, a capitania tornou-se estratégica nos planos territoriais da monarquiaA partir de meados do século XVIII, a preocupação com a evasão fiscal deu lugar a uma visão integradora, aproveitando o papel logístico da capitania nas rotas de circulação entre o interior minerador e a costa atlântica.

    Explica a autora que desde 1768 documentos em Portugal sugeriam uma reconfiguração da capitania do Espírito Santo. Propunha-se, por exemplo, mudar seu nome para “Província Austral do Rio Doce”, considerando-se que o nome atual “cheirava a direito feudal”. O que então se visava era conectar o litoral às Minas Gerais, facilitando a navegação pelo Rio Doce e beneficiando tanto essa região quanto Vila Rica.

    Essas ideias antecipavam o esforço da Coroa em usar a distribuição de sesmarias para criar corredores econômicos e valorizar a região centro-sul do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

    A partir de 1814 iniciaram-se na Capitania do Espírito Santo dois movimentos simultâneos de concessão de sesmarias para promover povoamento e conquista territorial, como muito bem sinaliza o estudo a que me refiro. O primeiro focou na fixação de colonos açorianos em Viana, fortalecendo a ocupação agrícola e criando núcleos populacionais, fato que é mais conhecido dos capixabas em geral.

    O segundo ocorreu ao longo do rio Doce, visando criar uma via de escoamento para produtos de Minas Gerais, conectando o interior à costa atlântica. Ambos os movimentos, apesar de possuírem finalidades distintas — adensamento populacional e dinamização comercial — aconteceram simultaneamente, refletindo a intensificação das políticas régias no início do século XIX.  Ressalte-se que essas políticas colocavam o nosso território no cento da vida do país que estava surgindo.

    As informações e achados históricos nos quais se apoiam as afirmativas dessa pesquisadora de alto nível nos mostram que ainda temos muito o que aprender e desaprender sobre o nosso estado, cuja força e potência são percebidas há muito tempo.

  • Sociedade da solidão

    Na era da conexão digital, a solidão persiste como sombra silenciosa em lares de todas as idades.

    Vivemos em tempos de solidão. Muitos são os lares que têm apenas um morador, em qualquer classe social, sobretudo nos países mais ricos. Quando os que vivem sozinhos são jovens e saudáveis, trata-se apenas de uma opção, uma escolha. Entretanto, quando a solidão pesa, incomoda e atormenta, sobretudo entre os idosos, buscam-se formas de conviver com essa situação.

    No mundo atual as redes sociais passaram a ser essa companhia invisível, entretanto muito presente. Em um país como o nosso, as pessoas estão em permanente interação com esse mundo que o celular coloca na palma das nossas mãos e à altura dos nossos olhos.

    Vamos falar um pouco da nossa trajetória social na solidão. No mundo antigo, cada moradia abrigava uma família extensa, composta de várias gerações: avós, filhos, netos e um conjunto de agregados, como sobrinhos, afilhados e filhos de amigos. Não havia mesmo esse conceito tão caro e natural aos nossos dias: o da vida privada. O ambiente familiar envolvia a todos, que acabavam compartilhando dos momentos de intimidade, pois que tudo era vivido de forma mais coletiva. O conceito de família era amplo e a possibilidade de comportamentos desviantes era sempre punida.

    Não sei se a minha leitora e o meu leitor sabem, mas as camas nas casas do mundo antigo eram coletivas. Nelas dormia toda a família e, nas noites frias de inverno, incluíam-se até os animais domésticos, como patos, galinhas, cachorros. Era uma forma de espantar o frio, mas que, evidentemente, impedia qualquer privacidade nas relações sexuais dos donos da casa: tudo era feito na presença de todos. É bom também lembrar que na idade média europeia os banhos eram anuais. O banho semanal, geralmente aos sábados, só foi adotado na maioria dos países em pleno século XIX. Difícil imaginar um romantismo assim.

    Dentro desse conceito abrangente de família tudo era compartilhado: refeições, banhos, punições, até porque o chefe desse clã numeroso era também o provedor de todas as despesas. Havia uma dependência muito grande em torno dessa figura e também um padrão de socialização de comportamentos muito rigoroso. Lentamente, através os séculos, isso foi mudando. A sociedade urbana permitiu mais flexibilidade nos estilos de vida, os novos padrões de higiene e de saúde pública também se estabeleceram.

    A partir sobretudo da segunda metade do século XX as pessoas foram ficando mais autônomas, desmembrando-se do núcleo familiar que as prendia até então. As grandes cidades se impuseram em todos os continentes e a vida urbana trouxe várias mudanças. Como consequência, passamos a conviver com um universo de novas configurações familiares, onde os papéis de gênero foram redefinidos e a noção da autoridade mudou muito.

    Nesse novo padrão de comportamento a velha família patriarcal dos velhos tempos ficou mesmo no passado. Os filhos se desprendem muito mais cedo em busca de seus projetos de vida, assim a solidão passou a ter papel definitivo na noção de felicidade. Nem todos querem perder sua autonomia, por isso muitas pessoas passaram a viver sós, de forma espontânea ou mesmo por imposição de novas circunstâncias. Agora outras formas de ocupar o tempo se impõem, ou novas formas de conviver com a solidão, querida e temida ao mesmo tempo.

    A jornalista Ruth de Aquino, na sua coluna em O Globo, assinalou, há algumas semanas, que o principal uso da Inteligência Artificial hoje se dá como companhia e terapia. O divã de terapeutas robôs atrai, segundo a autora, milhões de pessoas no mundo todo, sobretudo jovens de 18 a 24 anos. Sem muito dinheiro pagar psicanalista, insones na madrugada, sem ninguém com quem conversar, ficam prisioneiros da depressão e da ansiedade e querem disponibilidade às três horas da manhã.

    Para Ruth de Aquino, a IA explora a carência emocional e – acrescento eu – os donos do poder nas redes sociais já descobriram que existe uma espécie de “economia da solidão”, uma forma pouco ética de faturar com a carência de milhões de pessoas, oferecendo uma multiplicidade de produtos. A tecnologia, em princípio fria e desprovida de humanidade, passa a ser o centro de uma sociedade que tem pouco a oferecer aos que sofrem com as consequências do mundo contemporâneo. Não ouso dizer que os antigos eram mais felizes, afinal a liberdade não tem preço, mas o progressivo processo de desumanização das relações é algo que deveria nos preocupar.