• REINVENÇÃO  COLETIVA

    João  Gualberto

    Escrevi anteriormente o artigo que chamei de Reinventar-se, publicado aqui mesmo neste espaço. Nele chamei a atenção para, a partir da observação da obra do sociólogo inglês Anthony Giddens, valorizarmos o tempo em que vivemos, afinal nele podemos, pela primeira vez na história da humanidade, planejar nossa própria existência e realizar mudanças em nós mesmos, para alcançar nossos desejos, como nunca antes foi visto. Mudamos de cidade, de país, a cor dos cabelos, as feições e mesmo assumimos nosso gênero, independentemente do sexo biológico. É claro que em determinados países a condição feminina ainda é muito dura para as mulheres, existe forte preconceito com os homossexuais, com as pessoas transgênero e ainda muitos outros elementos que restringem as liberdades individuais, mas os avanços são sensíveis em quase todo o mundo.

    Neste texto quero explorar um outro aspecto da alta modernidade, como a definiu também Giddens: a construção de novos atores coletivos. Por meio desse movimento passou a ser possível a muitos de nós mostrar-nos mais como somos verdadeiramente, e não como sempre aconteceu no mundo antigo. É só pensarmos na rigidez de uma aldeia medieval para materializarmos o que quero dizer. 

    Os atores coletivos contemporâneos a que me refiro são, diferentemente dos indivíduos, grupos sociais até então marginalizados ou tidos mesmo com inferiores pelas forças dominantes. Ao serem discriminadas, até mesmo por meios legais, as pessoas que compunham esses grupos tiveram suas existências massacradas.

    Na sociedade brasileira os indígenas, os povos originários, são um grande exemplo disso. Colonizados, catequisados de forma obrigatória, perderam toda a potência de sua cultura. Darcy Ribeiro em muitos de seus estudos mostra isso claramente. Um povo do qual retiraram a língua, seus costumes, sua cultura, indivíduos que se viram depois transformados no contingente dos mais pobres nos centros urbanos. Mais recentemente começamos a reconhecer toda a sua força e sua ancestralidade. É ainda um processo, temos ainda resistências, mas não resta dúvida de que há também um movimento que nasce desse povo injustiçado e tem adesões sociais importantes para reconhecer sua força, sua potência. Um ator coletivo que a nossa história massacrou e que agora vai ganhando novo espaço social. 

    Os movimentos sociais protagonizados por aqueles que são descendentes de ex escravizados e que buscam reagir aos preconceitos enraizados em nosso meio social  tem crescido em número e conseguido muitas conquistas importantes. O racismo é um dos maiores males de nossas sociedades, mas ele tem sido combatido por muitos, e os movimentos antirracistas têm obtido suas vitórias. Quero, entretanto, me fixar em um ponto: não há dúvida de que esse novo ator social está surgindo no Brasil desde as últimas décadas e protagoniza lutas por direitos e também por reconhecimento social. Quando imaginamos o Brasil dos anos 1950, por exemplo, e o comparamos ao que vemos hoje, não há dúvida de que esse grupo social importante se constituiu em meio a uma sociedade injusta, preconceituosa e desigual. Tudo se deve a seu próprio esforço por superação da situação que nossas elites dominantes criaram.

    Por fim há um outro grupo social, diferente dos dois já citados, mas que também encontrou um novo lugar no mundo, os chamados idosos, terceira idade, os mais velhos, enfim. Antes destinados ao silêncio dos lares e ao convívio restrito dos familiares, agora eles têm a seu favor o incrível avanço da medicina, que aliviou os sintomas de doenças, descobriu novos medicamentos que ampliaram enormemente a expectativa de vida e cirurgias quase milagrosas, se compararmos ao que era vivido há um século. O papel social da população idosa, entretanto, precisa ser melhor pensado. A experiência deve ser aliada ao empreendedorismo jovem para alcançar bons resultados em nossos dias.

    A autoridade que vinha com a experiência perdeu seu valor em nossos dias. As cabeças brancas, agora, têm que mostrar flexibilidade e capacidade de interagir com outros grupos sem imaginar que sua experiência possa resolver, por si só, problemas que são novos e que exigem novos processos, novas formas de comunicação. Talvez esse grupo deva se retirar da ação e caminhar mais para o nível dos aconselhamentos. Viver mais exige novas posturas, mas não há dúvida de que existe um novo sentido para a idade e mesmo esses novos atores sociais no mundo. 

    Enfim, diversos atores coletivos saíram das sombras e vieram viver suas vidas com mais autonomia, alegria e liberdade entre todos. Um dia faremos deste Brasil um lugar de convívio mais fraterno entre grupos sociais tão diversos e ao mesmo tempo tão complementares entre si.

  • Reinventar-se

    Por João Gualberto

    Nos muitos anos em que fui professor do curso de mestrado em administração da Universidade Federal do Espírito Santo estruturei muitas aulas, como também a orientação de dissertações, na vasta obra do sociólogo inglês Anthony Giddens. De modo especial, sempre estive muito atento ao seu conceito de modernidade, sobretudo quando ele o articula ao de autoidentidade. Isso porque nas sociedades tradicionais cada indivíduo tinha um papel social que era basicamente definido por seu lugar na estrutura da sociedade como um todo. Havia pouco lugar para modificações.

    Para pensarmos em alguns exemplos, basta imaginarmos alguém vivendo em uma aldeia medieval europeia e  seu universo existencial. Cada ação sua já estava prevista no código moral de seu meio. Impossível não ser cristão, caso em que ele poderia simplesmente ser queimado pela inquisição. Ademais, sua profissão já estava definida na lógica de sua família. Ninguém mudava de classe social, ninguém poderia romper com a estrutura que já estava colocada desde o dia em que nasceu.

    O mesmo se dava com o ser humano que vivia numa sociedade tribal, onde a mobilidade social nem existia, até porque, sem acumulação de bens, a diferenciação social era quase nula. Com as sociedades atuais tudo isso mudou. O que Giddens chama da alta modernidade, que são também os tempos da globalização, varreram muitas barreiras. Aliás, ele foi um dos primeiros intelectuais que trabalhou com a ideia de globalização e sua relação dialética com o local. Essa desconstrução de barreiras redefiniu as possibilidades de cada um de nós.

    Muitas vezes me espantam as transformações que vejo desde o mundo em que nasci até os tempos atuais. Estou, portanto, falando do meu presente e não de tempos imemoriais. Hoje as pessoas podem muito mais ser o que querem do que há menos de 60 anos. Penso nisso, por exemplo, quando vejo o magnífico mosteiro zen budista que Daiju San construiu no Morro da Vargem, no município de Aracruz. Ele, que nasceu Bitti e filho do prefeito de sua cidade, é hoje uma figura relevante no mundo religioso do qual participa. É um dos monges mais importantes do mundo. Reinventou-se como um novo ser, muito distante da criança que foi e do adulto que estaria fadado a se tornar.

    Não precisamos ir tão longe para expor o meu argumento, basta vermos a quantidade de pessoas que mudaram seus rostos, transformaram seu nariz ou suas orelhas, a cor de seus cabelos ou harmonizaram sua face de forma a transformarem-se em pessoas bem mais próximas de seu ideal de beleza. Tudo isso era impensável até bem recentemente, sem falar em opções mais radicais, como os que mudam para se adaptar a sua própria condição de gênero. Há também homens que se travestem como mulheres e vice-versa. Ou seja, na alta modernidade, qualquer um de nós pode muito mais facilmente transformar-se  na pessoa que deseja ser.

    É a primeira vez na história da humanidade em que essas transformações podem acontecer e cada um de nós pode ser aquele ou aquela que deseja ser. Há hoje, também pela primeira vez, uma espécie de planejamento estratégico de nossa própria existência, de nosso estar no mundo. A possiblidade de nos reinventarmos está, é claro, muito vinculada aos recursos financeiros que temos e ao mundo que nos cerca. Os mais pobres no Brasil, por exemplo, têm mais limitações do que os que me leem, que são em sua imensa maioria dos setores médios da população. Nos nossos setores sociais somos o que quisermos ser. Muitas vezes é preciso coragem, mas viver exige coragem, como muito bem profetizou Guimarães Rosa.

    Para finalizar meus exemplos, cito que os últimos presidentes do Brasil não nasceram em berços aristocráticos e nem são herdeiros de alguma família tradicional no poder. Do mesmo modo podemos mencionar os mais recentes governadores do nosso estado e  prefeitos da capital. Todos são pessoas que acreditaram em si mesmas e inventaram os seus destinos. Nunca antes houve essa possibilidade no mundo, a não ser com uma ou outra exceção. Creio ser esse, de fato, o maior ganho de viver nos tempos em que vivemos, apesar de tanta dor e opressão que ainda restam como marcas do passado distante ou da opressão atual.

  • O PCC e a política brasileira

    Por João Gualberto

    O sociólogo francês Daniel Pecaut  – de quem fui aluno no doutorado na França nos anos 1980 – é especialista na sociologia política latino-americana, e especial um bom analista da política e da sociedade na Colômbia, foco original de seus estudos. Desde a época em que com ele estudei o ouço anunciar os riscos do crescimento da criminalidade no nosso subcontinente, em especial aquela advinda do comércio internacional das drogas, com muito foco na cocaína.

    Aquelas preocupações, algo precoces para a época, se justificavam pelo início do refino às toneladas do produto. A partir da década de 1980 esse refino começou a ser feito em escala industrial pelo cartel de Medellín, sediado naquela cidade colombiana, mas que operava também na Bolívia, Peru, Honduras, Canadá e Estados Unidos, sob a direção mais visível de Pablo Escobar. Na verdade, porém, era formado por milhares de colaboradores.

    Segundo dados que se tornaram públicos, esse cartel, que operou até 1993, chegou a movimentar bilhões de dólares. A quantia parece exorbitante, e é. O negócio das drogas é um dos maiores do mundo e o mercado consumidor não para de crescer, localizado, sobretudo, nos países ricos da Europa e nos Estados Unidos do Norte. Ele também é expressivo em todos os segmentos de maior renda da maior parte dos países do mundo. O combate e as mortes se dão nas periferias, mas o mercado consumidor fica na classe média alta.

    Daniel Pecaut chamava a atenção em seus livros, em todas as suas intervenções públicas e também em sala de aula para o perigo que esse crescimento comercial absurdo portava para toda a sociedade latino-americana. Sua tese sempre foi a de que temos um sistema político ainda frágil e muito marcado pela corrupção. Para ele esse sistema permitiria o ingresso desse mundo do crime na arena política e também nos estratos mais próximos ao poder.

    O mundo do crime se organizou mais recentemente a partir desse fluxo gigantesco de dinheiro. O jornal O Globo trouxe recentemente uma série de reportagens sobre o PCC, que tem mais de 42 mil “agentes”, mil deles no exterior, e é o maior grupo do crime organizado no Brasil. Virou até uma referência internacional no comércio de drogas, segundo fontes como o Ministério Público paulista. Hoje é uma multinacional do crime organizado e eficiente, conquistando parceiros que permitem que opere em 24 países, podendo despachar drogas aos cinco continentes. Seu faturamento estimado é de US$ 1 bilhão por ano. Pelo menos 80% desse faturamento bilionário vem do tráfico internacional de entorpecentes.

    O PCC, segundo as reportagens de O Globo, foi formado em 31 de agosto de 1993, na Casa de Custódia de Taubaté, com o discurso de combater a opressão no sistema prisional e evitar novos massacres como o do Carandiru, ocorrido um ano antes. Naquele tempo, facções estruturadas como as atuais não existiam, eram apenas grupos isolados. Nas últimas duas décadas essa organização apostou as fichas no que viria a se tornar a sua maior fonte de renda. A partir desse fato reforçou sua hegemonia nos presídios paulistas e expandiu seus domínios para todo o território nacional. Sua última e mais ambiciosa investida foi fincar raízes na Europa e estruturar o tráfico para fora do Brasil. Estamos lidando com o que há de mais sofisticado no mundo do crime.

    Voltamos neste ponto às preocupações antigas de Daniel Pecaut, a fragilidade do sistema político de países como o nosso para blindar-se das investidas desses grupos. Para começar, essa montanha de dinheiro vinda do tráfico precisa ser legalizada – “lavar” o dinheiro, como se diz. Precisa migrar para uma atividade legal, como tem sido feito, segundo a imprensa, para setores como o dos transportes coletivos em São Paulo. Há evidências dessa presença em outros setores ligados ao poder. Em estados como o Rio de Janeiro, as organizações do chamado crime organizado já começam a invadir a vida política.

    Creio que não seja alarmismo imaginar que a política brasileira vai ser cada vez mais invadida, daqui para a frente, por esse tipo de atores sociais. Nada nos permite neste momento ser otimistas em relação a isso. Creio, portanto, que a sociedade precisa ficar atenta a essas questões. A extrema direita às vezes é despreparada para as responsabilidades que passou a ter no Brasil. A bancada evangélica também. Quando se pressiona o sistema prisional e o combate ao tráfico de forma simplesmente violenta, como temos feito, corremos o risco de estar expandindo o mundo das organizações criminosas. Elas fatalmente estão aumentando seu poder de corrupção, inclusive na política. O fim disso pode ser muito cruel para todos.

  • Getúlio Neves

    Por João Gualberto

    O Espírito Santo tem um sistema econômico que conversa com o mundo, que tem estatura e reconhecimento. Escrevi alguns artigos sobre o projeto de desenvolvimento industrial de nossas elites entre 1943 e 1974 mostrando a força das nossas ideias, e que nada do que nos aconteceu é obra do acaso. Entretanto, o mesmo não pode ser dito das questões que envolvem outras dimensões sociais capixabas, e aqui não falo de projetos governamentais; refiro-me antes à dimensão da vida na sociedade. Um bom exemplo disso é a nossa literatura, tão pouco conhecida.

    Ando pesquisando sobre como a literatura que fazemos porta uma certa sociologia do cotidiano, mostrando importantes elementos construtores do nosso imaginário social. A última pesquisa tratou de um dos gigantes do nosso pensamento, Renato Pacheco. Evidentemente existem vários excelentes autores, como Bernadete Lira, Francisco Aurélio Ribeiro, Pedro Nunes, Guilherme Santos Neves e muitos outros.

    Hoje, entretanto, quero lembrar de um autor que me parece igualmente importante nos estudos que venho fazendo, autor que deveria ser mais festejado, e talvez não o seja porque falta divulgação de sua obra. Não é por outra razão que autores como Getúlio Neves não têm o conhecimento que merecem entre os capixabas. Seu texto é leve, sua ficção histórica rica. Nos dois livros que analisei no meu trabalho, Memória Repartida e Às Margens do Rio Escuro, o Espírito Santo está sempre presente.

    O diálogo com os autores da terra também. Exemplo forte disso é o fato de o personagem principal de Às Margens do Rio Escuro ter descoberto a leitura de Renato Pacheco e por ela ter se apaixonado. Outro elemento forte é o diálogo com fatos relevantes da história local, como a presença muito marcante do coronelismo entre nós, presente no romance Memória Repartida.

    No caso de Getúlio Neves com Renato Pacheco o diálogo é radical. Ele não apenas cita o mais conhecido livro do grande mestre capixaba, como incorpora mesmo certos elementos de sua narrativa. Em Às Margens do Rio Escuro o narrador torna-se leitor de A Oferta e o Altar, conversa mesmo com alguns dos personagens, com memória dos fatos narrados por Renato que se passaram no fim dos anos 1950. No romance surge como amor do protagonista a neta de uma das principais figuras do livro seminal de Renato.

    O livro de Getúlio aproxima-se ainda da narrativa de outro livro do grande mestre capixaba, Reino não Conquistado, pelo entrelaçamento de filhos e netos presentes em um e no outro. É a sucessão familiar que dá densidade ao argumento que vai sendo apresentado ao leitor para que ele saiba por que o reino, afinal, não foi conquistado.

    Getúlio é um autor maior, seu diálogo tão bonito com Renato Pacheco mostra bem isso. Sua presença na literatura capixaba muito a enriquece. Sua forma de abordar a história local é rica, particular e interessante. Ele trata – tanto quanto Renato Pacheco, por exemplo – do nosso cotidiano.

    De modo particular está em Memória Repartida o provincianismo tardio, sempre presente. As fofocas – sempre elas – premiando a pequenez dos cotidianos das pequenas vilas, das pequenas pessoas. Não é preciso citar Renato Pacheco para estabelecermos o paralelo, a comparação. A futrica impera como forma de controle social, de julgar comportamentos, de afugentar o diferente e o novo. São dois livros deliciosos os de Getúlio, e quem não os leu está perdendo muito. Fica mais fácil entender o nosso estado através das lentes do historiador e romancista Getúlio Neves, arguto observador do que se passa e do que se passou por estas terras.

    Para finalizar, lembro que o autor tem uma série importante de obras ligadas ao seu fazer cotidiano como magistrado, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e doutor em história pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pertence ao coletivo de intelectuais daquela universidade e a um grupo de autores que muito tem valorizado o estudo e o ensino da nossa trajetória histórica, do nosso legado, das experiências ricas do nosso passado, muitas vezes expresso inclusive em tradições da cultura popular, que são tão bem retratadas em À Margem do Rio Escuro.

  • Brasil é a nova Roma

    Por João Gualberto

    Darcy Ribeiro, que foi senador da república pelo Rio de Janeiro, notável antropólogo e autor de obra genial, composta de muitos livros com foco nos elementos que nos constituíram, dizia:  O Brasil é a nova Roma. Com isso queria dizer que assim como Roma foi a síntese do mundo antigo, nós somos também uma espécie de síntese dos tempos em que vivemos.

    Quando digo “tempos em que vivemos”, estou querendo, sobretudo, dizer o somatório de fatos históricos que produziu uma sociedade tão especial nos trópicos como a nossa. Lembro, por exemplo, dos fartos quintais que havia nas cidades do interior na minha infância e da extraordinária quantidade de árvores frutíferas que tinham e que para aqui foram trazidas pelos europeus ao longo dos séculos. Abacate, caqui, coco, limão, manga, mamão, melancia, jaca e mexerica estão entre elas. Os velhos pomares brasileiros eram eles mesmos já uma síntese de muito do que havia no mundo. Muitas e muitas vieram da Índia.

    Natural que tivesse sido assim, afinal os agentes da colonização estavam sempre preocupados com a questão da alimentação no Novo Mundo. É provável também que, pelo fato de virem de terras mais frias, onde os frutos típicos dos climas quentes não prosperam, estivessem preocupados em tornarem a vida aqui mais abundantes em alimentos ricos e saborosos, fazendo bom proveito do clima tropical.

    A Nova Roma tem, evidentemente, outros componentes. A riqueza da cultura dos povos indígenas está entre elas. Nossa sociedade é extremamente rica de heranças e legados dos povos originários. O longo processo de europeização que até hoje experimentamos nos impede de reconhecer e louvar o quanto somos tributários das culturas aqui encontradas pelos europeus. Chamo a atenção, no contexto das heranças culturais, a extraordinária utilização das ervas medicinais, assim como os conhecimentos sobre a mata atlântica e tudo o mais que chegou até nós vindos de gente tão sábia.

    Arrancados a força, e com violência, de suas terras os escravizados africanos trouxeram de suas origens a tecnologia que impulsionou nossa agricultura, ou mesmo a exploração do ouro e das pedras preciosas, para ficar em dois exemplos. Eram eles, em grande parte, artesãos habilidosos, mineradores experientes, agricultores afeitos à produção em terras quentes. Muito sabiam de tudo isso, em muitos casos muito mais do que os portugueses, e não haveria o desenvolvimento em direção ao que hoje somos sem a participação do trabalhos dos africanos. Eles que foram tão humilhados, maltratados e explorados em todos os sentidos, formam uma base mais densas do nosso país.

    O século XIX conheceu outro momento de grande participação de outros povos, de outros mundos, na nossa construção nacional. A chegada da imigração italiana, germânica, japonesa e de outros grupos étnicos deu ao nosso caldeirão cultural novos ingredientes. Foram trabalhadores em grande massa para a agricultura, indústria, artesanias, serviços para o mundo urbano de uma forma geral. Junto com os seus saberes do mundo do trabalho vieram novos conhecimentos, como os culinários com as massas italianas. As bebidas que trouxeram, como as cervejas dos alemães, ampliaram a oferta até então centrada na boa e velha cachaça local e os vinhos da metrópole do período colonial. Esses povos, para além de seus trabalhos, enriqueceram de tal forma a nossa cultura em múltiplos aspectos que não seria a mesma sem a suas presenças.

    Por isso, quando Darcy Ribeiro nos lembra de que somos essa síntese histórica dos novos tempos que as navegações trouxeram, não podemos deixar de admirar o nosso povo, e nunca devemos aceitar as teses delirantes das supremacias raciais. Somos produto de um hibridismo cultural extraordinário, da fusão de muitos mundos. A compreensão de tudo isso e tolerância com o diferente deve ser o tom do Brasil e dos brasileiros.

  • Renato Pacheco

    Por João Gualberto

    Nesse ano de 2024 faz vinte que morreu Renato Pacheco. Conheço poucos intelectuais que tenham amado tão intensamente o Espírito Santo quanto ele. Foi juiz de direito, professor, historiador, folclorista, provavelmente o primeiro capixaba com mestrado em sociologia feito na USP do inicio dos anos 1950. Um homem com muitos talentos e atributos. Presidiu o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e fez dele a sua casa. Dirigiu também a Comissão Espírito-Santense de Folclore junto com o seu mestre Guilherme Santos Neves e Rogério Medeiros. Foi ainda membro da Academia Espírito-Santense de Letras. Muitos outros títulos e qualificações teve o Renato Pacheco, um gigante na inteligência capixaba.

    Quero tratar aqui da sua obra literária, fazendo um corte na sua extensa produção intelectual. Retirei de alguns de seus romances, onde acredito que ele faça uma espécie de sociologia do cotidiano capixaba, um argumento que vou expor. Li, particularmente interessado, A Oferta e o Altar, Reino não Conquistado, Pedra Menina e Vilão Farto. Eles são apenas uma pequena fração da extensa obra do professor Renato, mas dão em seu conjunto uma ideia clara da visão que teve da nossa vida social. Mas vou me deter aqui em apenas um deles, onde todo o conjunto já está anunciado.

    Julgo A Oferta e o Altar, publicado pela primeira vez em 1964, um livro seminal sobre o modo de vida capixaba. Analisando – entre outros elementos – a eleição de 1958 no município de Conceição da Barra, que na ficção ganha o nome de Ponta D’Areia, o autor nos faz um retrato do mundinho das pequenas cidades de seu tempo. Um retrato ácido, mas verdadeiro, duro, mas permanente. Creio que muitos daqueles elementos ainda estejam presentes no dia a dia cheio de intrigas e preconceitos que marcam o nosso imaginário social.

    No livro, uma das personagens centrais é Joaninha do Muxá, uma solteirona – como se dizia à época – frustrada, que controla a vida de todos, ou melhor, que organiza a maledicência generalizada do lugar. Falar mal da vida dos outros, controlar a sexualidade alheia é uma espécie de diversão perversa coletiva. Se isso faz mal a alguém, se destrói reputações, se condena pessoas inocentes, melhor ainda. O objetivo é esse mesmo. O fofoqueiro é um destruidor de vidas. Já que a sua vida vale pouco, porque dela nada faz, que, então, se dane o bem-estar coletivo.

    Na narrativa de Renato Pacheco vemos que o novo é perigoso para muitos, e até hoje, e não só nas pequenas localidades. Basta ver a desgraceira que fazem as chamadas fake news nas redes sociais. Na verdade, a intriga ganhou escala nos nossos tempos, mas já estava na alma dos pequenos e mesquinhos desde sempre. O lugar de onde brotam as maldades é o coração das pessoas. Assim pensava Renato Pacheco.

    A Oferta e o Altar também mostra um outro tipo de controle, o da violência. Ela tinha sede sobretudo na tosca polícia local, onde reinavam os que eram nomeados pelo poder político dos grandes coronéis, tanto locais quanto estaduais. A polícia, aliás, estava totalmente aliada ao imaginário coronelista que havia no local, não só do lado dos políticos, mas também dos mais favorecidos, dos privilegiados de uma forma geral.

    Todo o clima político da cidade girava em torno de uma política miúda em que afetos e amigos, de uma forma geral, eram divididos pelo alinhamento partidário. Mais uma vez vemos em A Oferta e o Altar a gênese dos nossos exageros nas definições partidárias. As paixões já comandavam o dia a dia da política, tudo era enquadrado a partir disso. Nos dias que correm temos a exacerbação desse padrão de comportamento. Esses exageros se alimentam de um imaginário instituído na nossa política pelo coronelismo, origem e razão invisível de muitas coisas que ocorrem nos dias atuais.

    Mas não é a análise sociológica o único mérito do grande mestre Renato Pacheco. Seu texto é limpo e direto. Seu livro, uma leitura deliciosa, cheio de situações que lembram a todos nós, tendo ou não morado em pequenas cidades brasileiras, fatos conhecidos, muito conhecidos.

    Não apenas o texto do grande mestre é uma alfinetada no nosso provincianismo – alfinetada que lhe custou o título de persona non grata no município de Conceição da Barra, mas também toda a sua extensa obra contém esse manifesto contra o jeito pequeno de fazer as coisas. Sua forma fecunda de desconstruir os entraves ao desenvolvimento pleno de nossas capacidades culturais. Foi com essa visão abrangente que participou da nossa vida cultural, deixando ricas reflexões que continuam sólidas mais de sessenta anos depois.

  • 23 de maio

    Por João Gualberto

    Como muito bem sabem os capixabas, no dia 23 de maio comemoramos a data que ficou conhecida como a Colonização do Solo Espírito-Santense. Ela diz respeito ao dia em que Vasco Fernandes Coutinho e um grupo de 60 homens desembarcaram na Capitania. Estavam a bordo da Caravela Glória. O Capitão-Mor havia recebido do Rei de Portugal, Dom João III, uma Carta de Doação e outros documentos dando plenos poderes para iniciar o processo da construção política e econômica do seu lote como uma parte da colônia vinculada ao Império Lusitano. Iniciava-se, assim, a nossa colonização como empreendimento fidalgo.

    O nosso donatário não era membro das cortes e muito menos um homem de grande cabedal. Era um fidalgo de província, um digno representante da pequena nobreza do reino. Tinha se destacado pelos seus serviços ao rei na expansão lusitana para as Índias. Participou de lutas importantes, em especial em Goa, contribuindo com bravura na consolidação dos planos estratégicos das elites portuguesas daquela época.

    O empreendimento fidalgo comandado na nossa Capitania por Vasco Fernandes Coutinho tinha um caráter muito claro de consolidação da fé católica no Novo Mundo. O cristianismo estava na origem de tudo, tanto que o Tratado de Tordesilhas que havia distribuído o Novo Mundo, ou seja, o continente americano, entre espanhóis e portugueses, era obra do Vaticano. Obra jamais aceita por ingleses, franceses e holandeses que passaram os séculos seguintes a tentar participar, mesmo pela força das armas e das invasões, das riquezas extraídas da América.

    O catolicismo fez parte do empreendimento fidalgo que depois foi aprofundado pelo caráter mais disciplinado e sistemático do jesuítico. Mas, fiquemos no que aconteceu no nosso território depois que os agentes da colonização aqui chegaram no dia 23 de maio de 1535. Eles eram poucos e tinham um espaço territorial enorme para conquistar. Queriam descobrir ouro e pedras preciosas. No nosso caso, havia a ideia de encontrar uma montanha de esmeraldas no Vale do Rio Doce. Muitas foram as entradas e expedições que avançaram pelo interior em busca dessas riquezas.

    Foram erguidos muitos templos para celebrar e expandir entre os povos originários a fé dos colonizadores. Ainda hoje temos como legado daqueles tempos a Igreja do Rosário e o Convento da Penha, em Vila Velha, e a Capela de Santa Luzia, na cidade alta. Edificações como o Forte de Piratininga, em Vila Velha ainda estão lá para mostrar a preocupação dos primeiros colonizadores com a segurança da Capitania. O passar dos séculos mostrou que, com base nos conceitos de ímpios e gentios, a fé católica se impôs, não sem violência.

    No século XVI, o que possibilitou a riqueza foi o cultivo da cana de açúcar e todas as atividades existentes na sua cadeia produtiva, com a utilização do trabalho indígena. Forçado, escravizado ou cristianizado eles foram sendo incorporados ao processo social comandado pelos agentes da colonização. Os portugueses raramente traziam suas esposas, e assim, as indígenas foram sendo, por muitos processos, nem todos aceitáveis, as mães desse Espírito Santo que nascia. Somos muito mais indígenas em hábitos culturais, culinários, linguísticos, do que a nossa história tradicional mostra. Na sequência histórica temos a incorporação dos africanos escravizados na Capitania como força de trabalho também forçado. Esse é o início da construção do nosso estado, da nossa cultura e da nossa identidade.

    Em razão da complexidade de todo esse longo processo de encontro de mundos diferentes, sob a direção com mão forte dos europeus, não podemos comemorar o 23 de maio de forma unilateral, festejando a chegada dos colonizadores portadores do progresso e das vantagens da civilização. Até porque, os agentes da colonização também foram, entre muitas outras coisas, os responsáveis pela introdução do trabalho escravizado. Havia os negros da terra, os indígenas, e os negros da África. Eram todos submetidos a uma tirania que lhes roubou a autonomia e a liberdade.

    Por outro lado, há um bom debate feito por professores da rede pública em Vila Velha, sobre a vitória que os indígenas obtiveram em muitas batalhas, sobre o seu protagonismo, afinal vencerem três grandes generais portugueses: Jorge de Menezes, Simão de Castelo Branco e Fernão de Sá. Esse último morreu na famosa batalha do Cricaré. Foi um encontro violento de culturas.

    Temos, eu creio, que ter consciência do que estamos de fato comemorando quando falamos em colonização. Sem nos aprofundarmos em todas as faces desse processo histórico estamos sujeitos a dar, à chegada dos colonizadores, um papel mais amplo do que o de iniciar algo que fugiria ao controle deles próprios. Eles não comandaram plenamente o processo que instituíram. Criaram, aqui, um encontro de mundos diferentes, ainda que muito desigual, que depois partiu em busca da sua própria trajetória. Devemos refletir mais nas múltiplas dimensões do mundo que o lusitano criou no Brasil. Usar essa data para pensarmos no que significa, hoje, ser capixaba, ser brasileiro ou brasileira.

  • Poder local no Brasil

    Por João Gualberto

    Tenho me dedicado a estudar e tentar compreender o passado capixaba mais distante, entender nossas origens desde os tempos pré Vasco Fernandes Coutinho. Essa aventura histórica inclui saber o que se passava tanto com os povos originários na futura Capitania do Espírito Santo, quanto nas origens lusitanas da construção de seu império do Novo Mundo, ou seja, a trajetória que resultou nas grandes navegações oceânicas do mundo ibérico.

    As professoras e doutoras em história Adriana Campos e Katia Motta têm sido minhas orientadoras nas leituras necessárias. Delas tenho tido generosas contribuições nesse campo. Entretanto, elas não são responsáveis pelos eventuais deslizes que eu venha a cometer nas interpretações e análises. Dessa orientação veio a leitura recente que fiz do livro A Capitania do Espírito Santo e Seus Engenhos de Açúcar (1535-1700): A Presença dos Cristãos-novos de José Gonçalves Salvador, renomado estudioso de nossa trajetória histórica. É um livro excepcional por seu conteúdo. Embora não contenha muitas páginas é de uma riqueza absoluta em informações preciosas.

    O livro traça o perfil do início do nosso processo de construção como sociedade, e aborda o povoamento da capitania, as nossas primeiras etapas da organização político-administrativa, a economia colonial. O conjunto do trabalho é uma leitura que dá informações importantes para compreendermos os pilares do processo de construção da nossa identidade regional.

    Entretanto, meu objetivo primeiro foi entender a construção do poder local no Espírito Santo, ou seja, como as comunidades coloniais organizaram o processo de governança no Brasil e no Espírito Santo. Mais do que isso, como espaços territoriais tão distantes da Corte puderam sobreviver e construir autonomias e manter comunidades coesas.

    A resposta Golçaves Salvador nos dá: foram as câmaras municipais. É dele a transcrição abaixo:

    Importa lembrar que as Câmaras Municipais desempenharam funções de suma valia na vida das Capitanias desde a instalação do regime. Onde quer que houvesse um núcleo de povoamento, dali os moradores organizavam sem demora a entidade. Tratava-se de velha tradição entre os portugueses que davam o título de “Conselhos”. Eram representações de cada comunidade. Constituíam a voz dos habitantes locais, dos quais também recebiam autoridade para agir em seu nome, e isto significa que deviam ser pessoas responsáveis, gozar de certos direitos e saberem zelar pelo bem comum.  (op. cit. p. 54).

    As câmaras tinham alcance sobre tudo o que afetasse os moradores de uma cidade. As relações entre si e com a própria câmara. Isso significava declarar guerra aos indígenas, se fosse necessário, e firmar a paz ou estabelecer acordos. Na descrição do autor, assemelhava-se em tudo a uma pequena república. Essas pequenas repúblicas existiram, de fato, até o Brasil monárquico. Era esse o conceito de república naqueles tempos. Era assim que os antigos se referiam a república de São Paulo, de Salvador, de Recife ou de Vitória.

    Certos requisitos eram necessários às pessoas que fossem ocupar os cargos nas Câmaras Municipais. Deveriam morar no próprio local, ser eleito pelos demais moradores e estar disposto à defesa da comuna. O autor nos explica ainda que cada representante da comunidade deveria ser o que um “homem bom”, ou seja, de passado limpo, benquisto e com projeção, ser nobre de caráter, ser descendente de pais e avós nascidos no mesmo local. Havia, entretanto, uma condição muito especial: a limpeza do sangue.

    Por limpeza de sangue entendia-se não ser hebreu, mouro, negro ou de ofício manual. O que de fato se pretendia era uma sociedade dominante sem a presença do que se imaginava ser o sangue impuro, aqueles que não mereciam a herança colonial. Além da exclusão dos povos que eram julgados inferiores ou perigosos, havia o preconceito nesses tempos aos ofícios artesanais, que era extenso. A sociedade que os agentes da colonização desejavam era distante do mundo do trabalho duro. Essa nova sociedade seria governada pela pequena nobreza que ia surgindo na colônia.

    Na verdade, não havia muito como se exigir a tal limpeza apurada de sangue, por isso mesmo ela era pouco exigida, ou mesmo esquecida, sobretudo para os filhos dos portugueses e seus descentes com as indígenas. No entanto, o princípio de uma certa fidalguia da colônia era mantido, embora se organizasse por princípios étnicos mais amplos do que na metrópole. No exercício de suas funções as Câmaras muitas vezes podiam ser superiores, em termos de poder, ao governo da Capitania, desde que fosse fiel aos princípios do reino e do rei. Tinham, então, vasta autonomia local para decidir sobre a vida das comunidades.

    Quando a vida econômica foi adensando tivemos o surgimento dos coronéis, os homens ricos do campo. Mas isso cabe em outro artigo. Neste, quero deixar claro que foram as Câmaras de Vereadores as primeiras instituições políticas do Brasil. Seu poder era extenso e não teríamos mantido a unidade territorial se elas não existissem. O Poder Local é a base mais extensa do sistema político brasileiro.

  • Violência brasileira

    Por João Gualberto

    Juliana Sabino Simonato, na sua tese de doutoramento em história pela Universidade Federal de Minas Gerais faz profunda reflexão sobre a escravidão no Espírito Santo entre 1580 e 1640, período em que Portugal e Espanha foram administrados por um só rei através dos tempos. Eles foram os Felipes. É um trabalho baseado em muitas e muitas pesquisas, em fontes nem sempre simples de serem encontradas, o que foi produto certamente de dedicação e empenho.

    Em sua obra, a historiadora deixa claro que a escravidão fez parte de toda a lógica de construção do mundo ibérico na América, tanto que as normas que a disciplinaram foram constituídas antes mesmo da prática cotidiana do trabalho cativo em terras brasileiras e capixabas, que é o território do qual Juliana Simonato se ocupa. Escravidão de indígenas e africanos, de negros e de negros da terra, como a estudiosa tão bem descreve.

    A típica sociedade do antigo regime, hierarquizada, elitista, aristocrática, foi transportada para o mundo que o português criou nos trópicos, com o agravante do trabalho forçado dos seres humanos em cativeiro, subjugados, humilhados. O catolicismo medieval praticado pelos agentes da colonização dava densidade ideológica às praticas atrozes que os castigos operavam nos escravizados da colônia.

    Tudo isso não é apenas história. É um legado importante para o imaginário social brasileiro dos dias atuais. Nossa violência policial não nasce de corporações despreparadas. Antes, pelo contrário, é produto de uma história social onde as relações de poder entre pobres e ricos sempre teve a violência, o castigo, a chibata, como panos de fundo. Não creio mesmo que se queira, com essas atitudes policiais de invasão de periferias muito mais do que castigar, punir.

    Não temos no Brasil uma política de segurança. Nossa sociedade como um todo nunca teve um projeto que incluísse questões como educação, saúde, lazer ou cultura como bases para uma ação de redução das prisões, das mortes violentas ou do crescimento das atividades ilícitas no mundo os pobres. Dado ao caráter hierarquizado da sociedade em que temos, a existência de super cidadãos que tudo podem – como tão bem estuda Roberto DaMatta – e a uma maioria que vive à margem desses benefícios da sociedade desigual que construímos no Brasil, os personagens pobres são submetidos a essas humilhações diárias.

    Não será simples superarmos tudo isso, mas todos sabemos que manter a lógica da punição nas periferias não construirá um país melhor. O que estamos assistindo nesse momento, como muito bem registrou Sérgio Denicoli em um de seus últimos artigos em O Estado de São Paulo, é a expansão sem limites dos grupos que organizam o mundo do crime como o PCC, o Comando Vermelho e outros. Eles vão chegando perigosamente à gestão de instituições importantes do mundo público e privado – e não apenas no Rio de Janeiro ou em São Paulo – vão avançando para a esfera política com voracidade.

    Como costumo chamar a atenção em meus escritos, a construção de nosso imaginário social é obra de séculos. Ele legitima ações que são uma ameaça ao presente e ao futuro. Para repensar nossas políticas públicas de segurança precisamos estar atentos à construção de uma cidadania plena, igualitária e que leve em consideração o respeito aos mais desprotegidos. Precisamos superar as heranças desse passado que insiste em estar presente.

  • Élcio Alvares

    Por João Gualberto

    No século XIX o café tornou-se a grande riqueza capixaba. A região Sul do nosso estado foi a que mais se beneficiou do progresso que o produto trouxe. O Vale do Rio Itapemirim transformou-se no local privilegiado da produção cafeeira. Havia também o plantio em outros lugares, mas estava no Sul a maior parte das grandes fazendas. São Pedro de Itabapoana no vale daquele rio, Alegre, Cachoeiro do Itapemirim, Castelo foram municípios que cresceram muito.

    O progresso do café trouxe ferrovias, luz elétrica, estradas, telégrafo e tudo o mais que podia significar melhorias no final do século XIX e inicio do século XX. A cidade polo de todo esse processo foi Cachoeiro de Itapemirim. Ela acabou por tornar-se a cidade mais moderna do nosso estado, a mais importante também. Era a capital econômica do Espírito Santo, muito mais potente do que Vitória, a capital administrativa. Todos os sinais visíveis do progresso estavam lá.

    Com a erradicação abrupta dos cafezais, através de uma política pública socialmente irresponsável, sobretudo a partir dos anos 1960, tivemos o inicio do esvaziamento econômico do Sul. Nesse momento os chamados grandes projetos – sobre os quais tenho escrito ultimamente nessa coluna – começaram a ser a nossa pauta de desenvolvimento. Passaram a ocupar na economia, também no imaginário capixaba, um lugar que fora antes o do café.

    Foi no governo de Arthur Gerhardt, no início dos anos 1970, como já registrei, que essa pauta desenvolvimentista estava claramente colocada na ordem do dia. As inaugurações das plantas industriais da Companhia Siderúrgica de Tubarão, da fábrica da Aracruz Celulose, da Samarco, e a consolidação da importância do Porto de Tubarão transferiram o centro dinâmico da economia capixaba para a região metropolitana de Vitória, que seria a partir daí o local do desenvolvimento. A cabeça das cadeias produtivas do setor metal mecânico que revigoraram a produção de empregos e riquezas tinham se instalado, o progresso tinha mudado de lugar.

    Nesse momento, chegou ao governo estadual o então deputado federal Élcio Alvares. Ele iniciou seu período de gestão em 1975.  Advogado de renome e hábil articulador político, era até então afastado do processo de formulação técnica que levou ao nosso desenvolvimento industrial. Seu governo, entretanto, herdou um estado muito modificado, e ele consolidou em termos de projetos urbanos uma das faces mais relevantes das mudanças, a nossa Região Metropolitana.

    Muitos foram os seus feitos nessa área. Aquele que mais marca os capixabas certamente o início da construção da chamada Terceira Ponte, ligando de forma definitiva Vitória a Vila Velha. A obra foi inaugurada somente na gestão de Max Mauro em 1989. Mas devemos muito dela a Élcio. A ponte mudou a feição das duas cidades. O transporte aquaviário, obra sua, inaugurada ainda no seu governo, também teve um papel importante nessa integração entre as duas cidades. Eu mesmo muito utilizei as barcas nesse período para me descolar de Vila Velha ao centro de Vitória.

    Não menos importante foram os aterros urbanos dando origem as avenidas que ligaram o bairro de Bento Ferreira à Praia de Camburi. A cidade ganhou do mar espaços muito importantes. Essas vias urbanas consolidaram a mudança de importância da zona norte da capital, a partir daí o centro urbano mais importante da capital. Não se esgotam aí a importância dessa visão metropolização da região da Grande Vitória, muitas outras obras tiveram lugar, como a rodoviária, as melhorias no abastecimento de água para os vários municípios, por exemplo. A rodovia do sol, inaugurada naquele período, ligou a região ao principal balneário da classe média da capital: Guarapari.

    Depois dele, até pelo crescimento populacional, tínhamos uma região metropolitana que começou a se pensar de forma integrada. O Instituto Jones dos Santos Neves, principalmente através da formulação do economista Arlindo Villaschi, deu a densidade técnica para essas ações políticas. A BR 101 integrou Cariacica e Serra a Vitória de uma vez por todas. Viva Velha e Vitória se transformaram em região conturbada. As medidas aqui listadas foram muitos oportunas e de fato se inscrevem entre as visões de progresso que marcaram essa geração de capixabas.