• Os evangélicos e o censo de 2022

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    O Censo de 2022 revela o impacto dos evangélicos na formação do eleitorado conservador e nas disputas de valores no país.

    Recentemente foram publicados os números do Censo de 2022. Faço aqui uma breve análise quanto aos dados apurados com relação aos evangélicos no Brasil. Já tratei do tema em artigos anteriores, com ênfase especial para o caso capixaba. No fundo, ninguém entende mais o Brasil sem levar em conta o mundo evangélico. Só mesmo a miopia dos setores médios e intelectualizados para menosprezar o papel desse segmento em nossa sociedade. Achar que são apenas pastores desonestos e uma população idiotizada é puro fruto de preconceito.

    Alguns elementos devem ser levados em conta. O primeiro é o fabuloso crescimento do segmento desde os primeiros anos do século XXI. Não que o crescimento anterior fosse menos importante, mas a velocidade foi extraordinária nos anos 2000. Afirmava-se mesmo que, na década seguinte, os evangélicos já seriam maioria dentre os brasileiros.

    Outro elemento importante é, do ponto de vista eleitoral, a forma como constroem seus votos. Poucos são os eleitores coletivos no Brasil. Um católico, por exemplo, tem razões de voto mais pulverizadas. Costuma entrar na cabine eleitoral e decidir em quem votar com base em razões que podem ser territoriais, ideológicas ou mesmo por relações de amizade. Os evangélicos, ao contrário, votam por princípios e comportamentos partilhados por todo o grupo. Construíram uma lógica eleitoral que poucos possuem no Brasil e ocuparam de uma vez o espaço do voto conservador, que já foi católico.

    Os embates sobre o aborto, os temas ligados ao divórcio e a questões de gênero passaram da esfera do catolicismo para o mundo evangélico. Em torno desses temas, lideranças importantes como Silas Malafaia, RR Soares, Edir Macedo ou Valdemiro Santiago passaram a exercer um papel fundamental de mobilização do conjunto dos fiéis. Os grandes embates da mídia, nos temas de comportamento, passaram a ter o peso e a influência dessas lideranças.

    Uma grande sacada de Jair Bolsonaro, candidato à presidência em 2018, foi organizar e articular esse grande contingente de eleitores a partir de seus comportamentos mais conservadores, em termos morais. Esse foi o maior diferencial de Bolsonaro naquela eleição, além de constituir um legado seu ao processo político brasileiro: o protagonismo dos evangélicos. Basta ver que a Marcha para Jesus já existia desde os anos 1990, mas ele foi o único presidente da república que a prestigiou, comparecendo a todas. Casado com uma evangélica, batizou-se em águas. Ou seja, politizou seu comportamento, valorizou o povo de Deus e assim abarcou um enorme contingente para a arena eleitoral jogando a seu favor.

    Com base nessas observações, a Persona – empresa que dirijo junto a Hélio Gualberto e Maria Vitória – fez investigações profundas de ordem quantitativa e qualitativa, entrevistando centenas de evangélicos na Grande Vitória, além de dezenas de formadores de opinião do setor em todo o Espírito Santo. Os resultados só fortaleceram a ideia de que os evangélicos são mesmo um grupo que vota baseado em princípios fundamentalmente ligados à questão das famílias, o epicentro de sua opção diante da vida. Eles as sentem ameaçadas pela brutalidade da recente urbanização brasileira, pelos perigos da rua onde moram: prostituição, tráfico de drogas, violência. Não nos esqueçamos de que são majoritariamente pobres, pretos, mulheres e periféricos. O mundo brasileiro não é fácil para essa população. A família costuma ser o único ponto de refúgio nesse estado de coisas em que só os ricos e as classes médias têm direito a privilégios. Isso ajuda muito a definir seus votos.

    Entretanto, mesmo com tudo isso, seu crescimento desacelerou nos últimos anos, segundo o censo divulgado. A questão que se coloca, portanto, é: por que isso está acontecendo? Arrisco dizer que os mesmos fatores que produziram o crescimento acelerado podem estar contribuindo para reduzir a velocidade do processo. A politização parece que passou do ponto, as manifestações a favor de Jair Bolsonaro, organizadas pelos grandes líderes religiosos, não dizem mais respeito aos princípios do cristianismo conservador. São temas da velha politicagem brasileira, mais afeitas à sobrevivência do ex-presidente do que aos reais motivos que movem a massa.

    As bases da igreja católica também se locomoveram em direção ao movimento conservador. Não falo aqui das cúpulas do vaticano nem dos vários países de base católica: falo mais das pequenas comunidades, das paróquias, das práticas cotidianas dos religiosos. As diferenças entre evangélicos e católicos parecem estar diminuindo. O dia a dia dos católicos aproximou-os das bandeiras mais conservadoras no plano moral.

    Enfim, eis aí um pouco do que talvez possa explicar a desaceleração que o Censo de 2022 mostra: 26,9% da população brasileira é evangélica, um percentual expressivo, mas longe do majoritário.

  • A capitania austral

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    Pesquisas recentes revelam que a capitania austral, hoje Espírito Santo, já ocupava papel estratégico nos planos da monarquia portuguesa no fim do período colonial.

    A primeira vez que ouvi a expressão Capitania Austral foi assistindo a uma palestra da professora Adriana Campos, no Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, não faz muito tempo. Ela explicou do interesse das autoridades portuguesas em transformar a nossa capitania no centro nervoso do processo econômico brasileiro, no fim do período colonial. Isso mostra que a Capitania já era observada como elemento do projeto de futuro do império lusitano. Essa afirmativa causou surpresa, porque aprendemos que fomos o espaço do atraso e do marasmo, usados apenas para atenuar o risco de contrabandos e invasões em direção às Minas Gerais.

    Existe de fato uma convicção de que, durante todo o período colonial e imperial, fomos um território de pouca expressão e que disso resultou um enorme atraso em relação ao resto do Brasil. Evidentemente trata-se de constatações que não colaboram para a existência de uma autoestima acentuada por parte dos capixabas, já que aprendemos a olhar para o passado de forma desconfiada, mediante nossa suposta  pouca relevância histórica.

    Ocorre que as evidências das pesquisas históricas mais recentes apontam em outra direção. Prova disso é que, em capítulo de um livro ainda inédito a que tive acesso, há uma excelente reflexão da mesma pesquisadora e professora da Ufes, Adriana Campos – sempre na vanguarda – com o título Circuitos de poder e ocupação territorial: concessões e confirmações de cartas de sesmarias no Espírito Santo (1814-1831), em que ela toca no assunto de maneira muito profunda.

    O texto analisa o processo de concessão e confirmação de sesmarias (cartas de doação de terras) na capitania do Espírito Santo o início do século XIX, entre o fim do período colonial e o início da nossa independência, com foco nos registros de demarcação e posse relacionados à titulação fundiária no Brasil. Com base em manuscritos do Arquivo Nacional e do Arquivo Público do Espírito Santo, o estudo combina análise diplomática de documentos, usando metodologia histórica bastante atual e sofisticada.

    Dentre as inúmeras revelações históricas da maior importância para nós, capixabas, está uma que me chamou a atenção, quando a autora afirma que: a política de ocupação do Espírito Santo não começou abruptamente no período joanino, mas foi um processo gradual. Antes marginalizada pelas restrições administrativas para evitar o contrabando de ouro, a capitania tornou-se estratégica nos planos territoriais da monarquiaA partir de meados do século XVIII, a preocupação com a evasão fiscal deu lugar a uma visão integradora, aproveitando o papel logístico da capitania nas rotas de circulação entre o interior minerador e a costa atlântica.

    Explica a autora que desde 1768 documentos em Portugal sugeriam uma reconfiguração da capitania do Espírito Santo. Propunha-se, por exemplo, mudar seu nome para “Província Austral do Rio Doce”, considerando-se que o nome atual “cheirava a direito feudal”. O que então se visava era conectar o litoral às Minas Gerais, facilitando a navegação pelo Rio Doce e beneficiando tanto essa região quanto Vila Rica.

    Essas ideias antecipavam o esforço da Coroa em usar a distribuição de sesmarias para criar corredores econômicos e valorizar a região centro-sul do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

    A partir de 1814 iniciaram-se na Capitania do Espírito Santo dois movimentos simultâneos de concessão de sesmarias para promover povoamento e conquista territorial, como muito bem sinaliza o estudo a que me refiro. O primeiro focou na fixação de colonos açorianos em Viana, fortalecendo a ocupação agrícola e criando núcleos populacionais, fato que é mais conhecido dos capixabas em geral.

    O segundo ocorreu ao longo do rio Doce, visando criar uma via de escoamento para produtos de Minas Gerais, conectando o interior à costa atlântica. Ambos os movimentos, apesar de possuírem finalidades distintas — adensamento populacional e dinamização comercial — aconteceram simultaneamente, refletindo a intensificação das políticas régias no início do século XIX.  Ressalte-se que essas políticas colocavam o nosso território no cento da vida do país que estava surgindo.

    As informações e achados históricos nos quais se apoiam as afirmativas dessa pesquisadora de alto nível nos mostram que ainda temos muito o que aprender e desaprender sobre o nosso estado, cuja força e potência são percebidas há muito tempo.

  • Sociedade da solidão

    Na era da conexão digital, a solidão persiste como sombra silenciosa em lares de todas as idades.

    Vivemos em tempos de solidão. Muitos são os lares que têm apenas um morador, em qualquer classe social, sobretudo nos países mais ricos. Quando os que vivem sozinhos são jovens e saudáveis, trata-se apenas de uma opção, uma escolha. Entretanto, quando a solidão pesa, incomoda e atormenta, sobretudo entre os idosos, buscam-se formas de conviver com essa situação.

    No mundo atual as redes sociais passaram a ser essa companhia invisível, entretanto muito presente. Em um país como o nosso, as pessoas estão em permanente interação com esse mundo que o celular coloca na palma das nossas mãos e à altura dos nossos olhos.

    Vamos falar um pouco da nossa trajetória social na solidão. No mundo antigo, cada moradia abrigava uma família extensa, composta de várias gerações: avós, filhos, netos e um conjunto de agregados, como sobrinhos, afilhados e filhos de amigos. Não havia mesmo esse conceito tão caro e natural aos nossos dias: o da vida privada. O ambiente familiar envolvia a todos, que acabavam compartilhando dos momentos de intimidade, pois que tudo era vivido de forma mais coletiva. O conceito de família era amplo e a possibilidade de comportamentos desviantes era sempre punida.

    Não sei se a minha leitora e o meu leitor sabem, mas as camas nas casas do mundo antigo eram coletivas. Nelas dormia toda a família e, nas noites frias de inverno, incluíam-se até os animais domésticos, como patos, galinhas, cachorros. Era uma forma de espantar o frio, mas que, evidentemente, impedia qualquer privacidade nas relações sexuais dos donos da casa: tudo era feito na presença de todos. É bom também lembrar que na idade média europeia os banhos eram anuais. O banho semanal, geralmente aos sábados, só foi adotado na maioria dos países em pleno século XIX. Difícil imaginar um romantismo assim.

    Dentro desse conceito abrangente de família tudo era compartilhado: refeições, banhos, punições, até porque o chefe desse clã numeroso era também o provedor de todas as despesas. Havia uma dependência muito grande em torno dessa figura e também um padrão de socialização de comportamentos muito rigoroso. Lentamente, através os séculos, isso foi mudando. A sociedade urbana permitiu mais flexibilidade nos estilos de vida, os novos padrões de higiene e de saúde pública também se estabeleceram.

    A partir sobretudo da segunda metade do século XX as pessoas foram ficando mais autônomas, desmembrando-se do núcleo familiar que as prendia até então. As grandes cidades se impuseram em todos os continentes e a vida urbana trouxe várias mudanças. Como consequência, passamos a conviver com um universo de novas configurações familiares, onde os papéis de gênero foram redefinidos e a noção da autoridade mudou muito.

    Nesse novo padrão de comportamento a velha família patriarcal dos velhos tempos ficou mesmo no passado. Os filhos se desprendem muito mais cedo em busca de seus projetos de vida, assim a solidão passou a ter papel definitivo na noção de felicidade. Nem todos querem perder sua autonomia, por isso muitas pessoas passaram a viver sós, de forma espontânea ou mesmo por imposição de novas circunstâncias. Agora outras formas de ocupar o tempo se impõem, ou novas formas de conviver com a solidão, querida e temida ao mesmo tempo.

    A jornalista Ruth de Aquino, na sua coluna em O Globo, assinalou, há algumas semanas, que o principal uso da Inteligência Artificial hoje se dá como companhia e terapia. O divã de terapeutas robôs atrai, segundo a autora, milhões de pessoas no mundo todo, sobretudo jovens de 18 a 24 anos. Sem muito dinheiro pagar psicanalista, insones na madrugada, sem ninguém com quem conversar, ficam prisioneiros da depressão e da ansiedade e querem disponibilidade às três horas da manhã.

    Para Ruth de Aquino, a IA explora a carência emocional e – acrescento eu – os donos do poder nas redes sociais já descobriram que existe uma espécie de “economia da solidão”, uma forma pouco ética de faturar com a carência de milhões de pessoas, oferecendo uma multiplicidade de produtos. A tecnologia, em princípio fria e desprovida de humanidade, passa a ser o centro de uma sociedade que tem pouco a oferecer aos que sofrem com as consequências do mundo contemporâneo. Não ouso dizer que os antigos eram mais felizes, afinal a liberdade não tem preço, mas o progressivo processo de desumanização das relações é algo que deveria nos preocupar.

  • Rubem Braga e a identidade das cidades

    Em ‘Crônicas do Espírito Santo’, Rubem Braga captura a Identidade Urbana Perdida do ES (1920-1950), documentando cidades coesas hoje fragmentadas pela modernidade

    Rubem Braga é capixaba de Cachoeiro de Itapemirim, como todos os que leem este meu texto sabem muito bem. Quando pensei em fazer, através dos textos que venho publicando neste espaço, uma viagem pela literatura, dela pretendia tirar lições sobre o cotidiano capixaba. Além disso, tinha a intenção de aprofundar o entendimento sobre a construção do nosso imaginário social. Assim, logo imaginei que um dos maiores cronistas brasileiros – considerado por alguns, de fato, o maior do século XX – não poderia estar ausente do meu quadro analítico. Seu livro Crônicas do Espírito Santo, que acabo de reler e recomendo fortemente, é uma aula sobre o nosso estado nos anos 1920, partindo da sua infância em Cachoeiro, como não poderia deixar de ser.

    Também é uma aula sobre as condições da natureza do Espírito Santo dos anos 1940 a 1951, registrada sobretudo nos seus relatos de viagens ao Norte do estado, em especial ao Rio Doce, no trecho que vai de Linhares a Colatina. O vale descrito não existe mais, o rio navegável e caudaloso hoje tem trechos que podem ser atravessados a pé. Existem tantos bancos de areia em seu leito que, muitas vezes, dependendo da época do ano, há mais areia que água.  A mata então existente simplesmente desapareceu. Praticamente nada restou, e junto com ela foram dizimadas a fauna e a flora. Nossa natureza foi eliminada pela modernidade.

    Rubem Braga nasceu em 1913, portanto a fase da infância a que ele se refere nas crônicas deve ser por volta dos anos 1920, no início do século passado. Estamos falando de algo distante para a velocidade dos tempos em que vivemos. O ritmo da vida mudou muito desde então. Havia a relativa estabilidade que nos davam as famílias antigas e as casas em que morávamos, num mundo de certo modo previsível, portador de poucas transformações. Não é por outra razão que as cidades nos emprestam identidade, já que elas permanecem mais ou menos como são durante a nossa rápida existência.

    As trajetórias das cidades onde nascemos e crescemos também são as nossas próprias trajetórias, com suas casas, suas ruas, seus personagens marcantes de todas as classes sociais. Rubem era filho de um coronel importante, que foi o primeiro prefeito de Cachoeiro de Itapemirim. A vida que ele nos narra naquela cidade – a mais importante economicamente do Espírito Santo do início do século XX – era a das suas elites, de seus homens, mulheres e famílias mais abastadas.

    Entretanto, na cidade descrita no livro, a diferença social era pouco sentida, afinal os antigos grupos escolares e os ginásios, que correspondem hoje ao ciclo fundamental e ao ensino médio, eram os espaços de educação e socialização a que todos tinham acesso. Os hospitais e centros de saúde, também públicos, atendiam igualmente aos   ricos, aos pobres e à pequena classe média da cidade. Assim, a diferenciação social era de fato menos intensa.

    Já as cidades brasileiras do século XXI, mesmo as menores, como várias do Espírito Santo, estão contaminadas por um novo espírito dos tempos: o da acentuada divisão das várias camadas sociais que as compõem. A bola que os meninos jogavam na rua praticamente desapareceu, substituída por esportes mais sofisticados praticados em espaços mais exclusivos, aos quais só tem acesso quem tem dinheiro.

    A isso tudo se adiciona o caráter de ostentação que os ricos ou os quase ricos ganharam no Brasil. A cultura da ostentação está visceralmente ligada ao universo das celebridades que marcam o nosso cotidiano atual. Na verdade, as redes sociais tornaram-se um novo ambiente de socialização de meninas e meninos, que os remete ainda a um outro ambiente, o digital. Isso os afasta de qualquer cotidiano que leve o território em conta. Assim, o mundo descrito por Rubem Braga em Cachoeiro, que era o mundo urbano do início do século XX, foi atropelado pela modernidade digital, das ostentações e do mundo privado que só o dinheiro pode comprar.

    Em uma análise mais sociológica, a identidade que as cidades nos davam foi ficando cada vez menos importante, até porque elas foram ficando cada vez mais parecias umas com as outras. As diferentes camadas sociais que as constroem foram se afastando no cotidiano da vida. As compras on line, que marcam a vida pós pandemia, também diminuíram a importância dos comércios locais. A territorialidade cultural está sendo invadida por um outro fenômeno na sociedade, mas isso é história para uma nova coluna.

    Fica da leitura de Rubem Braga, de seu texto leve e saboroso, a ideia de um outro Brasil, mais suave, mais delicado, que a modernidade está se encarregando de matar.

  • O parlamento dos invisíveis

    O grande historiador e sociólogo francês Pierre Rosanvallon – diretor de estudos na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris e conferencista no Collège de France –  é autor de dezenas de livros da maior importância no campo das ciências sociais. É dele um pequeno livro que me parece particularmente importante nesse momento: O Parlamento dos Invisíveis, que foi publicado originalmente em francês em 2014, cuja primeira edição brasileira é de 2017.

    O texto do sociólogo contém uma proposta muito interessante: fazer avançar a democracia, partindo do princípio de que é preciso dar voz ao cidadão comum. Argumenta que é necessário ter uma rede de informações digital que capte o sentimento de todos sobre a vida social, revitalizando o fazer democrático e construindo plataformas com o vigor de um sistema baseado em múltiplos relatos, que seriam como livros de menor tamanho.

    O princípio geral em que se baseia o autor é o de que as instituições responsáveis por dar voz ao povo estão em baixa. Ele inclui aí os sindicatos, a imprensa tradicional, os partidos políticos e todos os chamados espaços de socialização das atividades políticas. Esses espaços encolheram muito, segundo Rosavallon, que propõe então seu ingresso na arena digital para facilitar sua operação no mundo de hoje, até porque as plataformas digitais favorecem o diálogo e a troca. 

    Chamou minha atenção a valorização da encenação dos relatos da literatura através dos tempos na análise do grande pensador. Afinal, tenho enorme interesse na forma de expressão que a literatura faz de uma certa sociologia do cotidiano, como sabem os que vêm acompanhando os meus artigos. A literatura, para Rosanvallon, torna mais sensível o mundo, ao exprimir sem falsas aparências as indeterminações e a complexidade dos sentimentos morais. Ele registra que o romance foi por muito tempo o gênero que se mostrava o mais poroso às diferentes modalidades de conhecimento do homem e da sociedade.

    Balzac, Hugo, Flaubert e Zola, para ele, exploraram o íntimo e o coletivo, superando o registro entre ficção e pensamento. O projeto de Rosanvallon chamado Contar a Vida pretende retomar esse viés de conhecimento pela escrita, pela investigação, pelo testemunho. A proposta pretende romper todas as hierarquias de gênero ou estilos em um site que agregue todas as contribuições de vastos setores sociais, hoje invisíveis porque impossibilitados de se expressarem. 

    O site raconterlavie.fr, que está no ar na França há alguns anos, pretende, com essa visão, ter uma dimensão comunitária, sendo produtor de laços sociais, tanto pela dinâmica de intercompreensão e de curiosidade pelo outro, que lhe serve de base, quanto pelas trocas e formas de ajuda que favorece. Alcança, assim, uma dupla dimensão: local e de laços, permitindo desenvolver as virtualidades democráticas da internet e ao mesmo tempo recuar seus usos estreitos e desconstrutivos. Desse modo, faz sua contribuição ao desenvolvimento das redes sociais de essência cidadã.

    São pequenas obras que se concentram essencialmente na exploração de três conjuntos: 1. os relatos e trajetórias de vida, mesclando perfis e histórias singulares; 2. os lugares de produção ou expressão do social, que podem ser espaços exemplares de um novo modo de vida, lugares reveladores de uma crise social, de fluxo ou ainda lugares de trabalho, e 3. os romances de vida, aqueles que resultam de uma guinada, como o fim dos estudos, uma separação, um acidente ou a perda de um emprego. 

    A ideia é compreender a sociedade a partir de suas zonas de ambiguidade ou de inflexão e ainda as dinâmicas singulares que refazem a trajetória dos indivíduos. Tudo apreendido através de histórias singulares, mostrando essa maneira de lidar com a diversidade, a superação de elementos como o racismo, o machismo e todas as formas de preconceito que ameaçam uma sociedade igualitária e democrática.

    Fiquei encantado com a ideia de discutir na nossa sociedade essa espécie de Parlamento dos Invisíveis, que, apoiando-se em um futuro site Contar a Vida, poderá incluir outras ferramentas, como as de imagem e som, além de criar um espaço para discutir as obras. A ideia é ter um espaço virtual de edição de todos os relatos de vida e as discussões e comentários produzidos pelo conjunto dos usuários. 

    Nós precisamos criar espaços abertos, democráticos e livres, onde as individualidades invisíveis possam se expressar e fazer avançar espaços de construção de novas identidades, como contraponto e superação dos permanentes ataques a um projeto de sociedade ancorado na igualdade.

  • O personagem inesperado

    José Coelho dos Santos, médico negro formado em 1887, tornou-se vice-presidente do Espírito Santo em 1908 após trajetória como deputado constituinte, juiz e líder maçom, desafiando estruturas racistas do pós-abolição.

    O pensador alemão Max Weber afirmou em seus escritos que “A história é o lugar do milagre”. De fato, muito do que ocorre na vida das sociedades só se explica mesmo por algo milagroso. É a surpresa, o inesperado que muitas vezes nos atropela. Essa frase me veio à mente quando comecei a estudar a vida de um dos mais notáveis – e desconhecidos – políticos capixabas.

    A pesquisa começou quando a professora e historiadora Adriana Campos me pediu para estudar os coronéis que foram deputados em nossa assembleia legislativa na Primeira República, entre 1889 e 1930. É um trabalho que estamos fazendo junto a uma equipe que tem outros nomes, no contexto da comemoração dos 190 anos da Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Ela é a organizadora de um livro que trata do evento comemorativo, e por sua solicitação comecei a analisar a história política do Dr. José Coelho dos Santos, que foi deputado constituinte em 1892, no início da nossa era republicana.

    O Dr. Coelho dos Santos foi um típico político dos novos tempos que a república trouxe: positivista, maçom, abolicionista, republicano. Na lógica dos grupos políticos locais foi membro da corrente ligada à liderança de Muniz Freire, presidente do Espírito Santo de 1892 a 1896 e, depois, de 1900 a 1904. Os Munizistas foram responsáveis por uma nova pauta no desenvolvimento regional. Eram muito ligados à ideia do progresso, do avanço da ciência e dos processos de instalação de uma sociedade voltada para o que significava o sucesso material, a educação, o urbanismo, a saúde pública, ideias para o Brasil que estava saindo do sistema escravocrata.

    O mais admirável, o que o faz um milagre em nossa história política é um outro elemento da sua história: Dr. José Coelho dos Santos era preto.  Médico formado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1887, em pleno período do escravagismo, portanto. Certamente não era membro de uma família pobre. Nascido em 1862 em São Pedro de Itabapoana, no Sul do Espírito Santo, era filho de um casal de negros. O  pai – artesão, pedreiro e carpinteiro – conseguiu pela força do seu esforço comprar uma propriedade e educar o filho em boas instituições da região, inclusive em Campos.

    Por sua sólida formação educacional foi aceito em uma faculdade na Corte e lá concluiu a sua graduação, com uma tese de doutoramento sobre Paralisias Periféricas. Sim, doutoramento. Naquela época os médicos eram chamados de doutores porque precisavam apresentar e defender teses de doutorado. A do Dr. Coelho dos Santos  tem 123 páginas e contém o que havia de mais moderno em seu campo de estudos no fim do século XIX. Ele foi, de fato, um homem da ciência.

    Apesar de não estar situado nos setores sociais menos favorecidos, tinha contra si toda uma construção racista que perseguia os de sua origem. Não é difícil imaginar os preconceitos que teve que superar em sua trajetória estudantil e profissional para se  tornar médico e exercer sua profissão em um mundo onde os de sua origem andavam descalços, exerciam em sua maior parte atividades simples e manuais, sendo a maioria analfabetos. Aos escravizados não havia o direito à educação, às consultas médicas, não estavam incluídos em nenhuma política pública. Os bem-nascidos os viam com maus olhos.

    Ainda assim, o Dr. Coelho dos Santos concluiu o seu curso superior e voltou para clinicar na sua vila de origem, onde fez carreira como médico e cirurgião. Além disso, por sua formação, exerceu os cargos que correspondem hoje ao de vereador e de prefeito municipal por várias legislaturas. Foi eleito deputado constituinte em 1892 e  por mais duas vezes deputado estadual. Foi ainda juiz de direito, delegado local da Saúde Pública, articulista e dono de jornal, além de major cirurgião da Guarda Nacional.

    Por fim, terminou sua carreira política como vice-presidente do estado no mandato de Jerônimo Monteiro, eleito em 1908. Uma trajetória de muito sucesso para qualquer  cidadão de seu tempo, e ainda mais para um ser humano que certamente não havia nascido predestinado a ter essa trajetória. Seguramente foi um ser humano excepcional.

    A partir de 1910 mudou-se para Campos, onde passou a exercer a medicina. Lá também fez carreira de sucesso e prestígio, tendo sido venerável da maior loja maçônica daquela região em seu tempo. Para terminar, volto ao início: a história é o lugar do milagre, mas só para os fortes, só para os que acreditam em si e na força do destino. Homens como esse certamente merecem ser mais conhecidos e admirados.

  • Pablo Rosa

    Pablo Rosa desvenda o crescimento de extrema direita e machosfera, expondo como redes sociais e gurus como Olavo de Carvalho.

    Conheço há alguns anos o notável pesquisador e professor universitário Pablo Ornelas Rosa. Ele é um dos grandes estudiosos, no nosso país, do fenômeno do crescimento da extrema direita como forma de pensamento político. Nesse campo, a amplitude do pensamento conservador está muito presente. De um espaço praticamente inexistente no Brasil, marchamos para teorias feitas por uma legião de novos formuladores que se expressam sobretudo nas redes sociais e têm milhões de seguidores. Esse talvez seja o fenômeno político mais surpreendente dessas primeiras décadas do século XXI.

    Pablo dedica-se a estudar aquele que talvez tenha inaugurado de forma mais clara esse campo: Olavo de Carvalho. Ele lê e analisa de forma muito pertinente a força do pensamento do grande mago da direita brasileira. Tem inclusive um bom livro publicado sobre o site Brasil Paralelo e a grande influência de Olavo de Carvalho no universo digital. São imensas as influências do site Brasil Paralelo, que atua através de uma rede de sites, blogs e página nas várias redes sociais, em todo o campo do pensamento conservador brasileiro.

    Na verdade, Olavo de Carvalho, seus cursos e seguidores inventaram a nova direita brasileira. Até seu surgimento o que tínhamos eram políticos tradicionais, em especial presos a um pensamento mais religioso, próximos a um catolicismo tradicional. Esse novo polo de pensamento brasileiro se articulou com o crescente movimento evangélico e criou uma nova narrativa moral. Os temas não se diferenciam dos católicos mais tradicionais: aborto, fidelidade nos casamentos, cruzada moral contra o casamento gay e outros assuntos que valorizam o papel da família tradicional. De novidade há apenas a intensidade do discurso.

    Aprendi com Pablo, e com a leitura de seus livros e artigos, que muito do que se lê nas redes sociais da direita tem como origem o pensamento de Olavo de Carvalho, em especial através das postagens de seus discípulos e alunos como Eduardo Bolsonaro. Esse mecanismo multiplicador o transformou no maior guru da direita brasileira.  Creio mesmo que a articulação feita pela família Bolsonaro entre evangélicos e a nova direita apoiou-se quase totalmente sobre a base conceitual criada por Olavo de Carvalho.

    O professor Pablo é um sociólogo nascido em Porto Alegre e realizou seu doutorado na PUC de São Paulo. Concluiu mais de uma pesquisa de pós-doutorado, sendo uma delas na UFES, a qual resultou na publicação do livro Fascismo Tropical: uma cibercartografia das novíssimas direitas brasileiras. Sua produção científica é ampla, diversificada e de alto nível, sendo em sua maioria dedicada ao novo fenômeno político brasileiro do início do século XXI. Seguramente, Pablo é uma das maiores autoridades brasileiras na sociologia política da nova direita.

    Ele agora iniciou um novo doutorado na UFES na área da psicologia social, tendo como campo de pesquisa questões envolvendo as relações de gênero e sexualidade, assim como tentativas de reconstrução de certa masculinidade tradicional supostamente perdida, segundo o ideal dos jovens conservadores que se reconhecem como red pill,  em flagrante crise com o advento da modernidade. O novo trabalho está dentro de sua agenda de pesquisas mais ampla intitulada Tecnopolíticas e governabilidades à direita: uma cartografia dos discursos conservadores nas plataformas digitais.

    Tudo isso me parece assustador: é o crescimento expressivo da chamada “machosfera”, que dissemina conteúdos misóginos nas redes sociais. Publicam vídeos com narrativas masculinas que disseminam teorias conspiratórias prejudiciais à igualdade de gênero e que incentivam comportamentos nocivos contra as mulheres, ainda que disfarçados de estratégias de valorização dos homens. É misoginia brava, é uma cruzada para desmoralizar o universo feminino. É nesse caldo de cultura machista  que acontecem histórias como as presentes na série Adolescência, sobre a qual escrevi há algumas semanas.

    Enfim, estudiosos como Pablo Rosas nos mostram a extensão dos perigos de redes sociais sem controle por parte do estado e da sociedade. Há hoje um esforço enorme para anular as conquistas de homens e mulheres que vêm acontecendo há décadas.  A busca repugnante pelo retorno do machismo certamente vai afetar toda a geração que   está agora sendo apresentada a essa barbárie contra mulheres e gays.

    Provavelmente teremos uma futura geração ainda mais machista e reacionária. A sociedade brasileira precisa se organizar para fazer frente aos novos tempos, que podem ser sombrios, e o quanto antes colocar rédeas no discurso machista que corre solto nas redes. É preciso ler Pablo Rosas para perceber, como ele próprio, que esse “é um assunto assustador pela capilarização que passou a abarcar, principalmente em relação aos jovens e adolescentes”.

  • Para que serve a literatura? Ou Reinaldo Santos Neves

    Reinaldo Santos Neves retrata, com maestria, as contradições e evoluções da sociedade capixaba em narrativas que desafiam o tempo e os costumes.

    É óbvio que essa questão pode comportar várias respostas, mas, por certo, também é difícil encontrar uma resposta absolutamente funcional: como linguagem artística a literatura tem na vida humana um papel que cada um dimensiona no seu universo  subjetivo. Para mim a literatura, por exemplo, é vida: uma forma de eu me abstrair do mundo pequeno a que estamos invariavelmente sujeitos e mergulhar em sentimentos e emoções.

    Tenho usado a literatura, entretanto,  de uma outra forma, para estudar a vida social, para compreender como se configura o cotidiano de uma sociedade em determinado momento. Em A Invenção do Coronel, livro originado da minha tese de doutorado em sociologia política, retirei de obras literárias muitos elementos para explicar o coronel, ícone portador de violência e progresso, na sociedade brasileira do início do século XX. Podemos observar esses elementos tanto em Mundinho Falcão, personagem de Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, quanto no Dr. Rodrigo Cambará, de Érico Verissimo, em O Tempo e o Vento. Mais recentemente tenho estudado autores capixabas para compreender o nosso cotidiano e as raízes de nossa construção imaginária.

    Foi assim que, nos últimos meses, li mais atentamente Renato Pacheco, Getúlio Neves, Pedro Nunes, Luiz Guilherme Santos Neves, Adilson Vilaça e Ezequiel Ronchi Neto, todos grandes autores capixabas. Fiz apontamentos sobre as leituras – publiquei inclusive alguns neste espaço e no meu blog – para escrever um livro sobre as raízes do imaginário capixaba a partir da nossa literatura. Até avancei nesses artigos sobre a fofoca e a violência como duas marcas históricas de nossa sociedade.

    Agora comecei a ler, com a mesma finalidade, a extraordinária produção literária de Reinaldo Santos Neves. O primeiro passo foi analisar a trilogia Graciano, que é como o próprio autor denomina os três livros: Poema Graciano, As Mãos no Fogo: o romance Graciano e a Ceia Dominicana: Romance Neolatino. São obras que tratam das aventuras de Graciano Daemon, o personagem principal de todos eles, no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980. O Romance Graciano se passa na ilha de Vitória, já Ceia Dominicana é uma aventura rápida, rica e cheia de emoções, que se passa na vila de Manguinhos, em apenas três dias. É uma continuação do Romance Graciano e um desdobramento de um casamento fracassado. A Ceia se passa quando deveria se passar a lua de mel do personagem.

    Eles são uma extraordinária radiografia da moral provinciana de nossas elites, já que o circuito social dos romances é todo o das classes mais próximas ao poder regional. A família do protagonista da série é descendente de um antigo governador de nosso estado. Um irmão seu disputa o cargo de reitor da Ufes no Romance Graciano, enquanto ele próprio foi nomeado professor da mesma universidade no departamento de letras e só não iniciou as aulas porque recebeu grossa herança e foi viver sua vida.

    Graciano é obcecado por “cabaços”, como ele próprio relata inúmeras vezes, e tem até  mesmo um episódio pouco edificante com uma sobrinha adolescente, história que depois vem a público de forma vergonhosa para ele. Abandonara a noiva na noite de núpcias porque não era mais virgem, porém ele mesmo tinha rompido com a virgindade dessa jovem e desamparada sobrinha. Enfim, uma confusão de procedimentos dentro de um código moral machista tóxico. Ler Reinaldo nos deixa bem próximos desses tempos de grandes mudanças em nosso país. Os militares se despediam do poder, a democracia impunha o fim de tradições ultrapassadas e o velho machão corria riscos.

    Com relação a outras obras do autor, Suely ainda o traz preso a critérios rigorosos em seus personagens, sendo ele próprio o protagonista do livro. O mesmo se dá em Muito Soneto Para Nada. São obras que mostram como funciona o mundo intelectual do Espírito Santo no mesmo período, com as mesmas formas de expressão do amor masculino. Entretanto, em Kitty aos 22: divertimento Reinaldo já mostra uma família de classe média alta de Vitória, moradora da Mata da Praia, habitando outra realidade. O pai é separado da família mas lhe garante um alto padrão de vida, enquanto vive seu novo casamento com um homem em Buenos Aires.

    Kitty é totalmente liberada e vive sua sexualidade em completa liberdade, mostrando o salto moral de procedimentos que a ilha viveu em pouco mais de 20 anos, ingressando sem dó no mundo das drogas, do sexo e do rock, que é o estilo musical preferido de Kitty. Um livro extraordinário, que mostra como a literatura diverte, informa e nos faz refletir sobre a essência de tudo. O Espírito Santo precisa conhecer melhor os seus grandes escritores, entre eles Reinaldo Santo Neves, um autor maior e que nos ajuda a entender o que somos como sociedade.

  • A política como espetáculo

    A política como espetáculo migrou do rádio e cinema para as redes sociais, onde gestos teatrais e narrativas simplistas dominam a comunicação pública

    Desde pelo menos os anos 1980, sociólogos franceses como Alain Touraine e Michel Mafessoli trabalham a ideia de que na época em que vivemos – que desde então Mafessoli chama de pós-modernidade – estamos imersos na sociedade do espetáculo, fato que é hoje muito fácil de ser verificado.

    Já nos anos 1960, o filósofo Guy Debord falava do mesmo tema. Todos esses autores têm uma abordagem bastante crítica quanto ao conteúdo que vai sendo substituído pela forma, tornando-nos cada vez mais superficiais como sociedades. Mais do que isso, só quem consegue caminhar pelas superfícies consegue se comunicar com esse mundo cada vez mais raso, onde o aprofundar-se resta inútil.

    Na verdade, podemos ver os sinais dessa política espetáculo no alvorecer do século XX na Alemanha de Hitler, que foi o primeiro líder a utilizar de forma massiva e organizada os modernos instrumentos da comunicação à época, como o rádio. Há mesmo um cinema nazista, elemento mais do que importante na campanha de doutrinação ideológica que construiu o Terceiro Reich. Nele se destacam obras como O Triunfo da Verdade, de Leni Riefentahl, pura propaganda do regime.

    Por falar em cinema, o documentário Hitler, uma carreira é uma obra importantíssima sobre a imagem pública do dirigente nazista, feito com a colaboração do historiador Joachim Fest, seu biógrafo, com trechos de discursos e dos noticiários cinematográficos da época. Fica muito claro, no filme, como foi construída com detalhes a narrativa que conquistaria não apenas os alemães, mas também boa parte da opinião pública europeia. Foi ela que permitiu o crescimento de uma extrema direita que chegou ao poder em muitos países como Portugal, Espanha e Itália, criando uma legião de colaboradores em outros países com a França, possibilitando a expansão do nazismo. O requinte de detalhes de Hitler, uma carreira permite muito bem compreender porque podemos dizer que o marketing político moderno começa na Alemanha dos anos 1930.

    Tudo isso embasa a premissa de que os expedientes para transformar a conquista do poder em um espetáculo e desse modo despolitizar a política não surgiram recentemente, como pode ser pensado; na verdade, eles vieram de épocas pretéritas. No fundo é uma espécie de aggiornamento das práticas de conquista do voto, de expansão das doutrinas ideológicas, de determinado partido ou grupo político, possibilitado pela tecnologia, que foi se transformando. Mesmo países como o Brasil da Era Vargas utilizaram o rádio e inclusive o cinema, em larga escala, para construir uma vasta aceitação popular de seus dirigentes.

    Quando a sociologia política começou a tratar da política espetáculo, ela era praticada com vasto apoio da televisão, o meio de comunicação que ganhou o mundo a partir do fim da segunda guerra, ampliando o papel dos velhos palanques das eleições. A televisão brasileira começa logo no início dos anos 1950. Essa ampliação dos palanques deveu-se à capacidade de sedução ampliada pelas tecnologias, sobretudo a das cores. Hoje ela tem uma catapulta gigantesca: as redes sociais.

    Eu diria mesmo que a política migrou para as redes sociais, é ali que as pessoas comuns vão se informar no seu cotidiano. É ali, com inúmeros artifícios tecnológicos, que todos podem ampliar suas capacidades de produzir coisas inusitadas. Mais do que isso, é nas redes sociais que os atores políticos brasileiros passaram a produzir suas carreiras. O maior deles, Jair Bolsonaro, não existiria sem as redes sociais. Por meio delas elegeu-se presidente da república sem partido político, sem tempo de televisão, sem uma rede de políticos importantes.

    Depois aprendeu a sobreviver nessas condições, tanto que, mesmo eleito presidente, usou e abusou de uma estratégia de projetar-se como um homem simples. Sua fala depois da posse foi apoiada em uma mesa improvisada com uma prancha de surfe. Comeu farofa de forma a parecer um brasileiro simples do povo, posou com sandálias quase toscas. Isso todo mundo conhece, porque viu a ópera bufa se desenvolver.

    Estamos vendo hoje o ápice da política espetáculo com o personagem Donald Trump, com seu gestual teatral, com sua foto oficial demoníaca e suas palavras e atitudes chulas, ocupando a mídia o tempo todo, promovendo bizzarices permanente. Parece que com ele chegamos ao máximo de um tempo marcado pela absoluta ausência de conteúdo e socialização de projetos, tanto que ninguém sabe ao certo onde ele quer chegar. É o tempo dos grandes atores e dos grandes espetáculos. Mas uma hora o ciclo acaba, pois, como tudo, também se esgotará sua capacidade de produzir resultados.

  • Adolescência

    Adolescência é uma minissérie britânica de televisão que é hoje um fenômeno mundial de público. Ela gira em torno de um estudante de 13 anos que é preso sob acusação de assassinar uma colega de classe. Como um dos panos de fundo, aborda a radicalização de meninos no universo digital por influência de comunidades masculinas, que propagam ideias como a da superioridade dos homens, defendendo até mesmo o uso da violência.

    Não vou dar spoiler, ser uma espécie de desmancha-prazeres, para os que não viram  ainda a série. Na verdade, quero usar Adolescência para chamar a atenção para uma mudança importante de comportamento nos nossos dias. O mote da série é o bullying digital que se faz entre os alunos de uma escola, numa pequena cidade inglesa. Os alunos, mais do que expor ao ridículo seus colegas de forma presencial, como sempre se fez muito no Brasil, agora fazem isso com maior alcance. Uma perversidade ampliada pela tecnologia, e à disposição de todos, baseada em preconceitos como o machismo.

    Em qualquer rede social isso pode ser feito, desde owhatsapp até facebook ou o instagram, como mostra com muito bem Adolescência. Muita coisa fica protegida por um código de compreensão difícil para quem está fora da bolha. Uma investigação conduzida por quem não entende esses códigos dificilmente pode chegar a bom termo, como bem mostra a série de televisão.

    Isso deve chamar a atenção de todos sobre a necessidade de a sociedade ter essas redes sob controle. Quando setores empresariais que as exploram dizem que querem ampla liberdade de expressão, na verdade estão tentando manter todos esses movimentos, que as fazem o epicentro da vida na sociedade contemporânea, totalmente livres. Um outro filme de muito sucesso recente, o Quarto ao Lado, do festejado diretor espanhol Pedro Almodóvar, mostra como a personagem, que queria tirar sua própria vida, consegue comprar um medicamente proibido na internet, na sua versão conhecida como Dark Web, ou a internet obscura.

    Nesse território opaco pode-se comprar um pouco de tudo, ou aprender a fazer também muita coisa que as pessoas comuns até duvidam, já que os sites ali alojados estão não são indexados pelos mecanismos de busca. Lá estão fóruns privados e redes sociais restritas. Armas, formas de cometer suicídios, receitas para fazer bombas, objetos cuja venda é proibida. De tudo tem um pouco lá.

    Quando os grandes investidores dessas máquinas de negócios gigantesca que é a internet não querem que os seus mundos sejam disciplinados, é porque não querem ter seus lucros reduzidos. Assim, quando as redes conseguem manipular as massas e elas se revoltam contra o sistema legal dos países, há muito mais em jogo do que o direito de xingar livremente qualquer pessoa, sem ter que pagar pelos próprios excessos.

    Não existe a possibilidade de uma sociedade sem leis, nenhum país pode ser governado pela lei do desejo. Os sistemas legais existem para que as pessoas que infrinjam as boas normas de convivência legal sejam punidas, presas se for necessário. Punir é cada vez mais difícil, não é fácil fazer esse controle em uma sociedade globalizada, onde as fronteiras são muito fluidas. Por isso mesmo, nós precisamos de princípios legais que estejam de acordo com as culturas nacionais.

    Há hoje uma luta política em torno da disciplina das redes sociais. Aos que buscam instrumentos para desconstruir o sistema de poder vigente, as redes parecem oferecer uma alternativa de divulgação de notícias e ideias fora do controle da mídia tradicional. Ocorre que as redes sociais não são apenas um substituto dos jornais, do rádio e da televisão na propagação de notícias. São muito mais, são lugares de construção de uma nova ordem de coisas, onde se misturam publicidade, propaganda, meias-verdades e, desde que permitamos, um sem fim de negócios sem regra e sem obediência a ninguém.

    Por isso os donos desses novos espaços de construção social, tão logo começam a operar, tentam descontruir o sistema legal das sociedades – em especial das supremas cortes de cada país – para operarem sem dar conta de nada a ninguém. Adolescência mostra os riscos da falta de ordem de um mundo contemporâneo cujo nascimento estamos presenciando, e da necessidade de manter as redes sociais sob controle.